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  • Quem são seus heróis científicos?

    Por Natasha Travenisk Hoff Ilustração por Joana Dias Ho . Sei que a vida de uma pesquisadora, principalmente de uma em formação, tem muitos altos e baixos, dificuldades de relacionamento, financeiras, de execução de projeto, de amostragem… enfim, “perrengues” não nos faltam! Mas… a parte boa disso é que nem só de “perrengues” vive um pesquisador em formação e, vez ou outra, nos deparamos com pessoas, professoras, pesquisadoras que nos inspiram a ser pessoas e profissionais melhores! Recentemente, fiz uma entrevista para participar de um treinamento em oceanografia. A entrevista seria em inglês e eu estava muito tensa se entenderia tudo e com as perguntas que me fariam, seja sobre meu currículo, experiências ou sobre a importância deste curso para a minha formação. De fato, essas perguntas vieram… mas também surgiu uma que, ao mesmo tempo, me deixou surpresa e feliz: quem eram os meus “heróis científicos”? E, claro, eu precisava dizer a razão para tal escolha… Rapidamente, três nomes vieram à minha mente e me senti muito privilegiada e feliz com essa escolha. E como justificar? Como escolhemos nossas “referências” científicas? São aquelas “máquinas” de publicações (para quem é do meio acadêmico, sabe a importância que se dá ao número de artigos que você publica)? São aquelas pessoas que fazem projetos muito diferentes e curiosos? São os ótimos professores? Os que fazem aquelas lousas perfeitas, que todo mundo inveja? São pessoas legais? Os critérios podem ser diversos e creio que apenas uma só qualidade não define uma referência… Ao longo do meu caminho acadêmico, percebi que um mestrado e um doutorado não se resumem a “apenas” aquele documento que apresentamos e defendemos diante de uma banca. São oportunidades de vivenciar o funcionamento da instituição onde estudamos, o que observamos quando nos tornamos representantes discentes; quando observamos como transmitir o conhecimento, durante as monitorias; quando aprendemos a nos portar diante de uma turma, seja em sala de aula, seja embarcada (para os oceanógrafos que atuam em embarcados cotidianamente); quando lidamos com as situações adversas que surgem durante uma aula ou trabalho de campo; quando nos relacionamos com nossos orientandos… tudo isso, afora as técnicas e amostragem que fazemos para desenvolver propriamente dita a dissertação ou tese! É esse conjunto de experiências que nos formam como mestres e doutores! Claro que há quem discorde… Finalmente, concluí que meus heróis científicos são definidos pela sua curiosidade, crucial para o desenvolvimento de qualquer trabalho científico, por serem bons pesquisadores, pelo seu empenho em fazer a instituição continuar a crescer, e, principalmente, por serem humanos. Quando eu digo humanos, refiro-me ao sorriso no rosto ao ensinar, à forma com que se relacionam com seus alunos em sala de aula, acolhedores, amigos, estabelecendo uma relação de respeito entre eles; mas também como orientadores, que efetivamente guiam seus alunos, mostrando-lhes essa curiosidade e animação em saber quais vão ser os resultados daquele trabalho, que “colocam a mão na massa” junto com você, que param para sanar as dúvidas e conversar sobre os tais “perrengues”, que acolhem quando estamos com problemas pessoais… somos todos falíveis – eles e nós -, a verdade é essa! Nem todo dia é bom, e precisamos aprender a lidar com isso… erramos, levantamos, aprendemos e refazemos… acertamos e comemoramos também… e ter essas pessoas ao nosso lado, faz com que o aprendizado seja melhor e os tombos menos doloridos. A essas pessoas, o meu muito obrigada! Sabemos que ser professor e pesquisador hoje em dia no Brasil está cada vez mais difícil, uma constante luta contra a desvalorização desses profissionais, financeiramente e pessoalmente. Portanto, digam-me : quem são os seus heróis científicos? Convido vocês a contar isso a eles! Saber que fazem a diferença para pelo menos um aluno/orientando renova as forças para seguir nessa batalha! Valorizemos os nossos heróis, a ciência, a universidade pública e gratuita, e todos os profissionais que fazem isso acontecer diariamente! Juntos somos mais fortes, saibamos sempre disso! Os meus heróis científicos! (Fotos de Natasha Hoff, com licença CC BY SA 4.0) Este post é dedicado a três pessoas muito queridas: June Ferraz Dias , minha orientadora, grande professora, amiga, companheira de aventuras, meu porto seguro perto mesmo longe; Marcia Caruso Bícego , a dona do melhor abraço, amiga, dona de um coração enorme, grande pesquisadora, que sempre se empenhou em dar seu melhor para a graduação e ajudar seus alunos de todas as formas; Michel Michaelovitch de Mahiques , amigo, grande pesquisador e um dos melhores gestores com quem pude conviver. Sobre a autora: Apaixonada pelo mar, pela música (tocando ou dançando, já até dei aulas de dança de salão!) e pela família. Sou oceanógrafa, mestre e doutora em Oceanografia (área de concentração Oceanografia Biológica) pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente, pós-doutoranda do IOUSP, iniciando os trabalhos em paleoceanografia aplicada a otólitos. Minhas principais linhas de pesquisa são química inorgânica, ecologia de peixes, otólitos e integridade biótica da ictiofauna. Contato: tashahoff@gmail.com #HeróisCientíficos #VidaDeCientista #VidaAcadêmica #Pesquisa #Inspiração #Ciência #Convidados

  • Pesticides and Seabirds

    By Jana del Favero and Fernanda I. Colabuono English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on May 28, 2017 Illustration by Joana Dias Ho Pesticides are substances, mixtures of substances, or even biological agents (such as viruses and bacteria) that can prevent, combat, or exterminate species that cause damage during the production, harvest, and storage of food, or that cause harm to public health (e.g. insect vectors of disease). They are important in agriculture because, by controlling pests, they promote an increase in crop production and/or quality. However, their indiscriminate use causes several environmental and human health problems, since they can also be toxic to non-target species. Non-target species include a multitude of animals, including you, me, and the seabirds that we will focus on in this post. Many pesticides are named according to the type of pest they attack, for example: insecticides are used for insect control, herbicides for weed control, fungicides for fungus, among several other names. “Agrochemical”, a term which we commonly hear, is the legal term for pesticides and is defined in the Brazilian Law 7802/89, also called the Agrochemicals Law. They can be classified as agricultural or non-agricultural (learn more about them here ). The transport of agrochemicals from soil into bodies of water occurs mainly due to surface runoff generated by rainfall or crop irrigation. Rivers act as an expressway for agrochemicals, quickly transporting them to lakes and the ocean. As many agrochemicals are highly stable chemical compounds (i.e. difficult to degrade or be metabolized), they persist in the environment for a long time. Thus, they can be transported over long distances and even occur in regions where they have never been used, such as in Antarctica! Once in the oceans, pesticides are absorbed by plankton (reminder about them here ) and are transported, via food, to higher trophic levels in a process called biomagnification. An example of biomagnification is shown in the figure below, where you can see how the concentration of a substance in ppm (parts per million) increases at each trophic level: producers < zooplankton < small fish < large fish < fish-eating birds. It is important to remember that many fish and birds have migratory habits, serving as a means of transporting pesticides to other regions. Example of biomagnification in a trophic chain (image by © cmassengale ) One of the first and most famous pesticides, DDT (an acronym for Dichloro Diphenyl Trichloroethane, that coined the verb “to dedetize”), was widely used during and after World War II to combat mosquitoes that carry malaria and typhus, because it was cheap and highly effective in the short term. However, in the long term it had harmful effects on the environment, as cautioned by the American biologist Rachel Carson in her book "Silent Spring." Carson claimed that DDT caused the thinning of eggshells, resulting in reproductive problems and the death of birds. The book "Silent Spring" helped ban DDT in the United States in the 1970s, followed by several other countries (it was only in 2009 that the ban made its way to Brazil!). Although DDT was banned in most countries decades ago and has never been used in Antarctica, in her post-doctoral work, Fernanda analyzed the eggs of some Antarctic bird species, such as penguins, petrels and skuas, and found the presence of DDT and other pesticides in them, illustrating how these substances persist in the environment and reach even remote areas. But don't think that the transfer through the food web (as shown in the biomagnification figure) is the only way pesticides reach birds. Humans have added another food item to the seabirds' menu: PLASTICS ! Seabirds accidentally mistake plastic items for a food and ingest them, potentially irreversibly damaging the individual (e.g. obstruction of the digestive tract, decreased appetite, etc.). Furthermore, plastics absorb pesticides (i.e. the molecules of the substance in question adhere to the surface of the plastic). In addition to all the harm caused by ingesting the plastic alone, the birds are exposed to the pesticides and other pollutants coating them! In a paper published in 2010, Fernanda and her collaborators evaluated the plastic objects ingested by birds sampled in southern Brazil, and found pesticides on them. Albatross chick found dead with plastics in its stomach (Photo by Chris Jordan , public use) Unfortunately, the concentration of pesticides is increasing year by year, and they are found in the soil, in the atmosphere, in the water, and in living animals. Brazil is one of the largest consumers of agrochemicals in the world, with indiscriminate use of pesticides in many cases. This picture needs to change. Seabirds and the health of your own body will thank you! For more information: Colabuono, F.I., et al. (2010) Polychlorinated biphenyl and organochlorine pesticides in plastics ingested by seabirds. Marine Pollution Bulletin 60, 630-634. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X10000366 Colabuono, F.I., et al. (2015). Organochlorine contaminants and polybrominated diphenyl ethers in eggs and embryos of Antarctic birds. Antarctic Science 27(4), 355–361. doi:10.1017/S0954102014000807 Colabuono, F.I., et al. (2016). Persistent organic pollutants in blood samples of Southern Giant Petrels (Macronectes giganteus) from the South Shetland Islands, Antarctica. Environmental Pollution 216, 38-45. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116304298. Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde / Organização de Fernando Ferreira Carneiro, Lia Giraldo da Silva Augusto, Raquel Maria Rigotto, Karen Friedrich e André Campos Búrigo. - Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015. 624 p. Disponível em: http://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/DossieAbrasco_2015_web.pdf Fernanda Colabuono has published another post here . #Agrotoxic #Seabirds #MarineScience #Pesticides #Plankton #Plastic #JanaMDelFavero #Guests

