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- Isótopos: da teoria à prática
Por Juliana Leonel Ilustração de Alexya Queiroz No texto Descomplicado Isótopos e no texto Paleoceanografia – como e por que devemos reconstruir o passado dos oceanos? os isótopos estáveis são citados como uma ferramenta importante para estudos oceanográficos. Mas como isso é feito? Como as aplicações são muitas, vamos focar em uma que é bastante utilizada, o uso dos isótopos de oxigênio, o δ18O (= 18O/16O). Antes de qualquer coisa é necessário saber que moléculas de água podem ter na sua composição diferentes isótopos de oxigênio (H216O, H217O, H218O). Considerando as moléculas de água com oxigênio-16 e as com oxigênio-18: a mais leve terá mais facilidade em evaporar, enquanto a segunda para precipitar (na forma de chuva ou neve). Dessa forma, o vapor de água tem menores valores de δ18O que da água da chuva/neve. Além disso, conforme esse vapor de água é transportado das baixas para altas latitudes (e ocorre precipitação nesse processo) a vapor vai ficando mais empobrecido (valores menores de δ18O) e o mesmo acontece com a precipitação.Esse fenômeno é chamado de Destilação de Rayleigh. Figura 01: Evolução do δ18O nas precipitações em função do transporte atmosférica a partir das baixas latitudes para as altas latitudes. Da mesma forma que para a água, a calcita pode ser composta por diferentes isótopos de oxigênio: 16O, 17O, 18O. A calcita nada mais é que o carbonato de cálcio (CaCO3) precipitado a partir da água do mar por organismos calcificantes, como os foraminíferos, para formarem suas conchas/carapaças. A assinatura isotópica do oxigênio na calcita é resultado de dois fatores: 1. Fracionamento isotópico em função do efeito da temperatura na reação de calcificação: quanto maior a temperatura da água, menor o fracionamento isotópico e menor o δ18O da calcita e, quanto menor a temperatura, maior o fracionamento e maior δ18O da calcita. Em função disso, através da análise do δ18O nas carapaças de foraminíferos preservados no sedimento marinho, é possível calcular as temperaturas passadas (= paleotemperaturas) da superfície do oceano e suas variações ao longo do tempo, ou seja, é possível estudar as mudanças climáticas ao longo do tempo geológico. 2. O δ18O da água do mar onde houve a formação da calcita e que é influenciada basicamente pelo balanço de evaporação-precipitação e volume de gelo. Quando maior a evaporação, maior será o δ18O da superfície do oceano das carapaças de foraminíferos planctônicos e, quanto maior a precipitação, menor o δ18O da superfície do oceano e das carapaças dos foraminíferos planctônicos. Isso permite estudar tanto alterações nos valores de δ18O devido a processos locais como alterações no volume de gelo em escalas milenares (glaciações e interglaciações). Além disso, esse padrão de variação do δ18O da superfície do oceano em função do balanço entre evaporação e precipitação é semelhante ao da salinidade. Logo, o δ18O medido nas carapaças dos foraminíferos planctônicos preservados nas camadas sedimentares pode ser usado para estimar variações nos valores de salinidade. Atualmente vivemos em um período interglacial e a água do mar tem δ18O = 0, mas durante os períodos glaciais a água do mar tinha δ18O > 0. Isso porque, devido às baixas temperaturas do período glacial, a água do mar nas regiões polares congelava e, como a molécula de água mais leve (H216O) tem preferência nesse processo, "sobrava" mais 18O no mar. Considerando que a temperatura do oceano profundo não muda muito, as variações do δ18O nas conchas dos foraminíferos bentônicos preservados no sedimento marinho refletem principalmente as variações no δ18O da água do mar devido às variações no volume de gelo : o aumento no volume de gelo nas calotas polares também aumenta o valor de δ18O na água do mar e, consequentemente, nas conchas de foraminíferos bentônicos. Já quando começava a haver um aumento nas temperaturas (período inter glacial), parte do gelo derretia e a água enriquecida em 16O voltava para o oceano fazendo com que os valores de δ18O diminuíssem. Entender as variações no volume de gelo também permite inferir sobre variações no nível do mar. O uso de isótopos de oxigênio das carapaças de foraminíferos como paleotermômetro é uma ferramenta tão robusta que deram origem aos Estágios Isotópicos Marinhos, que são períodos de aquecimento e resfriamento alternados que ocorreram nos últimos milhões de anos e que foram reconhecidos pelas variações nos valores de δ18O em testemunhos marinhos pelo pesquisador Cesare Emiliani na década de 1950. Esse é o melhor conjunto de dados sobre o clima do Quaternário (2,6 milhões de anos até o presente) e serve de padrão de comparação para qualquer outro registro climático. Além das carapaças de foraminíferos, os valores de δ18O também podem ser medidos em testemunhos de gelo. Isso permite estudar não só as variações de temperatura, mas também a origem do gelo presente nas calotas polares, pois ele é formado tanto pelo congelamento da água do mar como pela neve e, cada uma dessas fontes têm diferentes valores de δ18O: a) ~ 0 quando formados pelo congelamento da água do mar; e b) > 0 quando formados pela precipitação da neve. Logo, isso pode ser usado para estudar as variações de temperatura e processos de formação das calotas polares. #isótopos #paleotemperatura #paleoceanografia #JulianaLeonel #ciênciasdomar
- Isótopos
Por Juliana Leonel Muitas são as ferramentas que foram divisores de águas nos avanços dos estudos oceanográficos. Assim como o CTD nos permitiu medir salinidade e temperatura das diferentes camadas do oceano, os métodos de geofísica nos permitiram entender o que há nas camadas de sedimento e rocha do fundo oceânico. Uma ferramenta que ganhou destaque nas ciências do mar na última década, devido aos avanços analíticos que permitiram um aumento nas suas aplicações, é a assinatura isotópica de diferentes elementos químicos em diferentes matrizes ambientais. Os isótopos, estáveis e radioativos, permitem desde a datação de materiais até a entender mudanças na circulação oceânica que ocorreram há milhares de anos, bem como nos ajuda a entender a evolução da atmosfera terrestre e permite estudar o intemperismo através do tempo geológico. Mas o que são isótopos? São átomos de um mesmo elemento químico (X) que possuem a mesma quantidade de prótons, mas diferente número de nêutrons, ou seja, tem o mesmo número atômico (Z) e diferente número de massa (A). Em geral, nos referimos aos isótopos dos elementos da seguinte forma: 14C, 18O, 34S etc, os quais lemos como: carbono-14, oxigênio-18, enxofre-34. A exceção é o hidrogênio, pois seus isótopos recebem nomes específicos: 1H, 2H e 3H são, respectivamente, Prótio, Deutério e Trítio. Quando a combinação de nêutrons e prótons no núcleo de um isótopo lhe dá estabilidade, ele não sofre decaimento radioativo ao longo do tempo e é chamado de isótopo estável. Isso significa, por exemplo, que o 13C não se transformará em outro elemento. Porém, quando o isótopo tem um núcleo instável ele irá sofrer decaimento radioativo em busca de estabilidade e nesse processo poderá formar outro elemento; por exemplo o 14C ao decair irá formar o 14N. O decaimento radioativo é um processo em que o núcleo instável de um elemento libera energia e ocorre perda/ganho de elétrons ou prótons ou nêutrons formando outro elemento. Diferentes elementos químicos têm diferentes números de isótopos e um mesmo elemento pode ter isótopos estáveis e radioativos. A proporção entre os diferentes isótopos estáveis de um mesmo elemento varia em função de cada elemento. A proporção entre a abundância de diferentes isótopos de um elemento em uma amostra é chamada de razão isotópica ou composição isotópica ou assinatura isotópica. As variações na razão isotópica são chamadas de