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  • A relação de uma alga, um ciliado, uma mãe e sua filha

    Por Yonara Garcia Ilustração: Joana Ho No oceano, existe uma interessante associação entre duas espécies: a microalga planctônica Chaetoceros coarctatus e o ciliado Vorticella oceanica. Esta microalga pertence ao grupo das diatomáceas - um dos mais abundantes e ecologicamente importantes - responsáveis por aproximadamente 40% da produtividade primária marinha. Encontrado em ambientes marinhos tropicais e subtropicais, os Chaetoceros coarctatus formam cadeias, geralmente longas, com cerca de 25 a 40 células, além de possuírem setas intercalares e terminais curvadas em direção à extremidade posterior (figura A). Esta espécie de diatomácea planctônica é comumente encontrada em associação com o peritríqueo ciliado Vorticella oceanica, um organismo epibionte que se adere sobre a microalga por meio de um pedúnculo (figura B). São suspensívoros, ingerindo bactérias, fitoplâncton e detritos orgânicos, por meio de seus cílios orais. Chaetoceros coarctatus em associação com Vorticella oceanica. Foto de Yonara Garcia, licença CC BY 4.0. Em microrganismos planctônicos, a motilidade (ou seja, a capacidade do organismo se mover) está ligada a diversos fenômenos importantes, como por exemplo, a migração vertical. Para o fitoplâncton, a motilidade permite que as células se desloquem para regiões mais profundas durante a noite, onde os nutrientes limitantes são abundantes e há menor risco de predação e, durante o dia, permaneçam em águas superficiais com disponibilidade de luz. As diatomáceas não possuem estruturas que permitem seu deslocamento na coluna de água, como cílios e flagelos, fazendo com que este grupo desenvolva diversas estratégias. No caso da associação Chaetoceros-Vorticella, a motilidade ocorre, basicamente, em função da produção da corrente alimentar pelos ciliados aderidos à cadeia de microalgas, ou seja, enquanto os ciliados se alimentam ocorre o deslocamento de toda associação na coluna de água. Para os ciliados de vida livre, a motilidade é considerada aleatória, para aumentar a probabilidade de detecção de presas. Ao detectarem uma fonte alimentar por um estímulo mecânico ou químico, por exemplo, os ciliados têm a capacidade de modificar seu movimento, alterando a velocidade de natação e a direção do movimento. Assim, a locomoção em ciliados ocorre em resposta a uma combinação de estímulos abióticos e bióticos (como intensidade de luz e disponibilidade de alimento) que proporciona maior acesso a regiões com condições mais adequadas de sobrevivência. Desta forma, de acordo com estudos realizados, pode-se sugerir que a associação Chaetoceros-Vorticella permite a esta diatomácea cêntrica uma motilidade ativa na coluna de água através de sua “carona” no peritríquio ciliado, fazendo com que se beneficiem de áreas com maior disponibilidade de nutrientes inorgânicos, importantes para a produção fotossintética, além de um maior deslocamento para todos os organismos envolvidos nesta simbiose. Mas aqui você já deve estar se perguntando o porquê do título do post, qual a relação disso tudo com uma mãe e sua filha?! E aqui começamos essa viagem… Em 2019, eu engravidei. Antes de saber que estava grávida achei que estava com algum déficit de vitamina, pois me sentia tão cansada, com tanto sono e sem energia para as atividades que eu realizava normalmente. Quando descobri o motivo de todas as mudanças, comecei a associar aquele bebê, que se desenvolvia no meu útero, com um parasito. Não tinha nada de positivo para mim naquela simbiose que se iniciava, pois sugava minhas energias. Mas ao refletir, imagino que as associações que ocorram na natureza talvez comecem como um incômodo. Uma hora você está ali tentando sobreviver e do nada surge um outro ser grudado em você. Até começar a dar certo, a fazer sentido, passa por um período de adaptação. E assim foi comigo e minha filha. No início, uma parasitinha e, com o passar do tempo, nossa simbiose foi se modificando. Minha gravidez não foi muito fácil, não pelo bebê que foi bem tranquilo de modo geral, mas por todas mudanças que ocorreram na minha vida, todo o pânico de virar mãe no momento que eu não me sentia pronta profissionalmente, me sentia uma hipócrita por defender mulheres e maternidade na ciência e ao sentir todo peso disso nas costas, não consegui ir contra o sistema, me julguei, senti vergonha naquele primeiro momento, como se falar que eu estava grávida fosse um fracasso. Isso tudo contribuiu para eu não ter uma gravidez romantizada, que sempre vemos nas redes sociais. Até que chegou o dia em que a Mia nasceu. Lembro até hoje de, ao pegá-la, sentir aquela pele lisinha e quentinha, com aqueles olhinhos de jabuticaba me encarando… acho que foi ali que começou a acontecer algo diferente. E, devagar, eu fui aprendendo a amar aquele ser. Eu tive todos os dias mais lindos de Ubatuba para registrar esse meu momento, mas foi em um dia nublado, já no nono mês de gravidez, que uma querida amiga, com toda delicadeza e sensibilidade, tirou fotos lindas minha. Para mim, foi o dia perfeito. Foto de Elisa Menck. Acho que aqui nossa associação foi estabelecida. Claro que haviam dias que me sugava, como noites sem dormir, amamentação dolorosa, mas já era diferente. Assim como ocorre na associação Chaetoceros-Vorticella, quando há alguma perturbação, apesar de estabelecida a simbiose, a Vorticella abandona a cadeia de Chaetoceros e parte para nadar livremente. Ainda não se sabe se elas são capazes de se assentar em um novo substrato, mas é um recurso de sobrevivência do ciliado. Nesse caso eu não fugi, mas recorri à minha rede de apoio, que foi fundamental no meu processo. Todo esse início foi muito difícil. Parar a minha vida completamente para me dedicar a um bebê, entrar em uma pandemia, estar de volta à casa dos pais esperando toda essa onda de incertezas passar, enfrentar problemas familiares, perder pessoas e animais queridos, enfrentar questões internas, enfrentar questões que eu jamais imaginava passar… a sensação era de que 2020 nunca fosse terminar. Até que o ano de 2022 foi se desenrolando e eu fui conseguindo abrir algumas portas, com muito mais cautela, talvez um pouco de medo, mas abri. Decidi continuar a carreira acadêmica e fazer doutorado. Procurei a dedo um(a) orientador(a) que pudesse ler logo nas primeiras linhas do e-mail “Oi, eu sou mãe” e mesmo assim abrisse a porta pra mim em um sistema que ainda não está preparado para receber essa classe de pesquisadoras. Achei essa pessoa, apresentei o projeto para uma banca, passei por todo o processo que ocupou muito meu tempo naquela semana e me deixou com um caminhão de culpa por não ter tido tempo para minha filha naqueles dias. Mas era preciso. O processo acabou, e eu passei. Após enviar o último documento para a secretaria da pós-graduação, eu sentei e chorei… sequei as lágrimas e fui brincar com a Mia no jardim. Nossa associação já não é mais pesada como no início. Ela agora me dá forças, me dá leveza (não estou dizendo que seja fácil!), já não tenho mais vergonha ou medo de falar que sou mãe pra quem quer que seja. A associação Chaetoceros-Vorticella foi o objeto de estudo do meu mestrado. Eu queria entender como essa motilidade que a associação trazia para os organismos envolvidos poderia beneficiar as espécies, bem como avaliar a relevância ecológica desse comportamento. E entre as observações que tive a partir dos experimentos realizados em laboratório e de outros estudos publicados, uma é bem interessante. O comportamento natatório desta associação pode ter consequências para a agregação dos organismos no ambiente marinho, por intermédio da formação de camadas finas. Este fenômeno é comum em águas costeiras estratificadas. Em resposta a processos biológicos ou físicos, a camada é formada por aglomeração do fitoplâncton em manchas discretas na coluna de água com espessura variando de alguns centímetros a poucos metros, extensão horizontal de vários quilômetros e pode persistir por dias. Estas camadas possuem uma grande importância ecológica, já que podem representar um “hotspot” de interações biológicas, estando frequentemente associadas com alta abundância de bactérias, zooplâncton e peixes. Contudo, algumas camadas são formadas por espécies de fitoplâncton tóxicas, refletindo em menores concentrações de zooplâncton quando relacionadas às camadas adjacentes. Neste caso, a camada pode fornecer uma vantagem seletiva para estas espécies de algas, fazendo com que a camada seja vista como um refúgio contra a predação. Assim, em termos de submesoescala (escala dos movimentos que ocorrem na camada de mistura do oceano, que varia em escalas espaço-temporais da ordem de 1-10 km em períodos de poucos dias), este estudo sugeriu que o deslocamento realizado pela associação Chaetoceros-Vorticella pode contribuir para a formação de camadas finas, levando à formação de hotspots de atividade biogeoquímica e de interações tróficas. No entanto, esta hipótese necessita de validação experimental e, idealmente, de observações de campo. Além disso, em regiões oligotróficas, epipelágicas e estratificadas, a associação com Vorticella pode ser um dos fatores que garante o sucesso desta diatomácea sob condições ambientais que seriam de outra forma adversas para espécies do microfitoplâncton. A motilidade possibilita à diatomácea atingir regiões com maior disponibilidade de nutrientes e, em contrapartida, os ciliados teriam uma maior probabilidade de detectar partículas alimentares em maior concentração e ainda obter proteção contra a predação. Neste ano de 2023, eu e minha filha, que agora está com 3 anos, estamos nos mudando para Santos, São Paulo, para eu iniciar efetivamente meu doutorado na UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo). Estou com frio na barriga de me mudar para outro estado, para uma cidade que não conheço, sem minha rede de apoio diária. Mas, agora, nossa associação já está estabelecida. E se encontrarmos um oceano oligotrófico pela frente, iremos desenvolver estratégias para criar nosso próprio hotspot. A jornada não vai ser fácil, mas estou ansiosa para nadarmos juntas. #MulheresNaCiência #Plâncton #Diatomácea #Oceano #BiologiaMarinha #Maternidade #Simbiose #YonaraGarcia