  • Tiradas do Netuno #17

    As baleias-jubarte migram todos os anos entre a Antártica e o Brasil. O percurso de cerca de 4.500 km é percorrido duas vezes ao ano, no caminho da Antártica para o Brasil, em que elas gastam em torno de dois meses de ida e mais dois meses de volta. Na Antártica elas se alimentam e no Brasil elas se reproduzem. Somando o tempo de migração e o período de reprodução, elas ficam cerca de oito meses sem se alimentar. Isso mesmo, um baita jejum! Para conseguir essa façanha, esses gigantes de 15 metros e 40 toneladas precisam comer muito durante os quatro meses na Antártica e fazer um grande estoque de energia, em forma de gordura corporal. E as baleias, comem o quê? Elas comem pequenos crustáceos, parentes dos camarões, de cerca de 5 cm de comprimento, que formam gigantescos grupos, chamados krill. O krill é a base da cadeia alimentar na Antártica, em que praticamente todas as espécies dependem dele, direta ou indiretamente. Por isso, a teia alimentar da Antártica é apelidada carinhosamente, pelos cientistas, de “krill-dependente”. Para saber mais, acesse o post “Um giro pelo oceano: entendendo o vai e vem das baleias-jubarte” publicado em 09/06/2015. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarinha #BaleiasJubarte #MigraçãoDasBaleias #DanielaAbras #BatePapoComNetuno

  • ​Por que às mulheres não é dado o direito de serem "apenas" boas em suas profissões?

    Por Juliana Leonel Mulherada: levanta a mão quem nunca ouviu, falou ou viveu essa frase. Se você levantou a mão, ou você é privilegiada, ou talvez esses questionamentos não façam parte do seu cotidiano, ou talvez você more em Marte; e está tudo bem! Eu quero ir um pouco além da frase acima. Isso porque, mais do que não ser permitido a nós mulheres a mediocridade , não é permitido que sejamos "apenas" boas no que fazemos. Medíocre aqui não é no sentido de "pessoa pouco capaz, sem talento", mas no sentido de "qualidade média, no meio ou entre dois extremos". Engraçado como, de forma geral, tendemos a usar apenas o pior significado da palavra... engraçado ou efeito do patriarcado? Afinal, esse termo é mais usado para justificar porque mulheres têm menos conquistas e/ou atingem menos cargos de chefia/destaque, recebem menos prêmios, etc. Como assim? - você pode estar se perguntando. Calma, vou explicar... Ter um desempenho medíocre não impede (nem dificulta) que homens descrevam suas atuações como excelentes, ou ainda, se abstenham de concorrer a cargos ou se candidatar a empregos quando cumprem pouco mais da metade dos pré-requisitos ... A mediocridade também não abala a auto estima deles que se vangloriam de cada um de seus feitos como sendo imprescindíveis para a humanidade. Olho à minha volta (e aqui não me refiro especificamente ao meu departamento ou universidade, mas ao sistema acadêmico como um todo) e vejo dúzias de homens que dão péssimas aulas; que cobram produção e prazos absurdos de seus orientados (sem fazer o mínimo do que é esperado de um orientador) e ainda reclamam quando não tem suas expectativas atendidas. Homens que, quando estão em carg​os de chefia, conduzem suas obrigações de forma bem "meia boca" (geralmente sobrecarregando secretárias e secretários). No entanto, falam e agem como se fossem os melhores e mais preocupados docentes; gabam-se de darem as melhores oportunidades aos seus estudantes (#sqn) e contam como é sofrido e desgastante serem chefes e terem que cuidar de todo o trabalho burocrático. Agora, você mulher​​​ que, apesar de ser boa pra caramba, vai toda noite dormir achando que é uma fraude, me diz uma coisa: por que esses homens continuam existindo? Por que continuam ocupando cargos elevados, ganhando visibilidade e prestígio? A resposta é simples: porque o sistema é dominado por outros tantos iguais a eles que não tem o menor interesse em mudar isso. E sabe por quê? Quando mulheres mais qualificadas começam a ocupar o mesmo espaço que homens medíocres, estes podem começam a perder espaço (prestem atenção que fui cautelosa aqui usando o "podem", pois o que há por aí é a manutenção de homens medíocres nos cargos em privação de mulheres muito mais qualificadas). Quer um exemplo? ​A ​Academia Brasileira de Ciência (ABC)! São mais de 100 anos de história, mas: a) demorou 50 anos para ter a primeira mulher como membro titular (a maravilhosa Marta Vannucci ); b) nunca teve uma presidenta; c) só teve 2 vice-presidentas (a segunda eleita apenas em 2019); d) somente nas eleições de 2019 houve paridade na escolha dos novos membros; e e) as mulheres representam menos de 20% dos membros titulares. Quero ressaltar que​ eu​ trouxe o exemplo da ABC devido ao papel dessa instituição. Ela é um espaço político importante, onde articula-se políticas públicas e empenha-se para dar mais espaço e visibilidade para a ciência brasileira. Ou seja, é (ou deveria ser) uma instituição importante para a busca pela equidade. No entanto, como esperar que uma instituição, onde mais de 80% dos seus membros titulares são homens, articule políticas de equidade? Outro dado importante sobre os membros da ABC é que, na maioria dos casos, as pesquisadoras têm currículos muito melhores do que os homens que estão lá (a maioria delas são bolsistas PQ nível 1A - nível mais alto entre as bolsas de produtividade concedidas pelo CNPq - o que não ocorre para eles). Ou seja, para mulheres alcançarem a mesma posição que homens, elas precisam trabalhar muito mais sim! Aí Juliana, mas você está forçando a barra aqui falando de uma instituição que a maioria dos acadêmicos não fará parte mesmo. Ok, é justo. Então, vamos falar de algo mais mundano na academia. De novo mulherada: levanta a mão quem nunca ouviu uma das duas frases abaixo na tentativa de explicar a ausência (ou baixa representatividade) de mulheres entre os palestrantes de um congresso: "Infelizmente não encontramos mulheres para palestrar no nosso evento" "É muito difícil encontrar mulheres para falar sobre esse tópico" Seja na ABC ou no Congresso Brasileiro de… (complete com a sua área de atuação) o fato é sempre o mesmo: "mulheres nunca são boas o suficiente para ocupar espaços reservados aos homens". E isso, infelizmente, não é verdade apenas na academia. Ou você já esqueceu que o primeiro banheiro feminino no senado brasileiro foi construído apenas há 6 anos atrás ? Qual a solução? Infelizmente, ela é bem complexa, pois envolve não apenas mudanças de pensamento individual como também mudanças estruturais. Vou citar aqui apenas mudanças individuais, mas que são os primeiros passos para colocar o dedo na ferida, apertar​, torcer ​ e fazer o sistema gritar por mudanças: - As mulheres existem e precisam ser vistas, então: vamos ler mulheres, citar mulheres, elogiar mulheres, dar voz às mulheres ; - Passou da hora de incluir mulheres nas listas de bibliografias para as disciplinas que ministramos, na lista de revisoras quando submetemos um artigo, nas bancas que organizamos; - Precisamos indicar e cobrar a participação de mulheres como palestrantes em eventos; - Questione a representatividade nas bibliografias usadas para escrever projetos, artigos, livros; - E o mais importante de tudo, se ao fazer alguma dessas coisas aparecer a dúvida " será que ela é boa o suficiente para ser citada, indicada, lida... " se questione se você faria o mesmo com um homem . Além de mudar nossos hábitos​,​ precisamos mudar ​as ideias preconcebidas. Afinal… "São as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher em qualquer área; que impedem as mulheres de falar, e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando, tal como ocorre com o assédio nas ruas, que esse mundo não pertence a elas. É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades — assim como treina os homens a ter essa atitude de autoconfiança total sem nenhuma base na realidade" (Rebecca Solnit, Os homens explicam tudo para mim) #MulheresNaCiência #JulianaLeonel #Feminismo #Academia