fracionamento isotópico e ocorrem em função: do decaimento radioativo; de reações físico-químicas e biológicas. Alguns exemplos: evaporação, condensação, fotossíntese e oxi-redução. Essas pequenas diferenças são responsáveis pelas diferentes proporções de isótopos em uma determinada amostra. No entanto, dependendo do elemento, pode ocorrer ou não o fracionamento isotópico: enquanto a evaporação leva ao fracionamento isotópico do oxigênio, o mesmo não ocorre para os isótopos de carbono ou nitrogênio, que serão afetados pelas reações de fotossíntese e de nível trófico, respectivamente. A quantificação da razão isotópica de um elemento em uma amostra é feita comparando o valor encontrado nela pelo valor de uma amostra de referência, ou seja, é dado pelo desvio relativo (δ) expresso em partes por mil (os valores são multiplicados por 1000 para evitar trabalhar com números muito pequenos). Vamos ver o que isso significa na prática. Imagine um valor de δ13C = - 27: Lemos δ13C como delta carbono-13; δ13C expressa o quanto a razão isotópica na amostra (13C/12C) é maior ou menor que a razão isotópica na amostra de referência; Como o δ13C não se refere a uma concentração (isso é muito importante!), podemos ter tanto valores positivos como negativos; Quando δ13C é positivo significa que a amostra está enriquecida em relação a amostra de referência; Quando δ13C é negativo significa que a amostra está empobrecida em relação a amostra de referência. Devido à diferença no número de massa, os isótopos apresentam pequenas mudanças nas suas propriedades físico-químicas. No caso dos isótopos radioativos, eles decaem espontaneamente em função da instabilidade nuclear e nesse processo emitem diferentes tipos de radiação (∝, ß e γ). O elemento que sofre o decaimento é chamado de isótopo-pai e o elemento formado de isótopo-filho ou isótopo radiogênico. O isótopo-filho tem número atômico diferente do isótopo-pai, ou seja, é um elemento diferente. Além disso, quando ele é estável o decaimento para nesse ponto, mas se ele for também um isótopo radiativo o decaimento continua até formar um isótopo estável. Exemplos de decaimento radioativo do 238U (decaimento alfa), do 3H (decaimento beta) e do 26Al(decaimento beta) com os respectivos elementos formados a partir da reação. Um conceito importante dos isótopos estáveis - e que permite que eles sejam usados em diversos estudos, principalmente na datação de amostras - é a meia-vida (representada como t1/2); ela é o tempo que demora para metade de uma determinada quantidade de um isótopo radiativo decair. A meia-vida pode ser da ordem de décimos de segundos até bilhões de anos, dependendo do composto. Representação da meia vida Exemplo da cadeia de decaimento do urânio- 238 até chegar no chumbo-206 (isótopo estável) Bateu aquela curiosidade em como usamos os isótopos em estudos oceanográficos? Em breve traremos exemplos de algumas explicações. #Descomplicando #Isotopos #Traçadores #Oceanografia #JulianaLeonel
- Hurricanes and their names
By Carolina Barnez Gramcianinov English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on October 5, 201 7 Illustration by Silvia Gonsales The 2017 Atlantic tropical cyclone season began on April 19, and by October, the Atlantic had seen 6 major hurricanes including Harvey, Maria, and Irma, which all went down in history. Irma was a devastating Category 5 hurricane, and we probably won't have any more hurricanes with that name in the Atlantic. Do you know why? Have you ever wondered where hurricane names come from and why we name them? Naming tropical cyclones ( also called hurricanes in the North Atlantic and East/Central North Pacific, or typhoons in the Northwest Pacific) with short, simple, first names makes communication and warnings to the population easier. In the past, codes involving latitude and longitude were used, but this caused some confusion due to the amount of letters and numbers. During the hurricane season, it is common to have more than one system active in the Atlantic at once, and it is important that the alerts are clearly understood for each of them. Confusion between hurricanes that occur at the same time in different regions or in sequence with one another was very common when the news was transmitted, mainly via radio, which delayed and compromised public announcements and evacuation plans. Animation with satellite imagery from September 14, 2017 of the western North Pacific, with tropical cyclones Talim (farther north) and Doksuri (farther south). This color infrared image shows the characteristics of clouds, and consequently rain, associated with the atmospheric systems. The colder the cloud, the higher it is and the greater the potential for heavy rain. In the color scale, higher clouds are represented by the color red. (Source: https://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/Basin_WestPac.html ) The tradition of naming hurricanes originated in the West Indies, where affected communities named them after the saint whose holiday was closest in occurrence. In the early 19th century, an Australian meteorologist started giving female names to cyclones, and this practice was adopted around the world, especially by Navy and Army meteorologists during World War II. It was not until 1978 that male names began to be used in the eastern North Pacific, and a year later in the Atlantic and Gulf of Mexico. Currently, the names are chosen from lists organized by the World Meteorological Organization (WMO1). There is a series of lists for each oceanic region affected by tropical cyclones, making a total of 10 regional lists. They are all in alphabetical order, so it is easy to identify the cyclone number for that season. In any region, a tropical cyclone that starts with A is the first of the season. Regions with a lot of cyclone activity have longer lists. The Atlantic and Gulf of Mexico list, for example, has 21 names per season, the North Central Pacific has only 12. But what if during the season there are more hurricanes than names? Each region has a contingency plan for this. In the Atlantic the Greek alphabet was used, until confusion in 2020 led to changing to a backup list of names. The Greek alphabet had only been needed twice in busy hurricane seasons, once in 2005, the year of Hurricanes Katrina and Wilma, and again in 2020, which saw 9 Greek alphabet named storms. Due to a lack of understanding of the Greek alphabet, it was determined this system caused too much confusion and the WMO decided to use a backup list in the future, as is done in other regions. GOES satellite images of Hurricane Wilma (2005) hitting Florida (USA). This was the most intense tropical cyclone recorded in the Atlantic basin, reaching winds of 295 km/h. (Source: NOAA - https://www.ssd.noaa.gov/PS/TROP/trop-atl.html ) Each major region has a list that includes names for more than one year. When you get to the last name on the last available list, you go back to the first list. For example, in the Atlantic we have 6 lists, that means that every 7 years we repeat them. So in 2023 we will be using the same list as 2017. So sometimes we hear repeated names, or when we do research on a hurricane there will be more than one with the same name. But then there is the question: why don't names of "famous" cyclones like Katrina and Sandy appear on the list anymore? The answer is that, out of consideration for the victims, cyclones that have caused severe damage and many deaths have their names removed from the lists. When this happens, the WMO chooses a name with the same initial to replace it. This is the case with tropical cyclones Haiyan (Philippines, 2013), Sandy (USA, 2012), Katrina (USA, 2005), and Mitch (Honduras, 1998), for example. For more retired hurricane names, click here. Hurricane Irma (2017) was among one of the most intense in