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  • As aventuras de trabalhar no mar

    Por  Cássia G. Goçalo Quando decidimos ser biólogos ou oceanógrafos e escolhemos trabalhar com os organismos marinhos não vemos a hora de fazer o trabalho de campo. Praias, regiões costeiras e até mesmo mar aberto!!! Mas não contamos com os imprevistos, ou podemos chamar aqui de aventuras.... Como tempestades, falta de água doce na embarcação, âncoras enroscadas, variações das marés, entre outras. Já passei por muitas situações de pura adrenalina. Me lembro uma vez, quando estava embarcada no navio oceanográfico Prof. W. Bernard, que ocorreu uma forte tempestade com ondas gigantescas que sacudiam o navio de um jeito que, para nossa segurança, não podíamos sair do interior do navio... esse mal tempo durou cerca de 3 dias!! Durante um embarque passamos por uma situação de confinamento, imaginem só sem poder sair para o convés.... Tivemos que ter muito autocontrole e tomar remédios para enjoos!!! Nesta mesma expedição, devido ao mal tempo, houve um atraso no cronograma para cumprir a jornada planejada e ocorreu um problema técnico, consequentemente ficamos sem água doce... mas pensem, tomar banho de água salgada tudo bem!!! Mas... escovar os dentes blahhhh!!! Horrível!! Outra aventura que passei no mar foi em uma coleta no Porto de Santos. O ponto de coleta era exatamente no canal, onde transitam as embarcações, e ficávamos com o barco ancorado. Era no início da noite quando um navio cargueiro começou a sinalizar sua passagem... daí então seria apenas levantar âncora e sair da frente. Uhum!!! Mas a âncora ficou enroscada nos cabos que ficam no fundo e pensem... o navio buzinando e a gente preso!!! Socccoooorrooooo era o que eu queria gritar na hora... mas a equipe conseguiu cortar o cabo da âncora e saímos a tempo da embarcação passar.. Ufa!! Essa foi por pouco... Em outro momento também estávamos no meio da tempestade com ondas fortes e raios caindo no mar e o piloto do barco falava: - Alguém olha pra mim aí na frente, pois não estou enxergando nada!! Oi? Como assim? Pensei: Cadê o colete salva-vidas vou pular!! Tchau!!! Mas a equipe foi orientando o piloto e chegamos na marina sãos e salvos!!! Além de ficarmos molhados praticamente o dia todo, trabalhar com capacetes e coletes (suuuper confortáveis!! #distractinglysexy), passar frio, calor, trabalhar embaixo de chuva, pegar peixes na mão, coletar algas, puxar redes de coleta e até mesmo carregar equipamentos pesados,  amamos nossa profissão!! Há uma hashtag no Twitter e Instagram divertíssima, onde pesquisadores contam aventuras em trabalhos de campo, nem todos em mar, mas recomendo a busca #fieldworkfail. Imagine por exemplo, você colocar um chip de mais de 1000 dólares em uma raia e depois ver que se trata do mesmo indivíduo que você “chipou” no dia anterior, entre outras… Mas temos muitas aventuras boas e fascinantes como avistar um grupo de baleias e golfinhos, ver passar um cardume de peixes voador, observar um albatroz acompanhando o barco, nasceres e pores do sol fantásticos, céus magnificamente estrelados e nos deslumbrar da variação de cores do mar a cada dia!!! Golfinhos observados durante as expedições por Cássia (Projeto Marflat) e Catarina (Projeto Antares) na região de Ubatuba. Fotos: Cássia Goçalo e Catarina Marcolin. Abaixo segue alguns depoimentos das biólogas do blog e suas aventuras durante os trabalhos de campo: Catarina - Eu já participei de alguns embarques, em todos eles o trabalho era sempre muito duro, mas o clima sempre foi de muita diversão. Os maiores perrengues aconteceram em duas ocasiões, a primeira foi num embarque na costa do Rio de Janeiro, quando o tempo "virou" e voltamos "correndo" para a costa, com altas ondas pelo caminho. A segunda aconteceu quando embarquei no veleiro da expedição Tara Oceans também tivemos três dias inteirinhos de tempo muito ruim… ninguém sentia apetite para comer - por conta de enjoos - e durante a noite mal dava para dormir porque o barco se eleva com a ondas e batia com toda a força na água sacudindo tudo, parecia que eu ia cair da cama a cada cinco minutos. Mas os 12 dias restantes dessa expedição foram de tempo muito bom e navegação tranquila, apreciando a comidinha maravilhosa da nossa cozinheira francesa que até me passou uma receita de brioche (nhammm). Mesmo passando por ocasionais dificuldades minhas lembranças são principalmente dos momentos bons e divertidos quando fiz amigos, avistei paisagens maravilhosas e apreciei muita fauna carismática, apesar do enorme cansaço com todo o trabalho que é super intenso.  Jana – Minhas melhores aventuras não aconteceram em alto mar como as já citadas aqui, e sim bem perto da costa, durante o meu mestrado. Eu tinha que coletar peixes da zona de surfe durante a maré alta e baixa (lembra do meu post sobre isso?! Clique aqui ). Saíamos de chatinha ou voadeira, ou seja, um pequeno barco com motor de popa, da base de Cananéia do IOUSP e íamos até a Ilha Comprida, próximo da barra. Durante a maré baixa era sempre tranquilo parar a chatinha na praia, pois quase não havia ondas na parte mais interna do estuário… Porém, durante a maré alta era sempre uma aventura, pois tinha muita correnteza, e ás vezes ondas quebrando, o que dificultava o desembarque das pessoas e dos equipamentos… Tombos eram comuns… Parávamos sempre no ponto mais abrigado e andávamos para os outros, entretanto, uma vez a maré subiu muito rápido e tivemos que voltar com água no joelho, carregando rede, equipamentos e amostras… Outra vez, voltando já pra base, o motor enroscou em um cabo que prendia um cerco (uma arte de pesca bem comum no litoral sul de SP) e a chatinha virou… Fomos todos pra água e por sorte ninguém se machucou! Alguns equipamentos quebraram, mas as amostras foram salvas! Diria que foi um belo susto! Outra grande experiência que tive foi no período que fiquei no exterior (olhe o post Uma brasileira fazendo pesquisa "na gringa" ), durante o inverno coletávamos a -30° C e como o chão da embarcação molhava com a retirada das redes, a água logo congelava, então tínhamos que nos equilibrar em um barco balançando em um chão com uma camada de gelo, um super rinque de patinação no gelo! É verdade... trabalhar no mar é uma aventura!! Eu recomendo!!! E você, já passou por alguma enrascada, cilada ou diversão no mar trabalhando? Deixe um comentário contando como foi! #vidadecientista #cássiaggoçalo #catarinarmarcolin #janamdelfavero #biólogo #oceano #oceanógrafo

  • Eventos Dia Mundial do Oceano 2020

    Junho é o mês do Oceano e tem muito coisa boa rolando. Para facilitar, o "Bate Papo com Netuno" e a "Liga das Mulheres pelos Oceanos" se juntaram em um esforço para preparar uma programação especial para quem quiser mergulhar nas profundezas e aprender um pouco mais sobre o mar e a biodiversidade. Vamos juntas? É uma grande onda de conhecimento, começa ao nascer do Sol, e acaba depois que o Sol se põe. A maioria dos eventos estarão disponíveis depois também. Então, aprecie com moderação. E nunca se esqueça de cuidar de você e da sua família. É só estando bem que iremos também estar fortes para promover ações de proteção dos oceanos. Vem com a gente. E fica ligada(o) nas nossas redes que ao longo do mês todo teremos conteúdo especial.  The Ocean Day 2020 (Route brasil, Bloom ): dias 6, 7 e 8/06 das 10h às 23h; ‘ Small is Bountiful’ panels (Too Big To Ignore): dias 7 e 8/06 vários horários; Virtual Ocean Literacy Summit (IOC/UNESCO): 8/06 às 6h (inscrição); Launch of The State of the World Fisheries and Aquaculture - SOFIA 2020 (FAO): 8/06 às 8h (inscrição); Lixo no Mar - Covid-19 e a qualidade ambiental costeira (Instituto Limpa Brasil): 8/06 às 9h30; World Oceans Day : If you could invest US$1bn in one ocean solution, what would it be and why? (The Economis Group - World Ocean Iniciative): 8/06 às 10h; Cine Debate A Década dos Oceanos (UNIBES Cultural): 8/06 às 11h; Oceanografia em tempos de coronavírus (UERJ): 8/06 às 13h; 2.ª Palestra CCOceanos 2020 - The Ocean Decade - Lisboa (CCOceanos): 8/06 às 14h; Mesa Redonda - Somos todos um só oceano (Lacos21): 8/06 às 14h30; Dia dos Oceanos - Vamos conversar ? (UFRJ): 8/06 às 16h; Café com Ciência - Semana do Oceano (IOUSP): durante toda a semana às 16h; Plano de Monitoramento e avaliação do lixo do mar no Estado de São Paulo (USP/UNESCO/Governo do Estado de São Paulo): 8/06 às 16h; Cátedra da UNESCO pela sustentabilidade dos oceanos: lançamento (UNESCO e IOUSP): 8/06 às 18h30; Live - Década dos Oceanos (EcoSaber): 8/06 às 19h; Cultura Oceânica : um novo olhar sobre a relação Ser Humano <=> Oceano (Scuba Divas - Mulheres do Mergulho que trabalham com Conservação do Oceano): 8/06 às 19h; Ecomuseu Natural do Mangue e a educação ambiental ( Ecomuseu Natural do Mangue): 8/06 às 20h; June Momentum for Climate Change (UNFCCC secretariat): 1-10/06; 9ª Mostra Ecofalante de Cinema : 3 a 8/06. #JuntasPelosOceanos #décadadooceano #diamundialdosoceaneos #MesDoOceano

