top of page

Resultados da Busca

538 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Dia Internacional da Mulher 2019

    Oito de Março, o Dia Internacional da Mulher, está chegando! E junto com ele, uma série de eventos imperdíveis. Nós do Bate-papo com Netuno separamos alguns eventos em diversas partes do Brasil. E na sua cidade? Haverá algum evento? Compartilhe com a gente! Angra dos Reis – RJ Na Vila Histórica de Mambucaba será realizada o evento “Mar de rosas: as mulheres e os oceanos”, onde ocorrerá uma homenagem às mulheres que têm suas vidas ligadas ao mar (Dia: 09/03 às 13 horas – gratuito; informações (24) 988331608). Florianópolis - SC Pré 8M Na UFSC - roda de conversa: Mulheres na Pós - graduação: diversidade, resistência e luta (Informações: https://www.facebook.com/events/562590827563911/ ). Rio de Janeiro – RJ Mulheres do Amanhã: Uma semana de atividades no Museu do Amanhã, incluindo um dia só sobre Mulheres na Ciência. (Informações: https://museudoamanha.org.br/pt-br/semana-das-mulheres-do-museu-do-amanha-mulheres-do-amanha ). São Paulo - SP Entre os dias 11 e 15 de março, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas realiza a Semana da Mulher IPT 2019: Construindo a Igualdade de Gênero. Além de apresentações de documentários e atrações artísticas e culturais, a programação reúne convidadas de diferentes campos do conhecimento, promovendo uma reflexão sobre a condição da mulher no mundo contemporâneo. O evento é gratuito e aberto ao público.  Informações: http://uspmulheres.usp.br/semana-da-mulher-ipt-2019-construindo-igualdade-de-genero/ Greve Internacional de Mulheres Mulheres do Brasil e do mundo participarão da Greve Internacional de Mulheres. A greve ocorrerá em 8 de Março. Nas ruas, as mulheres lutarão contra o machismo, a desigualdade de gênero, os feminicídios e os projetos que atacam seus direitos. Aracaju (SE): https://bit.ly/2TnMevN Belém (PA): https://bit.ly/2VIWXxE Belo Horizonte (MG): https://bit.ly/2Inq1sB Campinas (SP): https://bit.ly/2CpidAt Caxias do Sul (RS): https://bit.ly/2HgNaL3 Curitiba (PR): https://bit.ly/2BNne63 Distrito Federal: https://bit.ly/2HkMUdR Florianópolis (SC): https://bit.ly/2NNmliP Itajaí (SC): https://bit.ly/2EG2E8B Itapetininga (SP): https://bit.ly/2TkUPzm Juiz de Fora (MG): https://bit.ly/2EC2Zci Londrina (PR): https://bit.ly/2HdZUCi Macapá (AP): https://bit.ly/2NxhO46 Manaus (AM): https://bit.ly/2XQ3dFE Marabá (PA): https://bit.ly/2Tzhjf8 Natal (RN): https://bit.ly/2EJXska Passo Fundo (RS): https://bit.ly/2TxjS1d Petrópolis (RJ): https://bit.ly/2VLgCgn Porto Alegre (RS): https://bit.ly/2tShL9I Recife (PE): https://bit.ly/2SJP5d7 Ribeirão Preto (SP): https://bit.ly/2HhdcxP Rio de Janeiro (RJ): https://bit.ly/2HiDLmf Rio Grande (RS): https://bit.ly/2TyC4rb Roraima (RO): https://bit.ly/2UnHtyL Salvador (BA): https://bit.ly/2ERAGbh Santa Maria (RS): https://bit.ly/2H61BlZ São José dos Campos (SP): https://bit.ly/2ERGz8i São Leopoldo (RS): https://bit.ly/2XJa3wk São Paulo (SP): https://bit.ly/2C6UVjt Uberlândia (MG): https://bit.ly/2H5gG7s Vitória (ES): https://bit.ly/2EUq7nX #mulheresnaciência

  • Da praia ao laboratório: como me tornei uma cientista

    Por Mônica Lopes-Ferreira Desde pequena sempre gostei do mar. Nos finais de semana, nas férias, nos feriados, lá estava eu curtindo uma praia. Tudo no litoral me encantava: a natureza, as paisagens, os animais.  Enquanto eu desfrutava das verdes águas mornas da cidade de Maceió, minha terra natal, simultaneamente prestava atenção em todo o ecossistema ao meu redor. No início da juventude chegou o momento de escolher qual carreira seguir. Não tive dificuldade em entender que o estudo dos seres vivos fazia com que a minha mente e meu coração vibrassem. Decidi fazer Biologia, estudei bastante e ingressei na Universidade Federal de Alagoas.   Sou muito curiosa e sempre gostei de aprender. Além da rotina das aulas na Universidade, eu participei de muitos cursos, seminários e palestras na área. Até que no ano de 1989, um encontro especial mudou o rumo da minha história. Ivan Mota - pesquisador do Instituto Butantan – ministraria em Alagoas um curso sobre Imunologia. Como estudante, me senti estimulada a saber mais sobre aquele centro de pesquisa que eu conhecia somente pelos livros de Ciências. Eu já sabia que os cientistas de lá estudavam animais peçonhentos e produziam soros para tratar os acidentes que os venenos provocavam. E a Imunologia?  Ela eu ainda não conhecia. O curso era complexo, oferecia aulas o dia inteiro e tinha muitos alunos. Ali tive contato com muitas novidades e fiz grandes descobertas. O professor era um pesquisador competente, entusiasmado e apaixonado. Fiquei completamente atenta e deslumbrada com a Imunologia. Para a minha surpresa, ao final do curso ele anunciou que faria a seleção de cinco alunos para um estágio no Instituto Butantan. Passei na entrevista, fui escolhida e descobri que o professor – assim como eu - também gostava do mar. Tive total apoio dos meus pais para realizar o estágio. Sentamos, conversamos e decidimos que eu iria para São Paulo. Eles tinham consciência de que seria uma grande oportunidade e que eu viveria momentos únicos. Quando cheguei na capital paulista, me surpreendi com o tamanho da cidade. Como ela era diferente de Maceió! Nunca vou esquecer do primeiro dia, do primeiro olhar, das fortes batidas no coração, ou seja, minha descoberta da cidade. Em contrapartida, o Butantan era um refúgio no meio de São Paulo. Muitas árvores, prédios antigos, museus, laboratórios, cobras, aranhas, escorpiões, entre outras espécies de animais peçonhentos. Os pesquisadores me ensinaram muito. As hipóteses, as perguntas, os experimentos, a vida dinâmica do laboratório e a Imunologia foram conduzindo a trajetória para que eu me tornasse uma cientista. Acabei ficando em São Paulo e terminei o curso de Biologia por aqui. Estudei muito e ingressei em uma pós-graduação na área de Imunologia. Meu objeto de estudo foi um animal peçonhento. Não era cobra, aranha, muito menos escorpião. Minhas origens litorâneas falaram mais alto e decidi estudar um peixe. O animal escolhido para a minha pesquisa foi o Niquim, de nome científico Thalassophryne nattereri ; peixe da região Nordeste que despertou a minha atenção durante um período de férias em Maceió. Um médico dermatologista me contou na ocasião relatos sobre os acidentes que o bicho causava em pescadores e banhistas.  Não havia tratamento e existiam poucos estudos sobre o veneno. Fiquei convencida da importância de estudar a espécie em questão, quando comecei a conversar com os pescadores locais. Eles me disseram: “Ele é um peixe pequeno, de movimentos discretos, não ataca ninguém, mas quando tem seu espaço invadido, solta um veneno capaz de aleijar ". O aquário no laboratório cresceu e outros peixes peçonhentos chegaram:  bagres, arraias, peixe-escorpião e espécies que habitam as nossas águas e causam acidentes. Até que um peixe mais dócil apareceu no meio do caminho e os estudos foram ampliados. Zebrafish O Zebrafish - de nome científico Danio rerio - é conhecido popularmente como Paulistinha. Ele é utilizado como modelo experimental em muitos países para estudos comportamentais, genéticos, testes de toxicidade, entre outras áreas. Aprofundei meus conhecimentos sobre a espécie e iniciei os estudos com o peixe no Instituto Butantan. As pesquisas avançaram e em 2015 foi inaugurada a Plataforma Zebrafish. Um local de criação e manejo do animal, que tem como objetivo fazer ciência e compartilhar informações. A partir da Plataforma surgiu a Rede Zebrafish. Um projeto que liga 80 pesquisadores de 40 instituições espalhadas pelo Brasil. O Paulistinha também é comunicação; um divulgador de ciência e contador de histórias. Com ele eu tenho ido além, chegado em diferentes lugares, conversado com crianças, jovens, adultos e idosos. Mulher e cientista Durante uma palestra que ministrei em um Colégio Estadual de Osasco, sobre o Zebrafish, os alunos não sabiam qual era o gênero do pesquisador que falaria para eles naquele dia. A maior parte dos estudantes esperava um homem velho, de jaleco e com cabelos brancos.  Fiz questão de levar comigo somente pesquisadoras mulheres; elas são maioria em nosso laboratório e devem servir de exemplo para as crianças. É preciso romper paradigmas para que as coisas mudem. Me sinto realizada pela oportunidade de trabalhar em prol do avanço da ciência. Esta é a minha história como mulher e cientista. Estudei, ingressei na pós-graduação e, no ano de 2000, concluí o doutorado pelo Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo. Sou doutora, pós-doutora, pesquisadora do Instituto Butantan e atualmente diretora do Laboratório Especial de Toxicologia. E por tudo isso posso dizer, Sou Feliz, Sou Cientista. Mônica é pesquisadora do Instituto Butantan e coordenadora da Plataforma Zebrafish . As ilustrações deste post são de Veridiana Scarpelli . #convidados #carreira #cientista #mulheresnaciência #MônicaLopesFerreira

