Nudibrânquios, os musos do mar

Atualizado: Abr 2

Por Licia Sales (com colaboração de Raquel Saraiva)


O oceano é cheio de animais visualmente encantadores. Um deles, mesmo de tamanho diminuto, se destaca entre as outras beldades marinhas: os nudibrânquios. Estes são moluscos gastrópodes, popularmente chamados também de lesmas marinhas, embora nem toda lesma marinha seja um nudibrânquio. Devido à beleza de sua coloração, algumas pessoas os descrevem como lesmas marinhas psicodélicas, pois suas cores são fortes, variadas e marcantes. Há também quem os chame de "borboletas do mar*", justamente por causa da variedade de cores que eles apresentam. Embora a coloração exuberante seja sua marca registrada, existem espécies com padrões de cor mais discretos também. Uma pena que eles não sejam capazes de ver sua própria beleza. Suas estruturas fotorreceptoras os permitem perceber somente claro e escuro, não sendo capazes de perceber cores ou imagens.


O nudibrânquio Polycera hedgpethi visto de cima, mostrando que eles são bonitos de qualquer ângulo (por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0).


O nome científico do grupo ao qual os nudibrânquios pertencem é Nudibranchia, que significa "brânquias nuas". Esse nome faz referência ao fato desses animais terem seus órgãos respiratórios expostos, pois diferente de boa parte dos outros gastrópodes, os nudibrânquios não possuem concha quando adultos. Porém, a concha está presente quando são “bebês” (na fase larval). Mas os nudibrânquios saem de casa cedo para se aventurar. Após passarem por todas as transformações morfológicas que os tornam indivíduos jovens (parecidos com indivíduos adultos, mas ainda não são sexualmente maduros), eles então abandonam a concha, saindo da mesma já como uma lesminha.

Acima, larva véliger de nudibrânquio, recém-eclodida (por Licia Sales com licença CC BY SA 4.0). Abaixo, Okenia evelinae desovando sobre um briozoário do qual se alimenta; o “cordão de bolinhas” à esquerda da foto é a desova (cada ponto branco se torna, posteriormente, uma larva como a da foto superior) (por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0).


São animais predominantemente marinhos, com distribuição global, ocorrendo desde regiões polares até os trópicos. Habitam desde águas rasas (região entremarés) até o mar profundo. De maneira geral, a maior riqueza e diversidade estão concentradas em águas rasas nos trópicos, principalmente em ambientes recifais. Entretanto, a fauna de mar profundo é ainda pouco conhecida. A maioria das espécies é bem pequena, variando entre 3 mm a 5 cm de comprimento, embora existam exceções, como a “dançarina espanhola”, uma espécie que chega a alcançar 40 cm.


Tamanho não é documento! Felimida clenchi sambando na cara da feiúra (à esquerda e foto superior-direita: por Vinicius Queiroz com licença CC BY SA 4.0; foto inferior à direita: por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0)


Nudibrânquios são adeptos do amor livre. Eles são hermafroditas simultâneos, ou seja, possuem órgãos reprodutores masculinos e femininos simultaneamente funcionais durante a

maior parte de sua vida. Então, basicamente eles podem copular com qualquer indivíduo da mesma espécie com o qual eles encontrem. Em geral eles são bem promíscuos em relação a isso e copulam com diversos parceiros diferentes. Corre aqui, Damares, que tem mais!

Algumas espécies apresentam comportamentos e estratégias de cópula bem bizarros. Há uma espécie que possui o pênis “descartável”. Cerca de 20 minutos após o fim da cópula, o pênis do indivíduo se parte, sendo então perdido. Porém, após cerca de um dia, o indivíduo consegue acasalar novamente. Como? O pênis dele é na verdade 3x mais longo do que o que ele expõe durante uma cópula. Então é como se ele tivesse mais duas “cotas reservas” de pênis dentro do corpo. Depois que os três segmentos são descartados, é possível que o pênis cresça novamente, mas não se sabe quanto tempo isso leva. Existe ainda outra espécie de nudibrânquio que ingere partes específicas do corpo do parceiro durante a cópula.

O nudibrânquio Phidiana lynceus desfilando beleza (acima, foto por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0 ) e em, digamos, um momento íntimo com seu par (abaixo, foto por Lícia Sales com licença CC BY SA 4.0).


Os nudibrânquios desempenham papéis importantes nas cadeias alimentares marinhas, uma vez que geralmente se alimentam de organismos tóxicos que dificilmente são predados por outros animais. Como integrantes do seu cardápio encontram-se esponjas, cnidários, briozoários (um grupo de pequenos invertebrados coloniais), entre outros invertebrados. Porém, costumam ser predadores especializados, com certos grupos de nudibrânquios alimentando-se exclusivamente de esponjas e outros grupos que se alimentam exclusivamente de cnidários, por exemplo. Existem ainda nudibrânquios que se alimentam de outros nudibrânquios ou de desovas destes.