history and was the most intense cyclone to hit the US since Katrina (2005). Another striking characteristic was the number of days at sustained maximum intensity: it maintained winds reaching almost 300 km/h for almost 2 full days. The damage was wide-spread and devastating, resulting in the removal of the name from the list . Irma was the eleventh name with an "I" to be removed from the Atlantic list, this initial being the one with the most names removed: Ione (1955), Inez (1966), Iris (2001), Isidore (2002), Isabel (2003), Ivan (2004), Ike (2008), Igor (2010), Irene (2011), Ingrid (2013). After the retirement of Irma in 2017, two more “I” names have further been retired, Iota (2020) and Ida (2021). Example of the monitoring conducted by the US National Hurricane Center (NHC). In the image we can see Hurricane Jose and two disturbances with a small potential for cyclone development marked with yellow "X" (chances less than 40%). (Source: http://www.nhc.noaa.gov/ ) If you want to know the names of future tropical cyclones, check out the lists on the World Meteorological Organization's website . Want to know what the next Atlantic hurricane will be called? Check the National Hurricane Center's website: http://www.nhc.noaa.gov/ . About Carolina Barnez Gramcianinov: I am an oceanographer from IO-USP, where I also got my master's degree in Physical Oceanography. I have always been interested in the impact of the oceans on the weather and climate, which motivated me to enter the PhD program in Meteorology at IAG-USP. Since I started as an undergraduate, I fell in love with ocean physics and its impact on other processes. Now in my doctorate, I’ve been charmed by the dynamics and thermodynamics of the atmosphere. I seek to be in between these two environments and I believe that an integrated understanding between these areas is still lacking for a better understanding of the climate system. #MarineScience #Guests #Hurricane #Interdisciplinarity #IOUSP #Meteorology #Oceanography
- Equidade de mulheres na ciência oceânica: iniciativas para mudanças efetivas
No dia 09 de maio de 2022, nossa editora Jana del Favero moderou, juntamente com a professora Germana Barata (Unicamp), webinário intitulado Equidade de mulheres na ciência oceânica: iniciativas para mudanças efetivas . Esse foi o segundo dia do Programa de Seminários DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), organizado por membros do Comitê de Assessoramento da Década do Oceano no Brasil . Para trazer iniciativas que buscam mudanças efetivas rumo à equidade de mulheres na ciência, o webinário contou com a participação das seguintes mulheres: - Jacqueline Leta, da Gênero e Número , mostrando dados sobre a presença da mulher na ciência, - Mariana Andrade, da Liga das Mulheres para o Oceano , apresentando o Prêmio Marta Vannucci, - Fernanda Staniscuaski, do projeto Parent in Science , trazendo as iniciativas que o projeto desenvolve; - Catarina Marcolin, aqui do Bate Papo com Netuno, sobre a n ossa pesquisa de assédio em embarcações . Esse papo inspirador pode ser assistido pelo Canal do Youtube da Década da Ciência Oceânica: https://www.youtube.com/watch?v=fb1q8rKCs0s #NetuniandoPorAi #MulheresNaCiência #DécadaDoOceano #DEI #Equidade #catarinarmarcolin #janamdelfavero #AdicionarHashtagsAoFinal #UsarCadaPalavraEmMaíuscula #NetuniandoPorAí #NomeDaAutoraSeForDoBlog
- Tiradas do Netuno #22
Nós, seres humanos, incluímos mais um item alimentar no cardápio das aves marinhas: OS PLÁSTICOS ! As aves marinhas, confundem o plástico com algum item alimentar e os ingerem. Esses plásticos podem adsorver pesticidas (ou seja, as moléculas da substância em questão ficam aderidas/fixadas na superfície do plástico). E Bingo!... Além de todo o dano causado pela ingestão do plástico por si só, as aves ainda estão consumindo plásticos cobertos de pesticidas e outros poluentes! Para saber mais, acesse os posts “ Pesticidas e aves marinhas ”, publicado em 18/05/2017, e “ DO MAR AO AR: microplásticos em aves marinhas e costeiras ”, publicado em 10/12/2020. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno # MarianeSoares #CiênciasDoMar #AvesMarinhas #Pesticidas #Plásticos #Microplásticos #LixoNoMar
- Os furacões e seus nomes
Por Carolina Barnez Gramcianinov Ilustração: Silvia Gonsales A temporada de ciclones tropicais no Atlântico começou dia 19 de abril e já temos um furacão para entrar na história. Irma foi devastador e provavelmente não teremos mais furacões com esse nome no Atlântico. Você sabe por quê? Já se perguntou de onde vem os nomes dados aos furacões e por que isso é feito? Nomear os ciclones tropicais (ou furacões ) com nomes próprios, simples e curtos facilita a comunicação e os alertas à população. Antigamente, códigos envolvendo a latitude e longitude eram usados, mas isso causava certa confusão pela quantidade de letras e números. Durante a temporada de furacões é comum ter mais de um sistema atuando no Atlântico ao mesmo tempo e é importante que o alerta seja entendido claramente para cada um deles. A confusão entre furacões que ocorrem ao mesmo tempo e atuam em regiões diferentes ou em sequência era muito comum quando a notícia era passada, principalmente via rádio, o que atrasava e comprometia os alertas e planos de evacuação. A tradição de nomear furacões tem sua origem no Oceano Índico Oeste, onde as comunidades atingidas os nomeavam de acordo com o santo do dia. No início do século XIX, um meteorologista australiano passou a dar nomes femininos aos ciclones e essa prática foi adotada ao redor do mundo, especialmente por meteorologistas da Marinha e Exército durante a 2a Guerra Mundial. Apenas em 1978 nomes masculinos passaram a ser usados no leste do Pacífico Norte e, um ano depois, no Atlântico e Golfo do México. Atualmente, os nomes são escolhidos a partir de listas organizadas pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO, em inglês(1)). Existe uma série de listas para cada região oceânica afetada por ciclones tropicais, totalizando 10 grandes listas. Todas obedecem ordem alfabética, o que permite saber qual é o número do ciclone da estação. Em qualquer região, um ciclone tropical que começa com A é o primeiro da estação. Regiões com muita atividade de ciclones têm listas mais extensas. A lista do Atlântico e Golfo do México, por exemplo, possui 21 nomes por estação, a do Pacífico Norte Central possui apenas 12. Mas e, se durante a estação, houver mais furacões do que nomes? Cada região tem uma saída para isso. No Atlântico inicia-se o alfabeto grego, Alfa, Beta e assim por diante. Em outras regiões passa-se para a lista do ano seguinte, e em algumas existe até uma lista de nomes reservas! Cada grande região já tem uma lista que contempla nomes para mais de um ano. Quando se chega ao último nome da última lista disponível, volta-se à primeira. Por exemplo, no Atlântico temos 6 listas, isso significa que a cada 7 anos, as repetimos. Portanto, em 2023 estaremos usando a mesma lista deste ano! Por isso, às vezes, ouvimos nomes repetidos, ou, quando vamos pesquisar sobre um furacão aparece mais de um com o mesmo nome. Mas então há a pergunta: por que nomes de ciclones "famosos" como Katrina e Sandy não aparecem mais na lista? A resposta é que, por consideração às vítimas, ciclones que causaram muitos danos e mortes têm seus nomes retirados das listas. Nesse caso a WMO elege um nome com a mesma inicial para a substituição. Esse é o caso dos ciclones tropicais Haiyan (Filipinas, 2013), Sandy (EUA, 2012), Katrina (EUA, 2005) e Mitch (Honduras, 1998), por exemplo. Para mais nomes aposentados de furacões, clique aqui . O furacão Irma (2017) já está entre os mais intensos da história e foi o ciclone mais intenso a atingir os EUA desde o Katrina (2005). Outra característica marcante foi a quantidade de dias que ele ficou em sua