Sobre peixes alienígenas, videogames e tubarões amigos
- há 18 horas
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Por Flávia Ribeiro Santos
Ou como jogos de videogame fizeram eu me apaixonar pelo oceano e querer estudar sobre ele.

Montagem: Natasha Hoff.
O ambiente marinho sempre instigou a imaginação humana, dando origem a várias lendas e às suas representações na literatura e, posteriormente, no cinema. Sentimentos de medo, fascinação e aventura foram extensamente retratados ao longo da história. Apesar disso, a experiência sempre foi passiva e, sendo assim, possui suas limitações. Até que chegamos à criação dos videogames e sua interatividade revolucionária.
Aqui, a liberdade de criação atinge seu máximo potencial, e encontramos tanto jogos com representações e mecânicas realistas quanto completas saladas de ideias malucas. Mas algo em comum que todos esses jogos possuem é o sentimento de estar (literalmente) mergulhando no desconhecido.
“Como estaria o oceano num futuro longínquo onde a humanidade já foi extinta?” é basicamente a premissa do jogo “The Aquatic Adventure of the Last Human”, lançado em 2016. Como o título indica, você é o último ser humano vivo num futuro distópico onde as mudanças climáticas obrigaram a humanidade a viver em cidades submersas e foi enviado ao espaço em busca de planetas habitáveis. Quando retorna, centenas de anos depois (como isso foi possível, fica a cargo da imaginação do jogador), encontra apenas as ruínas do que antes foi uma civilização, e tudo está tomado por organismos marinhos, e alguns deles bem hostis.

Um dos vários ambientes pelos quais você pode navegar pelo jogo. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”.
O jogo retrata diversos biomas marinhos, alguns mais fiéis e outros mais hipotéticos de um futuro distante, mas o que chama a atenção é que todos os organismos são extremamente grandes. De peixes nadando pelo cenário até um polvo gigante, tudo tem proporções exageradas. Considero liberdade poética dos criadores para aumentar o sentimento de pequenez diante da natureza (e para criar chefes de área assustadores).
Se a vida marinha em “The Aquatic Adventure of the Last Human” já parece bizarra, imagine retratar não o oceano que conhecemos aqui da Terra, mas o de um outro planeta, em outro sistema, com criaturas completamente diferentes. Estou falando de “Subnautica”, jogo do estilo sobrevivência lançado em 2018, e o principal motivo de eu estar cursando Oceanografia.

Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”.
A história começa de forma simples: você é um humano que estava viajando em um ônibus espacial, e ele cai num planeta distante que é quase todo tomado por água. Por ser um jogo de sobrevivência, o jogador precisa construir objetos e coletar recursos para ajudar na progressão e ficar atento ao nível de fome, hidratação e oxigênio. Mas o jogo brilha mesmo é na imersão. Sabe quando você está embaixo d'água e todos os sons parecem abafados e distantes? Ele reproduz isso com perfeição. Componentes reais como pressão e nível de penetração da luz solar também estão presentes e impactam diretamente os organismos e a progressão do jogador, e, em grandes profundidades, você encontra bioluminescência. Também existem biomas inspirados no oceano da Terra, desde florestas de kelps até fontes hidrotermais, passando por recifes de coral e sistemas de cavernas gigantescos, cada um com sua fauna característica.
Conforme o jogador atinge profundidades cada vez maiores, fragmentos da história vão sendo revelados, tornando o principal desafio alcançar o ponto mais profundo do planeta. Tarefa nada fácil já que, além do próprio gradiente de pressão, existem muitas criaturas agressivas doidas prontas para se alimentar de você.

Um dos vários “leviathans”, criaturas enormes que você pode encontrar em "Subnautica”. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”.
Se você for corajosa/o o suficiente para seguir explorando cada vez mais profundamente, alcançará a conclusão da narrativa que é, para mim, uma das maneiras mais lúdicas já feitas de se ensinar sobre equilíbrio de ecossistemas e como nossas ações impactam o meio ambiente. Sem spoilers para não estragar a surpresa.
Já que falamos sobre equilíbrio de ecossistemas, não posso deixar de mencionar “Abzu”, outro jogo de 2016 onde você controla um robô mergulhador que explora diversos ambientes marinhos da Terra com gráficos estilizados. Abrir esse jogo é quase uma meditação, pois aqui o que importa não é sobreviver: não existem riscos que ameacem o personagem, o importante é a experiência emotiva e de contemplação que faz com que o jogador fique fascinado com toda a vida marinha existente. E por falar em meditação, você realmente pode fazer isso em pontos específicos, e o mais incrível: assumir o controle dos diversos animais presentes no ambiente e sair nadando por aí.
Mas como nem tudo são flores, existe um momento de clímax conforme o jogador progride, em que, tragicamente, toda a vida presente começa a desaparecer deixando apenas o vazio, e cabe a nós descobrir como restaurar a fauna e o equilíbrio do oceano em um desfecho emocionante. E também não posso deixar de mencionar que temos uma representação positiva de um tubarão-branco na história, que de início parece ameaçador, mas se revela uma espécie de guia para o protagonista, e inclusive será peça central tanto do clímax quanto da conclusão da narrativa.
Apesar de serem três jogos bem diferentes, todos me fizeram eu me sentir parte integrante do oceano, sensação que só a experiência interativa pode proporcionar. Seja num submarino ou nadando nas costas de um tubarão, a conexão torna-se muito mais profunda do que em outras mídias, tornando os videogames uma ferramenta poderosa para educação ambiental e desenvolvimento da sensibilidade. Foram apenas três exemplos que estão entre meus favoritos, mas existem muitos outros jogos sobre o mar por aí, e um deles com toda a certeza vai fazer você também se encantar com esse ambiente tão místico e misterioso.
Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani.
Sobre a autora:

Flávia é estudante do sexto semestre em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Ictióloga que adora fotografar insetos, mãe de gato e cinéfila, faz parte do Laboratório de Diversidade, Evolução e Ecologia de Peixes de Mar Profundo (DEEP Lab) onde faz iniciação científica tirando foto de otólito de peixe.




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