  • Aquele “mato” chamado marisma

    Por Alice Reis Marismas são vegetações herbáceas, um tipo de gramínea. Esse tipo de vegetação ocorre na região entre marés de estuários (região de encontro entre o rio e o mar).  As marismas ocorrem entre os limites de maré baixa e alta de sizígia (maré grande). Isso quer dizer que, quando a maré sobe, as marismas ficam submersas durante um tempo. Por ser uma vegetação terrestre, e não aquática, ela possui adaptações fisiológicas para suportar a submersão. No entanto, não sobrevive se ficar mais que algumas horas submersa, e diferentes espécies possuem diferentes limites à submersão.  Por ocorrer em regiões estuarinas, onde a água é salobra, as espécies de marisma também possuem adaptações para lidar com a grande quantidade de sal presente. Algumas espécies possuem células responsáveis por excretar o sal e, em alguns casos, é possível ver pequenos cristais em suas folhas. Esse tipo de vegetação possui diversas funções. Por ser uma vegetação costeira, ela protege a linha de costa da erosão, como ocorre quando o nível do mar sobe ou quando uma tempestade mais forte atinge a costa. As marismas também têm função de refúgio para pequenos organismos, como juvenis de peixes (quando a maré sobe) e crustáceos. Por exemplo, pequenos caranguejos utilizam a vegetação para se esconder de aves e se proteger do Sol durante a maré baixa. Um papel importante das marismas diz respeito à sua relação com os manguezais. Os manguezais ocorrem na região tropical e as marismas ocorrem na região temperada. Um lugar famoso pelas grandes marismas é a Lagoa dos Patos (que na verdade é uma laguna, já que possui conexão direta com o mar e água salobra) no Rio grande do Sul. Apesar de predominar em regiões diferentes do globo, as marismas também ocorrem na região tropical, somente onde o mangue não consegue colonizar. No entanto, estudos recentes vêm mostrando que as marismas estabilizam o sedimento e permitem que o mangue passe a colonizar essas regiões que antes não seria capaz, a isso se dá o nome de sucessão ecológica. Esse conhecimento mostra que as marismas podem ter um papel importante no processo de colonização dos mangues. Por isso  diversos pesquisadores começaram a fazer experimentos para testar se esse tipo de vegetação pode ser um facilitador para colonização de mangue, e assim, poder ser utilizado para auxiliar no reflorestamento de manguezais que foram desmatados. Estudos recentes do Laboratório de Ecologia Bentônica da Universidade Federal da Bahia vêm coletando informações preliminares sobre as marismas da região tropical, mais especificamente no estuário do rio Jaguaripe na Bahia. Quem sabe num futuro próximo não estaremos reflorestando florestas de mangue com a ajuda dessa gramínea? Para entender mais sobre o assunto: 1. Schaeffer-novelli, Y. 1999 Grupo de ecossistemas: manguezal, marisma e apicum.  119. 2. Silvestri, S., Defina, A. & Marani, M. 2005 Tidal regime, salinity and salt marsh plant zonation. Estuar. Coast. Shelf Sci. 62, 119–130. (doi:10.1016/j.ecss.2004.08.010) 3. McKee, K. L., Rooth, J. E. & Feller, I. C. 2007 Mangrove Recruitment After Forest Disturbance Is Facilitated By Herbaceous Species in the Caribbean. Ecol. Appl. 17, 1678–1693. (doi:10.1890/06-1614.1) Sobre Alice Reis: Alice ama a Oceanografia por ser uma profissão multidisciplinar, que integra diferentes áreas de estudo dos oceanos, e por isso possibilita enxergar os oceanos de forma abrangente. Durante a graduação, estudou Biologia Marinha na Università di Pisa, Itália. Foi bolsista PIBIC no período de 2012-2013, no Laboratório de Ecologia Bentônica (LEB), com ênfase em Interação entre os Organismos Marinhos e Ecologia de Ecossistemas. Formou-se em oceanografia pela UFBA em 2016. Atualmente, Alice está se preparando para o mestrado em Ecologia para continuar estudando o papel das marismas tropicais como refúgio. #convidados #ciênciasdomar #marismas #manguezais #regiãoestuarina #AliceReis

  • Tartarugas marinhas e a pesca nos oceanos

    Por Melissa Marcon As tartarugas marinhas apresentam-se distribuídas globalmente e podem ser encontradas em mares tropicais e subtropicais de todos os oceanos (MÁRQUEZ, 1990). Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes no planeta, cinco utilizam a costa brasileira para alimentação e reprodução (MARCOVALDI & MARCOVALDI 1999). Figura 1. Cinco espécies de tartarugas marinhas que podem ser encontradas na costa brasileira. A) Tartaruga cabeçuda; B) Tartaruga verde; C) Tartaruga de couro; D) Tartaruga de pente e Tartaruga oliva. Fonte As causas da redução na população das tartarugas marinhas estão ligadas direta ou indiretamente à destruição do ambiente pela ação antrópica nas praias de desova (como iluminação, circulação de carros, entre outros), predação dos ninhos, interação com a pesca, e poluição (SPOTILA et al., 2000; BUGONI et. al., 2001; TOMÁS et al., 2001; BARROS et al., 2010). Além disso, a interação das tartarugas marinhas com as artes de pesca é um dos fatores de mortalidade e injúria de indivíduos jovens e adultos em todo o mundo (LUTICAVAGE et al., 1997; PINEDO & POLACHECK, 2004; KOTAS et al., 2004; DOMINGO et al., 2006; GARDNER et al., 2008). Em minha dissertação de mestrado eu avaliei a interação de tartarugas marinhas de couro (Dermochelys coriacea) e cabeçuda (Caretta caretta) com a pesca de espinhel pelágico na região Sudeste/Sul do Brasil. Meu objetivo principal com esse estudo foi quantificar os padrões de distribuição das capturas acidentais dessas espécies de tartarugas marinhas e correlacioná-los com variáveis ambientais (oceanográficas), biológicas e operacionais, esperando contribuir com a formulação de estratégias de conservação e manejo de pesca que beneficiem a manutenção do ecossistema pesqueiro. Estimativas da captura incidental dessas tartarugas pelo espinhel pelágico têm gerado preocupação em relação às taxas de mortalidade por pesca, e ao baixo potencial de recuperação dessas populações no Oceano Atlântico. Para entender de forma simples um pouco mais sobre esta arte de pesca clique aqui . Figura 2. Pesca com espinhel pelágico de superfície. Distribuição dos petrechos de pesca. Fonte O monitoramento das capturas acidentais, juntamente com o registro dos respectivos dados abióticos e operacionais da pesca, muitas vezes obtidos por observadores de bordo em frotas comerciais, deve ser considerado como uma rica fonte de informação, pois permite melhorar a compreensão do comportamento das populações de tartarugas marinhas, bem como apreciar a importância das variações ambientais sobre a dinâmica das populações. Em meu estudo pude identificar que a tartaruga cabeçuda foi capturada acidentalmente em maior número que a tartaruga de couro, assim como observado por outros autores. O fato de a maior parte dos indivíduos de tartaruga cabeçuda haver sido fisgado pela boca, é congruente com o fato da espécie se alimentar de peixes, logo esta espécie alimenta-se da isca do espinhel. Já a tartaruga de couro, em sua maioria, foi encontrada com o anzol externamente ao corpo, o que está relacionado com sua alimentação, já que a espécie se alimenta de plâncton gelatinoso. Observei também que em relação a sazonalidade, ou seja, estação do ano, as tartarugas foram capturadas em maior número no outono. É possível que nessa estação ocorra algum fenômeno oceanográfico que favoreça a maior abundância relativa de tartarugas. Desse modo, o pico de capturas acidentais encontrado duranto o outono,  pode estar relacionado à migração das mesmas para essa região mais costeira, possivelmente para alimentação, onde, consequentemente, uma maior vulnerabilidade ao espinhel possa ocorrer durante essa estação. As capturas acidentais da tartaruga cabeçuda analisadas no meu mestrado foi significativamente maior quando lulas foram usadas ​​como isca em operações de pesca, demostrando assim, a preferencia por este tipo de isca por esta espécie. Cabe destacar que observações feitas anteriormente por outros autores havendo encontrado  reduções na captura da tartaruga cabeçuda usando, inclusive, a cavalinha ( Scomber scombrus) como isca, assim como autilização do anzol circular para dimunuir os danos da captura acidental. A alimentação oportunista da tartaruga cabeçuda em sua fase juvenil oceânica torna a espécie muito suscetível à captura incidental em espinhel pelágico. Leia mais sobre métodos para se reduzir a captura acidental de tartarugas marinhas em operações de pesca neste link . De modo geral, pude identificar padrões de comportamento, como preferência de localidade e tipo de isca, assim como o tipo de anzol e a época do ano em que as tartarugas marinhas destas espécies são capturadas em maior número. É importante salientar que os dados dependentes da pesca se mostraram muito úteis, podendo ser, às vezes, a única fonte de informação para a análise dos padrões de comportamento migratório, localização e habitat preferido das tartarugas marinhas em diversas partes do mundo. Pode parecer paradoxal que a própria atividade impactante seja a que nos permite conhecer, com mais detalhes, as populações impactadas. Mas esses dados de capturas acessórias ou acidentais, são de fato cada vez mais completos e permitem uma melhor identificação dos potenciais impactos que essas populações sofrem. Nesse sentido, com base nos resultados do meu mestrado, podem ser propostas diversas iniciativas e medidas visando contribuir com a conservação das espécies de tartaruga marinha estudadas e com o manejo da atividade pesqueira. A vida nos oceanos não é nada fácil para as nossas belas gigantes marinhas, sendo assim, todos os esforços para conhecê-las e protegê-las, assim como o ambiente que frequentam, é extremamente válido e gratificante. Sobre Melissa Marcon: Médica veterinária formada pela Faculdade de Jaguariúna (2009). Apaixonada pelo mar e seus habitantes finalizei meu mestrado em Oceanografia Biológica pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo em 2013. Atuo na área clínica médica e cirúrgica de pequenos animais e animais silvestres. Possuo experiência na área de coleta de material biológico, monitoramento de praia, necropsia, resgate e reabilitação de animais marinhos, em especial, quelônios marinhos. Melissa já publicou outro post com a gente, acesse " Uma veterinária, a tartarugas marinhas, e a oceanografia " #ciênciasdomar #melissamarcon #convidados #oceano #pesca #tartarugasmarinhas

