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  • As angústias e as delícias de se descobrir mãe

    Por Ju Leonel Ilustração: Caia Colla . (Texto escrito quando estava com 30 semanas de gestação) ​Nunca tive o sonho de ser mãe. Na verdade, questionei inúmeras vezes se a maternidade era para mim… mas no início de setembro de 2019 soube que estava grávida. Às vésperas de uma viagem para apresentar um trabalho em um ​congresso na Colômbia, precisava tomar a vacina contra a febre amarela e como a minha menstruação estava atrasada, fiz o teste de farmácia só para me certificar, já que gestantes não podem tomar a vacina. Foi um momento nada glamouroso: dentro do banheiro minúsculo da UFSC, 15 minutos antes de ir dar aula, porque precisa tomar a vacina ainda naquele dia e só ia ter tempo para isso no intervalo do almoço. Não precisou nem de 1 minuto para aparecerem aqueles dois tracinhos que para sempre mudariam minha vida. Não vou romantizar dizendo que saí feliz e saltitante daquele cubículo pensando em quão completa eu seria como mulher por estar gerando uma vida. Saí de lá, com a cabeça dando mil voltas, pensando na viagem que teria que cancelar (e em quantas outras deixaria de fazer), na aula que teria que ministrar em 15 minutos, se eu saberia que tipo de roupa vestir em um bebê sem sufocá-lo ou deixá-lo com frio, como iria orientar meus alunos durante a licença-maternidade, se seria capaz de parir uma criança, que teria que comer mais saudável, em como estava sendo irresponsável em colocar um ser no mundo em um momento tão caótico, e em muitas outras coisas, das mais variadas naturezas... Vocês não fazem ideia (talvez outras mães me entendam). Passada essa fase de descoberta e questionamentos iniciais, venho aqui compartilhar alguns anseios, medos e coisas boas que vieram depois daquele dia no banheiro da UFSC. Quando soube que teria um filho outros questionamentos vieram: como iria conscientizá-lo sobre os privilégios que teria pelo simples fato de nascer homem - e branco - nessa sociedade patriarcal. Como educá-lo para ser feminista, uma vez que ele não vivenciará na pele as dificuldades e desvantagens impostas às mulheres apenas pelo seu gênero ? Aliado a isso, o fato de sua pele ser branca; como criá-lo antirracista? Hoje, em função de ter ao meu lado um companheiro que é um pai presente, que me apoia pessoal e profissionalmente, que divide as tarefas de casa (e da vida) e, sabendo que tentarei o meu melhor dividindo minhas experiências e meus aprendizados com ele, estou mais resolvida com isso, mas a preocupação não saiu totalmente dos meus pensamentos. A gravidez serviu como uma oportunidade para avaliar meus privilégios e reconhecê-los: desde a possibilidade de ter um bom pré-natal, de estar rodeadas por pessoas queridas, ter acesso a leituras sobre gestação, parto, educação com apego etc. Sou funcionária pública, professora, tenho direito a licença-maternidade e mesmo assim senti receio de contar ao meu chefe imediato sobre a gravidez; receio da reação dele e dos demais colegas,por saber de casos em que as mulheres foram prejudicadas em suas carreiras. Tudo transcorreu bem, mas toda essa situação me fez refletir sobre como esse processo deve ser dificílimo para as mulheres que não têm, como eu, estabilidade garantida e direitos respeitados nos seus empregos, como eu tenho. Durante o primeiro trimestre de​ ​gravidez tive muitos enjoos, por isso foi difícil cumprir minhas obrigações no trabalho. Logo me dei conta de que não seria possível virar noites para atender prazos e compromissos, tive que rever minhas prioridades e aprender a dizer alguns nãos. Pode ser algo simples para alguns, mas para mim essa consciência de que não precisava "abraçar o mundo" foi um passo importante. Também entendi a importância de ter um companheiro e pai presente para dividir comigo as preocupações, me acalmar e que até já está fazendo planos para proporcionar as condições para que eu possa atender meus alunos e manter algumas atividades durante a licença maternidade, que lê ​​todos os livros/textos sobre gestação, parto e pós-parto para entender o que estou passando (física e psicologicamente) e assim me auxiliar da melhor forma possível. Agora, para o meu filho Ian: - sou apaixonada pelo meu trabalho porque acredito no ensino e na ciência. Mas, isso não significa que não terei tempo para você; pelo contrário, quero compartilhar tudo isso contigo. - espero que consiga te mostrar que lutamos sempre em busca de um mundo melhor não só para você, mas para todos, em especial os que não tem tantos privilégios. - você me tornou uma pessoa melhor desde o dia em que vi aquelas duas listrinhas no teste de gravidez. - tudo que faço hoje é um pouco por e para você. Desde quando preparo uma aula, escrevo​ um texto para o blog, aceito uma orientação​,​ até quando preparo um almoço, cuido da horta, escolho um livro para ler... Em tudo tem um pensamento para você. - as vezes vai parecer que farei escolhas egoístas. Por exemplo: em alguns momentos vou precisar de um tempo só para mim para ​manter a sanidade. E isso, indiscutivelmente, será para ser uma pessoa melhor para você. - sempre estarei ao seu lado! Colocarei uma vida nesse mundo doido, então, mais do que nunca, sinto a necessidade de não me calar, de lutar e trabalhar por um mundo mais justo, com espaço para todos. Espero dar conta do recado. Nota da autora: a gestação/maternidade está sendo uma fase muito boa para mim. Mas, mais do que nunca, entendo que é importante não romantizar e respeito a opinião de quem não escolhe a maternidade, e que pode ser difícil até mesmo para aquelas que sonharam com esse momento. #maternidade #maternidadecomciência #antirracismo #feminismo #julianaleonel #mulheresnaciência Sugestões de leitura para as mamães: Para educar crianças feministas (por Chimamanda Ngozi Adichie e Denise Bottmann) Pequeno manual antirracista (Djamila Ribeiro) Sejamos todos feministas (por Chimamanda Ngozi Adichie) Mulheres. Raça e classe (Angela Davis) A liberdade é uma luta constante (Angela Davis) Coleção Feminismos Plurais (Djamila Ribeiro)

