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  • Pinguins - lentos na terra, velozes no mar

    Por Juliana Leonel Os pinguins são aves muito diferentes das demais, pois têm seus corpos modificados para nadar e mergulhar, e não para voar. Eles fazem parte da família Spheniscidae que compreende entre 17 - 20 espécies, todas com ocorrência apenas no Hemisfério Sul. O número inexato de espécies é porque ainda há debates se alguns grupos pertencem ou não a espécies distintas ou se são apenas subespécies. Distribuição das espécies de pinguim. Imagem em domínio público O nome popular pinguim é em função da semelhança com um grupo de aves extintas no século XIX, os auks. Elas são aves da família Alcidae e do gênero Pinguinus, mas não tem relação evolutiva com as espécies de pinguim que conhecemos hoje. No entanto, os primeiros navegadores que avistaram um pinguim deram esse nome devido a semelhança física com os auks. Exemplar de auk (Pinguinis impennis). Imagem de Mike Pennington com licença CC BY-SA 2.0 Todos eles têm o mesmo padrão de cor: barriga branca e dorso escuro, mas apresentam variações de cor e plumagem na cabeça, sendo que algumas são bem elaboradas, como é o caso do pinguim macaroni (Eudyptes chrysolophus) ou do pinguim saltador de rocha (Eudyptes chrysocome). A barriga branca e o dorso preto são estratégias evolutivas para proteção contra predadores. Quando as focas e orcas observam os pinguins de baixo para cima nadando, eles ficam quase imperceptíveis e o mesmo acontece quando eles mergulham fundo e expõem o dorso para os predadores. A partir do canto superior esquerdo em sentido horário: Eudyptes chrysocome e Pygoscelis papua - Imagem Ben Tubby com licença CC BY 2.0; Pygoscelis antarctica - Imagem de Andrew Shiva com licença CC BY-SA 4.0; Spheniscus magellanicus - Imagem de David com licença CC BY 2.0; Aptenodytes forsteri - Imagem de Ian Duffy com licença CC BY 2.0 Os pinguins não voam, mas apresentam características que fazem deles exímios nadadores: corpo hidrodinâmico, nadadeiras (ao invés de asas), camada densa de penas que permitem a formação de uma camada de ar que ajuda na flutuabilidade enquanto isola o corpo do contato com a água gelada auxiliando a manter a temperatura corpórea. Além disso, espalham o óleo produzido na glândula uropigial para recobrir as penas e aumentar a proteção na água. Na terra eles andam, mas para se mover mais rápido ou entre obstáculos podem saltar com os dois pés juntos. Além disso, eles também deslizam de barriga no gelo (como em um tobogã). Apesar de todos os pinguins terem forma similar: corpo hidrodinâmico com asas em formato de nadadeiras planas, eles têm uma ampla variação de tamanho. O menor pinguim é o Eudyptula minor, chamado de pinguim azul ou pequeno pinguim, que atinge 40 cm e pesa 1,1 kg; ele é comumente encontrado na Austrália e na Nova Zelândia. Já o pinguim imperador (Aptenodytes forsteri), com ocorrência restrita à Antártica, é a maior espécie com tamanho de até 115 cm e 30 kg. Eudyptula minor - imagem de J.J. Harrison com licença CC BY-SA 3.0 e Aptenodytes forsteri - imagem de Christopher Michel com licença CC BY 2.0 As distintas espécies de pinguins ocorrem principalmente em regiões polares e temperadas, como Antártica, Terra do Fogo, África do Sul, Ilhas Malvinas e Nova Zelândia. No entanto, o pinguim-das-galápagos (Spheniscus mendiculus), como o nome popular já sugere, habita a Ilha Galápagos localizada nos trópicos. Os pinguins nidificam em grandes colônias que podem ter de poucas centenas até milhares de centenas de casais. A reprodução ocorre entre a primavera e o outono. Eles são organismos monogâmicos e, em geral, colocam dois ovos e macho e fêmea dividem a responsabilidade de cuidar dos ovos, enquanto um cuida do ninho o outro sai para se alimentar em incursões que podem durar de dias até semanas. O pinguim imperador é uma exceção, pois coloca apenas um ovo que é cuidado pelo macho. Colônia com aproximadamente 20 mil Aptenodytes patagonicus nas Ilhas Geórgia do Sul - imagem de Liam Quinn com licença CC BY-SA 2.0. Durante o inverno é comum aparecerem pinguins nas praias do Brasil, principalmente nos estados do sul e sudeste; mas não é raro um ou outro indivíduo ir parar nas águas quentes da Bahia. A espécie que comumente chega à costa brasileira é a Spheniscus magellanicus (pinguim de magalhães). Uma espécie que se reproduz em colônias localizadas na Argentina, Ilhas Falkland e Chile. São organismos de tamanho médio que se alimentam de crustáceos e lulas. Spheniscus magellanicus - imagem de Martin St-Amant com licença CC BY-SA 3.0 Os pinguins se alimentam de krill, lulas e peixes. Os predadores de pinguins adultos são orcas, tubarões e focas leopardos. No caso de ovos e filhotes, eles também podem ser predados por outras aves como skuas e petréis. Pinguim confrontando um petrel - imagem de Constantine com licença CC BY-SA 3.0 #DescomplicandoNetuno #JulianaLeonel #Pinguins #AvesMarinhas #BiologiaMarinha #FaunaMarinha #AnimaisMarinhos #Oceano #Oceanografia

  • Tiradas do Netuno #14

    Os peixes ósseos possuem estruturas chamadas otólitos que são localizadas no ouvido interno, e estão relacionadas com os mecanismos de equilíbrio e audição. O crescimento dos otólitos ocorre através da deposição alternada de carbonato de cálcio e proteína, formando anéis que podem ser observados em um corte transversal, assim como aqueles observados nos troncos das árvores. Para saber mais, acesse o post “Como saber a idade de um peixe e outras coisas mais…” publicado em 19/05/2015. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarinha #Ictiologia #Peixes #Otólitos

  • Você sabe o que é assédio?

    Por Catarina Marcolin Em 14 de junho de 2021, eu e Michele Maia, minha orientanda de mestrado, recebemos a Profa. Dra. Grazielly Alessandra Baggenstoss para um papo muito importante sobre o que é assédio. Além de ser uma pessoa muito simpática, Grazy é docente na graduação e pós-graduação na UFSC, mestre e doutora em direito, doutoranda em Psicologia. É isso mesmo que você entendeu, ela está no segundo doutorado! Ela também é coordenadora do Dispolítica (CNPq-UFSC), pesquisadora do Margens (Núcleo de Pesquisas Modos de Vidas, Família e Relações e Relações de Gênero, UFSC), fundadora e coordenadora do Lilith (Núcleo de Pesquisa em Direito e Feminismo, UFSC/CNPq) e membro da comissão de Direito Homoafetivo e Gênero da OAB Santa Catarina. O evento foi transmitido pelo nosso canal do YouTube e, se você perdeu, pode conferir no nosso canal no YouTube! A Grazy nos explicou sobre quais situações se configuram como assédio no ambiente de trabalho, com maior ênfase no ambiente acadêmico, e respondeu às perguntas da nossa audiência. #NetuniandoPorAi #CatarinaRMarcolin #MulheresNaCiência #EmbarqueSemAssédio