intensidade máxima: foram cerca de 2 dias com ventos que atingiram quase 300 km/h (2). Os danos foram enormes e já se discute sua retirada da lista de nomes (3). Ele é o décimo nome com “I” a ser retirado da lista do Atlântico, sendo esta inicial a com maior quantidade de nomes retirados: Ione (1955), Inez (1966), Iris (2001), Isidore (2002), Isabel (2003), Ivan (2004), Ike (2008), Igor (2010), Irene (2011), Ingrid (2013). Se quiser saber qual será o nome do próximo ciclone tropical, confira as listas no site da Organização Mundial de Meteorologia1. Quer saber qual será o nome do próximo furacão? Veja na página do National Huricane Center: http://www.nhc.noaa.gov/ Referências: (1) https://public.wmo.int/en/About-us/FAQs/faqs-tropical-cyclones/tropical-cyclone-naming (2) http://fingfx.thomsonreuters.com/gfx/rngs/STORM-IRMA/010050RH1R0/index.html (3) https://www.usatoday.com/story/weather/2017/09/07/irma-likely-join-long-list-retired-hurricane-names-start-i/641999001/ Sobre Carolina Barnez Gramcianinov : Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre me interessei pelo impacto dos oceanos no tempo e no clima, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Desde que entrei na graduação, me apaixonei pela física dos oceanos e seus impactos em outros processos. Agora no doutorado, foi impossível não me encantar com a dinâmica e termodinâmica da atmosfera. Busco estar entre esses dois meios e acredito que ainda falta um entendimento integrado entre estas áreas para uma melhor compreensão do sistema climático. #ciênciasdomar #convidados #furacão #interdisciplinaridade #iousp #meteorologia #oceanografia #CarolinaBarnezGramcianinov
- Precisamos falar dos homens nas ciências do mar
Por Juliana Leonel ATENÇÃO: antes de me cancelar leia o texto até o final. Ilustração de Alexya Queiroz Ekman, Coriolis, Navier, Stokes, Reynold, Redfield... Muitos são os homens responsáveis por incríveis descobertas oceanográficas e, por isso, precisamos falar deles. Isso mesmo, você não entendeu errado. Mas o que eles têm em comum, além de serem homens? Vejamos alguns conceitos essenciais para a oceanografia e que levam o nome de quem os descobriu/inventou: - Efeito de Coriolis (Gaspard-Gustave de Coriolis, 1792-1843, era francês) - Transporte de Ekman (Vagn Walfrid Ekman, 1874-1954, era sueco) - Equação de Navier-Stokes (Claude-Louis Navier, 1785- 1836, era francês e George Gabriel Stokes, 1819-1903, era irlandês) - Razão de Redfield (Alfred C. Redfield, 1890-1983, era americano) - Número de Reynolds (Osborne Reynolds, 1842-1912, era irlandês). São em sua maioria europeus e realizaram seus feitos científicos em períodos nos quais esperava-se que as mulheres se interessassem apenas por casar, ter filhos e cuidar da família. Naquele tempo, frequentar uma universidade e obter um diploma era bastante incomum para uma mulher, para não dizer quase impossível, ou então restrito a algumas áreas consideradas "mais femininas", como literatura e artes. A presença feminina era temida de tal forma no ambiente científico que até para os pesquisadores homens, associar-se a uma mulher, poderia ser o fim da sua carreira. Vejamos o caso de Stokes que, em 1857, teve que abrir mão da sua posição no Pembroke College (Cambridge) porque o estatuto da instituição não permitia que ele se casasse; ele só retornou ao cargo 12 anos depois quando o estatuto foi revisado. Sir George Gabriel Stokes, co-autor das equações de Navier–Stokes equations, foi impedido de seguir em sua posição no Pembroke College de Cambridge por ter se casado. (Fonte: WikiCommons , domínio público) Além disso, mesmo que as mulheres conseguissem fazer um curso na área de ciência naturais ou exatas ou engenharia, não lhes era permitido participar das expedições oceanográficas - nos EUA, por exemplo, as mulheres só foram permitidas em embarques científicos a partir de 1959 e a primeira expedição liderada por uma mulher só ocorreu em 1968 com a americana Tanya Atwater. Drª Tanya Atwater, a primeira mulher a liderar uma expedição oceanográfica. Isso ocorreu apenas em 1968! A pesquisadora segue ativa - aliás, esta é a foto de seu perfil no ResearchGate , vale a pena acompanhar seu trabalho por lá. (Fonte: University of California , Copyright © 2006). E se fosse o contrário ou se as mulheres também pudessem seguir uma carreira em ciência? Se o Ekman não tivesse a bordo do Fram para estudar a deflexão dos icebergs para a direta do vento predominante? Como se chamaria o Efeito de Ekman hoje? Talvez Efeito de Catarina? Pode parecer exagero imaginar esses cenários, mas vamos relembrar que mesmo quando mulheres fazem descobertas elas são apagadas. Não podemos esquecer dos estudos de Eunice Foote de 1856 sobre dióxido de carbono como gás estufa e os efeitos no aquecimento do clima; no entanto, quem leva os créditos por isso é o irlandês Tohn Tydall que só falou disso em 1861. Pois é, ciência e descobertas não são sobre genialidade, mas sobre oportunidade (e visibilidade) . Outro cenário: enquanto Ekman se debruçava sobre seus estudos para entender o movimento dos icebergs, quem lavava sua roupa? Quem limpava sua casa? Quem lhe servia uma comida quentinha e gostosa (ok, estou supondo que a comida era quente e gostosa, mas como era sueco talvez sua comida favorita fosse gravlax - que sim, é gostoso, mas não é quente). Os livros não trazem essa parte, mas com certeza tinha uma mulher "dando uma forcinha" nessas tarefas… quem sabe uma mulher negra, visto que a escravidão na Suécia foi mantida até metade do século XIX. Agora vamos refletir sobre a origem de todos esses grandes pesquisadores, desbravadores e aventureiros… todos vindos do hemisférios norte (= Europa ou EUA). O quanto deixou-se de aprender - ou demorou-se mais para tal - porque o conhecimento vindo de outros povos foi desconsiderado? Por exemplo, no extremo meridional do Saara, está o que sobrou da cidade de Timbuktu, guardiã de milhares de manuscritos científicos antigos. Eles revelam um conjunto de conhecimentos próprios no campo da astronomia, sem que aquele povo tivesse qualquer contato com o desenvolvimento científico da Europa renascentista. Apesar de não ser um exemplo direto sobre oceanografia, serve para ilustrar como a hegemonia européia da ciência excluiu conhecimentos científicos que não vieram dos detentores do lugar de fala (= homem, branco, europeu). Por isso, precisamos falar sim sobre os homens (e tantos outros recortes) nas ciências do mar. Sugestão de leitura complementar: “Mulheres e o oceano: invisibilidade ou cegueira?”, por Juliana Leonel e Adriana Lippi para a revista Conexão de Saberes. #MulheresNaCiência #Oceanografia #MulheresNaOceanografia #Descobertas #JulianaLeonel
- Explorar, definir e fiscalizar: o mar como fonte de recursos
