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  • Uma brasileira fazendo pesquisa na “gringa”

    Por  Jana M. del Favero É cada vez mais comum a saída de brasileiros para estudar e/ou pesquisar no exterior, quer  seja durante a graduação ou durante a pós-graduação. Todo mundo já ouviu falar de pessoas que tiveram experiências maravilhosas no exterior, outras que tiveram algumas frustações e desapontamentos. A decisão de sair do conforto de casa, ficar longe da família, dos amigos, nunca é fácil. Para nós mulheres, muitas vezes o intercâmbio deixa de acontecer porque o marido não pode acompanhar, ou porque tem a escola do filho. Eu tive a sorte do meu marido ter aceitado embarcar nessa aventura comigo, e como no momento estou morando nos Estados Unidos, resolvi compartilhar com vocês minha experiência e dar algumas dicas, para tentar ajudar aqueles que pretendem estudar e/ou pesquisar no exterior. A idéia de fazer a dupla titulação surgiu no final do meu mestrado, quando o convênio entre o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) e a Universidade de Massachusetts (UMASS) estava ainda sendo assinado. Alguns professores da UMASS foram para o Brasil divulgar a faculdade, o programa, e desde o principio já quis participar, pois muito me interessou a história de fazer um único doutorado e sair com os dois diplomas...  Cheguei em New Bedford - Massachusetts (EUA) em agosto de 2014 e confesso que o povo americano foi algo que de cara me surpreendeu. Apesar daquele aspecto mais frio típico de qualquer estrangeiro, foram bastante solícitos e prestativos. Não esperem abraços, beijos e a recepção brasileira, mas com o tempo você vai se sentido acolhida. Me ajudaram a arrumar um apartamento e praticamente o mobiliei de graça, cada dia era alguém me oferecendo alguma coisa... Além do mais, os alunos do instituto onde estou marcam happy hour praticamente a cada 15 dias, me acolheram no Thanksgiving, Natal, festa de Halloween etc.  Bem, mas vamos ao que interessa, a faculdade. É fácil perceber que sim, eles tem dinheiro, sim eles tem equipamentos e sim, eles tem bons professores e pesquisadores. Mas sinceramente, nada que não seja encontrado pelo Brasil em diversos institutos também. Mas a idéia desse post não é comparar instituições do exterior versus brasileiras, isso daria um outro post e uma outra discussão. O que pretendo com esse post é fazer comparações mais culturais e do nosso dia a dia.   Uma das coisas que estranhei é o fato de não ter propriamente uma hora de almoço, sair um grupo para almoçar é bem raro e, quando acontece, é marcado com bastante antecedência. A grande maioria leva marmita e, ou come rapidinho na copa, ou come na frente do computador mesmo. Eu particularmente sempre vou pra copa na esperança de ter alguém disposto para um papinho. Outra diferença é não ter hora do café, aquele outro momento que você sabe que vai encontrar amigos para um outro bate papo. Em compensação, às 17 horas todo mundo já foi embora, então você tem o resto do dia pra ir pra academia, happy hour, compras etc... e nesse momento sim vão socializar com você. Senti isso nítido, local de trabalho é trabalho, lazer é lazer.  Essa distinção entre trabalho e social ficou bem nítida no dia em que fui ao NOOA (National Oceanic and Atmospheric Administration) me encontrar com um pesquisador que conheci em um congresso em Miami em 2013 e encontrei novamente com ele em Quebec em 2014. Nossas conversas no congresso sempre foram como amigos e ele se mostrou bastante interessado no meu trabalho e disposto a ajudar. Cheguei no NOOA esperando que fôssemos tomar um café, prosear, e depois discutir o trabalho. Mas não, chegando já fui direto para a sala de reuniões, meu “amigo” chegou com mais dois pesquisadores que brevemente se apresentaram e já pediram para eu apresentar meu projeto, o que eu estava pesquisando. Foram três horas de discussão do meu trabalho, bastante produtivas, que culminaram numa parceria que mantenho até hoje. Porém, o bate papo que eu estava esperando que fosse acontecer, como sempre acontecia quando encontrava esse pesquisador nos congressos, não aconteceu.  Outra coisa que acho que quem vem para o exterior fazendo dupla titulação deve aproveitar é a oportunidade de cursar disciplinas, coisa que somente um “sanduíche” não te oferece. É interessante ver como é tratada uma disciplina no exterior. Por exemplo, todo dia antes da aula você já tem que ter lido o capítulo correspondendo ao tema, ter assistido as aulas online (sim os professores gravam vídeos e colocam online) e na aula mesmo é só uma revisão rápida e discussão. Por aqui também se tem seminário toda semana, um ótimo momento para ver pessoas e não tomar café sozinho, além dos seminários serem sempre interessantes... Fico feliz de um dia ter seminário de alguém do Woods Hole, outro de alguém do MIT, Harvard, NOOA (se você nunca ouviu falar nessas instituições vale a pena um google, todas são instituições de peso na área da oceanografia). Acho importante aproveitar o momento no exterior para fazer contato com outros pesquisadores e ampliar o network.  Outra dica que dou para qualquer pessoa indo para um país que tenha um inverno mais rígido é se programar para chegar no verão. Dessa maneira você chega ainda quentinho, sol brilhando, e se estiver no hemisfério norte pegará todo o outono. Não tem como não se apaixonar pelo outono, ver todas as árvores mudando de cor e as folhas caindo, até o cheiro fica diferente. Quando o inverno chega você tem que mudar totalmente tua rotina, não dá mais para andar tranquilamente, tudo fica branco e cinza, e o pessoal não para de reclamar que todo dia tem que limpar o carro pra sair, do frio etc... Mais uma boa razão para fazer tua chegada no verão, você já terá feito amizades e durante o inverno será convidada para jantares e cervejinhas na casa de amigos, que passa a ser a programação principal em dias de frio e nevasca. Mas para nós, “gringos”, é uma experiência única e linda. Até ficar duas horas tirando neve do carro ou andar pela rua como se fosse um rink de patinação no gelo passa a ser divertido. E por fim chega a primavera, e a cada grau que a temperatura aumenta você percebe a mudança no rosto das pessoas, todos voltam a sorrir.  O mais importante de lembrar é que você que é o peixinho fora d’água, então não espere que eles se acostumem com você, mas sim você que deve se acostumar com eles, com seus modos e culturas. Tente sempre ver o lado positivo das coisas e das pessoas, tentando não reclamar de tudo que aparecer... Aproveite o momento para abraçar todas as oportunidades, todos os eventos, seminários e trabalhos que aparecerem. O interessante é voltar para o Brasil com a bagagem cheia de novos aprendizados e histórias. Gostou desse post? Continue lendo sobre o assunto aqui . #internacionalização #viagens #janamdelfavero #mulheresnaciência

  • A feliz alteração na minha carreira proporcionada pela minha filha

    Por Lilian P. de Oliveira Para continuar com a discussão sobre quando colocar filhos no cronograma ( acesse aqui ), convidamos a bióloga Lilian P. de Oliveira para compartilhar conosco seu depoimento. Todos nós temos sonhos e objetivos na vida. Eu, como não sou diferente, sempre sonhei em casar e constituir uma família, assim como ter uma vida profissional estável. Durante minha vida escolar me fascinavam as aulas de biologia, assim como as de artes plásticas... nada a ver, eu sei! Mas a biologia falou mais alto e iniciei o curso de graduação em Ciências Biológicas e da Saúde. Foram quatro anos de muita dúvida, não sabia se conseguiria estágio, emprego, o que faria do meu futuro profissional. No final da graduação, um amigo me indicou um estágio no laboratório de Zooplâncton do Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP). Quase nem acreditei! Marquei para conversar com o professor que coordenava o laboratório e ele me aceitou como estagiária. Em uma semana lá estava eu aprendendo a identificar copépodos e outros organismos marinhos microscópicos (Leia mais em “Para o plâncton, tamanho é documento...”). Fiquei no laboratório participando dos projetos de pesquisa, conheci diversas pessoas e fiz amigos especiais que fazem parte da minha vida até hoje! Após dois anos ingressei na pós-graduação no curso de Oceanografia Biológica do Instituto, os meses que seguiam seriam de muito estudo e dedicação ao meu projeto.  Em paralelo, a vida pessoal seguia também! Montei minha casa, me casei e uma nova fase se iniciou. Parte do meu objetivo foi alcançado, mas a maternidade estava presente em meus planos, seria para o ano seguinte ao término do mestrado. Como não podemos controlar tudo na vida, o inesperado aconteceu, engravidei um ano após o início do curso... tensão total! Não sabia se meu desespero era por ser muito imatura emocionalmente, por não ter uma vida profissional estável, por estar no meio do mestrado... na verdade acho que foi tudo isso e mais um pouco! A cada semana gestacional sentia a transformação no meu corpo, nos hormônios e a “ficha caiu”, um bebê logo estaria em meus braços dependente de mim 100%. Meu Deus, o que eu faço? Era o pensamento diário que martelava em minha mente. Se não bastasse essa dúvida de como ser mãe, como cuidar de um ser tão frágil, ainda tinha meu trabalho. Faltava muito ainda para finalizar, então segui com a evolução dos meus dois bebês, a Letícia e a dissertação! Adiantei tudo o que pude do trabalho em laboratório para que quando ela chegasse eu pudesse ficar em casa apenas redigindo. E tudo deu certo, contei com a ajuda e compreensão de todos os envolvidos. Chegou o dia, a Letícia nasceu em 17 de dezembro de 2008, branquinha, olhos azuis, uma princesa rsrsrs!! Os três dias que permanecemos na maternidade foram perfeitos, podia dormir, me alimentar bem para ter energia e amamentá-la, mas o sonho acabou quando voltei para casa. Sabia que no início seria muito difícil, um bebê não vem com manual de instruções, fui me adaptando a cada dia com essa nova relação, tudo era novidade para nós duas. Além de cuidar dela tinha que analisar alguns resultados e redigir o texto da dissertação. Meu prazo estava próximo, teria que entregar em seis meses. Alguns dias não sentia nem vontade de ligar o computador para trabalhar, passava o dia “babando” a filhota! A cada dia uma mudança, era nítida a evolução, o aprendizado. Somos muito perfeitos, nosso organismo trabalha sincronizado e o desenvolvimento acontece muito naturalmente. Fui abençoada em poder acompanhar essa fase da vida dela. Os dias passaram e meu prazo estava chegando ao fim, o que fortalecia era saber que ao terminar teria mais tempo para me dedicar a minha filha, isso ajudou muito, era meu combustível. Consegui finalizar as correções do professor, imprimir o trabalho e apresentá-lo à banca de julgamento da pós-graduação... Pronto, mais um parto bem sucedido rsrsrsrsrs! Afastei-me de tudo e desempenhei apenas o papel de mãe durante os meses seguintes. Cheguei a pensar que estava livre, que tudo seria mais fácil a partir daquele momento, mas o questionamento em relação ao meu futuro continuava... deparei-me com duas opções: a primeira seria voltar para a pesquisa, continuar meu trabalho e posteriormente encarar um doutorado... seria perfeito!! Na área profissional estaria realizada, mas existiam pontos negativos nessa escolha, teria que me deslocar de um lado ao outro da cidade, gastar 4 horas por dia no transito “louco” de São Paulo, viajar para as coletas e ficar dias longe de casa. A segunda opção era trabalhar com meu marido em uma empresa de importação e vendas na área administrativa, como já tinha experiência recebi essa proposta... acho que atraio esse tipo de função devido à minha organização exagerada! Teria vantagens, pois o escritório ficava no mesmo bairro onde morávamos na época e a cinco minutos da escola onde a Letícia ficaria, estaria próxima da minha família e sem desgaste emocional. Foi um momento complicado, teria que escolher entre minha carreira e minha família... minha vontade era sumir, desaparecer e não ter que fazer escolha nenhuma, não tinha ideia do que eu queria. A princípio optei pelo emprego administrativo, mas tinha sempre em mente que voltaria para a pesquisa em breve, mas o tempo foi passando, me adaptei as funções exercidas na empresa e a comodidade de estar com minha família fez toda a diferença. Já não pensava mais em voltar para a área, estava desatualizada. Passei um período muito triste, pois sentia que abandonei um sonho, que joguei fora os anos de estudo e de trabalho, sempre me questionava se havia escolhido o melhor caminho. Passaram-se seis anos e hoje vejo que minha escolha foi correta, estou realizada profissionalmente, pois tenho um bom trabalho, desempenho uma função de confiança na empresa e sou agradecida pela minha linda família. A Letícia participa diretamente da minha vida, é minha amiga e companheira, fazemos muitas coisas juntas e isso é maravilhoso! Sou muito feliz com a vida que escolhi.  Sobre a autora: Lilian P. de Oliveira é bióloga, mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo e super mãezona. Participou de vários projetos de pesquisa junto ao Laboratório de Sistemas Planctônicos, no qual desenvolveu seu projeto de Mestrado “Análise comparativa da distribuição das famílias Salpidae e Doliolidae em relação ao zooplâncton total na plataforma continental sudeste do Brasil por meio de técnicas semi-automáticas de identificação e contagem” que descreve a distribuição de salpas e dolíolos (“primos” das águas-vivas), que são ecologicamente importantes no ambiente marinho e se alimentam de organismos planctônicos, inclusive de larvas de peixes. Lilian analisou material biológico coletado na costa do Brasil durante cruzeiros oceanográficos realizados pelo Instituto Oceanográfico, utilizando um scanner a prova de água, chamado ZooScan, que gera imagens dos organismos para facilitar a contagem e mensuração do seu tamanho. Saiba mais sobre o trabalho da Lilian clicando aqui . #carreira #convidados #filhos #silviagonsales #lilianpdeoliveira #mulheresnaciência

