Sereias também choram
- há 4 horas
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Por Yonara Garcia
Recentemente, fazendo um trabalho de campo na Ilha das Palmas, no Guarujá, São Paulo, certas partículas coloridas que compunham o sedimento da praia me chamaram a atenção. Ao pegá-las, percebi que eram pedaços de vidros de diversas cores, formas e tamanhos, que, ao meu olhar, eram muito bonitos. Como nunca tinha observado isso em outras praias, chegando em casa, fui pesquisar sobre e descobri que são chamados de vidros marinhos, que são fragmentos de vidros que foram descartados no ambiente e depois foram transformados naturalmente pela ação do oceano ao longo de muitos anos. Ao serem descartados no ambientes, materiais de vidro, como garrafas, frascos, utensílios domésticos, entre outros, fragmentam-se e começam a sofrer intemperismo com a ação do mar (impacto de ondas, atrito com grãos de areia, salinidade, mobilização pelas correntes etc), levando ao desgaste mecânico e lixiviação superficial, processo no qual compostos da camada externa do material são lentamente dissolvidos e removidos pela água. Isso faz com que os fragmentos fiquem com a superfície fosca, aspecto aveludado, bordas arredondadas, sem arestas cortantes, formato irregular e textura lisa, devido à abrasão. Esse processo essencialmente físico e químico pode durar décadas, com o fragmento sendo transportado, depositado e remobilizado para diferentes localidades, eventualmente podendo ser encontrado na costa, polido e seguro ao toque.
Muitas praias ao redor do mundo são conhecidas por terem grandes concentrações de vidros marinhos, tornando-se referências culturais, turísticas e até científicas. Na América do Norte, situa-se uma das mais famosas, a Glass Beach, localizada em Fort Bragg, na Califórnia. De 1906 a 1967, os moradores de Fort Bragg usavam esta área como depósito de lixo. Após o fechamento do local e implementação de programas de limpeza, a praia foi sendo recuperada e com o tempo, os fragmentos de vidro foram transformados em pequenas “pedras” arredondadas e coloridas que se misturavam à areia. Atualmente, esta praia é protegida integrando um parque estadual (MacKerricher State Park), e os visitantes são orientados a não coletar estes fragmentos, pois fazem parte de sua paisagem singular.

Outra praia bem conhecida por esta característica é a Ussuri Bay Glass Beach, localizada próxima a faixa costeira da Rússia, mas culturalmente associada ao Japão, por estar no Mar do Japão. Durante a era soviética, o local servia como depósito de garrafas de vidro e cerâmicas descartadas por fábricas próximas. Com o tempo, o Mar do Japão transformou esses resíduos em milhões de fragmentos de vidro arredondados. Hoje em dia, esta praia é uma atração turística e é protegida por autoridades locais para prevenir a remoção desses vidros e conservar este depósito.
Há muitas outras praias que são conhecidas por apresentarem esses fragmentos, como Chichibugahama Beach (Japão), Seaham Beach (Inglaterra), La Playa de los Cristales (Espanha) e Steklyashka Beach (Rússia). No Brasil, não há praias mundialmente famosas por vidros marinhos, mas já foi relatada a ocorrência desses vidros marinhos na Baixada Santista (SP), Baía de Guanabara (RJ), Ilhabela (SP) e Florianópolis (SC). Quase todas essas praias possuem um padrão comum, onde apresentam um histórico de descarte de materiais e resíduos de origem antropogênica, hidrodinâmica que favorece a transformação do vidro, sedimento relativamente grosso, entre outras.
Apesar de ser um resíduo antropogênico, sua beleza fez com que virasse até lenda. Um conjunto de tradições folclóricas marítimas, principalmente de comunidades costeiras da Europa, criaram a lenda das lágrimas de sereia. Há diversas versões dessa história, então compartilho a seguir uma releitura baseada nessas tradições.

Dizem que, em uma noite de tempestade violenta, um navio foi lançado contra as rochas.
O mar rugia sob o comando de Netuno, senhor dos oceanos e guardião das leis do mundo marinho. Entre os destroços, um único marinheiro ainda lutava contra as ondas.
Nas profundezas, uma jovem sereia observava a cena. Ela conhecia as regras: as criaturas do mar
não deveriam interferir no destino dos humanos, pois o mar seguia a vontade de Netuno. Mas ao ver o homem prestes a se afogar, ela desobedeceu.
Nadando contra a corrente, a sereia emergiu das águas revoltas, segurou o marinheiro e o conduziu lentamente até a praia. Exausta, permaneceu ao lado dele até ter
certeza de que respirava.
Quando a tempestade cessou, o mar ficou silencioso…silencioso demais...
Então, das profundezas, ergueu-se a voz de Netuno. O deus estava furioso. A sereia havia desafiado sua autoridade e alterado o destino que ele havia determinado para aquele homem. Como punição, Netuno declarou: “Por ter escolhido o coração acima das leis do mar, jamais retornarás às águas rasas. Serás banida para o mar profundo, onde a luz do sol não alcança.”
Condenada ao exílio, a sereia mergulhou lentamente nas profundezas escuras do oceano. Enquanto descia, chorava. Suas lágrimas subiam em direção à superfície, levadas pelas correntes. Com o tempo, endureciam e eram polidas pelas ondas e pela areia, até se transformarem em pequenos fragmentos suaves e brilhantes.
E assim, diz a lenda:
Os vidros marinhos encontrados nas praias são as lágrimas da sereia,
lembranças de um ato de compaixão que desafiou o próprio deus do mar.
Além de lenda, os vidros marinhos têm atraído olhares criativos, sendo usados para criar mosaicos, esculturas e até joias. Eu mesma, quando vi, pensei: “vou fazer colares”. Eu tenho um projeto de ateliê, onde gosto de fazer peças de crochê, macramê e joias de resina. Eu me limitava a produzir estas joias a partir de flores prensadas, sementes e elementos botânicos, mas, ao ver esses vidros marinhos, logo quis ver aquilo num colar. Vejo uma coleção surgindo… já vem até com uma lenda para deixar mais poético.
Bom, mas apesar de toda história e beleza, o vidro marinho não deixa de ser um resíduo antropogênico, submetido a processos naturais, transformado ao longo do tempo e reintegrado ao sistema costeiro. Talvez, cada fragmento seja um lembrete silencioso das marcas que estamos deixando no meio ambiente e da extraordinária capacidade da natureza de se transformar, mas não de esquecer.
Sobre a autora:

Editora do BPCN, formada em ciências biológicas pela UFJF com mestrado em ciências (Oceanografia Biológica) pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente está desenvolvendo seu doutorado no Instituto do Mar da UNIFESP. Sempre despertou interesse pelos ecossistemas aquáticos. Durante a graduação atuou em limnologia estudando, principalmente, os ciclos biogeoquímicos e as comunidades planctônicas. Já na pós-graduação atuou em pesquisas que tiveram como foco o plâncton marinho e o coral-sol. Hoje seu foco principal é o estudo da contaminação, principalmente por microsplásticos, em Áreas Marinhas Protegidas. Gosta de andar de bicicleta, ir à praia, subir montanha, viajar, fotografar, reunir os amigos, estar em contato com a natureza e sempre contar com uma boa leitura. Está aprendendo a cada dia o papel de ser mãe com sua filha Mia.




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