Uma história sobre esponjas

Por Lilian Pavani


Apaixonar-se é meio assim, inesperado, inexplicável, incompreensível. De repente, pronto: é amor! Mais curioso é quando isso ocorre em relação a algo tão diferente de você, como uma esponja – e não estou falando do nosso amigo Bob, aquele da calça quadrada. Pois bem, aconteceu comigo.


Quando decidi estudar biologia, gostava de biologia marinha, biologia celular e queria fazer pesquisa. A biologia celular foi deixada de lado ainda no primeiro semestre da faculdade. Mas a biologia marinha continuava lá, esperando uma oportunidade para ser testada. Mas o que era a biologia marinha para mim até então? Praia e recifes de coral cheios de peixinhos, como eu tinha visto em Porto de Galinhas. O que eu ia estudar eu realmente não fazia a menor ideia.


Quando comecei a estudar zoologia dos invertebrados, além do susto de descobrir que havia mais de trinta filos de animais, e não apenas os nove que eu havia estudado na escola, eu olhei pela primeira vez para as esponjas com outros olhos. 


Pode algum organismo ser mais aleatório do que uma esponja? As esponjas não tem tecidos verdadeiros (não possuem lâmina basal), portanto, não podemos falar em folhetos embrionários, celoma ou órgãos. São praticamente um aglomerado de células com funções diferentes e especializadas, que conseguem se organizar e constituir um organismo único, assimétrico, que come, cresce e se reproduz. E fazem tudo isso sem sair do lugar, pois são sésseis, e ainda enfeitam o ambiente com suas lindas cores!! Pronto, gamei!

Figura 1. Esponja Tedania ignis, meu objeto de estudo (Foto Renata Goodridge).

Naquela disciplina, a cada aula um aluno poderia escolher um filo para fazer uma pequena apresentação de curiosidades. Claro que me voluntariei para falar das esponjas. E descobri mais: uma vez que são filtradoras, as esponjas são bioindicadoras da qualidade ambiental e, por serem sésseis, produzem metabólitos secundários usados para competir por espaço com outros organismos. E esses metabólitos possuem  interesse farmacêutico!


Mais ou menos na mesma época li no jornal da faculdade que um rapaz da economia havia desenvolvido um estudo sobre os efeitos econômicos da queda do turismo e pesca na região de Ilhabela e São Sebastião, decorrentes de um vazamento de óleo que havia ocorrido algum tempo antes. Ahá! A luzes se acenderam: eu poderia estudar esponjas para descobrir mais sobre poluição nas praias!

Figura 2. Tedania ignis incrustada em uma rocha (Foto Eduardo Hajdu).

Na minha universidade não tinha ninguém especializado em esponjas, mas  as esponjas vivem em costão rochoso e praticamente todo mundo trabalhava com isso. Apesar de todos estarem envolvidos com a finalização do Projeto Biota, a minha orientadora me deu um voto de confiança e permitiu que eu fosse escrevendo um projeto enquanto fazia um estágio no laboratório. Mas eu teria que incluir anfípodes (pequenos crustáceos que me renderiam  um mestrado mais tarde) e deixar um pouco de lado a poluição.


No começo aquilo me chateou, mas somente até eu perceber o mundo que poderia caber dentro de uma esponja, ou mesmo sobre ela. Elas funcionam como substrato secundário para a vida marinha, ou seja, ampliam a área de ocupação dos costões rochosos permitindo que muito mais organismos morem ali, pois oferecem uma série de microhabitats especialmente para organismos juvenis, contribuindo assim para a biodiversidade local.


Para o meu estudo escolhi a esponja Tedania ignis, popularmente chamada de esponja de fogo, uma vez que pode provocar dermatites parecidas com queimaduras em contato com a pele. Essa esponja vive em locais de fácil acesso e pude coletá-la sem o auxílio de equipamento de mergulho, sempre em maré de sizígia (maré de grande amplitude que ocorre durante a lua cheia e a lua nova). Nesse período de maré bem baixa essas esponjas são facilmente avistadas no costão rochoso.


No laboratório, a cada triagem eu fui descobrindo vários organismos marinhos que nunca tinha visto, como pequenos hidrozoários e picnogonidas (aranhas-do-mar), ou então encontrava “miniaturas” de outros mais conhecidos, como bivalves. E que surpresa era abrir uma câmara e descobrir lá dentro um “ninho” de nematodas! Foi uma atividade realmente muito prazerosa.


Meu estudo durou um ano, com amostragens mensais. Assim pude analisar a variação temporal da fauna acompanhante, buscando alguma relação com fatores ambientais, como a quantidade de matéria orgânica do local de coleta, e também com a própria esponja, utilizando seu peso seco como parâmetro.

Figura 3. Exemplo de moluscos bivalves encontrados tanto dentro como sobre a esponja Tedania ignis: a. Modiolos carvalhoi; b. Sphenia antillensis; c. Isognomon bicolor; d. Lithophaga bisculata (foto sem escala).

O que descobri é que nessa esponja a maioria  dos organismos vive sobre sua superfície. Esses organismos que habitam o lado externo foram mais afetados pela quantidade de matéria orgânica presente no ambiente e pela variação do tempo do que aqueles do interior da esponja, indicando que para a fauna epibionte os fatores ambientais, principalmente recursos alimentares (matéria orgânica em suspensão), são mais importantes. 


O curioso desse estudo foi que pensei que quanto maior a esponja (maior peso seco), maior seria a quantidade de organismos em seu interior. Mas o resultado foi exatamente o contrário! Embora eu não tenha estudado o tamanho das câmaras dessa esponja, descobri em outros trabalhos que a fauna que vive dentro das esponjas é influenciada pelo tamanho e formato de suas câmaras mais que pelo tamanho total da esponja, e que parece haver uma preferência por câmaras pequenas. Provavelmente, quando a esponja estudada cresce, suas câmaras crescem também, o que torna seu interior menos interessante para os animais endobiontes, pois canais grandes podem oferecer menor diversidade de nichos do que canais pequenos.

Figura 4. Corte longitudinal da esponja T. ignis, com detalhe para os canais. Em cinza, o sedimento marinho, principal fonte de alimento filtrado pelas esponjas. (Foto Mariana Fernandes e Izadora Mattiello).

E assim as esponjas me ensinaram a escrever um projeto de iniciação científica e permitiram o meu primeiro contato com as ciências do mar. Tenho por elas admiração, gratidão e amor eternos <3 ! 

Sobre Lilian Pavani:

Bióloga, mestre em ecologia e especialista em engenharia ambiental pela Universidade Estadual de Campinas, amante de esponjas e outros invertebrados marinhos, principalmente os coloridos. Após navegar entre esponjas, algas, anfípodes e petróleo, as correntes e ventos a levaram literalmente a outras estradas, onde atuou no estudo de fauna atropelada, supervisão e gerenciamento ambiental de obras de rodovias. Nutre interesses muito diversos como educação, inovação e cozinha, toca flauta doce em um grupo amador de música antiga, escreve pensamentos e observa pássaros. Enfim, vive com os pés na areia e meio que assim, entre marés.


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