Nudibrânquio (Thecacera pennigera, com bolinhas pretas e amarelas) associado ao briozoário do qual se alimenta (Fotos por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0).


Uma novidade sobre a dieta dos nudibrânquios é que embora eles sempre tenham sido conhecidos por serem carnívoros, mais recentemente, alguns pesquisadores descobriram que existe pelo menos uma espécie microherbívora. Inicialmente acreditava-se que essa espécie predasse briozoários, mas, na verdade, ela se alimenta de algas microscópicas que crescem sobre os briozoários onde ela é geralmente encontrada. Muitas vezes é difícil fazer uma observação direta dos nudibrânquios se alimentando, devido ao seu tamanho comumente diminuto. Então, uma vez que nudibrânquios costumam viver associados ou próximos aos organismos dos quais se alimentam, é comum deduzir que o “substrato” onde o nudibrânquio está, seja também seu alimento. De fato, isso é verdade em muitos casos. Porém, como a descoberta da dieta microherbívora desse nudibrânquio demonstrou, nem sempre isso se aplica. É possível que, futuramente, mais descobertas sejam feitas em relação à dieta desses animais.

O corpo mole e aparentemente desprotegido dos nudibrânquios pode passar a impressão de que eles são pobres criaturas indefesas. Não se engane! Eles possuem diversas estratégias de defesa. A coloração está associada a isso. Algumas espécies adquirem a cor das suas presas, ficando assim camufladas sobre as mesmas. Desse modo, passam despercebidas por predadores. Por outro lado, em espécies que apresentam padrões de cores bastante chamativos, essa coloração pode servir como aviso da toxicidade da espécie, o que é chamado de coloração aposemática. Isso também pode ser utilizado por uma espécie não nociva para mimetizar espécies tóxicas. Em ambos os casos, a coloração chamativa pode servir para desestimular o ataque de potenciais predadores.

Luz na passarela que lá vem ela... Bornella calcarata e sua cor “cheguei”, dando inveja a qualquer Hot Wheels (por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0)


Muitos nudibrânquios são de fato verdadeiras armas químicas! Eles são capazes de incorporar defesas dos invertebrados dos quais se alimentam, e então as utilizam para a sua própria proteção. Por exemplo, o Glaucus atlanticus, que já foi até vítima de fake news, incorpora células urticantes da caravela da qual se alimenta e as armazena no seu corpo para usá-las em sua própria defesa. Outras espécies podem incorporar toxinas de esponjas, briozoários, etc. Algumas espécies de nudibrânquios conseguem até mesmo potencializar a toxicidade das substâncias que incorporam. Outros nudibrânquios ainda apresentam glândulas que secretam substâncias ácidas.

Justamente por apresentarem todas essas estratégias de defesa, poucos são os predadores conhecidos de nudibrânquios. Porém, podemos citar como exemplos alguns picnogônidos

(artrópodes popularmente conhecidos como “aranhas-do-mar”, embora não sejam aranhas de fato), outros nudibrânquios, um ou outro caramujo e até seres humanos (mesmo não sendo comum).

Doris sp. tentando passar despercebido, com sua coloração similar à do seu alimento, a esponja azul ao seu lado (por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0).


Devido ainda ao seu arsenal de defesas químicas, os nudibrânquios são muitas vezes objeto de pesquisas em busca de substâncias com potencial farmacêutico, já tendo sido descobertas substâncias com atividades até mesmo anticancerígenas. Desse modo, além de serem donos de uma beleza encantadora, apresentarem estratégias reprodutivas peculiares, serem capazes de predar animais tóxicos e incorporarem suas defesas, os nudibrânquios são ainda fonte de produtos biologicamente ativos. Resumindo, não há como não se fascinar com esses animais!

Sugestões de leitura:

Sobre Licia:

Licia Sales é bióloga, formada pela Universidade Federal da Bahia, mestra e doutora em Zoologia pela Universidade de São Paulo. Soube da existência dos nudibrânquios durante a graduação, enquanto preparava textos educativos sobre gastrópodes. Foi amor “à primeira vista”. Resolveu procurá-los inicialmente nas praias da Bahia, e decidiu que dedicaria sua carreira ao estudo desses animais fantásticos e onde habitam. Desde então, tem pesquisado sobre diferentes aspectos dos nudibrânquios, como anatomia, morfologia funcional, alimentação, desenvolvimento e estratégias reprodutivas.

Instagram: @licia_so

E-mail: biolicia@gmail.com

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0425843082406064

*nota das autoras: A Limacina helicina, que pertence a uma ordem de moluscos chamada Pteropoda, também é chamada de borboleta-do-mar, por causa do pé modificado para natação, cujo movimento lembra a batida das asas de uma borboleta. No caso dos nudibrânquios, a analogia às borboletas faz referência à grande variedade de cores que eles apresentam.

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