Seaspiracy e a armadilha das meias verdades

Por Cintia Miyaji



Desde que foi anunciado, o documentário Seaspiracy da Netflix, aparece incansavelmente nas minhas mensagens de e-mail, mídias sociais e por aí afora. Criei uma expectativa gigante e, assim que pude, sentei-me no sofá com meu marido (que, diga-se de passagem, é um pesquisador da pesca, e dos melhores!) e assistimos juntos. Trocamos alguns olhares, fechei meus olhos em algumas cenas, fiquei raivosa em algumas partes, mas perplexa em outras. No final, fiquei com uma imensa sensação de frustração, um incômodo danado, que eu não sabia como definir.


Comecei minha carreira de pesquisadora estudando as comunidades de animais que habitam os fundos oceânicos, mas as oportunidades de emprego e carreira me levaram por outros caminhos. E eu, sincera e apaixonadamente, me dediquei a todas essas oportunidades. Há cerca de quinze anos, junto a um grupo interdisciplinar de profissionais amantes do oceano, criamos o primeiro Guia de Consumo Responsável de Pescado do país, para orientar as pessoas em suas compras e escolhas nos restaurantes. Muito antes disso, eu já me dedicava à formação de recursos humanos em Ciências do Mar, orgulhosamente contribuindo para a criação do Fórum de Coordenadores de Curso de Oceanografia do Brasil. Então, quando consigo unir a comunicação sobre o oceano, baseada na ciência e em favor da conservação dos recursos pesqueiros, me sinto realizada! Sabem aquela intersecção entre paixão, missão, profissão e vocação? Os japoneses chamam de ikigai.


Por tudo isso, achei que Seaspiracy poderia atender aos meus mais antigos e profundos desejos de uma “arma” realmente eficaz, capaz de levar ao público consumidor, em massa, a mensagem de que precisamos cuidar do oceano, de seus recursos e ecossistemas, e que nós todos, sem exceção, temos um importante papel a cumprir. Claro que eu sabia a que público se dirigiria a mensagem, assim como tenho a clareza de que diretor, produtores, patrocinadores e a Netflix sabiam exatamente a quem e como transmitir a sua mensagem, e devo admitir que foram excepcionalmente bem-sucedidos!


Então, o que é que me perturbou tanto?


O fato é que, embora os problemas apresentados pelo documentário sejam exatamente aqueles que me incomodam todos os dias, como a depleção dos estoques e a sobrepesca, a pesca ilegal, o impacto sobre espécies ameaçadas, as redes fantasma, os descartes e desperdícios, a aquicultura mal manejada, a violação dos direitos humanos, entre tantos outros, Seaspiracy incentiva o público a acreditar que ele tem o poder de mudar esses cenários de horror através de uma solução simplista... parar de comer peixe. E o argumento mais explorado é o de que não há uma forma confiável de se definir uma pesca como sustentável.


Trabalho há cinco anos com um grupo incrível de pessoas, que mesmo distribuídas em 13 diferentes organizações de 11 países, se reúne mensalmente para discutir e elencar coletivamente um conjunto de critérios mínimos que caracterizam e que permitam avaliar pescarias e cultivos como ambientalmente sustentáveis, para assim podermos elaborar recomendações de consumo de pescado em todo o mundo. Não certificamos ou concedemos selos ambientais a nenhuma pessoa, pescaria ou empresa. Trabalhamos também, em conjunto, para definir estratégias de comunicação, compartilhando experiências e apoiando ações mutuamente. Além dos encontros virtuais, já estivemos presencialmente reunidos em cinco encontros anuais, então já são incontáveis as horas de trabalho e pessoas envolvidas. Apesar de tanto esforço, não conseguimos chegar a uma definição única para pesca e aquicultura sustentáveis. Não há critérios que possam ser utilizados de forma homogênea em todas as pescarias e cultivos, muito menos nas diferentes realidades de cada país ou região. Nem sempre sabemos como lidar com a ausência de dados. Não sabemos exatamente como ponderar as diferentes medidas de impacto da pesca artesanal em relação à industrial. Assim, talvez nos restem mais dúvidas do que certezas, mas temos clareza de que pesca e aquicultura sustentáveis são possíveis, e embora complexas de se definir individualmente, elas tendem a crescer e aumentar sua representatividade global e localmente, como consequência do nosso trabalho.