  • Mergulho para a vida na escuridão: uma pesquisa nas profundezas do mar

    Por Camila Negrão Signori Originalmente publicado em: InForMar 25,   http://maradentro.org.br/informar/category/2 Estar em uma expedição científica a bordo do navio de pesquisa norte-americano Atlantis com a presença do submersível Alvin (sob responsabilidade do Woods Hole Oceanographic Institution, prestigiado instituto oceanográfico da costa leste), foi por si só uma experiência bastante diferente e enriquecedora, mesmo estando acostumada a participar de embarques de pesquisa. Já embarquei algumas vezes na plataforma continental e talude do litoral sul e sudeste brasileiro, atravessei o Oceano Atlântico Sul - desde a África até o Brasil, e também naveguei três vezes em águas do Oceano Austral, no entorno da Península Antártica.  Essa experiência só foi possível pelo convite que tive do Dr. Stefan Sievert, meu supervisor de Doutorado Sanduíche (quando desenvolvi parte de minha pesquisa de Doutorado com amostras polares, no Woods Hole, financiada pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior), com quem mantenho a parceria após o Doutorado. Stefan foi o coordenador científico desse embarque, com o Projeto financiado pela agência norte-americana NSF (National Science Foundation) “Estudo integrado: energia metabólica, fixação do carbono, e mecanismos de colonização em comunidades microbianas quimiossintéticas nas fontes hidrotermais profundas”. Minha função foi ajudar Stefan e Jesse McNichol (meu amigo e doutorando do Programa MIT-WHOI, cuja tese está diretamente relacionada a esse projeto) em todas as tarefas a bordo. As razões de tanta diferença para os demais embarques foram várias. Foi minha primeira vez em águas do Oceano Pacífico. Foi meu primeiro embarque em um navio administrado por um instituto de pesquisa, e com tripulação bastante reduzida, com cerca de 25 pessoas incluindo a tripulação do Alvin (os demais navios em que estive sempre foram administrados pela Marinha do Brasil, com tripulação de cerca de 50-60 pessoas). Foi um embarque internacional, com 23 pesquisadores de diferentes partes do mundo, incluindo Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália, Espanha, Japão, China, e eu do Brasil. As diferenças não param por aí. Ao invés de navegarmos para distintas estações oceanográficas (com diferentes latitudes e longitudes, a fim de explorarmos espacialmente os estudos de Oceanografia Física, Química, Biológica e Geológica), nós permanecemos na mesma área amostral (9°Norte) por quase um mês. Nossa paisagem – um oceano sem fim, distante cerca de 4-5 dias de navegação de qualquer terra firme – foi muito parecida ao longo desses dias. Afinal, os objetivos do projeto estavam todos relacionados com o oceano profundo, nas fontes hidrotermais.  Ao invés das tradicionais garrafas de Niskin – normalmente acopladas ao sistema CTD-Rosette, que nos permite coletar águas de diferentes profundidades, selecionadas de acordo com as diferentes massas d’água - para este embarque, nós utilizamos o famoso submersível Alvin, com mergulhos diários a mais de 2500 m de profundidade. Com o auxílio de dois braços robóticos capazes de manipular instrumentos, e uma “cesta biológica” capaz de carregar mais de 180 kg de material do fundo, tornou-se possível coletar nossas amostras, como fluidos provenientes das fontes hidrotermais, microrganismos associados às fontes, invertebrados anelídeos e colonizadores. Para as análises químicas e microbiológicas das amostras, ao invés de usarmos a água coletada pelas garrafas de Niskin ao chegar a bordo do navio, nós utilizamos os fluidos coletados por equipamentos especiais, chamados de “IGTs” (Isobaric Gas Tight samplers, ou amostradores isobáricos de gás comprimido), que foram desenvolvidos pelo instituto Woods Hole e mantêm a pressão e condições ambientais das fontes profundas.  Trabalhar no laboratório do navio com as amostras não foi uma tarefa trivial, não por causa do balanço do mar (pois, apesar de estar prevista a passagem de um furacão perto da nossa área, o mar esteve calmo durante todo o embarque), mas sim para a retirada dos fluidos a partir dos “IGTs”. Precisávamos ter todo o cuidado para a altíssima pressão, ao abrir e fechar o sistema, trabalhando com ferramentas (cujos nomes nem sei em Português), e muitas vezes de noite e de madrugada (depois do retorno do Alvin a bordo). Era muita engenhoca para retirarmos 150 mL de líquido hidrotermal para depois seguirmos os tradicionais protocolos de laboratório, para diferentes objetivos, como a extração de DNA dos microrganismos, medição de gases (como hidrogênio e sulfeto), medições do processo de quimiossíntese, contagem e cultivo de microrganismos, fora outros experimentos de incubações, utilizando diferentes temperaturas e adição de nutrientes. Ter a chance de mergulhar tão profundo era um de meus sonhos (quase impossíveis) como oceanógrafa, que se tornou realidade em 14 de novembro de 2014.  Logo que o Alvin foi lançado na água através do guincho do Atlantis e suspenso por um gigantesco e robusto cabo, sentimos um leve balanço nas águas superficiais do Pacífico. E após a última checagem dos dois mergulhadores que descem junto ao topo do submersível, e um breve adeus e desejo de “boa sorte” acenado pelas escotilhas, nós começamos a travessia para o mar profundo.  Os primeiros 100 m de coluna d’água eram de cor turquesa belíssima, e logo após os 300 m de profundidade, tudo se tornou completamente escuro e calmo. Ao passarmos a Zona de Mínimo de Oxigênio (de 300 até cerca de 800 m, local na coluna de água onde a concentração de oxigênio é mínima, devido principalmente ao processo de respiração), organismos bioluminescentes apareceram flutuando em contraste com a água negra. Após uma hora e meia de descida muito suave (como se eu estivesse sentada no sofá da sala!), o piloto Phil Forte – tão sereno quanto a nossa descida – ascendeu os holofotes de LED do Alvin e um novo mundo surgiu sob meus olhos. Nós aterrissamos sobre a crosta oceânica – que constitui o fundo dos oceanos, de cerca de 200 milhões de anos – onde a rocha basáltica escura, por vezes, se mostrou mais brilhante, indicando uma formação mais recente de uma área tipicamente mais ativa. E assim, com o auxílio do GPS, começamos a explorar a área de estudo para que as metas do mergulho fossem cumpridas em 6 horas, para depois retornarmos em mais uma hora e meia de subida até a superfície. Pelos trabalhos científicos, imagens e vídeos na Internet e relatos de quem já mergulhara nestas fontes hidrotermais do Pacífico, eu já esperava encontrar bastante vida. Mas, no fundo, a gente sempre fica com aquela pulguinha atrás da orelha...será que essas pessoas realmente viram tudo aquilo mesmo? E sim! Vimos a vida abundante no oceano profundo: muitos caranguejos pequenos e brancos (justificando o nome dessa região “Crab Spa”); diversos invertebrados anelídeos (Tube warms) da espécie Riftia pachyptila , que podem chegar a quase 2 m de altura e possuem uma cor avermelhada nas pontas, caracterizando a presença de um complexo de hemoglobinas adaptadas à presença de sulfetos, tóxicos para nós humanos; peixes albinos e cegos nadando pela área, medindo cerca de 30 cm de comprimento, e caracterizados pela ausência de escamas e por se assemelharem às enguias (por isso chamados de Eelpout). Vimos ainda moluscos bivalves amarelados, pequenos camarões e lagostas nos arredores das fontes, além dos famosos tapetes microbianos.  Mas, confesso que, mesmo sendo uma pesquisadora da Oceanografia Microbiana, o que mais me impressionou, foi a estrutura geológica, que parecia artisticamente esculpida, cercada pelas fumarolas negras (rica em sulfetos metálicos). Foi simplesmente impressionante “pisar” na crosta oceânica, onde a Terra se formou, e vivenciar as fontes em plena atividade. Como eu me senti depois desse mergulho? Bem, além de muito maravilhada com tanta vida e beleza, com toda a tecnologia para a exploração de uma das fronteiras do conhecimento, e muito abençoada com a oportunidade de estar embarcada com pessoas muito competentes das mais diferentes nacionalidades... eu me senti muito pequena. Tão pequena quanto uma gota de água no vasto oceano, ou uma minúscula célula microbiana brilhando no microscópio! Ainda temos muito o que aprender sobre os mistérios do mar. Mergulho 4769: uma experiência que eu jamais vou esquecer! Às vezes, quando me pego pensando sobre esse mergulho, custa-me acreditar que um dia eu estive lá. Sou extremamente grata ao Dr. Stefan Sievert, que confiou em meu trabalho, e me deu essa chance de embarcar e aprender muito a bordo do Atlantis e do Alvin. Também agradeço a todos os colegas cientistas, e à competente tripulação, por compartilharem essa experiência comigo e por todos os esforços e duro trabalho para conseguirmos desbravar a vida na escuridão. Para maiores informações, confira também os links: O blog da expedição "Dark Life" para as fontes hidrotermais da Elevação Leste do Pacífico (East Pacific Rise, a 9°N) ainda está no ar: http://web.whoi.edu/darklife/ About Woods Hole Oceanographic Institution: http://www.whoi.edu/ An overview of my research career: http://agenciasn.com.br/arquivos/3010 Sobre Camila Negrão Signori: Oceanógrafa, mestre em Ciências Biológicas/Zoologia e Doutora em Ciências/Microbiologia, com períodos de idas e vindas do Woods Hole Oceanographic Institution (EUA). Nascida em Campinas (interior de São Paulo), mas se encantou pelo mar desde pequena ao conhecer a Enseada de Ubatuba. Nas horas vagas, adora praticar esportes e dançar, sempre cercada de família, namorado e amigos maravilhosos. Hoje é Pós Doutoranda do Instituto Oceanográfico (USP) e integrante do Laboratório de Ecologia Microbiana, onde pesquisa os efeitos das mudanças climáticas nas comunidades microbianas do Oceano Austral. Contato: camisignori@hotmail.com #vidadecientista #camilanegrãosignori #convidados #mergulho #alvin