  • Propagação de ondas e o caso do tsunami no Brasil

    Por Nandara Bortoli (Fonte: Nandara Bortoli ©) Na última semana, o aumento das atividades sísmicas do vulcão Cumbre Vieja em La Palma (uma das Ilhas Canárias) chamou a atenção nas notícias aqui no Brasil. Mas por que um vulcão do outro lado do Atlântico chamou tanto a nossa atenção? Muitos veículos de comunicação, inclusive alguns bem sensacionalistas e prevendo um apocalipse, noticiaram que se houver a erupção, a costa do Brasil será atingida por um tsunami. No dia 19 de setembro de 2021 o temido vulcão entrou em erupção e nossa costa continua intacta. De qualquer modo, vamos entender um pouco mais sobre o assunto que causou tanto alarme e fez algumas pessoas quererem fugir para as montanhas, além de divertidos memes (pois somos brasileiros né?)? Na evolução do planeta Terra, houve períodos de grande atividade que promoveram a modificação dos ambientes rapidamente em relação a escala de tempo geológica. Um grande número de ilhas oceânicas têm origem vulcânica e,em função disso, apresentam um potencial de fragmentação rochosa dos vulcões, com possibilidade de deslizamentos no seu entorno. Caso estejam próximas ao mar, pelo tamanho dessas rochas e a velocidade de transporte até encontrar o oceano, tendem a gerar tsunamis de alta intensidade que se propagam por longas distâncias, como cruzar uma bacia oceânica em poucas horas, causando impactos em regiões distantes do ponto que iniciou a geração do tsunami. Mas o que são os tsunamis? Tsunamis são ondas de gravidade que se propagam na superfície do oceano, geradas a partir de uma perturbação inicial, (ex: terremotos, deslizamentos submarinos ou subaéreos) que são extremamente energéticos e parte dessa energia é transferida para a coluna d’água, formando essas ondas intensas e com grande amplitude. O Vulcão Cumbre Vieja localiza-se na porção sul da Ilha de La Palma, que pertence ao Arquipélago das Canárias e é uma das ilhas mais jovens deste arquipélago. O vulcão tem uma área e volume subaéreo correspondente a 220 km² e 125 km³, respectivamente. Sua altura atinge 6 km, medidos a partir do fundo oceânico, dos quais 2 km estão acima do nível do mar. O Cumbre Vieja apresenta uma área de instabilidade de 20 km de comprimento e 8 km de largura, o volume de material que pode gerar o deslizamento pelo colapso das paredes do vulcão é de aproximadamente 200 km³. Devido à instabilidade do Cumbre Vieja, sabe-se que parte deste vulcão deslizará para dentro do Oceano Atlântico, em algum momento no futuro. Não se sabe, no entanto, quando e qual será o tamanho deste deslizamento, mas devido sua localidade em La Palma, parte do colapso desta parede vulcânica irá potencialmente gerar um tsunami, que tem inquietado a comunidade científica por anos. Como os cientistas através da modelagem numérica podem nos ajudar a prever o que está por vir? Com o objetivo de investigar o impacto e tempo de propagação de um tsunami, gerado devido a um colapso parcial do Vulcão Cumbre Vieja, até algumas cidades da costa brasileira (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e Florianópolis), nosso grupo de pesquisa realizou a modelagem de propagação das ondas que seriam geradas. Para isso, foi utilizado um modelo numérico, onde foi criado três cenários para o deslizamento, considerando deslizamentos de 20 km³, 40 km³ e 80 km³, que são dados fornecidos pelo projeto de pesquisa europeu TRANSFER (“Tsunami Risk And Strategies For the European Region”, nesse site tem informações sobre o projeto: https://cordis.europa.eu/project/id/37058 ), que mede continuamente a estabilidade dos flancos do vulcão. A tentativa foi de avaliar a chegada das ondas na costa do Brasil, e para isso foram criados marégrafos virtuais que medem a altura da onda. Para os cálculos, levamos em consideração os dados que nos foram fornecidos e também estudos publicados anteriormente, pensando em como ajustar para o mais próximo do real caso aconteça este fenômeno e também para realizar a propagação das ondas. O tempo de simulação foi de 18h, tempo necessário para garantir que as ondas geradas atingissem todas as cidades de interesse na costa brasileira. O sertão vai virar mar? No caso em discussão, com a perturbação inicial localizada próximo da Ilha de La Palma, a costa norte brasileira - até a cidade de Natal (RN) - , poderia ser a parte que sofreria o maior impacto, pois está diretamente voltada para a região do evento. O local que seria mais afetado (com a onda de maior amplitude) seria Recife (o mar avançaria 4,85m; 6,9m e 9,8m; para os experimentos de 20 km3, 40 km3 e 80 km3) 6:08h após o início da propagação. Já em Florianópolis, o local que o tsunami chegaria por último dentre os locais que foram considerados de interesse para este estudo, a onda chegaria após 10:27 h e com amplitude de 0,49m (20km³), 0,7m (40km³) e 0,98m (80km³). Resultados das diferentes simulações para distintas cidades brasileiras (Fonte: Nandara Bortoli ©) Apesar do nosso estudo mostrar que sim, a costa brasileira seria afetada no caso do deslizamento de parte do Cumbre Vieja, não há sinais claros que isso irá acontecer durante a erupção. Diversos grupos de pesquisadores estão monitorando a região constantemente e neste domingo, 19 de setembro de 2021, o vulcão entrou em erupção. Então, mantenha-se informado e leia notícias com fontes seguras, antes de planejar sua fuga para as montanhas. Referência: BORTOLI, N.; FETTER, A. MODELAGEM NUMÉRICA DE TSUNAMI OCASIONADO PELO COLAPSO LATERAL DO VULCÃO CUMBRE VIEJA, LA PALMA, ILHAS CANÁRIAS: ANÁLISE NA COSTA BRASILEIRA . In: OMARSAT , XIII, 2019, Arraial do Cabo- RJ, p. 380-384. Sobre a autora: Me chamo Nandara, sou oceanógrafa formada pela UFSC, mãe da Lívia e vegetariana. Amo viajar, ler, praticar atividade física e aprender (principalmente sobre os oceanos). Este trabalho foi realizado durante minha iniciação científica na graduação em oceanografia sob orientação do prof. Dr. Antonio Fetter. Este trabalho foi apresentado no congresso OMARSAT XIII em 2019. Instagram pessoal: @n.bortoli instagram profissional : @oceanografia_brasil e-mail: nandara.oceanografa@gmail.com #Tsunami #Vulcao #CienciasDoMar #convidados #BatePapoComNetuno #Oceanografia #Sísmica #CumbreVieja #TsunamiNoBrasil

  • Tiradas do Netuno #16

    O mar profundo é um ambiente bastante oligotrófico, isso é, com grande escassez de alimento. Cada vez que uma carcaça da megafauna (tubarões, golfinhos e baleias principalmente) afunda, há um verdadeiro banquete que se divide em diferentes estágios. Os peixes grandes se alimentam dos pedaços maiores, e, aos poucos, toda aquela biomassa vai sendo consumida por diferentes animais da teia trófica . Existem até pequenos poliquetas (do gênero Osedax) que colonizam os ossos das carcaças e por ali permanecem por muitos meses ou anos, até que toda a gordura dos ossos seja consumida. Para saber mais, acesse o post “ A extraordinária vida associada às carcaças de baleias no mar profundo ” publicado em 31/03/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarin ha # MarProfundo # Carc açasDeBaleia #TeiaTróficaNoMarProfundo