  • Importance and curiosities of scientific collections

    By Jana M. del Favero English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on July 31, 2015 Between the end of my master's degree and the beginning of my doctorate, I spent a year and a half participating in the assembly of the Biological Collection Prof. Edmundo F. Nonato - ColBio at the Oceanographic Institute of the University of São Paulo. I spent months looking through bottles filled with biological samples, including fish, zooplankton, and otoliths, and entering all of their information on the computer. Information like collection dates, locations, collection depths, the type of sampler used, the vessel, etc. all needed to be recorded electronically. It was during this period that I realized the importance of scientific collections, which, when preserved and recorded carefully, can be used for countless scientific studies. While doing this work, I noticed that there were many samples of eggs and larvae from a species of fish (Engraulis anchoita) spanning from 1974 to 2010. This collection would allow me to analyze the distribution and abundance of this fish species over a long period of time, helping to verify the influence of environmental factors that could not otherwise be done with only a few months of collection. Citing what Silvia Gonsales (previously an illustrator for Chat with Neptune) told me, "the collections store pieces of relevant information to a puzzle, to be assembled and unveiled by the researchers." That is why when an accident occurs, like the fire at the Butantã Institute in 2010, it is not just dead snakes that are lost, but relevant, irreplaceable information that will leave holes in these puzzles, which may become impossible to assemble. Preserved organisms deposited in ColBio. (Picture: Gabriel Monteiro, under license CC 4.0 SA-BY) Another benefit of biological collections is the financial savings they can provide. Often, we do not realize the high cost of a field trip for an institution or a funding agency. The campaign is even more expensive if a research vessel is necessary, especially if the area studied is far from the coast or very large. In my own doctoral project, I did not spend a single dollar on collecting samples, thanks to the material available in ColBio. Now suppose you do a survey in which you want to know which species of fish occur within a certain region. You identify the species and, at the time of publication or later, a researcher asks if you have correctly identified species X. If your species X has at least one individual stored for biological collection, the questioning researcher can analyze the “test specimen” for themself to verify the species identification. The same is true going the opposite direction; Say you are identifying a collected individual and have doubts about its classification. One of the easiest ways to identify this is to consult a scientific collection and analyze the possible species that your individual could belong to. During my master's degree, I went countless times to the Zoology Museum of the University of São Paulo - MUZUSP to see individuals deposited in the ichthyological (fish) collection. If you thought that University Museums and Natural History Museums were merely exhibitions for visitors to look around, you were wrong! In many cases, the scientific collections not on display are much larger, and, in my opinion, more important than what is on display. Oh, and if the museum archives the holotype of a species, the collection becomes even more precious. A holotype or type specimen is an individual of a species which researchers designate as the basis for the description of a new species. We are constantly discovering new species and designating new holotypes, especially in the ocean, which is still so under explored! While exploring the database of the Natural History Museum in London, I found several holotypes from Brazil. One of these holotypes that caught my attention was a kind of sponge (read more about sponges here) collected in 1996 in the São Sebastião region, SP. For the curious reader here is the link to the scientific collection of the Natural History Museum in London. I particularly thought it was amazing to be researching species collected by Darwin and Linnaeus in Brazil, whose specimens are today kept on another continent! It is important to clarify that the holotype does not always need to be the entire individual, especially in cases of extinct species, whose descriptions are often based on fossils (for example, a holotype of a described dinosaur may be only a femur). In some cases the hpe molotyay even be an illustration! Holotype of Marocaster coronatus, an extinct species of starfish. The material is held in the Toulouse Muséum, France. (Photographer: Didier Descouens, under license CC-SA 4.0) Speaking of illustration, Silvia Gonsales briefly mentioned on her profile here on the blog the importance of scientific illustrations: “drawing helps researchers represent and/or explain their ideas with something other than words. For example, when a new species is discovered, someone needs to describe it, that is, make an accurate record of what it looks like. Scientific illustration complements and synthesizes these recordings, showing all its important characteristics that often do not appear clearly in photographs”. Thus, the drawings of the described species help researchers to identify the species or even the stage of development in which it is found. In her Course Completion Work, Silvia Gonsales uses scientific drawings to describe and characterize the larval phases of a fish species (see the drawings below as an example of 3 stages). And in Claudia Namiki's post she shows how scientific drawing was used to describe otoliths. The originals of scientific drawings are also kept in scientific collections, available for consultation. Scientific drawings showing 3 larval stages of a fish species. (Illustration: Silvia Gonsales, under license CC 4.0 SA-BY) Drawings are easy to store in high quality for a long time, but how are the other materials kept? Well, it all depends on what is being “deposited.” Otoliths and bones only need to be cleaned and labeled to be deposited, plankton samples are usually placed in glass jars and preserved in 4% formaldehyde, and fish in 70% alcohol. Plants are pressed, dried in a dehydrator and fixed on cardboard, called exsiccatae, like those in the collection of the Botanical Gardens of São Paulo and Rio de Janeiro. Taxidermy is the popular way to preserve larger animals. In the past, straw was used to stuff the skin of the animal that was being mounted. Nowadays, a material similar to diapers is used, such as the taxidermied animals in the Fisheries Museum of Santos. I bet many readers never thought that “stuffed” animals could be used to progress science, not just used by hunters to display animals in their living rooms (yikes!). Examples of fish in 70% alcohol, taxidermied sea birds, the skeleton of a bird (Photos: Jana M. del Favero, under license CC 4.0 SA-BY) and botanical exsiccatae. (Photo: Richieri Sartori, under license CC 4.0 SA-BY) Two of the collections that I visited that really caught my attention were the flower and invertebrate glass collections from Harvard University’s Natural History Museum and Museum of Zoology. The collections were initially created to be used in classrooms, given that the pressed plants and fixed organisms (preserved in formaldehyde or alcohol) are not always a good representation of their living form (invertebrates may lose color and form when fixed). In the case of the glass organisms, even being within a close range, I would swear they were real animals, even though the models were made between 1887 and 1936! A true work of art for the university! More information about the glass flower collection can be obtained here and about marine invertebrates here. At the end of both pages there is a film with beautiful images, telling the story of how these glass organisms were made. Glass organisms from the collection of the Museum of Natural History at Harvard University. (Photo: Jana M. del Favero, under license CC 4.0 SA-BY) Museums can also store bibliographic treasures in their collections, such as the books with descriptions by Carolus Linnaeus maintained by the Museum of Zoology of the University of São Paulo. Linnaeus was one of the pioneering scientists in the identification of animals, and he is considered the “father of taxonomy.” This material is so rare and of such importance that it needs to be handled with gloves. A survey from 2015 reported that only 12% of respondents visited a science and technology museum in the past 12 months. Although low, this percentage increased compared to the same survey in 2006, in which only 4% said they had visited a museum in the last year, and 8% in 2010. Among those who did not go to any museum, only 14.2% justified it with a lack of interest, 32.2% did not have time, and 31.1% stated that they did not go because one was not available in their region. According to the website that released the survey, the lack of access to a museum, or lack of knowledge about it, was more common than a general lack of interest, showing the importance of increasing access to and knowledge of these important places. The survey has since been updated, but there has been little improvement in these numbers. So, after the curiosities presented here, how about planning a trip (even a virtual one!) to a museum and trying to see it in a different way?! #MarineSciences #Museum #ScientificCollections #Museology #Taxidermy #Exsiccatae #Collection #Biology #Interdisciplinarity #Conservation #ChatJanaMDelFavero #SilviaGonsales