  • Prazer, Bolsista CAPES

    Por Luiza Soares Arte por Luiza Soares Prazer, Sou bolsista CAPES. Talvez vocês já devam estar sabendo por aí da notícia de que eu não receberia meu salário este mês, pois a verba destinada ao pagamento de 14 mil residentes e 100 mil bolsistas CAPES foi congelada pelo atual governo. O sentimento que me definiu (e ainda define) quando soube da notícia foi de frustração. Veja bem, me mudei para São Paulo e entrei para o mestrado no Programa de Pós-Graduação do Instituto Oceanográfico da USP no início desse ano e, contrariando todas as previsões de cortes, fui selecionada para receber bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Recebo exatamente R$1500,00 mensais (o valor da bolsa para doutorado é de R$2200,00), valor esse, vale ressaltar, que não sofre reajuste desde 2013. Trabalho das 9 às 18 horas de segunda a sexta, isso quando não tenho que estender até às 19, 20, 21 horas ao chegar em casa. Ah! Muitas vezes tenho que trabalhar aos finais de semana também para cumprir prazos e demandas que não serão cumpridos sozinhos. Te falei que não recebo décimo terceiro? Pois é… Também não tenho férias, plano de saúde, muito menos segurabilidade social. Esqueci outro detalhe importante: sou contratualmente proibida de ter vínculo empregatício. Ou seja, minha renda depende exclusivamente da mísera bolsa de R$1500,00 que, por direito, eu deveria receber da CAPES. E não me entenda mal. Essa realidade é conhecida por nós, pesquisadores, desde que colocamos o pé na academia, mas isso não nos tira o direito de clamar por condições melhores e justas, concorda? Não é raro nas conversas entre colegas surgir a seguinte reclamação: “Poxa… consegui me organizar financeiramente esse mês, mas fiquei doente e gastei uma nota na farmácia que irá me fazer falta no fim do mês”. O engraçado (leia-se, trágico) é que nossa bolsa independe de organização financeira. Ela simplesmente não abarca imprevisibilidades. Ficou doente? Vai ter que gastar um dinheiro que não tem. A geladeira quebrou? Vai ter que gastar um dinheiro que não tem. Mercado caríssimo? Vai ter que gastar um dinheiro que não tem. Lazer? Esquece! Custo de vida alto em São Paulo, aluguel e contas para pagar e sua bolsa sofre ameaças de corte? Que pena, vai ter que se virar. Vivemos no limite sempre! Na manhã em que as notícias de corte pipocaram, acordei e, como de costume, fui tomar meu café da manhã. Foi fácil perceber que logo logo eu teria que fazer uma ida ao mercado. Imediatamente começou a passar pela minha cabeça planos A, B, C e D referentes a essa situação: passo todos os meus gastos deste mês no cartão de crédito, contando com o retroativo de janeiro de 2023 que talvez nunca chegue? Empresto dinheiro de familiares? Tiro dinheiro do cofrinho destinado a outros fins? Por aí vai... Acho bom enfatizar que minha situação nem é das piores. Imagine quem, além de se sustentar unicamente com a bolsa, precise sustentar um filho, a família, um ente enfermo. Imagine só quem está a quilômetros e quilômetros de distância da família e se mudou para outra cidade ou estado com o intuito de realizar sua pesquisa de Pós-Graduação e, no final do ano, quando todos já estamos esgotados, recebe mais esse golpe baixo. Sinceramente… é chutar cachorro morto. Não basta nossas condições serem precárias, nosso trabalho ser desvalorizado, precisaríamos aguentar mais essa. Graças a mobilização dos Pós-Graduandos, universidades e órgãos responsáveis afora, esse mês passaremos ilesos. Poderemos respirar aliviados. Mas e no próximo mês? Estamos assegurados? E nos próximos anos? Nosso salário continuará sem reajuste? Continuaremos vivendo no limite financeiro? Infelizmente, muitas perguntas e poucas respostas. Ainda sim, continuarei realizando a minha pesquisa da melhor forma que conseguir. Abraço forte a todos os Pós-Graduandos desse Brasil. Seguimos atentos. #VidadeCientista #BolsaCAPES #Cortes #Ciência #Pagueminhabolsa #LuizaSoares

  • Se for preciso, olhe além! Veja as possibilidades, crie a oportunidade

    Por Jéssica Matos Ilustração por Alexya Queiroz Apesar de simpatizar com a matéria de biologia no ensino médio, nunca pensei que na faculdade cursaria ela. Eu acreditava que medicina veterinária seria o meu caminho. Veterinária, era o que eu falava desde criança que eu seria. Em 2011, fui morar em Benevides, na região metropolitana de Belém/PA, e nesse período, eu me inscrevi no curso de medicina veterinária na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Uma semana antes da prova, lembro que houve um problema com a inscrição de várias pessoas e tivemos que ir até à UFRA resolver. Eu fui e, quando cheguei lá, minha paixão por aquele lugar só aumentou. Era aquilo que eu queria fazer. Chegou o dia da prova. Me informei sobre como pegar o ônibus para o local indicado, e lá fui eu em busca do meu sonho. Já dentro do ônibus, comecei a perceber que estava demorando muito, as pessoas descendo, mas nada de chegar no local da prova, e o horário já estava ficando apertado. Levantei e finalmente perguntei ao cobrador sobre onde era aquele local, e ele me falou que eu estava indo na direção contrária. Eu tinha pegado o ônibus certo, mas na direção errada. Chegamos no final da linha do ônibus. Eu não conseguia parar de chorar. O cobrador se comoveu com a minha situação e me disse pra voltar no próximo ônibus com ele e que eu não precisava pagar. Agradeci muito e voltei o caminho todo bem triste. 2012, novo ano, nova oportunidade. Entrei no cursinho pra me preparar bem. Mas dessa vez não seguiria com a medicina veterinária, iria fazer biologia. Meu pai disse que não tinha como me manter em Belém, então tive que escolher um curso que tivesse na minha cidade, e entre as opções a que eu mais me identificava era a biologia. Deu tudo certo! Passei no vestibular, fiquei imensamente feliz e foi a melhor decisão que tomei. Conheci novas pessoas, fiz novas amizades, adentrei um mundo novo. Estava muito contente com tudo. Meu tempo na faculdade foi maravilhoso até um certo momento. Entrei em um programa de mobilidade acadêmica e consegui ir para uma outra universidade pública, só que em Natal, no Rio Grande do Norte. Tive muitas experiências positivas lá, mas também tive algumas ruins, e essas me deixaram bem deprimida. Passei um ano em Natal e quando voltei no início de 2017, tive que adentrar uma turma diferente. Eu não me sentia mais a mesma. Muita coisa tinha mudado. Mas eu dei o melhor que eu podia naquela nova etapa. Em 2018, me formei com excelência, mesmo com todos os percalços pós-viagem. Mas depois disso, eu me sentia perdida, não sabia o que iria fazer da vida. Na metade de 2018 até o final de 2019, eu passei a vender cosméticos, e isso me deu um novo brilho no olhar, um recomeço. Mas não era isso que eu realmente queria fazer. Não queria deixar para trás anos de dedicação a algo que eu passei a amar. No início de 2019, fui para Salinas/PA passar um tempo com a minha mãe que mora lá. Ela mora bem em frente a uma escola de ensino fundamental e médio. Não demorou muito, falaram que eu era bióloga e que poderia somar com um projeto que eles tinham lá. Foram 3 meses intensos e felizes que vivi nesse projeto. Eu era instrutora de biologia e educação ambiental. Eu me sentia viva fazendo isso e comecei a perceber que aquilo me deixava muito feliz. Aula sobre a vida marinha com uma parte da turma do projeto na praia do Maçarico - Salinas/PA (Foto de Jéssica Matos, licença CC BY-SA 4.0). Eu estava vendo os resultados do meu trabalho e isso era melhor ainda. Minha mãe sempre disse que eu tenho jeito para ser professora. Eu também sentia isso. Mas era diferente. Eu não tinha vontade de ensinar dentro de uma sala de aula; tinha vontade de poder ensinar em qualquer lugar além de um espaço fechado. Passar pela experiência desse projeto me fez ver que haviam outras possibilidades dentro da biologia, que não era somente ser uma docente ou pesquisadora, mas que eu poderia levar meu conhecimento para além disso, de outras formas. Eu ainda não tinha muito claro o que faria. Mas a primeira coisa que pensei foi em oferecer cursos práticos que levassem as pessoas para os ambientes que estaríamos estudando. Elas aprenderiam sobre a importância de tal ecossistema e, ao mesmo tempo, estariam inseridas nele, vivenciando tudo de perto. Coloquei tudo no papel e planejei como seria. Pesquisei um provável nome que não tivesse registro ainda e me encontrei com a EcoSolux (http://www.instagram.com/eco.solux/). Chamei duas amigas que eram bem engajadas com cursos e em janeiro de 2020 começamos a empreender. Nossa primeira parada: um curso oferecido pelo próprio projeto onde tive aquela experiência que me marcou de forma positiva. Em março de 2020, fomos ministrar nosso primeiro curso em Salinas. Após a primeira aula, a pandemia chegou. A cidade parou e interditou os acessos. Minha amiga conseguiu voltar para Bragança (PA). Eu não consegui. Fiquei em Salinas por quase 4 meses. Não sabia o que seria da EcoSolux. Parecia que tinha acabado. As meninas não deixaram eu desistir. Elas me falaram que aquilo era um sonho meu, era algo que me fazia feliz. Pelo resto do ano, agora o que seria uma empresa, parou completamente. Início de 2021 - pensamos em novas estratégias, então começamos a vender produtos reutilizáveis com o intuito de minimizar o uso de plásticos descartáveis, que mal são usados e logo descartados. O foco passou a ser então a busca por soluções sustentáveis para a redução da geração de resíduos, já que há um problema imenso com a falta de gestão de resíduos no nosso município. Passamos por uma mentoria de negócios e esse foi um momento de clareza diante do negócio que estávamos colocando para funcionar. A partir dos produtos, fomos alcançando instituições de ensino, hospitais e outros projetos. Fomos estabelecendo parcerias e, hoje, estamos com vários projetos em andamento, que estão trazendo impactos socioambientais positivos para a nossa cidade. Em breve ofereceremos um serviço de assinatura de compostagem. Momento descontraído da gravação de matéria para o Festival do Rio Ouricuri (Foto de Jéssica Matos, licença CC BY-SA 4.0). Quando olho para trás, percebo que tudo que aconteceu até o dia de hoje, foi realmente necessário para que a EcoSolux existisse como é agora. Hoje eu me sinto muito feliz empreendendo dentro da área que eu não escolhi a princípio, mas que foi se tornando essencial na realização de sonhos maiores. A biologia, assim como outras áreas, podem perfeitamente entrar no mundo do empreendedorismo social, de negócios de impacto, porque elas visam buscar soluções para problemáticas socioambientais que vivenciamos no nosso cotidiano. Às vezes é necessário que a gente se permita vivenciar coisas novas, para que surjam novas oportunidades. Hoje, eu vejo que o empreendedorismo de impacto social se encaixa em qualquer lugar: dentro de uma universidade, dentro de uma escola, dentro de uma comunidade, realmente em qualquer lugar. Se existe um problema, existe uma solução a ser criada. E aí, precisamos de pessoas dispostas e com condições de correr atrás dessa resposta, e não só encontrá-la, mas transformá-la em um negócio que impacte a vida das pessoas e do ambiente em que vivemos. Sobre a autora: Formada em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará (UFPA), especialista na área de Gestão e Docência do Ensino Superior (Estácio), Fundadora e Gestora da empresa EcoSolux, associada fundadora da Associação Brasileira de Compostagem (ABCompostagem), membro do Movimento dos Focolares, membro da EcoOne, rede mundial de profissionais das ciências ambientais. Em 2021, teve seu primeiro contato com ecossistemas de inovação e empreendedorismo sustentável, participando do Programa Inova Up, iniciativa da Fundação Vale com implementação pelo Centro de Empreendedorismo da Amazônia. Atualmente, participa do Inova Amazônia, primeiro programa do Sebrae lançado com foco no desenvolvimento de negócios que visam a Bioeconomia na Amazônia. Amante das águas, sejam do rio ou do mar. Desde criança sempre gostou desse contato com a natureza. Hoje, não só valoriza as águas, como também busca proteger ela através da educação ambiental. #Convidados #VidaDeCientista #Biologia #Empreendedorismo #Bioeconomia