  • Transitando entre saberes: o que aprendi sobre ciência em Moçambique

    Por Caio Gabrig Turbay Fazia pouco mais de doze horas que eu havia chegado em Moçambique e já estava chacoalhando dentro de uma caminhonete, em uma estrada esburacada, a caminho da minha base de trabalho. O local era a cidade de Xai-Xai, 220 km ao norte da Capital, Maputo. As últimas 24 horas haviam sido exaustivas, insones, com uma conexão longa no aeroporto de Joanesburgo e uma rodada de bares na noite de Maputo, com o meu novo chefe e colegas da empresa. Na cabeça muita incerteza e medo. Na época, nos meus 26 anos, ainda era um geólogo recém formado que pouco conhecia o trabalho a ser feito. Deixava para trás família e amigos. Uma empresa multinacional, sediada no Canadá, havia me contratado para participar de um time responsável por procurar depósitos minerais em areias litorâneas da costa africana do índico, da Tanzânia à África do Sul e Madagascar. A- Localização da região estudada no contexto continental africano; B- Mapa de Moçambique e suas províncias (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) No carro, Mark, meu colega australiano, me alertava sobre os riscos inerentes ao trabalho. Os “riscos”, para o ele, passavam por questões claramente de cunho racial e de forte preconceito da parte dele, até cuidados justificáveis com a fauna silvestre e as famigeradas minas terrestres. Eu havia chegado no país em 2002, sete anos após o cessar fogo de uma guerra civil sangrenta, que colocou no campo de batalha pessoas que antes conviviam e se toleravam e que lutaram lado a lado em uma guerra anterior, contra o colonizador português. As impressões de um país arrasado por duas guerras consecutivas ainda eram nítidas: casas abandonadas, estradas sem manutenção, ruínas, uma fauna que beirou o extermínio, campos minados e um povo que iniciava uma linda caminhada, aprendendo a ter autonomia, após séculos de subserviência a Portugal. Meu papel era o de liderar equipes em campo, prospectando as chamadas “areias pesadas”, portadoras de minerais de alta densidade como a ilmenita, rica em titânio, além de outros com valor econômico secundário. Essas areias, em geral, são o produto do retrabalhamento constante das correntes marinhas, ondas e ventos, ao longo de milhares de anos, concentrando camadas ricas nestes minerais. Para o rastreamento destas camadas, o conhecimento da dinâmica costeira e do trabalho geológico dos ventos é fundamental. Os minerais presentes nas areias têm origem nas rochas continentais, que após serem desgastadas por intemperismo e erosão, liberam o seu conteúdo para os rios e posteriormente são levados ao mar. Uma vez no litoral, inicia-se o trabalho das correntes de deriva litorânea, das ondas e do vento, distribuindo, mas também concentrando os minerais de acordo com as suas densidades. Em Moçambique, grandes rios como o Limpopo e o Zambeze encarregaram-se de trazer a areia e a lama juntamente com os minerais pesados até o mar. As correntes marinhas no litoral sul do Oceano Índico, com movimentação geral de norte para sul, completam o trabalho espalhando os sedimentos pela costa Concentração de minerais pesados na praia a partir da remoção de partículas sedimentares mais leves e retenção das mais pesadas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Durante as primeiras semanas no país, o treinamento e o contato diário com os moçambicanos me fizeram lentamente quebrar as barreiras frágeis da visão racista e neocolonial dos expatriados da empresa. Fechando o primeiro mês, tombei vitimado pela malária em um dos acampamentos. Após a cura, na visita a um hospital na cidade de Xai-Xai, a curiosidade em receber notícias do Brasil me trouxe o término de um namoro via e-mail, que não poderia ter sido mais formal. Aos poucos, os meses se passaram e os amigos deixaram de enviar notícias. Era minha carta de alforria compulsória do Brasil. A partir disso, comecei uma profunda imersão na cultura e vida de Moçambique, à medida que o meu conhecimento sobre a geologia da África austral e sobre o litoral moçambicano e sul-africano aumentavam. Passamos a utilizar métodos mais elaborados de prospecção. Das imagens geofísicas descobri que os alvos de prospecção estavam nas cristas e na base de antigas dunas, já fixadas por vegetação e em antigas praias, abandonadas pelo recuo do mar. Junto ao trabalho constante das correntes, dia a dia, ano a ano, somavam-se as variações da linha de costa e do nível do mar, resultados das glaciações que o planeta sofreu durante os últimos 12 milhões de anos, intensificadas no período geológico chamado Quaternário (últimos dois milhões de anos). Dinâmica de crescimento, avanço das dunas e concentração de minerais pesados: A- A ação direcional do vento inicia o acúmulo de areia em camadas, estruturando a duna; B- A chegada de mais areia faz com que a duna cresça verticalmente e continue sua movimentação. Minerais com alta densidade (minerais pesados) são removidos com maior dificuldade e tendem a se concentrar em pontos específicos; C- Com as chuvas, as águas se infiltram e o lençol freático pode eventualmente subir. As areias saturadas de água tornam-se imóveis e propiciam o estabelecimento de vegetação que se aproveita desta água. A duna estabiliza-se (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) Dinâmica de variação do nível do mar a partir de ciclos de glaciação e interglaciação: 1- Nível do mar estável durante um determinado tempo (nível do mar 1); 2- Estabelecimento de um período glacial com rebaixamento do nível no mar (nível do mar 2) e avanço da costa em direção à antiga plataforma marinha. O rebaixamento do nível do mar deve-se a retenção de grande parte da água do planeta na forma sólida (gelo e neve) nos pólos e nas altas montanhas; 3- Período de aquecimento atmosférico e término da glaciação levando a um aumento do nível do mar e recuo da costa em direção ao continente; 4- Segundo evento de glaciação, com novo avanço do litoral e retrabalhamento das areias litorâneas anteriormente depositadas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). As areias depositadas no litoral e abandonadas pelo rebaixamento do nível do mar são continuamente retrabalhadas pelos ventos no litoral moçambicano e sul-africano, criando dunas enormes conhecidas como draas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Nesta dinâmica, uma vasta planície sedimentar foi formada e tínhamos, nos anos que se seguiram, grandes áreas para cobrir. Visitávamos lugares remotos, com paisagens em regeneração, que aos poucos traziam de volta a fauna típica das savanas africanas. Planície sedimentar formada durante as variações do nível do mar nos últimos doze milhões de anos (Mioceno-Holoceno) na região de Inhambane, Moçambique. As lagunas em cores cinza, encontram-se preenchidas por sedimentos e se desenvolveram durante recuos rápidos do mar, seguidos de avanços das antigas linhas de costa. Em cada evento de recuo, associado a um ciclo glacial, um cordão litorâneo era formado e a laguna instalava-se atrás do cordão (Fonte: Caio Gabrig Turbay. Adaptada de imagem LANDSAT TM obtida em USGS/NASA Landsat - https://landsat.visibleearth.nasa.gov) Exemplo de laguna preenchida por sedimentos por trás de um cordão litorâneo retrabalhado pelo vento (dunas). Observe que as dunas encontram-se fixadas por vegetação (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) Após os dois primeiros anos, já não aguentava a relação manipuladora, abusiva e mentirosa da empresa com os seus funcionários moçambicanos e pessoas nativas. Após séculos de atividade extrativista de estrangeiros na África, parecia que nada havia mudado. Não queria mais fazer parte disso. Aguentei por mais um ano. Em meados de 2005, numa tarde chuvosa, entrei numa pequena aeronave bimotor que que me levaria de Inhambane, minha residência, a Maputo e depois à África do Sul. O avião estava decolando e ainda pude ver Micá, uma amiga portuguesa, colocando suas mãos no rosto para chorar. O coração apertou. Novamente uma mudança, novamente amigos ficando para trás. Do alto, pela última vez, olhei para a Baía de Inhambane, a Ponta do Tofo, os naufrágios expostos na maré baixa e as praias que se perdiam no horizonte. Os anos se passaram, Moçambique ficou como uma boa lembrança no tempo. Para minha surpresa, em 2014 surge uma nova oportunidade. Um projeto através do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e sua agência de cooperação, a ABC, novamente me levariam a Moçambique. Minha impressão é a de que havia alguma dívida a ser sanada. Voltei feliz! Revi amigos. Ao contrário do passado, uma nova empreitada de cunho socioambiental, juntamente com agrônomos, arquitetos e técnicos ambientais. Mais dois anos se passaram em algumas viagens ao país. Dois anos convivendo com um povo alegre e acolhedor. Dois anos de desapego e doação, aprendendo a metodologia do diagnóstico participativo, onde as relações são horizontalizadas e o diagnóstico e solução das questões, são construídos coletivamente . Dois anos em que vislumbrei de uma forma muito mais bonita a ciência que havia aprendido nos bancos da universidade e na prática de campo. Meu foco agora era a erosão de solos que atingia o município de Xai-Xai, suas ruas sem pavimento feitas sobre areias de dunas antigas e as pequenas propriedades agrárias às margens do Rio Limpopo. Achei que fosse ensinar. Aprendi. Nas oficinas que realizamos, descobri que tanto os moradores quanto os técnicos locais conheciam muito bem os problemas e conseguiam vislumbrar formas de resolvê-los. Meu papel, quase como expectador, foi apenas o de organizar as informações e incitar a criatividade das pessoas para as descobertas. Planície de inundação do Rio Limpopo com suas margens férteis e pequenas glebas agrárias (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). A raiz do problema estava na vegetação que estava sendo extinta para a produção de lenha, que abastecia os fogões da maioria das casas. Sem vegetação, as areias eólicas, aquelas areias que são transportadas e depositadas pelo vento, ficavam expostas, eram erodidas e jogadas nas partes baixas, na planície do Limpopo. Todos entendiam o problema, mas como no Brasil, havia interesses de terceiros para que as coisas não se resolvessem, falta de recursos e um engendramento político que burocratiza e engessa. Bloco diagrama exemplificando o problema erosivo no município de Xai-Xai (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Hoje pensando em tudo que aconteceu, papeando com o meu amigo Nivaldo, nos damos contas das “dunas” que temos que enfrentar nas nossas vidas. Mas o maior aprendizado que tirei de Moçambique, foi a certeza de que a ciência deve ser feita com desapego, longe da vaidade, do ego, e de que ela pode e deve ser usada para o bem da coletividade, humana e não humana. Isso mudou a minha vida. Sobre o autor: Caio Gabrig Turbay é pai de Nina e Caique e marido de Erica Munaro, yogi e engenheira florestal. É espiritualista, amante da natureza e das atividades ao ar livre, além de construtor de barcos, velejador e viajante. Graduado em geologia pela UFRRJ, com mestrado em bacias sedimentares e doutorado em geotectônica pela UERJ, trabalha atualmente na UFSB, Porto Seguro, Bahia, onde leciona para os cursos de Oceanologia e Bacharelado em Ciências. Desenvolve atividades de pesquisa com sedimentologia de ambientes marinhos e glaciais, petrologia de rochas vulcânicas e sedimentares, petrologia de meteoritos e geoquímica de rochas e sedimentos. É neófito e entusiasta da divulgação e jornalismo científico, do software livre e da filosofia hacker. #vidadecientista #moçambique #convidados #caioturbay #oceanografiageologica

