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  • "Químicos para sempre" e os limites planetários

    Por Ju Leonel Definidos em 2009 pelo sueco Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo, os limites planetários têm por objetivo definir até onde o desenvolvimento humano pode operar sem causar danos irreversíveis à capacidade de regeneração da Terra. Os limites planetários são nove: 1. Mudanças climáticas 2. Integridade da biosfera 3. Mudança de uso do solo 4. Fluxos biogeoquímicos (fósforo e nitrogênio) 5. Depleção do ozônio estratosférico 6. Uso da água 7. Acidificação do oceano 8. Transporte de aerossóis atmosféricos 9. Incorporação de novas entidades Dentre eles, os quatro primeiros já foram ultrapassados, os três seguintes estão dentro da zona de segurança (por enquanto) e para os dois últimos faltam dados para saber a situação real. Representação dos Limites Planetários. Fonte: Azote - Stockholm Resilience Centre, baseada nas análises de Persson et al 2022 and Steffen et al 2015 com Licença CC BY 4.0 A incorporação de novas entidades (NE) originalmente foi nomeada de poluição química, mas posteriormente entendeu-se que o nome não representava totalmente esse limite que entende-se por: novas substấncias, novas formas de substâncias existentes ou organismos modificados por humanos, assim como substấncia de ocorrência natural - como os metais - que tiveram aumento nas suas concentrações devido às atividades antrópicas. Quantificar os limites planetários para as NE é um grande desafio, pois há muitas lacunas de dados para um grande número delas. Novos NEs estão constantemente sendo produzidos e há muitos efeitos que eles podem causar, dificultando as avaliações. No entanto, recentemente, um grupo de pesquisadores propôs que os compostos per- e polifluorados (PFAS) sejam usados para definir os limites para os NE. Os PFAS são compostos tão resistentes à degradação, tanto biótica como abiótica, que receberam o apelido de químicos para sempre. Hoje, existem mais de 10 mil compostos no grupo dos PFAS, incluindo alguns que começaram a ser produzidos há quase 80 anos. Sua presença é amplamente difundida nos mais diversos produtos: embalagens de alimentos, têxteis, materiais impermeáveis, panelas, praguicidas, maquiagem, espumas anti-chamas e muitos outros. Devido à sua alta capacidade de dispersão, por correntes atmosféricas e oceấnicas, eles são encontrados em praticamente todos os locais: do Ártico à Antártica, do topo do Everest às águas profundas do oceano. Agora voltando ao papel dos PFAS nos limites planetários… A proposta desses pesquisadores baseou-se em avaliar se as concentrações de quatro compostos do grupo dos PFAS excedem os valores considerados seguros para alguns compartimentos ambientais (água da chuva, solo e água superficial).Caso isso aconteça, pode-se considerar que eles são um perigo real para a saúde humana e que, nesse caso, o limite foi ultrapassado. Eles então avaliaram as concentrações em várias localidades para água da chuva, água potável, peixes, solos e material dragado e, infelizmente, na maioria deles os valores estavam acima dos limites aceitáveis - lembrando que muitos desses valores estão em revisão, pois estudos indicam que eles na verdade não são tão seguros assim e precisam ser menores. Até um tempo atrás, acreditava-se que, ao serem levados para o oceano, esses compostos seriam diluídos e seus perigos minimizados. No entanto, há estudos que mostram que eles podem retornar ao continente através do transporte pelos aerossóis oriundos do spray marinho. Ou seja, há uma ciclagem desses compostos que contribui para que o limite planetário seja excedido. Esse cenário é especialmente preocupante porque, com as medidas de restrição de produção e/ou uso de alguns PFAS, muitos deles continuam sendo produzidos (e outros novos sintetizados pela indústria química). Além disso, para muitos ainda faltam estudos quanto a sua toxicidade. #CiênciasDoMar #JulianaLeonel #POPs #LimitesPlanetários #PFAS

  • Plastic Free UFSC: small changes to habits, big impacts to the environment

    Check out the internationally awarded project that is changing the Federal University of Santa Catarina (UFSC) and that originated from the desire of students for a better world. By Lisiane de Liz English edit by Carla Elliff *post originally published in Portuguese on June 27, 2019 Logotype of the “UFSC Sem Plástico” (Plastic Free UFSC) project (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) Every year, tons of waste produced on land, from domestic and industrial origin, reach the ocean. Once this material is in the marine environment, depending on their type and density, they will accumulate on beaches, along the water column or on the seafloor. Thus, the biota of these compartments may be affected by the presence of this waste. This includes examples of suffocation or a false sense of fullness caused by ingesting litter, such as plastics. Moreover, solid waste like fishing nets may be responsible for imprisoning species, making it difficult for them to move and/or capture their prey. Most of the litter found in marine environments is composed of plastics, which may represent more than 90% of the materials that have been inadequately disposed of and have reached the ocean. A lack of knowledge about the damages caused by plastics, combined to the absence of responsibility for the amount of plastics that we consume (especially disposable plastic), and poor waste management are the main culprits for the excessive input of plastics in beaches and in the ocean. It was these concerns with the environmental problems caused by the irresponsible use of plastics that motivated the creation of the university outreach project “UFSC sem Plástico” (or Plastic Free UFSC). The project comprises a multidisciplinary group of undergraduate and postgraduate students from the Architecture and Urbanism, Economy, Environmental and Sanitary Engineering, Nutrition, and Oceanography courses of the Federal University of Santa Catarina (UFSC). It also has the support of Prof. Dr. Juliana Leonel, who is responsible for the project, and of the Environmental Management Coordination of UFSC. The project questions the consumption and waste disposal habits that are imposed to our society, and within the University. The campus located in the municipality of Florianópolis converges nearly 70 thousand people and has 15 cafeterias that generate an excessive daily amount of plastic waste. Moreover, the cost of disposable materials and directing waste to landfills is high for UFSC; and these expenses could be directed to other activities, such as stipends and financial aid for students. With this scenario in mind, the Plastic Free UFSC project has the objective of contributing with a reduction in the consumption of plastics and disposable materials within the University and, thus, decrease our environmental impact. We hope to erradicate straws and replace plastic items for reusable items by increasing the awareness of people through the project’s social networks and partnerships with cafeterias that support the initiative and stimulate their clients to bring their own cups. All material produced in the project is under a Creative Commons (Attribution-NonCommercial 4.0 International) license, which means that it can be used by other people and/or institutions as long as it is not for commercial uses. So feel free to use our materials as long as you cite your sources. At the end of 2018, Plastic Free UFSC participated in the Students for a Zero Waste Conference in the USA, where we received the “The Innovation Award for a Promising New Initiative”. Project participants (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) What has the project achieved? 1. During the second semester of 2018, we carried out campaigns at the Organic Produce Fair, which happens every wednesday in the central square of UFSC, with the objective of raising awareness among people to bring a reusable cup/mug for their beverages. During the period of the fair, students that participated in the project talked with the salespeople and their clients about the need to reduce our consumption of disposable plastics. Moreover, reusable cups were lent for people to drink sugarcane juice. The activity in the fair was accompanied by posts on social media to stimulate people to adopt a reusable cup/mug. 2. We carried out an awareness campaign in one of the University Restaurants (known as RUs) at UFSC, which still supplied disposable cups to their consumers. This action resulted in the elimination of the disposable cups (it is important to note that, in UFSC, every student/employee receives a reusable plastic mug when they register for their identification card). 3. The project implemented a “cup bank” at one of the cafeterias in UFSC, where people could use these cups to drink coffee, tea, juices etc. on the days they forget to bring their own. 4. We created the Aware Cafeteria Seal, which is divided into three levels. To gain the seals, the cafeterias should take on sustainable commitments, such as hide (or eliminate) disposable straws, offer reusable plates/cutlery/cups/mugs, and stimulate that clients bring their own cups to consume beverages. At the moment, two cafeterias are adapting to receive the first level of the seal. Seals for the cafeterias. From left to right: Level 1 (Seed); Level 2 (Bud); Level 3 (Tree) (provided by the project under an Attribution-NonCommercial 4.0 International license) 5. “Plastic Free UFSC Guide”: in this publication we describe how we created the project to stimulate the creation of similar ones in other universities. If you’d like to receive a copy of the guide, all you need to do is write to us at ufscsemplastico@gmail.com. 6. “Aware Student Council Manual”: this material produced by the project lists the partnerships established with the student councils, helping them to become vehicles for environmental awareness. This action has the objective of increasing awareness and generating gradual transformation within the student councils and among the undergraduates, making them responsible for their consumption and actions within the university, awakening an environmental consciousness. The student councils that participate have agreed to reduce (or eliminate) the use of disposable materials in their events, to keep a “cup bank” in their spaces, and to share the objectives of Plastic Free UFSC. If you’d like to receive a copy of the manual, all you need to do is write to us at ufscsemplastico@gmail.com. If you’d like to know more about Plastic Free UFSC, follow us on Instagram and Facebook! About Lisiane de Liz Motivated by my curiosity about the ocean, its influence in maintaining Earth’s systems and all its complexity, I chose to study Oceanography at UFSC. Though I did not live in a coastal city nor did I spend every summer in contact with the sea, when these moments happened I would always observe and listen to the sound of the oceano, trying to understand it and thinking of ways to help in its conservation. My end of term paper, as well as my Master’s degree dissertation, are in the field of Organic Geochemistry. My concerns about marine pollution due to our habits and inadequate disposal of products, mainly disposable materials, triggered my interest in increasing the awareness of people around me about the need for change. During the first year of my Master’s studies, I found people like me who were also bothered by this problem, affecting both the environment and our own university. That was when we created the Plastic Free UFSC project. #MarineScience #Plastic #EnvironmentalAwareness #UniversityOutreach #Guests

  • Fui atacada na praia: cadê nosso oceano seguro?