  • Three minutes, one slide, and lots of fish eggs

    By Jana M. del Favero Edited by Katyanne M. Shoemaker Would you be able to explain your research to an audience of academics from all different disciplines, in just 3 minutes, with only one slide? That is the premise of a competition called the Three Minute Thesis (3MT). 3MT was created at the University of Queensland, Australia in 2008, and it has been performed at the University of Massachusetts Dartmouth, USA since 2011. (Details about the competition can be found here: http://www.threeminutethesis.org ). While thinking about the goals of this blog, I decided to participate in the competition this year, as it does exactly what we try to do here: talk about science to a diverse audience while keeping it interesting and educational. I signed up thinking only about the training; I would have to prepare and memorize my text and then deliver the presentation (in English!). Of course, I also had the ultimate goal of winning (who turns down a chance to earn $1,000?). Unfortunately, I did not get rich on April 29th, 2015, but as expected, it was great practice and lots of fun. It was interesting to watch presentations about the research from various fields: engineering, arts, administration, etc. There were nervous people and people who seemed to have come straight from a theater stage. You can watch some videos of previous years by visiting the following website: http://www.umassd.edu/graduate/spotlights/three-minutethesiscompetition/ . You can read the transcript of my talk and learn more about my research below: Many people do not know, but fisheries management is not just based on adult population data. It is also important to study early life stages for better stock management. For example, as fish eggs are usually spawned in the water column, knowing when and where they are helps to define spawning sites and periods. But, before doing any kind of fish studies, it is necessary to know who they are. Fish egg identification is time consuming and difficult. After sampling on board, you need to sort all of the fish eggs from the plankton sample, using a microscope. Sorting the eggs from the family I am studying is easy because their eggs have an ellipsoid shape. The problem is reaching the species identification. As each group presents different size and shape, the identification has previously been done by manually measuring each egg and then counting. In my doctoral thesis, I want to verify long-term fluctuations in the abundance and distribution of eggs from a fish named Argentine anchovy on the Brazilian coast. This small fish is one of the most common fisheries resources in Argentina and Uruguay. At the Brazilian coast they haven’t been commercially fished yet, but some studies have suggested that Argentine anchovy can be sustainably fished in Brazilian waters. Coming back to my thesis, when I mentioned that I am studying long-term fluctuations, I didn’t mention that by long-term I meant 40 years of data, totaling almost 2000 samples. That is a huge amount of samples and it would take my whole PhD period just to identify all the eggs. The solution was to create a faster and more accurate methodology, so I did it. I used a digital camera attached to a microscope to image the eggs, and using the photos, I got the measurements. After that, I created a model that automatically gave me the counts of eggs within each species. This new model has over 90% accuracy and can be used by any researcher to optimize their time and effort. In the end, besides taking four years to identify the eggs for my thesis, I identified more than 100,000 anchovy eggs in just one year, allowing enough time to continue my research project.   If you are interested in this methodology, the paper is already in publication, and it can be accessed in the following link or requested by email. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jfb.12594/abstract See you soon. #fisheggs #chatjanamdelfavero #ocean #marinescience #chat

  • A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas

    Por Yonara Garcia Você já ouviu falar de geoengenharia? É uma ferramenta cada vez mais utilizada nos dias de hoje, mas também muitas vezes controversa, pois em alguns casos o resultado pode ser completamente inesperado!  Hoje falaremos sobre um polêmico experimento realizado em julho de 2012, por Russ George, um empresário americano, que despejou cerca de 100 toneladas de sulfato de ferro no Oceano Pacífico como parte de um projeto de geoengenharia na costa oeste do Canadá.  Fertilização do oceano por sulfato de ferro. Fonte O ferro é considerado um elemento fundamental, muitas vezes limitante, para o crescimento do fitoplâncton. O fitoplâncton é composto por microalgas que realizam fotossíntese, processo no qual utilizam a luz solar como fonte de energia e absorvem dióxido de carbono (CO2) e água para produzir matéria orgânica na forma de carboidratos. A partir desses carboidratos e com a adição de outros nutrientes, como nitrogênio, fósforo e ferro, as microalgas produzem outras substâncias, como proteínas, aminoácidos e outras moléculas que formam as células.  Em 1980, o oceanógrafo John Martin propôs que determinadas regiões do oceano (as áreas chamadas HNLC - High Nutrient, Low Chlorophyll ), apesar de ricas em nutrientes, seriam pobres em produção primária por conta da falta de ferro. Assim sendo, a adição de ferro deveria aumentar a produção do fitoplâncton e, consequentemente, afetar o ciclo do carbono, diminuindo os níveis de CO2 na atmosfera. Sua célebre frase “Give me half a tanker ful of iron and I’ll give you an Ice Age” (Me dê metade de um barril de ferro e eu te darei uma era do gelo.) causou grande euforia, pois ele acreditava que se certas áreas do oceano fossem fertilizadas, os efeitos do aquecimento global poderiam ser revertidos, resfriando a terra. Assim surgiu a ideia que o empresário americano colocou em prática. Russ e sua equipe despejaram uma certa quantidade de ferro no mar, acreditando que iriam promover o aumento do número de organismos fotossintetizantes e, assim, aumentar a eficiência dos processos de sequestro de carbono no oceano. Sim, bem parecido com o processo de fertilizar/adubar uma plantação para que ela cresça mais rápido! Este  assunto  gerou muita polêmica, pois entra em conflito com questões éticas e políticas a respeito dos efeitos que uma intervenção como esta traria para um ecossistema tão complexo e ainda pouco conhecido como os oceanos. Para entender melhor porque a ideia deste projeto é tão polêmica, vamos primeiro falar sobre alguns processos importantes que ocorrem no “maravilhoso mundo oceânico”. Você já ouviu falar em “bomba física”? E “bomba biológica”? Não, não é um tipo de arma de guerra para dizimar uma população inimiga! Bomba física é o processo relacionado com a solubilidade do CO2 no oceano (solubilidade = quantidade máxima que uma substância pode ficar dissolvida em um líquido). Já a bomba biológica ocorre depois deste processo, quando  uma fração do carbono dissolvido é absorvida pela atividade biológica, através da fotossíntese, nas camadas superficiais do oceano, e transportada para o fundo. Então, vamos entender melhor como ocorre este transporte de carbono no oceano… O CO2 é um gás capaz de se dissolver na superfície dos oceanos. Este mecanismo de solubilidade está relacionado com a concentração desse gás na atmosfera e com a temperatura da água: quanto mais CO2 houver na atmosfera e quanto menor for a temperatura, maior será a quantidade desse gás dissolvido na superfície dos oceanos. Uma vez dissolvido na água, o CO2 passa para uma nova fase do ciclo, na qual será absorvido por organismos fotossintetizantes marinhos. Uma parte da matéria orgânica formada na fotossíntese é utilizada na respiração celular e liberada em forma de CO2. A outra fração, que foi utilizada na formação da célula, é consumida pelo zooplâncton (consumidores primários nas tramas tróficas marinhas - leia mais aqui ) e/ou  transportada por gravidade para o fundo dos oceanos através da chamada “neve marinha”, formada por fragmentos alimentares e pelotas fecais oriundos da alimentação do zooplâncton, conchas e microrganismos mortos. Esse processo de transferência de carbono para o oceano profundo diminui a quantidade de carbono na zona eufótica (zona que recebe luz solar suficiente para que ocorra a fotossíntese ) fazendo com que bilhões de toneladas de carbono sejam sequestrados (retirados) da atmosfera por ano. Alguns estudos estimam que a bomba biológica seja responsável por remover cerca de 5-15 gigatoneladas de carbono por ano (Henson et al., 2011). Marine Phytoplankton. Source E vocês podem imaginar como essa retirada é importante tendo em vista a quantidade enorme de carbono que nossas atividades industriais, carros, aviões têm emitido na atmosfera ao longo dos últimos anos. É importante relembrar que o tão discutido aquecimento global, entre outros problemas, é provocado em grande parte por um excesso de carbono na atmosfera. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) 2014, somente em 2010, 49 gigatoneladas de carbono foram emitidas na atmosfera por atividades antropogênicas. E é justamente por isso que esses experimentos com o ferro ganharam tanta popularidade. Parece simples, não?! Pronto, resolvido o problema do aquecimento global! Vamos fertilizar os oceanos! Mas a coisa não é tão simples assim. Interferir em ecossistemas naturais é um assunto extremamente delicado, que pode causar danos incalculáveis e irreparáveis. Alguns pesquisadores realizaram experimentos semelhantes ao do empresário americano e concluíram  que, apesar da fertilização aumentar a taxa de fotossíntese, a mesma pode desencadear alterações na composição química do oceano, alterando o funcionamento de todo o sistema. Por exemplo, o aumento da taxa fotossintética do fitoplâncton é diretamente proporcional à quantidade de dimetilsulfeto (DMS - enxofre volátil na forma reduzida) excretado por essas microalgas na água, que se volatiliza e vai parar na  atmosfera (ou seja, mais fotossíntese pelo fitoplâncton, mais dimetilsufeto no ar). Na atmosfera, estas partículas facilitam a formação de nuvens, o que seria ótimo, pois com a maior formação de nuvens poderia haver maior reflexão da radiação solar e assim maior resfriamento do planeta. Contudo, nem todos os tipos de nuvens têm a propriedade de resfriar o planeta. Estudos recentes apontam que outros fatores climáticos  também podem afetar a distribuição e as propriedades das nuvens,  podendo aumentar a temperatura do planeta. Além disso, foi observado que a fertilização também aumenta a produção de óxido nitroso (N2O), molécula que aquece 320 vezes mais que o CO2. Outro estudo, publicado em abril de 2014 na Geophysical Research Letters, mostrou que mais de 66 % do carbono sequestrado pelo oceano retorna à atmosfera dentro de 100 anos. Ou seja, se por um lado  a bomba biológica ameniza a temperatura da Terra, sequestrando o carbono da atmosfera, por outro lado ainda não sabemos o que acontecerá quando houver o retorno deste carbono após certo tempo. Controverso o suficiente pra você? Desta forma, apesar dos processos que ocorrem nos oceanos serem responsáveis pela redução da concentração do CO2 na atmosfera, interferir no sistema pode não ser a melhor solução, pois existem muitos processos químicos, físicos e biológicos que, por não serem compreendidos inteiramente, poderiam resultar em prejuízos não previstos. Enquanto não chegamos numa compreensão mais integrada destes processos, a redução das emissões de CO2 seria muito mais eficiente e segura do que tentar remediar um problema manipulando um processo tão complexo e ainda pouco compreendido. Até a próxima! Literatura consultada: http://www.nature.com/ngeo/journal/v6/n9/full/ngeo1921.html http://www.nature.com/nature/journal/v446/n7139/full/nature05700.html https://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/wg1/en/ch7s7-3.html http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/2013GL058799/full https://www.ipcc.ch/pdf/assessment-report/ar5/syr/AR5_SYR_FINAL_SPM.pdf Henson, S. A., R. Sanders, E. Madsen, P. J. Morris, F. Le Moigne, and G. D. Quartly (2011), A reduced estimate of the strength of the ocean's biological carbon pump, Geophysical Research Letters, 38 #ciênciasdomar #yonaragarcia #algas #bombabiológica #equilíbrio #fitoplâncton #floração #geoengenharia