  • Impactos ambientais nos ecossistemas marinhos

    Por Jana M. del Favero Construção de barragem, explosão em indústria química, lavar e passar roupa, proliferação de plantas aquáticas em um rio, derramamento de óleo no mar… todas essas atividades e acontecimentos causam impacto ambiental! Mas nem todos têm a mesma duração, dimensão e consequências. Um impacto ambiental pode ser temporário ou permanente, positivo ou negativo, imediato ou de médio ou longo prazo, reversível ou irreversível, local ou regional ou até mesmo global. Exemplos de impactos ambientais. Imagens: Barragem e roupas no varal em domínio público. Óleo em praia do Nordeste, Brasil - Joyca Farias com licença CC BY 2.0 . Plantas aquáticas no Rio Capibaribe - J.Filgueiras com licença em CC-BY-SA-4.0 Segundo a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que afetam direta ou indiretamente: a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e a qualidade dos recursos ambientais. Algumas vezes, por falta de dados de base adequados, é muito difícil distinguir entre um impacto com causas artificiais ou com causas naturais. Às vezes, ambas as causas atuam juntas. Avaliar o impacto ambiental total depende ainda do ambiente em que ele ocorreu, pois alguns ambientes marinhos são mais resistentes ou mais resilientes a certos danos do que outros. Um grande derramamento de petróleo em um ecossistema costeiro possivelmente matará a biota da região em uma grande escala, tanto por envenenamento quanto por asfixia. Além disso, como a profundidade não é grande, os organismos bentônicos (do fundo) também poderão ser afetados. Já os derrames em mar aberto parecem ser menos danosos do que os próximos da costa, pois as manchas de óleo se espalham horizontalmente e verticalmente sobre a influência das correntes, marés, ventos e ondas. Assim a mancha se dispersa com o tempo e é diluída, ficando menos tóxica. Adicionalmente, o fundo do mar é mais profundo e pode não ser afetado por uma mancha da superfície. Derramamento de óleo que ocorreu na Nova Zelândia, em outubro de 2011. Imagens de Jean Francois Fournier com licença CC BY 2.0 O efeito de um impacto ambiental ainda dependerá da escala, ou seja, se avaliamos as células, os organismos, as populações ou as comunidades. Contaminantes químicos, por exemplo, podem causar intoxicação, insuficiência metabólica e danos celulares. Nos organismos, podem causar mudanças fisiológicas e comportamentais, suscetibilidade a doenças, alteração no esforço reprodutivo, etc. Já ao olharmos para a população, pode-se notar mudanças na idade, no tamanho, mortalidade, redução da biomassa, entre outras. Por fim, se analisarmos uma comunidade, poderemos notar alterações na abundância, composição e na distribuição das espécies, entre outros efeitos. Como exemplo podemos citar o aumento da temperatura nos oceanos que causa o branqueamento dos corais, que não apenas pode resultar na morte dos pólipos dos corais em longo prazo, mas também afugentamento ou morte de outros animais que utilizam o recife para a proteção e alimentação. Branqueamento de corais. Imagem em domínio público Muitas vezes, o ser humano quer interferir no ambiente natural buscando um resultado positivo (veja um exemplo relendo o post de fertilização dos oceanos). Entretanto, interferir em ecossistemas naturais é um assunto extremamente delicado e controverso. Principalmente porque um impacto considerado local e de curta duração pode mostrar, com o tempo, não ser assim. Alguns praguicidas nos provam isso. Um exemplo são os clorados, como o DDT (que deu origem ao nome dedetização), que por serem compostos com alta estabilidade química persistem no ambiente por muito tempo, podendo ser transportados por longas distâncias e ocorrer até mesmo em regiões onde nunca foram produzidos nem utilizados, como na Antártica. Um estudo publicado na revista Science em 2008 por Halpern e colaboradores, constatou que não existe nenhuma área nos oceanos que não sofra influência humana e que 40% dos oceanos são fortemente impactados por essa influência, como a pesca excessiva e a poluição. Apesar de ainda existirem grandes áreas que têm relativamente pouco impacto humano, elas estão localizadas perto dos pólos, ou seja, bem longe das concentrações humanas. Esse estudo também analisou 20 ecossistemas marinhos para determinar o impacto das influências humanas, e concluiu que os ecossistemas mais ameaçados são os recifes de coral, os bancos de algas marinhas e os manguezais. O impacto, além de ambiental, pode ser social e econômico: a Grande Barreira de Corais, na Austrália, cria cerca de 70.000 empregos e gera bilhões de dólares anuais em receitas turísticas; assim, a sua destruição causaria efeitos negativos na sociedade e na economia, além dos danos no ambiente. Conhecer bem o impacto ambiental é o primeiro passo para criar estratégias de remediação, mitigação e de preservação. Dados alarmantes divulgados no Fórum Econômico Mundial de Davos em 2016 mostraram que, se não fizermos nada a respeito, teremos mais plásticos do que peixes em nossos oceanos em 2050. E então, queremos nos alimentar de peixes ou de plásticos? Para saber mais: Halpern et al., 2008. A Global Map of Human Impact on Marine Ecosystems. Science 15 Feb 2008: Vol. 319, Issue 5865, pp. 948-952 DOI: 10.1126/science.1149345 #Descomplicando #ImpactoAmbiental #AnáliseAmbiental #Poluição #Plástico #ImpactoNoOceano #Oceanografia #ImpactosAntrópicos #BiologiaMarinha #JanaMDelFavero

  • Pesquisa no Ártico em tempos de Coronavírus

    Por: Katyanne M. Shoemaker Tradução: Lídia Paes Leme Ilustração: Catarina R. Mello Não há como negar que 2020 foi um ano maluco para todos e todas nós. Meu ano começou com um novo trabalho, uma bolsa de pós-doutorado na Escola Superior de Oceanografia da Universidade de Rhode Island. Entrei para pesquisar a dieta de copépodes no Ártico central, como parte de uma expedição de um ano chamada MOSAiC (Multi-disciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate). No mestrado eu usei técnicas moleculares para explorar as comunidades bacterianas associadas a copépodes em águas subtropicais, e agora eu tive a oportunidade de aplicar esses conhecimentos a diferentes populações de animais, buscando estudar interações na cadeia alimentar. Quando eu comecei esta jornada, não tinha como saber que eu acabaria passando o verão da pandemia do coronavírus no que, estranhamente, seria um dos lugares mais seguros do planeta: o Ártico. Para nos qualificarmos para a expedição, tivemos que passar por rígidos testes físicos e de saúde, para que houvesse certeza de que estávamos aptos para o isolamento físico e emocional que enfrentaríamos ao passar meses no Pólo Norte. Antes que nos fosse permitido ir ao gelo, treinamos salvatagem - como nos resgatar caso caíssemos na água gélida, aprendemos como identificar e tratar queimaduras por frio e hipotermia e até tivemos uma aula sobre o comportamento de ursos polares e o que fazer caso nos confrontássemos com um deles. Qualquer pessoa que fosse ao gelo precisava levar consigo um kit