  • Dicas para se concentrar no “Home Lab”

    Durante essas últimas semanas tumultuadas, nos bastidores do Bate-Papo com Netuno, notamos que cada uma de nossas editoras estava lidando de um jeito diferente com a quarentena. Entretanto, todas têm agora um ponto em comum: estamos enfrentando os desafios de trabalhar em home office . Algumas com mais experiência, outras com menos, resolvemos escrever em conjunto esse post com depoimentos e dicas para trabalhar em casa sem surtar. PRODUTIVIDADE Carla Me encaixo na categoria das com “mais experiência” em home office . Faz três anos que trabalho exclusivamente em casa, então acho que já me acostumei com a situação de manter disciplina, concentração, de não estar em contato com pessoas ao vivo todos os dias... Compartilho algumas dicas que venho colocando em prática: Tenha um lugar definido de trabalho . Separe um canto com uma mesa e cadeira confortáveis. Não recomendo fazer isso no seu quarto (nunca na cama!). Aos poucos você vai associando aquele ambiente ao trabalho e é mais difícil relaxar e dormir no fim do dia... Mantenha um horário pra cada coisa . Sua rotina de trabalho durante a quarentena dificilmente está normal, mas procure entender quais horários você tem livre para o trabalho. Por exemplo, mesmo que você só consiga 2 horas por dia de trabalho "normal" (tipo a hora que o filho está vendo TV), aproveite aquele tempo. Defina que tarefas você pode fazer nesse intervalo (ler um artigo, adiantar a escrita de um capítulo, fazer uma análise de dados, escrever um post para o Bate-Papo com Netuno etc.). Com o passar dos dias você vai vendo que outros espacinhos de tempo surgem na rotina. À medida que esses intervalos forem surgindo, atribua uma tarefa e se mantenha firme - lembre-se que nunca temos “tempo sobrando” mas não subestime o poder de curtos períodos de tempo bem direcionados. Não fique de pijama o dia todo , siga normalmente com refeições no horário, faça pausas... você não está de férias e também não é escrava do trabalho. Não se cobre tanto! A maioria das pessoas estão trabalhando fora de sua zona de conforto e não faz sentido esperar maior produtividade nesse momento. Juliana Leonel De certa forma sempre preferi trabalhar de casa, então o home office está sendo tranquilo (pelo menos enquanto o Ian não nasce, já que estou na reta final da gestação). Claro que o fato de saber que não terei prejuízos no meu salário durante esse período ajuda a manter a concentração no trabalho, e isso não é a realidade de todos. Mantenha a rotina de trabalho : No geral, alterno entre leituras, escrita, responder e-mail etc e tento fazer uma lista (realística) de metas para o dia. Sinto falta das aulas e do laboratório (não dá para montar um lab de oceanografia química em casa), mas estou conseguindo render mais nas outras atividades, principalmente as que exigem concentração. Vejo isso como causa direta da diminuição nas muitas atividades burocráticas que temos que fazer no dia a dia. Por exemplo, apesar de ainda mantermos algumas reuniões remotamente, elas diminuíram em número (e até em duração). Cuide dos seus orientandos : O bem-estar dos meus orientados (alguns sozinhos e longe da família) me preocupa, então tento reservar um tempo para escrever para eles (não só sobre trabalho). Além disso, alguns deles tiveram que parar atividades de campo e de laboratório e, nesses casos, estou tentando avaliar quais são as alternativas e sugerindo mudanças para continuar o trabalho sem atrapalhar nos prazos. CUIDADOS COM A MENTE E O CORPO Jana Passei por uma semana de ansiedade e preocupação por causa da situação do país e do mundo. Meu marido estava de home office e eu sentava na frente do computador por oito horas, mas a cabeça pouco produzia. Então passei a ter tempo pra mim também, me afastei da rotina de checar o celular e notícias 24 horas por dia. Agora abro páginas de notícias apenas no fim do dia. Voltei a meditar e a fazer yoga. Então aí vão minhas dicas: Não leia notícias o dia inteiro : separe umas horas para saber o que tá acontecendo no mundo Não fique no celular o dia inteiro : isso causa ansiedade; separe um momento do dia para responder as mensagens. Tem dificuldade de colocar em prática essas duas primeiras dicas? Veja nesse site como pôr em prática a Técnica Pomodoro, isso pode te ajudar. Faça exercício e meditação : muito importante para manter corpo e mente saudáveis enquanto se trabalha em casa. Busque sites, canais ou apps para isso (sugestões: app Lojong para meditação e o canal da Pri leite para yoga). Tome Sol : Lembre-se da vitamina D! Aproveite para fazer exercício em algum lugar da casa onde bata Sol (se tiver um pátio ou uma varanda, melhor ainda!). Ou que tal só relaxar por 10 minutinhos aproveitando os raios pela manhã? Cláudia Acho importante pensar na alimentação, saber o que se pode deixar preparado para comer quando bater aquela fome no meio do dia, da tarde ou da noite. Então, minha dica é: Cozinhe! Os restaurantes estarão fechados e não é recomendado viver à base de fast food e comida ultraprocessada, principalmente nesses tempos em que o sistema imunológico tem que estar 100%. Para aquelas(es) que não estão muito habituadas(os) à cozinha, ou pensam que cozinhar para apenas uma ou duas pessoas é muito difícil, existem vários sites de culinária com receitas de porções individuais e feitas com ingredientes super acessíveis, ou que ensinam a porcionar para congelar e consumir depois. Eu particularmente gosto muito do Panelinha e das séries O que tem na geladeira? E em uma panela só. O problema é que se você gostar muito, periga ficar procrastinando o trabalho para ficar na cozinha... E PARA QUEM TEM FILHOS? Catarina Já tenho uma semana de quarentena, mas ainda estou me adaptando à nova rotina. Fiquei absolutamente sobrecarregada com a quantidade de dicas para entreter crianças nesse período. Ficava exausta de imaginar que além de trabalhar em home office , cuidar da limpeza da casa, comida, ainda precisava entreter minha filha de 3 anos com atividades criativas e de cunho pedagógico. Importante adendo, eu, meu marido e minha mãe temos nos dividido nas tarefas domésticas, o que alivia muito a barra. O que consegui fazer por aqui foi: Limitar o horário para ver TV: limito a TV da minha filha a 1h pela manhã e 1h pela tarde (quando aproveito para trabalhar em atividades que exigem mais concentração). O resto do tempo eu (às vezes) oriento o início da brincadeira (massinha, desenho, pintura, quebra-cabeça) e deixo ela à vontade. Compartilhe a atenção: Minha filha tem brincado muito sozinha e inventado as próprias brincadeiras, mas por intervalos curtos de tempo. No resto do tempo a família se divide em brincar com ela. Tentamos estabelecer que as manhãs seriam do meu marido e as tardes seriam minhas para trabalho, enquanto o outro ficaria responsável por atender à criança, mas estamos numa dinâmica mais fluida! Quando todo mundo vai dormir eu abro o notebook e trabalho por mais umas 2h. No final de semana me dediquei a fazer algumas dessas dicas de atividades e foi bem bacana. Quem sabe eu consigo continuar com isso a partir das dicas desse post. Raquel Para mim, que vivo só com meu marido, a quarentena tem sido bem tranquila. Acordo cedo, tomo banho, coloco roupa como se fosse sair e fico estudando. À noite malho em casa. Nos revezamos nas tarefas domésticas. Mas sei que para outras pessoas tem sido bem complicado, como para as mamães, que além de tudo precisam cuidar e distrair as crianças que estão em casa, em especial as menores. Por isso sondei nas minhas redes sociais o que as mulheres estão fazendo nesse caso: Seja honesta : diga aos seus colegas de trabalho suas condições de home office . Avise que está com criança em casa. Isso pode reduzir sua ansiedade e nervosismo em eventualidades como, por exemplo, se uma reunião for interrompida por um choro. Usar crachá : ensinar para a criança que quando a mãe está com o crachá, ela está trabalhando e não pode ser interrompida. Quando ela tira o crachá, pode ajudar com as tarefas, lanche, almoço e brincadeiras. Tentar manter a rotina : se despedir da criança de manhã explicando que vai trabalhar, e então fechar a porta do quarto. Só sair no horário de almoço - aí você dá atenção, brinca, etc, e depois se despede novamente pro turno da tarde (pra essa você precisa de alguém ajudando, claro). Estabeleça alguma rotina : algumas escolas estão disponibilizando atividades e aulas online que podem ser importantes para estabelecer uma rotina em casa; Trabalhar enquanto o filho dorme (seŕa que tá liberado cochilo das 9h às 18h? rs) Alternar com o pai (se possível) : enquanto um fica com os filhos, o outro está trabalhando e à tarde se revezam, como fez nossa editora Catarina Não apele para o celular : nos momentos de desespero, quando só a tela faz mágica, que tal colocar algo na TV pro filho assistir? Pode ser Netflix ou Amazon Prime também, mas coloque na TV, assim a criança fica em um cômodo específico. Além disso, o efeito do celular parece ser muito mais hipnotizante. De forma alguma coloque vídeos no YouTube, porque a reprodução é automática e sem fim, e em um momento pode começar um vídeo impróprio para crianças - mesmo no YouTube Kids. Mas não esqueça de usar a TV com moderação! Permita o ócio : ter horário para fazer atividades em casa é importante, mas permita também à criança eleger a atividade que quer fazer, mesmo se for fazer nada! O ócio também é importante, estimula a criatividade, e a criar novas brincadeiras. Coloque as crianças para trabalhar : calma, não é o que você está pensando. Ensine ela pode ajudar nas tarefas de casa, como arrumar o quarto, limpar a casa, lavar os pratos, regar as plantas, colocar a comida do cachorro… respeitando a idade de seu(sua) filho(a), claro. Não se culpe : esse cenário é novo para muitas famílias, e todas estão aprendendo como fazer funcionar da melhor forma. Você está fazendo seu melhor. Pra terminar, veja o depoimento (adaptado) de uma das mães com quem falei: “Trabalho escrevendo minha dissertação, lido com as lições (online) passadas pela escola do meu filho e ainda brinco com ele. A verdade é que temos mais horas de trabalho e menos horas de sono. O bom é que é tudo num só lugar, nossa casa, e assim temos mais tempo juntos”. #vidadecientista #homeoffice #quarentena #produtividade #bemestar #crianças #teletrabalho #carlaelliff #cláudianamiki #catarinarmarcolin #janamdelfavero #julianaleonel #raquelmoreirasaraiva