  • E quando os parques são marinhos?

    Por Barbara de Moura Banzato Na maioria das vezes que me perguntam sobre o meu trabalho, as pessoas não costumam entender logo de cara. Normalmente respondo que trabalho com parques marinhos, já que esse nome soa mais familiar para todos, e então cito alguns parques terrestres famosos no Brasil: Parque Nacional de Foz do Iguaçu, as Chapadas, Fernando de Noronha, etc. Mas, afinal, e quando os parques são marinhos? Então tento explicar. Os ecossistemas costeiros estão entre os mais produtivos e altamente ameaçados no mundo e atualmente tem experimentado mudanças ambientais muito aceleradas. Para tentar conservar estes recursos marinhos de tanta importância, a estratégia mais usada pelo mundo é a criação de Áreas Marinhas Protegidas (AMP). A criação de AMPs potencializa ações fragmentadas de proteção de espécies isoladas (Tamar, Projeto Baleia Jubarte, Peixe-Boi, entre outros), reduzindo o potencial impacto de atividades humanas - como o turismo, porto e a mineração - e protegendo os habitats vulneráveis, uma vez que abrangem o ecossistema como um todo. Além disso, têm grande importância socioeconômica, pois mantêm recursos da pesca inerentes à área protegida e aumentam a produtividade pesqueira protegendo áreas reprodutivas. Por isso essas áreas são importantes para a conservação da biodiversidade marinha e para a restauração de estoques pesqueiros simultaneamente, representando uma possibilidade de garantir a manutenção biológica e a recolonização de áreas vizinhas devido a seu efeito reserva (Norse, 1993; Agardy, 1994; Kelleher, 1999; Fournier & Panizza, 2003). No Brasil as AMPs são estabelecidas principalmente através das Unidades de Conservação (UC), que não necessariamente são parques. Assim como no continente, há diversas outras categorias incluídas nas áreas de Proteção Integral e de Uso Sustentável. (Veja este post que cita o SNUC e as diferentes categorias de UCs). Mesmo reconhecendo a importância das UCs, temos muito que avançar. O Brasil foi o primeiro país signatário que participa de acordos internacionais que visam à conservação dos recursos naturais (como a Convenção de Ramsar e a Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB. (Leia mais aqui e aqui ). E em 2010, durante a Conferência das Partes da CDB foram acordadas as Metas de Aichi, entre as quais se inclui o objetivo de melhorar a situação da biodiversidade protegendo ecossistemas através da inclusão de ao menos 10% das áreas marinhas e costeiras, sobretudo em áreas de especial importância para a biodiversidade e provisão de serviços ecossistêmicos. Mesmo assim a criação de novas UCs ainda tem se dado de maneira bastante tímida. Neste mesmo ano foi publicado pelo Ministério do Meio Ambiente um “Panorama da conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil” (BRASIL, 2010), e desde então nada mudou. Recentemente acessei o site do Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, o CNUC, e vi que continuamos com apenas 1,5% do território marítimo brasileiro protegido, sendo 0,1% em áreas de Proteção Integral e 1,4% de Uso Sustentável. (Link para o CNUC ). Este panorama ainda está abaixo do observado no restante dos países há quase dez anos. Mora et. al. (2007) analisaram as AMPs em recifes de coral e observaram que estas representavam cerca de 19% das áreas com recifes de coral do mundo: 17% destinadas ao uso sustentável (US) e 1,5% à proteção integral (PI). Desta última categoria, a maior parte está localizada na Austrália (69%), Pacífico e Índico Oeste (7%) e aproximadamente 2% no Oceano Índico Central. No entanto, os autores demonstraram que os países apresentam estatísticas de criação de AMPs como se isso resultasse em ações efetivas, no entanto a maior parte dessas AMPs não é realmente implantada. No Brasil, além da baixa representatividade, as poucas UC marinhas existentes são carentes de recursos e frequentemente consideradas “parques de papel” (veja o post sobre esse tema aqui ), ou seja, que existem apenas no decreto de criação. Se nas UCs terrestres isto é uma realidade, nas UCs marinhas pode ser ainda pior. A gestão destas áreas foi por muito tempo baseada nas técnicas e manejo adotados em áreas continentais, mas na verdade apresentam características que as diferem. Então qual a diferença das UCs marinhas na prática? Por exemplo, a impossibilidade de estabelecer limites entre AMPs, já que não há barreiras físicas no meio líquido como em uma floresta, o que por um lado garante a conectividade entre populações de espécies pesqueiras e por outro ameaça com a contaminação continental. Também não é possível estar o tempo todo nestes locais e estabelecer sedes na própria UC, o que dificulta a logística de fiscalização e pesquisa. Por isso, em 2011 resolvi estudar a efetividade das três únicas UCs de Proteção Integral marinhas de São Paulo: duas Estações Ecológicas (ESEC) administradas pelo ICMBio, um parque Estadual administrado pela Fundação Florestal: ESTAÇÃO ECOLÓGICA DOS TUPINIQUINS ESTAÇÃO ECOLÓGICA DE TUPINAMBÁS PARQUE ESTADUAL MARINHO DA LAJE DE SANTOS Baseada numa metodologia chamada EMAP -Evaluación del Manejo de Áreas Protegidas (Faria, 2004) selecionei indicadores qualitativos que fossem adequados para analisar se a realidade estava próxima das condições ideais esperadas, adaptando para as condições marinhas. Avaliei estas unidades em cinco aspectos que envolvem a gestão: Administrativo: recursos humanos, financeiros, infraestrutura, equipamentos, entre outros; Planejamento: existência de plano de manejo, zoneamento, programas de educação e divulgação, cumprimento dos planos e metas; Político-Legal: existência e aplicação de regras próprias, parcerias, apoio da sociedade, apoio da instituição gestora; Informações disponíveis: dados atualizados sobre meio físico, biótico e socioeconômico, e; Recursos protegidos: tamanho, presença de espécies raras, ameaças diretas, atividades proibidas, entre outras. A avaliação foi feita através de questionários e conversas com a equipe, análise dos documentos gerenciais e algumas observações de campo com acompanhamento da rotina de cada UC. A soma dos resultados de cada aspecto gerou um resultado final para cada unidade, que foi então classificada de acordo com uma escala de pontuação correspondente a um padrão de eficácia, com a seguinte variação: Quadro 1. Padrões de eficácia de gestão. Fonte: Faria (2004). Resultados encontrados foram de 68,19% para a ESEC dos Tupiniquins, 70,66% para a ESEC Tupinambás e 71,47% para o PEMLS. Em maior ou menor nível, o principal problema observado é a falta de recursos de modo geral, aspecto que as UCs se mostraram mais frágeis, e que resulta na não conclusão de programas e metas propostas. Essa relação fica clara, por exemplo, observando que a falta de recursos financeiros leva a um número insuficiente de funcionários para atender todas as atividades demandadas e à falta de manutenção dos equipamentos (como embarcação) e, sucessivamente, falta operação regular de fiscalização, que por sua vez, deixa de ser utilizada no combate à exploração ilegal de recursos no interior da unidade. Por exemplo, a ESEC dos Tupiniquins, apesar de ser a primeira UC marinha criada em São Paulo, recebeu poucos investimentos financeiros, humanos e administrativos desde sua criação, sempre esteve em sede emprestada e a maior parte dos equipamentos que utilizava para desenvolver as atividades de manejo foi realocada de outros órgãos governamentais por já estarem em desuso devido às más condições de conservação ou impossibilidades de manutenção. A ESEC de Tupinambás, por outro lado, havia adquirido há pouco tempo sua embarcação de apoio e sede administrativa com recursos financeiros destinados à unidade por compensação ambiental. Soma-se a isto a falta de informações disponíveis e falta de planejamento com que estas UCs foram criadas. Por exemplo, a falta de informações pretéritas sobre os usos socioeconômicos destas áreas e falta de informações ambientais resultou no enquadramento das ESECs em categoria que desconsidera uso das comunidades tradicionais e a vocação turística. Além disso, estas UCs possuem núcleos fragmentados e distantes, com tamanho insuficiente. O parque, por sua vez, não possuía Plano de Manejo, com informações sistematizadas da área e zoneamento estabelecido. Mas, prefiro destacar alguns aspectos positivos. Neste sentido, por exemplo, a ESEC dos Tupiniquins havia acabado de estabelecer seu Conselho Gestor em 2012 quando eu estava pesquisando por lá e, para garantir a participação das comunidades de pesca artesanal, realizava reuniões com tais comunidades em Cananeia na véspera das reuniões oficiais de Conselho. Já o PEMLS teve desempenho melhor devido à sua categoria. Por se tratar de um parque, que tem uso público permitido, havia parceria com os mergulhadores, cuja presença ajudava a inibir a atuação irregular de pesca amadora e industrial na área protegida, e também um monitoramento constante das condições ambientais da área. Da mesma forma, a possibilidade da criação de um Parque Nacional Marinho no Arquipélago de Alcatrazes, foi um fator importante que contribui com melhorias na ESEC de Tupinambás, pois proporcionou grande visibilidade (estas áreas são contíguas), despertando interesse de parceria de diferentes atores da sociedade, resultando em expedições em parceria com pesquisadores de universidades que puderam gerar muitas informações para elaboração do Plano de Manejo. Destaco por fim a importância de planejamento territorial integrado, que através da criação das APAs Marinhas de São Paulo permitiu a determinação de uma área de exclusão de pesca adjacente ao Parque, que auxilia no desenvolvimento de uma zona de amortecimento. (Veja mais aqui ). Ainda temos muito pela frente para que garantir a efetividade das UCs marinhas, mas estamos avançando graças ao comprometimento dos gestores que se esforçam na busca de parcerias para conseguirem atingir metas e contornar as dificuldades. Tubarão baleia avistado em 03 de abril de 2016 no Parque Estadual Marinho da Laje de Santos. Fonte: Link Referências Bibliográficas: AGARDY, M. T. 1994 Advances in marine conservation: the role of marine protected areas. Trends in Ecology and Evolution v.9, n.7.p 267-270 BRASIL. Panorama da conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil. MMA. Gerência de Biodiversidade Aquática e Recursos Pesqueiros. Brasília: MA/SBF/GBA, 2010. 148 p. FARIA, Helder Henrique. Eficácia de gestão de unidades de conservação gerenciadas pelo Instituto Florestal de São Paulo, Brasil. Tese de Doutorado em Geografia - Universidade Estadual de São Paulo: [s.n]401p. Presidente Prudente, 2004. FOURNIER, J. PANIZZA, A. C. (2003). Contribuições das Áreas Marinhas Protegidas para a Conservação e a Gestão do Ambiente Marinho. RA.E GA, Curitiba, 7:55- 62. KELLEHER, G. 1999. Guidelines for marine protected areas. Cambridge: IUCN, 1999. 107p. MORA, C. ANDREFOUET S.; COSTELLO M.; KRANENBURG S.; ROLLO, A.; VERON, J.;GASTON K.J.;MYERS, R.A. (2006) Coral reefs and the global network of Marine Protected Areas. Science 312, 1750-1751. NORSE, E.A. (ed.) 2003. Global Marine Biological Diversity: A Strategy for Building Conservation into Decision Making. Center for Marine Conservation, Island Press, Washington D.C. Sobre Barbara de Moura Banzato: Possui graduação em Oceanografia pelo Centro Universitário Monte Serrat (2008) e mestrado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo - PROCAM (2014). Recém aprovada no Doutorado do Programa de Evolução e Diversidade pela Universidade Federal do ABC (Faculdade de Ciências Naturais). Atua há 10 anos com gestão, planejamento e trabalhos de socioeconomia em Unidades de Conservação marinhas. #ciênciasdomar #barbarademourabanzato #ecossistemasmarinhos #gestão #unidadesdeconservação