contendo um sinalizador (primeira linha de defesa) e um rifle (caso as coisas fiquem realmente feias), seja você um voluntário treinado do time de cientistas ou do time de logística. Cada grupo também carrega consigo ao menos dois rádios para se comunicar com o navio e duas cordas, caso alguém precise ser resgatado da água. Cada cientista recebeu um uniforme vermelho especial, feito para manter o calor em temperaturas muito baixas e também certa flutuabilidade, um apito e picadores de gelo para carregar no pescoço (estes últimos são usados para cavar o gelo e salvar alguém que por acaso caia na água). Eu usando meu uniforme e equipamento de segurança no gelo. Crédito: Jessie Gardner (licença CC by 4.0) Com todas essas precauções, o perigo maior em nossas mentes em março e abril foi a novidade do coronavírus, SARS-CoV-2. A pandemia crescente atrasou a troca de equipe por mais de um mês e o time de cientistas inteiro, junto à equipe do navio, foram obrigados a ficar em quarentena em um hotel em Bremerhaven, Alemanha, por duas semanas antes de embarcarem nos navios que nos levariam ao encontro do Navio de Pesquisa Polarstern. Depois de voar dos Estados Unidos até a Alemanha, nós cientistas fomos levados a um hotel de ônibus, onde fizemos check-in, dissemos tchau aos que viajaram conosco (conheci a maioria pela primeira vez no avião) e nos acomodamos em quartos individuais. Por 10 dias fiquei só no meu quarto e a única vez que minha porta se abria era para receber refeições deixadas três vezes por dia. O grupo de cientistas era unido, felizmente, por WhatsApp, onde trocávamos fotos do pôr do sol, avaliação de refeições e updates dos nossos próximos e temidos testes nasais para o PCR(ou amostras cerebrais, como quase acreditávamos). Nada põe um grupo isolado tão próximo quanto a antecipação de uma sondagem profunda da cavidade nasal. Participantes do cruzeiro se encontram pelas janelas do hotel durante a quarentena. Crédito da foto: Lianna Nixon (licença CC BY 4.0) Ao todo, fiz 4 swabs nasais profundos para o teste da Covid-19 antes do cruzeiro (e mais um no final, antes de poder voar para casa). Quando os testes deram negativo para todos os hospedados no hotel, finalmente pudemos nos misturar. Isso significou que poderíamos jantar juntos, circular ao ar livre pelo hotel e participar de nossas reuniões de segurança. Embora ainda confinada à propriedade do hotel, esta semana passou muito mais rápido do que o tempo isolado. Foi a primeira oportunidade que muitos de nós tivemos de nos encontrarmos e falarmos sobre a ciência que fazemos e o que planejamos fazer no campo. Havia cerca de 60 cientistas, profissionais da mídia e membros da equipe de logística neste hotel, e essas seriam as pessoas com quem eu moraria e trabalharia pelos próximos 3 meses. A sigla MOSAiC (tradução livre: observatório flutuante multidisciplinar para o estudo do clima no Ártico) realmente descreve as pessoas tanto quanto a ciência. Tivemos uma bela mistura de cientistas de todo o mundo envolvidos, estudando todo o ambiente do Ártico em seus respectivos campos. Havia físicos de gelo marinho, químicos atmosféricos, oceanógrafos físicos, biólogos e biogeoquímicos estudando tudo, desde nutrientes e aerossóis a plâncton e peixes, até as propriedades físicas que impulsionam a circulação do oceano e a formação e derretimento do gelo. Quando finalmente estávamos prontos para embarcar no navio, todos tínhamos feito novos amigos e ficamos ainda mais animados com nossa própria ciência. Abraços para todo lado! Uma visão rara em 2020, quando finalmente a bordo do navio, os cientistas puderam se abraçar, como velhos e novos amigos. Por 3 meses, fomos os poucos afortunados que viveram sem máscaras, distanciamento social ou medo de um inimigo viral. Crédito da foto: Lianna Nixon (licença CC BY 4.0) Por causa da pandemia em andamento, nossos planos de como chegar ao Polarstern tiveram que ser adaptados várias vezes. O plano original era congelar intencionalmente o navio de pesquisa no gelo, à deriva com um bloco de gelo (uma camada sólida de gelo flutuante) pela bacia do Ártico por um ano inteiro. Minha parte da viagem (4ª pernada de 5 no total) deveria se encontrar em uma pequena ilha a meio caminho entre a Noruega e o Pólo Norte, chamada Svalbard. A partir daí, deveríamos voar para o manto de gelo no início de abril, quando o gelo seria espesso o suficiente para suportar um avião. Devido ao fechamento das fronteiras, não pudemos entrar em Svalbard, então um novo plano foi feito, para que um navio “ice-class” de pesquisa sueco nos levasse ao Polarstern. Infelizmente, o novo coronavírus também estragou esse plano. Embora o Polarstern seja o principal navio quebra-gelo de pesquisa alemão, eles também possuem navios de pesquisa menores mas que não são capazes de quebrar o gelo espesso. A solução final foi dividir os cientistas e a tripulação em dois navios para viajarem juntos até um fiorde em Svalbard e aguardar a chegada do Polarstern. Libertar-se do gelo em que estava congelado nos últimos 7 meses demorou mais do que o esperado, e meu grupo de cientistas esperou mais de uma semana a bordo do Maria S. Merian. Os navios de pesquisa alemães Maria S. Merian (à esquerda) e Sonne (à direita) estão prontos para entrega de pessoal e suprimentos em um fiorde em Svalbard. Crédito da foto: Katyanne Shoemaker ( licença CC BY 4.0) A paisagem ao nosso redor era de tirar o fôlego. Estávamos cercados por montanhas cobertas de neve e baleias fin, minke e jubarte, que ocasionalmente apareciam ao nosso redor. Havíamos entrado no círculo ártico e, como era verão, tínhamos 24 horas de luz do dia. As condições de vida eram interessantes: já que o navio não era projetado para tantas pessoas, trouxeram contêineres adaptados com beliches e banheiros. Apesar dos aposentos apertados, todos estavam alegres. A “vida no contêiner”, como a chamávamos, nos aproximou mais nas áreas comuns. As apresentações científicas eram tranquilas e a única competição era de ver quem se divertia mais com elas. Alguns de nós davam aulas de ioga e aeróbica para manter a forma pela manhã (minha primeira vez sendo instrutora de Zumba e ioga!), brincávamos de jogos, assistíamos filmes e fazíamos festa à noite. Ao contrário do resto do mundo, pudemos nos abraçar e conversar livremente, sem máscaras ou 1,5 metros de distância. Tínhamos feito tanto para chegar até aqui e, na manhã de 4 de junho, chegou o Polarstern! Trocamos carga e pessoal nos dias seguintes e, finalmente, estávamos prontos para começar nossa pesquisa! Fique ligado no meu próximo post, no qual falarei sobre a ciência que fiz no gelo durante o verão ártico! Dois grandes navios de pesquisa param lado a lado para trocar pessoas e suprimentos. O Polarstern havia sido reabastecido 4 meses antes no manto de gelo do Ártico durante a noite polar. Foto: Katyanne Shoemaker, licença CC BY SA 4.0 #VidaDeCientista #Ártico #PóloNorte #Expedição #TrabalhoDeCampo #TrabalhoEmbarcado #Oceano #Oceanografia #Coronavírus #Covid19 #Gelo #BatePapoComNetuno #PesquisaPolar #ChatKatyanneMShoemaker