  • O que o COVID-19 pode nos ensinar sobre conservação ambiental

    Por Carla Elliff Ilustração por Joana Ho Ao longo das últimas semanas, o  COVID-19 , ou novo coronavírus, se tornou o assunto mais discutido na maior parte do mundo. Outros termos como “distanciamento social”, “pandemia” e “quarentena” também entraram no nosso palavreado do dia a dia. No entanto, não foi apenas nosso vocabulário que expandiu dentro deste cenário. Há muito para se aprender vivendo numa situação de pandemia. Algumas das lições mais óbvias talvez sejam aquelas de empatia, solidariedade e higiene das mãos… Mas eu gostaria de mudar o nosso foco para um tópico talvez menos óbvio:  conservação ambiental . Imagens de  águas cristalinas nos canais de Veneza  viralizaram tanto quanto o próprio COVID-19, com pessoas admiradas com o que a ausência de humanos pode produzir. Porém, fique atento a exageros como as recentes notícias falsas sobre golfinhos e cisnes voltando a habitar essas áreas. Outros exemplos incríveis da natureza se recuperando incluem a diminuição da poluição atmosférica na  China  e  Itália . E o que esses casos nos mostram? Aqui estão algumas lições que podemos aprender. Compartilhamento de recursos Os clichês “todos vivemos num mesmo planeta”, “este é o único lar que temos” e, o meu favorito, “não existe Planeta B” trazem a mesma ideia geral: estamos compartilhando o planeta Terra e seus recursos. Assim como todo organismo vivo, nós geramos um impacto no nosso meio. O problema com o impacto humano é que este tende a ser menos sustentável que o da maioria das espécies. Qualquer material ou substância danosa introduzida no meio ambiente é considerada uma forma de poluição e tem um monte de coisas que nós nos acostumados a ter e usar que são grandes fontes de poluição . Nossos meios de transporte, a comida que consumimos (especialmente as ultraprocessadas e embaladas em muito plástico) e as indústrias que fornecem basicamente tudo o que precisamos são todas fontes potenciais de poluição. Apesar de haver vários tipos de leis e regulamentações ambientais para tentar manter nossas atividades ambientalmente corretas, nós estamos claramente falhando nesse quesito. Aliás, estimativas mostram que o número de vidas salvas com essas diminuições globais de poluição atmosférica devido a outras doenças respiratórias  ultrapassa o número de mortes pelo COVID-19 . Dessa forma, uma posição de “ business as usual ” (ou seja, tudo funcionando como de costume) é inaceitável pós-COVID-19 e coisas terão que mudar substancialmente se quisermos manter o ar mais limpo na China e os canais de Veneza mais límpidos. Durante a quarentena também tivemos a infeliz oportunidade de ver muitos exemplos de compartilhamento ruim de recursos nos supermercados locais. Prateleiras vazias de papel higiênico, álcool gel e comida compõe um retrato perfeito de como a humanidade lida com o compartilhamento de recursos naturais também. Lição No. 1: Se nós reduzirmos e fizermos uma melhor gestão de nossos recursos, a natureza irá se recuperar e vamos todos respirar melhor. Você prefere fazer melhores escolhas agora com relação ao seu próprio uso de recursos ou quer que alguém seja obrigado a implementar restrições sérias no futuro próximo? Importância da conservação da vida silvestre Como descrito nessa matéria do The New York Times , estima-se que 60% das doenças infecciosas emergentes que afetam humanos sejam de origem animal (ou seja, são zoonóticas), sendo que mais de dois terços destas se originam da vida silvestre. Malária, AIDS, a peste bubônica e, agora, COVID-19 são exemplos de doenças zoonóticas. Aliás, existe toda uma área de pesquisa dedicada ao estudo da ecologia e epidemiologia de doenças da vida silvestre. No entanto, raramente pensamos em conservação da vida silvestre como uma forma de preservar a saúde humana, não é? O manejo de animais selvagens e o consumo de sua carne representam importantes fontes de patógenos em todo o mundo, que devem ser monitorados com cuidado. A Sociedade da Vida Silvestre ( The Wildlife Society ) enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar quando lidando com esse problema complexo. Essa necessidade tem sido um estímulo para a One Health Initiative , um esforço colaborativo que combina todos os aspectos de cuidado com a saúde humana, animal e do meio ambiente, com a missão de melhorar a vida de todas as espécies. O aparecimento de doenças zoonóticas são uma das principais preocupações para esta iniciativa. Lição No. 2: O objetivo da conservação da vida silvestre não é promover um ambiente bucólico livre de humanos. Profissionais dessa área se dedicam a garantir o bem-estar e continuidade de espécies selvagens, mas também são importantes agentes para promover interações saudáveis entre humanos e animais. Essas pessoas salvam vidas. Emissões de CO2 A queda da poluição atmosférica ao redor do mundo não é apenas boa para comunidades locais, ela tem levado a uma queda global nas emissões de gás carbônico (CO2). Além das indústrias, vou apresentar outro importante contribuidor para a emissão deste gás de efeito estufa que tem sido seriamente afetado pelo COVID-19... Uma das formas mais eficientes para um vírus chegar a mais pessoas é pegando uma carona em um dos nossos milhões de voos diários em todo o mundo. Assim, companhias aéreas sofreram um grande baque, com cancelamentos de viagens e fechamento de fronteiras. Ao passo que isso é um desastre econômico, a situação chamou a atenção para uma discussão importante: quantas viagens são excessivas? Acredita-se que atualmente o transporte aéreo é responsável por cerca de  2% das emissões de gases do efeito estufa , principalmente o CO2. Este número pode até parecer pequeno, mas essa indústria está crescendo rapidamente e acredita-se que vá duplicar ao longo das próximas duas décadas. Além disso, o transporte aéreo é normalmente a maior fonte de CO2 quando pensamos na escala de uma pessoa. Isso significa que se você, como indivíduo, está procurando formas de diminuir seu impacto negativo no mundo, você pode começar por voar menos. Como cientista, isso me afetou de uma maneira muito específica: todos meus eventos científicos do ano foram cancelados ou estão em alerta. Mais especificamente ainda, como uma cientista na área ambiental, sinto que agora estamos diante de uma mudança há muito necessária na forma como interagimos. Por anos, conferências como o International Coral Reef Society Symposium (simpósio da sociedade internacional de recifes de coral) têm enfrentado um dilema: nesses eventos estão milhares de cientistas, vindos de todas as partes de mundo (ou seja, altas emissões de CO2) para falar sobre soluções para recifes de coral, um ecossistema que está morrendo pela crise climática causada pela emissão de gases do efeito estufa. Este e outros simpósios têm várias estratégias para compensar emissões, mas participação virtual ainda é a exceção da regra neste mundo de conferências. Apesar de haver  muitos benefícios cumulativos  com a participação virtual, este é um caminho pedregoso que deve ser percorrido com cuidado para garantir que se torne acessível e inclusivo. Lição No. 3: Algumas reuniões podem ser apenas e-mails e, mesmo aquelas que precisam ser reuniões, podem ser reuniões virtuais. Dê as boas-vindas ao século XXI no seu trabalho e, sempre que possível, faça o que precisar remotamente! Importância da ciência "No começo de todo filme de desastre tem um cientista sendo ignorado ”. Essa foi uma das minhas placas favoritas mostradas na primeira Marcha pela Ciência lá em 2017. O movimento  anticiência  tem ganhado força em muitas frentes nos últimos anos e todos estamos em pior situação por causa disso. Com cortes gigantes no orçamento e cada vez mais instabilidade, cientistas estão trabalhando em condições aquém das ideais (para dizer o mínimo) enquanto buscam responder perguntas grandes e importantes. O problema é que essas perguntas podem não parecer grandes e importantes para o público em geral e governos enquanto elas ainda estão sendo estudadas. Por exemplo, para desenvolver um novo remédio, um cientista não pode começar misturando alguns ingredientes e dando isso para pessoas doentes. As investigações começam lá atrás, pensando em nível celular (e às vezes molecular). Então, pode parecer estranho que há pessoas que passaram 20 anos estudando como uma molécula muito específica reage a diferentes substâncias, mas o resultado disso é a base para desenvolver um produto farmacêutico muito necessário. Durante a pandemia do COVID-19 vimos pessoas recorrendo à ciência para as soluções e a ciência tem lutado para conseguir responder. Talvez se tivessem tido mais recursos investidos, as respostas seriam mais rápidas. Nesse momento, a única coisa que podemos fazer é esperar que a situação melhore antes da próxima crise. Lição No. 4: Você não precisa gostar da ciência. A ciência não é um sistema de crenças. O propósito de pessoas buscando uma carreira nas ciências é para melhorar alguma coisa: melhorar nossos cuidados com a saúde, melhorar nossas tecnologias, melhorar nosso uso de recursos, melhorar nosso entendimento do mundo. Essas últimas semanas têm sido desgastantes de muitas maneiras. Se não aprendermos com nossos erros, não conseguiremos melhorar. Fique em casa, fique bem. Lave as mãos. Tradução do post original: What COVID-19 can teach us about environmental conservation , de mesma autoria, publicado no blog da rede Young Ecosystem Services Specialists (YESS). #carlaelliff #joanaho #ciênciasdomar #conservaçãoambiental #covid19 #ficaemcasa

  • ​O sexo (ainda) importa?