    Por Anônima Manhã de feriado, fui passear com o cachorro na praia. Desço minha rua, passo pelo condomínio de alto padrão que fica na beira da praia, reparo nas pessoas trabalhando em obras na rua. Atravesso o curto caminho que corta as dunas e chego na faixa de areia. Na rotina corrida do dia a dia, tenho tido cada vez menos momentos junto ao mar, então decido que o passeio não vai ser um rápido vou-lá-e-volto-correndo. Paro para tirar fotos das dunas, pois alguns dias antes um evento de ressaca deixou sinais erosivos muito interessantes, além de trazer muito lixo – penso que essas podem ser boas fotos para ilustrar uma futura aula ou palestra (estou passeando, mas não deixo de ser cientista!). Me viro de costas para as dunas para fazer uma sombra no meu celular e conseguir ver se a última foto ficou boa. Ao colocar o celular no bolso vou me virando e vejo que, a poucos passos, havia um homem chegando. Antes que eu pudesse processar muito o que estava acontecendo, ele me diz “Vem comigo ou eu te mato” e me mostra uma faca. Eu, sozinha na praia, porém não longe da “civilização”, tomei uma decisão calculada de como agir. Escapei com apenas um rasgo na blusa, mas também com muita raiva e indignação. Na guarita do condomínio, o porteiro é no máximo cordial comigo. Não pareceu estranhar demais a cena. A polícia chega e eu explico o que houve. Semanas depois, recebo da minha psicóloga um link para uma reportagem que fala que um homem foi preso a alguns quilômetros daqui. Pelas fotos, reconheço o blusão dele e o mesmo tipo de faca de serrinha que ele usou para me ameaçar. Fiquei esperando que sentiria um alívio e essa história ficaria para trás, mas não é bem assim. As cenas se repetem na minha cabeça junto das perguntas “Será que não é mais seguro ir à praia perto da minha casa? Preciso estar escoltada (por um homem) para poder ter um momento de lazer? O que dá para fazer para tornar a praia mais segura?”. Foi pensando na palavra “segura” que lembrei da Década do Oceano e sua meta de um “Oceano Seguro” e pensei que ali eu poderia pegar minha frustração e gerar transformação. Como posso ajudar?! Quero, sim, um oceano seguro! Procurei documentos que falassem desse resultado esperado, mas só encontrei informações sobre perigos naturais do ambiente marinho. Tsunamis, tempestades, afogamentos... todas questões obviamente importantes, mas que não me fizeram sentir que estou segura indo à praia. Pensei em outros instrumentos, iniciativas, projetos etc. que pudessem trazer essa temática. Não encontrei. Talvez eu não tenha encontrado nada porque quem preparou esses materiais nunca foi uma mulher que só queria caminhar tranquilamente pela praia. Talvez essa pauta tenha sido empurrada de um lado para o outro: é questão de segurança pública, então, as agendas ambientais não se metem? Refletindo sobre isso, lembrei também de conversas que já tive sobre segurança em trabalhos de campo nas ciências do mar. Segurança física por condições extenuantes, climáticas, acidentes ou outros, mas também segurança pela preservação do bem-estar daquele profissional que está em campo. Casos de profissionais sendo assaltados em campo. Lembrei da pesquisa sobre assédio em embarques, feita aqui pelo Bate-Papo com Netuno. Mulheres que chegam a desistir de suas carreiras por encontrarem um ambiente inóspito de trabalho para elas. Pensei em uma oficina recente que participei com povos indígenas e comunidades tradicionais, onde ouvi histórias de insegurança, medo, repressão e criminalização. Onde está o fórum para se discutir isso? O nosso Oceano Seguro não deveria incluir o bem-estar de quem usufrui deste espaço, já que esse é um dos inúmeros serviços ecossistêmicos prestados pelo oceano? De quem vive e tira seu sustento do mar? Esse texto é um desabafo, mas também um pedido genuíno de indicações sobre para onde essas questões podem ser levadas, discutidas e transformadas em mudanças da nossa realidade. Acho que o alívio não vai chegar, mas é um alento saber que não estou sozinha nessa busca por um oceano seguro. #MulheresNaCiência #OceanoSeguro #DécadaDoOceano #ViolênciaContraMulheres #Praia

  • Motilidade do plâncton: quando o de cima sobe e o debaixo desce

    Por Yonara Garcia O plâncton é definido, tradicionalmente, como organismos que vivem "ao sabor das águas", são organismos que vivem na coluna de água e que não possuem movimentos natatórios suficientes para vencer a força das correntes ou movimentos da água, sendo passivamente transportados no meio aquático que habitam (para saber mais sobre o plâncton clique aqui, aqui e aqui). Apesar de não conseguirem se movimentar ativamente como tubarões e baleias, a capacidade de natação dos organismos planctônicos lhes permite desempenhar diversas funções importantes em seu habitat, como a probabilidade de acasalamento, a interação presa-predador, assim como aumenta as chances de os organismos encontrarem condições adequadas de alimento, temperatura, luminosidade, entre outros. Muitos fenômenos importantes estão ligados à motilidade do plâncton marinho. Um exemplo dessas movimentações é a migração vertical diária, definida como um movimento sincronizado de certos organismos presentes na coluna de água, para cima e para baixo, durante um ciclo de 24 horas, podendo ser considerado um dos maiores movimentos diários de biomassa do planeta! O padrão mais comum é a migração dos organismos para baixo, em direção a águas mais profundas e escuras, antes do amanhecer, e para cima, em direção à superfície, ao anoitecer. Este fenômeno ocorre em pelo menos algumas espécies de todos os principais grupos de zooplâncton (incluindo espécies de água doce), e foi registrado em dinoflagelados (fitoplâncton) e em muitas espécies nectônicas, como cefalópodes e peixes. Com este deslocamento vertical, os organismos podem alcançar de dezenas a centenas de metros em poucas horas, mesmo organismos tão pequenos quanto os copépodes. Migração vertical diária - Fonte: NASA Há várias hipóteses sobre o motivo desse movimento diário, como por exemplo, neste padrão de deslocamento mais comum, os organismos permanecem em águas mais escuras durante o dia para ficarem menos vulneráveis à predação e migram para a superfície durante a noite para se alimentarem. Para indivíduos do fitoplâncton, a migração permite que as células se desloquem para regiões mais profundas e frias ao anoitecer, onde os nutrientes limitantes são abundantes e há menor risco de predação e, durante o dia, permaneçam em águas superficiais com disponibilidade de luz. O fato é: a migração vertical diária possui diversas consequências biológicas e ecológicas importantes, como o aumento da variabilidade genética em determinadas populações, auxílio na dispersão larval de diversos organismos e o aumento na velocidade com que a matéria orgânica produzida na zona eufótica é transferida para o fundo do oceano (se a gente começar a ligar os pontos, vamos perceber que ela tem relação com o ciclo do carbono, atuando no “sequestro do carbono” e, consequentemente, nas mudanças climáticas…Bota importância nisso!). Assim, a motilidade é um elemento chave para responder diversas questões ecológicas que ocorrem nos ecossistemas aquáticos. Explorar mais esse campo, entender melhor sobre os padrões natatórios dos organismos, pode nos ajudar a entender melhor fenômenos como este que ocorrem no oceano. #YonaraGarcia #BiologiaMarinha #Oceanografia #MigraçãoVertical #Motilidade #Plâncton