  • Precisamos falar sobre creches nas universidades

    Por Caia Colla Sempre ouvi falar das creches da USP. Quando nasceu minha primeira filha tentei mas não consegui vaga. A vaga veio de presente, uma semana antes do nascimento da minha segunda filha, a mais velha tinha dois anos e meio. Elas iniciaram na creche em 2014 e meu coração transbordava de alegria. Finalmente vi de perto o que era aquela escola... O espaço, o primor no trabalho, educadoras incríveis, senti que aquele seria um lugar importante nas nossas vidas. Aí os ventos mudaram. O reitor Marco Antônio Zago começou a mostrar seu plano de governo, sua intolerância e sua aversão ao diálogo. Foi o ano de uma greve muito longa que afetou toda comunidade e o plano de incentivo à demissão voluntária foi implantado. O ano acabou sem que pudéssemos prever o que vinha adiante, inscrições para as vagas nas creches foram abertas, as pessoas inscreveram seus filhos e aguardavam o resultado em janeiro. Janeiro veio sem o resultado mas com um aviso importante: NENHUMA CRIANÇA ENTRARIA EM NENHUMA DAS CRECHES DA USP NAQUELE ANO. Assim, sem explicação, sem preparo, sem discussão. Começamos ali uma luta que até hoje existe. Começamos pedindo reuniões para entendermos o que estava acontecendo e quem nos recebia era o Prof. Valdir Jorge, superintendente da SAS naquela época e representante do reitor. Conhecido também como bagre ensaboado, ele deslizava pelas perguntas e estava claramente tentando nos enrolar. Dizia que as vagas não foram abertas por conta do plano de demissão, alguns profissionais aderiram e segundo a reitoria, não seria seguro receber novas crianças com um quadro de funcionários reduzido. Um estudo foi feito por cada creche, quantas crianças poderiam ser recebidas em cada creche considerando o novo quadro. Isso foi apresentado ao professor. Era uma diferença muito pequena, todas as creches tinham condições plenas de receber um bom número de crianças. A partir daquele momento o bagre, além de ensaboado, passou a ser surdo. Acabou. Era (e ainda é) como tentar dialogar com uma porta, não existe resposta, não existem explicações. Lembro de me preocupar com o futuro das creches. O próximo ano veio e as vagas não foram abertas. Crianças acabando seu ciclo, indo embora e nenhuma criança entrando. As creches começaram a esvaziar e o ânimo das pessoas foi caindo, era triste, é triste. Mas com a indignação nasce a luta. Um grupo de pais, funcionários e simpatizantes começou a se organizar, fazer parcerias, fazer barulho e conquistar apoio. Que luta bonita, que causa nobre. Por conta desse esforço muitos conselheiros se sensibilizaram e no final de 2016 foi votada a reabertura das vagas na capacidade das creches pelo Conselho Universitário, órgão máximo da Universidade. A maioria dos conselheiros votou pela reabertura. O reitor, além de não cumprir a decisão do Conselho atacou mais uma vez e no início de 2017, durante as férias e sem qualquer aviso, a reitoria mandou um caminhão para desmontar a creche oeste. As crianças iriam para a creche central e 58 vagas seriam abertas para a central.  O grupo mobilizado ficou sabendo e no mesmo momento ocupou a creche oeste. Isso aconteceu no dia 16 de janeiro e a ocupação continua, impedindo a reitoria de tomar o prédio das crianças. As creches têm capacidade para 700 crianças e hoje, temos apenas 210 matriculadas. As creches da USP tem um papel importantíssimo na Universidade. É campo de estudo para as faculdades de Fonoaudiologia, Psicologia, Educação, Odontologia e de lá saem inúmeros trabalhos, teses e dissertações. É um lugar de formação de profissionais e referência nacional e internacional. Enquanto muitos países entendem a primeira infância como a fase mais importante na vida de uma pessoa e investem cada vez mais na educação infantil, a maior universidade da América Latina faz o contrário. Um plano foi traçado para acabar com o programa de educação infantil da USP, isso só não aconteceu porque existe resistência e luta. Vídeo Carta Saiba mais: Link para o primeiro Vídeo Carta: https://www.dropbox.com/s/z5lfd2p6ifj6onm/2017-01-24-VIDEO-00000007.mp4?dl=0 www.pelascrechesdausp.com www.facebook.com/ocupacaocrecheaberta #acrechemalajudaamulhercientista #crecheusp #mulheresnaciência #caiacolla

  • Como pequeninos animais no oceano influenciam o dióxido de carbono atmosférico?

    Por Emma Cavan O importante papel de pequenas (<5mm) plantas e animais no oceano não é tão conhecido pelo público como o dos animais carismáticos, que a mídia prefere chamar de “fofinhos” (“cuddly”, em inglês), como golfinhos e baleias. São chamados de plâncton os organismos (tanto plantas como animais) que não conseguem nadar contra as correntes, seu tamanho varia desde algas microscópicas à grandes águas-vivas. Minha pesquisa é focada na bomba biológica de carbono, descrito por Yonara Garcia em um post prévio “ A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas ”, de maio de 2016. A bomba biológica de carbono descreve como o fitoplâncton (plantas) e o zooplâncton (animais) sequestram dióxido de carbono da atmosfera para o oceano profundo. Meu interesse é desvendar como esses organismos transportam carbono orgânico (em forma de partículas) na camada superior do oceano (primeiros 500 m). O zooplâncton varia desde pequenos crustáceos (parecidos com camarões) até organismos muito maiores, como salpas e águas-vivas. Vou me concentrar aqui apenas nos crustáceos. Dentre eles está o krill, um grupo de organismos zooplanctônicos muito conhecido. Eles são considerados grandes (2-5 mm) para seu grupo e são encontrados abundantemente no Oceano Austral, onde  são presas de grandes baleias como as jubarte . O zooplâncton influencia na quantidade de carbono orgânico (originalmente fotossintetizado pelo fitoplâncton na superfície dos oceanos) que atinge o mar profundo, uma vez que organismos do plâncton: 1- Respiram o carbono inorgânico 2- Ingerem o carbono orgânico e liberam uma parte deste em forma de pelotas fecais (cocô de plâncton). 3- Quebram partículas em pedaços menores Para complicar ainda mais o processo, o zooplâncton pode migrar verticalmente centenas de metros por dia. Então  podem se alimentar na superfície à noite e depois descer a maiores profundidades para liberar pelotas fecais, aumentando o volume de carbono que chega ao oceano profundo e fica longe da atmosfera. Por essa razão, o zooplâncton é particularmente difícil de representar em modelos biogeoquímicos! Tenho ido ao mar no oceano Antártico l e no Pacífico equatorial buscando descobrir como o zooplâncton age na transferência de carbono orgânico para o mar profundo. Oceano Antártico Trabalhar neste ambiente é uma experiência fantástica. Deve ser um dos lugares mais bonitos do planeta. Ficávamos  cercados de muitos pinguins todos os dias! Voltando à ciência… como eu disse, no oceano Antártico há um grande número de crustáceos pertencentes ao zooplâncton, como krill e copépodes. Eles são dominantes nas águas gélidas em torno da Antártica, mas sua ocorrência é muito fragmentada, como manchas (não são espalhados homogeneamente). Lá eu coletei partículas orgânicas que estavam afundando (cheias de carbono), em sua maioria pelotas fecais do zooplâncton (e não detritos fitoplanctônicos). Isso sugere que a maior parte do carbono orgânico que chega no fundo oceânico é via zooplâncton, que se alimenta de fitoplâncton e libera pelotas fecais. Notou-se que a quantidade de zooplâncton afeta o número de partículas que afundam a partir da superfície do oceano. Além disso, se o zooplâncton alimenta-se de fitoplâncton fresco (pelotas fecais marrons), de detritos ou de suas próprias fezes (pelotas fecais brancas – e sim, eles comem seu próprio cocô!), isso afeta quão eficientemente o carbono orgânico chega ao oceano profundo! Então, essas criaturinhas têm um papel importante aqui, na transferência de carbono orgânico da superfície do mar para o fundo. Pacífico equatorial Trabalhar aqui foi muito diferente do que trabalhar no Oceano austral. É um ambiente muito quente e quase não vi nuvens durante todo o cruzeiro. Estávamos trabalhando na costa pacífica da Guatemala. Há muito menos vida marinha aqui, mas eu pude ver um monte de tartarugas e até um tubarão raposa! Comparado ao oceano Antártico l, o Pacífico equatorial é muito estável, com poucas variações sazonais. Mas, ao mesmo tempo, entre 100-1000 metros de profundidade, as baixas concentrações de oxigênio tornam-se um obstáculo, o que faz com que os organismos fiquem sem oxigênio suficiente nessas profundidades. Zonas de oxigênio mínimo (ZOM) são comuns no planeta, particularmente perto de costas como a do Peru e a  costa oeste da África. Muitos estudos mostram que, nas ZOM, maiores proporções de carbono orgânico atingem o fundo, quando comparadas ao resto do mundo. Mas a razão para isso ainda é desconhecida, então fui ao mar para tentar descobrir. Há duas razões principais que fazem com que o carbono orgânico não atinja o oceano profundo: 1- Ele é consumido e respirado pelo zooplâncton 2 – ou é hidrolisado por bactérias Então eu quis testar se a remineralização bacteriana (o processo de converter carbono orgânico de volta à carbono inorgânico, como dióxido de carbono) é reduzido em ZOMs devido ao limitado metabolismo bacteriano em zonas de baixa concentração de oxigênio. Para tanto, medi a taxa de respiração de micro-organismos  em partículas, e o resultado mostrou que estes são muito bem adaptados a lidar com as condições de pouco oxigênio e são responsáveis pela maior parte da degradação de carbono orgânico! Isso mostrou que é provável que uma redução na respiração zooplanctônica e o processamento de partículas na ZOM devem ser os porquês do alto depósito de carbono orgânico ao fundo oceânico. Essa é uma hipótese razoável, já que estudos mostraram que a abundância de zooplâncton é baixa em ZOMs e que seu metabolismo é bem reduzido. O ciclo de vida de bactérias é bem mais curto do que o do zooplâncton, então elas podem se desenvolver muito mais rápido em condições desafiadoras. Então, no Pacífico equatorial, a ausência de zooplâncton significa que mais carbono chega ao oceano profundo e não é devolvido à atmosfera. Resumindo, o zooplâncton têm uma relação complicada com o carbono no oceano. A presença ou ausência de ambos pode aumentar a quantidade de carbono que chega ao oceano profundo, dependendo somente de qual ecossistema oceânico eles fazem parte. É por isso que é complicado modelar os efeitos do zooplâncton no ciclo de carbono e são necessárias mais pesquisas para entender melhor como isso acontece. Mas devemos nos lembrar que os animais pequeninos influenciam, e muito, na quantidade de carbono que existe na atmosfera. Quem diria? Sobre Emma: Emma é uma bióloga marinha que tornou-se oceanógrafa biológica (o que significa, basicamente, ser uma bióloga marinha focada em pequenos organismos!). Cresceu na costa sul da Inglaterra e sua graduação e doutorado deu-se no Centro Nacional de Oceanografia da Universidade de Southampton. Acabou recentemente seu doutorado e quer continuar na academia, fazendo pesquisas. Emma se interessa muito em conectar ciência e política, passou 3 meses trabalhando no centro de ciências políticas na Royal Society em Londres. Fora o lado científico, Emma gosta de viajar sempre que possível e tem sido capaz de fazê-lo tanto para lazer quanto para trabalho. Também adora passear de caiaque, acampar, ler, cochilar e socializar. Siga-a no twitter (@emma_cavan) ou visite http://emmacavan.wix.com/emmacavan #antártica #bactéria #bombabiológica #ciênciasdomar #convidados #pelotasfecais #plâncton #emmacavan