  • Quem come quem? Descomplicando a teia trófica marinha e a alça microbiana

    Por Jana M. del Favero e Juliana Leonel Independentemente do tipo e local, os ecossistemas operam diariamente trocando energia e matéria. De maneira geral, os organismos autotróficos (produtores primários) produzem biomassa a partir da matéria inorgânica usando a radiação solar como fonte de energia, ou seja, eles realizam fotossíntese. Há também os organismos que utilizam apenas a energia química (e não solar) para produzir matéria orgânica, realizando a quimiossíntese (como ocorre, por exemplo, nas fontes hidrotermais ). Essa conversão de compostos inorgânicos em orgânicos (= produção de biomassa) é o alicerce que dá suporte para a vida dos demais organismos nos oceanos. Exemplo de cadeia alimentar pelágica (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Os produtores primários são então consumidos pelos consumidores primários, que, por sua vez, são consumidos pelos consumidores secundários e assim por diante. Esse arranjo linear de transferência de energia e matéria orgânica através de vários níveis tróficos é chamado de cadeia alimentar (ou cadeia trófica). A cadeia alimentar pelágica começa com o fitoplâncton ou o bacterioplâncton como produtores primários que formam o primeiro nível trófico. Algumas espécies de zooplâncton, que se alimentam diretamente dos produtores primários (como copépodes e salpas), compõem o segundo nível trófico. Níveis tróficos subsequentes são formados pelas espécies carnívoras do zooplâncton (como Chaetognatha), e pelos carnívoros que se alimentam de outros pequenos carnívoros (incluindo medusas e peixes). O mais alto nível trófico é ocupado por aqueles animais que não têm predadores (além dos humanos), podendo incluir tubarões, algumas espécies de peixes ósseos, aves e golfinhos. Há evidências para sugerir que o número de níveis na cadeia alimentar pelágica varia com a localidade e pode ser determinado pelo tamanho individual dos produtores primários. O número de níveis tróficos pode chegar até seis no oceano aberto (pobre em nutrientes e com produtores primários de menor porte), até cerca de quatro nas plataformas continentais e apenas até três em zonas de ressurgência e regiões polares (ricas em nutrientes e com produtores primários de maior tamanho, sendo que muitas vezes os peixes se alimentam diretamente desses grandes produtores primários). A energia passa de um nível para outro conforme um organismo se alimenta de outro de um nível inferior. Porém, apenas cerca de 10% da energia é transferida de um nível para outro, ou seja, a maior parte da energia está na base da cadeia trófica, diminuindo a cada nível trófico. Transferência de energia ao longo da malha trófica. (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Na realidade, raramente temos cadeias alimentares lineares simples no mar, onde um organismo preda o outro, que preda o outro, que preda o outro e fim. Praticamente todas as espécies podem ser consumidas por mais de uma espécie, e a maioria dos animais comem mais de um tipo de alimento (como as espécies onívoras e detritívoras). Algumas espécies mudam as dietas (e os níveis tróficos) ao longo do ciclo de vida, ou são parasitas, ou são até mesmo canibalistas. Além disso, a cadeia alimentar bentônica também está ligada à produção pelágica: algumas espécies bentônicas filtradoras (por exemplo, cracas e mexilhões) alimentam-se diretamente do fito/zooplâncton e outras são indiretamente dependentes da produção pelágica. Assim, esse sistema é retratado com melhor precisão como uma rede alimentar com interações múltiplas e variáveis entre os organismos envolvidos, a chamada teia trófica . Exemplo de teia trófica marinha (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Seja lá qual for o número de níveis tróficos e de interações, os organismos que fazem parte das teias tróficas são responsáveis pela produção de carbono orgânico particulado (COP) e carbono orgânico dissolvido (COD). Essa produção ocorre através da morte de células, alimentação incompleta do zooplâncton e excreção de resíduos, por exemplo. Tanto o COP como o COD têm importantes papéis para a manutenção da vida nos oceanos. O COD, devido ao seu tamanho, é mais dificilmente aproveitado pela maioria dos organismos. No entanto, as bactérias têm capacidade de assimilar essa forma de carbono e reintroduzi-la na teia trófica, disponibilizando matéria e energia adicional para os níveis tróficos superiores, fechando o que chamamos de alça microbiana . Ela é de particular importância no aumento da eficiência da teia alimentar marinha por meio da utilização do COD, que normalmente não está disponível para a maioria dos organismos marinhos. Esquema mostrando a alça microbiana (em laranja). COD = carbono orgânico dissolvido (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Para saber mais: Recomendamos o seguinte vídeo: Fonte: Pinet, P.R. 2014. Invitation To Oceanography. 7a edição. Jones & Bartlett. Learning. 662 p. #DescomplicandoNetuno #TeiaTrófica #CadeiaAlimentar #AlçaMicrobiana #Oceanografia #BiologiaMarinha #OceanografiaBiológica #BatePapoComNetuno #JanaMDelFavero #JulianaLeonel