Por Jana del Favero É impossível listar todos os recursos fornecidos pelos oceanos, ainda mais considerando que frequentemente novos recursos marinhos são descobertos. No entanto, diversas nações e comunidades dependem economicamente ou tiram seu sustento do mar, caracterizando a chamada Economia Azul. Segundo a Política Nacional para os Recursos do Mar (PNRM) os recursos do mar são todos aqueles, vivos e não-vivos, existentes nas águas sobrejacentes ao leito do mar, no leito do mar e sua subsuperfície, bem como nas áreas costeiras adjacentes, cujo aproveitamento sustentável é relevante sob os pontos de vista econômico, social e ecológico. Os recursos pesqueiros e a diversidade biológica estão entre os chamados recursos vivos , e incluem recursos genéticos ou qualquer outro componente da biota marinha de utilidade biotecnológica ou de valor para a humanidade. Os recursos não-vivos do mar compreendem os recursos minerais (incluindo a própria água) e os recursos energéticos advindos dos ventos, marés, ondas, correntes e gradientes de temperatura. Inserem-se, ainda, entre os recursos em questão, as potencialidades do mar para as atividades de aquicultura marinha, turísticas, esportivas e de recreação. Dentre os recursos vivos, destacam-se os pesqueiros , que podem ser definidos como organismos aquáticos cuja captura gera benefícios para o homem, seja como alimento, renda ou recreação. Os recursos pesqueiros marinhos são obtidos através da pesca ou do cultivo, ou seja, da maricultura . Aproximadamente 2/3 dos estoques pesqueiros podem ser considerados como sobre-explotados, porque a retirada excessiva de biomassa, através das capturas, compromete a capacidade de reposição natural. O Brasil não reporta a produção oficial (captura e aquicultura) para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) desde 2014, com exceção dos atuns e afins (FAO, 2020). Entre os recursos não-vivos, destaca-se o petróleo e o gás natural . Nos oceanos, as descobertas e a produção de hidrocarbonetos situam-se nas plataformas e taludes continentais . Entretanto, a exploração se direciona cada vez mais para águas profundas, como as imensas reservas descobertas pela PETROBRAS na Bacia de Campos (RJ). Além do petróleo, outros recursos não-vivos (como os nódulos de manganês) e recursos vivos são frequentemente descobertos, principalmente em águas profundas e afastadas da costa. Isso gerou uma série de questionamentos sobre os direitos legais das nações para a exploração desses recursos, que culminou, em 1982, após 15 anos de discussões, na conclusão da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Apoiado pela maioria dos países-membros, este Tratado do Direito do Mar define o seguinte: 1) no Mar Territorial (ao longo das costas dos diferentes países, com até 12 milhas náuticas de largura - 1 milha náutica equivale a 1,852 quilômetros), o país costeiro tem soberania plena sobre as águas e o fundo do mar, embora os demais países conservem alguns direitos, como, por exemplo, a passagem de navios, chamada de passagem inocente; 2) na Zona Econômica Exclusiva (ZEE, localizada entre 12 e 200 milhas náuticas do litoral), o Estado costeiro mantém direitos exclusivos sobre os recursos das águas e do fundo do mar, devendo porém explorá-los de forma sustentável e, quanto à pesca, ceder aos outros países o que exceder à sua capacidade de exploração; 3) em Alto Mar (além da ZEE), nenhum país tem soberania, a pesca é praticamente livre e os recursos minerais são considerados pertencentes à humanidade, sendo sua exploração regida pela Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos (ISA). Deve-se ainda considerar que, quando a Plataforma Continental excede os limites da ZEE, o Estado costeiro tem direito aos recursos vivos e minerais do fundo do mar na área excedente, mas não aos das águas sobrejacentes. Esses conceitos são essenciais para que se definam os direitos e as obrigações dos países quanto à conservação e preservação dos recursos e do meio ambiente na área em que tem soberania. No Alto Mar, todos os países têm direito à pesca, que é limitada apenas por restrições vagas, imprecisas e com pouca fiscalização, ou seja, na prática é como dizer que o Alto Mar é de todos, quando na verdade não é de ninguém. No Brasil, criou-se a expressão “Amazônia Azul” , que abrange a ZEE brasileira mais a expansão da Plataforma Continental (pleiteada em 2004 à ONU). A criação desse termo foi uma tentativa da Marinha de voltar os olhos do Brasil para o mar, por ser fonte relevante de recursos e pela sua alta biodiversidade, equivalentes (ou até mesmo superiores) ao encontrado na “Amazônia verde”. É importante alertar que a velocidade com que exploramos os recursos marinhos é superior à velocidade de realização de pesquisas. É imprescindível estimar a quantidade de recursos existentes, saber quais cuidados devem ser tomados, os limites de uso e como remediar em caso de acidentes ou sobrexplotação. Além disso, é urgente aumentar a fiscalização para controlar irregularidades e, assim, efetivar a conservação dos recursos do Mar. #DescomplicandoNetuno #RecursosMarinhos #AmazôniaAzul #DireitoDoMar #JanaMdelFavero
- The fish of Alcatrazes Archipelago
By Natasha Hoff English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on April 14, 201 6 Illustration by Joana Ho To talk about Alcatrazes, I need to talk about my history with this incredible place. It started in 2011, when I learned about the archipelago in a lecture and decided to propose a project in the region, which would be developed in the context of a course. It turned out that our project was not selected by the course, but we were invited by the staff of the ESEC Tupinambás to execute it. Thus began a partnership, a project, a final paper (a completed thesis!), and a master's degree . Alcatrazes archipelago, São Sebastião, Brazil Too many unfamiliar terms and names? Well, calm down because I'm going to explain. Alcatrazes is an archipelago, predominantly rocky, formed by islands, islets, rock slabs, and patches. It is located on the northern coast of São Paulo, in the municipality of São Sebastião, approximately 43 km from the coast. The main island, the largest and more imposing than the other islands (visible from higher elevations in São Sebastião and Ilhabela), shares the archipelago name - Alcatrazes Island. And why Alcatrazes? Alcatraz is the popular name for the birds that are very abundant there. The Alcatrazes are Frigatebirds ( Fregata magnificens , Image2, left), but it can also refer to another species, the Atobá, or Brown booby ( Sula leucogaster , Image 2, right). It certainly is not the American island with an infamous maximum security prison! I have already received many questions about that Alcatraz Island as well… Very abundant bird species in the Alcatrazes archipelago: Frigatebird ( Fregata magnificens ; left) and Brown booby ( Sula leucogaster ; right) The second term that may be unfamiliar to the reader is "ESEC Tupinambás." ESEC is an abbreviation for Ecological Station, which is a type of fully protected Conservation Unit. In other words, the main objective of an ESEC is nature preservation and scientific research, and public visitation is not allowed. The Tupinambás ESEC was established in 1987 and has two nuclei. The first is formed by the Cabras and Palmas islands, which also make up the Anchieta Island archipelago, in Ubatuba. The second is composed of portions of the Alcatrazes archipelago in São Sebastião. But why only portions? I think it was a first attempt to show how important the region is, but it was not very well used by us (civil society and environmental agencies). To this day, the small protected portions remain the same. But this may change, and I will explain more about this later! ESEC Tupinambás map, on the northern coast of São Paulo state. Source: ICMBio/ESEC Tupinambás Last, but not least, we have the Delta area of the Brazilian Navy. This is a 710 km² area delimited around the archipelago for military training. Despite being, theoretically, important to Brazil, the shooting training brought severe negative impacts to the island of Alcatrazes, which was used as a target until 2013. Examples of these impacts include increased occurrence of successive forest fires, the suppression of about 12% of the original vegetation for the construction of support structures, and the introduction of molasses grass, an invasive exotic species. No work has been done to ascertain the effects on the marine biota. Currently, anchoring and fishing are prohibited throughout the Delta area. Although this is not its purpose, the Delta area represents the largest no-fishing zone in the coastal zone of the state of São Paulo. Having clarified these terms, we can begin the conversation about the work that I developed during my master's degree. When I finished my end of term paper, I realized that this place that fascinated me so much was