  • Precisamos falar sobre gestão de projetos na Academia

    Por Natasha Travenisk Hoff Se você já se atrapalhou em uma prestação de contas de projetos científicos financiados, este texto é sobre você… Quando eu estava na graduação, havia uma disciplina chamada “Projetos em Oceanografia”, na qual formamos grupos e, atuando como uma empresa de consultoria, criamos um projeto baseado em alguma demanda regional. Neste projeto, trabalhamos todas as áreas da Oceanografia, da gestão de pessoal, logística, financeira etc. Ao final do semestre, os docentes responsáveis escolhiam um dos projetos que seria aplicado no semestre seguinte. Naquele ano (2011), a chefe da Estação Ecológica Tupinambás (hoje gerida pelo Núcleo de Gestão Integrada ICMBio Alcatrazes), Kelen Luciana Leite, proferiu uma palestra no Instituto Oceanográfico da USP (IOUSP) sobre a região do Arquipélago dos Alcatrazes (São Sebastião - SP) e o quanto os gestores necessitavam de dados oceanográficos para subsidiar a elaboração do Plano de Manejo da unidade de conservação. Pronto! Ali, tivemos a ideia do nosso projeto. Sabíamos que não seria algo fácil, viabilizar um projeto na região de Alcatrazes, a 35 km de distância da costa, para uma turma de quase 30 alunos de graduação. Depois de muitas reuniões, e-mails trocados, idas e vindas, tudo ficou pronto. Mas só um projeto seria aprovado, certo? E não foi o nosso… Apesar de não termos sido selecionados, fomos convidados a realizar o levantamento de dados abióticos em Alcatrazes durante as expedições organizadas pelo ICMBio. Ou seja, além da vivência obtida durante a disciplina, pude, então, atuar pela primeira vez como oceanógrafa: participei de reuniões; ajudei na definição dos pontos amostrais em conjunto com outros docentes; fiz solicitações para uso de equipamentos, transporte e base de pesquisa; organizei o material que seria utilizado em campo; entre outras tantas demandas. Se tudo foi um mar de rosas? Nem de longe… teve estresse, choro, tomada de decisão importante (como não ir para um trabalho de campo de disciplina obrigatória e arcar com as consequências disso!), mas também houve muito incentivo, apoio e muito, muito, muito aprendizado. Os trabalhos de campo no arquipélago foram um sucesso e conseguimos contornar as falhas que surgiram. Já falei que eu era a única mulher no nosso grupo? Pois é… acabei assumindo naturalmente um papel de liderança entre nós. Foi uma das experiências mais importantes da minha vida profissional e pessoal, que me possibilitou ajudar muita gente que veio depois de mim a entender todos os processos burocráticos da logística na universidade pública, coisa que a maior parte dos nossos colegas passam longe de entender. Este levantamento de dados primários resultou em um relatório técnico para o ICMBio, meu trabalho de conclusão de curso, minha dissertação de mestrado, publicação no Bate-papo com Netuno, e, por enquanto, dois artigos científicos. Bom, e por quê contei tudo isso? A verdade é que nós, acadêmicos, não somos preparados para lidar com a gestão de projetos na graduação e nem na pós-graduação (por enquanto!), o que causa muitos desgastes e transtornos que poderiam ser evitados, além de que poderíamos estar exercendo estas atividades de forma mais eficiente! E só percebemos a necessidade de conhecimentos sobre gestão quando já estamos passando "perrengue" com algum projeto. E essa é a mesma sensação que muitas das nossas editoras aqui do Bate-papo com Netuno compartilham: que deveria haver alguém nos projetos que fosse responsável pela gestão, o que é possível mas onera ainda mais um projeto em oceanografia (que sabemos que já não é barato), isso quando há espaço nos editais para a contratação de um especialista; ou buscamos, nós mesmas, o conhecimento para lidar da melhor forma com a gestão de nossos projetos. Assim, segue a dica: se você está na graduação, participe das empresas juniores e não tenha medo de assumir cargos executivos ou a elaboração de novos projetos, busque disciplinas básicas sobre o assunto e faça, seja como aluno regular ou ouvinte; ou, ainda, procure uma pós-graduação na área (quem sabe você não se torna aquela pessoa que recebe "apenas" para gerir o projeto?). Sabe o ditado "quem não aprende pelo amor, aprende pela dor"? Então… aprenda pelo amor (se for algo que você tem vontade de aprender, pois, com certeza, será útil)! #GestãoDeProjetos #ProjetosEmOceanografia #GestãoeAcademia #VidaDeCientista #NatashaHoff

  • O comportamento natatório dos copépodes e suas respostas ecológicas

    Por Yonara Garcia Os copépodes são os animais mais abundantes em ambientes pelágicos, compreendem de 55 a 95% de todo o plâncton e apresentam os maiores valores de biomassa do mesozooplâncton (classe de tamanho dos organismos planctônicos cujo tamanho varia de 0,2-20 mm). Em ecossistemas marinhos, estes organismos constituem um grupo ecologicamente importante e são tradicionalmente considerados como o elo trófico entre os produtores primários e os consumidores secundários de níveis tróficos superiores. Além disso, participam de processos oceanográficos como bomba biológica, teia trófica microbiana, reciclagem de nutrientes e ciclos biogeoquímicos de maneira geral. Em comunidades zooplanctônicas, são comuns associações de epibiose (associação facultativa entre dois organismos: um organismo substrato - hospedeiro - e um organismo durante a fase séssil de seu ciclo de vida - epibionte -, que se fixa na superfície do hospedeiro) e parasitismo (onde um dos associados se beneficia à custa do outro). São formas de interações interespecíficas em que o hospedeiro é infestado ou infectado pelo simbionte (epibionte ou parasito), que podem apresentar consequências benéficas ou deletérias para um deles. Dentre estas relações simbióticas observadas em copépodes, destacam-se associações a bactérias como o Vibrio cholerae, protistas e outros crustáceos, como isópodes. Diversos estudos têm revelado que estas relações simbióticas podem apresentar um impacto negativo nos organismos planctônicos. Por exemplo, copépodes infestados por epibiontes podem apresentar uma redução na velocidade de natação, podendo aumentar, por sua vez, a susceptibilidade à predação, devido aos movimentos de natação e escapatória ficarem limitados. Outros estudos mostraram que copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. apresentaram uma potencial redução na fecundidade devido a redução do tamanho da vesícula seminal e do desenvolvimento do espermatóforo em machos parasitados. Copépodes parasitados pelo dinoflagelado Ellobiopsis sp. Foto: Yonara Garcia Uma forma para entender como estas associações podem estar afetando copépodes é por meio de estudos relacionados ao comportamento natatório desses organismos. Existem linhas de pesquisas que tem como objetivo descrever os padrões natatórios dos organismos e a partir desses padrões, responder perguntas relacionadas à ecologia comportamental deles, revelando aspectos como: os efeitos das relações simbióticas para os hospedeiros, percepção e aquisição de alimento, acasalamento, interações entre presa e predador, entre outros. Estes estudos envolvem técnicas de filmagem que são desenvolvidas com o uso de equipamentos ópticos conectados a programas de computadores, a fim de obter uma sequência de imagens e, assim, quantificar e qualificar o deslocamento do organismo. Assim, você pode comparar, por exemplo, organismos em simbiose com outros que não apresentam estas associações e entender o quanto elas podem estar sendo deletérias (ou não) para os hospedeiros. Diversas espécies de copépodes já tiveram seus padrões natatórios descritos na literatura e essa pode ser uma ferramenta para obtermos muitas respostas para questões ecológicas, não só a nível individual e populacional, mas também sobre como as alterações no meio podem afetar esses organismos ou ainda entender se ocorre um “efeito dominó”, já que eles fazem parte de vários processos oceanográficos como citei acima. Como você pode perceber, esses estudos abrem margem para mais perguntas, mais pesquisas. Enfim, nós estamos sempre em busca de respostas, mas o que mais fazemos é abrir cada vez mais o leque de perguntas e isso é o que torna a ciência fascinante! Quer saber mais como estes estudos podem ser feitos? Abaixo seguem algumas indicações de leitura sobre estudos relacionados ao comportamento natatório e associações simbióticas em copépodes: Bielecka, L., & Boehnke, R. (2014). Epibionts and parasites on crustaceans (Copepoda, Cladocera, Cirripedia larvae) inhabiting the Gulf of Gdańsk (Baltic Sea) in very large numbers. Oceanologia, 56(3), 629-638. Fields, D. M., & Yen, J. (1997). The escape behavior of marine copepods in response to a quantifiable fluid mechanical disturbance. Journal of Plankton Research, 19(9), 1289-1304. Strickler, J. R. (1998). Observing free-swimming copepods mating. Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Series B: Biological Sciences, 353(1369), 671-680. Van Duren, L. A., & Videler, J. J. (1995). Swimming behaviour of developmental stages of the calanoid copepod Temora longicornis at different food concentrations. Marine Ecology Progress Series, 126, 153-161. Visse, M. (2007). Detrimental effect of peritrich ciliates (Epistylis sp.) as epibionts on the survival of the copepod Acartia bifilosa. Proc Estonian Acad Sci Biol Ecol, 56(3), 173-178. #YonaraGarcia #BiologiaMarinha #Oceanografia #Plâncton #Copépodes #ComportamentoNatatório #RelaçõesSimbióticas #CiênciasDoMar