  • Shark: hunter or hunted?

    By Claudia Namiki English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on May 17, 2018 Illustration adapted from Joana Ho If you enjoy a good fish stew, you have likely eaten dogfish meat. Or perhaps you have seen the beautiful cuts of dogfish on display at fish markets and fishmongers. But do you know what dogfish is? Dogfish is nothing more than the name given to the meat of the sharks and rays that we eat ( in the U.S. “dogfish” refers more specifically to a family of small shark species). In other words, when we buy dogfish, it means we are going to eat sharks! Surprisingly, most people do not know this, according to a study conducted in Curitiba, Brazil, where more than half of the people said that they eat dogfish, but have never eaten ray or shark (check out the study by Bornatowski and collaborators in 2015, listed below). Shark meat being sold at a fish market in Morocco (Source: Flickr, under license CC BY-NC-ND 2.0) The problem is that there are 145 species of sharks and rays in Brazil, of which 33% are endangered. But since every species of ray or shark is sold under the name of dogfish, already cut into filets (probably so as not to scare the customers), there is no way to know exactly what is being sold. Therefore, by consuming dogfish, we may be contributing to the extinction of a species. Considering that Brazil ranks 11th in production, and first on the list of shark meat importers in the world (according to the FAO - Food and Agriculture Organization of the United Nations - report), Brazilians’ chances of contributing to this terrible end becomes quite high. The consumption of shark fins in some countries in Asia, where they are considered a delicacy and are sold for high prices, has contributed to the increase in shark fishing. The removal of valuable shark fins is called finning. Normally, after finning, the animals are cruelly thrown overboard while still alive, as the low sale price of shark meat is not worth the cost of storage. However, the practice of finning is prohibited by law in Brazil. So the fishermen store the “finned body” to be sold at a very low price, further encouraging the consumption of dogfish. Finning - Freshly removed dorsal fin from a hammerhead shark. Picture:© Jeff Rotman/jeffrotman.com . If neither the extinction of a species nor the cruelty of finning moves some people, there are other reasons to avoid eating shark meat. One of them is to preserve our own health: as top predators, sharks accumulate large amounts of heavy metals, such as mercury and lead, in a process called biomagnification (we have already talked about this subject here on the blog). When a person eats shark, they become the next consumer in the food chain and accumulate the heavy metals present in its meat (check out the references at the end of the text). Heavy metals are extremely toxic to the body, especially in large quantities, causing various health problems. The other reason is an ecological service: sharks control the growth of populations of various species, either by direct predation or by keeping them away from a certain area for "fear" of being eaten. Great white sharks may feed on other sharks, sea lions, turtles, and other charismatic megafauna. However, many shark species feed primarily on invertebrates, such as shrimp and crabs. Unfortunately, even plastic can be part of the shark's diet. There is also a filter-feeding species that feeds on plankton, the whale shark. Recently, American researchers discovered that a species of hammerhead shark (Sphyrna tiburo), feeds mainly on sea grasses when young. It is not yet known whether the young shark ingests the grass by accident when hunting other animals, or whether it is actually able to digest and feed on these vegetables. This discovery may reveal the existence of interactions in the marine food chain previously ignored by researchers (check out the the world's first salad-eating shark). Despite their reputation as bad guys, thanks to the Jaws franchise and other trash movies (in my humble opinion), humans are not a part of these animals' diet. Attacks on humans usually occur by mistake. Places with a high frequency of shark attacks are usually associated with places where sharks feed. On the urban beaches of Recife, Brazil, the high rate of shark attacks is due to a number of factors, among them the construction of the Suape Port, which destroyed the mangrove swamp where female sharks used to give birth. Without this location, the sharks began to frequent the waters of the Jaboatão river estuary, which flows into the beaches, increasing the frequency of encounters with bathers and consequently increasing the number of attacks. Researcher Dana Bethea, who devotes her life to studying sharks and rays, suggests some measures to avoid shark attacks: avoid swimming at sunrise and sunset, as sharks are most active during twilight; avoid swimming in water with poor visibility, that way the shark can see you better and won't bite you; avoid areas where sharks feed; don't swim alone; and remove jewelry before entering the water, as its glare can lead the shark to believe you are a leaping silver fish. And if you are still afraid, Dana suggests that you do not enter the water, as sharks cannot survive on dry land (lol). The fact is that while shark attacks on humans are very sad accidents, they could be prevented for the most part, and it is these large animals that are being attacked by us, with such a high frequency that we may drive them to extinction. To learn more: http://www.sciencemag.org/news/2018/01/meet-world-s-first-salad-eating-shark https://swfsc.noaa.gov/textblock.aspx?Division=FRD&ParentMenuId=87&id=959 https://mundoestranho.abril.com.br/mundo-animal/por-que-ocorrem-tantos-ataques-de-tubarao-em-recife/ https://chooseyourcurrent.org/2017/08/whats-in-a-tiger-sharks-stomach/ http://sero.nmfs.noaa.gov/shark/dana_bethea/index.html http://www.icmbio.gov.br/cepsul/images/stories/legislacao/Instrucao_normativa/2012/in_inter_mpa_mma_14_2012_normasprocedimentoscapturatubaroes_raias.pdf) Barreto, R.R., Bornatowski, H., Motta, F.S., Santander-Neto, J., Vianna, G.M.S., Lessa, R.. 2017. Rethinking use and trade of pelagic sharks from Brazil. Marine Policy, 85: 114–122. Hugo Bornatowski, Raul Rennó Braga, Carolina Kalinowski, Jean Ricardo Simões Vitule. 2015. “Buying a Pig in a Poke”: The Problem of Elasmobranch Meat Consumption in Southern Brazil. Ethnobiology Letters, 6 (1): 196-202. Luís M.F. Alves, Margarida Nunes, Philippe Marchand, Bruno Le Bizec, Susana Mendes, João P.S. Correia, Marco F.L. Lemos, Sara C. Novais. 2016. Blue sharks (Prionace glauca) as bioindicators of pollution and health in the Atlantic Ocean: Contamination levels and biochemical stress responses. Science of the Total Environment, 563–564: 282–292. Sebastián A. Lopez, Nicole L. Abarca, Roberto Meléndez C. 2013. Heavy metal concentrations of two highly migratory sharks (Prionace glauca and Isurus oxyrinchus) in the southeastern Pacific waters: comments on public health and conservation. Tropical Conservation Science, 6 (1): 126-137. Ofelia Escobar-Sánchez, Felipe Galván-Magaña, René Rosíles-Martínez. 2011. Biomagnification of Mercury and Selenium in Blue Shark Prionace glauca from the Pacific Ocean off Mexico. Biol Trace Elem Res 144:550–559. DOI 10.1007/s12011-011-9040-y. #MarineScience #Dogfish #Flake #Finning #Shark #Extinction #ClaudiaNamikiChat #JoanaHo

