Quanto custa o acesso à informação?

Atualizado: 29 de jan.

Por Juliana Leonel

Ilustração por Alexya Queiroz.


Para conduzir a sua pesquisa, um grupo de cientistas precisa de salário/bolsas¹ e de laboratórios - sejam eles cheios de vidrarias e reagentes, de equipamentos que parecem saídos de um filme de ficção científica, de computadores ou de livros. Só isso? Não!


Toda pesquisa surge a partir de uma pergunta e de hipóteses que são levantadas para respondê-la. Mas para elaborar as perguntas e as hipóteses é preciso saber o que já foi estudado sobre o assunto, o que já se sabe, quais perguntas ainda estão sem respostas, o que nunca foi investigado, e até mesmo o que já deu errado nas pesquisas sobre o tópico em questão. E isso tudo implica em muita, mas muita leitura sobre o tema de trabalho. E para que isso seja possível é preciso acesso às pesquisas já desenvolvidas.


Quando um cientista finaliza uma pesquisa ele escreve artigos científicos sobre o trabalho que desenvolveu onde apresenta sua motivação, a importância do trabalho, objetivos, métodos de estudo e, por fim, mostra os resultados e os discute. Esses artigos são enviados para revistas científicas onde são revisados por outros cientistas e depois (não sem antes passar por modificações e ajustes) são publicados para que todos tenham acesso aos dados e informações.


Mas será que todos de fato têm acesso?


Vale lembrar que a maior parte das revistas científicas de algumas áreas (da oceanografia, por exemplo) são revistas internacionais em que os trabalhos são publicados em língua inglesa. O inglês é considerado por muitos como a língua da ciência e que publicar nessa língua permite que pessoas dos mais diversos países leiam os trabalhos (aumentando o acesso a pesquisa). No entanto, o Brasil mesmo é um exemplo de país em que aprender inglês é um privilégio, mesmo para pessoas que têm acesso à educação superior. Temos aqui a primeira barreira para o acesso à informação científica.


Mesmo que o inglês não fosse um problema, esses artigos são escritos usando termos e jargões que não são familiares à maioria da população. Ou será que todos sabem o que é um glúon? Logo, mesmo artigos publicados em português, não são acessíveis para todos. E aqui destaco a importância de divulgadores de ciência que, entre outras muitas coisas, fazem a “tradução” das pesquisas para uma linguagem mais acessível e inclusiva.


Por fim, nem para os pesquisadores os artigos científicos são realmente (sempre) acessíveis. Como assim? Não faz sentido, né? A maioria das revistas científicas onde os trabalhos são publicados pertencem a poucos grupos que têm corpos editoriais que organizam a logística de recebimento dos artigos, passando pela revisão até a publicação. Claro que tudo isso envolve custos e, por isso, para acessar esses trabalhos os pesquisadores ou suas instituições devem assinar essas revistas ou podem comprar apenas os artigos que têm interesse em ler. Acontece que o preço de um artigo varia, em média, de 30-40 dólares. Isso mesmo, por um artigo, UMzinho! Sabe quantos artigos um pesquisador lê? Ao longo de um doutorado, por exemplo, centenas… faz as contas aí de quanto sai tudo isso.


A verdade é que os valores cobrados estão muito aquém do custo envolvido na produção dos periódicos científicos e tem algumas pessoas lucrando muito com isso. Estima-se que a margem de lucro da Elsevier, uma das gigantes no mundo de publicações científicas, seja maior que a do Google (30-40 %). Não é à toa que diversas universidades ao redor do mundo começaram a discutir sobre esses custos e alguns países, como a Suécia, pararam de assinar periódicos de grandes grupos e começaram a incentivar seus pesquisadores a só publicar em periódicos científicos de acesso aberto. Nestes, é comum que os autores dos artigos paguem uma taxa antes da publicação (e normalmente o valor é bem alto!). Apesar de existirem periódicos predatórios (pagou = publicou) existem muitos que são sérios e comprometidos com a ciência que adotam esse método.


No Brasil, há o Portal de Periódicos da CAPES, financiado pelo governo federal, em que são disponibilizadas milhares de assinaturas de revistas científicas. No entanto, o acesso só pode ser feito por quem estiver dentro de uma instituição pública (ou tiver um registro em uma). Ou seja, uma parcela grande de pessoas não tem acesso; embora todos paguem impostos. Além disso, nem todos os periódicos estão disponíveis no sistema CAPES.


Agora como fica o pesquisador que finalizou seu doutorado, ainda precisa publicar seus resultados, mas para isso precisa ter acesso a outros artigos científicos?² O que acontece com quem trabalha em uma empresa ou em órgãos do governo estadual, por exemplo? Não é só quem está na universidade que precisa ter acesso a esses periódicos.


Essa barreira invisível é chamada de paywall e ela impede ou restringe o acesso aos estudos científicos. E isso tem consequências importantes:

  1. restringe o número de revistas e artigos científicos a serem acessados e isso modula a ciência, pois as pesquisas e discussões científicas serão baseadas somente no material ao qual se teve acesso;

  2. gera uma segregação entre pesquisadores/grupos de pesquisa que têm mais ou menos acesso às informações;

  3. impede que informações científicas sobre grandes problemas (como mudanças climáticas, água potável, biodiversidade) sejam acessadas pelo maior número possível de pessoas;

  4. favorece o desenvolvimento de uma ciência regulada em função dos interesses dos detentores do paywall.


Você já tinha pensado nesse custo? Ou em como o paywall impede que a ciência seja acessível para todos (mesmo para cientistas)?


Há pessoas que não só pensam sobre isso como também tentam mudar essa realidade (mesmo que suas práticas sejam ainda consideradas ilegais), como é o caso do Aaron Swartz (que se matou depois de ter sido condenado a pagar 1 milhão de dólares em multa e mais 35 anos de prisão por ter disponibilizado artigos que conseguiu através da sua conta do MIT) e da Alexandra Elbakyan (que hoje vive escondida por ter criado uma plataforma para distribuição livre de artigos científicos). Ironicamente, em 2016, a própria Nature (que cobra até 2 mil dólares para os cientistas publicarem em suas revistas) a nomeou uma das 10 pessoas mais relevantes para a ciência.


Você já pensou no impacto que a plataforma criada pela Alexandra teve na sua pesquisa? Ou já pensou em incluí-la na lista de agradecimentos do seu TCC, dissertação, tese, artigo?



 

¹ Lembrando que bolsa não é salário

² Algumas universidades possuem cadastros para estudantes egressos para permitir que continuem acessando os periódicos


 


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