    Por Juliana Leonel Foto: Carla Elliff Sim, o sexo, o gênero, a opção sexual, a cor, a etnia. Tudo isso importa! No entanto, meu lugar de fala é de uma mulher branca, hétero, cis e que teve acesso a educação, então vou me deter a falar sob essa perspectiva na academia. Mas deixo aqui o convite para que demais mulheres também se pronunciem. Em 2015 o Bate-papo com Netuno trouxe essa pergunta e mostrou que sim o sexo importa . Cinco anos depois o que mudou (ou não mudou)? Como avaliar se mudou? O que precisamos fazer para mudar? Quem pode mudar isso? A realidade é que a representatividade das mulheres continua sendo menor quanto mais se avança na carreira acadêmica, que o reconhecimento das mulheres é menor, que elas recebem menos oportunidades, que elas ocupam menos cargos de liderança, etc. Mas por que o tempo passa e isso não muda? Será que estamos avaliando da forma correta? Qual a forma correta de medir a equidade de sexo na academia? Nota-se aqui o uso da palavra equidade ao invés de igualdade, pois ela se refere à busca por justiça e por oportunidades iguais, independente do sexo, lembrando que nem todos são iguais e podem ter necessidades distintas. Por exemplo, em geral, as mulheres tem um terceiro turno de trabalho e isso deve ser levado em conta quando sua produtividade é avaliada. Fonte: Bate Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0 Dito isso, já é possível perceber logo de cara que não basta apenas comparar o número de homens e mulheres dentro de um departamento, centro, instituto, universidade para dizermos se há equidade entre sexos. Outros fatores precisam ser levados em conta, como: a) salários; b) proporção entre homens e mulheres como líderes de grupos de pesquisa, posições de chefia e demais cargos de destaque; c) como a maternidade e paternidade afetam de forma distinta a carreira de mulheres e homens; d) comprometimento das instituições em dar suporte à carreira das mulheres e ao combater assédios. Vamos explorar cada um desses pontos? a) Salários : no Brasil, quando consideramos universidades federais ou estaduais dentro do mesmo estado, os salários são tabelados e sem diferenças entre homens e mulheres no mesmo plano de carreira. No entanto, a progressão, dentro e entre níveis, requer avaliações que levam em conta a produtividade. Isso inclui publicações, coordenação de projetos de pesquisa, orientações de mestrado e doutorado, etc. Mas, como comparar a produtividade entre homens e mulheres quando majoritariamente são elas as principais responsáveis por atividades fora do ambiente de trabalho (cuidar dos filhos, atividades domésticas, etc)? Quando são elas que dão a luz e entram em licença maternidade? Quando os órgãos de fomento também não consideram os fatores acima na avaliação do projetos de pesquisa? Quando existe uma tendência de revisores serem mais propensos a aprovar as publicações de pesquisadores homens (1)? b) Líderes/posições de destaque : mesmo em áreas em que há uma igualdade no número de pesquisadores mulheres e homens, quem são os líderes dos grupos de pesquisa? Ou quem mais assume cargos de chefia? Ou são as pessoas de destaque? Em geral, pesquisadores homens. Isso porque, historicamente, eles são vistos como mais aptos, com mais pulso firme (ou como já ouvi alguns colegas dizerem " com mais culhão "), como líderes natos que inspiram e não se deixam levar pelas emoções facilmente. Isso está diretamente ligado com a visão que, quando o homem impõe a sua vontade ou exige ser ouvido ou até mesmo levanta a voz, ele está sendo enfático. No entanto, quando a mulher faz o mesmo, ela está sendo tirana, louca e intransigente. Essa percepção está incrustada de tal forma na cultura acadêmica que estudantes aceitam, e até aprovam, um comportamento mais enérgico/duro (ou mesmo grosseiro) vindo de um professor/orientador, mas isso não acontece quando vem de uma professora/orientadora(2, 3). Da professora/orientadora eles esperam compreensão, tratamento materno, etc. Dessa forma, uma atitude grosseira de um homem não só não lhe causa prejuízos, como muitas vezes lhe traz recompensas na carreira e, para muitas pessoas, instiga respeito. Homens também recebem mais visibilidade do que mulheres em eventos científicos: homens são a maioria como chair de sessões, palestrantes e participantes de mesas redondas (4, 5). Essa visibilidade aumenta a reputação dos pesquisadores, as colaborações para pesquisa, as redes de contatos e, consequentemente, a produtividade. Em muitos casos, os organizadores do eventos (em sua maioria homens brancos de meia idade) justificam essa disparidade dizendo que "não encontram experts mulheres na área". Para evitar esse tipo de “desculpa”, foi criada a plataforma https://request500womenscientists.org/ , que auxilia a compilar nomes de mulheres cientistas no mundo inteiro. c) Maternidade x Paternidade : a lei brasileira possibilita às mulheres uma licença maternidade de até seis meses e aos homens de até 15 dias (para servidores públicos federais). Por esses números já é possível ver que não há equidade nem com relação a quanto tempo mulheres e homens podem se dedicar à criança recém chegada. Da mesma forma, não há regras que considerem o tempo que a mulher passou afastada do trabalho na hora de avaliar projetos de pesquisa e conceder bolsas, além de que tudo na carreira do cientista leva em consideração a produtividade. Considerando que as progressões na carreira acadêmica, em geral, ocorrem a cada 2 anos em universidades federais, como exigir que o desempenho de uma mulher que trabalhou 18 meses (e ficou seis em licença maternidade) seja igual ao de um homem que trabalhou 24 meses? Em geral, o que acontece é a mulher ficar para trás na aprovação de projetos, publicações, orientações, etc. Além disso, apesar da licença maternidade ser de seis meses, já se sabe que recuperar a produção desse período pode demorar até alguns anos. Alguns motivos: 1. dependendo da área de atuação (oceanografia química, por exemplo), o trabalho de laboratório fica limitado por questões de saúde do bebê durante a gestação e a lactação (6); 2. limitações (logísticas e financeiras) para participar de conferências e congressos diminuem a interação com outros pesquisadores e também o estabelecimentos de projetos em conjunto; 3. estudos apontam que o cérebro da mãe é reestruturado por pelo menos 2 anos após o nascimento do bebê e isso pode afetar a sua produtividade (7); d) Comprometimento das instituições : para melhorar o balanço não basta apenas incentivar que mais mulheres invistam em uma carreira acadêmica, é preciso que as instituições se comprometam em dar suporte às suas carreiras e a combater assédios. No caso das instituições públicas brasileiras já temos igualdade de salários, mas como resolver o restante dos problemas? Seria responsabilidade de cada departamento ou centro/instituto? Ou deveria ser algo vindo da instituição? A verdade é que se as administrações centrais não estabelecerem políticas que permitam a equidade, esta não será atingida. Precisamos de regulamentos, regimentos e editais que considerem os pontos apresentado nos itens anteriores. Da mesma forma, precisamos que as instituições responsabilizem seus funcionários por atitudes inapropriadas; sejam elas comentários inapropriados ou até assédios (morais e sexuais). As administrações não podem mais "passar pano" para comportamentos inadequados que acabam por constranger as mulheres e até mesmo afastá-las do ambiente acadêmico. Dados apontam que um fator importante para mulheres abandonarem a carreira acadêmica não são as atividades fora do ambiente do trabalho ou falta de apoio de seus companheiros/as, mas as atitudes de seus colegas de trabalho. Os quatro pontos citados acima são só alguns exemplos de como apenas igualar o número de mulheres e homens em um departamento, centro, instituto, universidade não é suficiente para dizer que alcançamos a equidade na academia. Além deles, vários outros podem ser citados, como divisão equitativa do trabalho tido como doméstico (inclusive no ambiente de trabalho, como fazer café, arrumar sala para reunião e organizar confraternizações de fim de ano), incentivos iguais para homens e mulheres seguirem uma carreira acadêmica, avaliações (na carreira, de projetos, etc) que considerem as diferentes realidades, etc. Dessa forma, para melhor combater a ausência de equidade de sexo na academia, antes de criar medidas para saná-la é necessário entender todas as suas causas. NOTA da autora: o texto focou em mulheres/homens, mas a verdadeira equidade em ciência deve garantir que todos (professores, estudantes, pesquisadores) independente do sexo, identidade e/ou expressão de gênero, orientação sexual, etnia sejam empoderados, desafiados, suportados e tenham acesso para se tornarem cientistas líderes em suas respectivas áreas. Referências: https://elifesciences.org/articles/21718 https://www.insidehighered.com/news/2018/01/10/study-finds-female-professors-experience-more-work-demands-and-special-favor https://www.insidehighered.com/news/2018/03/14/study-says-students-rate-men-more-highly-women-even-when-theyre-teaching-identical https://www.nytimes.com/2019/06/12/health/collins-male-science-panels.html?smid=fb-nytscience&smtyp=cur&fbclid=IwAR29qiAP_eZAV5h1A7xJvc4lC6dszMNLS9bbrTdA22HHcCHOprvuHknv5Oc https://www.pnas.org/content/115/1/104 https://www.theguardian.com/science/occams-corner/2013/aug/22/1 https://www.sciencemag.org/news/2016/12/pregnancy-resculpts-women-s-brains-least-2-years #mulheresnaciência #carreira #equidade #julianaleonel