  • Poluição x Contaminação: uma reflexão

    Por Juliana Leonel É igual? É diferente? Depende? Existem diversas definições para os termos poluição e contaminação. Entre elas algumas se destacam por terem seu uso mais disseminado. Para contaminação temos a definição dada pela Diretiva Quadro da Estratégia Marinha da União Européia (MSFD, EU) Contaminação: substâncias (ou grupo de substâncias) que são tóxicas, persistentes e passíveis de bioacumular, e outras substâncias (ou grupo de substâncias) que levam a um certo nível de preocupação. MSFD,EU, 2008 Para poluição temos a definição dada pelo Grupo de Experts nos Aspectos Científicos da Proteção do Ambiente Marinho (GESAMP): Poluição: introdução pelo homem, direta ou indiretamente, de substâncias ou energias nos ambientes marinhos, incluindo estuários, que resulta em efeitos deletérios como prejuízo aos recursos vivos, riscos a saúde humana, impedimento de atividades marinhas (incluindo pesca), prejuízo da qualidade para o uso da água e redução de comodidades. GESAMP, 1990 Além dessas definições, os dois termos são também descritos - de forma mais simplificada - como: Contaminação: quando as concentrações de um composto, elemento, energia etc estão acima daquelas consideradas normais para o ambiente em estudo. Poluição: quando as concentrações de um composto, elemento, energia etc causam efeito deletério (= efeitos prejudiciais, nocivos, tóxicos etc) ao ambiente ou às pessoas. De uma forma geral, o primeiro refere-se mais a quantidade e o segundo aos prejuízos causados. Simples, né?! Espera… talvez não seja tão simples assim. Será que é mesmo possível garantir que a presença de uma substấncia em um ambiente não está causando nenhum tipo de dano e que o ambiente está “apenas” contaminado e não poluído? Além disso, como definimos um dano, um efeito deletério? Vamos usar alguns exemplos para ilustrar a complexidade de separar contaminação de poluição. A introdução de grande quantidade de matéria orgânica de origem antrópica levou à eutrofização de um determinado local e, consequentemente, houve mudanças na comunidade bentônica local: espécies sensíveis foram substituídas por espécies mais tolerantes e com isso ocorreu uma diminuição no número de espécies enquanto houve um aumento no número de espécies de interesse comercial. Essa mudança na estrutura e na funcionalidade desse ecossistema pode ser considerada deletéria? Sim? Não? Talvez? Na verdade depende de que forma vamos analisar isso. Apesar da perda de diversidade (efeito deletério), ocorreu também um aumento no número de espécies comercializáveis e, consequentemente, o ecossistema ficou mais produtivo para a comunidade extrativista local. Ou seja, se o efeito foi deletério ou não, depende da perspectiva com a qual a situação é analisada. Uma análise da mortalidade, mobilidade e taxa reprodutiva dos peixes de uma determinada baía não demonstrou nenhum efeito deletério associado à presença de praguicidas. Isso significa que os praguicidas não causam prejuízos à saúde dos peixes e, por isso, são contaminantes, mas não poluentes? Com essa análise só é possível dizer que os praguicidas não causaram a morte ou problema de mobilidade e reprodução nos peixes, mas não significa que eles não causam outros efeitos tóxicos que não foram detectados por essas análises. Por exemplo, eles podem gerar problemas neurológicos, imunológicos, hepáticos nos peixes ou em outras espécies dessa região. Ou seja, a não detecção de um efeito, não significa que outros efeitos não estejam ocorrendo. Viu como é difícil separar contaminação de poluição? Em vista disso, será que devemos continuar usando os termos como coisas diferentes? #Descomplicando #JulianaLeonel #Poluição #Contaminação #Impactos

  • Gorda no campo

    Por Anônima Ilustração de Caia Colla Sempre fui grande. A mais alta da turma, a de ombros mais largos, a de pernas mais grossas. Num mundo onde o padrão de beleza é ser magra (mas também não magra demais!), ser gorda é algo pelo qual eu me via pedindo desculpas. Desculpas pelo espaço que ocupo. Fui me conformando que não dava para usar minissaia como minhas amigas, a sempre sentar num sofá abraçando uma almofada para esconder as dobrinhas e que, mesmo não me achando feia, eu não era alguém desejável de estar junto ou de ser igual. Acho que meu conformismo (bem diferente de aceitação, viu?) em partes me protegeu de mim mesma. Eu estava conformada de que nunca seria pequena, mignon, então melhor focar em outras coisas. E quando digo “focar em outras coisas”, quero dizer achar outras coisas nas quais eu fosse julgada só positivamente, compensando minha “imperfeição”. Afinal, como distrair o mundo do fato óbvio e visível de que eu não caibo dentro das expectativas de como uma mulher deve ser fisicamente? Se eu for a mais estudiosa, a mais eficiente, a mais amigável, dirão que, pelo menos, tenho essas qualidades. Claro, essa não era uma escolha consciente, mas, sim, uma forma de buscar aprovação externa. A frase “gordo fazendo gordisse” me assombra! E esse pavor não é só meu. Antes deste texto eu não havia parado para pensar muito sobre a relação entre meu perfeccionismo e meu tamanho. Porém, ao procurar sobre o assunto, descobri que existem diversos estudos sobre o tema! Considerando insatisfação com o corpo, distúrbios alimentares, autoestima sexual... e um detalhe importante: a maioria voltado à percepção de mulheres, vítimas mais comuns desse tipo de pensamento. Então minha adolescência e início da minha vida adulta são indissociáveis desse meu receio de ser julgada – independente se eu estivesse em uma fase mais gorda ou mais magra. Mas, como disse, eu estava conformada e disposta a dar o meu melhor em outras áreas. Com 17 anos, entrei na faculdade para estudar oceanografia, animadíssima! Engraçado que hoje vejo pessoas dessa idade e nem acredito que eu era tão nova quando comecei. E talvez por isso, ainda carregava muitas inseguranças e limitações da adolescência. O mundo que eu conhecia era aquele das mesmas pessoas com quem passei minha vida escolar inteira. Eu tomava muito espaço desse mundo pequeno e talvez agora em um mundo maior eu não me sentisse espremida. E, aos poucos, fui realmente me acomodando. Continuava conformada (e não aceitante) com o fato/percepção de ser grande, mas acho que fui entendendo que não precisava me desculpar tanto por causa disso. Mas, vez ou outra, eu me via na situação de achar que tinha que me provar. Um momento crítico para mim foi meu início em trabalhos de campo. Estar na natureza, ao ar livre, vendo processos e fenômenos é uma das partes que mais gosto do trabalho. Tem muito perrengue, claro, e também muito aprendizado. Porém, é uma parte física do trabalho. Daí já bate aquele velho receio de ser julgada... Se eu fosse a mais devagar na trilha, se eu tivesse dificuldade subindo ou descendo de um barco, até se eu estivesse mais suada: na minha cabeça, a razão clara era porque sou gorda e estou atrapalhando, não porque sou um ser humano e é isso que acontece com quem tem um corpo da nossa espécie. Perdi algumas oportunidades de dar um mergulho gostoso depois do trabalho por vergonha de ficar de biquíni na frente dos colegas. Mas foi durante o expediente que ouvi um comentário que me marcou. Estava em um grupo grande de alunos, recém-chegados no nosso destino de campo: uma praia rural para um programa de monitoramento de 3 dias. Ficamos hospedados numa pousada e almoçávamos juntos, ansiosos para essa nossa primeira expedição. Sentei-me junto com colegas e um da mesa simplesmente solta o comentário: “Achei que você estaria de preto. Emagrece, hein! Hahaha”. Eu, a maior entre minhas amigas, fiquei paralisada. Eu estava usando uma roupa que eu julgava ser adequada para um trabalho de campo na praia, não estávamos falando sobre escolhas de vestuário ou questões de peso, nada ali indicava que eu estava buscando uma opinião sobre meu visual. Mesmo assim, uma pessoa que eu mal conhecia sentiu que seria interessante direcionar todos os olhares da mesa para mim e praticamente apontar que eu tinha gordurinhas visíveis que poderiam ser mais bem disfarçadas. Fiquei só pensando em como eu poderia diminuir e sumir de vista (se eu tivesse esse superpoder, com certeza já teria usado em outros momentos!). Para algumas pessoas pode ser só uma questão de mandar o infeliz para o inferno e seguir a vida, mas não para mim. Era aquela vozinha que morava só na minha cabeça até então sendo falada por outra pessoa, confirmando o que eu sempre soube: eu sou gorda e estou ocupando um espaço que não deveria. Talvez se outra pessoa do grupo tivesse dado essa resposta, não doeria tanto. Mas o clima foi de sorrisos amarelos. Minha impressão foi que as pessoas até se mostraram incomodadas pela minha reação de não rir, não pelo comentário em si. Mas o que poderiam falar? Numa sociedade onde comentar que alguém emagreceu é considerado um elogio incrível, eu estava recebendo uma dica “aceitável”. Além disso, o corpo feminino ainda é tratado como algo que está ali para receber opiniões alheias. E, como mulher, a gente tem martelado na nossa cabeça como devemos nos comportar e mandar alguém calar a boca com certeza não está no nosso script de boa moça. Ao mesmo tempo que esse comentário me marcou como algo triste, também me motivou a repensar essa minha insegurança. Quem era essa pessoa julgando meu corpo? Alguém preocupado com minha saúde? Que queria me deixar mais feliz? Que agregava alguma coisa com sua fala? Não. Então por que me preocupar com isso?! Passei o restante da expedição observando e registrando fauna, coletando amostras nas maiores dunas que já tinha visto, andando quilômetros no sol, sentindo o vento quente soprar e carregando minha mochila cheia de equipamentos para todo lado. Tudo só possível por conta do meu corpitcho incompreendido. Meu corpo é mais do que minhas dobrinhas. São minhas pernas que me carregam, meus braços que seguram firme, minhas costas moídas no fim de um dia cansativo. Hoje, vejo que é hora de ser mais gentil com ele, né? Você agora pode estar se perguntando: por que trazer esse assunto para um canal de divulgação científica? Como mulher, estamos constantemente nos vendo em situações nas quais precisamos nos provar e isso atravessa para dentro do nosso mundo como cientistas. Tanto a mulher cientista que se arruma com maquiagem quanto aquela que prefere não usar nada são julgadas como “arrumada demais” ou “desleixada”. A gorda que vai ao campo pode ser julgada como menos capaz. Foi inclusive aqui no Bate-Papo com Netuno onde vi pela primeira vez um relato como o meu. Na live sobre assédio entre mulheres embarcadas, havia o depoimento de uma das entrevistadas que, por conta de seu peso, ouvia de outros membros do embarque que não daria conta de descer e trabalhar no mangue, que ela iria “atolar”. Alguns meses depois, em um congresso, ouvi de uma participante outro relato que me marcou. A pesquisadora disse que ao voltar de uma campanha intensa de trabalhos em campo, sua orientadora a criticou e disse: “Esse trabalho de campo todo nem serviu para você perder um peso, né?”. Eu e essas mulheres fomos profissionais em nosso trabalho, mas mesmo assim fomos julgadas pelo nosso tamanho. Ouvimos comentários não solicitados, maldosos e que em nada colaboram para uma ciência melhor. Para mudar esse cenário, percebi que primeiro preciso reconhecer que isso é uma forma de assédio, algo inaceitável num ambiente de trabalho. Agora, busco exemplos, apoio e inspiração que me ajudem na desconstrução dos nossos padrões de beleza! Um destes é o movimento chamado body positive, que estimula a positividade sobre nosso corpo. Tenho lido mais a respeito ultimamente, buscando fazer as pazes com meu tamanho. Uma crítica comum ao movimento é que ele permitiria a aceitação de hábitos não saudáveis, promovendo obesidade e sobrepeso. Porém não se trata disso. Aliás, ter uma postura body positive me estimula a ser mais saudável, a ouvir melhor meu corpo em vez de calar tudo que ele tem a dizer. Claro que não é todo dia que acordo com a mesma resolução de amor-próprio. E tudo bem! Mas meu objetivo maior é nunca mais deixar outra pessoa me fazer sentir inferior pela visão que ela tem sobre o meu corpo. Escrever esse texto tem sido um exercício de expor muito da minha vulnerabilidade e, por isso, optei por me manter anônima. Mas sinto que esse é um assunto que precisa ser levantado, mesmo que eu não consiga ainda manter uma conversa sobre isso abertamente. Agradeço demais o espaço seguro que tenho aqui! A forma, tamanho, cor ou qualquer outra característica do seu corpo não determina sua capacidade. Ser gorda não me faz ser pior pesquisadora em campo, no laboratório, na sala de aula... E vou usar a cor de roupa que eu quiser fazendo tudo isso! #MulheresNaCiência #Anônima #Gordofobia #TrabalhoDeCampo #Feminismo #BodyPositive #TamanhoGrande