  • Conservação da biodiversidade: sobre mulheres, desafios e representatividade

    Por Clarissa Ribeiro Teixeira, Julia Cavalli Pierry e Mariane Barbosa Santos Novelli Ilustração por Verônica Lorraine. “Estou de pé sobre o sacrifício de milhões de mulheres antes de mim pensando no que eu posso fazer para deixar esta montanha ainda mais alta para que as mulheres que venham depois de mim possam ver mais longe.” (Legado – Rupi Kaur) O Brasil é o país com o maior número de pessoas conservacionistas assassinadas por ano. É também o quinto país em que mais matam mulheres. É preciso começar assim, de forma dura e indigesta – tal qual essa realidade – para assimilarmos desde o começo que todas as mulheres brasileiras conservacionistas são, também, sobreviventes. Mesmo sendo historicamente colocadas à margem da sociedade, o Brasil é um dos países com a maior porcentagem de artigos científicos produzidos por mulheres, seja como autoras principais ou coautoras. O pioneirismo feminino na ciência brasileira é marcado por grandes nomes, como o da bióloga e sufragista Bertha Lutz (1874-1976). Especialista em anfíbios anuros, Lutz catalogou mais de 4.000 espécies nacionais e foi também a segunda mulher brasileira a ocupar um cargo de servidora pública, ao tornar-se secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Seu pioneirismo ultrapassou o âmbito científico e chegou na atuação política ao assumir a liderança na luta pelo direito das mulheres ao voto e pela igualdade de gêneros, e ao fundar a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Bertha Lutz durante Conferência de São Francisco realizada em 1945, onde lutou para incluir o termo “mulheres” no documento que fundou a ONU (Fonte: Arquivo Nacional com licença CC BY 3.0). Outra grande referência é Maria Tereza Jorge Pádua . Agrônoma e conservacionista, participou da criação do IBAMA e foi responsável por gerar mais de oito milhões de hectares de áreas protegidas no Brasil, englobando parte das Unidades de Conservação da Amazônia, o Parque Nacional do Pantanal, a Chapada Diamantina e o Arquipélago de Fernando de Noronha. Em 2016, foi a segunda mulher na história a receber a Medalha John C. Philips – a mais alta condecoração do Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Além da inestimável contribuição para a conservação da biodiversidade brasileira, o trabalho destas e de outras pioneiras abriu caminho para a atuação de muitas outras que vieram posteriormente. Inspiradas por elas, convidamos quatro mulheres que atuam ou atuaram na conservação para compartilhar experiências vividas ao longo de suas trajetórias. A bióloga Daniela Fettuccia atuou em projetos de educação ambiental, e desenvolveu suas pesquisas de pós-graduação no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Durante oito anos, Daniela estudou o tucuxi ( Sotalia fluviatilis ) - uma das espécies de boto que ocorre na região. Em um de seus estudos, ela avaliou a variação morfológica entre esqueletos de tucuxis e botos-cinza ( Sotalia guianensis ), que até pouco tempo eram consideradas uma única espécie, contribuindo assim com informações relevantes para a ecologia e conservação destes animais. Bióloga e ativista, Luciana Leite esteve presente em um dos maiores desastres ambientais da atualidade: auxiliou a combater o fogo e resgatar animais queimados ou debilitados durante as queimadas no Pantanal mato-grossense. Devido ao seu engajamento e à receptividade da comunidade local, Luciana atualmente lidera o coletivo Chalana Esperança, uma iniciativa criada juntamente com Cecília Licarião, Daniella França e Lua Benício e que busca desenvolver projetos de educação e sensibilização quanto aos problemas que ameaçam a biodiversidade pantaneira. Luciana Leite - Ilhas de alimentação durante queimadas no Pantanal (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0) Ainda adolescente, Maria Emilia Morete (Mia), já se considerava uma ativista ambiental contra a caça das baleias. Sempre teve consigo o desejo de ajudar na conservação desses animais e, ao se tornar bióloga, trilhou um caminho em direção a esse objetivo. Especialista em estudos de ponto fixo utilizando a ferramenta teodolito, Mia e “Teo” - como apelidou carinhosamente seu equipamento - atuam juntos há quase 25 anos em estudos de baleias e golfinhos. Em 2016, Mia fundou o Instituto Verde Azul - VIVA que atua na educação, pesquisa e ativismo e tem como principal objetivo sensibilizar as pessoas para a conservação dos mamíferos aquáticos. Bióloga e professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Michele de Sá Dechoum trabalha desde o seu mestrado com ecologia de espécies exóticas invasoras, buscando obter informações que possibilitem a gestão e o manejo dessas espécies. Também coordena o Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas - LEIMAC, e é gestora da base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Seu estudo teórico e prático colabora de forma primordial para a conservação de ecossistemas nativos brasileiros em diferentes frentes de atuação. Painel das mulheres conservacionistas entrevistadas: Mia Morete, Daniela Fettuccia, Luciana Leite e Michele de Sá Dechoum (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0). Quando questionadas sobre representatividade feminina ao longo de suas carreiras, as entrevistadas reforçam sua importância: “não apenas na área ambiental, mas também na literatura, música, cinema, teatro, esportes – precisamos ter referências de mulheres!” – reflete Michele . Luciana lembra que, quando criança, ouvia sobre mulheres que mudaram a história da conservação ambiental no mundo, mas que essas pareciam muito distantes da sua realidade — brasileira e nordestina. Além de exemplos femininos na ciência e ativismo, Mia evidencia o quanto mulheres do seu cotidiano foram e seguem sendo fontes de inspiração, destacando Berna Barbosa, guarda parque há mais de 30 anos no Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Já Daniela destaca a honra de ter sido orientada por uma das maiores referências na pesquisa de mamíferos aquáticos, a Dra. Vera Maria Ferreira da Silva, e complementa: “considerando todos os lugares que já visitei durante a pós-graduação, tenho notado que o número de mulheres assumindo posição de destaque tem crescido notavelmente, felizmente”. Essa atuação, entretanto, segue acompanhada pelas dificuldades inerentes às questões de gênero: “na minha percepção, mulheres têm que ser muito mais produtivas, fazer ‘muito mais por merecer’ do que homens, para que consigam atingir seus objetivos. Acho também que somos menos ouvidas e reconhecidas em nossos ambientes de trabalho, que são majoritariamente masculinos”, reforça Michele . Pensando em soluções coletivas que poderíamos adotar enquanto sociedade para mudar esse cenário, Michele continua: “precisamos seguir lutando pelos nossos direitos, sermos engajadas, falarmos sobre desigualdades entre gêneros, sempre que possível. Precisamos que isso faça parte da nossa práxis e do nosso discurso”, e Luciana complementa: “além de conversarmos abertamente sobre o tema, precisamos exigir políticas institucionais que fomentem ambientes acadêmicos e científicos inclusivos e amigáveis para todes”, com um acordo geral de que um dos caminhos necessários para alcançarmos tais mudanças é a educação. Evidentemente, o papel das mulheres na conservação da biodiversidade no Brasil vai muito além do meio acadêmico e científico: professoras, educadoras ambientais, ativistas, mulheres de comunidades tradicionais, ocupantes de cargos administrativos, gestoras de unidades de conservação e muitas outras vêm exercendo funções de destaque. Em Cananéia-SP, por exemplo, um grupo de artesãs caiçaras conhecidas como Mulheres da Enseada da Baleia atuam na produção de peças artísticas sustentáveis por meio do reaproveitamento de redes de pesca descartadas. Ao reutilizar material pesqueiro que estaria poluindo o ecossistema marinho, essa iniciativa contribui de forma direta na conservação local, gera empregos e renda para as mulheres da região, além de sensibilizar a comunidade local a repensar seu consumo. Outro exemplo são as Guerreiras da Floresta - um grupo de mulheres criado para auxiliar na defesa do território do povo Guajajara no Maranhão, por meio do combate aos madeireiros e garimpos ilegais e de debates sobre a importância da natureza para os povos indígenas em escolas locais. Ao olharmos para o protagonismo feminino na conservação brasileira, podemos perceber que apesar dessa diversidade de atuações, não observamos uma pluralidade de mulheres e, consequentemente, de suas distintas realidades em todos esses cargos. Muitos dos espaços conquistados - principalmente no meio acadêmico e científico - são ocupados majoritariamente por mulheres cisgênero e brancas. Reflexo de uma cultura escravocrata, ainda hoje os obstáculos são maiores e as oportunidades mais escassas para aquelas que sofrem outros tipos de opressão na sociedade em que vivemos. Assim, é necessário que reconheçamos nossos privilégios e que, a partir deles, busquemos formas de ampliar o acesso à formação acadêmica para todas que desejarem e, principalmente, que valorizemos a atuação de todas em qualquer frente de conservação, respeitando o conhecimento e a cultura dos povos nativos e a importância da luta de todas nós. A conservação ambiental e a justiça social podem e devem caminhar juntas. “É importante lembrar que, em um país racista e classista como o Brasil, sou uma mulher cercada de privilégios (...) a minha luta feminista não se baseia apenas na minha vivência pessoal enquanto mulher e cientista ou ambientalista, mas sim nas experiências e obstáculos enfrentados por outras mulheres, em toda a sua diversidade.” (Luciana Leite) Esse texto nasceu com o intuito de homenagear as mulheres que atuam na conservação da biodiversidade brasileira. Ao longo do processo, percebemos que essas trajetórias não foram construídas apenas com conquistas, mas também com obstáculos que variam de acordo com as diferentes realidades. Enquanto mulheres, biólogas e atuantes em um projeto de conservação socioambiental que se reconhecem em posição de privilégio, compartilhamos a gratidão pelo caminho trilhado pelas que vieram antes, o reconhecimento das que lutam todos os dias para permanecer atuando e o desejo de contribuir com aquelas que buscam trilhar o mesmo caminho. Que esse texto possa inspirar e tornar a montanha um pouco mais alta para todas nós. Foto das autoras - Mariane, Julia e Clarissa - ao final de um dia de coleta de dados em campo (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0). Sobre as autoras Clarissa Ribeiro Teixeira Sou Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas (UFPR), Mestre em Zoologia (UFPR) e Doutora em Ecologia (UFSC). Atualmente sou pesquisadora colaboradora do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e do Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC), onde atuo como técnica de Ecologia Comportamental no Projeto Boto-Cinza (Petrobrás Socioambiental). Sempre fui fascinada pela etologia e desde a minha graduação atuei em projetos de pesquisas com mamíferos marinhos nesta linha de pesquisa. Durante o meu doutorado, resolvi mudar meu foco e comecei a trabalhar com biomarcadores (isótopos estáveis) para avaliar o uso de habitat e ecologia trófica da megafauna marinha. Desde então, esse tema se tornou minha paixão! Se quiser saber um pouco mais sobre mim me segue lá no Twitter (@ClaTeixeira), entra no meu site (sites.google.com/view/clarissarteixeira) ou me manda um e-mail (clarissa.rteixeira@gmail.com) Julia Cavalli Pierry Sou Bacharel em Ciências Biológicas e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atuo como técnica de campo e pesquisadora responsável da linha de Padrões Populacionais no Projeto Boto-Cinza do IPeC. Pesquiso os padrões populacionais e comportamentais de cetáceos há quase dez anos e sou completamente apaixonada por esses animais e seu habitat desde criança. Além de procurar borrifos no mar, amo pedalar, escrever, dançar e fotografar. Se quiser conferir algumas fotografias e saber mais sobre meu trabalho me segue no Instagram (@ju.pierry) ou envia um e-mail ( juliapierry@yahoo.com.br ). Mariane Barbosa Santos Novelli Bacharel em Ciências Biológicas (Univasf), Mestranda em Zoologia (UFPR) e Designer Gráfico nas horas vagas. Combinação que me permite atuar, hoje, no setor de Comunicação do Projeto Boto-Cinza do IPeC e com algumas das coisas que mais gosto: conservação da biodiversidade, educação ambiental, divulgação científica e, é claro, o mar. Alguns dos meus projetos estão no meu portfólio ( https://www.behance.net/marianebsnovelli ) e também podemos trocar uma ideia pelo meu Instagram (@marianebsnovelli ) ou e-mail ( marianebsnovelli@gmail.com ) . Referências: Amarante, Suely. Kalil, Irene. 2018. Pesquisadoras falam sobre mulheres e pesquisa científica. Portal FioCruz - Pesquisadoras falam sobre mulheres e pesquisa científica Camargo, Suzana. 2016. Maria Tereza Pádua é primeira brasileira e segunda mulher a receber a maisreceber mais alta condecoração ambientalista do mundo. Conexão Planeta - https://conexaoplaneta.com.br/blog/maria-tereza-padua-e-primeira-brasileira-e-segunda-mulher-receber-mais-alta-condecoracao-ambientalista-do-mundo/ Fowks, Jacqueline. 2018. Brasil, o país mais letal para defensores da terra e do meio ambiente. El País - Brasil, o país mais letal para defensores da terra e do meio ambiente Gustafson, Jessica. 2019. Brasil caminha para liderar ranking mundial da violência contra mulher. Portal Catarinas - Brasil caminha para liderar ranking mundial da violência contra mulher Marasciulo, Marília. 2019. Bertha Lutz, a bióloga pioneira no movimento de igualdade de gênero. Revista Galileu - Bertha Lutz, a bióloga pioneira no movimento de igualdade de gênero - Revista Galileu | Sociedade (globo.com) Melo, Karina. 2020. Mulheres indígenas e crise climática: vulnerabilidades e contribuições fundamentais. Todos os olhos na Amazônia - Mulheres Indígenas e crises climática: Vulnerabilidades e Contribuições Fundamentais | (todososolhosnaamazonia.org) Tokarnia, Mariana. 2019. Mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados pelo Brasil. Agência Brasil - Mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados pelo Brasil #MulheresNaConservação #Biodiversidade #Representatividade #MulheresNasCiências #Convidados

