O mergulho como ferramenta de pesquisa

Atualizado: 2 de Fev de 2019

Por Aline Alves


Nos últimos anos o mergulho tem deixado de ser uma atividade pra poucos. Muitas pessoas buscam o mergulho como lazer, hobby e até mesmo atividade física. Eu, apesar de ter passado a vida longe do mar, sempre fui muito conectada a tudo que era relacionado a ele. Quando fiz o meu primeiro mergulho autônomo, um simples batismo, foi amor à primeira vista. Depois disso, foi só questão de tempo pra que eu entrasse de vez nesse mundo. Passei a fazer cursos de mergulho recreativo, com o simples objetivo de mergulhar bem. No entanto, já cursava biologia e o fato de aprender a mergulhar poderia ser o primeiro passo para trabalhar com biologia marinha. 

Censo visual. Foto: Dilson (Zá).

Com o uso do mergulho como um meio para fazer pesquisa, de uma ramificação do mergulho autônomo surgiu o mergulho científico. Esta classificação de mergulho nada mais é do que adaptação/criação de metodologias científicas para o ambiente aquático. Em outras palavras, pesquisadores passaram a utilizar do mergulho para entender melhor o ecossistema aquático, e com isso técnicas foram desenvolvidas para que fosse possível coletar dados e amostras de maneira viável e segura. 


Após adquirir um pouco de experiência embaixo d’água com o mergulho recreativo, eu comecei a utilizar o mergulho como ferramenta de trabalho no mestrado. Nesse período, trabalhei com comportamento reprodutivo de uma espécie de donzelinha (peixes recifais de uma família bastante comum na costa brasileira), e consegui conciliar uma das coisas que eu mais amava fazer à metodologia do meu projeto. Foi nesse momento que comecei a aprender os diferentes métodos de coleta de dados, vendo os pesquisadores mais experientes trabalharem.

 

Dependendo do objetivo da coleta, o mergulho científico pode ser realizado para diferentes tipos de amostragens. Existem os métodos ditos como não destrutivos, como por exemplo, os censos visuais, observações e monitoramentos com uso de filmagens e fotografias. Os censos visuais são realizados dentro de uma área delimitada, onde o pesquisador conta o número de indivíduos alvo do estudo e registra também outros dados relacionados ao local da coleta. Particularmente, poderia descrever aqui diversas vantagens na utilização desses métodos. Já utilizei muito deles, e sei que pode-se obter resultados incríveis causando o mínimo de impacto. Alguns outros estudos envolvem coletas de material biológico de fato. E nesse caso, é necessário o conhecimento de outras técnicas que podem exigir o uso de equipamentos de elevação, e movimentação controlada de amostras. Essas técnicas exigem do mergulhador um bom controle de flutuabilidade e organização, pois qualquer descuido pode prejudicar toda a amostragem.

Coleta - monitoramento banco dos Abrolhos. Foto: Dilson (Zá).

Além de apresentar técnicas que permitem executar o mergulho com mais segurança, a importância de usar o mergulho científico como ferramenta de trabalho vem da possibilidade de explorar locais e profundidades nunca antes estudadas e ter a chance de inúmeras observações novas, tais como espécies e comportamentos diferentes daqueles já registrados. Dessa forma, é possível ter mais abrangência e precisão na hora de monitorar ambientes aquáticos. 


Coleta com puçá - ASPSP. Foto: Aline Alves.

Mas de todas as vantagens, a que mais chama atenção das pessoas  é a oportunidade que o mergulho científico te dá de trabalhar nos lugares mais incríveis que você já imaginou. Estar em ambientes prístinos, remotos e em águas cristalinas, com certeza fazem valer a pena qualquer esforço. Sem contar quão próximo você fica de um ecossistema tão único e de todos os seres que dele fazem parte. Aprendi muito em todas as expedições que participei. Nelas você fica muito tempo, seja embarcado ou em algum arquipélago, com pessoas que às vezes você mal conhece. Conviver com pesquisadores renomados e mergulhadores experientes, só contribuiu para o meu aprendizado. Além disso, te possibilita fazer grandes parceiros de trabalhos e amigos. 


Abrolhos. Fotos: Aline Alves.


Eu tive o privilégio de ter como área de estudo durante o mestrado uma das ilhas oceânicas brasileiras, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, e foi uma experiência singular, que só acrescentou a tudo que sei hoje. Como trabalhava em um lugar inóspito e de difícil acesso, toda atenção era necessária e com isso passei a cuidar mais de mim e das pessoas que mergulhavam comigo. Foi essencial para que eu conseguisse evoluir como mergulhadora e pesquisadora. Sem dúvidas, a melhor memória que tenho até hoje desse arquipélago foi poder ver de perto um tubarão baleia, a apenas dez metros de profundidade, quando voltava de um mergulho de coleta. Sensação indescritível, que rendeu lágrimas e muita satisfação por poder trabalhar mergulhando!


Por outro lado, existem sim algumas dificuldades em utilizar o mergulho como ferramenta de pesquisa. A primeira delas está relacionada aos custos. Para realizar a coleta você precisa de equipamentos de custo geralmente alto. Junto a isso, na maioria das vezes é necessária uma embarcação, o que encarece mais o estudo. Muitas metodologias envolvem ainda o uso de câmeras fotográficas e milhares de outros equipamentos específicos e caros. Logo, trabalhar com mergulho científico requer uma logística cheia de detalhes, onde todo equipamento é fundamental para o bom andamento da coleta e também para a segurança dos pesquisadores. 

Arquipélago de são pedro e são paulo (ASPSP) com o mar agitado.

Outra dificuldade encontrada é que nem sempre o local do trabalho vai ter as melhores condições. Ninguém mergulha em condições extremas, mas dentro daquilo que é seguro e aceitável, tem que estar preparado para mergulhar em locais com baixa visibilidade, correnteza, e até mesmo enfrentar dificuldades relacionadas à embarcação. Quando tinha que ir para o arquipélago de São Pedro e São Paulo enfrentava cerca de três dias de barco para chegar e nem sempre a viagem era tranquila.  Mas eu sabia que quando você se submete a estar em mar aberto, tem que saber que o mar é quem manda, é o mar quem vai dizer quando você vai chegar, e principalmente, quando vai mergulhar. Se as condições do mar não estiverem adequadas, a única coisa que resta fazer é respeitar e esperar até que tudo se acalme.


Enfim, apesar de nem tudo ser tão simples e fácil como aparece em filmes e documentários, eu acredito que todo esforço pra se trabalhar com mergulho científico é mais do que válido. Procuro mostrar sempre o lado bom, que a meu ver sobrepõe qualquer dificuldade. Com uma costa extensa como a nossa, deveria haver mais investimentos para isso aqui no Brasil. Podemos ter inúmeros avanços monitorando de forma efetiva os ambientes aquáticos, descobrindo novos e importantes fatos a todo o momento. O mundo subaquático é um mundo completamente diferente, cheio de coisas incríveis e lindas para serem desvendadas. O que o mergulho científico faz é facilitar essas descobertas. Com apenas cinco anos trabalhando nisso, já tive as melhores experiências da minha vida, e nunca vi alguém experimentar e não se encantar.


Interessados em ler um trabalho que foi feito utilizando o mergulho como ferramenta podem acessá-lo aqui.

Sobre a autora:


Aline é bióloga pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, divemaster e apaixonada pelo mar. Mestre em Ciências Biológicas com ênfase em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Atua em projetos voltados à ecologia e conservação de peixes recifais desde 2010.


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