  • Planilhas, planilhas, planilhas: o caos do compartilhamento de dados

    Por Ju Leonel Uma vez li um texto que chamavam as planilhas de dados de “Caixa de Pandora”. A expressão tem origem na mitologia grega e significa um presente que parece valioso, mas que é uma maldição. Na época eu não conseguia imaginar como uma cientista poderia sobreviver sem usar planilhas e não dei muita atenção a isso. No entanto, com o passar dos anos fui entendendo melhor a mensagem por trás daquele texto e, apesar de ainda usar planilhas, o faço com muito mais cautela e atenção - e sempre que possível, dou preferência por arquivos no formato de valores separados por vírgulas (csv, comma-separated-values). As planilhas as quais me refiro aqui são aquelas usadas em softwares como Excel ou OpenOffice e que são uma ótima forma de organizar dados. Por serem fáceis de usar e editar, são usadas pelos pesquisadores; logo, também são facilmente compartilhadas. Mas, assim como nem tudo que reluz é ouro, algumas coisas que parecem organizadas, na verdade, podem ser um grande caos. A primeira coisa que precisamos considerar é que o que vemos na planilha quando ela está aberta no software com as nossas configurações pode não ser a mesma coisa que outras pessoas do outro lado do mundo vêem. As configurações pessoais de cada máquina (= computador) interferem na formatação dos dados. Como estamos muito acostumados com a nossa configuração, nem sempre nos damos conta de como isso vai afetar a organização dos dados quando compartilhamos com outras pessoas. Para isso ficar mais claro, vejamos alguns exemplos: 1. Datas Recomenda-se que pesquisadores usem o formato padrão do ISO para registrar datas (ANO-MÊS-DIA). No entanto, quando a planilha reconhece que a informação digitada é uma data, ela irá (re)formatar para qualquer que seja a configuração local. Por exemplo, se você digitar 2022-06-13, a informação será convertida para 13/06/2022, mas se digitar 2022-13-06 ou ‘2022-06-13 nada acontecerá, porque o sistema não reconhecerá como data. Ao exportar essa planilha para o formato de CSV e abrí-lo em um editor de texto (este formato é muito usado em R e Python, por exemplo), os valores podem ter mudado; e o mesmo pode acontecer se o arquivo CSV for importado de volta para o formato de planilha. Em 2020, um caso envolvendo planilhas foi bastante noticiado: 27 genes humanos tiveram que ser renomeados, porque o Excel os reconhecia como datas e mudava o nome. Por exemplo, ao invés de escrever o nome completo do gene Membrane Associated Ring-CH-Type Finger 1, os cientistas usavam MARCH1, o que prontamente era convertido nas planilhas para 1-Mar. Além disso, um estudo de 2016 indicou que um quinto dos artigos com listas de genes no material suplementar (vindos do Excel) contém conversões errôneas nos nomes de genes. 2. Formatação de Números Quando pensamos em planilhas, pensamos em números. Mas a forma como as planilhas enxergam os números não é tão simples assim. Por exemplo, quando um salinômetro nos dá o valor de 33,52 ele também nos diz que a precisão do instrumento e, consequentemente de sua medida, está na ordem de um centésimo; isso é uma informação bem importante. Ao digitarmos esse dado, um (ou os dois) número depois da vírgula pode desaparecer ou um zero pode ser adicionado depois do número dois. No entanto 33,00 é diferente de 33 assim como 33,5 é diferente de 33,50, pois eles tem precisões diferentes. Outro ponto que precisa de atenção é a separação das casas decimais e milhares usando vírgula ou ponto. Países como EUA e Reino Unido usam vírgula para separar a casa dos milhares e ponto para separar decimais. No entanto, no Brasil e países da Europa a vírgula separa as casas decimais enquanto o ponto separa os milhares. Aqui é necessário muita atenção para não ter problemas nos cálculos e conversões. 3. Formatação de caracteres Na maioria das planilhas é possível usar um conjunto de caracteres especiais específicos de um país e/ou cultura. Por exemplo, em nomes (não romanos, não-latinizados, etc) ou em unidades que usam letras gregas (por exemplo o “mu” para micrômetros). No entanto, nem todos os softwares ao lerem essas planilhas estão prontos para reconhecer um determinado grupo de caracteres e não farão a conversão de forma adequada. Uma solução é escrever "micrômetros" ao invés de usar a letra grega. A ideia desse texto não é desencorajar o uso de planilhas - talvez só um pouquinho… mas chamar atenção para os cuidados que precisam ser tomados ao usá-las e incentivar o uso de arquivos com formato csv ou de texto simples (txt). #JulianaLeonel #VidaCientista #Planilhas #Reprodutibildiade #Dados

  • Os fósseis do Araripe e sua importância para a compreensão da evolução do Atlântico Sul