  • Ciência no Bar - Mulheres na Ciência

    O Ciência no Bar é um projeto de extensão organizado por estudantes e professores da Ecologia/UFSC que leva discussões sobre assuntos variados para um bar ao alcance da comunidade. O evento ocorre quinzenalmente no Seu Tavares em Florianópolis. Cartaz de divulgação do evento (Fonte: Ciência no Bar ) No dia 12/03 nossa editora Juliana Leonel participou, junto com mais três professoras da UFSC, da conversa no tema Mulheres na Ciência. O tema foi o mais pedido em uma consulta feita recentemente para saber o que as pessoas queriam discutir e, dessa forma, ressalta a sua importância. Nossa editora falando sobre equidade na carreira acadêmica Nossa editora, falou sobre Equidade na Acadêmica ressaltando como alguns números podem nos passar a ideia de uma falsa igualdade entre homens e mulheres no meio acadêmico. O tema foi inspirado em um texto do Bate Papo com Netuno de 2015 ( Sexo Realmente Importa? ), mas que continua atual e que volta a ser discutido aqui . As participantes respondendo perguntas da plateia. A fala começou mostrando dados sobre o número de pesquisadoras e pesquisadores cadastrados nos grupos do CNPq para ilustrar que quando somente esses números são considerados parece haver uma igualdade entre sexo na academia. Mas, que quando as diferentes áreas de conhecimento ou a posição na carreira são analisadas estamos longe de atingir o equilíbrio. Na sequência foi discutido quais os fatores devem ser considerados quando discutimos equidade. A discussão foi bem recebida pelo público e houveram várias perguntas e exposição de experiências. #extensão #divulgaçãocientífica #mulheresnaciência #netuniandoporai #julianaleonel #ciencianobar

  • Dolphins and humans: best fishing buddies

    By Carla Elliff A friendship that is as beautiful as it is unlikely. Illustration by Joana Ho One of the most traditional seafood dishes in southern Brazil is grilled mullet, and the story of how this fish gets from the ocean to your plate in two special places is amazing. The artisanal fisheries that captures mullets in southern Brazil is believed to have indigenous origin, later being influenced by immigrants from the Azores Archipelago who settled in this region of the country. The tradition has since been passed down from generation to generation . Artisanal fisherman using a casting net to capture mullets at the inlet of the Tramandaí River (photo by Ignacio Moreno). But artisanal fishermen and mullets aren’t the only players in this story. Dolphins are a crucial ally for fishermen, characterizing what is called a cooperative artisanal fishery. The species of dolphin involved here is Tursiops gephyreus , whose close relative is commonly known as the bottlenose dolphin in other parts of the world. In fact, the genus of this species ( Tursiops ) is the same as that of the character Flipper (Universal Studios, 1996)! These cetaceans are intelligent animals and have highly complex behaviors, including when they communicate and socialize. They orient themselves and hunt using echolocation , a process where an animal emits a sound and perceives the echoes produced to calculate the distance between objects. By combining their echolocation strategy with a partnership with local fishermen, these dolphins developed a new way to eat. The Tursiops gephyreus dolphin (photo by Ignacio Moreno). There are currently only two places in the world where this fishing friendship ritual takes place: in the estuary of the municipality of Laguna (SC) and at the inlet of the Tramandaí River, between the municipalities of Imbé and Tramandaí (RS). Historical reports suggest that this practice was also common in the estuaries near the municipalities of Araranguá (SC) and Torres (RS) and in the Patos Lagoon (RS), but this phenomenon has become much rarer. You must be asking yourself: why does this cooperative fishery only happen in these two places? How did the dolphins learn to fish with humans? Can this fishery harm the dolphins? Questions like these, many without a precise answer, have motivated scientists to do research on this occurrence, such as Professor Ignacio Moreno from the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS), who so kindly supplied pictures taken by himself and his colleagues to illustrate today’s post! Prof. Ignacio is the coordinator of the Projeto Botos da Barra , carried out within the Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) of UFRGS. The objective of this project is to value and conserve the cooperative fishery, guaranteeing its continuity and the livelihood of the fisherman community and dolphins of the Tramandaí River inlet. Dolphin-friendly fisherman (pescador amigo dos botos), a partner of the Projeto Botos da Barra conducted by CECLIMAR/IB/UFRGS (photo by Ignacio Moreno). But what happens exactly in this partnership? When the dolphins detect a school of mullets at the inlet of the Tramandaí River, they chase the group and lead them towards the shore. The fishermen, armed with their casting nets (a type of circular net), are there prepared and waiting for the characteristic telltale signs the dolphins make with their heads, indicating that it is time to throw their nets over the cornered fish. Yes, the dolphins nod to the fishermen to let them know when the mullets are there! This way, the fishermen are able to catch more fish in a single throw of their nets and it is easier for the dolphins to catch their mullet, since the fish become disoriented with the net hitting the water. Dolphin catching a mullet (photos by Ignacio Moreno). Fishing with a casting net is considered a sustainable practice for many reasons. For example, since this is a small-scale fishery for either local of subsistence consumption, the pressure over this resource is much lower than with industrial fisheries. Moreover, by using an adequate mesh size, the casting net becomes a selective fishing gear, capturing only adult fish of commercial importance. With years of comradery and mutual help, true bonds have formed with this interaction. The fishermen, who consider the dolphins their friends, can tell them apart by name and know which one is helping (or sometimes getting in their way). There is Geraldona, Rubinha, Chiquinho, Lobisomem (known as being particularly greedy and even learned how to open the casting net underwater!), Manchada... A real family! Artisanal fishermen casting his net with the help of Geraldona (photo by Ignacio Moreno). However, there are dark clouds in this story as well. Urban occupation along the northern coast of the state of RS has grown intensely and in a disorganized way, leading to environmental impacts such as the suppression of dune fields, the loss, fragmentation and deforestation of native vegetation, the generation of excessive waste, the contamination of waters, and intense noise and traffic from boats and nautical sports. Moreover, the craft of being an artisanal fisherman is considered socially vulnerable: although this is an option for sustainable fisheries, it is not highly valued and there are less young people learning the trade. Multiple uses at the inlet of the Tramandaí River, RS (photo by Ignacio Moreno). This scenario reinforces the need for individual and collective measures to improve our environment. For example, after zoning laws and monitoring came into effect in 2016, the dolphins began to appear more frequently during the summer – a time of year when they were not so common, possibly due to the intense tourism and overpopulation in the area during the season. So, remember: if you are near the northern coast of RS or in Laguna (SC), go a bit earlier to the beach and get your fish directly from the dolphins’ friends! Artisanal fisherman during the mullet season in Tramandaí, RS (photo by Elisa Ilha). To know more: Projeto Botos da Barra: https://www.facebook.com/ProjetoBotosdaBarra/ botosdabarra@ufrgs.br Guia de apoio pedagógico para educadores: interação entre pescadores, botos e tainhas: aprendizados sobre cooperação, tradição e cultura. Eliza Berlitz Ilha e colaboradores. Porto Alegre: UFRGS, 2018. 90p. #marinesciences #cetaceans #dolphin #fishing #cooperativefishing #sustainablefishing #carlaelliff #joanaho