  • O mergulho como ferramenta de pesquisa

    Por Aline Alves Nos últimos anos o mergulho tem deixado de ser uma atividade pra poucos. Muitas pessoas buscam o mergulho como lazer, hobby e até mesmo atividade física. Eu, apesar de ter passado a vida longe do mar, sempre fui muito conectada a tudo que era relacionado a ele. Quando fiz o meu primeiro mergulho autônomo, um simples batismo, foi amor à primeira vista. Depois disso, foi só questão de tempo pra que eu entrasse de vez nesse mundo. Passei a fazer cursos de mergulho recreativo, com o simples objetivo de mergulhar bem. No entanto, já cursava biologia e o fato de aprender a mergulhar poderia ser o primeiro passo para trabalhar com biologia marinha.  Com o uso do mergulho como um meio para fazer pesquisa, de uma ramificação do mergulho autônomo surgiu o mergulho científico. Esta classificação de mergulho nada mais é do que adaptação/criação de metodologias científicas para o ambiente aquático. Em outras palavras, pesquisadores passaram a utilizar do mergulho para entender melhor o ecossistema aquático, e com isso técnicas foram desenvolvidas para que fosse possível coletar dados e amostras de maneira viável e segura.  Após adquirir um pouco de experiência embaixo d’água com o mergulho recreativo, eu comecei a utilizar o mergulho como ferramenta de trabalho no mestrado. Nesse período, trabalhei com comportamento reprodutivo de uma espécie de donzelinha (peixes recifais de uma família bastante comum na costa brasileira), e consegui conciliar uma das coisas que eu mais amava fazer à metodologia do meu projeto. Foi nesse momento que comecei a aprender os diferentes métodos de coleta de dados, vendo os pesquisadores mais experientes trabalharem.   Dependendo do objetivo da coleta, o mergulho científico pode ser realizado para diferentes tipos de amostragens. Existem os métodos ditos como não destrutivos, como por exemplo, os censos visuais, observações e monitoramentos com uso de filmagens e fotografias. Os censos visuais são realizados dentro de uma área delimitada, onde o pesquisador conta o número de indivíduos alvo do estudo e registra também outros dados relacionados ao local da coleta. Particularmente, poderia descrever aqui diversas vantagens na utilização desses métodos. Já utilizei muito deles, e sei que pode-se obter resultados incríveis causando o mínimo de impacto. Alguns outros estudos envolvem coletas de material biológico de fato. E nesse caso, é necessário o conhecimento de outras técnicas que podem exigir o uso de equipamentos de elevação, e movimentação controlada de amostras. Essas técnicas exigem do mergulhador um bom controle de flutuabilidade e organização, pois qualquer descuido pode prejudicar toda a amostragem. Além de apresentar técnicas que permitem executar o mergulho com mais segurança, a importância de usar o mergulho científico como ferramenta de trabalho vem da possibilidade de explorar locais e profundidades nunca antes estudadas e ter a chance de inúmeras observações novas, tais como espécies e comportamentos diferentes daqueles já registrados. Dessa forma, é possível ter mais abrangência e precisão na hora de monitorar ambientes aquáticos.  Mas de todas as vantagens, a que mais chama atenção das pessoas  é a oportunidade que o mergulho científico te dá de trabalhar nos lugares mais incríveis que você já imaginou. Estar em ambientes prístinos, remotos e em águas cristalinas, com certeza fazem valer a pena qualquer esforço. Sem contar quão próximo você fica de um ecossistema tão único e de todos os seres que dele fazem parte. Aprendi muito em todas as expedições que participei. Nelas você fica muito tempo, seja embarcado ou em algum arquipélago, com pessoas que às vezes você mal conhece. Conviver com pesquisadores renomados e mergulhadores experientes, só contribuiu para o meu aprendizado. Além disso, te possibilita fazer grandes parceiros de trabalhos e amigos.  Abrolhos. Fotos: Aline Alves. Eu tive o privilégio de ter como área de estudo durante o mestrado uma das ilhas oceânicas brasileiras, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, e foi uma experiência singular, que só acrescentou a tudo que sei hoje. Como trabalhava em um lugar inóspito e de difícil acesso, toda atenção era necessária e com isso passei a cuidar mais de mim e das pessoas que mergulhavam comigo. Foi essencial para que eu conseguisse evoluir como mergulhadora e pesquisadora. Sem dúvidas, a melhor memória que tenho até hoje desse arquipélago foi poder ver de perto um tubarão baleia, a apenas dez metros de profundidade, quando voltava de um mergulho de coleta. Sensação indescritível, que rendeu lágrimas e muita satisfação por poder trabalhar mergulhando! Por outro lado, existem sim algumas dificuldades em utilizar o mergulho como ferramenta de pesquisa. A primeira delas está relacionada aos custos. Para realizar a coleta você precisa de equipamentos de custo geralmente alto. Junto a isso, na maioria das vezes é necessária uma embarcação, o que encarece mais o estudo. Muitas metodologias envolvem ainda o uso de câmeras fotográficas e milhares de outros equipamentos específicos e caros. Logo, trabalhar com mergulho científico requer uma logística cheia de detalhes, onde todo equipamento é fundamental para o bom andamento da coleta e também para a segurança dos pesquisadores.  Outra dificuldade encontrada é que nem sempre o local do trabalho vai ter as melhores condições. Ninguém mergulha em condições extremas, mas dentro daquilo que é seguro e aceitável, tem que estar preparado para mergulhar em locais com baixa visibilidade, correnteza, e até mesmo enfrentar dificuldades relacionadas à embarcação. Quando tinha que ir para o arquipélago de São Pedro e São Paulo enfrentava cerca de três dias de barco para chegar e nem sempre a viagem era tranquila.  Mas eu sabia que quando você se submete a estar em mar aberto, tem que saber que o mar é quem manda, é o mar quem vai dizer quando você vai chegar, e principalmente, quando vai mergulhar. Se as condições do mar não estiverem adequadas, a única coisa que resta fazer é respeitar e esperar até que tudo se acalme. Enfim, apesar de nem tudo ser tão simples e fácil como aparece em filmes e documentários, eu acredito que todo esforço pra se trabalhar com mergulho científico é mais do que válido. Procuro mostrar sempre o lado bom, que a meu ver sobrepõe qualquer dificuldade. Com uma costa extensa como a nossa, deveria haver mais investimentos para isso aqui no Brasil. Podemos ter inúmeros avanços monitorando de forma efetiva os ambientes aquáticos, descobrindo novos e importantes fatos a todo o momento. O mundo subaquático é um mundo completamente diferente, cheio de coisas incríveis e lindas para serem desvendadas. O que o mergulho científico faz é facilitar essas descobertas. Com apenas cinco anos trabalhando nisso, já tive as melhores experiências da minha vida, e nunca vi alguém experimentar e não se encantar. Interessados em ler um trabalho que foi feito utilizando o mergulho como ferramenta podem acessá-lo aqui . Sobre a autora: Aline é bióloga pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, divemaster e apaixonada pelo mar. Mestre em Ciências Biológicas com ênfase em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Atua em projetos voltados à ecologia e conservação de peixes recifais desde 2010. #vidadecientista #convidados #corais #ilhasoceânicas #mergulho #alinealves