  • Em mares revoltos

    Desafios, soluções e oportunidades frente à pandemia, na perspectiva de jovens pesquisadores em ciências marinhas Por: Luciana Shigihara Lima e colaboradores* A pandemia de Covid-19 impôs uma nova realidade social e acadêmica aos pesquisadores em todo o mundo. O campo da ciência marinha foi impactado de várias maneiras, desde o cancelamento de atividades de laboratório e de campo em terra ou no mar. Muitos jovens pesquisadores, vinculados a programas de pós-graduação, estão enfrentando problemas relacionados à carreira acadêmica, além de impactos psicológicos negativos decorrentes do cenário nacional e global. Diante da conjuntura atual, publicamos recentemente um artigo científico na revista Frontiers in Marine Science , onde reunimos informações sobre os desafios, soluções e oportunidades para pesquisadores de pós-graduação no nosso campo de atuação, e discutimos os desafios relevantes de curto e longo prazo causados ​pela pandemia. Nele falamos, por exemplo, sobre como a interrupção abrupta de atividades presenciais nos centros universitários e eventos científicos tem afetado a vida acadêmica dos cientistas, principalmente em início de carreira, na área das ciências do mar. Este novo cenário apresenta desafios em diferentes níveis: seja pela readaptação da dinâmica pessoal ou familiar, seja pelo redimensionamento de projetos e pesquisas. O trabalho em laboratório e as coletas de campo ficaram limitados, gerando eventuais atrasos com impactos diretos na experimentação e na aquisição de resultados. As soluções oferecidas por universidades e fundações de pesquisa variam, sendo que as melhores envolvem extensões de projeto e salário. Um outro contratempo foi o replanejamento de projetos de pesquisa em que atividades de campo foram congeladas, ou, até mesmo, excluídas do plano de trabalho, dada a dificuldade e incerteza associada ao período de isolamento social. Dentre as soluções e ações imediatas para dar continuidade às atividades acadêmicas, o suporte on-line, por meio de encontros de trabalho e conferências, tem sido amplamente utilizado desde o início do isolamento. Ferramentas on-line , tanto de comunicação como de gerenciamento de projetos, têm diminuído distâncias e possibilitado o trabalho de forma remota. O aumento das ofertas de cursos de forma remota tem permitido a continuidade de estudos e especializações neste período. A combinação do uso dessas ferramentas pode possibilitar o aumento da produtividade e permitir a continuidade de projetos; inclusive, podem seguir sendo utilizadas no período pós- pandemia, tornando a pesquisa mais aberta e inclusiva. Contudo, as soluções mencionadas acima implicam que o acesso à internet seja universal, o que não é usual em diversas partes do mundo. A vida pessoal também pode afetar a produtividade acadêmica. A dinâmica familiar foi afetada quando crianças em idade escolar tiveram de se adaptar ao sistema de ensino em casa, e a divisão (ou falta de divisão) de tarefas domésticas pode afetar desproporcionalmente as mulheres, e assim aumentar ainda mais a desigualdade de gênero na ciência. Outro fator a se considerar é a estrutura psicológica de cada um diante da pandemia, e a consequente perda de motivação. Os distúrbios de saúde mental podem aumentar entre a comunidade estudantil durante esse período, agravando algo que já era problemático (veja as referências deixadas abaixo para mais informações sobre o assunto). Felizmente, têm sido disponibilizados, por algumas instituições, recursos gratuitos de aconselhamento on-line para enfrentar este cenário. Tempos incertos como este afetam cada um de maneira única e é complicado medir e considerar cada caso individualmente. Uma interferência inesperada durante a pesquisa pode resultar em impactos negativos ao longo da carreira, independentemente do tópico da pesquisa. Quadro com um resumo dos desafios, soluções e oportunidades para pós-graduandos nas ciências do mar (Traduzido de Pardo et al ., 2020 , licença CC BY SA 4.0). O trabalho “ Advancing Through the Pandemic From the Perspective of Marine Graduate Researchers: Challenges, Solutions, and Opportunities ” (autores: Juan C. F. Pardo, Debra Ramon, Gabriel Stefanelli-Silva, Isa Elegbede, Luciana S. Lima and Silas C. Principe) recém-publicado na revista científica Frontiers in Marine Science discute esse tema e pode ser acessado aqui . Nele compilamos algumas oportunidades na área marinha (cursos, eventos científicos, cargos acadêmicos) para nos aproximarmos, mesmo que de maneira remota, e para apresentar plataformas que podem auxiliar no desenvolvimento e na divulgação da ciência. As ações colaborativas que possibilitam o enfrentamento conjunto podem, assim, minimizar as consequências dos problemas enfrentados. Como contribuição deste trabalho, lançamos uma conta no Twitter ( Marine Graduate Opportunities - @mar_opps ) para servir como um repositório de oportunidades em ciências do mar. Gostaríamos de convidá-los também a postar e compartilhar oportunidades nas mídias sociais com a hashtag #marineopps, e assim serão publicadas também em nossa conta. Apesar de ser uma pequena contribuição, esperamos que isso aumente os esforços para avançar na carreira acadêmica de graduados de ciências marinhas durante esse período. Acreditamos que, se trabalharmos juntos, podemos crescer apesar desse grande desafio. Para saber mais: Andrews, E. J., Harper, S., Cashion, T., Palacios-Abrantes, J., Blythe, J., Daly, J., et al. (2020). Supporting early career researchers: insights from interdisciplinary marine scientists. ICES J. Mar. Sci. 77, 476–485. doi: 10.1093/icesjms/fsz247 Levecque, K., Anseel, F., De Beuckelaer, A., Van der Heyden, J., and Gisle, L. (2017). Work organization and mental health problems in PhD students. Res. Policy 46, 868–879. doi: 10.1016/j.respol.2017.02.008 Zhai, Y., and Du, X. (2020). Addressing collegiate mental health amid COVID-19 pandemic. Psychiatry Res. 2020:113003. doi: 10.1016/j.psychres.2020.113003 Sobre a autora: Sou Mestre (2019) e doutoranda em Sensoriamento Remoto, técnica em Hidrologia (2009) e Engenheira Hídrica (2016). Atualmente estou vinculada ao Laboratório de Estudos do Oceano e da Atmosfera (LOA), no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Busco estar sempre alerta às oportunidades que me forneçam novas experiências e desafios. Movida pelos porquês, amo estar com os pés na água - doce ou salgada (literalmente), e as mãos no livro! *Esse post contou com o apoio e a revisão dos demais autores do trabalho publicado: Juan Carlos Farias Pardo, Gabriel Stefanelli-Silva e Silas Candido Principe. #vidadecientista #pandemia #covid19 #coronavírus #pósgraduação #convidados #pesquisadoresnapandemia #marineopps