severely lacking in basic information. So I found my opening and decided to pursue it. I had a broad idea for a project that was refined by my new advisor. I was migrating from chemical oceanography to biological oceanography (one of the wonders of being an oceanographer!), so being open to new proposals was fundamental! The idea was to evaluate the biotic integrity of the ecosystems in the Alcatrazes archipelago region using the demersal marine ichthyofauna (also known as the bottom-dwelling marine fish community) as an indicator of the environmental quality. I am often asked: what is biotic integrity? My typical answer is that it is the extent to which an ecosystem can maintain its health, despite external influences such as ship traffic, port activity, etc. The data I used came from three different sources: 1. A paper published in 1989 by Prof. Alfredo M. Paiva Filho (former director of the Oceanographic Institute at USP) and collaborators. This was an interesting dive into the history of work at the archipelago, as well as a glimpse into how the researcher instinct is born with us. The idea of collecting there came during a trip between Ubatuba and Santos, like one of those "clicks" of brilliant ideas we have. They went there, sampled, published, and this was the only work using demersal ichthyofauna in the area published up to that point! 2. In 2011, along with our abiotic survey, sampling was done to help in the preparation of the ESEC Management Plan (this would promote a better and more organized management of the ESEC). 3. New sampling was conducted in 2014 for this project. It was the first fishing trip for Alpha Delphini’s research boat, and it was a great experience for all of us involved! To evaluate the data, I used two methods: the Index of Biotic Integrity (IIB) and ABC curves (Abundance Biomass Comparison). These methods were established in the 1980s, but are still extremely underused in Brazil. The IIB is based on community characteristics that are considered indicators of ecosystem health. What would these characteristics be in a so-called healthy ecosystem? A greater number of species, among which the individuals are well distributed; with a greater occurrence of top predators, here represented by elasmobranchs, and specialists regarding food (piscivores or invertivores, for example). The presence of a greater number of young individuals (not capable of reproduction) can also be considered a positive characteristic, indicating that a particular habitat may be being used as an area for feeding and growth of the fish. On the other hand, ABC curves are based on the characteristics of the species: for example, when stressors are present, the dominant species will typically be the smaller, more numerous species with a fast reproductive cycle and short life cycle, which we call r-strategist species. Thus, we notice a greater number of organisms with small biomass, so the abundance distribution curve would predominate under the biomass curve in an impacted environment and vice versa. We recorded 90 species of fish, 12 of which were elasmobranchs. Among them, those that occurred in the three periods and are among the most abundant were: Dactylopterus volitans (Flying Gurnard), Prionotus punctatus (Atlantic Searobin) and Pagrus pagrus (Common Seabream). These, together with more than 30 other species, are considered the accompanying fauna of the shrimp fishery in southeastern Brazil, and can be discarded, sold as a mixture, or sold separately, such as hake, angler, five species of sole, etc. Most abundant species observed in 1986, 2011 and 2014: Dactylopterus volitans (Flying Gurnard) , Prionotus punctatus (Atlantic Searobin), and Pagrus pagrus (Seabream). Credit: Natasha T. Hoff The main results point to an environment that, although protected, is still recovering. In 1986, neither the Delta area nor the ESEC had been established. That is, there was nothing that protected the ichthyofauna of the region in any way, except for the distance from the coast. The environment was classified as poor and the abundance curve predominated under the biomass curve. The ecosystem had low species richness, one elasmobranch species (group formed by the rays, sharks, and dogfish), and low numbers of top predators (in this case, the piscivorous organisms, which feed primarily on fish). From this time until 2011, enforcement by the ESEC was incipient and therefore I attribute the presence of the Brazilian Navy and the Delta area to the protection and improvement of environmental quality in this period. Thus, the environmental quality went from poor to moderate and the abundance and biomass curves became closer. Many more species were recorded, including elasmobranchs, which increased from one to nine species, as well as fish-eating species, etc. As of 2011, the possibility of a more effective protection plan for the archipelago increased. This, associated with the presence of the Delta area, ensured a further improvement in environmental quality in 2014, which went from moderate to good, but the abundance and biomass curves remained close, indicating that there are still signs of stress in the fish community. Thus, it was possible to observe that, despite the limitations of the methods and data used, the results were relevant and consistent with the history of environmental protection around the Alcatrazes archipelago and the ESEC Tupinambás, which still needs more effective protection. With so little information about the archipelago, we decided to carry out a large bibliographic survey. We were able to map the archipelago, associating information in literature with data related to the susceptibility of each stretch of the archipelago to oil (for prevention in case an oil spill reaches the region, which I hope does not happen!) This mapping generates what we call the Environmental Sensitivity Chart to Oil Spills, or simply the SAO Chart. The chart includes information about the biota, marine currents, location of archeological sites, historical points, and the ESI (Index of Sensitivity of the Coast, which varies according to the capacity of penetration and permanence of the oil in different points of the region under study), among other relevant information. Environmental Sensitivity Chart to Oil Spill (SAO Chart) of the Alcatrazes archipelago region, São Sebastião - SP. Note: not original scale When making the chart, a large gap of knowledge about phytoplankton (a topic already addressed in this blog ) and primary productivity, species of marine invertebrates, algae, etc. was pointed out. Regarding the high biodiversity of the Alcatrazes archipelago, it is expected that the area will remain protected through the restrictions on fishing and boat traffic in the Brazilian Navy's Delta area, by the existence of the Tupinambás Ecological Station, and by the distance from the coast. Demersal fishing, for example, affects not only the target species, but those removed by bycatch, as well as disrupting the associated bottom surface habitats. The Alcatrazes archipelago represents a very important coastal region, and still very little is known about it. We need to understand its ecological relationships, occupation by, and use of the area by different organisms in order to support its conservation and management. Update: In 2016, another conservation unit was created in this area – the Alcatrazes Wildlife Refuge (REVIS) –, with 67,000 ha. The Management Plan, published in 2017, includes the register of many species occurring in the archipelago, as marine invertebrates, which was pointed out as a knowledge gap in the text. Public visitation is also allowed now (excluding the ESEC Tupinambás zones) and ruled by the REVIS Public Use Plan. Nowadays, military training uses only the Sapata Island, which was excluded