  • O que você sabe sobre o plâncton?

    Por Naira Silva Estes pequenos (na maioria dos casos) seres vivos entraram na minha vida em 2006, quando cursava o segundo ano do Bacharelado em Oceanografia no IO (USP, SP). Durante uma aula de Ecologia, timidamente pedi estágio no Laboratório de Sistemas Planctônicos ( LAPS ) e a paixão surgiu ao olhar para o plâncton oceânico vivo, recém-retirado da água do mar, ao auxiliar no doutorado do Profº Dr. Mauro de Melo Junior (também ex-aluno do IO-USP, que hoje ainda estuda o plâncton, só que lá em Pernambuco).  O plâncton vivo é um verdadeiro espetáculo de cores, formas e movimentos! É tão diferente de tudo que conhecemos que todos deveriam dar uma “espiadinha”, pelo menos uma vez na vida! De lá para cá ele sempre esteve presente no meu dia a dia de alguma forma: neste exato momento, por exemplo, estou rodeada por vidrinhos de organismos planctônicos que vieram de águas bem distantes (do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, PE, Brasil). Amigos de longa data devem recordar que eu já falava sobre eles nos corredores do colégio, mas confesso que foi uma surpresa ter tido a oportunidade de realmente trabalhar um pouquinho com estes fantásticos organismos. Mas o que você sabe sobre o plâncton? Será que eles realmente têm algo em comum com o “Plankton” (termo equivalente na língua inglesa) do Bob Esponja? Como “planctóloga” (uma pessoa que estuda o plâncton, dentre outras coisas ;)), acredito que devemos ser gratos ao biólogo marinho Stephen Hillenburg, criador da série O Bob Esponja, por ter tornado o malvado Sheldon “Plankton” tão popular. Biólogo e fascinado pela vida marinha desde a infância, Stephen abraçou várias iniciativas até conseguir unir as três áreas de foco nas quais encontrou motivação e exibiu talentos: artes, biologia marinha e divulgação científica1.  O quadrinho precursor da série (chamado “A zona Entre marés” em português) foi criado na década de 80, enquanto o autor lecionava Biologia Marinha no Ocean Institute (Califórnia, EUA). Encurtando a história, foram quase dez anos para que as suas estranhas criaturas ganhassem vida na telinha1. Sua persistência presenteou a nossa geração com um personagem que tornou mais fácil tocar no assunto em diferentes contextos; um mérito indiscutível! Em qualquer “googlada” pelo termo “plâncton” ele estará por lá exibindo seu sorriso maquiavélico. E até nas redes sociais não tem para ninguém! Ele é o “#plankton” mais famoso! Eles já estiveram por aqui no nosso primeiro post ( acesse aqui ), onde a Catarina ilustrou os principais questionamentos por trás de uma pesquisa científica centrada neste tema, navegaram com a Izadora , que explicou como eles podem representar um problema de saúde pública em nossos portos ( acesse aqui ) e também marcaram presença no depoimento da Lilian ( acesse aqui ). Então, se você perdeu algum detalhe, antes de passear pelos outros posts, vamos recapitular: O termo “plâncton” representa uma grande categoria (assim como insetos, por exemplo) que reúne um conjunto diverso de organismos. Esta junção é possível devido a uma característica principal em comum: possuem reduzida capacidade de locomoção, de forma que são “carregados” ou “flutuam” passivamente no ambiente aquático que habitam. Existem seres planctônicos vegetais (fitoplâncton), as microalgas, e animais (zooplâncton). Aqui estamos conversando sobre o reino de Netuno, mas organismos planctônicos podem ser encontrados em todos os ecossistemas aquáticos! Se considerarmos todos os seus variados tamanhos: seres uni e pluricelulares, incluindo bactérias, protozoários e vírus (teremos um post sobre eles em breve), apenas uma gota de água do mar pode esconder uma infinidade de seres vivos! Mas eles não são sempre microscópicos, ok? As medusas que você está vendo no layout do blog, por exemplo, também são consideradas planctônicas devido à sua baixa capacidade de deslocamento. Sempre que olho para uma paisagem marítima, penso ser difícil imaginar que exista tanta vida em um ambiente tão silencioso! Ponto fundamental ressaltado pela Catarina : 0 Plâncton = 0 Peixes! A matemática é simples assim! Seres planctônicos (animais e vegetais) são a base de todas as cadeias alimentares marinhas e em algum momento, direta ou indiretamente, serviram de alimento para todos os “frutos do mar” que chegam fresquinhos à sua mesa. Além disso, muitos animais marinhos adultos também já pertenceram ao zooplâncton algum dia.  Como assim? Muitos peixes, crustáceos e moluscos possuem fases larvais que se encaixam perfeitamente na característica mencionada acima. Porém passam apenas sua infância/juventude no plâncton recebendo outras denominações à medida que vão amadurecendo. Quando um organismo para a sua vida inteira no zooplâncton ele é conhecido como holoplâncton, enquanto que organismos que passam apenas fases iniciais do ciclo de vida são chamados de meroplâncton. Os indivíduos meroplanctônicos são verdadeiras “sementes” lançadas à imensidão oceânica. No caso dos peixes, por exemplo, pouquíssimas larvas sobrevivem até a fase adulta (lembra das larvinhas da Cássia ? acesse aqui ). Por tudo isso e um pouquinho mais, conhecer bem estes organismos, isto é: quem são, por onde andam e como se comportam; é uma das chaves para a conservação da biodiversidade em nossos oceanos! E quanto ao vilão Sheldon Plankton? Arrisco-me a dizer que ele se parece muito com um ser zooplanctônico. E se pudéssemos perguntar para Stephen, certamente ele tentou atribuir características antropomórficas a um copépode (Figura B na imagem acima)! Copépodes são super populares no plâncton, pois são os crustáceos microscópicos mais abundantes na maioria dos oceanos. Você conseguiria imaginar que existem cerca de 1 × 1021 deles nadando por aí3? Dá até medo, mas é verdade! E também é provável que existam mais copépodes do que insetos no Planeta Terra4! Não vou me estender muito, pois eles vão pintar novamente por aí na sexta-feira (post da convidada Sabine Schultes). Neste vídeo do TEDs (pelo Projeto Crônicas do Plâncton) além dos aspectos conceituais apresentados anteriormente, também é possível observar a incrível diversidade do plâncton marinho! Não deixe de assistir: Todos os peixes são plâncton (All fish is plankton). Netuno indica: * A natureza escondida5. Texto muito interessante sobre o plâncton marinho:  http://www.oeco.org.br/frederico-brandini/17094-oeco-14538 * Vídeos: - Crônicas do plâncton:  http://www.planktonchronicles.org/en / ainda sem tradução, o Projeto Crônicas do Plâncton combina arte e ciências para mostrar a diversidade do plâncton marinho. As imagens são tão belas que é difícil indicar uma crônica preferida! A ideia foi concebida dentro do contexto do Projeto Tara Oceans e as filmagens obtidas na escuna Tara, na qual a colunista Catarina já embarcou ( acesse aqui ). - Plâncton Safari:  http://www.planktonsafari.net também em língua inglesa, este portal disponibiliza diversos vídeos do plâncton marinho gravados com câmeras de alta frequência (“supercâmeras”).  * Imagens: - Cifonauta:  http://cifonauta.cebimar.usp.br/ um dos maiores bancos de imagens de organismos marinhos do Brasil, com fotografias surpreendentes do plâncton marinho, disponibilizadas sob a licença de uso Creactive Commons ( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/deed.pt_B R - Fotos e vídeos podem ser compartilhados e reutilizados para fins não comerciais, sem necessidade de autorização prévia, desde que fonte e autoria sejam citadas de maneira adequada; e seja distribuída uma licença igual ou similar à esta). Uma valiosa ferramenta para divulgação científica! * Acredite! Eles existem! E você pode coletar o seu☺! - http://chc.cienciahoje.uol.com.br/sopa-de-plancton/ Tradicionalmente esses organismos são coletados com um equipamento conhecido como “rede de plâncton”: nada mais que uma peneira no formato ideal para “filtrar” uma grande quantidade de água que permita concentrar o plâncton. Neste artigo de divulgação você pode encontrar uma dica bacana de como comprovar que eles realmente existem! Eu testei o “método da meia-calça” e realmente funciona! É possível coletar muitos indivíduos ainda que na zona de arrebentação da praia. #copépodes #curiosidades #fitoplâncton #microalgas #oceano #plâncton #TEDtalks #zooplâncton #nairasilva #descomplicando