    Por Maria Luiza R Coutinho Fósseis são vestígios ou restos de organismos preservados em rochas, gelo ou âmbar que viveram há mais de 11 mil anos. E para esse processo de fossilização acontecer, não é tão fácil! Existiram muitos organismos que não deixaram seu registro fóssil. Imagine quanta biodiversidade a gente nunca vai conhecer por conta disso! Mas como acontece a formação dos fósseis? Já vou adiantando que a fossilização depende de inúmeras variáveis e que não acontece da noite para o dia. Rotineiramente, quando um indivíduo morre, seu corpo serve de alimento para outros, e ocorre o processo de decomposição. Nesse caso, os tecidos moles são consumidos e, no caso de um indivíduo de esqueleto mineralizado, pode (mas nem sempre!!) ocorrer a fossilização dos ossos, conchas ou dentes. Ela se inicia através do soterramento com sedimentos finos para que todas as lacunas sejam preenchidas e preservadas. No caso de condições de rápido soterramento, pode-se evitar a decomposição dos tecidos moles e desarticulação dos ossos, formando ótimos fósseis. Então, em qualquer lugar em que o organismo morre, ele pode ser fossilizado? Não! Algumas condições ambientais podem facilitar o processo, como anoxia (lugares com oxigênio reduzido em mais de 95%), baixa energia, hipersalinidade e alta taxa de deposição de sedimentos. Após o soterramento, há um conjunto de alterações físico-químicas, onde os restos orgânicos e os sedimentos adjacentes são compactados até que ocorra a litificação, ou seja, a formação de uma rocha. Até aqui já se passaram milhares ou milhões de anos! Veja na imagem abaixo como funciona esse processo: Ilustração de como acontece o processo de fossilização em quatro momentos. No primeiro momento, temos dois dinossauros mortos sob uma depressão no solo. No segundo, houve uma ingressão de água no mesmo local, formando uma laguna. No terceiro já se passaram alguns milhares ou milhões de anos, a água secou e sob os restos dos dinossauros, foram depositadas outras camadas sedimentares. No último momento, mostra alguns pesquisadores fazendo escavações e encontrando os fósseis dos dinossauros. Fonte: Aline M. Ghilardi (CC 4.0 -BY-NC-ND) E onde os fósseis podem ser encontrados? A grande maioria dos fósseis é encontrada em bacias sedimentares. Cerca de 60% do território brasileiro é composto de bacias sedimentares, o que faz do Brasil um país com alto potencial para encontrar fósseis (confira na figura abaixo onde elas se localizam). Elas são áreas topograficamente deprimidas, onde há intensa sedimentação em estratos formando rochas sedimentares. Esses estratos, também chamados de Formações, representam as condições do paleoambiente durante o evento deposicional. Logo, são importantes para o estudo da evolução da Terra, contando a história dos inúmeros processos que levaram à atual estrutura geológica e biológica do planeta. À medida que se acumula sedimento nesses imensos “buracos”, o peso das mais novas camadas vai compactando e transformando os sedimentos em rocha e os restos de organismos que ficam entre esses sedimentos vão, então, fossilizando. Mapa de localização das bacias sedimentares brasileiras. Fonte: Aline M. Ghilardi (CC 4.0 -BY-NC-ND) Os fósseis brasileiros são considerados Bens da União de acordo com a Constituição Federal de 1988. Isso significa que são protegidos por leis, ou seja, não podem ser vendidos, devendo ficar sob guarda de instituições de pesquisa, ensino e museus e a coleta, quando feita por pesquisadores, deve ser comunicada à Agência Nacional de Mineração (ANM). Mas apesar disso, ainda há muito contrabando. Mas, agora, vamos falar um pouco sobre os fósseis da bacia sedimentar do Araripe, que fica longe do atual mar, mas que contam a história de um mar há 110 milhões de anos. Há 100 milhões de anos a América do Sul e a África já tinham se separado totalmente. No meio, nasceu o Oceano Atlântico. Mas antes de estarem totalmente separados, havia barreiras físicas que impediam a conexão entre o Atlântico Sul e o Norte. Durante os avanços da deriva continental, houveram também diversas ingressões marinhas que formavam paleolagunas de águas salobras no interior do continente. Uma delas é onde, hoje, estão as regiões do Araripe e do Cariri. Estudos realizados mostram que a transgressão marinha ocorrida durante o Mesocretáceo foi a maior dos últimos 250 milhões de anos, chegando a 300 metros acima do nível atual, atingindo o interior do continente, formando mares epicontinentais. No auge da transgressão, o mar interior conectou, temporariamente, os oceanos Atlântico Norte e Sul antes da separação total dos continentes e há muitas hipóteses de como se deu esse caminho do mar. Ilustração de como era o ambiente deposicional da Formação Romualdo na Bacia do Araripe. Fonte: Aline M. Ghilardi (CC 4.0 -BY-NC-ND) A Bacia Sedimentar do Araripe está situada no interior nordestino brasileiro, entre os estados de Pernambuco, Ceará e Piauí, sendo um dos três mais importantes sítios paleontológicos do mundo. A região guarda inúmeros fósseis de peixes (ictiólitos), insetos, dinossauros, plantas, invertebrados, pterossauros e outros. Deixa eu te contar o porquê dessa importância toda… A Formação Romualdo é a mais famosa dentre as formações da bacia por conter a maior quantidade e diversidade de fósseis com excepcional preservação. As condições para o processo de fossilização da Formação eram diferenciadas, o ambiente era super favorável: anóxico, de baixa energia e altíssima taxa de sedimentação; fazendo com que não houvesse deslocamento ou desarticulação do indivíduo após a morte. Há, também, a formação dos chamados nódulos calcários com fósseis que são muito recorrentes na Formação Romualdo. O processo de fossilização dos nódulos é conhecido como Efeito Medusa por ser super rápido, assim como o mito conta que bastava um olhar de Medusa para que tudo virasse pedra. Alguns pesquisadores afirmam que o processo acontecia em questão de horas. Veja abaixo como era o processo de formação dos nódulos: Ilustração de como acontecia o processo da formação dos nódulos calcários da Formação Romualdo. Fonte: Aline M. Ghilardi (CC 4.0 -BY-NC-ND) Muitos fósseis do Araripe contém tecidos moles preservados, como escamas, coração e músculos. Imagina aí? Esse tipo de preservação excepcional é chamada de Lagerstätten e está presente não só na Formação Romualdo, mas também na Formação Crato e é raríssima! Na imagem abaixo, podemos observar as escamas do Brannerion, um gênero de peixe que ocorria naquela região. Fóssil do gênero Brannerion (Jordan, 1919), o ictiólito da Formação Romualdo, preservado em nódulo calcário encontrado no estado de Pernambuco. Fonte: Maria Luiza R Coutinho (CC 4.0 -BY-NC-ND). O que comprova que em uma época muito antiga o Araripe foi banhado por águas marinhas são eles, os fósseis de organismos exclusivamente marinhos como braquiópodes, e também, de espécies marinhas de peixes, bivalves, foraminíferos, nanofósseis calcários e crustáceos encontrados na Formação Romualdo. Apesar de, também, haver evidências geoquímicas de pulsos marinhos anteriores na bacia. Fósseis de equinóides da Formação Romualdo. Fonte: Maria Luiza R Coutinho (CC 4.0 -BY-NC-ND). Dessa maneira, o estudo dos fósseis da bacia do Araripe serve para entendermos como se deu a evolução do oceano Atlântico, e a paleogeografia de como esse mar atingiu o Araripe é imprescindível para alcançarmos este objetivo. Foi pelo norte ou pelo sul? O Atlântico Norte atingiu o Atlântico Sul ou vice-versa? Que outros segredos esses fósseis guardam? Os fósseis do Araripe são encontrados em museus por todo o mundo. Na região existe o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens da Universidade Regional do Cariri, localizado na cidade de Santana do Cariri-CE, que dispõe de uma imensa coleção dos mais variados grupos como plantas, dinossauros, pterossauros, peixes, insetos etc. Vale a pena conhecer! Abaixo deixo vocês com uma foto do atual cenário da área da bacia e a belíssima ilustração da Formação Romualdo feita pelo paleoartista da região do Cariri, o João Eudes Ribeiro, pra imaginar esse sertão coberto de mar. Chapada do Araripe na região de Exu-PE. Foto de Ludimila Moreira (CC 4.0 -BY-NC-ND) Paleo-ambiente Romualdo: Araripemys barretoi caçando. Feita por João Eudes Ribeiro (CC 4.0 -BY-NC-ND) Conheça mais sobre o trabalho de ilustrações científicas e paleoarte do João no Instagram. Bibliografias recomendadas: Arai, M. Paleogeografia do Atlântico Sul no Aptiano: um novo modelo a partir de dados micropaleontológicos recentes. B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 17, n. 2, p. 331-351, maio/nov. 2009. Barreto, A. M. F. A paleontologia e os fósseis do Araripe pernambucano / Alcina Barreto, Aline Ghilardi e Rudah Duque; design gráfico Aline M. Ghilardi. Recife: PALEOLAB, 2016. #BaciaDoAraripe #Cretáceo #Fósseis #Paleoceanografia #MariaLuizaRCoutinho #Paleontologia #Descomplicando

  • Unidades de conservação: sem gestão são apenas “parques de papel”

    Por Jana M. del Favero As unidades de Conservação (UCs) são áreas naturais protegidas por lei, essenciais para a conservação da biodiversidade. Além de abrigar os mais diferentes ecossistemas, elas desempenham um importante papel para o bem-estar da sociedade pois em seu espaço podem ser desenvolvidas  atividades controladas de uso público, sejam de cunho científico, educativo ou recreativo. Contudo, somente a criação de unidades de conservação não é suficiente para assegurar um patrimônio natural. É necessário geri-las de modo eficaz para conservação dos recursos nelas existentes (Faria, 2004), o que seria mais ou menos equivalente a manter a sua casa arrumada, limpa e funcional. Criar unidades de conservação sem a perspectiva de implantá-las provoca inúmeros problemas regionais, prejudicando a relação das instituições mantenedoras (por exemplo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio e Fundação Florestal - FF) e da unidade propriamente dita com as comunidades locais, resultando na insatisfação regional e no desgaste do nome e imagem institucionais (Artaza-Barrios, 2007). Fonte Segundo Terborgh e Schaik (2002), uma grande fração das unidades de conservação no mundo representa os chamados “parques de papel”, ou seja, nunca foram realmente implementantadas e não há sequer diretrizes que auxiliem na gestão e manejo adequados. Visando eliminar os riscos da criação de "parques de papel" no Brasil, criou-se o Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC, um conjunto de diretrizes e procedimentos oficiais onde foram estabelecidas as categorias de manejo e suas respectivas características (detalhes sobre essas categorias aqui). De acordo com o Panorama da conservação dos ecossistemas costeiros e marinhos no Brasil (disponível aqui), no ano de 2010 foram contabilizados 222 UCs criadas nas zonas costeiras e marinhas, sendo 102 federais e 120 estaduais. Apenas 1,57% dos 3,5 milhões de quilômetros quadrados de mar sob jurisdição brasileira está sob proteção em unidades de conservação. Se aos valores estimados para a Zona Marinha forem adicionadas às estimativas para a Zona Costeira, o percentual sobe para 3,14%, que corresponde a pouco mais de 31% da meta fixada pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), que é uma comissão criada com objetivo de proteger ao menos 10% de sua área marinha e costeira. Dentre toda a costa brasileira, a região do Estado de São Paulo é a que mais sofre ações antrópicas (alterações realizadas pelo ser humano), principalmente por causa da pressão imobiliária. Além disso, o litoral de SP está cada vez mais visado devido à sua localização estratégica em relação aos grandes polos industriais do país e à conexão com sistemas portuários para importação e exportação. Destaca-se ainda o fato das descobertas de petróleo na Região do Pré-sal na Bacia de Santos atraírem não só profissionais da indústria de exploração de óleo e gás, mas também indústrias e empreendimentos rodoviários, ferroviários etc. Já dentro do Estado de São Paulo, o município de Bertioga é uma das poucas áreas ainda preservadas, mesmo estando localizado próximo a centros urbanos e no movimentado eixo Rio - São Paulo. Esta região constitui um importante corredor biológico entre ambientes marinho-costeiros, representados pela restinga e pela Serra do Mar, formando assim uma área contínua cuja proteção é fundamental para garantir a preservação dos processos ecológicos e fluxos gênicos. Assim, baseando-se na relevância biológica da área e buscando, principalmente, a preservação da mesma, em outubro de 2010 o Conselho Estadual do Meio Ambiente – Consema, após anos de discussão e de análises das diferentes propostas apresentadas por órgãos distintos, aprovou a criação de um mosaico constituído em sua maioria pelo Parque Estadual Restinga de Bertioga - PERB e por uma Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE. O PERB foi oficialmente criado pelo Decreto Estadual nº 56.500, de 9 de dezembro de 2010 (mais informações sobre o PERB aqui). E foi exatamente neste mesmo ano, em 2010, que eu estava cursando uma especialização em Gestão Ambiental no Senac e precisava fazer o trabalho de conclusão de curso (TCC). Me juntei com um grupo de mais 3 pessoas de diferentes áreas: a Bárbara Banzato - oceanógrafa, o José Augusto Auroca - sociólogo, e a Juliana Carbonari - turismóloga, e não tivemos dúvidas sobre qual área estudar, o PERB! Na época fazia-se necessária a implantação urgente de programas de gestão ambiental integrada que garantissem o pronto estabelecimento do PERB e a participação popular ativa nas questões ambientais, evitando assim a criação de mais um parque de papel. Deste modo, para contribuir com a elaboração do plano de manejo da UC em questão, realizamos um diagnóstico ambiental da área do PERB e seu entorno através de uma análise crítica do cenário atual do parque, identificando os pontos fortes e fracos da área e as possíveis ameaças e oportunidades para o parque. Utilizamos dois métodos, SWOT (sigla em inglês para Pontos Fortes, Pontos Fracos, Oportunidades e Ameaças – Strengths, Weaknesses, Opportunities and Threats) e GUT (sigla para Gravidade, Urgência e Tendência), para analisar 18 questionários obtidos através de entrevistas com pessoas-chave ligadas à criação do PERB. As principais potencialidades apontadas pelos métodos foram: abundância dos recursos naturais, localização estratégica do PERB, mosaico com diferentes UCs, bom estado de conservação de diferentes ecossistemas, preservação da área, desenvolvimento de pesquisas e potencial ecoturístico. Já as ameaças mais importantes foram: proximidade com centros urbanos, inexistência de infraestrutura, influência de rodovia federal, caça, pesca, ocupação irregular e turismo desordenado. Esquerda: Foz do rio Itaguaré / Direita: Vista aérea da região. Fotos: Adriana Mattoso. Fonte Esquerda: Foz do rio Itaguaré - Direita: Colhereiros em manguezal da região Fotos: Adriana Mattoso. Fonte O trabalho foi relevante em dois aspectos: ao representar a primeira iniciativa de análise do PERB apontando suas forças restritivas e propulsoras mais críticas que podem vir a auxiliar na gestão efetiva do parque e ao utilizar metodologias de fácil uso para analisar UCs, mostrando que elas podem auxiliar em sua gestão efetiva (o trabalho publicado pode ser obtido aqui). Hoje, fazendo uma pesquisa rápida sobre o PERB, vi que eles abriram no começo deste ano (2015) duas novas trilhas, desenvolvendo práticas do ecoturismo para fins de recreação e educação ambiental (informações aqui). Me alegrei ao ver que, ao que me parece, o PERB não será apenas mais um “parque de papel”. Bibliografias citadas: ARTAZA-BARRIOS, O.H. Análise da Efetividade do Manejo de duas Áreas de Proteção Ambiental do Litoral Sul da Bahia. Revista de Gestão Costeira Integrada, v. 7, n.2, p. 117-128. 2007. BANZATO, B. M. ; FAVERO, J. M. ; AROUCA, J. A. C. ; CARBONARI, J. H. B. . Análise ambiental de unidades de conservação através dos métodos SWOT e GUT: O caso do Parque Estadual Restinga de Bertioga. Revista Brasileira de Gestão Ambiental, v. 6, p. 38-49, 2012. FARIA, H.H. Eficácia de gestão de unidades de conservação gerenciadas pelo Instituto Florestal de São Paulo, Brasil. 2004. 401f. Dissertação (Doutorado em Geografia) – Universidade Estadual de São Paulo, 2004. TERBORGH, J.; SCHAIK, C. V. Por que o mundo necessita de parques? In: Tornando os parques eficientes: estratégias para conservação da natureza nos trópicos. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2002. #ciênciasdomar #ecossistemascosteiros #ecossistemasmarinhos #parquesdepapel #unidadesdeconservação #janamdelfavero