  • A importância dos metadados ou a história de como Colombo errou o caminho para as Índias

    Por Ju Leonel Metadados? O que são? Do que se alimentam? Onde habitam? Começando pelo começo... "Metadados são os dados dos dados. " "Metadados são o manual de instrução dos dados." Ok, mas o quê isso quer dizer exatamente?? Os metadados são informações que respondem às seguintes perguntas em relação a um grupo de dados: a) quem?; b) o quê?; c) quando?; d) onde?; e) por quê?; e f) como? Essas informações são guardadas, em geral, em um arquivo XML e acompanham um conjunto de dados. Qualquer editor de texto deve ser capaz de ler esse arquivo, mas o mais importante é que ele seja bem estruturado para ser lido por "máquinas". Vamos ver como isso funciona por meio de um exemplo: uma tabela de dados de salinidade, temperatura e pressão coletadas durante um cruzeiro oceanográfico usando um CTD. A princípio, pensamos que uma simples tabela com data e local de coleta, valores de salinidade, temperatura e pressão tem toda informação necessária para que esses dados possam ser usados por qualquer pessoa em qualquer local. Agora vamos nos colocar no lugar de uma pesquisadora que recebeu essa tabela e refletir sobre as perguntas que ela pode fazer: - é salinidade prática, de referência ou absoluta? - a temperatura é em Celsius ou Kelvin? - os dados de localização estão em grau/minuto/segundo ou grau/décimo de grau? Ou está em UTM e qual o datum usado? - a data está em dia/mês/ano ou mês/dia/ano? - qual a marca/modelo do CTD que coletou esses dados? Quando foi calibrado? Qual a frequência de aquisição dos dados? - os dados passaram por algum controle de qualidade e/ou pré-processamento? Qual? - qual a licença para uso e distribuição dos dados? - nome/contato da pessoa/instituição responsável pelos dados? Além dessas, MUITAS outras dúvidas podem surgir. E é aí que entra o arquivo de metadados: responder a todas essas perguntas. Um bom arquivo de metadados deve ser detalhado, confiável e bem documentado. Além disso, cada padrão de metadados segue um esquema e marcação específicos. Por exemplo, para dados de data e localização, recomenda-se o uso do padrão ISO 19115; para dados oceanográficos e climáticos recomenda-se o CF Medata Convention. Mas tudo isso parece muito trabalhoso, não? Por isso, os metadados devem ser definidos durante o planejamento do projeto e seu uso evitará muitas dores de cabeça durante e após a execução do projeto, além de colaborar para a preservação, compartilhamento e reuso dos dados. Consequentemente, irá contribuir para uma das metas da Década do Oceano: um oceano acessível e transparente. Um exemplo de mau uso de dados devido a ausência de metadados ocorreu quando Cristoforo Colombo decidiu cruzar o Atlântico em busca de uma nova rota para a Ásia: ele usou os dados do geógrafo persa Alfraganus e assumiu que a unidade de distância estava em milhas romanas (1.479 metros), quando na verdade estavam em milhas arábicas (1.800 - 2.000 m). #Metadados #JulianaLeonel #Oceanografia #Descomplicando

  • The ant and the sea

    By Juliana Leonel English edit by Lidia Paes Leme and Carla Elliff *post originally published in Portuguese on May 16, 2019 Illustration by Joana Ho No, we are not talking about a sea ant, nor are we talking about anthills at the bottom of the oceans. But yes, the ant and the sea are related. Come and find out how. The ocean is intimately connected with the actions occurring on land, and in one way or another, almost everything reaches the ocean. Products/substances we use at home, in agriculture, and in industry, will one day reach the ocean, may it be through runoff, dumping, litter, or other waste removal processes. Brazil plays an important role in supplying pulp and paper mills in several countries around the world (mainly China and countries in Europe). For this reason, our territory has extensive eucalyptus plantations which, due to its rapid growth and low planting costs, is an excellent source of raw material for these industries. However, eucalyptus plantations are a "full and tasty dish" for leaf-cutting ants that can cause total defoliation of the plants and lead them to death. Currently, to control these insects, granulated ant baits are used, Sulfluramid being the most widely used. Eucalyptus plantations in the extreme south of Bahia, Brazil (Photos by Juliana Leonel, CC BY SA) Several researchers have observed that sulfluramid, after being released into the environment, changes into other chemical compounds after a few weeks. One of them, perfluorooctanesulfonic acid (PFOS), is highly persistent in the environment and has toxic effects on the biota, including us humans. Although PFOS is classified as a Persistent Organic Pollutant (POP) by the Stockholm Convention (learn more here), of which Brazil is a signatory, every five years the country requests authorization to continue using sulfluramid. Some studies, conducted in 2012 and 2014, showed high values of PFOS in Brazilian seawater (see references listed below), which were not consistent with the industrial use of PFOS in the country. With this the question arose: would Sulfluramid be a significant source of PFOS for the coastal region of Brazil? To answer this question, researchers from the Marine Pollution and Geochemistry Laboratory (LAPOGEO Mar) at the Federal University of Santa Catarina (UFSC) work in collaboration with other national and international institutions analyzing environmental samples and laboratory experiments. Thus, for the first time, a study (see references listed below) gathered data on the use, production, commercialization, export and import of the active ingredient of sulfluramid (EtFOSA - N-ethyl perfluorooctane sulfonamide ), showing that the import of EtFOSA by Brazil increased from 30 tons in 2007 to 60 tons in 2014. The same study also evaluated the occurrence of PFOS and other perfluoroalkyl substances (PFASs) in surface waters of the Todos os Santos Bay (Bahia), where a profile of PFASs was found to correspond to the use of sulfluramid. But the question was not yet answered, because the studies suggesting the degradation of sulfluramid to PFOS only analyzed soil and/or water and none of them studied the degradation from formicide baits, which are possible sources of this substance. From this, an experiment was designed to study this degradation in soil, with and without the presence of carrots (a vegetable chosen because it is easy to grow in the laboratory, it grows fast, and it is used in human food) (see references listed below). The study concluded that in a period of less than two weeks sulfluramid was degraded to PFOS in a greater amount than previously estimated. In addition, PFOS was absorbed from the soil by the carrot, and was distributed among its peel, its interior, and its leaves. In other words, foods grown near regions where sulfluramid is used may be exposed to PFOS. Sampling materials for the study (Photo by Juliana Leonel, CC BY SA) At the same time, data generated from the analysis of samples (river, marine and groundwater, soil, leaf and sediment) from the Caravelas and Alcobaça region (extreme southern portion of Bahia, Brazil) helped to understand how the transport of sulfluramid and its degradation products can occur from the region where the substance if applied to the coast. This region was chosen because of the presence of extensive eucalyptus plantations. For example, 30.6% of the total area of the municipality of Caravelas is occupied by eucalyptus. This study allowed us to confirm the hypothesis that the use of sulfluramid in the eucalyptus plantations in Bahia is a significant source of PFOS for the coastal region. It is important to keep in mind that it is precisely in this region where the largest concentration of coral reefs in the South Atlantic Ocean is found, the Abrolhos reefs. In addition, the presence of PFOS (and other PFAs) in artesian well water was of particular concern, due to the potential for human exposure by consuming the water. Alcobaça River (extreme southern region of Bahia, Brazil) (Photos by Juliana Leonel, CC BY SA) Unfortunately, although there are studies in search of alternatives, sulfluramid is considered the most efficient method to control leaf-cutting ants in Brazil and there is no prospect of its use being banned. Studies like this one exemplify why the indiscriminate release of pesticides (there were more than 100 released in 2019 alone in Brazil) is so worrying, because once they are introduced into the environment, these compounds do not only affect the place where they have been applied and can remain in the environment for a long time (see the case of the occurrence of DDT in the Antarctic environment). Furthermore, little is known about the degradation products of most pesticides used in Brazil. Additional reading and references: Benskin, J.P., Muir, D.C.G., Scott, B.F., Spencer, C., De Silva, A., Kylin, H., Martin,J.W., Morris, A., Lohmann, R., Tomy, G., Rosenberg, B., Taniyasu, S., Yamashita, N., 2012a. Perfluoroalkyl acids in the atlantic and canadian arctic oceans. Environ. Sci. Technol. 46, 5815–5823. González-Gaya, B., Dachs, J., Roscales, J.L., Caballero, G., Jimenez, B., 2014. Perfluoroalkylated substances in the global tropical and subtropical surface oceans. Environ. Sci. Technol. 48, 76–84. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016a. Is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctane sulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 653–659. Gilljam, J.L., Leonel, J., Cousins, I.T., Benskin, J.P., 2016b. Additions and correction to is ongoing Sulfluramid use in South America a significant source of perfluorooctanesulfonate (PFOS)? Production inventories, environmental fate, and local occurrence. Environ. Sci. Technol. 50, 7930–7933. Zabaleta, I., Bizkarguenaga, E., Nunoo, D.B.O., Schultes, L., Leonel, J., Prieto, A., Zuloaga, O., Benskin, J.P., 2018. Biodegradation and uptake of the pesticide sulfluramid in a soil/carrot mesocosm. Environ. Sci. Technol. 52, 2603–2611. Nascimento, R. A., Nonoo, D. B. O., Bizkarguenaga, E., Schults, L., Zabaletab, I., Benskin, J. P., Spanó, S., Leonel, J. (2018). Sulfluramid use in Brazilian agriculture: A source of per- and polyfluoroalkyl substances (PFASs) to the environment. Envirom. Pol. 242, 1436-1443 #MarineScience #MarinePollution #POPs #Pesticides #ChatJulianaLeonel #JoanaHo

  • Você já sobreviveu a um concurso?