  • As dunas que “andam”

    Por Nery Contti Neto Originalmente publicado em:   https://tenhominhaloucura.wordpress.com Sempre tive uma ligação muito forte com Itaúnas, ES. Minha bisavó nasceu em Itaúnas velha e teve que se mudar, pois sua casa foi lentamente soterrada pelas dunas. Minha primeira pesquisa na faculdade de Oceanografia foi lá, e quando estava no mestrado, fui chamado pelo pessoal do Parque Estadual de Itaúnas (PEI) para responder a seguinte pergunta: as dunas de Itaúnas, que já soterraram a vila antiga, podem ainda soterrar a vila nova? Pois fui tentar responder de uma maneira simples e repasso aqui. Primeiramente, explico o que são as dunas: um depósito arenoso formado pela ação dos ventos quando há areia em abundância – não acontece em um lugar que sofre erosão, por exemplo. Depósito é onde os processos naturais (vento, onda, os rios, etc.) depositam e ganham areia. Erosão é o processo onde um lugar perde material, no caso, areia. As dunas começam a se formar quando o vento carrega grãos de areia, que perdem sua velocidade quando encontram alguma barreira (podendo até ser um objeto). Quando o vento é forte e constante, o que quer dizer mesma direção e sentido por um longo tempo, as dunas se estabilizam. Quando as dunas se estabilizam os grãos de areia vão se empilhando sobre os demais, e assim a duna vai aumentando de tamanho e comprimento, que pode variar de menos de um metro (como a maior parte do litoral capixaba) a dezenas de metro e centenas de quilômetros de extensão, como nos Lençóis Maranhenses . As dunas são importantes porque protegem a praia contra as subidas do mar, como quando entra uma ressaca. São também um hábitat único para diversas espécies de aves, plantas, tartarugas e outros. Servem também como filtros naturais para a água da chuva e subterrânea, podendo até mesmo formar regiões úmidas, o que de fato acontece em Itaúnas, na região dos alagados. Por conta disso tudo as dunas são Áreas de Preservação Permanente, como os manguezais, encostas e topos de morro, nascentes de rio etc. Mas as dunas podem também ser motivo de dor de cabeça para os gestores públicos e ambientalistas. Em períodos de vento mais fraco (ou não tão forte), se não houver muita vegetação, os grãos começam a subir a duna ao invés de serem depositados ao pé dela. E foi o que aconteceu em Itaúnas na vila antiga (e também nas Rendeiras, em Florianópolis). As árvores foram retiradas da restinga na frente da praia no começo da década de 1950, mas principalmente na década de 1970. Com um vento Nordeste constante no verão e muita areia disponível, foi um prato cheio para a formação daquelas dunas, cobrindo a vila que existia. Agora voltando à pergunta: e quanto a vila atual, ela vai também ser engolida? Para responder a essa pergunta, comparei fotografias aéreas da década de 70, feitas pelo Projeto RadamBrasil , o primeiro esforço em escala nacional de fotografar todo o país em um avião, com fotografias recentes, utilizando de um software que permitiu a análise desse tipo de imagens. O uso das fotografias aéreas é uma ferramenta muito importante para quem quer entender processos naturais, e muitas dessas fotografias aéreas estão disponíveis gratuitamente. Na década de 70 a vila antiga (hoje soterrada pelas dunas como falei aqui ) já mostrava um processo de soterramento, restando só 30 casas não soterradas. A igreja de São Sebastião, a mais antiga, já estava soterrada e a igreja nova já em construção. A vila atual, que se mudou para atrás do rio, começava a ser ocupada, contando com menos de 10 casas. Em 2012, conversei com moradores da Vila que me disseram que muitos que moravam na vila antiga não passaram para a atual, preferindo ir para Vitória ou Conceição da Barra. O que pude perceber analisando as fotos é que durante os anos de 1971 a 2008, a área das dunas aumentou 96 mil m2 (ou 9,62 hectares). Uma parte considerável da vegetação das dunas foi perdida nas proximidades da antiga vila e, segundo alguns moradores, não houve desmatamento da vegetação que cobria as dunas, portanto isso seria resultante de um processo natural, não provocado por interferência humana. Isso deixo para os historiadores. De qualquer forma, um lugar interessante para ver como a retirada da vegetação influencia na formação das dunas é no Buraco do Bicho (que falei no outro post sobre Itaúnas , que fica a menos de 1 km de distância da praia principal). Essa feição - conhecida como blowout - é uma feição erosiva/deposicional (os dois processos acontecem juntos) com um formato semicircular ou alongado no meio de um campo de dunas. São muito comuns nos locais onde há ventos de alta energia. Eles começam a se formar quando há uma redução da vegetação e vento soprando forte. Os ventos vão então ficando mais fortes por afunilamento e vão retirando a areia desse local e depositando ao seu lado, daí o formato semicircular. Esse efeito continua acontecendo até que o vento remova tanta areia que atinge o lençol freático, deixando o formato assim ó: É possível inferir que as dunas de Itaúnas (as mais famosas) provavelmente começaram com um blowout , logo, o Buraco do Bicho pode também formar novas dunas tão grandes quanto as dunas mais famosas de Itaúnas. Nesse mapinha aí de cima dá para ver que marquei 3 caminhos. O Caminho 1 representa a maior distância percorrida pelas dunas em 37 anos em direção a Noroeste , o Caminho 2 foi o maior caminho que as dunas percorreram no mesmo período em direção a sudoeste e o Caminho 3 foi um caminho que tracei de menor distância entre as dunas e a vila recente.  Agora pense comigo: para a duna andar para norte, o vento tem que soprar empurrando a duna para o norte, certo? Mas na oceanografia a convenção é de chamar o vento pela direção que ele vem, e as correntes pela direção que ela vai. Ou seja, o vento vem de sul e vai para norte - empurrando a duna para norte – e tem o mesmo sentido de uma corrente norte , que vem de sul e vai para norte . Dessa maneira, o Caminho 1 é maior distância percorrida pelas dunas em resposta ao vento Sudeste (andando para Noroeste) e o Caminho 2 é a maior distância percorrida pelas dunas em resposta ao vento Nordeste (andando para Sudoeste) . Na região o vento de Nordeste sopra a maior parte do tempo, mas é mais fraco do que o vento de Sudeste, que só aparece quando há frentes frias, mas entra com toda a força.  Para ajudar, vai uma colinha aí: Para comparar, em Cabo Frio as dunas respondem mais ao vento de Nordeste, enquanto as dunas de Florianópolis respondem mais ao vento sul, que é bem mais forte nesta região. No Rio Grande do Norte o que domina são os ventos alísios de sudeste (um tipo especial, já conhecido pelos navegadores portugueses). E olha a direção que as dunas tomam: Voltando pra Itaúnas, sabendo que com ambos os ventos (NE e SE) as dunas “andaram” 180 m em cada direção entre 1971 e 2008, isso dá uma média de quase 5 metros por ano, e assim dá para calcular quando e se elas um dia vão atingir a vila nova. Além da cidade nova, as dunas estão avançando também para dentro da área de alagado, uma área extremamente sensível e rica em biodiversidade. E isso já está acontecendo, infelizmente. Pois bem, se os ventos continuarem soprando com a mesma força e direção, se as dunas andarem na mesma direção e ainda se houver bastante areia sobrando, as dunas demorariam 147 anos para avançar sobre a cidade nova! E o que pode ser feito?  Bom, quando fui lá em 2012, os funcionários do parque já estavam tomando algumas iniciativas, como jogar palha de coco moída para fornecer matéria orgânica para o solo. Isso faz com que a vegetação cresça, ajudando a barrar o transporte de areia e, desta forma, diminui a mobilidade das dunas. Quando voltei, depois de um ano, havia acúmulo de areia nas cercas. Isso é um bom sinal de que a vegetação consegue conter bem o avanço de dunas. Agora é monitorar e ver o que vai acontecer! Uma outra medida muito importante que já foi tomada foi a de proibir a caminhada em qualquer lugar do campo de dunas. É claro que é muito legal fazer sandboard nas dunas, andar por qualquer lugar à vontade e ficar pulando nas dunas, mas em uma cidade em que o turismo é principalmente ecológico, devemos seguir algumas regras básicas.  Quando uma pessoa anda sobre as dunas ela está ajudando na sua mobilidade e acelerando esse processo de movimento das dunas. Mas isto não é causado por uma pessoa só, estamos falando de muitas pessoas já que Itaúnas é um dos pontos principais de turismo no Estado. Então respeite essa regra e ande apenas onde já há trilhas demarcadas! A zona de alagado, com toda sua biodiversidade e a cultura da vila nova de Itaúnas, já está sofrendo com essa mobilidade das dunas. E quando for a Itaúnas se informe sobre a história do local, converse com os moradores para perguntar as histórias antigas (eles são super receptivos e adoram conversar) e aumente sua consciência ambiental. Conhecer o passado é muito importante para preservar o futuro! E boa viagem! Quem quiser ler mais sobre esse trabalho envie um e-mail para nerycn@gmail.com. Sobre Nery Contti Neto: Oceanógrafo, músico e apaixonado por viagens. Nasci rodeado pelo mar, morei em mais 4 lugares fora de Vitória e os 3 eram ilhas. Fiz mestrado em Oceanografia Geológica pela USP e atualmente trabalho com instrumentação Oceanográfica, com medição de ondas, correntes e marés. #ciênciasdomar #neryconttineto #convidados #dunas #oceanografiageológica