  • Peixes Ósseos e Cartilaginosos

    Por Gabrielle Souza Você já se perguntou qual é a diferença entre peixes e raias? Será que a raia também é peixe? E os tubarões? Essas dúvidas surgem por conta da suas particularidades na forma física, mas não pense que é só isso. Existem outras características que os diferem, porém há características que os aproximam,  e é sobre esse assunto que vamos falar hoje! Fonte: Diliff via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.5 e Albert Kok via Wikimedia Commons, Domínio Público Mas primeiramente precisamos saber o que é peixe. Todos os peixes têm um cérebro protegido por uma caixa craniana, e na região da cabeça possuem olhos, dentes e outros órgãos sensoriais. A maioria dos peixes vive na água, são vertebrados, respiram por brânquias, possuem o corpo coberto por escamas e não são capazes de regular a própria temperatura corporal. Porém, como em toda regra existem as exceções: o peixe-bruxa não é vertebrado e não possui escamas, os peixes pulmonados têm respiração pulmonar, e o atum controla, de certa maneira, a temperatura corporal. O termo peixe, além daqueles que estamos acostumados a ver no supermercado e aquários, é também utilizado para definir organismos aquáticos como raias, tubarões e lampreias. Por isso a denominação “peixe” não representa um grupo taxonômico monofilético, uma vez que um grupo taxonômico monofilético deve incluir todos os organismos que possuem ancestral comum. Para que peixes seja considerado um grupo monofilético seria necessário incluir, por exemplo, os tetrápodes, que são os animais que possuem quatro membros, incluindo você Homo sapiens! (veja a figura abaixo) Filogenia dos principais grupos de Chordata. † O táxon está extinto; grifo em vermelho representa os grupos citados nesse post (Adaptado de NELSON et al. (2016)). Os peixes pertencem ao Filo Chordata, ou seja, são animais que apresentam notocorda, uma estrutura de aspecto cartilaginoso posicionada na região dorsal e dá origem ao eixo do embrião, sendo o futuro lugar onde as vértebras daquele organismo irão se posicionar. Pertencem ao Infrafilo dos vertebrados, que  abrange aproximadamente 60.000 espécies, e possui uma organização taxonômica separada em diversas Classes. Porém apenas duas dessas Classes nos interessam neste momento: Chondrichthyes e Osteichthyes. Exemplos de peixes cartilaginosos. Da esquerda para direita: tubarão; raia; quimera; e peixes ósseos: peixe lua. Fonte Terry Goss via Wikimedia Commons, licença CC BY 2.5; Jocob Robertson via Wikimedia Commons, Domínio Público; Linda Snook/MBNMS via Wikimedia Commons, Domínio Público; Per-Ola Norman via Wikimedia Commons, Domínio Público Agora vamos falar algumas das diferenças destas classes! A Classe Osteichthyes possui duas Subclasses, denominadas de Sarcopterygii, que inclui os peixes com nadadeiras carnosas e os tetrápodes, e Actinopterygii, cujos organismos apresentam nadadeiras com raios. Os Actinopterygii, possuem as seguintes características gerais: esqueleto ósseo, pele coberta por escamas ósseas, respiram por brânquias protegidas pelo opérculo (uma placa óssea que cobre as brânquias) e possuem vesícula gasosa (antigamente denominada de bexiga natatória), órgão que auxilia na flutuabilidade dos indivíduos. Tipos de escamas: placóide e óssea (Adaptado de Bemvenuti & Fischer (2010). A Classe Chondrichthyes possui duas Subclasses denominadas de Elasmobranchii (raias e tubarões) e Holocephali (quimeras). As características gerais dessa Classe são: esqueleto cartilaginoso, corpo coberto por escamas placóides, respiração também por brânquias, mas essas não possuem a proteção dos opérculos (exceção das quimeras), não possuem vesícula gasosa e, portanto, apresentam outros mecanismos para auxiliar na flutuabilidade (por exemplo as nadadeiras peitorais largas, semi-rígidas e horizontais nos tubarões que reduzem o afundamento e o fígado grande e rico em óleo, o que diminui a densidade corporal). Uma característica que peixes ósseos e cartilaginosos possuem em comum e que todos sabemos, é que ambos além de super nutritivos, são deliciosos! Mas é importante ter cautela ao consumi-los pois muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Assim, finalizo esse post compartilhando com vocês esse guia de consumo responsável de pescados no Brasil, criado pelo pessoal da WWF. Bom apetite! Posts relacionados: Alcatrazes e seus peixes Os pequenos peixes escondidos nas poças de maré Até os peixes amam praia Como saber a idade de um peixe e outras coisas mais Referências: HICKMAN C.P.; ROBERTS, L.S & LARSON, A. 2004. Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan Editora. 846p. What is a fish? Understanding Evolution. Disponível em: . Acesso em: 05 abr. 2017. NELSON, Joseph S. et al. 2016. Fishes of the World. 5. ed. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken. 752 p. BEMVENUT, M. A. & FISCHER, L. G. 2010. PEIXES: MORFOLOGIA E ADAPTAÇÕES. Caderno de Escologia Aquática, Rio Grande- Rs, v. 5, p.1-24. #animaismarinhos #descomplicando #filochordata #peixes #peixescartilagionosos #peixesósseos #raia #tubarão #vertebrados #gabriellesouza