  • Amazonas: um mar de “água doce”

    Por Jana M. del Favero Já falamos aqui na sessão “Vida de Cientista” sobre nossas aventuras ao trabalhar com o oceano, quer seja embarcadas em grandes navios , em submarinos , ou com o pé em terra firme, porém em ilhas bem distantes . Entretanto, a aventura que vou contar agora nos levará para o interior do continente, no norte do Brasil, no Amazonas! Oi?!... Amazonas?!... Mas o foco desse blog não é ciências do mar?!.. Sim, vocês estão certos, Netuno é o Deus dos mares na mitologia romana e nossa maior atenção é para ele, o oceano! Porém, para chegar até o mar naveguei por diversos rios, e vou descrever um pouco do começo dessa trajetória. É engraçado pensar, mas foi lá, na Amazônia, que conheci pela primeira vez uma oceanógrafa, a Dra. Miriam Marmontel, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Mamíferos Aquáticos do Instituto Mamirauá. Outro belo exemplo de que áreas distintas podem e devem caminhar juntas (lembram do post sobre a veterinária e a oceanografia?). Bem, mas vamos desde o começo... Tudo começou há aproximadamente 10 anos atrás, quando eu estava indo para o último ano da graduação em biologia e já trabalhava com peixes em Minas Gerais. Foi quando uma amiga que estava fazendo um estágio voluntário no Mamirauá me ligou, contando que sua vaga seria logo aberta e perguntando se eu não tinha interesse em me inscrever... Pensei, tudo bem, me inscrevo, mal não vai fazer... porém fui aceita e mil coisas começaram a passar na minha cabeça... Tinha que viajar pra Tefé - AM, ia trabalhar no Instituto Mamirauá... Tefé é um município no interior do estado do Amazonas, de aproximadamente 62.000 habitantes. Me explicaram que, por estar praticamente no meio do Amazonas, sua posição era bastante estratégica, e portanto lá tem base do exército, da marinha e da aeronáutica. Mas também é a cidade sede do Instituto Mamirauá, e era lá onde eu moraria por 6 meses. A aventura de chegar lá não fica atrás de nenhuma outra descrita aqui no blog. Na ida peguei um avião pequeno em Manaus, a partir de onde sobrevoei a selva amazônica, e tudo que se via era um belo tapete verde, sem fim, apenas cortados pelas suas veias, os rios! Eu me  lembrava o tempo todo de meu pai, piloto de avião de pequeno porte, contando que prefere contornar a costa brasileira do que sobrevoar a Amazônia. Diz ele, que no caso de uma queda, ser localizado  no mar é mais fácil do que na floresta, pois o avião fica mais exposto para buscas, além dos grandes navios servirem como base para uma possível localização. Seis meses após, na volta, o aeroporto de Tefé estava fechado devido à grande quantidade de urubus nas proximidades por causa de um lixão ali nas redondezas. O único problema era que Tefé não é ligada por terra com  nenhuma outra cidade, e não havia local para onde deslocar o lixão ou até mesmo fazer um futuro aterro. Me restou retornar navegando, ou passando 3 dias em um barco (daqueles que as pessoas penduram as redes, típico da região Norte do país), ou em uma lancha a jato (como era chamada) gastando apenas 24 horas. Escolhi a lancha por ser mais rápida pois queria passar um tempo em Manaus com uma amiga. Mas confesso que me arrependi amargamente, pois mesmo sem o costume de enjoar no mar, enjoei muito nessa lancha, tanto pelo desconforto da cadeira, quanto pelo barulho dos motores e, principalmente, pelo calor. Já o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá é uma Organização Social fomentada e supervisionada pelo, até então, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Foi criado em 1999 e desde o começo vem desenvolvendo suas atividades por meio de programas de pesquisa, manejo e assessoria técnica nas áreas das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã. Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma categoria de área protegida prevista no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - lembra que já falamos desse sistema por aqui ?!). O principal objetivo dessa categoria é conciliar a conservação da natureza à melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes, que participa de todo e qualquer processo relacionado com a reserva. Na Reserva de Desenvolvimento Mamirauá, a primeira reserva dessa categoria criada em 1996, presenciei a população local participando ativamente das atividades de pesquisa e manejo, da vigilância, da gerência e manutenção da Pousada Uakari (uma pousada localizada na própria reserva), entre diversas outras atividades. Durante o estágio, pesquisei a biologia reprodutiva de algumas espécies de peixes ornamentais da família Cichlidae. O principal objetivo era buscar informações sobre as espécies que pudessem ser utilizadas em um futuro manejo sustentável das mesmas (para maiores informações acessar os links no final do texto). Participava também de uma das atividades de extensão do projeto, que consistia em receber os turistas da Pousada Uakari em nosso laboratório flutuante, apresentar as espécies ornamentais locais, as formas de coleta (fazíamos até uma pequena coleta com eles), e falar sobre as pesquisas em andamento. Era nesse momento, ou quando estava em campo auxiliando em outras coletas, que realmente sentia o coração bater mais forte por estar no Amazonas, me sentindo pequena perto da imensidão da floresta, da diversidade de peixes amostrados e da cultura dos ribeirinhos. Com certeza foram seis meses inesquecíveis, de deslumbramento por esse canto incrível do Brasil, de muito aprendizado, e de convívio com  pessoas maravilhosas que tenho uma profunda admiração! Referências e recomendações: Recomendo que naveguem pela página do Instituto Mamirauá para conhecer um pouco mais sobre as reservas, as atividades, as pessoas e tudo mais que falei brevemente nesse post: http://www.mamiraua.org.br O Plano de Manejo das Áreas de Coleta de Peixes Ornamentais da Reserva Amanã pode ser obtido em: http://www.mamiraua.org.br/cms/content/public/documents/publicacao/9a49c1c1-215d-4e58-affe-be872dfbe098_PlanoManejoOrnamentaisAmana.pdf E os artigos publicados, oriundos do período que fiquei por lá em: http://www.mamiraua.org.br/pt-br/publicacoes/publicacoes/0/artigos-em-periodicos/p-biologia-reprodutiva-de-emheros-efasciatusem-heckel-1840-pisces-cichlidae-na-reserva-de-desenvolvimento-sustentaacutevel-amanatilde-am-visando-seu-m/ http://www.mamiraua.org.br/pt-br/publicacoes/publicacoes/0/artigos-em-periodicos/p-aspectos-bioloacutegicos-de-empyrrhulina-semifasciataem-steindachner-1876-characiformes-lebiasinidae-na-reserva-de-desenvolvimento-sustentaacutevel/ http://zoociencias.ufjf.emnuvens.com.br/zoociencias/article/view/1564/1099 #vidadecientista #janamdelfavero #amazonas #institutomamirauá