  • Tiradas do Netuno #9

    Na semana em que se comemora o Dia Mundial do Oceano e o Dia do Oceanógrafo gostaríamos de lembrar uma atividade que nós, cientistas do mar, adoramos… VIAJAR! Quer seja para outros países, para o fundo do oceano, ou até mesmo em uma amostra de grãos de areia ou em uma gotinha de água do mar. Estamos em um momento em que precisamos ficar em casa, mas que tal viajar na imaginação através dos nossos posts? Criação da tirinha: Gilberto Junior do Mundos Oceânicos (@oceanicworlds.arte), com uma pitada de palpites e ideias das editoras do Bate-papo com Netuno. #tiradasdonetuno #gilbertojunior #viajar #vidadecientista #diamundialdosoceanos #diadooceanógrafo

  • Arctic field work in the time of Corona

    By Katyanne Shoemaker Illustration by Catarina Mello There is no denying that 2020 was a crazy year for all of us. My year began with a new job, a postdoctoral fellowship at the University of Rhode Island Graduate School of Oceanography. I signed on to do research looking at the diet of copepods in the central Arctic as a part of the year-long MOSAiC expedition (Multi-disciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate). In graduate school, I had used molecular techniques to explore the bacterial communities associated with copepods in subtropical waters, and now I had the opportunity to apply those skills to a different population of animals to study food-web interactions. When I started this journey, there was no way to know that I would end up spending the summer of coronavirus in what would strangely become one of the safest places on Earth: the Arctic. To qualify for the expedition, we had to go through physicals and rigid health tests to make sure we were fit for the physical and emotional isolation of spending months at the top of the world. Before being allowed on the ice, we trained on how to rescue ourselves should we fall through into the frigid water below, we learned how to identify and treat frostbite and hypothermia, and we even had a lesson on polar bear behavior and what to do should we be confronted with a bear. Any person going on the ice was required to bring with them a polar bear guard (either trained science team volunteer or logistics team member), armed with a flare gun (first line of defense) and rifle (should things really go awry). Each group also carried with them at least 2 radios to communicate with the ship and 2 throw ropes in case someone needed to be pulled from the water. Every scientist was issued a special red suit, designed to keep you warm in very low temperatures and provide some floatation, a whistle, and ice picks to wear around your neck (these could be used to dig into the ice to save you should you fall in). Me modeling my survival suit and safety gear on the ice. Photo credit: Jessie Gardner (license CC BY 4.0) With all of these precautions in place, the danger on most of our minds in March and April was the novel coronavirus, SARS-CoV-2. The growing pandemic delayed the exchange of personnel by over a month, and the entire science team and ship’s crew were required to quarantine in a hotel in Bremerhaven, Germany for 2 weeks before getting on the ships that would take us to meet the Research Vessel Polarstern. After flying into Germany from the United States, all of the scientists were brought to a hotel by bus, where we checked in, said goodbye to those we traveled with (most I had met for the first time on the airplane), and settled into our individual hotel rooms. For 10 days, I was alone in my room, and the only time my door opened was to bring in the meals left 3 times a day outside the door. The group of scientists were thankfully all brought together by a WhatsApp group chat that frequently was updated with photos of the day’s sunset, reviews of meals, and updates of our next dreaded nasal swab (or brain tissue sample, as many of us believed). Nothing pulls a group of isolated individuals together quite like the anticipation of deep sinus probing. “I got Tim! It wasn’t so bad, it stopped burning after only an hour.” “Lucky! I got Eberhard this time. I can still feel the swab!” Cruise participants meet each other from their hotel windows while in quarantine. Photo credit: Lianna Nixon (license CC BY 4.0) In all, I had 4 deep nasal swabs performed for Covid-19 testing before the cruise (and an additional one at the end before I could fly home). When all of these came back negative for everyone staying in the hotel, we were finally allowed to intermingle with one another. This meant we could dine together, go outdoors on the roof or the roped off patio, and attend our safety briefings. While still confined to the hotel property, this week passed much more quickly than the isolated time. It was the first chance many of us had to meet one another and talk about the science we do and what we planned to do in the field. There were about 60 scientists, media people, and logistics team members in this hotel, and these would be the people I would live and work with for the next 3 months. The acronym MOSAiC really describes the people as much as the science. We had a beautiful blend of scientists involved from around the world, studying the entire Arctic environment from their respective fields. There were sea-ice physicists, atmospheric chemists, physical oceanographers, biologists, and biogeochemists studying everything from nutrients and aerosols to plankton and fish to the physical properties that drive ocean circulation and ice formation and melt. By the time we were finally ready to board the ship, we had all made some new friends and gotten even more excited about our own science. Hugs all around! A rare sight in 2020, when finally aboard the ship, scientists were allowed to embrace one another, old friends and new. For 3 months, we were the fortunate few who lived without masks or social distancing or fear of a viral foe. Photo credit: Lianna Nixon (license CC BY 4.0) Because of the ongoing pandemic, our plans for how to reach the Polarstern had to be adapted several times. The original plan was to intentionally freeze the research vessel into the ice, drifting with an ice floe (a solid sheet of floating ice) across the Arctic basin for an entire year. My portion of the trip (Leg 4 of 5 total), was supposed to gather on a small island halfway between Norway and the North Pole, called Svalbard. From there, we were to fly onto the ice sheet in early April, when the ice was thick enough to support an airplane. Due to border closures, we were unable to enter Svalbard, so a new plan was constructed, to have a Swedish ice-class research vessel take us to meet the Polarstern. Unfortunately, the novel coronavirus also foiled this plan. While the Polarstern is Germany’s premier ice breaking research vessel, they also own smaller research vessels that are not able to break thick ice. The eventual solution was to split the scientists and crew into two ships to travel together to a fjord in Svalbard and await the arrival of the Polarstern. Breaking free from the ice it had been frozen into for the past 7 months took longer than expected, and my group of scientists waited over a week on board the Maria S. Merian. German research vessels Maria S. Merian (left) and Sonne (right) stand ready for handover of personnel and supplies in a fjord in Svalbard. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, license CC BY 4.0) The scenery around us was breathtaking. We were surrounded by snow-capped mountains and fin, minke, and humpback whales occasionally made themselves known around us. We had crossed into the Arctic circle on the transit up, and, since it was summer, we had 24 hours of daylight. Living conditions were interesting, since the ship was not designed for this many people, shipping containers were brought in which were fitted with bunk beds and bathrooms. Despite the cramped quarters, the attitude on board was jovial. “Container life,” as we called it, brought us all closer together in common areas. Science presentations were low-pressure and the only competition was to see who could have the most fun with them. A few of us led yoga and aerobics classes to stay fit in the mornings (my first time leading Zumba or yoga!), and we’d play games, watch movies, and have dance parties at night. Unlike the rest of the world, we were able to hug each other and chat freely, without masks or 1.5 meters of distance. We had done so much to get to this point, and on the morning of June 4th, the Polarstern arrived, we exchanged cargo and personnel over the next several days, and finally, we were ready to begin our research! Two large research vessels pull alongside each other to exchange people and supplies. The Polarstern had last been restocked 4 months earlier on the Arctic ice sheet during polar night. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, license CC BY SA 4.0) Stay tuned for my next post, in which I will talk about the science I did on the ice during the Arctic summer! #MarineScience #Arctic #NorthPole #Expedition #FieldWork #PolarBear #Coronavirus #COVID19 #Ice #ChatKatyanneMShoemaker #Oceanography #ChatCatarinaRMello

  • Tiradas do Netuno #13

    Hoje, dia 8 de Junho, é comemorado mundialmente o Dia do Oceano e o Dia dos Oceanógrafos! A oceanografia é a ciência que estuda os oceanos e os processos oceanográficos - do fundo do mar até a superfície! Incluindo a composição da água, os movimentos hidrodinâmicos das correntes, e os animais e algas que vivem nele. Importante né ? Para saber mais, acesse o post! Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #tiradasdonetuno #marianesoares #diamundialdooceano #diadooceanógrafo #oceanografia