    Por Ju Leonel Ilustração de Luiza Soares Isso mesmo, não é sobre ser aprovada ou não... é sobre ter sobrevivido a esse processo desgastante tanto físico como emocionalmente (e também financeiramente), que nos suga e nos conduz até nossos limites... Não estou falando de ultramaratona ou treinamento para ser astronauta ou subir o Everest, mas de concurso público para professor de ensino superior. Um processo que geralmente só tem uma vaga disponível, mas dezenas (ou até centenas) de inscritos e que envolve uma maratona de provas escritas, apresentações, dar aula e arguições... e que pode se prolongar por semanas. Apesar de haver diferença no processo seletivo entre universidades/departamentos, há alguns rituais que se repetem: - antes mesmo de chegar a data da seleção tem o processo de documentar o currículo; não importa se seu artigo está na Nature, se não tiver uma cópia em papel dele anexada ao seu currículo (CV), ele não vale de nada... e essa regra se aplica para tudo e qualquer coisa que estiver no seu currículo. Então, não jogue fora nada sem antes escanear e ter cópia em 3 HDs, 2 nuvens virtuais e mandar para seus 7 diferentes endereços de e-mail! Além do CV, tem que escrever o memorial, e que coisa bizarra é escrever algo sobre você mesma tentando exaltar seus feitos enquanto a Síndrome da Impostora bate forte dizendo ao pé do ouvido "Amiga, ninguém liga que você foi convidada para palestrar no congresso mais importante da sua área, isso foi sorte porque você conhecia os organizadores e não competência". Sem falar que o memorial implica em relembrar toda a sua caminhada, quando às vezes têm coisas que a gente quer esquecer e não falar nem na terapia. Por fim, mas não menos trabalhoso, tem o plano de trabalho: que linhas de pesquisa pretende desenvolver (e como fazer isso enquanto nossa ciência é sucateada), projetos que irá executar (tirando dinheiro sabe-se lá de onde), disciplinas que irá ministrar, projetos de extensão que conduzirá e tudo que você acha que irá fazer uma vez contratada. Digo aqui "acha que" porque, depois de contratada, você irá passar mais tempo em reuniões infindáveis e desnecessárias do que pesquisando/ensinando. Ufa... Calma que agora vem o concurso em si: - prova escrita: comumente, no edital são indicados uns 10 tópicos e destes 1 ou 2 serão sorteados no dia da avaliação. Depois os candidatos têm de 4-5 horas para escrever tudo(!) o que sabem sobre o tema. E haja tinta de caneta e reza para que a nossa senhora da ortopedia nos proteja de câimbras e tendinites; - quem sobreviveu até aqui vai para a prova didática: a candidata sorteia um dos tópicos do edital e tem 24 horas para preparar uma aula de 40-50 minutos. Fora a pressão psicológica de não usar 1 minuto a mais ou 1 minuto a menos, tem aquela sensação agradabilíssima (#sqn) de falar para uma sala de aula que não existe enquanto 3 avaliadoras te encaram e olham profundamente como se fossem um comendador da morte e quisessem sugar a sua alma (claro que há exceções e algumas bancas tentam não encarar tanto); Agora acabou? Não!!! - mais um dia e mais um sacrifício ao altar da academia nessa jornada em busca de ocupar um espaço na docência: a apresentação do memorial e do plano de trabalho seguido de uma arguição que nem sempre é conduzida de forma ética e responsável. Infelizmente, aqui há casos de perguntas (quase) inacreditáveis como: "Se contratada, você pretende engravidar?" (sim, é ilegal perguntar isso, mas nem por isso deixam de perguntar); "Seu marido está ok com a mudança de cidade?" (aproveita e já chama o marido para checar se ele autorizou mesmo a esposa a fazer o concurso); "Isso que você propôs é inviável de ser realizado" (geralmente vem da pessoa que não sabe nada sobre a área do projeto proposto); "Só 235 publicações? Isso é muito pouco para um docente de uma instituição federal, precisa publicar mais" (também costuma vir do avaliador que não tem nem 1/5 dessa produção). Nesse momento é cansaço físico, é cansaço emocional, é cansaço psicológico, é desespero financeiro (afinal muitos concursos são em outras cidades e aí é passagem+hotel+alimentação a ser paga e vários dias sem trabalhar com muitas horas de trabalho a serem repostas)... Mas ainda precisamos esperar o resultado que sai igual escola de samba: abrem-se os envelopes selados e a nota de cada etapa para cada concorrente é adicionada em um tabela projetada na parede para todos acompanharem. Soma-se a isso vários dias convivendo com pessoas (algumas muito simpáticas, mas outras nem tanto) que também querem aquela vaga tanto quanto você. Entendeu agora porque não é sobre ser aprovada ou reprovada, mas sobre sobreviver? Nós já tivemos um desabafo pessoal sobre concursos publicado aqui no Bate-Papo com Netuno. Se esse tema te interessa, não deixe de ler o post A exaustão de quem busca uma vaga de professora universitária. #VidaDeCientista #Concurso #CarreiraAcadêmica #Universidade #Professor #JulianaLeonel #LuizaSoares

  • Afinal, como são os ‘recifes’ amazônicos?