  • As aventuras de trabalhar no mar

    Por  Cássia G. Goçalo Quando decidimos ser biólogos ou oceanógrafos e escolhemos trabalhar com os organismos marinhos não vemos a hora de fazer o trabalho de campo. Praias, regiões costeiras e até mesmo mar aberto!!! Mas não contamos com os imprevistos, ou podemos chamar aqui de aventuras.... Como tempestades, falta de água doce na embarcação, âncoras enroscadas, variações das marés, entre outras. Já passei por muitas situações de pura adrenalina. Me lembro uma vez, quando estava embarcada no navio oceanográfico Prof. W. Bernard, que ocorreu uma forte tempestade com ondas gigantescas que sacudiam o navio de um jeito que, para nossa segurança, não podíamos sair do interior do navio... esse mal tempo durou cerca de 3 dias!! Durante um embarque passamos por uma situação de confinamento, imaginem só sem poder sair para o convés.... Tivemos que ter muito autocontrole e tomar remédios para enjoos!!! Nesta mesma expedição, devido ao mal tempo, houve um atraso no cronograma para cumprir a jornada planejada e ocorreu um problema técnico, consequentemente ficamos sem água doce... mas pensem, tomar banho de água salgada tudo bem!!! Mas... escovar os dentes blahhhh!!! Horrível!! Outra aventura que passei no mar foi em uma coleta no Porto de Santos. O ponto de coleta era exatamente no canal, onde transitam as embarcações, e ficávamos com o barco ancorado. Era no início da noite quando um navio cargueiro começou a sinalizar sua passagem... daí então seria apenas levantar âncora e sair da frente. Uhum!!! Mas a âncora ficou enroscada nos cabos que ficam no fundo e pensem... o navio buzinando e a gente preso!!! Socccoooorrooooo era o que eu queria gritar na hora... mas a equipe conseguiu cortar o cabo da âncora e saímos a tempo da embarcação passar.. Ufa!! Essa foi por pouco... Em outro momento também estávamos no meio da tempestade com ondas fortes e raios caindo no mar e o piloto do barco falava: - Alguém olha pra mim aí na frente, pois não estou enxergando nada!! Oi? Como assim? Pensei: Cadê o colete salva-vidas vou pular!! Tchau!!! Mas a equipe foi orientando o piloto e chegamos na marina sãos e salvos!!! Além de ficarmos molhados praticamente o dia todo, trabalhar com capacetes e coletes (suuuper confortáveis!! #distractinglysexy), passar frio, calor, trabalhar embaixo de chuva, pegar peixes na mão, coletar algas, puxar redes de coleta e até mesmo carregar equipamentos pesados,  amamos nossa profissão!! Há uma hashtag no Twitter e Instagram divertíssima, onde pesquisadores contam aventuras em trabalhos de campo, nem todos em mar, mas recomendo a busca #fieldworkfail. Imagine por exemplo, você colocar um chip de mais de 1000 dólares em uma raia e depois ver que se trata do mesmo indivíduo que você “chipou” no dia anterior, entre outras… Mas temos muitas aventuras boas e fascinantes como avistar um grupo de baleias e golfinhos, ver passar um cardume de peixes voador, observar um albatroz acompanhando o barco, nasceres e pores do sol fantásticos, céus magnificamente estrelados e nos deslumbrar da variação de cores do mar a cada dia!!! Golfinhos observados durante as expedições por Cássia (Projeto Marflat) e Catarina (Projeto Antares) na região de Ubatuba. Fotos: Cássia Goçalo e Catarina Marcolin. Abaixo segue alguns depoimentos das biólogas do blog e suas aventuras durante os trabalhos de campo: Catarina - Eu já participei de alguns embarques, em todos eles o trabalho era sempre muito duro, mas o clima sempre foi de muita diversão. Os maiores perrengues aconteceram em duas ocasiões, a primeira foi num embarque na costa do Rio de Janeiro, quando o tempo "virou" e voltamos "correndo" para a costa, com altas ondas pelo caminho. A segunda aconteceu quando embarquei no veleiro da expedição Tara Oceans também tivemos três dias inteirinhos de tempo muito ruim… ninguém sentia apetite para comer - por conta de enjoos - e durante a noite mal dava para dormir porque o barco se eleva com a ondas e batia com toda a força na água sacudindo tudo, parecia que eu ia cair da cama a cada cinco minutos. Mas os 12 dias restantes dessa expedição foram de tempo muito bom e navegação tranquila, apreciando a comidinha maravilhosa da nossa cozinheira francesa que até me passou uma receita de brioche (nhammm). Mesmo passando por ocasionais dificuldades minhas lembranças são principalmente dos momentos bons e divertidos quando fiz amigos, avistei paisagens maravilhosas e apreciei muita fauna carismática, apesar do enorme cansaço com todo o trabalho que é super intenso.  Jana – Minhas melhores aventuras não aconteceram em alto mar como as já citadas aqui, e sim bem perto da costa, durante o meu mestrado. Eu tinha que coletar peixes da zona de surfe durante a maré alta e baixa (lembra do meu post sobre isso?! Clique aqui ). Saíamos de chatinha ou voadeira, ou seja, um pequeno barco com motor de popa, da base de Cananéia do IOUSP e íamos até a Ilha Comprida, próximo da barra. Durante a maré baixa era sempre tranquilo parar a chatinha na praia, pois quase não havia ondas na parte mais interna do estuário… Porém, durante a maré alta era sempre uma aventura, pois tinha muita correnteza, e ás vezes ondas quebrando, o que dificultava o desembarque das pessoas e dos equipamentos… Tombos eram comuns… Parávamos sempre no ponto mais abrigado e andávamos para os outros, entretanto, uma vez a maré subiu muito rápido e tivemos que voltar com água no joelho, carregando rede, equipamentos e amostras… Outra vez, voltando já pra base, o motor enroscou em um cabo que prendia um cerco (uma arte de pesca bem comum no litoral sul de SP) e a chatinha virou… Fomos todos pra água e por sorte ninguém se machucou! Alguns equipamentos quebraram, mas as amostras foram salvas! Diria que foi um belo susto! Outra grande experiência que tive foi no período que fiquei no exterior (olhe o post Uma brasileira fazendo pesquisa "na gringa" ), durante o inverno coletávamos a -30° C e como o chão da embarcação molhava com a retirada das redes, a água logo congelava, então tínhamos que nos equilibrar em um barco balançando em um chão com uma camada de gelo, um super rinque de patinação no gelo! É verdade... trabalhar no mar é uma aventura!! Eu recomendo!!! E você, já passou por alguma enrascada, cilada ou diversão no mar trabalhando? Deixe um comentário contando como foi! #vidadecientista #cássiaggoçalo #catarinarmarcolin #janamdelfavero #biólogo #oceano #oceanógrafo