  • Os peixes e a física nuclear

    Por Maria Luiza Flaquer da Rocha A contaminação pode ser definida como a condição na qual substâncias estão presentes onde normalmente não estariam, ou quando ocorrem em concentrações acima dos níveis naturais para uma determinada região. A maior parte da contaminação que chega aos oceanos vem de atividades realizadas em terra e os ecossistemas costeiros, que incluem as áreas mais produtivas dos oceanos, são os mais diretamente afetados. Um dos principais resultados é a diminuição da biodiversidade e, como consequência, dos recursos naturais. É necessário, portanto, entender e quantificar os impactos causados por atividades humanas que afetam as regiões marinhas. Fonte Um dos estudos que fiz no meu trabalho de doutorado foi a avaliação dos níveis de metais pesados (que são metais ou semi-metais da tabela periódica de elementos químicos cujas densidades são maiores que 5 g/cm3 e são potencialmente danosos para a maioria dos organismos) presentes na baía de Santos, no Estado de São Paulo, pela da análise do tecido muscular de um linguado chamado Achirus lineatus (Foto_1). Eu escolhi esse peixe porque ele vive em contato muito próximo com o sedimento (no fundo do oceano), pois gosta de ficar enterrado para se proteger dos predadores e poder surpreender a sua presa, que pode ser um camarão ou um poliqueta desavisado. E isto pode ser um problema para o Achirus porque é no sedimento que se encontra, normalmente, a maior concentração de contaminantes. Os metais, por exemplo, quando entram nos sistemas aquáticos, podem permanecer dispersos na coluna d´água ou podem “grudar” em partículas minerais como areia, silte e argila e afundar. Foto 1 – Linguado Achirus lineatus (Actinopterygii, Pleuronectiformes). Fonte Mas por que investigar a presença de metais no ambiente? Porque os metais podem se bioacumular (processo de absorção de compostos químicos do meio) nos peixes e causar distúrbios no crescimento, na reprodução, no sistema imunológico, patologias na pele, brânquias, fígado e rins, além de deformações no esqueleto dos mesmos (foto_2). Além disso, podem também afetar a nós, seres humanos, ao consumirmos esses peixes contaminados. Por isso, esse tipo de estudo é tão importante. Foto 2 – Esquema mostrando como o peixe pode absorver os metais. Bom, mas onde entra a física nuclear? Depois que coletei os peixes que queria (foto_3), retirei uma parte do tecido muscular dos peixes que foi, posteriormente, seco e triturado para ser transformado em uma espécie de pastilha. Essa pastilha foi colocada num porta-amostra e depois inserida num acelerador de íons (foto_4), num método chamado Particle Induced X-Ray Emission ( PIXE) ou Emissão de Raios-X Induzido por Partículas. Esse método é baseado numa técnica de física nuclear, onde a amostra a ser analisada é irradiada por partículas carregadas liberando raios-X característicos (feixe de íons com energia de 3 MeV/u.m.a. ou Megaelétron-Volt, unidade de medida de energia, empregada em física atômica e nuclear, equivalente a um milhão de elétrons-volt), que são detectados por um espectrofotômetro que é um instrumento de análise capaz de medir e comparar a quantidade de luz absorvida, transmitida ou refletida por uma determinada amostra. O método é sensível para elementos da tabela periódica e permite determinar, por correspondência, a composição elementar de amostras muito pequenas, com menos de 0,1 mg de massa. O feixe bombardeia uma área de 4 mm2, permitindo a determinação e a quantificação dos elementos investigados. Foto 3 – B. Pq. Velliger II (IOUSP) na baía de Santos (SP) e a rede de arrasto de fundo com os peixes coletados. Fotos: Diego Moraes. Dessa maneira, eu pude saber se o peixe que reside na baía de Santos estava contaminado com metais pesados. Se você ficou interessado nesse método e quer mais informações, você pode dar uma olhada nesse site , que é do laboratório onde essa análise foi realizada. Fica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Quando analisei os resultados, pude identificar alguns elementos metálicos presentes na musculatura dos linguados, dentre eles: cromo (Cr), arsênio (As), selênio (Se), chumbo (Pb) e mercúrio (Hg). O cromo é um elemento essencial para sistemas biológicos, embora em excesso seja tóxico causando danos ao fígado e ao rim. Pouco se sabe sobre os efeitos do arsênio e do selênio, mas há indicações que esses elementos afetam de alguma forma o processo reprodutivo dos peixes. O chumbo é um elemento que se acumula principalmente no tecido ósseo. Entre os elementos metais, o mercúrio é um dos mais danosos para os peixes; a maior parte do mercúrio é absorvida na forma de metil-mercúrio (MeHg), a qual é rapidamente assimilada pela trato digestório. Esse metal tende a se acumular no fígado e no rim, ou pode se ligar aos aminoácidos no tecido muscular. Todos os valores que encontrei nas amostras estavam acima dos valores de referência desenvolvidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (ANVISA) do governo brasileiro, os chamados “Limites Máximos de Tolerância” ou LMT, para contaminantes inorgânicos em pescado. As descargas de metais pesados no ambiente marinho têm se tornado motivo de grande preocupação em todo o mundo devido à toxicidade e comportamento bioacumulativo dos elementos. Estudos sobre metais pesados auxiliam a prevenção da degradação dos sistemas marinhos, mas também são importantes sob o ponto de vista da saúde pública, ao medir a concentração de metais nos organismos, principalmente daqueles que oferecem risco à saúde humana e que podem acarretar problemas neurológicos, gástricos, lesões renais e mesmo câncer, como no caso do chumbo. Infelizmente os peixes marinhos não podem nos contar todos os danos que estão sofrendo com a poluição, mas a inclusão de estudos como este em avaliações ambientais pode auxiliar no detalhamento das alterações que estão ocorrendo no ambiente! Gostou do assunto e quer saber um pouco mais? Acesse a minha tese aqui . Foto 4 – Detalhe do acelerador de partículas chamado Tandetron 3MV e ao lado, destaque para o monitor com o resultado da espectrofotometria dado por um gráfico. Laboratório de Implantação Iônica do Instituto de Física – UFRGS). Fotos: Dr Wellington Fernadez. Sobre Maria Luiza Flaquer da Rocha : Graduação em Ciências Biológicas na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrado em Oceanografia Biológica no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP).Assistente de Pesquisa na Experimental Hatchery (RSMAS) – Projeto: Shrimp larvae culture system / Algae culture e monitoria na aula prática da disciplina Aquaculture Management I e II na University of Miami – EUA. Doutorado em Oceanografia Biológica no IOUSP. Pós-Doutorado em Oceanografia Biológica (IOUSP) em parceria com o Laboratório de Implantação Iônica do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Atividade atual Pesquisadora bolsista, junto à Coleção Biológica Prof. Edmundo F. Nonato (ColBIO) do IOUSP, de outubro de 2011 até a presente data. E mãe do Rafael Soares, autor do post “ O filho que concorreu com a ciência e empatou ”. #ciênciasdomar #biologiamarinha #convidados #marialuizaflaquerdarocha #interdisciplinaridade #radiação

  • Devastatingly beautiful: the growing problem of Lionfish

    By Corey Eddy and Jana M. del Favero Edited by Katyanne M. Shoemaker Two lionfish have been sighted in Brazil, both in the southeastern area of Arraial do Cabo (Rio de Janeiro). The first one was in 2014 and another more recently in March 2015. But with only two individuals spotted, why should we care? Brazilian experts are still debating how these lionfish ended up in the Brazilian waters and if there may be more individuals in deeper waters, not observable by divers (details here ). While there is no consensus, I asked a colleague, Corey Eddy, to write about the invasive population of lionfish in Bermuda; I wanted to know what is being done there and what measures could be adopted in Brazil. Below it is the text he wrote: "Since the discovery of lionfish in Florida in 1985, their population expanded rapidly to stretch from Venezuela to Rhode Island (US). It was thought their range of invasion could eventually stretch as far south as Uruguay. As lionfish are recognized and avoided by prey in their native territory, they have evolved into opportunistic predators with broad diets. However, due to prey naivety in their invasive range, lionfish are able to consume large quantities of invertebrates, juvenile fish, and small-bodied adult fish, many of which play important ecological or economic roles. Consequently, research shows that lionfish can reduce juvenile reef fish populations by nearly 80% in as little as five weeks. Bolstered by the lack of any natural predator, lionfish populations in the Atlantic have reached densities far greater than in their native range, with the potential to affect community structure, biodiversity, and the health of coral reef ecosystems. Fortunately, they are delicious and it only takes one minute to remove their dangerous spines, making them perfectly safe to handle. If we can create a fishery for them, we can save the ocean. We have to eat them to beat them." Representation of the worldwide lionfish distribution. Diagram by Naira Silva. Lionfish illustration's Source . My doctoral work is part of a larger project, funded through the UK’s Department of Environment, Food and Rural Affairs, that is investigating the biological and ecological characteristics of the lionfish population around Bermuda and the potential impact lionfish may have upon the structure and function of Bermuda’s coral reef ecosystem. For my first chapter, I will be using the data we collect on lionfish abundance and distribution to estimate the population size. Our team is assessing lionfish abundance via underwater visual surveys at 15 sites in each of five depth zones across the Bermuda platform (10, 20, 30, 45, and 60m) using SCUBA or appropriate technical diving equipment (i.e. trimix diving with multiple tanks). Using a roving search protocol that encompasses cryptic habitats, divers record all lionfish seen and attempt to capture each individual using a pole-spear. Following capture, all lionfish are measured, weighed, dissected, and processed for further analyses. Belt-transect surveys of reef fish, focusing upon small and cryptic species, are conducted concurrently to determine the abundance and distribution of potential prey. A number of these sites are being resurveyed after one year to assess re-colonization rates. This data will also facilitate the development of a distribution map that aids removal activities targeting lionfish at key locations and times that account for seasonal population fluctuations and movement patterns. My next two chapters will document the life history characteristics of this species to estimate population growth as it pertains to their potential ecological impact. In chapter two, I will examine the demographics of the lionfish population as well as growth rates and longevity of lionfish in Bermuda. This work utilizes standard otolith (“fish ear bone”) aging techniques applied to specimens captured during our underwater surveys and opportunistically from other divers, commercial fishermen, and permitted lionfish hunters. Following this, my third chapter will examine the reproductive condition and quantify the fecundity of lionfish. Gonads will be weighed, sectioned, and analyzed by traditional histological methods to determine overall fecundity, reproductive seasonality, and the developmental stage of fish, thus providing an estimate of the reproductive potential driving the overall population growth. In my final chapter, we are investigating the feeding ecology of lionfish to explore the impact they may have on the native fish and invertebrate communities, as well as the entire local ecosystem, and to identify factors driving the population’s distribution. This research involves conventional stomach content analysis (SCA) complemented with more advanced stable isotope analysis (SIA) that reveals details not detectable through traditional methods. Because the stable isotope ratios of carbon (13C/12C) and nitrogen (15N/14N) in the tissues of predators are directly related to the ratios found in their prey, the change in these ratios relative to a standard, δ13C and δ15N, are used to indicate the primary carbon sources for a consumer and an estimate of trophic position, respectively. To further indicate the potential impact of lionfish on Bermuda’s reef ecosystem, we will also perform this analysis on prey species (i.e. those identified by the SCA) and others we know are competing with lionfish for these same resources. By plotting δ13C and δ15N of lionfish and these various species, we can see the extent to which lionfish are utilizing resources needed by native species. When completed, this project will estimate the extent to which invasive lionfish could impact Bermuda’s coral reef ecosystem and help mitigate that impact by providing data on lionfish abundance and distribution to assist the Bermuda Lionfish Task Force and the Department of Environmental Protection ( http://www.lionfish.bm ) in developing a comprehensive plan that facilitates large-scale, long-term removal of this species from local waters. Controlling and reducing the continued growth of the lionfish population is a crucial part of any effort to minimize negative impacts on native fish species and coral reef ecosystems, and avoid secondary impacts on fisheries and tourism. In addition to my doctoral research, I am heavily involved in public education and one of the projects I work on may be very useful to implement in Brazil. As a volunteer for the Ocean Support Foundation ( http://www.oceansupport.org ), I run the Bermuda Lionfish Culling Program on behalf of the Department of Environmental Protection. This program allows any Bermudian resident, over 16 years of age, to receive the proper training and a special permit to hunt lionfish. This is different from a traditional spearfishing license because permitted lionfish hunters are allowed to hunt lionfish while using SCUBA, within one mile of shore, and on shipwrecks and other protected sites, situations normally forbidden by Bermuda law. To date, we have certified over 500 hunters, all of whom are a major help in removing lionfish and keeping Bermuda’s reefs clean and healthy. As Brazil has only recently been invaded, these early days are the perfect opportunity to mobilize SCUBA and free divers, fishermen, and environmentalists to get into the water and start hunting. Every lionfish that is removed greatly helps to preserve and protect Brazil’s marine environment, especially at this early point, when there may be very few lionfish around. Corey Eddy biography: Corey Eddy is a PhD candidate at the University of Massachusetts Dartmouth. He received his bachelor’s degree from the University of Rhode Island, whose study abroad program first brought him to Bermuda for a semester at the Bermuda Institute of Ocean Sciences. He is also a Fellow through the National Science Foundation’s Graduate Research Program and a member of the Bermuda Lionfish Task Force. As a volunteer for the Ocean Support Foundation, he developed and currently manages the Bermuda Lionfish Culling Program on behalf of the Department of Environmental Protection. His research interests focus on studying the life history characteristics, habitat use, and feeding ecology of ecologically important predators. Contact: corey.eddy@umassd.edu #conservation #invited #chatjanamdelfavero #lionfish #nairasilva #coreyeddy #marinescience #chat