    Por Nicholas Vale Ilustrado por Joana Ho Os recifes amazônicos têm sido tema de discussão na comunidade científica e na sociedade por sua significativa biodiversidade e pela necessidade de um planejamento da conservação e exploração sustentável. Localizados na Margem Continental Amazônica (MCA), que engloba a parte oceânica das bacias Foz do Amazonas e Pará-Maranhão, representam uma das principais fronteiras de conhecimento no contexto global. Ressalta-se que a bacia Amazônica é a maior do mundo e o rio Amazonas é responsável por aproximadamente 20% da descarga global fluvial no oceano, produzindo uma descarga de sedimentos de aproximadamente 10 x 106 t.ano-1. Portanto, é uma área onde não se esperava que houvesse ambientes recifais, devido ao grande aporte de sedimentos terrígenos na plataforma ao longo do tempo, o que impediria, em teoria, o crescimento de organismos fotossintetizantes. Até o final do século XX, o estado do Maranhão era considerado o limite norte para a ocorrência de recifes coralíneos no Brasil. Contudo, em 2014, a coleta de material por dragagem e rede de arrasto durante expedição oceanográfica a bordo do navio da Marinha do Brasil (NHo Cruzeiro do Sul) permitiu a caracterização primária de ‘recifes’, bancos de rodolitos e macróides ao longo da Margem Continental Amazônica A. Os resultados dessa expedição foram publicados nas renomadas revistas científicas Science Advanced e Journal of South American Earth Science - JSAMES. O pesquisador brasileiro Rodrigo Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), juntamente com um grupo de pesquisadores, evidenciou a importância biológica dessas formações em uma publicação na revista Science em 2016, confirmando a ocorrência de um extenso sistema carbonático em um gradiente de condições singulares regidas pela pluma do rio Amazonas ao longo do tempo e do espaço. Em julho de 2017, integrantes da Rede Abrolhos vinculados a diversas instituições brasileiras (Inst. de Pesq. Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Univ. Fed. do Espírito Santo, Univ. Fed. do Rio de Janeiro e Univ. Fed. de São Paulo), em parceria com instituições internacionais (Woods Hole Oceanographic Institution, Dalio Philanthropies/OceanX Initiative e The BBC), realizaram outra expedição na Margem Continental Amazônica. Desta vez, a bordo do R/V Alucia (Figura 1), o foco foi a porção externa e quebra da plataforma, a fim de avançar na caracterização de estruturas e fundos recifais entre 70 e 378 m de profundidade através de mapeamento acústico, coleta de amostras e obtenção de imagens e vídeos em alta resolução com ajuda de submersíveis tripulados. Figura 1: R/V Alucia navegando na Margem Equatorial Brasileira próximo à pluma do rio Amazonas em Julho/2017. Piloto e pesquisador (Gilberto M. Amado Filho/ in memoriam) à bordo do submersível tripulado utilizado nas coletas (Fonte: Fernando Moraes/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0) O avanço das explorações permitiu que a então aluna de mestrado da UFRJ, Laís Araújo, em conjunto com outros pesquisadores, definisse a área das formações carbonáticas (cerca de 42.699 km2) ao longo da Margem Continental Amazônica (Figura 2) e avaliasse a extensão espacial das atividades econômicas que impactam a biodiversidade e o funcionamento desses ecossistemas - (por exemplo, pesca, exploração de petróleo e gás, mineração). Os resultados desse estudo foram publicados na revista científica Marine Policy. Em março de 2022, outro trabalho relevante sobre essas estruturas, identificadas como recifes mesofóticos na foz do rio Amazonas, foi publicado na Marine Geology, destacando aspectos sobre sua distribuição espacial, estrutura interna e o contexto no qual se desenvolveram a partir do Último Máximo Glacial. Figura 2: Mapa da Plataforma Continental Brasileira destacando as formações carbonáticas ao longo da Margem Continental Amazônica (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0) Quando falamos em recifes mesofóticos, consideramos aqueles ambientes com profundidades superiores a 30 m, no qual observamos comunidades bentônicas compostas predominantemente por corais escleractíneos, algas vermelhas (do filo Rhodophyta, conhecidas como algas calcárias/coralináceas) e espécies associadas, particularmente esponjas, que estão distribuídas entre 30-150 m de profundidade em regiões tropicais e subtropicais. São ambientes pouco conhecidos porque os estudos eram limitados até recentemente pela falta de tecnologia ou, quando existe disponibilidade da tecnologia apropriada (por exemplo, veículos operados remotamente -ROV- e submersíveis tripulados), seu uso é bastante custoso. Por isso, a compreensão acerca do potencial de acreção vertical dos recifes mesofóticos e os fatores que controlam seu início, crescimento e desaparecimento, de modo geral, ainda são bastante limitados. Na Margem Continental Amazônica, uma série de afloramentos rochosos são ocupados por comunidades bentônicas incrustantes. A transição entre a plataforma externa e a quebra da plataforma no setor Norte, onde recebe maior influência da pluma do rio Amazonas, traz consigo estruturas proeminentes de alto relevo, onde os topos destas feições estão entre 110-165 m de profundidade. A composição interna e a datação por carbono 14 (com idades entre 14 e 16 mil anos) das amostras sugerem que essas formações originaram-se durante um período de nível do mar mais baixo, através da erosão dos arenitos Pleistocênicos. Os depósitos carbonáticos e siliciclásticos acumulados no topo dessas feições durante o Último Máximo Glacial e deglaciação precoce foram gradualmente submersos pela elevação do nível do mar e pelo afundamento da plataforma. As superfícies dessas estruturas (Figura 3) são colonizadas por algas calcárias, pequenas algas verdes (Chlorophyta) e esponjas (principalmente espécies finas e incrustantes, mas algumas com grandes crostas em forma de copo), algumas das quais são produtoras de carbonato de cálcio e contribuem com a produção de uma fina camada de sedimento (grãos siliciclásticos aprisionados em esqueleto de organismos incrustantes) cuja capacidade de acreção é negligente. Os cnidários associados incluem hidróides, corais negros e octocorais, juntamente com briozoários, grandes ascídias coloniais e foraminíferos bentônicos. Figura 3: Imagens obtidas com submersível tripulado a 120 m de profundidade no setor Norte da Margem Continental Amazônica (no extremo norte do estado do Amapá) mostrando uma comunidade bentônica crescendo ativamente na superfície das estruturas recifais, com destaque para as algas calcárias (representada pela coloração rosa) (Fonte: Paulo Salomon/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0) Os ‘recifes’ amazônicos do setor Central, em frente à foz do rio Amazonas, estão associados ao acúmulo de sedimentos do rio e carece de uma ruptura na plataforma. Em profundidades entre 50 e 80 m, ocorre extensos bancos de rodolitos onde as algas coralinas são os principais componentes (Figura 4). Possui idades relativamente recentes e mostram dois períodos de crescimento, sendo uma mais antiga, cerca de 1300 anos, e outra mais recente, entre 1000 e 600 anos. Sugerindo períodos de soterramento devido ao fluxo de sedimentos, com posterior exumação e retomada no seu crescimento, segundo avaliado no trabalho publicado por Nicholas Vale em 2018, no JSAMES. Figura 4. Aspecto geral do banco de rodolitos a 80 m de profundidade no setor Central da MCA (em frente à foz do rio Amazonas). Note a dominância de algas calcárias vivas (coloração vináceas) (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0). Levantamentos acústicos entre 200 e 1.100 m de profundidade realizados a bordo do Alucia em 2017 revelam a presença de dois cânions, mas o submersível só foi capaz de operar até uma profundidade máxima de 380 m. Uma comunidade de vida diferente nas superfícies de rochas Pleistocênicas expostas e unidas foi registrada a 260 m de profundidade (Figura 5). Desprovidas de algas calcárias, possui cobertura esparsa de esponjas, corais negros, gorgônias, serpulídeos, estrelas do mar, lírios marinhos e estrelas frágeis. Figura 5: Aspecto geral dos afloramentos a 260 m de profundidade no setor Central da Margem Continental Amazônica (em frente à foz do rio Amazonas) com visão mais aproximada mostrando fraturas paralelas alongadas e pequenos organismos bentônicos crescendo na superfície. (Fonte: Fernando Moraes/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0). O setor Sul é menos influenciado pela pluma do rio e inclui uma plataforma mais rasa e um cânion proeminente. Um extenso banco de rodolitos ocorre entre 23-55 m de profundidade, onde as algas calcárias coralinas são os principais componentes (ver artigo no JSAMES). A quebra da plataforma é bem definida com um aumento significativo da inclinação a cerca de 225 m de profundidade. Já os afloramentos rochosos mapeados a 180 m de profundidade carregam uma comunidade mesofótica coberta por manchas esparsas de algas calcárias e esponjas vivas (Figura 6), algumas com a estrutura esquelética preservada como molde em cimento carbonato que favorece o acúmulo de um depósito fino (< 2mm de espessura) de bioclastos, areia de quartzo e lama sobre o substrato rochoso. Enquanto a composição interna apresenta algas calcárias, pequenos e grandes foraminíferos bentônicos e planctônicos, e briozoários como os principais componentes bioclásticos; e esponjas, equinodermos, corais, bivalves, gastrópodes, cracas e serpulídeos como componentes em menores proporções. A análise do radiocarbono em amostras coletadas neste setor apresentaram idades entre 23 e 28 mil anos, indicando que a rocha que forma o substrato dos 'recifes' provavelmente se formou em águas rasas e potencialmente com alguma entrada de sedimentos terrígenos, considerando o baixo nível do mar naquela época, a taxa de subsidência da plataforma e a presença de grãos siliciclásticos na sua composição (18%). Figura 6: O fundo do mar entre 180-225 m de profundidade no setor Sul da Margem Continental Amazônica (em frente o estado do Maranhão) apresenta transições verticais íngremes em platôs estreitos e com sedimentos arenosos no assoalho marinho e uma comunidade bentônica viva composta por algas calcárias (coloração rosa) e esponjas (coloração amarela). (Fonte: Rodrigo Moura/Rede Abrolhos com Licença CC BY-SA 4.0). Portanto, os ‘recifes’ ao longo da plataforma externa na Margem Continental Amazônica são tipicamente bancos de rodolitos e rochas antigas erodidas, colonizadas por organismos incrustantes durante o Último Máximo Glacial e posterior deglaciação formando uma camada carbonática, que agora suporta uma comunidade mesofótica capaz de prosperar em substratos duros sob influência moderada da pluma do rio Amazonas. Os resultados obtidos recentemente fornecem descrições detalhadas desses ambientes e representam uma contribuição para alterar a percepção geral de que a Amazônia brasileira se restringe aos grandes rios, à floresta e sua fauna, uma vez que o ecossistema amazônico se estende pelo Oceano Atlântico, onde, além de proporcionar vultuoso sequestro de carbono, condiciona um sistema recifal ímpar. Adicionalmente, um maior conhecimento sobre o papel desses ambientes recifais mesofóticos nos ecossistemas bentônicos é importante para dar apoio aos programas de planejamento espacial marinho, o que poderia levar a uma utilização mais sustentável desses habitats. Para saber mais: Araújo, L.S., Magdalena, U.R., Louzada, T.S., et al. 2021. Growing industrialization and poor conservation planning challenge natural resources’ management in the Amazon shelf off Brazil. Marine Policy, 128: 104465. DOI: 10.1016/j.marpol.2021.104465. Coles, V.J., Brooks, M.T., Hopkins, J., et al. 2013. The pathways and properties of the Amazon River Plume in the tropical North Atlantic Ocean. Journal of Geophysical Research: Oceans, 118: 6894– 6913. Documentário: Earth’s Great Rivers - Amazon. BBC. Disponível em: https://www.bbc.co.uk/programmes/. Moura, R.L., Amado-Filho, G.M., Moraes, F.C., et al. 2016. An extensive reef system at the Amazon River mouth. Science Advanced, 2: e1501252. DOI: 10.1126/sciadv.1501252. Nittrouer, C.A., DeMaster, D.J., 1996. The Amazon shelf setting: tropical, energetic, and influenced by a large river. Continental Shelf Research, 16(5): 553–573. Vale, N.F.L., Amado-Filho, G.M., Braga, J.C., et al. 2018. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth. Journal of South American Earth Science, 84: 149-159. DOI: 10.1016/j.jsames.2018.03.014. Vale, N.F.L., Braga, J.C., Moura, R.L., et al. 2022. Distribution, morphology and composition of mesophotic ‘reefs’ on the Amazon Continental Margin. Marine Geology, 447: 106779. DOI: 10.1016/j.margeo.2022.106779. Sobre o autor: Biólogo, Doutor em Botânica pelo Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro e em Ciências da Terra pela Universidad de Granada (Espanha). Atualmente integro o Núcleo Operacional de Análise Ambiental de Imagens Marinhas (NOAA-IM) como Analista Ambiental da empresa Ambipar, contribuindo para a minimização dos impactos da atividade de E&P de petróleo e gás natural sobre ambientes marinhos sensíveis. Possuo experiência nas áreas de Oceanografia Biológica e Botânica Marinha, atuando principalmente nos seguintes temas: caracterização da biodiversidade marinha, estrutura e dinâmica de bancos de rodolitos e evolução paleoecológica de plataformas carbonáticas, com foco na determinação do papel dos organismos construtores na estruturação de formações coralíneas na Plataforma Continental Brasileira. nicholasdovale@gmail.com. #CiênciasDoMar #RecifesAmazônicos #RecifesMesofóticos #AlgaCalcária #PlataformaCarbonática #RecifesCoralinos #BancoDeRodolitos #Convidados