  • Eventos Dia Mundial do Oceano 2020

    Junho é o mês do Oceano e tem muito coisa boa rolando. Para facilitar, o "Bate Papo com Netuno" e a "Liga das Mulheres pelos Oceanos" se juntaram em um esforço para preparar uma programação especial para quem quiser mergulhar nas profundezas e aprender um pouco mais sobre o mar e a biodiversidade. Vamos juntas? É uma grande onda de conhecimento, começa ao nascer do Sol, e acaba depois que o Sol se põe. A maioria dos eventos estarão disponíveis depois também. Então, aprecie com moderação. E nunca se esqueça de cuidar de você e da sua família. É só estando bem que iremos também estar fortes para promover ações de proteção dos oceanos. Vem com a gente. E fica ligada(o) nas nossas redes que ao longo do mês todo teremos conteúdo especial.  The Ocean Day 2020 (Route brasil, Bloom ): dias 6, 7 e 8/06 das 10h às 23h; ‘ Small is Bountiful’ panels (Too Big To Ignore): dias 7 e 8/06 vários horários; Virtual Ocean Literacy Summit (IOC/UNESCO): 8/06 às 6h (inscrição); Launch of The State of the World Fisheries and Aquaculture - SOFIA 2020 (FAO): 8/06 às 8h (inscrição); Lixo no Mar - Covid-19 e a qualidade ambiental costeira (Instituto Limpa Brasil): 8/06 às 9h30; World Oceans Day : If you could invest US$1bn in one ocean solution, what would it be and why? (The Economis Group - World Ocean Iniciative): 8/06 às 10h; Cine Debate A Década dos Oceanos (UNIBES Cultural): 8/06 às 11h; Oceanografia em tempos de coronavírus (UERJ): 8/06 às 13h; 2.ª Palestra CCOceanos 2020 - The Ocean Decade - Lisboa (CCOceanos): 8/06 às 14h; Mesa Redonda - Somos todos um só oceano (Lacos21): 8/06 às 14h30; Dia dos Oceanos - Vamos conversar ? (UFRJ): 8/06 às 16h; Café com Ciência - Semana do Oceano (IOUSP): durante toda a semana às 16h; Plano de Monitoramento e avaliação do lixo do mar no Estado de São Paulo (USP/UNESCO/Governo do Estado de São Paulo): 8/06 às 16h; Cátedra da UNESCO pela sustentabilidade dos oceanos: lançamento (UNESCO e IOUSP): 8/06 às 18h30; Live - Década dos Oceanos (EcoSaber): 8/06 às 19h; Cultura Oceânica : um novo olhar sobre a relação Ser Humano <=> Oceano (Scuba Divas - Mulheres do Mergulho que trabalham com Conservação do Oceano): 8/06 às 19h; Ecomuseu Natural do Mangue e a educação ambiental ( Ecomuseu Natural do Mangue): 8/06 às 20h; June Momentum for Climate Change (UNFCCC secretariat): 1-10/06; 9ª Mostra Ecofalante de Cinema : 3 a 8/06. #JuntasPelosOceanos #décadadooceano #diamundialdosoceaneos #MesDoOceano