  • A economia por trás do pescado que você come

    Por Ruth Beatriz Mezzalira Pincinato Ilustração: Joana Ho O pescado é uma fonte importante de proteína produzida pela aquicultura e pela pesca (o “pescado” feito no laboratório ainda não é uma realidade no mercado), que são importantes meios de vida para muitas pessoas (assista aqui o vídeo sobre o relatório da FAO, 2020). No entanto, esses dois métodos de produção são muito diferentes entre si. Na aquicultura tem-se um controle maior do processo de produção, que permite pesquisa e desenvolvimento, gerando inovação e aumento da produtividade, ou seja, uma maior produção de pescado com a mesma quantidade de insumos. A aquicultura produz os peixes, camarões e mariscos usando larvas (que são por sua vez, na maioria dos casos, produzidas também por cultivo), água, e ração (atualmente, a ração é constituída principalmente de insumos que não vem da pesca). Os principais cultivos trabalham com um ciclo fechado e não dependem de obter larvas do ambiente natural para a engorda. Já a pesca depende principalmente das condições ambientais ou seja, mesmo usando petrechos de pesca, sondas e embarcações, a pesca depende dos processos naturais que ocorrem nos oceanos e rios para produzir o pescado. Outro aspecto que diferencia os dois modelos de produção é quanto aos direitos de propriedade. Os direitos de propriedade na aquicultura são relativamente melhor definidos do que na atividade pesqueira. Por direitos de propriedade se entende o direito que indivíduos ou organizações têm de controlar o acesso a bens de que são proprietários. Direitos bem definidos dependem de aspectos como o quanto esse direito limita outros indivíduos no uso do recurso natural (uso exclusivo e seguro), por quanto tempo esse direito é válido (cada ano exige renovação ou se é válido em perpetuidade), e também se os proprietários podem negociar o direito com outros (uso transferível). Em outras palavras, o direito de propriedade se assemelha a privatização do bem que, no nosso caso, é um recurso natural e pertence a todos (no caso do pescado selvagem). Isso inclui, por exemplo, restringir o acesso ao pescado selvagem ou a uma área específica do oceano para um número limitado de pescadores/indivíduos/entidades. Quando os direitos de propriedade são bem definidos existe um incentivo para não sobre-explotar o recurso natural e também a utilizá-lo da maneira mais eficiente possível. Para muitas pescarias no Brasil e no mundo esse não é o caso. Essas características distintas das duas tecnologias são a base do desenvolvimento que vemos no gráfico abaixo: a produção vinda da aquicultura tem crescido rapidamente, enquanto que os desembarques da pesca estão relativamente estáveis desde os anos 80 - por volta de 90 milhões de toneladas por ano. A produção de pescado no Brasil tem esse mesmo padrão. Quantidade de pescado produzido pela pesca e pela aquicultura mundialmente (milhões de toneladas), de 1950 a 2017. Fonte: A autora utilizando o banco de dados do FishStat (FAO, 2020), licença CC BY. Em 2010, dois economistas compararam as condições de produção de salmão proveniente da aquicultura (principalmente Noruega e Chile) com as condições de produção da pesca (Alasca). De modo geral, ao longo dos anos os aquicultores de salmão conseguiram abaixar os custos de produção usando melhores tecnologias (e.g. vacinas, rações e equipamentos), garantindo mais lucro na atividade. Com um custo menor, os aquicultores conseguem oferecer um preço mais competitivo no mercado do salmão. Um ponto importante nessa história do salmão é a definição da extensão do mercado do salmão. O salmão é, hoje em dia, um dos pescados mais comercializados internacionalmente. Existe um mercado global para esse pescado, que é relativamente indiferente quanto a tecnologia que o produz. Isso faz com que o preço que os pescadores do Alasca pedem para o seu produto dependa do preço que os aquicultores na Noruega cobram (e vice-versa). Então, considerando que a maior parte dos consumidores não percebe ou não se importa com a diferença entre o salmão pescado e o da aquicultura, os dois produtos competem diretamente por uma fatia maior do mercado. Essa competição tende a colocar uma pressão para reduzir os preços do salmão (independente da tecnologia de produção). Os pescadores de salmão têm que ajustar o preço para continuarem com a sua fatia do mercado. Entretanto, sendo difícil abaixar os custos de produção, o lucro também é reduzido. Abaixar os custos sem melhorar a tecnologia não é fácil. Os pescadores de salmão do Alasca usaram seu desenvolvimento tecnológico (por exemplo, tipo de barco e arte de pesca) para garantir o acesso ao peixe que é limitado pelo tipo de manejo. Lá no Alasca, o pescador tem o direito a uma quota de salmão baseada e restrita ao tipo de barco e petrechos que ele usa. Isso quer dizer que existe relativamente pouco incentivo para investir em inovações em um tipo de barco ou em petrechos diferentes dos que são estabelecidos pelas autoridades para o manejo e que garantem o direto de acesso ao recurso natural. É claro que existem inovações e melhorias dentro das limitações impostas pelo manejo, mas comparando com a aquicultura existem menos. Fazendo um paralelo com casos no Brasil, analisei a extensão do mercado de dois grupos importantes de pescado para o Brasil, a sardinha e os camarões. Os resultados da minha análise indicaram que a sardinha produzida pela pesca no Brasil e as sardinhas importadas competem no mesmo mercado (eu usei aqui dados do CEAGESP). Da mesma forma, os camarões pescados (camarão rosa e camarão sete-barbas) também competem com os camarões produzidos pela aquicultura, isto é, fazem parte do mesmo mercado. Tanto as importações quanto a aquicultura contribuem para uma maior oferta do produto. Assim, essa maior oferta coloca uma pressão nos preços desses pescados no mercado nacional e limitam o aumento relativo dos preços pagos aos pescadores nacionais. Dado a ausência de direitos de propriedade bem definidos na pesca desses recursos, pode-se esperar uma redução na renda dos pescadores e no esforço pesqueiro (o custo de sair para pescar não é compensado pelo preço do pescado). Isso beneficia de uma certa maneira as condições dos estoques pesqueiros. No longo prazo, com a população humana aumentando e com os recursos naturais se tornando cada vez mais escassos, o pescado como fonte de proteína se torna cada vez mais importante na questão de seguridade alimentar (é importante lembrar que para diversas regiões e comunidades, o pescado é questão de subsistência e seguridade alimentar). Além disso, a pegada ambiental do pescado é menor do que a de outras fontes de proteínas. Por exemplo, em um estudo da revista Science, foram estimados diversos impactos ambientais para as diferentes fontes de proteínas para o consumidor. As emissões de gases do efeito estufa na produção de carne de vaca foram estimadas em 50 kg de CO2 equivalente por 100 g de proteína, enquanto que a de porco ~8, a de frango e a de pescado cultivado ~6.4 Uso da terra, de água doce e outras emissões no meio ambiente também colocam o peixe de cultivo como uma das fontes de proteína com menor impacto. A quantidade de pescado a ser produzido (oferta) é uma decisão do produtor e do pescador que depende do preço que o pescado pode alcançar no mercado e de quanto os consumidores querem e estão dispostos a pagar pelo produto (demanda). No geral, a relação entre o preço do pescado e a quantidade que os produtores estão dispostos a produzir é positiva: quanto maior o preço mais os produtores estarão dispostos a produzir, como mostra a figura abaixo. Incluído neste preço está o custo de produção do pescado. Assim, dada uma certa demanda, caso o preço pago ao produtor não compense o custo, ele não terá interesse em produzir o pescado. Curvas de demanda e oferta para o pescado. Fonte: Ruth Pincinato com licenças CC BY. Além do custo em si, outras decisões tomadas pelos produtores e os demais elos na cadeia de produção são essenciais para o sucesso desses dois setores. Antes de falar nessas decisões é importante ter em mente o conceito básico em economia de que “não existe lanche de graça”. O que isso quer dizer é que existe um custo em todas as decisões que tomamos e que alguém paga por elas. Esse custo é associado ao fato de que os recursos são escassos e você tem que fazer uma escolha. No exemplo clássico do lanche, mesmo que alguém lhe ofereça um lanche, sem nenhuma expectativa de que receberá algo em retorno, existe ainda o custo do seu tempo para comer esse lanche que você poderia ter gasto em alguma alternativa. É claro que geralmente comida (boa) de graça pode ser difícil de negar, mas isso só significa que o preço da sua alternativa (por exemplo, “gastar” o seu tempo) é menor. No geral, nós diariamente utilizamos esse conceito: acordar mais cedo para correr ou dormir mais um pouco, comprar e consumir um produto orgânico ou convencional, casar ou comprar uma bicicleta.. e por aí vai. O custo-oportunidade, ou o uso alternativo de tempo e dinheiro, também está presente na atividade pesqueira e na aquicultura. Por exemplo, custo-oportunidade de onde os produtores vão pescar ou colocar a fazenda de cultivo, custo-oportunidade do tipo de pescado que vão pescar ou cultivar (ex. salmão ou tilápia), sua qualidade e tipo de produto final (ex. filé ou inteiro). Todas essas decisões que os produtores de pescado têm que tomar afetam não só os custos, mas também contribuem para a renda da indústria do pescado. Eu disse antes que no geral os pescadores e aquicultores tem pouca margem para aumentar o preço do produto (e, portanto sua renda). Uma das alternativas para agregar valor ao produto é o processamento e/ou a diferenciação por seus atributos. Na foto abaixo podemos ver dois tipos de produtos: um corte de salmão com qualidade de sashimi, embalado e vendido nas prateleiras do supermercado aqui perto de casa (e já ouvi dizer que no Japão existe uma máquina como aquelas de refrigerante para esse produto) e diversos peixes inteiros (alguns com selo de certificação), incluindo salmão (segunda foto de cima para baixo) no mercado de atacadista em Las Vegas (USA). É claro que para processar o salmão existe um custo extra, mas ao mesmo tempo, os consumidores que preferem fazer sashimi em casa sem ter que filetar o peixe (que diga-se de passagem não é fácil ter um bom rendimento na filetagem se você não tem muita experiência) pagam mais por esse benefício. Esses consumidores estão considerando aqui o custo-oportunidade do tempo e dinheiro deles. Outros produtores focam na diferenciação do produto em relação a atributos como origem (por exemplo, do Alasca, da Noruega, do Chile), certificações (por exemplo, Dolphin safe e MSC), tamanho, entre outros. Na foto abaixo com os diversos peixes inteiros podemos ver que alguns possuem uma etiqueta indicando atributos como: “selvagem” e “orgânico”. Nesse caso os produtores estão considerando que um segmento dos consumidores está disposto a pagar mais por esses atributos. Salmão (marca “salma”) em corte para sashimi no supermercado em Stavanger (Noruega) (primeira foto de cima para baixo), e diversos peixes inteiros (alguns com selo de certificação), incluindo salmão (segunda foto de cima para baixo) num atacadista em Las Vegas (EUA). Fonte: Ruth Pincinato com licenças CC BY . Existem ainda custos que estão “escondidos” na produção, tanto na pesca como na aquicultura. No geral, esses custos são chamados de externalidades negativas, porque a indústria os compartilha com a sociedade ao invés de incluir como parte dos seus custos. Por exemplo, destruição de habitat, sobre-explotação de recursos naturais, poluição, entre outros. Uma das formas de incluir esses custos na conta da indústria é através de governança e regulamentos impostos pelo governo. Voltando na história do salmão, os custos de produção da indústria do salmão na Noruega eram baixos até meados dos anos 2000, mas nos últimos anos o custo vem crescendo novamente. Isso é em parte devido ao alto custo da ração e em parte devido aos custos para evitar e remediar impactos ambientais, como infestações de parasitas e doenças que podem ser transmitidas para os animais selvagens. O governo norueguês tem estabelecido diversas restrições para evitar os impactos ambientais causados pela produção de salmão. A indústria também tem investido em alternativas de produção que a tornem mais sustentável no longo prazo, utilizando, por exemplo, sistemas fechados de produção em que a água é recirculada e o resíduo sólido é tratado. Entretanto, existem tantos aspectos que compõe a decisão dos produtores que é difícil elaborar um sistema de governança com regulamentos de entrada e saída (e. g. captura total permitida, total de biomassa viva nas redes de cultivo, total de parasitas permitido por peixe, a quantidade de descarga de efluentes permitida, o tamanho de malha de rede e defeso – interrupção da pesca por um prazo geralmente relacionado ao período reprodutivo das espécies) que não deixe margem para consequências não intencionais. O ser humano, e nesse sentido, a indústria também, são movidos por incentivos. Então, melhor do que ditar regras é oferecer incentivos que incluam os custos escondidos dessas atividades. Assim, para garantir seguridade alimentar com um aumento da oferta de pescado ao longo dos anos e o desenvolvimento sustentável dessas indústrias é necessário tanto oferecer os incentivos certos para garantir a internalização das externalidades negativas, como também para garantir produtividade e demanda. Referências: FAO, 2020. Aquaculture production 1950-2017. FishStatJ: Universal software for fishery statistical time series [WWW Document]. Valderrama, Diego, e James L. Anderson. 2010. “Market Interactions between Aquaculture and Common-Property Fisheries: Recent Evidence from the Bristol Bay Sockeye Salmon Fishery in Alaska.” Journal of Environmental Economics and Management 59(2): 115–28. Pincinato, R.B.M., Asche, F., 2018. Domestic landings and imports of seafood in emerging economies: The Brazilian sardines market. Ocean Coast. Manag. 165, 9–14. Pincinato, R.B.M., Asche, F., 2016. Market integration in brazilian shrimp markets. Aquac. Econ. Manag. 20, 357–367. Poore, J., Nemecek, T., 2018. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science (80-. ). 360, 987–992. https://doi.org/10.1126/science.aaq0216 Sobre a autora: Ruth é Jundiaiense (SP) com endereço em Stavanger (Noruega). Oceanógrafa formada pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora na área de economia pela Universidade de Stavanger (UiS). Dedica-se a entender quais são os incentivos que os agentes econômicos (o que nos incluí) recebem para utilizar os recursos naturais de uma forma sustentável. #CiênciasDoMar #Pescado #BiologiaPesqueira #Economia #EconomiaEcológica #RecursosNaturais #Pesca #Sustentabilidade #SegurançaAlimentar #Convidados