  • The little fish hidden in tide pools

    By Marina Brenha-Nunes English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on July 4, 2016 This story begins in the Araçá Bay, which is a tidal flat located in São Sebastião, on the northern coast of São Paulo. This flat remains almost entirely uncovered during low tide, but at high tide, it is home to large numbers of fish and rays, which enter the plain to feed and reproduce. The tidal flat is next to the Port of São Sebastião, which expands into the bay area. Scientists from various fields are studying this area in order to serve as a model for other sites that need to develop a management and local development plan. When working with coastal fish, it is very common to collect them during high tide, mainly for two reasons: the first is that at high tide there are more fish close to shore; the second is that many collecting techniques work to capture as many fish as possible in a given area. These techniques include trawling, using a motor boat, and the “picaré” net (beach seining) (see more about fish and beaches here). During an afternoon of intense work collecting fish at high tide in the Araçá Bay, Professor Carmen Rossi-Wongtschowski (my supervisor), who was observing and supervising everything, noticed that when the tide was going down, some water bodies remained isolated, disconnected from the sea, by the sandy/muddy beach. She also observed that there were many fish living in these pools, and that the samples taken at high tide were not capturing these animals, which also belonged to the study site of Araçá. We talked and talked... we decided that my master's project would be to study the fish that inhabited these bodies of water in the Araçá Bay. Actually, there are already studies with fish that inhabit these bodies of water, which are called tide pools. However, we realized that in Araçá there were two types of tide pools, sandy and rocky. Observing this difference, we began to suspect that this fact could bring variation in the species and abundance of fish that lived in the two types of pools. So that is what we did, we identified which and how many species were present in each type of pool. Sandy pool - Example of a sandy pool used for fish collection in the Araçá Bay. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) Rocky pool - Example of a rocky pool used for fish collection in Araçá Bay. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) After reviewing the literature on fish in tide pools, we found that most studies were on rocky pools, with no studies dedicated to sandy pools. This fact caught our attention - why are there no studies on other kinds of pools? We clearly identified two types of pools in the same place, however there were no references that "enlightened" us as to how to collect fish in sandy pools. So, off we went! We developed a protocol for collecting fish from sandy pools that should meet some basic requirements: (1) be reproducible for sandy pools found anywhere on the planet; (2) be relatively low cost, especially so that researchers in developing countries (like Brazil) could replicate the procedure without major financial hardships; (3) it had to be a quick collection, because the tide pool ceases to be a pool from the moment it connects with the rest of the ocean with the rise of the tide, and this takes an average of 3 to 4 hours. So, in order to contribute to the project that was being developed in the Araçá Bay, which was to identify the largest number of fish of various sizes that lived in Araçá, we built a net with mosquito netting, but adapted to catch fish!!! “Picaré” (beach seining) with mosquito netting - Use of Picaré built with mosquito netting in a sandy pool in the Baía do Araçá. (Photograph by Marina Brenha-Nunes, CC BY-SA) Although sandy pools are more labor intensive to collect in the field than rocky pools, mainly due to their enormous size and the short working time available, we were able to achieve a level of 89% capture efficiency with the procedure developed! In other words, if there were 100 fish living in a sandy puddle, we would be able to catch 89 of them. And this is great, because it shows that our protocol was efficient and can be replicated by other researchers, and even improved! Regarding the species found, we identified some different species between the two types of pools. For example, in the sandy ones we captured many individuals of the Brazilian silverside (Atherinella brasiliensis), Mojarra (species of the genus Eucinostomus sp.), the Darter goby (Ctenogobius boleosoma - which inhabits places with a light bottom), and the Ladyfish (Elops saurus). On the rocks, we basically captured species that have adaptations to tolerate the conditions of a tidal pool, such as high temperatures and salinity, decreased water levels, and oxygen, as was the case of the Frillfin goby (Bathygobius soporator - which inhabits sites with darker bottoms and burrows in crevices in the rocks) and a type of Molly miller (Scartella cristata, which also burrows into cracks). So different from the sandy sites, that experts do not even consider the sandy species as adapted to life in tide pools! Fish collected from rocky pools. Upper photo: Frillfin goby (Bathygobius soporator); Bottom photo: Molly miller (Scartella cristata). (Photograph by Pedro Félix, available through FishBase, CC-BY-NC) Fish collected in sandy pools, the Mojarra (species of the genus Eucinostomus sp.) (Photograph by Carla Elliff, available through FishBase, CC-BY) and the Ladyfish (Elops saurus). (Photograph by Gustavo Guedes, available through FishBase, CC-BY) You must be wondering, "What do you mean? But then, how were they there?" The big difference is that we usually found fish species typical of rocky tide pools from juvenile to adult stages, as was the case with Frillfin goby and Molly miller, but in the sandy pools we found many larvae (early stage of fish development - learn more about fish larvae here) or only juvenile individuals of species that we usually find at high tide, as is the case with Brazilian silverside and Mojarra. The difference in the number of species and the amount of fish caught between the rocky and sandy pools is quite striking. This brings up a very important ecological issue for the conservation of coastal environments, showing that we need to know about all tide pool types before proposing unique measures for all types of environments. Tide pools have always been ecologically important habitats for several species that participate and balance the coastal food chain, and may also interact with reef fish species and serve as bait for fishermen. Putting into question other types of tide pools, with some different functions from those already known, we understand that the pools may also play a role as shelter for the larvae, escaping from some predators and taking the opportunity to feed with greater "tranquility". Many of the larvae found were of species that are captured by fishermen as adults during high tide for trade or their own consumption. But if we degrade these environments, where will these larvae take shelter? Besides thinking about the future of these larvae, we must also think that along with port construction comes the issue of invasive species (species that are not native to the region). We also detected this scenario in Araçá, once we captured two exotic species (not native), the Omobranchus punctatus (muzzled blenny) and the Butis koilomatodon (mud sleeper) also known as the bellied or sleeper, in sandy pools and which are potential competitors of our native species. In addition to degradation, the environment can be dominated by these species, which unbalance the environment and the life cycles of other species. As an environmentalist, it is necessary to know, protect, and conserve coastal areas so that we can have a productive return for our lives and for our future generations, thinking about the natural ecological balance of the system, to continue harvesting the good fruits of nature. References BRENHA-NUNES, M. R. (2016). Ictiofauna em poças de maré arenosas e rochosas e seus fatores estruturadores em uma planície de maré subtropical. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 79. BRENHA-NUNES, M. R.; CONTENTE, R. F.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (2016). A protocol for measuring spatial variables in soft-sediment tide pools. Zoologia 33(2), 1-4. Disponível em: CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2015). Occurrence of the non-indigenous Omobranchus punctatus (Blenniidade) on the São Paulo coast, South-Eastern Brazil. Marine Biodiversity Records 8(e73), 1-4. Disponível em: < http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9707340&fileId=S175526721500055X> CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2016). A new record of the non-native fish species Butis koilomatodon (Bleeker 1849) for southeastern Brazil. Biotemas 29(2). Disponível em:< https://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2016v29n2p113/31676> About Marina Brenha-Nunes Biologist, graduated from Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP). Since school, I have wanted to live the life of a marine biologist, starting with a crazy desire to participate in the Humpback Whale Institute, then TAMAR and went to work with fish from a volunteer internship at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo (IO-USP) in 2011. I worked directly with otolith morphology (bones of the inner ear of bony fishes), going through several environmental consultancies and environment studies with private schools. After that, I joined the master's program at IO-USP and finished it in May 2016 with a thesis on fish in tide pools. Now, I have decided to dedicate myself to basic education as a State high school teacher. Link to Marina’s curriculum #MarineScience #Fish #TidePools #Biology #Fisheries #Oceanography #Guests