  • Como tomar decisões sobre biodiversidade? Minha experiência na IPBES

    Por Carla Elliff Ilustração de Alexya Queiroz Fazer trabalhos em grupo sempre causa certa tensão, especialmente quando não temos total escolha sobre quem serão nossos colegas de equipe, não é? Tenho várias memórias de trabalhos de escola e projetos em que a vontade era largar tudo ou pegar tudo e fazer do meu jeito sozinha, só para acabar logo com aquilo! Óbvio que nenhuma dessas soluções é a ideal e, aos poucos, a gente vai aprendendo algumas habilidades e estratégias (além de respirar fundo!) para lidar melhor. Esse aprendizado de ouvir e compreender é talvez um dos menos valorizados em um mundo onde o ego fala mais alto. No entanto, quando dois ambientes que infelizmente têm muito ego, como a ciência e a política, se encontram, como fazer esse trabalho em grupo render um resultado benéfico para todos? Recentemente tive a oportunidade de acompanhar um processo para a definição do escopo e planos de trabalhos da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos ( IPBES ) na sua 8ª plenária. As escolhas eram indissociáveis de visões históricas e políticas, pontuadas pelas orientações de especialistas. IPBES é uma instituição relativamente nova, estabelecida em 2012, cujos arranjos administrativos são manejados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA - ou UNEP, em sua sigla em inglês que aparece tão frequentemente por aí). Uma comparação comum para começar a entender o que é essa plataforma é pensar nela como o “ IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima) da biodiversidade”. Se você nunca ouviu falar da IPBES, não se preocupe: você não está só! Nesse texto , a Dra. Carla Washbourne, pesquisadora no Reino Unido, elenca algumas razões do porquê uma organização tão essencial ainda não é tão conhecida. A primeira eu já mencionei: a plataforma é bastante recente, ganhando maior reconhecimento ano a ano (especialmente após o seu relatório global alertando sobre perda de biodiversidade, lançado em 2019, e sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2020). Segundo, a plataforma foca essencialmente em produzir relatórios técnicos e documentos relevantes para políticas públicas, com algumas ações apenas mais recentemente de comunicação para além desse público mais restrito. E, por último, eles mexem numa ferida que muitos querem ignorar, a crise global da biodiversidade, mas que felizmente está ganhando os holofotes. Capa do relatório da avaliação global de biodiversidade e serviços ecossistêmicos da IPBES, onde foi apontado que 1 milhão de espécies de fauna e flora correm o risco de extinção. (Copyright © 2019, Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES)) Qualquer país membro das Nações Unidas pode se tornar membro da IPBES e, assim, participar das discussões sobre avaliações globais e regionais sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Além dos Estados membros e da equipe da plataforma (formado por uma espécie de conselho, secretaria e painel de especialistas), há duas redes de atores sociais e algumas dezenas de organizações observadoras que congregam indivíduos e entidades interessados no tema. Ou seja, são muitas contribuições vindas dos mais variados setores! E isso é ótimo para garantir visões de mundo diferentes, mas também exige muito diálogo, paciência e compreensão. Minha participação na plenária de 2021 (IPBES-8) se deu por meio de uma das organizações observadoras credenciadas, a rede de especialistas em serviços ecossistêmicos em início de carreira YESS – Young Ecosystem Services Specialists . Faço parte dessa rede de jovens pesquisadores e profissionais desde 2013, mais ou menos, quando estava no mestrado e ela foi fantástica para buscar recursos e ajuda no desenvolvimento do meu trabalho! Todos os anos, a YESS organiza uma delegação de membros para ir à plenária da IPBES. Em 2020, devido às incertezas da pandemia, a plenária foi cancelada. Agora em 2021, tendo mais tempo para buscar um formato alternativo que cumprisse com os objetivos do evento, a plenária se deu de forma inteiramente virtual. Há muito o que se dizer sobre os prós e contras dessa adaptação e isso está sendo estudado com muito cuidado pela equipe IPBES para saber como melhor conduzir a plenária nos próximos anos (talvez um formato híbrido?). Ok, falei um monte sobre como essa gente toda se organiza para discutir biodiversidade e serviços ecossistêmicos, mas como isso de fato acontece e o que se produz nessas discussões? Mencionei o relatório global de 2019 da plataforma, vamos tomá-lo como exemplo. Antes de virar um relatório disponível para o público geral, fornecendo um diagnóstico baseado em evidências e pronto para informar governos, este documento passou por um longo processo. Três anos antes de sua publicação, na 4ª plenária da plataforma, todos os membros interessados se reuniram para decidir sobre o escopo dessa avaliação global de biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Este foi o momento quando delegações de diversos países precisaram chegar em um consenso sobre o conteúdo do relatório, depois de muito estudarem uma prévia do material. Uma vez acordado, este documento de escopo foi então usado como guia para os especialistas, que foram os autores do relatório final (que antes de finalizado passou por mais várias rodadas de revisão por pares!). Relatório escrito, revisado, disponibilizado para os membros da IPBES? Vai para a plenária para ser aprovado oficialmente! Esse processo pode parecer longo e trabalhoso, mas é muito importante para produzir um material que seja útil para políticas públicas, aplicável para os membros da plataforma e que represente de fato o estado da arte do assunto. Não participei desse processo de avaliação para o relatório global e, com base no que observei aqui na plenária deste ano, imagino que tenham sido discussões extremamente detalhadas (alguns colegas me disseram que em plenárias anteriores, algumas sessões se estenderam até às três da manhã!). E são nesses detalhes que vemos algumas posições políticas importantes, que cada membro quer ver refletidas no relatório final. Por exemplo, fiquei muito feliz em ver que diversos países pediram a inclusão de menções específicas para “ecossistemas marinhos” ao longo dos documentos sendo avaliados na IPBES-8, enfatizando a importância de se equilibrar as avaliações do meio terrestre e aquático. Por outro lado, fiquei angustiada em outros momentos por não poder falar nada quando as discussões ficavam em torno de trocas de palavras que aparentemente não mudavam em nada o conteúdo! Este é um dos lados ruins das organizações observadoras, pois elas fazem exatamente isso: apenas observam o processo durante a plenária (porém, contribuímos em diversas outras etapas, onde aí sim podemos expressar nossas preocupações e considerações, como já vou exemplificar). Fiquei também impressionada com a insistência sobre alguns pontos, como a tentativa de evitar mencionar o Acordo de Paris nominalmente em alguns momentos. Me pareceu que ainda há muito para se caminhar num entendimento que biodiversidade é indissociável de mudanças climáticas (tanto que o IPCC e a IPBES acabaram de lançar um relatório conjunto sobre o assunto), já que para muitos países (Brasil dentre eles) esses dois tópicos são trabalhados ainda de forma não integrada. Além disso, assuntos como crescimento econômico, capitalismo, colonialismo e matrizes energéticas renderam muitas intervenções dos presentes (com certeza com algumas pessoas xingando atrás dos microfones e câmeras desligados). Talvez uma das partes mais interessantes da plenária tenham sido as discussões que tivemos entre os membros da delegação YESS e de outras redes de atores, organizadas pela ONet . Em uma semana pude trocar ideias com pessoas de diversos países (numa mistura de inglês, espanhol, português!), todas aprendendo com o processo e criando um ambiente muito amigável e de cooperação. Como resultados da IPBES-8 tivemos a aprovação dos documentos sendo avaliados, discussões importantes para manter a plataforma atualizada, e as seguintes mensagens de encerramento foram preparadas por nós, observadores vinculados à ONet, como atores observadores de todo esse processo: “Agradecemos à IPBES pela excelente organização da plenária neste formato virtual. Parabenizamos as delegações dos Estados Membros, toda a equipe IPBES, autores e revisores, e a grande comunidade de atores por sua perseverança e dedicação em manter essa plataforma de ciência-política viva e significativa. Gostaríamos de notar que houve uma sub-representação de regiões valiosas do mundo, a maioria das quais se localizam no Sul Global, nesta plenária e expressamos nossa preocupação quanto a isso sobre a robustez do processo da IPBES nesse contexto. Devemos levar em consideração também o contexto de pandemia: ao passo que um formato virtual permitiu que mais membros da delegação jovem participassem, foi mais difícil também acompanhar inteiramente toda a agenda de reuniões, além de haver menos oportunidades para networking para todos. Recomendamos um formato híbrido para o futuro. Chamamos para ação os Estados Membros da IPBES para que aumentem seus esforços para treinamento e os estimulamos a garantir consultas inclusivas com atores relevantes em todos os níveis. Pedimos que as reuniões regionais sejam abertas aos atores. Saudamos o relatório da oficina IPBES-IPCC e pedimos veementemente que membros da IPBES abordem e lidem com as crises das Mudanças Climáticas e da Biodiversidade de forma simultânea. Reconhecemos a inclusão dos ambientes de água doce e marinhos nos relatórios de escopo das avaliações do Nexo e Mudanças Transformativas. Recomendamos que autores da IPBES considerem inteiramente problemas marinhos, com base em material já existente como as Avaliações Globais do Oceano da ONU para evitar duplicação de esforços. Finalmente, recomendamos que a atenção devida seja dada dentro da avaliação do Nexo para o acesso e repartição justa e equitativa como uma opção para fornecer uma abordagem sustentável para a área financeira.” Foi minha primeira participação em um processo decisório intergovernamental como esse e, devo dizer, cada vez vejo mais que o lugar do cientista é para muito além do laboratório! Para mais informações, sugiro visitar o canal do YouTube da IPBES , além de conhecer a plataforma brasileira de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, a BPBES (Brazilian Platform on Biodiversity and Ecosystem Services) . #VidaDeCientista #IPBES #IPBES8 #ForNature #BPBES #YESS #Biodiversidade #ServiçosEcossistêmicos #CiênciaEPolítica #TomadaDeDecisões #CarlaElliff