  • Marisqueiras

    Por Gabrielle Souza Ilustração: Joana Ho Na construção histórica social, as profissões sempre foram divididas entre os sexos feminino e masculino, ou seja, determinadas atividades eram vistas como apropriadas para homens, enquanto outras que não exigiam muito esforço físico, geralmente na área do cuidado (dona de casa, professora, enfermeira, etc) para mulheres. Assim muitas de nós sempre fomos desencorajadas a realizar determinadas funções, pois reza a lenda que somos biologicamente “mais frágeis e menos inteligentes”. A partir daí já dá para ver que toda essa questão não passa de uma desculpa do patriarcado né?! Mas você deve estar se perguntando aonde eu quero chegar com isso. Bom, o que eu quero dizer é que, a cada dia que passa, estas relações de profissões direcionadas para determinados indivíduos estão caindo por terra e que, nós mulheres, estamos mostrando que podemos estar sim, em funções e cargos reconhecidos como “masculinizados”. Um grande exemplo disso são as mulheres marisqueiras. Elas estão espalhadas por todo o litoral do Brasil e realizam uma atividade chamada de mariscagem. A mariscagem consiste no processo de captura contínua de mariscos de forma artesanal, seja em regime de economia familiar ou autônoma, para seu próprio sustento ou comercialização. Os mariscos retirados nessa atividade geralmente são capturados em bancos de lama ou areia, que localizam-se nos mangues ou próximo a eles. A captura se dá de diversas formas, porém a mais comum é a catação manual, onde as mulheres raspam a areia com o auxílio de uma colher até encontrar o marisco. Fonte Esta atividade inicialmente era realizada por homens, pescadores, que diante da sociedade seriam os mais aptos para o processo, pois são fortes e aguentam idas aos mares e mangues para obter o sustento da família. Enquanto o tratamento da captura sempre foi feito pelas mulheres, ou seja, são elas que limpam os peixes e mariscos que seus maridos, irmãos, tios, pais trazem do mar. Mais recentemente, as mulheres começaram a assumir também o papel de extração dos mariscos. Porém, esta atividade é simplesmente invisível, apesar de extremamente importante, social e economicamente falando. A partir disso, só podemos concluir que, pelo simples fato de serem mulheres, não existe reconhecimento de seus direitos diante da profissão que exercem, seja por seus companheiros e familiares, como também pelo Estado, por meio do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que garante a aposentadoria e outro direitos. A falta destes direitos trabalhistas faz com que estas mulheres trabalhem em condições inadequadas, em geral com carga horária exacerbada da jornada de trabalho. Existem estudos que realizam um perfil social dessas mulheres, criando um panorama de aspectos socioeconômicos e de como elas se sentem sobre as situações que enfrentam. Um desses trabalhos foi realizado na Comunidade de Barra Grande, município de Cajueiro da Praia - Piauí, com uma faixa de 4 km de praia, que por decreto federal é uma Unidade Conservação, e está na categoria de uso sustentável. A grande parte das marisqueiras está na faixa etária entre 30 e 60 anos, sendo a média de idade de 42 anos. A falta de escolaridade é alta, as mulheres que cursaram o ensino fundamental incompleto correspondem a 34,92%, e quando somadas as não escolarizadas (17,46%) elevam ainda mais o percentual. A situação conjugal é predominantemente de mulheres casadas (44,44%), seguidas das que moram junto (28,57%), e a média de filhos é de quatro,havendo uma variação de zero a doze filhos. Muitas dessas mulheres realizam outras atividades para auxiliar na renda mensal da família, como por exemplo: lavadeiras, rendistas, cozinheiras etc. Além de contarem suas histórias de vida, opinam sobre os problemas que enfrentam. Estes estão relacionados principalmente às condições de trabalho, e às questões burocráticas, solicitando a criação de um associação própria de mulheres marisqueiras, pois elas se sentem excluídas das colônias de pescadores que já existem no território. Além disso, as marisqueiras travam uma luta diária contra o machismo. Mas quem disse que elas desistem?! Um exemplo prático dessa luta, além da persistência em trabalhar mesmo diante de tantas dificuldades, é o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 47/2017. Este projeto define a profissão de marisqueira e suas competências além das responsabilidade que o poder público tem nas ações desenvolvidas pelas trabalhadoras, assegurando seus direitos e deveres. As mulheres vêm conquistando o seu lugar na sociedade e dentro das organizações de trabalho, lugar que é seu por direito. Mas ainda reconhecemos que há muito a ser feito para que conquistemos uma forma igualitária de tratamento entre homens e mulheres. Valorizar o trabalho das mulheres marisqueiras é também valorizar a preservação da natureza, é reconhecer de forma justa um trabalho que é realizado com carinho, amor e dedicação. Vídeos recomendados: https://vimeo.com/96543725 https://projetosereias.com/videos/ Para saber mais: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/07/31/politica-de-apoio-a-atividade-de-mulheres-marisqueiras-sera-analisada-na-cdh Referências Bibliográficas FREITAS, Simone Tupinambá et al. Conhecimento tradicional das marisqueiras de Barra Grande, área de proteção ambiental do delta do Rio Parnaíba, Piauí, Brasil. Ambiente & Sociedade, [s.l.], v. 15, n. 2, p.91-112, ago. 2012. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1414-753x2012000200006. Disponível em: . Acesso em: 01 mar. 2018 Diário do Nordeste. Marisqueiras reivindicam seus direitos. 2003. Disponível em: . Acesso em: 01 mar. 2018. Senado Notícias. Política de apoio à atividade de mulheres marisqueiras será analisada na CDH. 2017. Disponível em: . Acesso em: 01 mar. 2018. #8demarço #diadamulher #gabriellesouza #joanaho #mariscagem #marisqueiras #mulheresnaciência

  • Como cientistas obtêm dados para estudar os ambientes marinhos?