  • Três minutos, 1 slide, e os ovos de peixes

    Por Jana M. del Favero Você seria capaz de falar da sua pesquisa para um público de diferentes áreas,  em apenas 3 minutos e com um único slide? Esse é o objetivo de uma competição chamada Three Minute Thesis (3MT), criada em 2008 pela Universidade de Queensland, Austrália, e realizada já desde 2011 na Universidade de Massachusetts Dartmouth, EUA, onde eu estou (detalhes sobre a competição aqui ). E foi pensando nos objetivos desse blog que resolvi participar dessa competição, pois ela faz exatamente o que tentamos fazer, falar de ciências para um público diverso. Me inscrevi pensando apenas no treino, tanto na elaboração do texto, quanto na apresentação (ainda mais sendo feita em língua inglesa), depois lógico que queria ganhar. Quem não quer ganhar $1.000,00? Infelizmente não fiquei rica no dia 29 de abril de 2015, mas como eu já esperava, foi um ótimo treino e muita divertida a competição. Foi interessante ver trabalhos de várias áreas: engenharia, artes, administração etc. Havia pessoas nervosas e pessoas que pareciam ter saído de um palco de teatro. Dá para ver alguns vídeos de anos anteriores acessando esse site . Abaixo vocês podem ler o texto que apresentei traduzido para o português. “Identificação de ovos de peixes Muitas pessoas não sabem, mas o manejo pesqueiro não é baseado apenas em dados de peixes adultos. É importante também estudar os estágios de desenvolvimento iniciais para um melhor manejo pesqueiro. Por exemplo, como a maioria dos ovos de peixes são desovados na coluna de água, saber onde estão e quando são abundantes ajuda a definir áreas e períodos de desova. Mas antes de fazer qualquer tipo de estudo sobre peixes, é necessário saber quem é quem. A identificação de ovos de peixes é difícil e requer bastante tempo.  Depois da coleta a bordo, é necessário triar todos os ovos da amostra de plâncton, usando um estereomicroscópio (uma lupa). A separação dos ovos da família (chamada Engraulidae) que eu estou estudando é fácil, pois eles apresentam formato elipsóide (ver foto do slide apresentado). O problema é em alcançar a identificação específica. Como cada grupo apresenta diferentes tamanhos e formatos, a identificação era comumente feita medindo manualmente cada ovos e então contando. No meu projeto de doutorado, eu quero analisar as flutuações de longo prazo na abundância e distribuição dos ovos de um peixe popularmente conhecido como Anchoíta, na costa brasileira. Este pequeno peixe é um importante recurso pesqueiro na Argentina e no Uruguai. No Brasil, a Anchoíta ainda não é comercialmente pescada, mas alguns estudos indicam que ela pode ser sustentavelmente pescada no sul da nossa costa. Voltando ao meu trabalho de doutorado, quando eu disse que pretendo analisar flutuações de longo prazo, eu não foquei que por longo prazo eu quero dizer 40 anos de dados, totalizando quase 2.000 amostras. Essa é uma quantidade enorme de amostras e demoraria o meu doutorado inteiro apenas para identificar todos os ovos. A solução foi criar uma metodologia mais rápida e eficiente... Então eu criei. Eu utilizei uma câmera fotográfica anexada a um esteromicroscópio para tirar fotos dos ovos e, utilizando essas fotos, eu automaticamente obtive as medidas cada ovo. Depois disso, eu criei um modelo para contar automaticamente os ovos de cada grupo. Esse novo modelo teve mais de 90% de confiabilidade e pode ser usado por qualquer pesquisador para otimizar o tempo e esforço. No final, ao invés de demorar 4 anos para identificar os ovos do meu projeto, eu identifiquei mais de 100.000 ovos de Engraulidae em apenas 1 ano, permitindo tempo suficiente para continuar com a minha pesquisa." Obrigada! Se interessou por essa metodologia? Ela já está publicada e pode ser adquirida nesse link (caso você tenha acesso ao Journal of Fish Biology) ou me pedindo por email. Até a próxima. #biologiamarinha #oceano #ovosdepeixes #peixes #janamdelfavero #ciênciasdomar

  • O “sexo” realmente importa?

    Por Jana M. del Favero Ilustração: Silvia Gonsales Uma releitura e atualizações do texto de Ben A. Barres: “Does gender matter?” (O gênero importa?), publicado na revista Nature (volume 442) em 2006. No meu primeiro post aqui no blog Desafios antigos para mulheres atuais  apresentei brevemente algumas dificuldades que as mulheres sofrem nas ciências marinhas. Mas minha pergunta neste post é: o gênero realmente importa? E foi pesquisando sobre essa pergunta que encontrei um trabalho na revista Nature escrito por Ben A. Barres, professor da Universidade de Stanford (EUA) e transgênero (mudou de mulher para homem, então segundo o próprio autor ele tem propriedade para discutir o assunto), e é a partir dessa publicação que me inspirei para esse post. Ben Barres começa seu trabalho apresentando a hipótese, cada vez mais defendida por grandes acadêmicos de que as mulheres não avançam na carreira científica por serem naturalmente menos capazes e não por discriminação ou qualquer outra razão. Eu não interpretei errado (infelizmente), mas segundo alguns pesquisadores, homens são, “em média”, biologicamente melhores em sistematizar, analisar e em competir, enquanto as mulheres não gostam de competir, não se arriscam e são muito emotivas, e isso estaria prejudicando suas carreiras (veja detalhes em: Lawrence, 2006; Mansfield, 2006). Eu particularmente compartilho da idéia do Ben Barres de que a curiosidade e a criatividade são os pilares que sustentam grandes cientistas, e não a aptidão para competição. Além disso, é comum escutarmos que homens são biologicamente melhores em matemática do que mulheres (vamos lembrar aqui que oceanografia é considerada uma ciência exata). Porém, um estudo com mais de 20.000 notas de matemática de crianças de 4 a 18 anos não mostrou diferenças entre as notas de homens e mulheres (Leahey & Guo, 2001). Então, se habilidade intelectual inata não é a culpada da morosidade do avanço das mulheres na carreira científica, o que seria? Nosso autor conta que quando “ela” (na época ele ainda era ela, então tratarei por “ela”) era uma aluna de graduação do MIT (Massachusetts Institute of Technology) “ela” era a única da sala de um monte de homens a resolver problemas difíceis de matemática, e ainda tinha que escutar do professor que provavelmente era o namorado dela que tinha resolvido. Ele lembra também de quando perdeu uma colocação para um homem, mesmo depois do diretor de Harvard ter avisado que “ela” tinha seis publicações de alto-impacto, enquanto seu concorrente apenas uma. E ainda foi obrigado a ouvir de um professor, depois da mudança de sexo, que o seu trabalho era muito melhor do que o “da sua irmã” (então mudar de mulher para homem deixa a pessoa mais inteligente? Estou confusa...).  Mas o caso do nosso autor não é um caso isolado, um estudo mostrou que mulheres aplicando para um financiamento acadêmico precisam ser 2,5 vezes mais produtivas do que os homens para serem consideradas igualmente competentes (Wenneras & Wold, 1997).  E, mesmo depois de conseguirem uma boa colocação, as mulheres ainda passam por diversas dificuldades. Lembram do caso do MIT que eu cito em meu primeiro post, em que havia uma diferença salarial entre os professores e as professoras? Ou ainda um caso ocorrido recentemente, no qual uma pesquisadora recebeu a avaliação do seu trabalho submetido a uma revista de grande impacto nas ciências biológicas, sugerindo que co-autores do sexo masculino fossem adicionados para melhorá-lo (difícil acreditar né? Veja detalhes aqui ).  Então, se a discriminação não tem nenhuma parcela de culpa na baixa representatividade de mulheres cientistas, o que poderia explicar os fatos citados acima? O que explicaria um estudo recente que relata que os professores (homens) tendem a aceitar menos estudantes do sexo feminino e pós-doutorandas em seus laboratórios,  enquanto professoras não apresentam preferências de gênero na seleção de um orientado (detalhes em Sheltzer & Smith, 2014)? Ressalto ainda que esse estudo foi feito em laboratórios de biologia, fugindo daquele mito que mulheres são piores em ciências exatas (ou somos piores em biologia também?). Mas não quero que esse post alimente a guerra dos sexos, pois como já dizia Henry Kissinger “ Nobody will ever win the battle of the sexes; there’s just too much fraternizing with the enemy ” (Ninguém nunca vencerá a batalha entre os sexos, há simplesmente muita confraternização entre os inimigos). O que eu desejo com essa postagem é mostrar que há fatos concretos de discriminação de gênero na academia, e que tanto mulheres quanto homens deveriam lutar para diminuir as diferenças existentes.  Um primeiro passo para a diminuição das diferenças seria que  ambos os sexos parassem de negar que o problema persiste. Inexplicavelmente as mulheres negam tanto quanto os homens que o viés genérico exista (Rhode, 1997). Um outro passo seria aumentar a autoconfiança do sexo feminino (o tão falado empoderamento), pois ao escutar repetitivamente que somos menos capazes que os homens, a autoconfiança diminui e a ambição é ofuscada, aumentando o número de mulheres que desistem de suas carreiras na ciência (Feels, 2004). E um terceiro passo, que é exatamente o que tentamos fazer neste blog, é conhecer e discutir o problema, pois apenas com conhecimento da causa, ela poderá ser ganha.  E então, vamos falar de sexo?! Referências: Fels, A. 2004. Necessary Dreams. Pantheon Press, New York. Lawrence, P. A. 2006. Men, Women, and Ghosts in Science. PLoS Biol. 4, 13–15. Leahey, E. & Guo, G. 2001. Gender Differences in Mathematical Trajectories. Soc. Forces. 80 (2), 713–732. Mansfield, H. 2006. Manliness. Yale Univ. Press, New Haven. Rhode, D. L. 1997. Speaking of Sex: The Denial of Gender Inequality. Harvard Univ. Press,  Cambridge. Sheltzer, J. M. & Smith, J. C. 2014. Elite male faculty in the life sciences employ fewer women. PNAS, 111 (28), 10107–10112. Wenneras, C. & Wold, A. 1997. Nepotism and sexism in peer-review. Nature 387, 341–343. #carreira #comportamento #gênero #sexo #silviagonsales #janamdelfavero #mulheresnaciência