  • Prazer, meu nome é Estromatólito!

    Por Alana Cristina e Alina Pellegrinelli O termo estromatólito provém do grego strôma, que significa "o que cobre" ou "tapete", e de líthos, que significa pedra. Segundo o glossário terminológico da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos, estromatólitos são estruturas de crescimento recifal em forma de lentes, montículos ou domos, e que foram desenvolvidas  por associações de bactérias fotossintetizantes (em sua maioria cianobactérias) em ambientes marinhos de águas rasas e quentes (Figura 1). Figura 1: Estromatólito – Shark bay, Australia (Fonte: Strolatolites Blogspot .) Como sou formado? A estrutura organo-sedimentar (que significa dizer que é formada por matéria orgânica e sedimento) dos estromatólitos é produzida durante a variação da maré.[1]  Durante a maré alta ocorre o aprisionamento dos sedimentos finos,  e durante a maré baixa as cianobactérias, que são as principais responsáveis pela construção dos estromatólitos, formam uma rede filamentosa, recoberta por uma mucilagem orgânica, que fixa o carbonato de cálcio do meio circundante. Assim, pouco a pouco, vão construindo uma estrutura em camadas que é criada pela agregação de grãos formados a partir de detritos, cimentados pelo carbonato de cálcio (Figura 2). Atualmente sabe-se que existem diferentes tipos de organismos como as bactérias clorofiladas, as rodofíceas e até fungos que também podem contribuir para a construção dos estromatólitos (Krumbein, 1983), assim como as diatomáceas que são de grande contribuição para os estromatólitos mais recentes. A Figura 3 abaixo identifica uma amostra de estromatólito em corte transversal, mostrando grãos de areia brancos grudados a polímeros viscosos produzidos por cianobactérias. As cianobactérias podem ser vistas como uma camada verde azul claro logo abaixo da superfície. A imagem é de uma amostra de cerca de 2 cm de largura. Figura 3 : Cianobactérias sobre polímeros e grãos de areia. Fonte As camadas dos estromatólitos apresentam diferentes morfologias que representam não só a variação na altura do nível dos oceanos em instantes anteriores no tempo, mas também o registro de uma sucessão das superfícies marinhas em termos de interação com fatores físicos, químicos e biológicos (Holfmann, 1973).  Responsáveis pela injeção de grande parte de oxigênio no meio, as cianobactérias podem ter sido um marco no caminho da evolução dos seres vivos e do clima do planeta, sendo fonte primordial de energia nas teias tróficas e impulsionando a formação da camada de ozônio (que é responsável pela retenção de raios ultravioleta). Durante a fotossíntese, a captação de carbono inorgânico por essas cianobactérias pode elevar o pH adjacente às células, promovendo a precipitação de carbonato de cálcio (CaCO3). Muito provavelmente essa atividade se perpetuou em resposta à diminuição das emissões de gás carbônico na atmosfera, junto com o aumento na concentração de oxigênio, dentro da escala de tempo geológica. E foi justamente essa situação particular que levou ao desenvolvimento dos estromatólitos. Os fósseis mais antigos foram encontrados em rochas sedimentares na Austrália (Morrison, 2002) e na África do Sul (Byerly et al., 1986), datando 3,5 bilhões de anos, periodo chamado de Arqueano Recente.  Os estromatólitos tiveram um desenvolvimento rápido  durante o Proterozóico (de 1000 a 900 milhões de anos atrás) chegando ao máximo no final desse mesmo éon (período), como pode ser observado melhor na Figura 4. A redução de gás carbônico durante o éon Proterozóico pode ter surtido dois efeitos sucessivos sobre a calcificação de cianobactérias. Em primeiro lugar, resultou em uma menor concentração de carbono inorgânico dissolvido, elevando o  pH da água o suficiente para que cristais isolados de carbonato de cálcio circundassem as células bacterianas. Como resultado, florações de cianobactérias planctônicas começaram a precipitar carbonato na coluna de água, cuja acumulação sedimentar começou a dominar as plataformas oceânicas. Em segundo lugar induziu a ativação de mecanismos que aumentaram novamente o pH adjacente às células, promovendo a calcificação de lâminas, bainhas in vivo entre os filamentos de cianobactérias. Ao final deste período houve um declínio generalizado de abundância e diversidade de estromatólitos (Figura 4) possivelmente causado pelo aumento do pastejo realizado pelos organismos herbívoros e da bioturbação do sedimento (Awramik, 1971).  Esse fato possibilitou maior espaço de colonização do meio por organismos metazoários, que são os animais multicelulares. Evidências para isso foram observadas através de registros encontrados referentes à fauna local de Ediacara, uma região da Austrália onde ocorrem os mais antigos fósseis de metazoários (aqueles com células organizadas em tecidos e órgãos) tornando esta ocorrência de tais fósseis uma das mais importantes do mundo (Cataldo, 2011). Por que hoje em dia não existem tantos estromatólitos vivos e como eles registram o passado do nosso planeta? As esteiras microbiais (conjunto de microrganismos colonizando uma superfície criando uma espécie de tapete) são metabolicamente ativas em ecossistemas que conseguem fazer reciclagem de nutrientes, causando uma intensa decomposição aeróbica da matéria orgânica, o que dificulta ainda mais a preservação do fóssil. Os componentes da esteira não são totalmente consolidados, tornando os estromatólitos vítimas de erosão. Por isso hoje não vemos mais tantos estromatólitos como antes. A melhor forma para preservar os fósseis  seria através da litificação precoce, envolvendo a cimentação do carbonato de cálcio, além dos processos de aprisionamento e aglutinação dos sedimentos e/ou precipitação mineral que ocorrem nessas bioconstruções (Awramick & Margulis, 1974). Assim, estes sedimentos podem fornecer dados referentes ao desenvolvimento de cada camada laminada e nos informar sobre o passado. Além disso, a ativação de mecanismos que aumentam o pH adjacente às cianobactérias e promovem a calcificação das lâminas dos estromatólitos só ocorre quando a pressão parcial de gás carbônico atmosférico cai abaixo de ~0.4%. (Rinding, 2006[6] ). Onde posso ver estromatólitos atualmente? Estromatólitos modernos são encontrados principalmente em lagos e lagoas hipersalinas marinhas, onde as condições são extremas devido à alta salinidade, que excluem o pastejo animal. Um destes locais é o Reserve Hamelin Pool Marine Nature Reserve, em Shark Bay na Austrália Ocidental (Figura 5), o qual possui excelentes exemplares que podem ser observados até hoje. Figura 5: Estromatólitos em Shark Bay na Austrália. Fonte Outro local é Lagoa Salgada, no norte do Estado do Rio de Janeiro onde os estromatólitos modernos possuem morfologia do tipo domal e em camas (Figura 6). Os estromatólitos também podem ser encontrados em ambientes de água doce como no Lago Salda, localizado na Turquia, e nos lagos Pavilion (Figura 7) e Kelly em British Columbia, Canada. Isso ocorre pois possuem águas ricas em magnésio, devido a presença de estruturas formadas de hidromagnesita. Figura 7: Estromatólitos em Pavillon no Canadá. Fonte Outro local onde é possível encontrar estromatólitos é em Exuma Bays, nas Bahamas (Figura 8), tornando-se peculiar devido a um ambiente de formação que é aberto. Figura 8: Estromatólitos de ambiente aberto nas Bahamas. Fonte Agora sabemos que os estromatólitos não são apenas pedras com um nome esquisito,são registros de suma importância para a ciência, pois a sobreposição de suas camadas proporciona aos estudos de micropaleontologia e de biogeoquímica, dados que podem servir para entendermos o ambiente da Terra primitiva, ou seja, nosso planeta bem antes do surgimento de nós humanos. Texto escrito e adaptado pelas alunas do 4º ano em Bacharelado em Oceanografia do IO-USP, Alana Cristina e Alina Pellegrinelli, durante a realização da disciplina Geoquímica Marinha, sob orientação do Prof. Dr. Christian Millo. Referências: Awramik, SM. 1971. Precambriam columnar stromatolite diversity: reflection of metazoan appearance. Science 174:825-827. Awramick, S. M.; Margulis, L. (1974) Definition of stromatolites. Stromatolite Newsletter, n.2, p.5. Byerly, GR; Lower, DR; Wals MM. 1986. Stromatolite from the 3.300-3.500 Myrs Swaziland Supergroup, Barbeton Mountain Land, South Africa (London) 319:489-491. Bosak, T; Newman, DK. 2003. Microbial nucleation of calcium carbonate in the Precambrian. Geology 31: 577-580. Cataldo, A.R. (2011) Análise dos estromatólitos e sedimentos associados – Lagoa Salgada/RJ. Trabalho de conclusão de curso, Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas. Hofmann, H.J. (1973) Stromatolites: Characteristics and utility, Earth-Science Reviews, v. 9, Issue 4, Pages 339–373. Krumbein, WE, 1983. Stromatolites – the callenge of a term in space and time. Precambriam Res 20:493-531. Morrison, R. (2002) Australia - Land beyond time: The 4th billion-year journey of a continent, New Holland Publishers (Australia). Riding, R. (2006) Cyanobacterial calcification, carbon dioxide concentrating mechanisms, and Proterozoic–Cambrian changes in atmospheric composition. Geobiology, v.4 , 299–316 #ciênciasdomar #alanacristina #alinapellegrinelli #carbonatodecálcio #cianobactérias #convidados #estromatólito #geoquímicamarinha