  • Oceanography on Ice

    By Katyanne M. Shoemaker Illustration by Joana Ho The first time I saw sea ice, it seemed like a mirage. As we approached it on the German research vessel Polarstern , other scientists who had previously done Arctic research started pointing out the sea ice in the distance. It just looked like a low hanging cloud over the ocean. But as we got closer, I finally realized the first bit of ice in the distance was a peninsula-type outcropping from an immense realm of frozen water, and we were heading straight into it. Our ship was a double-hulled ice breaker, and it easily pushed through the marginal ice zone with thin and broken chunks of ice. After a few hours of steaming, the ice became thicker, and you could feel the ship moving a little more slowly, yet 1-meter-thick ice was still no challenge for the ship. Our second day in the ice, we reached even thicker areas, but the ship persisted, often needing to back up and ram the thickest ice (3+ meters) multiple times to break through. Sometimes, the entire ship would tilt to one side and remain for several minutes, turning a normal corridor into a hill to be climbed. Although slightly annoying (possibly more so for those with motion sickness) and difficult to sleep through, ship life continued as normal through the backing and ramming operations. After all, labs needed to be set up and science needed to be done! A) The ice sheet appeared as a shimmering white band on the horizon as we approached. B) The marginal ice zone was easy for the ship to cut through, as it had loosely packed ice that was fairly thin. C) As the ship moved further north into the ice sheet, the ice was thicker and harder to move through. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) So why all this effort? Why were we trying to force ourselves into this thick ice sheet? Well, this was part of the yearlong MOSAiC (Multidisciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate) Expedition. Details of my experience leading up to this trip can be found here . The goal of the expedition was to study one stable piece of ice for an entire year, by allowing the ship to be frozen in the ice in the fall during the freeze-up, drift with the ice across the pole throughout the winter and spring, and then melt out in the summer, somewhere (hopefully) in the Fram Strait. Ocean circulation and wind currents are forces constantly acting on the ice, pushing huge sections across the Arctic Ocean. In September of 2019, when the Polarstern entered the ice, a team of physical oceanographers, sea ice physicists, and modelers carefully chose one special piece of ice to call home, our floe . A map of the drift path during the MOSAiC expedition. The German icebreaker Polarstern drifted with the Arctic ice for nearly a full year, only leaving the chosen floe in June to exchange passengers and restock supplies in Svalbard. (Image credit: Matthew Shuppe, License CC BY 4.0) The ‘M’ of MOSAiC stands for Multidisciplinary, which this expedition most certainly was. Teams of scientists worked together to plan sampling locations, drill holes in ice a few meters thick from which equipment could be deployed, and carry out intensive sampling. Sea ice physicists did regular transect walks around the floe to measure ice depth, snow depth, and numerous other variables. Massive helium-filled balloons were tethered to the ice and carried equipment high into the clouds to measure atmospheric conditions. Seawater and zooplankton were collected from the side of the ship using wenches to send gear thousands of meters down. There was even a Remotely Operated Vehicle (ROV) that was able to perform measurements and collect samples (including zooplankton for my research) from directly under the sea ice. The ROV, named Beast, being prepared for a dive under the sea ice (left). The ROV was tethered with an orange cable which carried information to the controllers in a small hut on the ice. On this deployment, Beast towed a zooplankton net behind it, which was released here by my lab mate (right). (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Throughout the cold (down to -35°C), dark winter, scientists worked on this ice floe collecting samples from the ice, ocean, and atmosphere. Luckily for me, my role in the expedition took place in the summer, when the Arctic sees 24 hours of sunlight and temperatures stay within a few degrees of freezing (generally -2 – +2°C). At these relatively warm temperatures, the ice can melt quickly from above and below. When the surface ice melts, you can see beautiful blue freshwater ponds ( meltponds ), which can eventually melt all the way through to mix with the seawater underneath. The ice also melts on the underside as light returns and temperatures increase in the Spring. This melting water brings with it microscopic organisms that were trapped in the ice when it formed, including photosynthetic ice algae . Once released back into the ocean, these ice algae can take advantage of the nutrients and sunlight to start a phytoplankton bloom. This transition to a bloom period was exactly what I was interested in catching. Blooming phytoplankton in the ocean usually cascades into a burst of life higher in the food chain. My project in the MOSAiC Expedition was to look at what zooplankton in the Arctic are feeding on, and I was especially interested to see if they were feeding on ice algae directly or waiting until it was released into the ocean. Zooplankton in the Arctic come in many different sizes, from single-celled microzooplankton to jellies, pteropods, and krill that you could pick up with your hands. I was especially interested in copepods which are highly abundant throughout the oceans, but are pivotal in the Arctic food web. A helicopter view of the ice sheet and the ship shows varying shades of blue. The light blue areas on the ice are ponds of melted water. As the ponds get deeper, they can melt all the way through to the seawater below. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Diversity abounds under the ice! Contents of a zooplankton net tow show various species and life stages of copepods and other zooplankton. The large orange copepod in the lower middle is a Paraeuchaeta, the fast swimming red ovals are known as Ostracods, and the animals with the long red antennae are Calanus copepods. Hundreds of hours were spent at sea sorting these animals for experiments and to photograph and preserve for lab analysis. (Video credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Different species of copepods have different life strategies. Some, like the blue glowing Metridia , are active all year and eat anything available to them, including phyto- and zooplankton and dead sinking particles. Others appear to be strict carnivores, like the large Paraeuchaeta. By far the most abundant group of copepods I saw in the Arctic were the Calanus copepods which have typically been considered herbivores but may also take advantage of smaller animal prey if available. The Calanus copepods feast in the phytoplankton-abundant summer surface water and build up fat stores in a lipid sac . This fat helps the copepods survive the long winter in a hibernation-like state known as diapause . The fat (Omega-3 fatty acids, like in your healthy fish oil supplements) also just happens to be super tasty to just about everything living around the copepods, and they are often on the menu for many whale species in the Arctic as well as polar cod. The summer melt season in the Arctic brings with it light and food! These images show the developing green color in Calanus copepods’ guts, indicating a change in food type and abundance. The oil sac inside of these animals is also growing as the copepods eat, to store energy for the upcoming winter. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Because being able to eat and store lipids is so important for copepods, their lives are delicately entwined with the seasonal rhythms of sunlight and ice melt. Some species of copepods only begin reproducing when there is an abundance of food, to ensure the survival of the largest number of their offspring. Other species lay eggs before the bloom period, in expectation that there will be sufficient food when the copepod babies (called nauplii ) reach feeding age. My research focus is to understand what they are currently eating in relation to what is available in the surrounding seawater, and the timing of their feeding activity. This work will become a baseline for current feeding cues in the central Arctic. We cannot currently predict if or how these seasonal patterns may be disrupted in a warming ecosystem. What we do know is that the polar regions are experiencing climate change more dramatically than anywhere else on Earth. How will changes in the rate and start of the ice melt season affect the seasonal patterns of the organisms that rely on sea ice? Only time will tell what the fate of the Arctic ecosystem will be. Additional reading: To find out more about how climate change is affecting the polar regions, see here: https://worldoceanreview.com/en/wor-6/climate-change-impacts-in-the-polar-regions/ For more information on the MOSAiC Expedition, including daily blog entries from a year at sea, visit: https://mosaic-expedition.org/ #MarineScience #Arctic #PolarResearch #Oceanography #MarineBiology #Copepod #Zooplankton #MOSAiC #MOSAiCExpedition #ClimateChange #SeaIce #Ice #KatyanneShoemaker