from the REVIS. Want to know more? Conservation units: http://www.mma.gov.br/areas-protegidas/unidades-de-conservacao ESEC Tupinambás: Leite, K. L. (2014), Gestão e integração de uma Unidade de Conservação Marinha Federal (Estação Ecológica Tupinambás) no contexto regional de gerenciamento costeiro do Estado de São Paulo, Dissertação de mestrado, Escola Nacional de Botânica Tropical, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. My dissertation: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21134/tde-22092015-135056/pt-br.php Accompanying fauna and shrimp fisheries: Graça Lopes, R., A. R. G. Tomás, S. L. S. Tutui, E. S. Rodrigues, & A. Puzzi (2002), Fauna acompanhante da pesca camaroeira no litoral do estado de São Paulo, Brasil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 28(2), 173–188. Sedrez, M. C., J. O. Branco, F. Freitas Júnior, H. S. Monteiro, & E. Barbieri (2013), Ichthyofauna bycatch of sea-bob shrimp (Xiphopenaeus kroyeri) fishing in the town of Porto Belo, SC, Brazil, Biota Neotrop., 13(1), 165–175. Vianna, M., F. E. S. Costa, & C. N. Ferreira (2004), Length-weight relationship of fish caught as by-catch by shrimp fishery in the southeastern coast of Brazil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 30(1), 81–85. About the author: Natasha has a bachelor's degree in Oceanography from the University of São Paulo (USP), and a master's degree and PhD in Sciences (Oceanography, Biological Oceanography concentration area) also from USP. Currently, she is a post-doctoral researcher at the same university’s Oceanographic Institute. #MarineSciences #Alcatrazes #Fish #EnvironmentalProtectionAreas #Guests #JoanaHo
- Tiradas do Netuno #21
“Cação” nada mais é do que uma forma de chamar a carne de tubarões (e às vezes raias). Esse nome é usado há anos em peixarias para não afugentar clientes que poderiam ter medo de saber que estão comprando tubarão! Além da fama injusta de maus, há várias razões para não se comer cação… Para saber mais, acesse o post “Tubarão: caçador ou caça?” publicado em 17/05/2018. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Cação #Nadadeiras #Tubarão #Extinção #Peixe
- Como minha curiosidade me levou a publicar na Nature
Por Yonara Garcia Ilustração: Joana Ho Fazer pesquisa não é um mar de rosas e acho que quem está desenvolvendo uma sabe bem que muitos obstáculos, erros, burocracias etc., podem ocorrer durante o caminho. No texto “ Os desafios para chegar até aqui ”, eu contei um pouquinho sobre o making of da minha pesquisa durante o mestrado, onde abordo diversas situações que tive que contornar para conseguir entregar minha dissertação. E dentre estas situações, uma delas trouxe um plot twist bem positivo pra mim. Então senta que lá vem história! (Ixi, acho que com essa frase entreguei que já passei dos trinta rsrsrsrs). Minha pesquisa de mestrado consistiu, basicamente, no estudo do comportamento natatório da associação entre uma diatomácea e um ciliado, a fim de avaliar suas possíveis consequências ecológicas, por meio de filmagens em um sistema óptico tridimensional. Foi um estudo muito interessante, mas que teve vários desafios, como eu já contei no outro post. Entre esses desafios, um deles foi na etapa de experimentos, onde, após todo o sistema óptico estar pronto, alinhado, computadores em “perfeito” funcionamento, eu dependia que os organismos estivessem presentes no ponto de coleta no dia que me organizei. Mas não era bem assim. Às vezes, não aparecia nenhum exemplar pra me dar esperança ou apareciam poucos, insuficientes para analisar os dados estatisticamente. O jeito era me preparar e realizar coletas diárias até que os organismos surgissem e, então, fazer os experimentos. Em um desses dias, coletei as amostras de plâncton e comecei a triar as amostras no laboratório. Neste dia, não havia exemplares dos organismos que eu precisava para os meus experimentos. Depois de um tempo procurando, resolvi explorar a amostra, para ver o que mais de interessante poderia ter . Então a coloquei em um microscópio com maior resolução para explorar organismos bem menores que não eram possíveis identificar na lupa. A amostra estava linda, super diversa, com várias diatomáceas, dinoflagelados que lembravam naves espaciais, ciliados, entre outros, até que eu vi algo que me chamou a atenção. Uma diatomácea movimentando-se em associação com um ciliado. A diatomácea em questão era a Fragilariopsis doliulos e o ciliado era a Salpingella sp. E como eu sabia que não havia muitos registros na literatura sobre aquela associação, resolvi conectar uma super câmera (que é capaz de filmar os batimentos dos cílios de organismos diminutos) ao microscópio e filmar o deslocamento da associação. Na hora eu pensei “vou deixar registrado. Quando eu tiver tempo, posso trabalhar nesse material e, quem sabe, escrever uma nota para alguma revista científica”. Contei para meu orientador sobre os registros, deixei os arquivos guardados e voltei minha atenção para minha dissertação. Diatomácea Fragilariopsis doliulos em associação ao ciliado Salpingella sp. Fonte: Vincent et al, 2018 / CC BY 4.0 Um tempo depois, meu orientador fez uma viagem para França para visitar um laboratório que desenvolvia trabalhos compatíveis com a linha de pesquisa que ele estava desenvolvendo aqui no Brasil. Nesta parte da história, eu não sei bem como aconteceu, mas uma pesquisadora que havia participado de uma das expedições do Tara Oceans ficou sabendo que eu tinha feito aqueles registros curiosos e marcou uma reunião com meu orientador para conversar sobre o meu material. Em uma dessas expedições, ela e sua equipe identificaram a mesma associação que eu vi aqui nos mares do Brasil. Essa equipe havia desenvolvido um trabalho detalhado sobre esses organismos, com análises filogenéticas, microscopia eletrônica de varredura, entre outros. Escreveram o artigo científico e enviaram para a revista The ISME Journal: Multidisciplinary Journal of Microbial Ecology , que é publicada pela Nature, uma das revistas de maior impacto na ciência. Sempre que você envia um artigo científico para uma revista de qualidade, ele passa por uma série de revisões e, a partir dessas revisões, a revista decide se vai publicar o artigo ou não, ou se vai publicar, mas precisa de correção em certas partes, e no caso deste trabalho que eles enviaram, os revisores não aceitaram por um detalhe. Como era uma associação que ainda não tinha sido observada em organismos vivos e os únicos registros do artigo em questão eram dos organismos fixados, os revisores disseram que a associação poderia ser um artefato. Ou seja, ao jogar os reagentes para preservação da amostra (substâncias que adicionamos imediatamente após a coleta da amostra, como álcool 70% ou formaldeído, a fim de conservar tudo o que foi coletado exatamente naquele momento), os organismos poderiam ter se unido, indicando uma falsa associação, que não ocorria de verdade na natureza. Neste ponto, o grupo francês não tinha o que fazer. Ou arrumavam uma prova de que aquela associação existia de verdade ou todo aquele trabalho só seria publicado quando houvesse provas de que era uma associação verdadeira. E é aqui que eu entro. A pesquisadora então propôs uma colaboração. Eu e meu orientador participaríamos como coautores do artigo, ao ceder o material e assim, conseguiríamos publicar o trabalho a partir dessa parceria. Foi uma proposta muito boa, pois eu ainda não tinha artigos científicos publicados e, no início da carreira, conseguir um artigo em uma revista de grande impacto seria fantástico! Então cedemos o material, o artigo foi aceito e o vídeo que viraria uma nota para uma revista acabou fazendo parte de um artigo científico de uma equipe de grandes pesquisadores. Aqui eu poderia terminar o texto com a moral da história “Há males que vem para o bem”. Mas toda essa