  • Comemorando o novo emprego

    Não foram poucos os desafios... muitas novidades, novas tecnologias, desafios diários na grande São Paulo e muitos quilômetros para estar em casa, mas ela  sempre enfrentou tudo com um sorriso no rosto, persistência e dedicação. E hoje a equipe editorial do Bate-Papo com Netuno comemora o novo emprego da nossa idealizadora, Catarina Marcolin, como professora na Universidade Federal do Sul da Bahia (http://www.ufsb.edu.br/). Não temos dúvidas de que ela presenteará muitos alunos de Porto Seguro - BA com as experiências adquiridas em todas as águas por onde navegou, inclusive em outros países (lembra do post "Internacionalizar é preciso!"? Clique aqui para relembrar).  Desejamos boa sorte nesta nova expedição e esperamos que muitos dos nossos queridos leitores que almejam a carreira acadêmica possam se inspirar em sua história de determinação! Parabéns Catarina! #vidadecientista #biólogo #carreira #profissão #catarinarmarcolin

  • Pesquisando nas ilhas remotas do Brasil

    Por Fernanda Imperatrice Colabuono As ilhas oceânicas brasileiras são geralmente pouco conhecidas pela maioria da população, porém possuem uma grande importância estratégica, econômica, e claro, científica. São locais que abrigam uma vida riquíssima, incluindo algumas espécies endêmicas, ou seja, que só existem naquele determinado local. Duas destas ilhas, Fernando de Noronha e Abrolhos, são habitadas e/ou utilizadas para o turismo, ainda que com restrições. Outras três ilhas, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o Atol da Rocas e a Ilha da Trindade, ainda são lugares remotos, pouco conhecidos e com acesso mais restrito ainda. Durante o meu doutorado no Instituto Oceanográfico, eu tive a oportunidade de participar de expedições científicas a estes três locais, através de um projeto de pesquisa que tinha como objetivo estudar a ocorrência de poluentes orgânicos persistentes em locais remotos. Foto: Fernanda Colabuono. O Arquipélago de São Pedro e São Paulo fica a aproximadamente 1.100 km da costa do Rio Grande do Norte, ou seja, quase na metade do caminho entre o Brasil e a África. São as únicas ilhas oceânicas brasileiras localizadas no hemisfério norte. O trajeto saindo da cidade de Natal até o Arquipélago de São Pedro e São Paulo é feito em um barco de pesca e leva cerca de três dias para chegar. Minha ida para lá foi em março de 2009 e me lembro que ao chegar no Porto de Natal e conhecer a embarcação que transportaria eu e mais três pesquisadores, além da tripulação, foi difícil acreditar à primeira vista que iríamos cruzar quase metade do Oceano Atlântico daquela maneira. É claro que deu tudo certo, pois muitos outros pesquisadores já haviam feito e ainda fazem esta viagem.  Os pescadores eram experientes e a condição do mar ajudou muito. Chegando nas proximidades do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, pudemos avistar apenas um conjunto de pequenas ilhas rochosas. Estas ilhotas são, na verdade, os picos emersos da cordilheira submarina dorsal meso-atlântica, que se estende por todo o Oceano Atlântico, desde a região Antártica até o Ártico. Ao desembarcar na Ilha Belmonte, que é a principal ilha do arquipélago e é onde se encontra a estação científica, logo se percebe que as aves ocupam todos os espaços disponíveis possíveis da ilha, seja com seus ninhos ou apenas como local de repouso. Os atobás, os principais “anfitriões” do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, dominam o espaço da ilha e recebem todos os seus visitantes com fortes bicadas. Espaço é um fator limitante para estas aves, que estão sempre tentando defender seus territórios, da mesma maneira que fazem com os indivíduos de sua própria espécie. Foto: Fernanda Colabuono. O Atol da Rocas, também localizado próximo a linha do Equador é, na minha opinião, um dos lugares mais bonitos e bem preservados que existem, graças a coragem e perseverança das pessoas que trabalham e cuidam tão bem daquele local. Aliás, estas são as duas principais qualidades que é preciso ter para trabalhar com conservação ambiental. No início de 2010, eu passei cerca de 20 dias realizando coletas no Atol da Rocas, que incluíam a amostragem de plásticos ao redor da ilha. Estes plásticos chegam diariamente de fontes distantes, provavelmente vindos de outras ilhas, do continente e de embarcações, e acabam se acumulando nas praias do Atol. É impressionante como algumas ações humanas conseguem impactar locais tão distantes e que às vezes nem sabemos que existem. A minha última expedição foi para a Ilha da Trindade, em janeiro de 2012. A Ilha da Trindade é a maior de todas as três ilhas e está localizada a cerca de 1.200 km, fazendo parte da cadeia de montanhas submarinas Vitória-Trindade. A ilha abriga diversas espécies de aves, invertebrados e peixes, é um importante local de reprodução para as tartarugas marinhas e possui uma flora rica em diversidade. Desde seu descobrimento, há centenas de anos, a Ilha da Trindade vem recebendo visitas de navegadores e pessoas ilustres como o astrônomo Edmund Halley e o naturalista James Cook . Consequentemente, também vem sofrendo o impacto de ações humanas, como a introdução de animais exóticos, que resultaram na modificação do ambiente, causando efeitos negativos que podem ser vistos até hoje. Atualmente, estão instalados na ilha o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, comandado pela Marinha do Brasil e uma Estação Científica, que é utilizada por pesquisadores de diferentes partes do país. Foto: Fernanda Colabuono. Participar destas expedições, me proporcionou a incrível oportunidade de conhecer ecossistemas tão diferentes, viver o dia a dia destes locais, observando o comportamento dos animais e adquirindo conhecimento através da experiência, como faziam os naturalistas a décadas e décadas atrás. Passar algum tempo (mesmo que curto) em locais onde você tem que se adaptar a ambientes tão distintos do que estamos acostumados, foram experiências de auto-conhecimento, desapego e superação. Muitas vezes a comunicação com o mundo exterior é limitada, ou não é possível, e você tem que lidar com o fato de que não terá notícias de seus familiares e amigos por um tempo, e nem eles de você. Passar um mês tomando banho apenas com água do mar, ou não ter um banheiro de verdade para usar, pode parecer um pouco estranho, mas acabamos nos adaptando. No fim, algumas destas experiências que até assustam um pouco no começo, acabam se tornando agradáveis e depois até sentimos falta. A sensação que tive ao conhecer locais como estes, onde a natureza é predominante, é de que você é apenas um visitante, que não faz parte daquele lugar e nem sequer foi convidado para estar ali. Apesar deste comentário soar um pouco negativo, a intenção é mostrar o quão forte é a presença da natureza em locais onde o ser humano ainda não conseguiu modificar e se impor. São locais que pertencem à fauna e flora que ali habitam, aves, peixes e diversos outros seres que se adaptaram por milhares de anos a estes ambientes. E seria ótimo se conseguíssemos mantê-los sempre assim. Sobre Fernanda Colabuono: Fernanda Imperatrice Colabuono é biológa e trabalha com aves marinhas desde 2001. Atualmente é pós-doutoranda do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, onde realiza pesquisas voltadas para a ecologia e conservação de aves antárticas, utilizando os poluentes e os isótopos estáveis como indicadores ecológicos e ambientais.  #vidadecientista #convidados #fernandaimperatricecolabuono #atobás #atoldasrocas #ilhasoceânicas #trindade

  • Uma história de pai para filhos... e para as lulas!