  • Tiradas do Netuno #15

    Os cavalos-marinhos são peixes ósseos que se destacam no reino animal por uma característica peculiar: os machos ficam grávidos! Os machos são os responsáveis por todo cuidado parental após a fecundação: eles carregam os filhotes durante a gestação, sentem as “dores do parto” e por fim dão à luz! Para saber mais, acesse o post “ Querida, estou grávido! ” publicado em 11/04/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarinha #CavalosMarinhos #Peixes #PeixesÓsseos #DiaDosPais

  • Mulheres da academia: uni-vos!

    Por Ju Leonel A academia é historicamente composta por homens, brancos, de meia idade, héteros que estabelecem regras de entrada e permanência considerando seus próprios interesses. Então, não é surpresa que qualquer pessoa com perfil diferente deste encontre dificuldades que podem levar ao abandono do meio acadêmico. Nesse contexto são inúmeros os fatores que fazem as mulheres desistirem da carreira acadêmica: balanço entre vida pessoal x profissional (maternidade, cuidado dos pais, avós ou outros familiares, terceiro turno de trabalho etc.), síndrome do impostor, favorecimento dos homens em avaliações/revisões, silêncio institucional frente a algumas situações (por exemplo, racismo, assédio moral e sexual), ausência de políticas de equidade etc. Mas como sobreviver nesse ambiente espinhoso e tão hostil para nós, mulheres? Esperar que o sistema se adeque? Esperar compreensão dos colegas? Se fechar em uma cápsula e tentar ignorar os arredores? Trabalhar muito (mas, muito!) mais, colocando a saúde física e mental em risco, para tentar provar seu valor? Não! Nada disso vai acontecer ou mudar a realidade, nem em 10, nem em 100 anos. Então, o que nos resta? Desistir da carreira acadêmica? Também não. Nos resta construir redes de apoio . Quem é mãe cansa de ouvir “tenha uma boa rede de apoio”, “construa uma rede de apoio para te ajudar nos momentos mais difíceis”, “conte sempre com sua rede de apoio” etc. Assim como a rede de apoio é importante para as mães, ela também é na academia. Enquanto uma mulher sozinha pode ser facilmente ignorada em uma reunião ou ser taxada de doida/histérica por seu pedido e/ou reclamação, o mesmo não vai acontecer quando 3, 5, 10, 20 mulheres reivindicarem a mesma coisa ou cobrarem para que sejam ouvidas. Da mesma forma, a rede de apoio ajuda no sentimento de pertencimento, a desabafar, a combater a síndrome do impostor e a diminuir a sensação de isolamento. Isso pode soar estranho, pois fomos criadas (em geral) para ver outras mulheres como rivais; quem nunca ouviu que “não existe amizade entre mulheres” ou “juntou muita mulher, fica complicado”? O natural não seria pensarmos que outras mulheres sofrem pressões similares e enfrentam os mesmo obstáculos que nós? E que, por isso, são as melhores aliadas para enfrentar e mudar esse sistema patriarcal que não nos aceita? Por que nos fazer acreditar que não podemos nos unir? Seria uma forma de garantir que o machismo estrutural não será nem questionado, quanto mais destruído? Esse laço entre mulheres não precisa vir na forma de um juramento de amizade eterno; não precisa nem se estender para além dos muros da universidade (embora, acredite: você vai querer levar essa rede com você para todo lugar); tampouco requer se expressar como uma guerrilheira armada que vai enforcar em praça pública os homens da instituição. A conexão pode se manifestar em pequenas ações que demonstrem apoio. Alguns exemplos: Quando uma colega pedir a fala em uma reunião, mas de forma “não-intencional” a palavra não for passada a ela, você pode educadamente dizer “pessoal, a Silvia está pedindo a vez na fala”; Quando uma colega for interrompida você pode comunicar aos colegas que “pessoal, eu gostaria de ouvir até o fim o que a Luisa tem a nos dizer”; Quando um colega tentar se apropriar da ideia da colega você pode lembrar o grupo comentando "que bom que você também apoia a ideia proposta inicialmente pela Ana"; Quando os colegas contarem e/ou rirem de uma piada machista ou racista , as mulheres podem puxar uma sequência de perguntas como "por que vocês acham isso engraçado?", "vocês não se sentem incomodados que em pleno 2021 tentem fazer piada sobre mulheres?"; O apoio também pode vir na forma de chamar para um café uma colega que anda desanimada com o trabalho ou que acabou de se juntar ao grupo; Não deixar as colegas se auto sabotarem - você pode fazer isso lembrando-as de suas conquistas e de tudo que percorreram ao longo da carreira. Os benefícios da amizade entre mulheres na carreira acadêmica foram recentemente objeto de estudo e os resultados publicados em um artigo científico . Nele, as autoras, mostraram que essa ligação mitiga os impactos da marginalização na vida acadêmica, pois estimula o crescimento pessoal e profissional. Isso porque esses relacionamentos são baseados em igualdade , mutualidade e reciprocidade, o que faz um contraponto com os valores acadêmicos tradicionais de hierarquia , performance e orientados a objetivos (= números). Na academia, principalmente nas ciências exatas, somos em menor número tanto como estudantes de graduação e pós-graduação, quanto como professoras, chefes de departamento, diretoras e reitoras. Dessa forma, o sistema (aquele, construído pelo homem, branco, hétero e de meia idade) sempre coloca nós mulheres como exceção e, da mesma forma, coloca nossas necessidades como exceção, como algo específico demais para ser considerado para o todo. Ao nos unirmos, temos a chance de começar a mudar isso. Não é um caminho fácil, não será rápido, mas juntas teremos mais chance de sucesso. A realidade nos mostra também que a forma como a mulher branca é silenciada e marginalizada na academia é diferente de como ocorre com mulheres pertencentes a outras camadas sociais, pois além do machismo, sexismo e misoginia, entram questões interseccionais como racismo, classismo, capacitismo, transfobia e homofobia. E estes são motivos que impulsionam ainda mais a necessidade de construir redes de apoio e luta, pois o feminismo apenas branco, hetero e cis não tem valor algum. Finalizo aqui lembrando que o ambiente acadêmico é um reflexo da nossa sociedade. Como explicou Ruth Manus,: “A sociedade na qual estamos inserida é machista, sim, é patriarcal, sim, e é cruel com as mulheres, sim. Vamos fazer uma pausa para pensar melhor a esse respeito” (Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas, 2019) Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 Sugestões de leitura: Kaeppel K, Grenier RS, Björngard-Basayne E. The F Word: The Role of Women’s Friendships in Navigating the Gendered Workplace of Academia. Human Resource Development Review. 2020;19(4):362-383. doi:10.1177/1534484320962256 Pequeno Manual Antirracista - Djamila Ribeiro - Companhia das Letras, 2019 Mulheres e caça às bruxas - Silvia Federici - Boitempo, 2019 Feminismo para os 99%, um manifesto - Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser - Boitempo, 2019 #mulheresnaciência #julianaleonel #equidade #carreira

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