Não vou me debruçar aqui a, minuciosamente e ponto a ponto, desconstruir todas as informações numéricas apresentadas no documentário com a nítida intenção de chocar. Muitos pesquisadores, infinitamente mais gabaritados no assunto do que eu, já reuniram suas referências bibliográficas para mostrar que o documentário usou dados ultrapassados, mal interpretados, distorcidos e tendenciosos. Nesse aspecto, Seaspiracy alcançou um êxito que nenhum outro evento científico conseguiu: reuniu as duas maiores autoridades globais no estudo da gestão e da dinâmica das populações pesqueiras para concordar que o documentário errou, e errou feio, em muitos aspectos. Ray Hilborn se manifestou em vídeo e Daniel Pauly em um artigo de divulgação, enquanto Boris Worm, o primeiro autor do mais que citado artigo que “previu o colapso das pescarias em 2048” apoiou o artigo de Pauly através de uma mensagem em redes sociais.


Claro que as críticas jamais alcançarão nem uma pequena fração daqueles que assistiram ao documentário, mas encontrarão eco e repercussão nos meios envolvidos com a pesquisa e a cadeia da pesca. Então, em tempos de tantas críticas e plataformas especializadas em desmentir fake news de políticos, figuras públicas e imprensa, por que ainda vejo tantos influenciadores e ativistas que preferem ignorar as falhas e aceitar as informações do documentário, elogiando-o e divulgando-o mundo afora?


Na minha visão, isso ocorre porque Seaspiracy usa uma estratégia muito bem pensada e arquitetada, de empoderar o espectador ( aquele específico do perfil do assinante da Netflix), e dar a ele a sensação de que ao final do filme, uma atitude decorrente de uma decisão sua, consciente e legítima, vai contribuir para alterar as situações que o fizeram se sentir tão mal durante o documentário. Então, ao final, você tem que estar convencido de que não comer pescado é a solução, porque é a única que está ao seu alcance individualmente.


Para construir um argumento de que pesca ou aquicultura sustentáveis são apenas narrativas inventadas, o documentário cria situações e edita entrevistas para colocar em dúvida a idoneidade de alguns esquemas de certificação, selos ambientais e ONGs. Sem fazer juízo dos casos isolados apresentados, nada disso é justo e honesto com uma legião de profissionais que trabalham dura e incansavelmente para promover transformações na pesca e na aquicultura, atividades econômicas importantíssimas para o bem-estar de pessoas, dos ecossistemas, do oceano e de todo o planeta.


Sim, milhões de pessoas dependem da atividade pesqueira como forma de se nutrir e obter renda. Garantir a segurança alimentar e uma vida digna para milhões de pessoas em situações de vulnerabilidade como consequência dos impactos promovidos pelas mudanças climáticas ou pela poluição, passa por promover uma adaptação em suas práticas pesqueiras ou incentivar o cultivo de organismos marinhos em áreas costeiras. Fortalecer as tradições pesqueiras e a cultura das comunidades litorâneas faz com que elas se fixem nessas regiões, preservando seu modo de vida e o ambiente do qual elas dependem.


Sim, promover uma atividade pesqueira de forma bem gerida, organizada, manejada e fiscalizada traz benefícios para os ecossistemas. Criar zonas de exclusão, orientar e estabelecer períodos e tamanhos proibidos de captura, definir cotas, limitar licenças, regulamentar práticas e métodos de pesca e cultivo de menor impacto, entre tantas outras iniciativas, quando baseadas em ciência de qualidade, permitem que os estoques se recuperem e cresçam. Para além de propiciar pescarias sustentáveis, medidas de gestão adequadas podem garantir a regeneração de áreas e ecossistemas degradados.


A forma como fazer tudo isso é um grande e complexo desafio! E é um desafio que depende do trabalho cooperativo, colaborativo e de impacto coletivo. Depende de uma ação organizada em inúmeras frentes e orquestrada com inteligência. Há alguns anos, venho tentando construir os alicerces da Aliança Brasileira pela Pesca Sustentável. Reunimos as pessoas e as instituições, compartilhamos nossas experiências, construímos um grande esboço do que queríamos enquanto grupo, mas sem uma governança bem definida e um apoio financeiro... ainda vagamos apenas na dimensão dos sonhos.