  • Transitando entre saberes: o que aprendi sobre ciência em Moçambique

    Por Caio Gabrig Turbay Fazia pouco mais de doze horas que eu havia chegado em Moçambique e já estava chacoalhando dentro de uma caminhonete, em uma estrada esburacada, a caminho da minha base de trabalho. O local era a cidade de Xai-Xai, 220 km ao norte da Capital, Maputo. As últimas 24 horas haviam sido exaustivas, insones, com uma conexão longa no aeroporto de Joanesburgo e uma rodada de bares na noite de Maputo, com o meu novo chefe e colegas da empresa. Na cabeça muita incerteza e medo. Na época, nos meus 26 anos, ainda era um geólogo recém formado que pouco conhecia o trabalho a ser feito. Deixava para trás família e amigos. Uma empresa multinacional, sediada no Canadá, havia me contratado para participar de um time responsável por procurar depósitos minerais em areias litorâneas da costa africana do índico, da Tanzânia à África do Sul e Madagascar. A- Localização da região estudada no contexto continental africano; B- Mapa de Moçambique e suas províncias (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) No carro, Mark, meu colega australiano, me alertava sobre os riscos inerentes ao trabalho. Os “riscos”, para o ele, passavam por questões claramente de cunho racial e de forte preconceito da parte dele, até cuidados justificáveis com a fauna silvestre e as famigeradas minas terrestres. Eu havia chegado no país em 2002, sete anos após o cessar fogo de uma guerra civil sangrenta, que colocou no campo de batalha pessoas que antes conviviam e se toleravam e que lutaram lado a lado em uma guerra anterior, contra o colonizador português. As impressões de um país arrasado por duas guerras consecutivas ainda eram nítidas: casas abandonadas, estradas sem manutenção, ruínas, uma fauna que beirou o extermínio, campos minados e um povo que iniciava uma linda caminhada, aprendendo a ter autonomia, após séculos de subserviência a Portugal. Meu papel era o de liderar equipes em campo, prospectando as chamadas “areias pesadas”, portadoras de minerais de alta densidade como a ilmenita, rica em titânio, além de outros com valor econômico secundário. Essas areias, em geral, são o produto do retrabalhamento constante das correntes marinhas, ondas e ventos, ao longo de milhares de anos, concentrando camadas ricas nestes minerais. Para o rastreamento destas camadas, o conhecimento da dinâmica costeira e do trabalho geológico dos ventos é fundamental. Os minerais presentes nas areias têm origem nas rochas continentais, que após serem desgastadas por intemperismo e erosão, liberam o seu conteúdo para os rios e posteriormente são levados ao mar. Uma vez no litoral, inicia-se o trabalho das correntes de deriva litorânea, das ondas e do vento, distribuindo, mas também concentrando os minerais de acordo com as suas densidades. Em Moçambique, grandes rios como o Limpopo e o Zambeze encarregaram-se de trazer a areia e a lama juntamente com os minerais pesados até o mar. As correntes marinhas no litoral sul do Oceano Índico, com movimentação geral de norte para sul, completam o trabalho espalhando os sedimentos pela costa Concentração de minerais pesados na praia a partir da remoção de partículas sedimentares mais leves e retenção das mais pesadas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Durante as primeiras semanas no país, o treinamento e o contato diário com os moçambicanos me fizeram lentamente quebrar as barreiras frágeis da visão racista e neocolonial dos expatriados da empresa. Fechando o primeiro mês, tombei vitimado pela malária em um dos acampamentos. Após a cura, na visita a um hospital na cidade de Xai-Xai, a curiosidade em receber notícias do Brasil me trouxe o término de um namoro via e-mail, que não poderia ter sido mais formal. Aos poucos, os meses se passaram e os amigos deixaram de enviar notícias. Era minha carta de alforria compulsória do Brasil. A partir disso, comecei uma profunda imersão na cultura e vida de Moçambique, à medida que o meu conhecimento sobre a geologia da África austral e sobre o litoral moçambicano e sul-africano aumentavam. Passamos a utilizar métodos mais elaborados de prospecção. Das imagens geofísicas descobri que os alvos de prospecção estavam nas cristas e na base de antigas dunas, já fixadas por vegetação e em antigas praias, abandonadas pelo recuo do mar. Junto ao trabalho constante das correntes, dia a dia, ano a ano, somavam-se as variações da linha de costa e do nível do mar, resultados das glaciações que o planeta sofreu durante os últimos 12 milhões de anos, intensificadas no período geológico chamado Quaternário (últimos dois milhões de anos). Dinâmica de crescimento, avanço das dunas e concentração de minerais pesados: A- A ação direcional do vento inicia o acúmulo de areia em camadas, estruturando a duna; B- A chegada de mais areia faz com que a duna cresça verticalmente e continue sua movimentação. Minerais com alta densidade (minerais pesados) são removidos com maior dificuldade e tendem a se concentrar em pontos específicos; C- Com as chuvas, as águas se infiltram e o lençol freático pode eventualmente subir. As areias saturadas de água tornam-se imóveis e propiciam o estabelecimento de vegetação que se aproveita desta água. A duna estabiliza-se (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) Dinâmica de variação do nível do mar a partir de ciclos de glaciação e interglaciação: 1- Nível do mar estável durante um determinado tempo (nível do mar 1); 2- Estabelecimento de um período glacial com rebaixamento do nível no mar (nível do mar 2) e avanço da costa em direção à antiga plataforma marinha. O rebaixamento do nível do mar deve-se a retenção de grande parte da água do planeta na forma sólida (gelo e neve) nos pólos e nas altas montanhas; 3- Período de aquecimento atmosférico e término da glaciação levando a um aumento do nível do mar e recuo da costa em direção ao continente; 4- Segundo evento de glaciação, com novo avanço do litoral e retrabalhamento das areias litorâneas anteriormente depositadas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). As areias depositadas no litoral e abandonadas pelo rebaixamento do nível do mar são continuamente retrabalhadas pelos ventos no litoral moçambicano e sul-africano, criando dunas enormes conhecidas como draas (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Nesta dinâmica, uma vasta planície sedimentar foi formada e tínhamos, nos anos que se seguiram, grandes áreas para cobrir. Visitávamos lugares remotos, com paisagens em regeneração, que aos poucos traziam de volta a fauna típica das savanas africanas. Planície sedimentar formada durante as variações do nível do mar nos últimos doze milhões de anos (Mioceno-Holoceno) na região de Inhambane, Moçambique. As lagunas em cores cinza, encontram-se preenchidas por sedimentos e se desenvolveram durante recuos rápidos do mar, seguidos de avanços das antigas linhas de costa. Em cada evento de recuo, associado a um ciclo glacial, um cordão litorâneo era formado e a laguna instalava-se atrás do cordão (Fonte: Caio Gabrig Turbay. Adaptada de imagem LANDSAT TM obtida em USGS/NASA Landsat - https://landsat.visibleearth.nasa.gov) Exemplo de laguna preenchida por sedimentos por trás de um cordão litorâneo retrabalhado pelo vento (dunas). Observe que as dunas encontram-se fixadas por vegetação (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0) Após os dois primeiros anos, já não aguentava a relação manipuladora, abusiva e mentirosa da empresa com os seus funcionários moçambicanos e pessoas nativas. Após séculos de atividade extrativista de estrangeiros na África, parecia que nada havia mudado. Não queria mais fazer parte disso. Aguentei por mais um ano. Em meados de 2005, numa tarde chuvosa, entrei numa pequena aeronave bimotor que que me levaria de Inhambane, minha residência, a Maputo e depois à África do Sul. O avião estava decolando e ainda pude ver Micá, uma amiga portuguesa, colocando suas mãos no rosto para chorar. O coração apertou. Novamente uma mudança, novamente amigos ficando para trás. Do alto, pela última vez, olhei para a Baía de Inhambane, a Ponta do Tofo, os naufrágios expostos na maré baixa e as praias que se perdiam no horizonte. Os anos se passaram, Moçambique ficou como uma boa lembrança no tempo. Para minha surpresa, em 2014 surge uma nova oportunidade. Um projeto através do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e sua agência de cooperação, a ABC, novamente me levariam a Moçambique. Minha impressão é a de que havia alguma dívida a ser sanada. Voltei feliz! Revi amigos. Ao contrário do passado, uma nova empreitada de cunho socioambiental, juntamente com agrônomos, arquitetos e técnicos ambientais. Mais dois anos se passaram em algumas viagens ao país. Dois anos convivendo com um povo alegre e acolhedor. Dois anos de desapego e doação, aprendendo a metodologia do diagnóstico participativo, onde as relações são horizontalizadas e o diagnóstico e solução das questões, são construídos coletivamente . Dois anos em que vislumbrei de uma forma muito mais bonita a ciência que havia aprendido nos bancos da universidade e na prática de campo. Meu foco agora era a erosão de solos que atingia o município de Xai-Xai, suas ruas sem pavimento feitas sobre areias de dunas antigas e as pequenas propriedades agrárias às margens do Rio Limpopo. Achei que fosse ensinar. Aprendi. Nas oficinas que realizamos, descobri que tanto os moradores quanto os técnicos locais conheciam muito bem os problemas e conseguiam vislumbrar formas de resolvê-los. Meu papel, quase como expectador, foi apenas o de organizar as informações e incitar a criatividade das pessoas para as descobertas. Planície de inundação do Rio Limpopo com suas margens férteis e pequenas glebas agrárias (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). A raiz do problema estava na vegetação que estava sendo extinta para a produção de lenha, que abastecia os fogões da maioria das casas. Sem vegetação, as areias eólicas, aquelas areias que são transportadas e depositadas pelo vento, ficavam expostas, eram erodidas e jogadas nas partes baixas, na planície do Limpopo. Todos entendiam o problema, mas como no Brasil, havia interesses de terceiros para que as coisas não se resolvessem, falta de recursos e um engendramento político que burocratiza e engessa. Bloco diagrama exemplificando o problema erosivo no município de Xai-Xai (Fonte: Caio Gabrig Turbay com licença CC BY-SA 4.0). Hoje pensando em tudo que aconteceu, papeando com o meu amigo Nivaldo, nos damos contas das “dunas” que temos que enfrentar nas nossas vidas. Mas o maior aprendizado que tirei de Moçambique, foi a certeza de que a ciência deve ser feita com desapego, longe da vaidade, do ego, e de que ela pode e deve ser usada para o bem da coletividade, humana e não humana. Isso mudou a minha vida. Sobre o autor: Caio Gabrig Turbay é pai de Nina e Caique e marido de Erica Munaro, yogi e engenheira florestal. É espiritualista, amante da natureza e das atividades ao ar livre, além de construtor de barcos, velejador e viajante. Graduado em geologia pela UFRRJ, com mestrado em bacias sedimentares e doutorado em geotectônica pela UERJ, trabalha atualmente na UFSB, Porto Seguro, Bahia, onde leciona para os cursos de Oceanologia e Bacharelado em Ciências. Desenvolve atividades de pesquisa com sedimentologia de ambientes marinhos e glaciais, petrologia de rochas vulcânicas e sedimentares, petrologia de meteoritos e geoquímica de rochas e sedimentos. É neófito e entusiasta da divulgação e jornalismo científico, do software livre e da filosofia hacker. #vidadecientista #moçambique #convidados #caioturbay #oceanografiageologica