  • As dores e os anseios de um doutorado sanduíche em tempos de coronavírus

    Por: Anônima* Ilustração Caia Colla É muito curioso que para grande parte dos pesquisadores com quem convivo ou já convivi é realmente difícil separar a pessoa da profissão. Acredito que a paixão pelo que fazemos é tão grande que faz parte do que somos, sendo a energia que nos alimenta para atravessar os obstáculos. A minha história com a ciência começa muito antes do início da minha formação. Meu avô trabalhava com a manutenção de microscópios ópticos, aqueles que comumente são vistos em filmes e desenhos ao lado de cientistas. A nossa convivência me proporcionou desde cedo a descoberta de novos mundos (ele sempre colocava uma coisinha ou outra, como folhas, pétalas e pequenos insetos, para que eu pudesse observar pela janelinha mágica). A partir daí é fácil imaginar que as tardes de entretenimento se identificaram como vocação e missão. Particularmente para mim, ter a oportunidade de desenvolver parte da pesquisa em uma universidade estrangeira, ampliando meu conhecimento e capacidade de resolução de problemas sob outras perspectivas, era sonho e desafio. E as etapas do processo seletivo, exames de proficiência e o próprio visto foram uma jornada à parte. Embora a agência financiadora (CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) depositasse parte da bolsa aproximadamente um mês antes do início das atividades no exterior, os pós-graduandos têm de arcar com custos referentes à documentação de passaportes/vistos e todos esses trâmites são muito caros e demandam um tempo significativo. Além disso, o meu processo foi um pouco conturbado devido aos cortes financeiros que o Ministério da Educação (MEC) sofreu no último ano. O calendário atrasou e em vários momentos não sabíamos se o edital poderia ser cancelado, o que tornava inviável adiantar toda essa burocracia. Pude organizar os preparativos para a viagem e conseguir um lugar para ficar somente depois da homologação e de ter recebido a primeira parte da bolsa, quando foi depositado em minha conta corrente o valor total em reais correspondente às três primeiras parcelas, auxílio instalação e seguro saúde, com cotação da moeda estrangeira na época. No final de 2019 a segunda parte da jornada começava e foi um misto de alegrias, medos, expectativas e anseios. Naquele momento, a cidade de Wuhan na China apresentava os primeiros casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e ninguém esperava por uma pandemia. Durante os três primeiros meses vivenciei a melhor experiência de todas! A minha supervisora foi muito receptiva, me instalando em seu laboratório e apresentando o campus logo que cheguei. Além de todo o conhecimento que obtive através da sua orientação e frequentes reuniões para acompanhar o andamento do projeto, a convite dela pude cursar sua disciplina (embora a bolsa do sanduíche não cubra taxas e mensalidades). Como o meu objetivo era o de aprender uma nova abordagem estatística e a sua aplicação aos animais com que trabalho, boa parte das minhas obrigações envolviam aprendizado teórico e evolução da construção dos modelos utilizando linguagem computacional, e por isso suas aulas eram essenciais. No país em que estava, a situação da Covid-19 começou a sair de controle em alguns estados durante o mês de fevereiro. Embora não houvesse nenhum caso especificamente para a minha região, a universidade mostrava preocupação e programava algumas medidas de controle, como a possibilidade de fechamento dos campi e realização de aulas, seminários e reuniões por meio de videoconferência. O primeiro caso na cidade ocorreu no início de março, e foi aí que tudo começou a mudar... Imediatamente as aulas foram suspensas e posteriormente a presença nos prédios da universidade foi restringida, sendo autorizada apenas funcionários e pesquisadores que conduziam experimentos com animais vivos. A circulação na cidade também começou a diminuir e o comércio fechou. Ainda que os efeitos da Covid-19 estivessem sérios em outros países (que expressavam significativo número de mortes ), muitas pessoas se comportavam como se estivessem de férias e desobedeciam às orientações de isolamento social. Infelizmente, era comum ver os parques e praias lotados. Em nossa última reunião, minha supervisora me aconselhou vigorosamente que retornasse ao Brasil o quanto antes. “Não gostaria de estar longe de casa e da minha família em um momento como este! Têm chances de você ficar presa aqui, visto a redução de voos e possível fechamento de fronteiras”, ela me aconselhou. Confesso que, após a nossa conversa, fiquei um pouco assustada. Claro que já havíamos falado sobre a situação, mas essa foi a primeira vez em que ela realmente se mostrou preocupada. Por coincidência ou não, ao voltar para o laboratório e retomar minhas atividades, verifiquei que havia recebido um e-mail da CAPES pela plataforma de comunicação Linha Direta, um canal de comunicação entre a agência de fomento e os bolsistas apoiados para tratar exclusivamente dos processos relacionados às bolsas no exterior. Era uma mensagem padrão falando sobre a pandemia e comunicando que os pesquisadores que quisessem antecipar sua volta ao Brasil, teriam a possibilidade de suspender a bolsa e retomar as atividades assim que a situação se normalizasse. Imediatamente entrei em contato, manifestando meu interesse e solicitando orientações de como proceder para organizar o meu retorno. Sinceramente? Até hoje as orientações não chegaram! Sei que provavelmente a agência estava sobrecarregada com casos muito mais sérios do que o meu, mas as únicas mensagens que recebi específicas à minha situação tratam-se de cobranças... Tive muito receio, mas não aguardei o retorno da CAPES. Àquela altura, o programa de pós-graduação em que meu doutorado está vinculado no Brasil, havia sido comunicado de tudo o que estava acontecendo e me deu suporte sobre o que fazer. Por sorte consegui reagendar a passagem de volta. Quando entrei no avião percebi que tinha tomado a decisão correta, já que boa parte dos passageiros eram comissários de bordo e pilotos da companhia aérea que voltavam para casa. Atualmente, o país em que me encontrava vive um dos cenários mais drásticos da doença. Alguns dias depois da minha chegada, o Brasil fechou as fronteiras para estrangeiros e, como esperado, os voos reduziram drasticamente. Nenhuma preocupação quanto ao meu bem-estar e segurança foi demonstrado por parte da agência e, aparentemente, os demais pesquisadores que interromperam suas atividades enfrentam os mesmos problemas. Como mostra uma reportagem do UOL , a CAPES tem cobrado a devolução das mensalidades que não serão utilizadas, com cotação da moeda atual. O grande problema é que o pagamento referente aos meses de março e abril foi efetuado em reais durante o mês de janeiro, quando o valor do dólar e do euro eram bem menores. Isso me deu um prejuízo pessoal de quase R$ 2.000,00, sem falar dos custos que tive que arcar com conversões e transferências internacionais. Sigo desenvolvendo meu projeto no Brasil, cumprindo o cronograma organizado com a universidade estrangeira, contudo ainda não sei quando a minha bolsa de doutorado regular será reativada. Estou sem fonte de renda. É frustrante pensar que não só o meu sonho, mas com certeza de todos os outros pesquisadores que buscam ampliar seu conhecimento e aperfeiçoar suas habilidades, tenham de ser interrompidos de forma brusca e sem respaldo algum. A ciência brasileira vem sofrendo significamente com a falta de investimentos e, ainda assim, mostra um trabalho de qualidade, feito com muita determinação e capacidade. Se há uma lição positiva de toda essa catástrofe que o mundo tem enfrentado, acredito que seja a percepção do quanto a pesquisa científica é importante e que sem ela perdemos informação e conhecimento, impedindo o desenvolvimento de diversas áreas! *a autora não quis se identificar para não prejudicar os processos com a agência de fomento. #doutorado #pósgraduação #vidadecientista #pandemia #capes #covid19 #coronavírus #doutoradosanduíche

  • Comunicação descomplicada em ciências do mar também é coisa de mulher

    Em 16 de abril de 2020, 20h, nossa idealizadora, Catarina Marcolin , participou de uma live muito bacana no Instagram do Projeto Reef Bank . Foram mais de 300 espectadores e rendeu um papo muito interessante sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres nas ciências. Foram apresentados dados sobre a desigualdade de gênero no ambiente acadêmico e uma discussão bem rica sobre a necessidade de enfrentamento dessas desigualdades. Não perca a live completa no nosso canal no YouTube ! #netuniandoporai # catarinarmarcolin #mulheresnaciência #maternidadereal #comunicação

  • O Guia do veraneio de Águas Rasas

    Por Pedro Foloni Água no umbigo é sinal de perigo! Sinalização de perigo das praias do litoral paulista demarcando regiões de ocorrência de corrente de retorno (Fonte: BPCN com Licença CC BY SA 4.0) É muito bom reunir a família e ter um momento de descontração e lazer na praia, esquecer os problemas e se refrescar nas águas salgadas. Naturalmente, existem cuidados para que esses momentos de alegria não se tornem desagradáveis. Por exemplo, ter um guarda sol e passar protetor solar são cuidados automáticos que tomamos quando vamos à praia. Contudo, outros perigos além de queimaduras de sol podem acabar com a felicidade dos veranistas. O texto de hoje expõe um dos maiores perigos a que os banhistas podem se submeter ao entrarem no mar para se refrescar. Não, definitivamente não são os tubarões ! São as correntes de retorno. Na terminologia inglesa, correntes de retorno são conhecidas como RIP currents, onde RIP é um acrônimo da língua inglesa muito utilizado em homenagens a finados, cujo significado é “Rest In Peace”, traduzido para o nosso português como “descanse em paz”. Essas correntes são a principal causa de resgate de banhistas em praias de todo o mundo. Elas são geradas pela quebra das ondas, que ao empurrar a água do mar para costa, causa um empilhamento dessa massa d’água, que escapa de volta para o mar em correntes fortes - as correntes de retorno. Claramente não vou sugerir que paremos de frequentar as praias! Ao invés disso, é melhor que nos conscientizemos, então vamos conhecer um pouco mais sobre esse perigo. Primeiro, devemos saber identificar uma corrente de retorno. Para o nosso alívio, essas correntes apresentam algumas características que podem ser detectadas por um observador atento. Preste atenção às placas de perigo, elas não estão ali à toa. O corpo de bombeiros faz um difícil e muito nobre trabalho, tanto na prevenção, quanto na remediação. Outra característica que pode ser notada é a coloração da água: o fluxo destas correntes remobiliza a areia que está no fundo da praia, fazendo com que ela seja transportada em suspensão. Por conta disso, a água nas zonas de retorno adquire uma coloração amarronzada. Outro fator é o senso comum de pensar que as regiões mais seguras estão onde as ondas não estão quebrando, e na prática é justamente o contrário, pois a profundidade do canal formado pelas correntes de retorno dificulta a quebra das ondas. Neste contexto vale ressaltar um tipo particular de corrente de retorno chamada corrente de borda. Estas correntes são controladas por estruturas rígidas, como por exemplo um costão rochoso. Este tipo de corrente é especialmente perigoso pois o costão rochoso cria uma zona de sombra, ou seja uma região de baixa energia de ondas, tornando o local convidativo para o banho, contudo são locais preferenciais para a existência de um perigo oculto. Por final, já notou que às vezes o mar fica com uma certa textura “encrespada”? Isso acontece porque há uma interação (como se fosse um “bater de frente”) entre estas correntes que fluem em direção ao oceano aberto e o fluxo de água em direção à praia proveniente da quebra das ondas. Imagem retratando a pluma de sedimentos transportada pelo fluxo das correntes de retorno ( Fonte com licença de Domínio Público) Corrente de retorno rompendo a zona de rebentação das ondas, em regime de saída ( Fonte com licença de Domínio Público) Agora, para os desafortunados que acabaram caindo em um sistema de retorno, sinto muito, mas não faz diferença o quão rápido você nada, e sim o quão inteligentemente você irá nadar. Veja bem, tomando como exemplo o maior vencedor olímpico em provas de natação, Michael Phelps, este atleta profissional consegue nadar em uma velocidade de aproximadamente 2,2 metros por segundo. Porém, as correntes de retorno, em casos extremos, podem atingir velocidades de 3,5 metros por segundo, ou até mais que isso. Ou seja, nem Phelps vence a corrente de retorno em termos de velocidade. Vamos então a algumas dicas gerais que podem salvar sua vida. Primeiro: não se desespere e mantenha-se atento. Pode parecer difícil numa situação dessas, mas também pode ser a diferença entre a vida e a morte, pois o desespero leva a um gasto energético que certamente fará falta. Segundo: tente chamar a atenção de surfistas ou banhistas para que acionem socorro. Agora, voltando ao nado inteligente, entramos então em uma questão que requer muito a atenção do banhista. Existem basicamente dois tipos de regime de correntes retorno, o regime de saída e o regime circulatório, saber identificá-los é crucial. Cada um destes dois regimes requer estratégias de escape distintas. O regime de saída acontece quando um jato flui em direção ao mar aberto e o fluxo começa a se dissipar no que chamamos de cabeça de RIP. Nesse caso a melhor estratégia é nadar paralelamente à costa, até chegar a uma região propícia para regressar para terra firme. Geralmente estas regiões são os locais de quebra de onda, você pode usar a energia das ondas como um impulso extra para escapar do mar. No regime circulatório, fluxos assimétricos paralelos à costa convergem para a cabeça de RIP, nesse sentido nadar paralelamente à costa pode representar um esforço inútil, caso a vítima esteja sobre a corrente de alimentação principal. Neste caso a melhor saída é simplesmente boiar, deste modo a própria célula de circulação irá te carregar para um lugar mais propício para o escape." Agora lembre-se: não é porque leu este breve texto que deve se sentir confiante e desafiar o mar. Estudos apontam que condições de mar moderado são as que mais causam acidentes e fatalidades. Ondas menores são mais convidativas, mas igualmente perigosas. Não existe uma estratégia universal e infalível para sobreviver a uma situação destas, entretanto conhecendo o perigo as chances de sobrevivência são muito maiores. É importante ressaltar que em alguns casos os sinais mencionados não são tão evidentes, então se lembre da regra número 1, “água no umbigo é sinal de perigo”. Opte pela precaução e aproveite a praia, mas aproveite com moderação. Referências: CASTELLE, B., T. SCOTT, R. W. BRANDER, AND R. J. MCCARROLL. 2016. “Rip Current Types, Circulation and Hazard.” Earth-Science Reviews 163: 1–21. COWELL, P. J.; THOM, B. G. Morphodynamics of coastal evolution. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, 1994. DAVIS JR, R. A.; FITZGERALD, D. M. Beaches and Coasts, 419 pp. 2004. Sobre o autor Pedro Foloni: Sou oceanógrafo formado pela Universidade de São Paulo, atualmente faço pós-graduação em Oceanografia Geológica no Instituto Oceanográfico da USP e trabalho no Laboratório de Dinâmica Costeira. Minha família tem origem no interior de São Paulo, mas logo que nasci ela se mudou para Ubatuba. Me auto intitulo caiçara, mesmo não tendo raízes genealógicas com esta população tradicional. Para mim, o mar sempre significou muito, em diversos aspectos da minha vida, seja no âmbito recreativo, cultural e educacional. Nascido dia 02 de fevereiro, dia de Iemanjá, até os astros conspiraram em semear esta paixão. Mas a influência do mar sobre a minha vida, começou antes mesmo de eu nascer, infelizmente de forma trágica. Perdi meu avô dois meses antes do meu nascimento, justamente devido a um sistema de correntes de retorno. Durante o ensino médio tentei ingressar no colégio naval em Angra, sem sucesso (na época não me dedicava muito ao estudo hahaha). Já mais velho, optei por cursar Oceanografia. Hoje em meio a um mestrado, estudo uma temática que certamente impactou muito a minha família. Nunca foi algo planejado, foi simplesmente o caminho que a vida me levou, e sou muito feliz no que faço. Espero trazer uma contribuição para a sociedade, de modo que através da ciência consiga melhorar, mesmo que um pouquinho, a segurança nas praias e dos banhistas. #aguanoumbigosinaldeperigo #correntesderetorno #caminhosemretorno #cienciasalvavidas #comciencia #afogamento #oceanografiafisica #descomplicando #convidados