  • A extraordinária vida associada às carcaças de baleias no mar profundo

    Por  Joan Manel Alfaro Lucas Esta história começa em 1987 quando, em uma expedição oceanográfica liderada pelo Dr. Craig Smith, da Universidade do Havaí, na Bacia de Santa Catalina, California, o submersível de pesquisa Alvin achou uma carcaça de baleia no assoalho marinho a 1240 metros de profundidade (Smith et al. 1989). Esta descoberta reforçou uma ideia que já tinha sido sugerida anteriormente... Mesmo sendo comum a morte de baleias nas zonas costeiras, muitas morrem em regiões bem afastadas das praias afundando-se até as profundezas do oceano, no que é conhecido como o mar profundo.  O mar profundo ocupa 63% da superfície do planeta sendo considerado o maior bioma da Terra. É um ambiente único e extremo, pela baixa temperatura, alta pressão e escuridão (a luz não penetra mais de 200 metros de profundidade, onde de fato começa o mar profundo). A ausência de luz impossibilita a produção de matéria orgânica a partir da energia solar, ou seja, a fotossíntese. Por causa disto os ecossistemas são muito pobres em recursos alimentares e dependem quase exclusivamente  do afundamento de matéria orgânica produzida na superfície do oceano. Por exemplo, as partes mais extensas do mar profundo, as planícies abissais, são autênticos desertos escuros e frios, onde baixíssimas abundâncias de organismos sobrevivem filtrando água e sedimento, aproveitando a pouca matéria orgânica que chega da superfície.  Voltemos para a baleia da Califórnia do Dr. Smith. Alguns indícios, como a total ausência de carne, apontavam que a carcaça  encontrava-se a vários anos no assoalho marinho. Mesmo assim, tanto o esqueleto como os sedimentos ao redor, “fervilhavam” de vida. Vermes, caramujos, lapas (gastrópodes), densos tapetes de bactérias, bivalves como amêijoas e mexilhões... Aquela carcaça era realmente um oásis de vida no profundo e deserto fundo da bacia. Foi então que os cientistas começaram a entender que para um ambiente tão pobre em alimento a chegada de uma carcaça de baleia é um evento extraordinário.  As baleias são os maiores animais que habitam a Terra. A baleia azul, por exemplo, pode atingir 30 metros de comprimento e 120 toneladas de peso, sendo o maior animal que já habitou nosso planeta. Para as desertas profundezas do assoalho oceânico as carcaças de baleia são as maiores fontes de matéria orgânica que chegam da superfície. Só uma carcaça de baleia de 40 toneladas significa 2000 anos de queda de matéria orgânica!  Alguns dos organismos achados na carcaça pelo time do Dr. Smith tornaram-se muito mais relevantes quando identificados. É o caso, por exemplo, das espécies de bivalves que pertencem a  grupos conhecidos por ter simbiose com bactérias quimiossintetizantes. Estes mexilhões, então, alimentam-se da matéria produzida por estas bactérias, um processo parecido com o que os corais de águas rasas fazem com organismos fotossintéticos. Além disso, os densos tapetes bacterianos achados na carcaça também pertenciam a este tipo de bactéria.  De fato, semelhante aos vegetais nos ambientes terrestres, as bactérias quimiossintetizantes no mar profundo formam a base da cadeia alimentar, onde a disponibilidade de certos compostos inorgânicos é abundante, originando o que é conhecido como comunidades quimiossintéticas de mar profundo. É o caso das fontes hidrotermais, formadas em partes do assoalho onde a atividade vulcânica é elevada e as exsudações são frias, resultado do fluxo de hidrocarbonetos provenientes de reservatórios do subsolo, descobertas anteriores  à carcaça do Dr. Smith (saiba mais sobre fontes hidrotermais neste post ). As espécies de bivalves associadas à carcaça também foram descobertas pela primeira vez em fontes hidrotermais e exsudações frias! Todas estas similaridades levaram a sugerir que as carcaças de baleia atuam como trampolins para habitantes comuns entre diferentes comunidades quimiossintéticas se dispersarem, pois normalmente estão separadas por distâncias gigantescas impossíveis de serem alcançadas pela dispersão de suas  larvas (Smith et al. 1989). Este descobrimento, além de revolucionar a ecologia das comunidades quimiossintéticas, levou várias equipes de cientistas a pesquisarem mais sobre estes ambientes. Para não ter que achar a agulha no palheiro, ou seja, uma carcaça no imenso fundo oceânico, os cientistas começaram a afundar carcaças nas praias utilizando lastro. Assim eles conseguiam afundar em um determinado ponto do oceano e fazer as amostragens como e quando precisar. Depois destes experimentos foi possível compreender que comunidades de carcaça de baleia no mar profundo desenvolvem não só comunidades quimiossintéticas, mas sucessivas  comunidades extremamente diversas e abundantes que exploram as carcaças de maneiras surpreendentes… por quase um século! As carcaças de baleia desenvolvem principalmente três estados ecológicos  sucessivos, ou seja, três comunidades mais ou menos diferenciadas no tempo (Smith et al., 2015). O primeiro, o estado dos necrófagos móveis, começa com a chegada da carcaça no assoalho. Centenas de animais, como peixes-bruxa, perfuram a carne da baleia enquanto que tubarões de profundidade mordem grandes pedaços da carcaça. Estas comunidades, análogas aos urubus na savana, removem várias dezenas de quilogramas por dia e podem consumir toda a carne em até 2 anos dependendo do tamanho da carcaça. O segundo estado, o estado de enriquecimento e oportunistas, também pode durar até 2 anos. Durante este período altíssimas densidades de invertebrados, vermes e crustáceos, colonizam o sedimento ao redor do esqueleto exposto por causa do consumo da carne. Estes invertebrados alimentam-se diretamente dos restos de gordura e carne deixados pelos necrófagos assim como dos ossos, muito ricos em proteína e gordura. O último estado, aquele da baleia do Dr. Smith quando descoberta, é o estado sulfofílico. Alguns microorganismos conseguem penetrar na densa e dura matriz óssea e entrar facilmente nas grandes quantidades de gordura do interior dos ossos. Estes organismos utilizam o enxofre dissolvido na água para digerir a gordura gerando compostos inorgânicos reduzidos como produto secundário. Um processo parecido pode acontecer também no sedimento ao redor impactado pela matéria orgânica da própria carcaça. Isto gera um fluxo suficiente para desenvolver uma comunidade baseada na quimiossíntese. É o estado mais longo de todos podendo atingir mais de 80 anos.  As descobertas ao redor das carcaças de baleia no mar profundo não terminaram aqui. Desde que  em 1987 o Dr. Smith estudou a primeira carcaça no mar profundo, 129 espécies novas têm sido descobertas, muitas delas só se encontram nestas comunidades. A mais surpreendente aconteceu no ano 2002 quando Osedax, um novo gênero de vermes, foi descoberto no Canyon de Monterrey, Califórnia, a 2891 metros de profundidade (Rouse et al., 2004). As espécies deste gênero são sésseis e não possuem nem boca nem ânus, nem nenhum tipo de sistema digestório… e alimentam-se dos ossos das baleias!  Osedax possui uma estrutura chamada de raiz e é lá onde encontra-se a resposta aos múltiplos mistérios que envolvem estes organismos. Esta estrutura, com ramificações globulares e que fixa o organismo nos ossos, possui bombas de prótons que acidificam a matriz óssea. A “sopa” produzida por este processo é ingerida pela própria raiz e transportada às  estruturas internas chamadas de bacteriocistos onde se encontram bactérias simbiontes não quimiossinteticas responsáveis pela digestão. Estes vermes são capazes de degradar completamente um esqueleto de baleia juvenil, menos calcificados e gordurosos que os dos adultos, em uma década. Impressionante, não é? espere…  Todas estas estruturas e forma de vida só se aplicam  às fêmeas de Osedax. Os machos são anões, microscópicos, e  vivem dentro das fêmeas atuando como simples reservatórios de esperma. Acontece que as larvas de Osedax que se encontram em um esqueleto se desenvolvem como fêmeas;  porém se estas larvas encontram uma fêmea elas são absorvidas se desenvolvendo como machos pedomórficos, ou seja, apenas se desenvolvem sexualmente e não morfologicamente, retendo muitos caracteres de larva. Cada fêmea pode ter centenares de machos no que acredita-se ser uma estratégia para  assegurar o sucesso reprodutivo. Organismos como Osedax demonstram que as carcaças de baleia não só são oásis de vida no mar profundo mas também uma fonte de novidades evolutivas, sendo capazes de sustentar formas de vida únicas e especializadas. Mas… Será que as carcaças de baleia no mar profundo sustentam comunidades parecidas em todas as bacias oceânicas? Ou, como nas fontes hidrotermais, cada bacia sustenta comunidades com histórias evolutivas diferentes? Este tipo de pergunta ainda  é muito difícil de responder pois praticamente todas as carcaças naturais e implantadas tem sido estudadas no oceano Pacífico Norte.  Só  em 2010 uma carcaça natural foi descoberta na Antarctica e, mais recentemente,  em 2013, no Atlântico Sudoeste profundo na  costa do Brasil, também foi encontrada  uma carcaça natural. Esta última, descoberta e estudada por pesquisadores brasileiros e japoneses, e tema do meu projeto de mestrado na Universidade de São Paulo,  foi a primeira comunidade a ser estudada em todo o Atlântico profundo. Os resultados  das pesquisas estão começando a sair reforçando algumas hipóteses prévias e esclarecendo ainda o funcionamento de alguns processos ecológicos… Muitas são as perguntas a serem respondidas e muitas mais serão geradas no futuro pois parece que estas extraordinárias comunidades, desconhecidas há menos de 30 anos, são uma fonte inesgotável de surpresas. Referências, links de interesse e vídeos: Smith, C.R., Kukert, H., Wheatcroft, R.A, Jumars, P.A., Deming, J.W. (1989) Vent fauna on whale remais. Nature, 341. Pp 27-28. Rouse, G.W., Goffredi, S.K., Vrijenhoek, R.C. (2004) Osedax: Bone-Eating Marine Worms with Dwarf Males. Science, 305.Pp 668-671. Smith, C.R., Glover, A.G., Treude, T., Higgs, N.D., Amon, D.J. (2015) Whale-Fall Ecosystems: Recent Insights into Ecology, Paleoecology, and Evolution. Annual Review of Marine Science, 7. Pp 571-596. Sobre Joan Manel Alfaro Lucas: Biólogo formado pela Univeristat Autònoma de Barcelona, Barcelona, fiz um ano de intercâmbio na Universidade Federal de Minas Gerais, o que me permitiu, entre outras coisas, conhecer o Brasil e aprender português. Apaixonado pela ecologia das comunidades de mar profundo, especialmente as quimiossintéticas, cursei o meu mestrado no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, onde tive a oportunidade de estudar a primeira carcaça de baleia no oceano Atlântico profundo. Além disso, possuo experiência em cruzeiros oceanográficos, tendo navegado 2800 milhas náuticas pelo Atlântico Sudoeste, fazendo amostragem, triagem e identificação de invertebrados bênticos, análise de isótopos estáveis e linguagem R para pesquisas ecológicas.  #ciênciasdomar #baleias #convidados #joanmanelalfarolucas #marprofundo #carcaçasddebaleia

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