    Por Felippe Postuma Minha paixão pela biologia marinha, cefalópodes (que são as lulas, polvos e sépias) e pelo mar começou bem cedo no verão de 1992, na minha segunda viagem à paradisíaca e isolada comunidade da praia do Bonete, localizada no sul da Ilhabela. Lá conheci e aprendi a amar e viver com a natureza mais límpida e lúdica que se possa imaginar. Foi nesse período que conheci a tradicional pesca da lula apresentada pelo  meu eterno amigo “Maurão”. Nessa época,  lulas e  mariscos eram abundantes, passamos praticamente um mês comendo lulas, peixes e farinha de mandioca.  No ano de 1999 surgiu a vontade e a oportunidade de fazer uma faculdade, não pensei duas vezes em estudar a “Biologia Marinha”. Em 2000 passei no vestibular na Universidade Santa-Cecília na cidade de Santos. Já no ano de 2001 iniciei o estágio científico no Instituto de Pesca. Em meio a muitas provas, trabalhos, “forrós”, shows de reggae e “trips-de-surf” pelo litoral de São Paulo, eu conheci a princesa da minha vida, a mulher que iria mudar todo o rumo da minha história de vida,  “gerando” uma linda família e me dando força. Quando conheci era apenas a “Keka”, linda como é até hoje, também se formou em biologia pela Unisanta e hoje é conhecida como a “super-mamãe e esposa Keka”.  Já adianto, o nosso sucesso se deve totalmente a ela.  Inicialmente tudo foi muito difícil, apenas dois universitários sem nenhuma perspectiva, porém com muita garra, vontade e amor. No terceiro ano de faculdade já morávamos juntos em uma república de estudantes. Foi nessa época então que, “com um piscar de olhos”, nos tornamos pais. Maíra nasceu esperta, linda e sapeca do jeito que é até hoje. Com muitos esforços conseguimos terminar a faculdade. Foi então que aprendi a cuidar da casa, fazer papinha, dar banho, trocar fralda e colocá-la para dormir, enquanto isso, mamãe Keka terminava a faculdade.  No começo da faculdade nunca deixei de sonhar com a possibilidade de um dia estudar e pesquisar a pesca artesanal de lulas. Ao final da faculdade defendi minha monografia para obter o título de bacharel em Biologia Marinha com o tema ligado a caracterização preliminar da pesca artesanal de lulas no entorno da Ilhabela. Durante o estágio no Instituto de Pesca surgiu a possibilidade de contribuir como co-autor em um artigo científico.  Isso foi um grande incentivo para continuar com a pesquisa. Porém, eu precisava de um trabalho remunerado. Comecei como observador de bordo da frota arrendada na costa brasileira. Embarques a bordo em navios pesqueiros estrangeiros com duração de 56 a 93 dias de mar, lá se foram dois anos de minha vida. Tive a oportunidade de viver com senegaleses, chineses, japoneses, peruanos e vietnamitas. Participei da pesca do long-line , espinhel japonês, gaiolas para captura de caranguejo, pesca de arrasto de profundidade (800 m) e a pesca do polvo. Passei por grandes tempestades em alto mar, cataloguei e coletei animais marinhos que jamais pudesse imaginar, observei e fotografei albatrozes gigantescos. Era tudo incrível, mas a saudade da família era muito grande. Nesta época passava pouco tempo com a família, “Mairinha” acabava vendo pouco seu pai, mas os momentos que passávamos juntos eram muito proveitosos e valiosos. Toda vez que chegava dos embarques, ela me estranhava, porque sempre voltava barbudo e cabeludo. No meu quarto, qualquer que fosse o barco, havia um mural de fotos da Keka e Maíra, isso me dava força para aguentar ficar por tanto tempo longe de casa. Depois de dois anos vivendo idas e vindas do mar, decidimos mudar para Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Fomos morar na comunidade da Água Branca, próximo à estrada que leva até a praia dos Castelhanos. Vivíamos com muita simplicidade com um salário de professor eventual da rede de ensino estadual. Maíra cresceu nadando entre as praias de Santos e as cachoeiras de Ilhabela, sempre pedindo para surfar e deslizar sobre as ondas.  Nesse momento surgia mais um sonho, realizar uma pós-graduação. Depois de três tentativas consegui entrar para o mestrado no Instituto de Pesca de São Paulo. Maíra estava com 5 anos, e quando menos esperávamos, eu estava “grávido” de novo.  Em 4 de julho de 2008 nasceu Rafael, “O Anjo”. Mudamos radicalmente de estilo de vida, fomos morar na cidade de Bragança Paulista, interior de São Paulo e cidade-natal da Keka. Entrei em uma rotina de viagens diárias entre São Paulo – Bragança Paulista, com viagens que demoravam entre 2 e 3 horas. Foram dois anos de mestrado com disciplinas, apresentações em congressos nacionais e internacionais e duas publicações em revistas internacionais. No mestrado elucidei alguns mistérios sobre a pesca de lula, aquele sonho antigo.  Ao final do mestrado (2010) Rafael com 2 anos e Maíra com 7, tudo começou a ficar difícil, e a falta de dinheiro me fez voltar ao mar. A investigação da lula ainda não havia terminado, mas a pressão para trabalhar era grande, e me vi obrigado a fazer mais dois embarques durante o segundo semestre de 2010 pelo Instituto de Pesca. Durante os embarques estudei para a prova de seleção para o doutorado do Instituto Oceanográfico da USP. No final a maresia me fez bem, estudei nos intervalos dos trabalhos a bordo e passei por um fio na seleção. Foi então, em 2011, que dei início às atividades do doutorado, reiniciando aquela rotina de viagens Bragança-São Paulo, mas continuando com a pesquisa sobre as lulas.  Durante esse período chegava em casa e a super-mamãe já havia feito tudo, café da manhã, almoço, levar e buscar na escola, banho e jantar. Rafael sempre esperando ansioso pela minha chegada. Hoje ele tem 7 e ela 12 anos, eles sempre me viram estudando, penso que é um bom exemplo. Todos sabem que não se vive com bolsa de estudos no Brasil, mas sobrevivemos a uma faculdade, um mestrado e um doutorado. Afinal, esse post será publicado horas antes de minha defesa de doutorado (10 de agosto de 2015 às 9:00), onde inúmeros achados sobre lulas da espécie Doryteuthis plei serão desvendados ao público. Escrever este post me fez refletir que talvez um dos fatores que auxiliam no sucesso da estratégia de vida desse incrível e magnífico cefalópode está baseado na vida em conjunto (em família) e na boa comunicação entre os membros do grupo. Talvez isso também seja o segredo do nosso sucesso. Resumindo, tudo isso só foi possível por causa do respeito, força e apoio da família, em especial da Keka, pois enquanto eu desenvolvia minha pesquisa e fazia coletas, a “mamãe Keka” desenvolvia seu papel de mãe-leoa com muita perspicácia e garra. Ela abriu mão de sua carreira em prol da minha, e a isso sou eternamente grato!   Sobre Felippe Postuma: Biólogo marinho, mestre em biologia pesqueira e doutorando no Laboratório de Ecossistemas Pesqueiros do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (Labpesq-IOUSP). Nascido em São Paulo, radicado desde 10 anos de idade na praia do Pontal da Cruz, São Sebastião litoral Norte do Estado de São Paulo. Viveu no mar entre os pescadores artesanais e caiçaras de São Sebastião e Ilhabela pescando lula, como também entre os pescadores do mundo na frota industrial estrangeira. Navegou desde Natal(RN) até a elevação do Rio Grande(RS), passando quase 100 dias no mar. Dedicou 10 anos da sua vida à pesquisa da lula Doryteuthis plei . Possui também diploma de técnico em mecânica e carteira de marinheiro auxiliar de máquinas pela Capitania dos Portos de São Sebastião. E ama muito sua família. Acesse aqui o currículo lattes de Felippe. #vidadecientista #felippepostuma #convidados #diadospais #lulas