história me fez refletir sobre a essência da ciência. Pra mim, a essência da ciência é a curiosidade. Ser cientista é ser curioso. É querer descobrir o por quê das coisas e inventar mil maneiras para chegar a uma resposta. É querer entender como os sistemas, processos, funcionam. É explorar e fazer descobertas. É pensar, refletir, estudar, criar hipóteses. Então, esse vídeo que fiz em um dia que as coisas deram “errado” no meu trabalho de mestrado me fez lembrar por quê eu quis me tornar uma bióloga/ pesquisadora. E ao mesmo tempo me fez perceber que muito dessa essência tem sido perdida, pois hoje entramos num ritmo de produtividade que é exaustivo, que afasta as pessoas que estão chegando, que exclui quem não mantém o ritmo, que faz com que muitos abandonem a carreira por problemas de saúde mental. E isso está muito ligado ao nosso modo de avaliar a qualidade da instituição ou do pesquisador. Mudar isso não é algo simples, mas é preciso. Como diz Gundula Bosch, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins, em seu artigo “ Train PhD students to be thinkers not just specialists ” (“Treinar estudantes de doutorado para serem pensadores e não apenas especialistas”), “estudantes devem ser apresentados ao processo científico como ele é - com limitações e potenciais equívocos, aspectos divertidos, descobertas por acaso e alguns erros hilários”. E para você, qual é a essência da ciência? Referências: BOSCH, Gundula. Train PhD students to be thinkers not just specialists. Nature , v. 554, n. 7690, p. 277-278, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01853-1 VINCENT, Flora J. et al. The epibiotic life of the cosmopolitan diatom Fragilariopsis doliolus on heterotrophic ciliates in the open ocean. The ISME journal , v. 12, n. 4, p. 1094-1108, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41396-017-0029-1 #VidaDeCientista #YonaraGarcia #Ciência #Oceanografia #Biologia #BiologiaMarinha
- Parem de usar evidência anedótica em conversas sobre gênero
Tradução livre do artigo Stop using anecdotal evidence in conversations about gender , por Juliana Hipólito e Luisa Maria Diele-Viegas . Deixem os dados guiarem as discussões sobre igualdade. Ilustração de Caia Colla . Em nossa experiência como duas cientistas mulheres brasileiras, nós já vimos alguns colegas, a maioria homens, se baseando em evidências anedóticas - alegações baseadas em observações pessoais, sem dados coletados de maneira sistemática - para concluir que sexismo não é um problema no ambiente acadêmico. Frases como “tem muitas mulheres no meu departamento” ou “minha superior é mulher” são usadas com frequência para justificar suas crenças de que não existe viés de gênero na ciência. Alguns dos nossos colegas pesquisadores nos dizem que nossas reclamações sobre viés de gênero na academia são exageradas. Apesar disso, muitas mulheres experimentam diferentes formas de assédio, incluindo tentativas de coagir a uma atividade sexual ou, e comentários, gestos, e outros insultos que muitas vezes ameaçam nossa saúde mental. Quando Luisa Maria Diele-Viegas estava começando sua carreira, por exemplo, ela ouviu frases como: "Não vou respeitar uma mulher de cabelo vermelho e tatuagem." "Você não é merecedora dessa posição." "Você não tem capacidade de escrever um projeto." "Seu estudo é um desserviço para a área." "Você está muito estressada, é falta de homem?" e ainda, "Você é como um rolo compressor, e isso é ruim para seus colaboradores." Alguns sexismos são mais implícitos, mascarados como "preocupação” ou ainda refletindo pontos de vista bem estabelecidos culturalmente. Por exemplo, Juliana Hipólito já ouviu durante a sua carreira: "Não te convidei para esse trabalho porque você tem um filho." "Você realmente quer essa posição e ter menos tempo para estar com sua família?" Sigam os dados! Apesar de nossas experiências pessoais, estes exemplos sozinhos não são prova de um sexismo acadêmico persistente. Como cientistas, devemos sempre buscar evidências empíricas e não anedóticas para testar hipóteses. Existem evidências amplamente documentadas de discriminação no ambiente acadêmico que vão desde diferenças no salário até sub-representação em corpos editorais, comitês científicos e posições permanentes, especialmente as mais seniores. De certa forma, é bom saber que nossas experiências refletem os dados: mulheres ainda são discriminadas nas ciências. Historicamente, isso resultou em um intenso aumento no número de mulheres que abandonam sua carreira - fenômeno conhecido como " leaking pipeline " (= tubulação com vazamento) , principalmente nos estágios mais avançados das carreiras. De acordo com o Relatório Científico da UNESCO (2021) , as mulheres representam cerca de 45-55% dos graus de bacharel e mestre e 44% dos graus de doutores globalmente. Apesar disso, elas representam apenas 33,3% dos pesquisadores e 12% dos membros em academias de ciência ao redor do mundo, incluindo no Brasil. Homens cientistas são também mais passíveis de colaborar com outros homens cientistas. Consequentemente, este viés de gênero também é visto nas publicações. Nas ciências biológicas, menos de 40% das publicações têm mulheres como primeiras autoras, e menos de 30% têm mulheres como últimas autoras ou autoras sêniores (ser a última autora significa ser a líder daquela pesquisa). No campo da ecologia e evolução, especificamente na nossa área de pesquisa, apenas 11% dos principais autores de publicações são mulheres. Esses dados destacam o sexismo acadêmico, desafiando a evidência anedótica de nossos colegas acerca da igualdade de gênero na ciência. Humanos pensam em histórias, e as experiências pessoais acabam sendo os meios mais poderosos de argumentação do que simplesmente citar estatísticas secas. Apesar disso, aqueles que perpetuam o sexismo – sabendo ou não – e aqueles que buscam desmascarar isso devem lembrar dos dados: é lá que a história é de fato contada. Como podemos mudar este cenário? Soluções incluem ter mais mulheres em posições de liderança, ter espaços acadêmicos neutros onde o assédio sexual pode ser denunciado e verificado, e estar sempre em busca de novos meios para evitar a discriminação na ciência. Sobre as autoras: Juliana Hipólito Graduada em biologia pela UFBA com mestrado e doutorado pela mesma universidade. Professora visitante na UFBA. Professora e orientadora dos cursos de pós-graduação Inpa (Ecologia e Botânica) e UFBA (PPG Ecotav). Atua no campo da ecologia da polinização. Contato: juhipolito@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/1843831280195803 Luisa Maria Diele Viegas Doutora em ecologia e evolução e atualmente é professora e pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal de Alagoas. Sua pesquisa envolve a avaliação do impacto das ações do homem na biodiversidade, com enfoque em mudanças climáticas e vertebrados ectotérmicos terrestres. Também pesquisa os vieses implícitos e explícitos dentro da academia, considerando questões de gênero, raça, etnia, classe, sexualidade, pessoas com deficiência e suas intersecções. É líder climática, fundadora do projeto de divulgação científica Minha Amiga Cientista, uma das fundadoras do Fórum Clima Salvador, da rede Nordeste de Clima, da rede Kunhã Asé de mulheres na ciência e da rede de Mulheres na Zoologia. É consultora do projeto da UNESCO Girls in STEM and Digital Skills in Brazil , e integra a Organização para mulheres na ciência no mundo em desenvolvimento, também da UNESCO. Integra ainda a Comissão de Diversidade e Inclusão da Sociedade Brasileira de Herpetologia, o Comitê de Diversidade do Programa de Pós Graduação em Diversidade Biológica e Conservação dos Trópicos da UFAL e a Rede CoVida - Ciência, Informação e Solidariedade. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9032844663306862 #MulheresNasCiências #Convidados #ViésDeGênero