  • Defesa de tese virtual: relato da minha experiência

    Por Viviane Becker Narvaes No último dia 20 de março, de 2020, defendi minha tese de doutorado intitulada “O Teatro do Sentenciado de Abdias Nascimento: classe e raça na modernização do teatro brasileiro” junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) . A defesa ocorreu, portanto, no cenário do desencadeamento da crise global gerada pela disseminação do novo Coronavírus. Não parece haver um problema na ordem dessa sentença? Reflito que ela seria melhor formulada da seguinte maneira de acordo com as condições de vida que temos hoje: - a crise global que vivemos gerou a disseminação do novo coronavírus. Ao fazer essa inversão, adianto que é neste sentido que faço meu relato da experiência de defesa. De modo geral, trata-se o momento atual como suspensão da normalidade. Por um lado é isso mesmo, excepcionalidade, mas por outro a normalidade que vivíamos precisa ser criticada, pois era aceitável apenas como um véu obnubilando a visão de quem ocupa posições menos precarizadas no mundo do trabalho na nossa sociedade. Diante da magnitude da pandemia, às vésperas da defesa da tese, me vi mergulhada em reflexões dessa natureza. No Rio de Janeiro, onde resido, bem como em São Paulo, onde se realizaria a defesa, as políticas de enfrentamento da doença começaram a estabelecer o isolamento social, a redução da mobilidade entre as duas cidades, a quarentena para quem teve contato com doentes ou realizou viagens internacionais, dentre outras medidas. A incerteza sobre a realização da defesa na data prevista começou a se instaurar. No dia 13 de março recebi o primeiro comunicado da pró-reitoria de pesquisa informando sobre novas possibilidades de realização das defesas. Sob a insígnia “A USP não pode parar”, cada dia recebia um comunicado novo, sempre sem mencionar possibilidade de adiamento. Até o dia 18, nem eu, nem minha orientadora sabíamos se iria ocorrer de fato, embora em termos técnicos e burocráticos tudo estivesse certo. Busco ao relatar minha experiência refletir simultaneamente sobre aspectos da minha subjetividade nesse contexto e sobre as ideias gerais, mais objetivas, que consubstanciou minha vivência. A concentração, preparação e ansiedade que vivi nos dias que antecederam a defesa, sentimentos e ações esperadas que perpassam qualquer pessoa que esteja no fechamento de um ciclo de pós-graduação, se intensificaram, principalmente por conta das indefinições e das contradições entre as medidas tomadas pela universidade e aquelas dos setores públicos estaduais tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo. A manutenção da data da defesa implicou em risco à vida da minha orientadora e dos trabalhadores da USP que precisaram estar na universidade para que tudo ocorresse. Precisei também dar conta das novas rotinas impostas pelo isolamento em relação à minha família. A isto, se somou a necessidade de discutir e resolver questões relacionadas ao trabalho na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) , onde sou professora. Todas essas implicações foram muito angustiantes. Não sei o que ocorria com cada membro da banca, em suas casas, famílias e trabalho nesse período, mas posso imaginar que se deram dificuldades da mesma natureza. A ansiedade que foi em mim gerada por tantas notícias de internet e demandas de mensagens virtuais, suponho que também ocorreu com cada um que participou. Comigo essas dinâmicas geraram, inclusive, muita dificuldade de concentração na realização de tarefas simples. Na data prevista, a defesa ocorreu e fui aprovada. O ato de defesa se deu por meio do aplicativo Skype , com cada membro da banca, eu e minha orientadora, em locais diferentes. Tudo mediado por um aplicativo eletrônico. Eu utilizei uma versão gratuita, e creio que os membros da banca também, talvez apenas a versão da USP seja paga. A velocidade da minha internet residencial é a mais alta possível e meus equipamentos são relativamente novos, o que sei que não é a realidade de grande parte de meus colegas de pós-graduação. A defesa começou com um pequeno atraso devido aos ajustes técnicos para fazer funcionar a tecnologia e contatar cada uma das pessoas. Cerca de três minutos após o início, todos os vídeos desapareceram da minha tela, eu não via mais ninguém. Só podia ouvir a argüição. Nesse momento eu informei o que ocorria, mas nada havia a ser feito, pois o problema era na minha interface. Todos estavam assistindo o vídeo que preparei para apresentação que foi compartilhado pela minha orientadora. Não ver as pessoas falando durante a arguição transformou a defesa em uma das coisas mais difíceis que já fiz, pois sem as expressões do rosto, sem os olhares e sem o gestual, uma parte da comunicação foi totalmente prejudicada, e mesmo a variação no volume da voz exigiu de mim uma concentração enorme. O rito de defesa foi preservado, foi o mesmo em aparência e em função pública, mas em essência foi completamente desumanizado. Conquanto a qualidade das intervenções e da defesa em si foram mantidas, uma fração importante do processo não estava presente, pois o espaço de empatia e afeto, que o encontro face a face permite, foi sequestrado. A ideia de que não se pode parar, de que a USP e a pós-graduação não podem parar, não é nova: na última década, pelo menos, esse discurso foi apresentado contra as greves dos trabalhadores da educação. O aspecto nocivo da subserviência aos sistemas de ranqueamento das universidades já vinha mostrando seus efeitos nas perdas de direitos dos trabalhadores e agora, durante a pandemia, mostra que não basta o adoecimento dos docentes e a inviabilidade de se aposentar com tempo para viver com qualidade de vida. É uma necropolítica mesmo, na qual a vida é menos importante do que a produtividade. Talvez se possa, diante de tanta contradição, enfrentar daqui pra frente os discursos anti-greve que pretendiam denunciar que este instrumento estava caduco para os trabalhadores da educação sob o argumento que não somos fábrica e portanto não parávamos a produção stricto sensu . Pois, neste momento eles caem por terra, quando diante do quadro de crise a universidade afirma que não pode parar. Os precedentes para quando voltarmos às situações presenciais foram abertos, e é possível que este modelo seja adotado sem grandes críticas, pois o contingenciamento de verbas já estava em curso antes da pandemia e, se for imposta a garantia de parcos recursos para pesquisa e sua divulgação, em troca de se abrir mão da presença física nas bancas, não será surpreendente que tal procedimento ganhe aceitação. Tenho visto uma acolhida entusiasmada de defesas à distância por parte de muitos colegas da pós-graduação (professores e estudantes), que se sentem às vezes mais confortáveis em realizar essas atividades de dentro das suas casas, tal a precarização que está instalada. Não é de se estranhar esse primeiro encantamento, pois a sobrecarga de trabalho em que muitos se encontram dá a aparência que esse mecanismo economiza tempo. Muitas análises sobre o isolamento social que estamos vivendo indicam que a vida a nossa volta vai ficar diferente quando tudo isto passar. Desejo profundamente que isto ocorra, que exista mais solidariedade, que se estabeleça outra relação com o meio ambiente, que o trabalho seja menos explorado, que se possa ter mais lazer e mais saúde. No entanto, se durante esse período admite-se como normalidade, no meio universitário, práticas que excluem do processo pedagógico e intelectual a qualidade que o encontro, a coletividade e o afeto promovem, creio que o caminho inverso está sendo traçado. Sobre a autora: Possui graduação em Arte Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2004), graduação em Artes cênicas - Licenciatura pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2008) ,mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2007) e Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo - USP (2020). É professora adjunta IV da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Teatro, atuando principalmente nos seguintes temas: teatro, espetáculo teatral, ensino de teatro, encarceramento e performance. Desde 2009, coordena em parceria com outros docentes o Programa de Extensão Cultura na Prisão; Atualmente é chefe do Departamento de Ensino de Teatro. #covid19 #coronavírus #defesa #doutorado #convidados #vidadecientista #defesavirtual #homeoffice

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