  • Pós-graduação e gravidez: Parte II

    Por Marília Bueno Comecei a namorar o Thiago bem cedo, três anos antes de entrar na faculdade... Fui estudar na Unesp de São Vicente e todo mundo me falava que nenhum namoro resiste à uma faculdade à distância... O nosso resistiu e muito bem, obrigada! Logo engatilhei no mestrado, na USP de Ribeirão Preto. Foram mais dois anos de muitas viagens e que passamos tranquilamente. No fim do mestrado, entrei na tão conhecida crise: o que fazer agora? Um amigo me disse uma frase que nunca vai sair da minha cabeça: você prefere ser uma pesquisadora excepcional sozinha ou uma boa pesquisadora com uma família formada? Nunca tive dúvida que escolheria a segunda opção. E pensando nisso, escolhi fazer o doutorado na Unicamp, em nossa cidade natal, e assim conciliar melhor a vida profissional e pessoal. Eis que não passo na prova de Ecologia... E agora? Decidimos nos casar! Já tinham se passado 9 anos de namoro... O ano de 2009 foi super corrido, dei muitas aulas e planejei nosso casamento para outubro. Voltamos da lua-de-mel, prestei a prova de Ecologia novamente e passei! E comecei meu doutorado em 2010. Estava tudo caminhando muito bem, tanto no doutorado quanto no casamento. Muitas disciplinas teóricas, muito trabalho de campo e uma disciplina cursada nos Estados Unidos. Fiquei muito impressionada com uma das professoras do curso. Uma mulher muito nova, casada com um docente da mesma universidade, com dois filhos pequenos e um currículo fenomenal! Claro que conversei muito sobre esse dilema que nós mulheres cientistas vivemos... Quando ter um filho? E comecei a conversar com muitas pessoas sobre o assunto... Vi casos de mulheres que esperaram a vida profissional se estabilizar para engravidar e não conseguiram, porque o tempo, além de tudo, é nosso inimigo. Ouvi opiniões de que a melhor época para engravidar é durante o doutorado, já que a pressão não é tão grande como num pós-doc e você tem mais tempo pra fazer as coisas. Enfim, o assunto ficou permeando minha mente por um tempo... Mas sabem aquele momento que a gente sente que está faltando alguma coisa na nossa vida? Sempre ouvi dizer que o casal sentia a hora de ter um filho e nunca acreditei. Mas esse momento realmente chegou! Foi quando decidimos tentar engravidar no segundo semestre de 2013. Corri com os experimentos de campo e de laboratório, porque queria terminar toda a parte prática e deixar somente a escrita para depois do nascimento do bebê. E após apenas um mês de tentativas, lá estava eu com meu exame de sangue positivo! Fui pra campo até o 7º mês de gravidez e, obviamente, não consegui terminar tudo o que eu queria... Faltaram alguns experimentos de laboratório.  O Murilo nasceu super saudável e virou nossa vida de ponta cabeça! Tudo muda, em especial nossas prioridades. E claro que ele passou a ser a coisa mais importante da minha vida. Mesmo assim, a vontade de voltar à vida acadêmica já batia na porta no final da licença maternidade. E voltamos com tudo. Ele entrou no berçário da Unicamp com 6 meses e dei seguimento ao doutorado... Consegui terminar meus experimentos e deu tudo certo. Hoje já sou doutora! Mas não foi fácil... Tenho pra mim que se eu tivesse conseguido terminar toda a prática antes do Murilo nascer, teria sido muito mais fácil. A vida fica mais complicada, embora muito mais gostosa, quando estamos com o filho no colo. Tarefas que demandam muito tempo (como meus experimentos, por exemplo) acabam demorando muito mais que o previsto. E quando estamos em casa, aproveitamos os horários da soneca do bebê para escrever os artigos e relatórios, mas claro que depois de fazer comida, lavar louça, passar roupa...  Eu acredito sim que o final do doutorado é um bom momento para se ter um filho. Mas pela minha experiência, não aconselho deixar atividades práticas pendentes. Hoje o Murilo tem 1 ano e 9 meses e uma doutora mamãe, como ele mesmo diz, que tem muito trabalho pela frente!  Sobre Marília:  Bióloga e Doutora em Ecologia pela Unicamp, que praticamente nasceu num costão rochoso, já que trabalha neste ambiente desde o segundo ano de graduação! Seus interesses são pela atuação de processos físicos nas populações de invertebrados marinhos do entre-marés. Tem conhecimento sobre caranguejos, cracas, litorinídeos, mexilhões e anfípodes. E, claro, além de tudo, é casada e mãe de um filho lindo com quase 2 anos! Você pode acessar o curículo dela aqui . #mulheresnaciência #maríliabueno #convidados #filhos

  • Pós-graduação e gravidez: Parte I

    Por Andréa Green Koetker Duas coisas que parecem não combinar muito, ou nada na verdade, doutorado e gravidez. Engana-se redondamente quem pensa assim… Defendi meu doutorado com uma barrigona de 34 semanas e foi simplesmente maravilhoso!!! Não porque a banca pegou leve na arguição, até mesmo porque de leve não teve nada! Foram cinco horas de ‘sabatina’ e discussões, por vezes até acaloradas. Mas sim, porque a gravidez me trouxe a serenidade necessária para concluir o doutorado com êxito, mas sem arrancar os cabelos e com as unhas intactas. Mas deixa eu voltar um pouquinho... Fazia um tempo que eu e meu marido queríamos ter um filho. Já estávamos casados há alguns anos, mas sempre adiávamos por causa do trabalho e pós-graduação. Estava no último ano do doutorado na USP, em Oceanografia Biológica, quando decidimos não esperar mais. Adiantei toda a parte de laboratório, pra ficar o mais longe o possível de formol e outros produtos químicos e, com os dados em mãos, começamos as tentativas, achando que demoraria pelo menos uns seis meses. Que nada... um mês depois, em setembro de 2012, estava gravidíssima e o primeiro sintoma já veio com tudo, sono, MUITO sono. Mas era um sono assim INCONTROLÁVEL, que vinha a qualquer hora do dia e eu era OBRIGADA a desmaiar na cama. Aí me desesperei... pensei em trancar o doutorado para terminá-lo depois que o Bernardo (até então sem nome e sem sexo) nascesse. Pedi conselho para vários professores e todos me disseram: ‘termina antes, depois é muito mais complicado’. Ainda bem que dei ouvido a esses sábios cientistas. Depois dos três primeiros meses tudo mudou, o sono passou e conseguia trabalhar horas a fio em casa, no meu computador, trocando mensagens com meu orientador por e-mail e Skype, visto que já não morávamos mais em São Paulo, tínhamos voltado pra nossa terra, Florianópolis. Em fevereiro de 2013 a tese estava pronta, fui para São Paulo para imprimí-la e depositar as cópias e enquanto meus amigos comemoravam com muita cerveja eu brindava com meu singelo e adocicado suco de fruta. Depois disso fiquei um mês e meio curtindo muito a gravidez, indo pra praia, preparando o quarto do Bernardo, todo o enxoval, fazendo yoga, caminhadas e, quando faltavam duas semanas para a defesa comecei a preparar a apresentação. Terminei no quarto do hotel em SP, na caixinha, como eu e meu marido chamávamos o Ibis Budget. Cinco minutos antes da defesa estava tomando café na cantina do IO (Instituto Oceanográfico). Detalhe: quanto mais no final da gravidez, mais desligada você fica... Até que alguém me falou: vamos lá Déa, tá na hora. Eu costumo ficar nervosérrima ao apresentar trabalhos, mas logo nesse, minha tão temida defesa de DOUTORADO, foi tudo muito tranquilo. O Bernardo ficou lá quietinho, feito um anjo, que ainda é, e eu consegui focar muito bem no que estava acontecendo. Depois de quase uma hora de apresentação, quatro de arguição, três pausas para banheiro e uma para lanche da esfomeada grávida eu me tornei doutora em Ciências. A famosa comemoração pós-defesa, com muitos comes e mais ainda bebes foi, na verdade, um chá de bebê que minhas amigas prepararam carinhosamente. Voltei para Floripa com o dever cumprido. Um mês e meio depois o Bernardo nasceu, de parto normal, em casa, à luz de velas, com sonzinho rolando, dentro de uma piscina plástica com meu marido ao nosso lado e minha irmã como enfermeira obstetra chefe da equipe de parto domiciliar ( Hanami ). Já nas primeiras semanas tive a constatação de que teria sido loucura ou, no mínimo, muito mais complicado, deixar para terminar o doutorado com o Bernardo demandando todo o meu tempo. Era um ciclo contínuo de aproximadamente duas horas que incluía dar de mamar, colocar para arrotar, trocar a fralda, interagir e dormir; dar de mamar, colocar para arrotar, trocar a fralda, interagir e dormir e assim sucessivamente. Mas a veia científica e as horas que passei com meu grande amigo computador não me deixavam abandoná-lo assim, tão subitamente. Me dediquei a uma última apresentação no power point, contendo 25 slides e 70 fotos, tudo bem formatado e explicado, na qual relatei aos meus grandes amigos de São Paulo tudo o que vivenciei durante a gravidez, trabalho de parto e duas primeiras semanas de existência do Bernardo. Merecia um prêmio de melhor apresentação rsrs. Meu conselho às futuras mães cientistas: não adiem a gravidez, se o corpo e a mente pedem é porque está na hora e, se está na hora, a gente dá um jeito. Sobre Andréa:  Fez graduação em Ciências Biológicas pela UFSC, mestrado e doutorado em Oceanografia Biológica pela USP, sempre trabalhando com ecologia de larvas de crustáceos decápodes. Se você quer saber mais sobre sua vida profissional acesse seu currículo lattes . #mulheresnaciência #andréagreenkoetker #convidados #filhos

bottom of page