“Mulheres são melhores em multitarefas”: você conhece essa lenda urbana?

Atualizado: Set 2

Por Ju Leonel


Era uma vez uma (super) mulher que alegremente era capaz de dividir seu tempo entre cuidar da casa, dos filhos, dos pais, ser bem sucedida profissionalmente, se encontrar regularmente com as amigas, ter as unhas feitas e o cabelo cuidadosamente penteado. Ela estava sempre de bom humor e ainda tinha tempo para fazer trabalho voluntário e deixar a leitura em dia.


Como toda história que começa com "Era uma vez..." essa também não passa de uma fantasia. Ninguém é "capaz" de dar conta de tudo isso sozinha, ninguém é capaz de dividir seu tempo entre tantas coisas e ainda manter a sanidade mental.


Mas as mulheres, diferentemente dos homens, são muito boas em multitarefas (ou multitasking para os mais moderninhos) - você já deve ter ouvido ou mesmo falado isso. Bom, aí está mais uma lenda urbana que se junta ao grupo de "mulheres enxergam melhor a sujeira/bagunça", "mulheres são melhores nos cuidados com os filhos", "mulheres são mais organizadas e detalhistas (por isso são boas para fazer atas de reuniões)", etc. Crescemos, mulheres e homens, ingerindo falsas verdades sobre o que somos/podemos e muitas vezes aceitamos como verdade aquilo que depois vai nos render muitas frustrações, culpas e dissabores com a vida.


Mas o que é ser “multitarefas"?


É a capacidade de realizar várias tarefas independentes em um período de tempo limitado de forma que há uma sobreposição de processos cognitivos para realizá-las. Ou seja, fazer várias coisas que demandam níveis diferentes de atenção ao mesmo tempo. Elas podem ser divididas em multitarefas sequenciais e multitarefas concorrentes. No primeiro caso, diferentes tarefas requerem atenção ao mesmo tempo. Já no segundo, é necessário alternar a atenção entre atividades distintas.


Essa lenda urbana é tão amplamente disseminada que até 80% das pessoas entrevistadas em estudos realizados por pesquisadores na Europa e Estados Unidos acreditam nela. Há até quem possa jurar que trata-se de uma adaptação evolutiva.


Em função dessa "crença", mulheres acabam sendo mais cobradas para que, ao mesmo tempo que cuidam dos filhos, gerenciem a casa e sejam bem sucedidas em suas carreiras profissionais. A sociedade não espera que homens participem de reuniões de trabalho enquanto fazem uma lista mental do que precisa ser comprado para o lanche das crianças, nem esperam que revisem o dever de casa das crianças e respondam e-mail de trabalho concomitantemente. Mas, isso é esperado das mulheres. Consequentemente, isso gera uma carga emocional que resulta em mulheres frustradas por não darem conta de tudo, mesmo tendo esse "dom nato para multitarefas”.


Defender essa lenda dá força à sociedade patriarcal que está sempre em busca de justificativas para exigir cada vez mais das mulheres, ao mesmo tempo que perpetua formas de impedir que elas alcancem o mesmo sucesso que os homens. Por outro lado, isso normatiza que homens se dediquem somente à sua carreira e não precisem se preocupar com afazeres domésticos ou cuidados com os filhos; afinal de contas, segundo essa mesma sociedade patriarcal, os homens são os provedores e para eles basta o trabalho fora de casa. Mesmo em lares onde a renda da mulher também é necessária para o sustento da família, é apenas a elas delegada e cobrada a execução das demais funções (= terceiro turno de atividades).


Em busca de quebrar o estereótipo "mulheres são melhores que os homens em multitarefas", Patricia Hirsh e colaboradoras fizeram um estudo avaliando o desempenho de 48 mulheres e 48 homens realizando tarefas múltiplas (sequenciais e concorrentes). E os resultados mostraram que "ser multitarefas" afeta a velocidade e precisão da realização da atividade tanto para homens como para mulheres, sugerindo que não há diferença substancial na realização de tarefas múltiplas simultaneamente entre mulheres e homens.


O que esse estudo nos mostra?


Que mulheres não são melhores (nem piores) que os homens na execução de tarefas múltiplas simultaneamente e, por isso, não devem ser cobradas para tal. O estudo diz também que isso não deve ser cobrado de ninguém às custas de perder produtividade e qualidade.


Para acabar com alguns vieses de gênero que existem na academia e em outros locais de trabalho, é necessário, como um primeiro passo, desmistificar essa e outras lendas urbanas que circulam por aí.


Quais outras lendas urbanas desse tipo vocês conhecem?

Referências


Hirsch, P., Koch, I., Karbach, J. Putting a stereotype to the test: The case of gender differences in multitasking costs in task-switching and dual-task situations. PLoS ONE, 2019


Strobach T., Woszidlo A. Young and Older Adults' Gender Stereotype in Multitasking. Frontiers in Psychology. 2015; 6


Szameitat A.J., Hamaida Y., Tulley R.S., Saylik R., Otermans P.J.C. “Women are better than men”–Public beliefs on gender differences and other aspects of multitasking. PLoS ONE. 2015

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