  • Um giro pelo oceano: entendendo o vai e vem das baleias-jubarte

    Por Daniela Abras É um desafio muito grande tentar entender os mecanismos que ocorrem no mega organismo de um animal de 15 metros de comprimento e 40 toneladas e que migra cerca de 9.000 km. As baleias-jubarte migram todos os anos entre a Antártica (onde só se alimentam) e o Brasil (onde só se reproduzem). O percurso de cerca de 4.500 km é percorrido duas vezes ao ano, no caminho da Antártica para o Brasil, em que elas gastam em torno de 2 meses de ida, e mais dois meses de volta. E se somar o tempo que elas permanecem se reproduzindo no Brasil, que dura em torno de 4 meses, são 8 sem se alimentar. É um baita jejum. Para conseguirem essa façanha, elas precisam comer muito durante os 4 meses na Antártica, e fazer um grande estoque de energia, em forma de gordura corporal. Mapa do corredor migratório das baleias-jubarte entre a região de alimentação, na Antártica e a área de reprodução, no Banco de Abrolhos, sua principal área de reprodução. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 E as baleias comem o quê? Como diria a adorável e esquecidinha Dory do filme procurando Nemo, baleias não comem peixe, comem krill. Um pequeno crustáceo, parente dos camarões, de cerca de 5 cm de comprimento, que vive e forma gigantescos cardumes. O krill é a base da teia alimentar na Antártica, em que praticamente todas as espécies dependem dele, direta ou indiretamente. Muitas espécies de peixes, focas, pinguins e baleias se alimentam exclusivamente dele. E outras, como as orcas e a foca-leopardo, se alimentam de peixes ou pinguins... Por isso, a teia alimentar da Antártica é apelidada carinhosamente, pelos cientistas, de “krill-dependente”. O Krill (Euphausia superba), principal alimento das baleias-jubarte na Antártica, forma grandes cardumes. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 Todos os anos então, as baleias-jubarte chegam à costa brasileira, e aqui permanecem entre julho e novembro. Mas tem ano que a população chega antes, e fica aqui mais tempo, e tem ano que elas chegam mais tarde e vão embora rapidinho. Alguns anos tem muito mais baleia do que  outros... E foi então que começaram a surgir as perguntas: Será que nos anos que as baleias passam mais tempo em Abrolhos, é porque elas se alimentaram melhor? Será que elas vão embora mais cedo nos anos em que a temperatura da água está mais alta? Ou será que nada disso tem influência, e é tudo uma questão de programação genética? O que será que dá o start para isso tudo acontecer? A proposta do meu mestrado foi tentar compreender os diversos mecanismos ambientais que podem influenciar na dinâmica migratória das baleias-jubarte, especialmente a disponibilidade da sua principal fonte de energia. Para isso, analisei alguns parâmetros, entre eles: fotoperíodo, temperatura da água em Abrolhos e no Mar de Scotia (que é o lugar onde elas ficam na Antártica), e disponibilidade de krill no verão, e cruzei com dados de 7 anos de avistagem de baleia-jubarte ao redor do Arquipélago dos Abrolhos, em um local chamado de “ponto fixo”. Para avistar as baleias, utilizamos um equipamento de topografia, chamado teodolito, com zoom de 30 vezes. Assim, ao longo de 5 meses as observamos diariamente e vimos que a abundância da população flutua ao longo da temporada reprodutiva: um aumento gradual em julho, pico de avistagem em agosto/setembro, e diminuição gradual, até não ter mais baleias no fim de novembro. Avistando as baleias com auxílio do equipamento teodolito, no Arquipélago dos Abrolhos. Os resultados foram mais que esperados. Nos anos com maior disponibilidade de krill, as baleias se alimentam melhor, maior é seu estoque de energia, o que possibilita que permaneçam mais tempo investindo na reprodução e mais baleias foram avistadas em Abrolhos. O contrário é válido: em anos com menos krill, vimos menos baleias e menor foi o tempo que elas ficaram por aqui. A temperatura da água não teve muita influência na migração, apenas auxiliou a indicar o momento de início da migração ou o timing migratório. Mas o resultado mais surpreendente foi em relação ao fotoperíodo (duração de luz no dia). Nunca, nenhum trabalho havia relacionado a dinâmica da migração com o fotoperíodo, talvez por que os cientistas considerassem óbvio demais. Mas, às vezes é indispensável compreender o óbvio. O fotoperíodo apresenta uma grande amplitude entre o verão (18 horas) e inverno na Antártica (6 horas); diferente de Abrolhos, em que a diferença entre o verão (13 horas) e inverno (11 horas) é bem menor. Então, como conclusão do meu trabalho, a migração das baleias-jubarte é iniciada e influenciada pela diminuição brusca do fotoperíodo quando elas estão na Antártica. Mas quando estão em Abrolhos, é a soma de 3 fatores: o fotoperíodo (que se altera bem menos em Abrolhos do que na Antártica), a temperatura da superfície do mar (que aumenta pouco, mas gradativamente ao longo da temporada reprodutiva) e a disponibilidade de krill, ou o quão bem ou mal a população se alimentou durante o verão. Foi muito difícil analisar um volume tão grande de dados, tentando interligar parâmetros ambientais tão diferentes para chegar próximo às respostas a todas aquelas perguntas. Com estes resultados, começamos a compreender a complexa dinâmica da migração e a importância do krill para a manutenção da população de baleia-jubarte que frequenta a costa brasileira. Se quiser saber mais sobre minha dissertação, entre em contato no email (daniabras@gmail.com). A população de baleias-jubarte foi quase dizimada no início do século XX, devido à caça comercial intensiva, em que a população estimada era de 25.000 e chegou a cerca de 800 indivíduos no seu pior momento. Após a moratória da caça das baleias em 1986, a nossa população se recuperou, e hoje conta com 15.000 indivíduos!!! Este ano, foi oficialmente retirada da lista de espécies brasileiras ameaçadas de extinção. Esta é uma vitória para as baleias, e para nós, que temos o privilégio de recebê-las anualmente, cada vez em maior número, em seu magnífico balé aquático. Vá conhecê-las! Elas estão aqui entre julho e novembro em grande concentração na região dos Abrolhos, mas podem ser vistas do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Quer saber mais sobre as baleias-jubarte? Visite o site do Instituto Baleia Jubarte www.baleiajubarte.org.br Baleia-jubarte saltando na região dos Abrolhos. Fonte: Bate- Papo com Netuno com licença CC BY-SA 4.0 Sobre a convidada: Daniela Abras é mineira de Belo Horizonte, formada em biologia marinha pela UFRJ, e mestre em Oceanografia pela USP. É aficionada pelo cetáceos desde seus 8 anos, quando fez um trabalho na escola sobre o tema. Durante a adolescência, já dizia que queria trabalhar com baleias e muita gente não a levou a sério. No início dos anos 90, escutou o famoso vinil com a gravação das baleias cantando da revista da National Geographic e conheceu o movimento “Save the whales” e disso partiu sua maior obstinação: estudar e proteger as baleias. Hoje é pesquisadora do Instituto Baleia Jubarte, e se dedica diariamente ao estudo deste magnífico animal. #baleias #comportamento #convidados #conservação #oceano #danielaabras #ciênciasdomar

  • Limbo acadêmico: quem nunca?

    Por Natasha Travenisk Hoff Ilustração de Luiza Soares Um desabafo sobre a vida de MAIS uma pós-doutoranda em busca do seu lugar ao sol. Sabe quando optamos pela carreira acadêmica mas há aqueles períodos de "entressafra" entre o final da graduação e a aprovação no mestrado ou entre a defesa do mestrado e o início do doutorado? A isto eu comecei a chamar "carinhosamente" de limbo acadêmico: um período de leve desespero e tensão no qual o seu futuro acadêmico e financeiro é incerto. Todos querem que este período seja o menor possível, pois as contas também precisam ser pagas nesta entressafra, certo? Mas após iniciar o estágio pós-doutoral (popularmente chamado de pós-doc) no ano passado, o termo limbo acadêmico ganhou um novo significado. No exterior, o pós-doc é considerado um "trabalho" (como se nada do que fizéssemos fosse trabalho, né? Mas isso é outra coisa...) e você assina um contrato, geralmente por tempo determinado, prorrogável por mais um ou dois anos. Muitos editais contêm, inclusive, as funções para as quais você está sendo contratado. E no Brasil, como funciona o pós-doutorado? Primeiro, não há vínculo empregatício, ou seja, você continuará a ouvir "e quando você vai parar de estudar e ir trabalhar?". Segundo, conseguir financiamento para projetos de pós-doutorado é outro processo complicado: a verba governamental está cada dia mais restrita, com muitos projetos sendo considerados aprovados, mas sem possibilidade de financiamento (lembrando que nos últimos editais do CNPq para pós-doutorado e outras modalidades, uma minoria dentre os pedidos foram contemplados com bolsa, mesmo com projetos cujo parecer fosse favorável). Então, você precisa de um projeto cheio de criatividade e inovação para ser aprovado, além de um pouco de sorte talvez. Pronto: você tem 12 meses de financiamento garantido e, talvez consiga uma prorrogação de, no máximo, mais 12 meses. E neste curto período, você tem que fazer de tudo para melhorar seu currículo para tornar viável a busca por uma vaga como docente: pesquisa, publica artigos científicos, orienta e participa de disciplinas - quando alguém te dá essa abertura -, organiza eventos, tenta participar de alguns concursos por aí e se preocupa com o prazo final que logo chega e você vai precisar entregar um relatório. Se sobreviver a tudo isso, você terá que pensar em um novo financiamento para o seu projeto ou, ainda, precisa escrever um novo projeto para outros processos seletivos. Mas, Natasha, por que razão você chama isso de limbo acadêmico? Neste curto período, enquanto tentamos de todas as formas cumprir todas as demandas e conquistar um espaço no ambiente acadêmico (a vontade era gritar "me dá uma chance!"), diferente dos graduandos, pós-graduandos, docentes e funcionários, nós não temos direito a qualquer representação oficial. Isso significa que os pós-doutorandos não têm voz na universidade, não podem lutar por condições melhores, ficam dependentes do que seus supervisores ou outros docentes permitem ou das demandas apresentadas pela comissão a qual estamos atrelados. Quando falei o termo em uma reunião de comissão estatutária do instituto no qual atuo no momento (na qual os pós-doutorandos não têm direito à representação, mesmo sendo quem mais é afetado pelas decisões ali tomadas), a reação dos docentes foi “imagina”, “não é assim, não” e coisas similares. Vale lembrar que a vida (e as cobranças) desses pesquisadores no início de suas carreiras era muito diferente daquela que experimentamos hoje e muitos, infelizmente, não levam isso em consideração. Sem voz, muitas vezes, não conseguimos experiências que nos são cobradas na disputa por vagas para docente... ficamos muitas vezes à mercê daquilo que os docentes não estão dando conta, como orientar, avaliar trabalhos e participar de alguma banca. E, muitas vezes, isso acontece de maneira informal, ou seja, o seu nome permanece na obscuridade. Agora, não posso falar em nome de outros pós-doutorandos, mas a sensação que eu tenho é de que, apesar de ter me esforçado muito durante todos esses anos, eu ainda não sou boa o bastante. Será a tal da Síndrome do Impostor? Será que meu esforço ainda não foi suficiente? Eu, que sofro de ansiedade generalizada e venho de uma relação abusiva com o meu ex-coorientador, acho sempre que não me dediquei o quanto deveria, não aprendi o tanto que deveria… Ainda tenho o NÃO muito relacionado à minha capacidade. Muitos colegas já desistiram da vida acadêmica, quer seja pela dificuldade em conseguir uma vaga como docente, quer seja por não conseguir mais financiamento para seus projetos. Outros, ainda, com todos esses “perrengues”, acabaram por descobrir outras atividades de maior rentabilidade (ou pelo menos algo mais constante), o que também não é ruim, claro. Eu sigo lutando pelo meu lugar ao sol nessa carreira que, apesar de ser sofrida, eu amo demais. Referências ou sugestão de leitura: van der Wejden, Inge; Teelken, Christine; de Boer, Moniek; Drost, Mariske. 2016. Career satisfaction of postdoctoral researchers in relation to their expectations for the future. High Educ., 72:25-40. DOI: 10.1007/s10734-015-9936-0. Ysseldyk, Renate; Greenaway, Katharine H.; Hassinger, Elena; Zutrauen, Sarah; Lintz, Jana; Bhatia, Maya P.; Frye, Margaret; Starkenburg; Tai, Vera. 2019. A leak in the Academic Pipeline: identity and health among postdoctoral women. Front. Psychol., 10:1297. DOI: 10.3389/fpsyg.2019.01297. #VidaDeCientista #PósDoutorado #VidaAcadêmica #LimboCientífico #NatashaHoff

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