    Por Jana del Favero Ilustração: Joana Ho Desenvolver uma pesquisa científica demanda muito trabalho e dedicação. São meses ou até anos focados no mesmo tópico, começando pelo planejamento da pesquisa, obtenção das amostras e/ou dados, análises, e chegando finalmente na publicação dos resultados finais. Dentre as etapas que envolvem os estudos dos ecossistemas marinhos, a obtenção correta de dados ou amostras - chamada de amostragem - é fundamental. Para o desenvolvimento de um plano amostral é imprescindível a atenção com alguns fatores, tais como: o que devemos amostrar; o quanto devemos amostrar; como, onde e quando devemos amostrar. Para isso é preciso que os objetivos do trabalho estejam bem definidos, pois não podemos simplesmente perguntar pro Netuno, esperando obter todas as respostas. Para entender os processos que ocorrem no ambiente marinho é necessário coletar informações que permitam observar o que está na superfície, na coluna de água, sobre o leito marinho ou abaixo do substrato. Existem diferentes formas de estudar o oceano, algumas envolvem ir até ele e realizar coletas e/ou medições e em outras é possível obter informações sobre o mar sem necessariamente ir até ele. Um exemplo desse segundo caso são os estudos que usam informações obtidas a partir do sensoriamento remoto. A seguir apresentaremos alguns métodos para obter dados biológicos e abióticos das principais zonas oceanográficas: pelágica (relativo à coluna de água) e bentônica (associada ao fundo oceânico). Plâncton Organismos planctônicos são comumente classificados de acordo com o seu tamanho. Essa classificação tem um importante significado para determinar o aparelho utilizado e/ou a melhor abertura de malha (ou do filtro) para capturar diferentes grupos. Atualmente, para coletar dados sobre organismos planctônicos, você pode usar garrafas, bombas de sucção, redes, armadilhas e/ou instrumentos ópticos para observação in situ, como o Video Plankton Recorder (VPR). Laser Optical Particle Counter (LOPC). É um aparelho que conta e mede o tamanho de partículas no oceano em tempo real. Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 As garrafas e as bombas de sucção são usadas preferencialmente para a amostragem de organismos de menor tamanho, como vírus, bactérias, ou aqueles que têm baixa mobilidade. Além disso, esses métodos também possibilitam que se conheça a profundidade em que a coleta está sendo realizada e o volume exato de material amostrado. Isso ocorre porque o equipamento só é acionado para realizar a coleta quando está na posição escolhida. Com relação às redes, são diversas as opções em função do tipo de amostra e informação que se pretende coletar. Redes que realizam arrasto vertical ou oblíquo integram informação de toda a coluna de água. No entanto, se o objetivo é conhecer a distribuição vertical dos organismos é necessário usar redes com mecanismos de fechamento, como a Multinet, assim a rede se abre em se fecha em determinada profundidade. Em alguns tipos de rede, como na rede Bongô, é comum o uso de um fluxômetro acoplado na boca da mesma. Ele possibilita o cálculo do volume de água filtrado, que é importante para a padronização dos dados obtidos. Rede Multinet à esquerda e Rede Bongô à direita. Na foto superior dá para notar o fluxômetro que mede o volume de água filtrado. Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 Nécton Dada a diversidade dos organismos nectônicos - organismos que vivem na coluna de água e que tem capacidade natatória para vencer as correntes - diversos tipos de redes são utilizadas para amostrá-los. As redes de cerco, por exemplo, são utilizadas para amostrar peixes que formam cardumes, já as de arrasto para amostrar peixes demersais (que vivem no fundo do oceano) e camarões. Lulas são comumente amostradas através da pesca com linha e anzol, e polvos com armadilhas do tipo covo. No entanto, nem sempre é preciso coletar os indivíduos para se obter os dados necessários. Por exemplo, há estudos que utilizam mergulho científico ou identificação de mamíferos marinhos através de fotografias e observação visual. Rede de arrasto de portas. Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 Bentos Assim como o plâncton, os organismos bentônicos também são classificados por tamanho. Porém, para a coleta de bentos, mais importante do que se conhecer o tamanho, é saber o habitat preferencial que ele ocupa, considerando o tipo de relação desses organismos com o substrato: se constitui epifauna (que vive sobre o leito marinho) ou infauna (que se enterra). A amostragem da epifauna normalmente é feita com equipamentos de arrasto, como redes, trenó e draga. Essas técnicas podem ocasionar também na coleta não intencional de organismos que se enterram, mas não muito profundamente. No caso de organismos que vivem em recifes de coral ou costões rochosos, a coleta pode ser manual (às vezes com a ajuda de instrumento de raspagem), utilizando ou não mergulho. Os pegadores de fundo (como Van veen, box corer e outros) amostram um determinado volume de sedimento onde ficam os organismos epifaunais e infaunais. Pegador de fundo Van veen. Na foto da direita superior nota-se que o pegador acabou de ser aberto à bordo, e na foto inferior temos um exemplo de peneira, usada para peneirar o sedimento e os organismos do Bentos e assim separá-los por classes de tamanho. Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 As amostras usualmente apresentam volume suficiente de sedimento para que os organismos sejam retirados por meio de peneiramento. Assim, ao utilizar peneiras com diferentes malhagens, os organismos já são separados por faixas de tamanho, facilitando a separação e identificação desses, e do próprio sedimento, em laboratório. Atualmente, o uso de veículos subaquáticos (tripulados ou autônomos,) proporcionou avanços nas investigações e amostragens de bentos. Coletas em grandes profundidades ou em locais inacessíveis são alguns exemplos de estudos que só foram possíveis pelo uso dos veículos subaquáticos (no post “Mergulho para a vida na escuridão: uma pesquisa nas profundezas do mar” é contada a experiência de uma pesquisadora que mergulhou em um submersível). Dados abióticos A água obtida para o estudo do plâncton através do uso de garrafas, como a Niskin e a Go-Flo, pode ser utilizada para a obtenção de alguns dados abióticos, como salinidade, oxigênio dissolvido, pH, nutrientes etc. Esses dados são usados para estudar os ciclos biogeoquímicos no ambiente marinho, acidificação do oceano, identificar zonas mais propícias à proliferação de algas, padrões de distribuição da produção primária etc. Normalmente, várias garrafas são acopladas a uma estrutura metálica em forma de carrossel (chamada rosette) e juntos delas são colocados sensores de temperatura, condutividade (para o cálculo da salinidade) e outros (oxigênio dissolvido, pH, fluorescência, turbidez etc). Rosette à bordo do Navio Oceanográfico Atlântico Sul. Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 Um aparelho muito utilizado para coleta de dados da coluna de água é o CTD, do inglês Conductivity, Temperature and Depth, que obtém perfis verticais de condutividade (salinidade), temperatura e pressão (profundidade). O ADCP – do inglês, Acoustic Doppler Current Profiler é um perfilador acústico que mede a direção e a velocidade das correntes. Os dados coletados por esses equipamentos permitem o estudo da estratificação vertical do oceano, identificação de massas de água, fluxos das correntes etc. Análise Após a coleta, o pesquisador iniciará o trabalho em laboratório, analisando as amostras e processando os dados obtidos. O trabalho em laboratório dependerá do objetivo do estudo, mas normalmente consiste em triagem e identificação dos organismos, para então realizar algum outro procedimento, como retirada de otólitos para saber a idade de um peixe ou análise do conteúdo estomacal do animal e dos órgãos reprodutivos, para se obter informações sobre alimentação e reprodução. No caso das amostras/dados abióticos eles também serão processados e analisados. Uma vez que todos os dados estiverem em mãos, inicia-se o processo de interpretação dos mesmos, por meio de análises descritivas, testes estatísticos ou modelagens. Somente após todas essas etapas o cientista poderá compreender o que ocorreu com o ambiente marinho no momento amostrado, e trabalhará na interpretação e escrita dos resultados. Quem acha que o momento mais excitante de um cientista é quando ele grita “EUREKA” ao realizar um experimento, pode estar completamente enganado. Na minha opinião, nós gostamos mesmo é de ter nossos resultados publicados em jornais científicos, que são criteriosamente revistos por pareceristas internacionais e/ou nacionais. Só assim nossos resultados estarão disponíveis para a comunidade acadêmica, podendo embasar novos trabalhos, auxiliar em tomadas de decisões, ou inspirar novas tecnologias. Com esse post mostramos que fazer ciência não é uma tarefa trivial. São diversos aparelhos, métodos e análises que precisam ser cuidadosamente selecionados e utilizados (e olha que nem falamos de todos!). Mas tudo isso deixa a ciência ainda mais fascinante, e nós amamos! #BatePapoComNetuno #CiênciasDoMar #Oceanografia #CiênciaOceânica #Métodos #Pesquisa #Amostragem #JanaMDelFavero

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