Por isso, não posso aceitar que com todo o potencial e o alcance que tem nas mãos, a Netflix tenha optado por um caminho tão questionável para atrair a atenção das pessoas para os problemas da pesca e do oceano. Da maneira como o fez (e ninguém me convencerá de que foi por desconhecimento e ingenuidade), Seaspiracy tem aumentado a distância e acalorado as discussões em um ambiente de polarização entre ciência e ativismo, ONGs “boas” e ONGs “más”, veganos e não veganos, pescadores e aquicultores, pesca artesanal e industrial, certificações e recomendações, e tantas outras que só a criatividade humana é capaz de explicar!


Seaspiracy também perdeu a chance de dialogar construtivamente com os consumidores de uma elite socioeconômica que, inquestionavelmente, tem o poder de mudar a realidade através da sua forma de consumo e de suas escolhas políticas. Deixar de comer pescado e ainda assim ter uma dieta saudável e balanceada, requer um poder aquisitivo que está muito distante da população média mundial. Deixar de comer peixe sem estar preparado e informado para questionar a origem, a composição, o preparo e a saudabilidade dos alimentos que vão substituí-lo, pode ser tão ou mais perigoso para a saúde do planeta. E para aqueles que ficaram chocados com as atrocidades da pesca e não puderem arcar com a substituição adequada da proteína na sua dieta, nem tiverem acesso às orientações de um nutrólogo ou nutricionista, ficarão com parte da “culpa pela destruição do oceano” ou renunciarão à sua saúde? Essas são escolhas impossíveis, mas existem escolhas possíveis!


Existem as escolhas baseadas na “ciência que precisamos, para o oceano que queremos”. Existem as escolhas baseadas em discussões inclusivas, equitativas e colaborativas. Existem as escolhas individuais e existem as escolhas coletivas. Existem as escolhas que impactam apenas a sua vida e existem as escolhas que impactam a vida de muitos outros. Nem sempre há escolhas fáceis, como não há soluções simples para problemas complexos.


Não estamos em condições de aprofundar as diferenças e aumentar as distâncias. Nossa ação conjunta é necessária e urgente. O planeta, o oceano e a humanidade precisam de ações que os preservem. Ajude-nos a melhorar a comunicação entre as pessoas, no seu círculo social, na sua rede de contatos, na sua área de influência, orientando e disseminando informações de fontes seguras e confiáveis, nutrindo, treinando e até desafiando o senso crítico dessas pessoas. Leia, divulgue e apoie iniciativas como o Bate-Papo com Netuno!


PS: Quando eu tentava finalizar a revisão desse texto, uma publicação me chamou a atenção e fui ler... a discussão sobre os desdobramentos e consequências do Seaspiracy foram parar nas profundezas escuras da lama do mar profundo! Cientistas e pesquisadores estão sendo acusados de serem financiados, e assim corrompidos, pela indústria pesqueira para apresentar conclusões em seus trabalhos científicos, diferentes e muito mais positivas do que as do documentário, para justificar a continuidade da atividade. Se for assim, para tudo que eu quero descer!!! Então nos ajudem a trazer a discussão para a zona eufótica, por favor!


Leituras sugeridas:


Gostaria de mergulhar ainda mais no assunto? O seguinte link reúne diversas postagens e opiniões de pesquisadores sobre o documentário. Foi um jeito de não perder os links sobre o tema e ainda está em construção.


Sobre a autora:

Bióloga, mestre e doutora em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da USP. Estudou as comunidades bentônicas, com ênfase em moluscos gastrópodes. Ainda é apaixonada pela sistemática desses animais e publica aqui e ali com o apoio dos colegas taxonomistas. Depois de uma longa experiência acadêmica na formação de recursos humanos em Ciências do Mar, dedica-se atualmente ao fortalecimento da cultura do consumo responsável de pescado no Brasil, através da atuação como consultora na empresa que fundou em 2018, a Paiche. Idealizadora da Aliança Brasileira pela Pesca Sustentável, integra também a Global Seafood Ratings Alliance. Esposa de um também biólogo e pesquisador, mãe de dois seres-humaninhos incríveis e de uma cachorrinha adorável. Mora perto do mar, mas adora se meter no meio do mato.


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