  • A exaustão de quem busca uma vaga de professora universitária

    Por: Breylla Campos Carvalho É muito lindo o discurso de que precisamos de mais diversidade em todas as áreas da nossa vida, mas essas ações nunca se materializam. Eu sempre achei que a forma como alguns (a maioria) processos seletivos acontecem, em especial para alcançar cargos públicos, especificamente os cargos para docentes universitários, não são nenhum pouco bons. Primeiro, que você precisa ter um currículo ultragalático, mas ao mesmo tempo precisa ser um(a) total desocupado(a), já que as provas acontecem durante a semana. Quem trabalha e quer ocupar uma posição melhor (como eu?): que se vire! Segundo, só quem está no sistema tem alguma chance de entrar e quem está fora certamente não vai entrar, porque o modelo privilegia quem já faz parte do sistema. Na área das geociências, mais ainda no mundo das geotecnologias, o fato de ser mulher também parece inibir a banca, quase sempre formada em sua maioria por homens. Meu primeiro concurso depois do doutorado foi para uma vaga na área de Cartografia e Geotecnologias da UFPB. Eu tirei a maior nota da prova escrita – a prova era identificada por um código, ninguém sabia se eu era mulher ou não. Então na fase seguinte, na prova didática, o código ganha uma cara – de uma mulher nova (na época eu estava com 31 anos). Tenho certeza absoluta que isso foi determinante para eu ganhar a pior nota. Detalhe: dos 6 concorrentes nesta fase, eu era a única mulher. E eu não dei uma aula para ser desclassificada, eu tenho noção de quando não vou bem. Depois desse concurso, prestei muitos outros, gastei tempo, dinheiro e energia, até que, no ano passado, prestei um concurso na área de Oceanografia Geológica na UFES – uma área que tenho conhecimento por conta do meu doutorado. Não consegui de novo, agora porque o sistema de seleção deles não leva em consideração a experiência de quem não é da universidade. Eu fui financiada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental das Nações Unidas (IOC-UNESCO) para fazer cursos na área de Oceanografia, eu ganhei financiamento da Associação Internacional de Sedimentologia (IAS) e da União Internacional de Pesquisa Quaternária (INQUA) para participar de congressos científicos internacionais, eu trabalho em um dos principais institutos do país (IBGE), junto com uma galera sensacional, mas nada disso contou, porque não sou parte do sistema – bancas e orientações eram pontuados (coisas que eu não tenho, justamente porque não sou do meio acadêmico) e meus cursos e financiamentos, não. Fiquei muito consternada, pensando em desistir de buscar uma opção melhor de trabalho (meu contrato no IBGE é temporário), mas repensei e voltei para o jogo. No começo desse ano, fui nomeada como uma das 50 estrelas em ascensão do mundo geoespacial pela Geospatial World, uma organização vinculada à Divisão de Estatística das Nações Unidas, e como “prêmio” pude participar do Geospatial World Forum, que aconteceu entre os dia 09 e 12 de maio na Holanda. Uma semana incrível, que só não foi melhor, porque mais uma vez o maldito gender bias aconteceu comigo. Desta vez, foi com o concurso da área de Cartografia e Geoprocessamento da UFABC. Eu passei na prova escrita, que tinha feito enquanto estava no Brasil e as outras fases aconteceriam sabe-se lá quando de forma remota. E justamente, aconteceu nos dias em que eu estava na Holanda. Consegui manejar meus compromissos e o fuso horário para participar. Tirei a segunda maior nota na prova escrita. E novamente, foi só mostrar minha cara para tudo desandar de novo. Um homem, que já faz parte do sistema acadêmico (agora veio o combo da falta de diversidade e dos privilégios de quem já está inserido no meio), levou a vaga, porque mesmo eu sendo competente no que eu faço, tendo reconhecimento internacional (além desse prêmio, já tive foto minha em capa de revista internacional, tive o mapa mais votado em um dos fóruns da ESRI (Environmental Systems Research Institute), já dei entrevista sobre minha experiência em Delft e tenho publicações de qualidade em revistas especializadas), nada disso conta: porque eu não sou homem e não estou no sistema. Como eu vou ser parte do sistema se eu não posso entrar? O que me deixa com raiva é a falta de uma política de diversidade na área de tecnologia das universidades, além do gasto de dinheiro e saúde física e mental que esse tipo de seleção provoca. Eu estou me sentindo um lixo, porque, para quem está lá dentro, eu não sirvo para ensinar, eu não sou boa o suficiente para pesquisar e não sei divulgar o meu trabalho. Se eu procuro emprego na iniciativa privada, a coisa piora e muito. Eu não tenho uma rede de contatos muito grande – esse é o mal de se fazer pós-graduação no Brasil! Aplico para milhares de vagas na área geotecnológica; mas não recebo nem um e-mail dizendo porque não me ajusto para aquela vaga. A única vaga para a qual apliquei e me chamaram tinha uma redução na bolsa de pesquisa pelo fato de eu ser professora concursada em Maricá! Talvez se eu tivesse um sobrenome estrangeiro ou se fosse um homem, eu não tivesse esse problema, porém eu nasci mulher, sou mulher e tenho que me satisfazer com empregos temporários, quando têm. E o que me deixou mais "fula" nessa última seleção para professor universitário, que definitivamente vai ser a última de que participo, foi o fato de que deixei de passar tempo com meu pai, que estava hospitalizado quando fiz a prova escrita, e depois deixei de aproveitar 100% um evento incrível que rolou na Holanda. Poucas pessoas vão ler isso, ninguém vai me dar o emprego dos sonhos, vamos continuar tendo bancas de seleção compostas por homens brancos de meia idade e os RHs das empresas vão continuar me ignorando. Mas, pelo menos, eu verbalizei o que eu sentia, enquanto chorei copiosamente com muita raiva, porque não adianta vir com o discurso de que a minha hora vai chegar, que eu sou boa e não posso me abalar e outras pieguices – meu pai está doente neste momento, preciso ampará-lo e dar um mínimo de conforto para ele, mas não tenho condições financeiras de ajudá-lo por muito tempo; eis um dos motivos da minha busca por uma posição melhor remunerada. E eu quero ser mãe, mas como eu posso querer gerar uma vida se eu não tenho meios de sustentá-la? Infelizmente, para mim, as coisas não vão mudar, mas eu realmente espero que a próxima geração de mulheres nas geotecnologias não precisem passar por isso, porque se sentir um lixo, sabendo que não se é, é a pior sensação do mundo. Sobre a autora: Geógrafa (USP) e mestre e doutora em Oceanografia (UERJ). Atualmente é Analista Censitária na Gerência de Infraestrutura da Coordenação de Estruturas Territoriais da Diretoria de Geociências do IBGE e instrutora dos cursos de extensão dos Sistema Labgis/UERJ. Têm experiência na área de Geociências, com ênfase em Geomorfologia Costeira e Dinâmica Sedimentar de Ambientes Costeiros, utilizando ferramentas de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto. E o amor pelas águas salgadas vai além, sendo atleta amadora de natação em águas abertas. #Diversidade #Geotecnologias #VidaDeCientista #ConcursoPúblico #ConcursoUniversitário #CarreiraAcadêmica #Convidada

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