  • Dicas para se concentrar no “Home Lab”

    Durante essas últimas semanas tumultuadas, nos bastidores do Bate-Papo com Netuno, notamos que cada uma de nossas editoras estava lidando de um jeito diferente com a quarentena. Entretanto, todas têm agora um ponto em comum: estamos enfrentando os desafios de trabalhar em home office . Algumas com mais experiência, outras com menos, resolvemos escrever em conjunto esse post com depoimentos e dicas para trabalhar em casa sem surtar. PRODUTIVIDADE Carla Me encaixo na categoria das com “mais experiência” em home office . Faz três anos que trabalho exclusivamente em casa, então acho que já me acostumei com a situação de manter disciplina, concentração, de não estar em contato com pessoas ao vivo todos os dias... Compartilho algumas dicas que venho colocando em prática: Tenha um lugar definido de trabalho . Separe um canto com uma mesa e cadeira confortáveis. Não recomendo fazer isso no seu quarto (nunca na cama!). Aos poucos você vai associando aquele ambiente ao trabalho e é mais difícil relaxar e dormir no fim do dia... Mantenha um horário pra cada coisa . Sua rotina de trabalho durante a quarentena dificilmente está normal, mas procure entender quais horários você tem livre para o trabalho. Por exemplo, mesmo que você só consiga 2 horas por dia de trabalho "normal" (tipo a hora que o filho está vendo TV), aproveite aquele tempo. Defina que tarefas você pode fazer nesse intervalo (ler um artigo, adiantar a escrita de um capítulo, fazer uma análise de dados, escrever um post para o Bate-Papo com Netuno etc.). Com o passar dos dias você vai vendo que outros espacinhos de tempo surgem na rotina. À medida que esses intervalos forem surgindo, atribua uma tarefa e se mantenha firme - lembre-se que nunca temos “tempo sobrando” mas não subestime o poder de curtos períodos de tempo bem direcionados. Não fique de pijama o dia todo , siga normalmente com refeições no horário, faça pausas... você não está de férias e também não é escrava do trabalho. Não se cobre tanto! A maioria das pessoas estão trabalhando fora de sua zona de conforto e não faz sentido esperar maior produtividade nesse momento. Juliana Leonel De certa forma sempre preferi trabalhar de casa, então o home office está sendo tranquilo (pelo menos enquanto o Ian não nasce, já que estou na reta final da gestação). Claro que o fato de saber que não terei prejuízos no meu salário durante esse período ajuda a manter a concentração no trabalho, e isso não é a realidade de todos. Mantenha a rotina de trabalho : No geral, alterno entre leituras, escrita, responder e-mail etc e tento fazer uma lista (realística) de metas para o dia. Sinto falta das aulas e do laboratório (não dá para montar um lab de oceanografia química em casa), mas estou conseguindo render mais nas outras atividades, principalmente as que exigem concentração. Vejo isso como causa direta da diminuição nas muitas atividades burocráticas que temos que fazer no dia a dia. Por exemplo, apesar de ainda mantermos algumas reuniões remotamente, elas diminuíram em número (e até em duração). Cuide dos seus orientandos : O bem-estar dos meus orientados (alguns sozinhos e longe da família) me preocupa, então tento reservar um tempo para escrever para eles (não só sobre trabalho). Além disso, alguns deles tiveram que parar atividades de campo e de laboratório e, nesses casos, estou tentando avaliar quais são as alternativas e sugerindo mudanças para continuar o trabalho sem atrapalhar nos prazos. CUIDADOS COM A MENTE E O CORPO Jana Passei por uma semana de ansiedade e preocupação por causa da situação do país e do mundo. Meu marido estava de home office e eu sentava na frente do computador por oito horas, mas a cabeça pouco produzia. Então passei a ter tempo pra mim também, me afastei da rotina de checar o celular e notícias 24 horas por dia. Agora abro páginas de notícias apenas no fim do dia. Voltei a meditar e a fazer yoga. Então aí vão minhas dicas: Não leia notícias o dia inteiro : separe umas horas para saber o que tá acontecendo no mundo Não fique no celular o dia inteiro : isso causa ansiedade; separe um momento do dia para responder as mensagens. Tem dificuldade de colocar em prática essas duas primeiras dicas? Veja nesse site como pôr em prática a Técnica Pomodoro, isso pode te ajudar. Faça exercício e meditação : muito importante para manter corpo e mente saudáveis enquanto se trabalha em casa. Busque sites, canais ou apps para isso (sugestões: app Lojong para meditação e o canal da Pri leite para yoga). Tome Sol : Lembre-se da vitamina D! Aproveite para fazer exercício em algum lugar da casa onde bata Sol (se tiver um pátio ou uma varanda, melhor ainda!). Ou que tal só relaxar por 10 minutinhos aproveitando os raios pela manhã? Cláudia Acho importante pensar na alimentação, saber o que se pode deixar preparado para comer quando bater aquela fome no meio do dia, da tarde ou da noite. Então, minha dica é: Cozinhe! Os restaurantes estarão fechados e não é recomendado viver à base de fast food e comida ultraprocessada, principalmente nesses tempos em que o sistema imunológico tem que estar 100%. Para aquelas(es) que não estão muito habituadas(os) à cozinha, ou pensam que cozinhar para apenas uma ou duas pessoas é muito difícil, existem vários sites de culinária com receitas de porções individuais e feitas com ingredientes super acessíveis, ou que ensinam a porcionar para congelar e consumir depois. Eu particularmente gosto muito do Panelinha e das séries O que tem na geladeira? E em uma panela só. O problema é que se você gostar muito, periga ficar procrastinando o trabalho para ficar na cozinha... E PARA QUEM TEM FILHOS? Catarina Já tenho uma semana de quarentena, mas ainda estou me adaptando à nova rotina. Fiquei absolutamente sobrecarregada com a quantidade de dicas para entreter crianças nesse período. Ficava exausta de imaginar que além de trabalhar em home office , cuidar da limpeza da casa, comida, ainda precisava entreter minha filha de 3 anos com atividades criativas e de cunho pedagógico. Importante adendo, eu, meu marido e minha mãe temos nos dividido nas tarefas domésticas, o que alivia muito a barra. O que consegui fazer por aqui foi: Limitar o horário para ver TV: limito a TV da minha filha a 1h pela manhã e 1h pela tarde (quando aproveito para trabalhar em atividades que exigem mais concentração). O resto do tempo eu (às vezes) oriento o início da brincadeira (massinha, desenho, pintura, quebra-cabeça) e deixo ela à vontade. Compartilhe a atenção: Minha filha tem brincado muito sozinha e inventado as próprias brincadeiras, mas por intervalos curtos de tempo. No resto do tempo a família se divide em brincar com ela. Tentamos estabelecer que as manhãs seriam do meu marido e as tardes seriam minhas para trabalho, enquanto o outro ficaria responsável por atender à criança, mas estamos numa dinâmica mais fluida! Quando todo mundo vai dormir eu abro o notebook e trabalho por mais umas 2h. No final de semana me dediquei a fazer algumas dessas dicas de atividades e foi bem bacana. Quem sabe eu consigo continuar com isso a partir das dicas desse post. Raquel Para mim, que vivo só com meu marido, a quarentena tem sido bem tranquila. Acordo cedo, tomo banho, coloco roupa como se fosse sair e fico estudando. À noite malho em casa. Nos revezamos nas tarefas domésticas. Mas sei que para outras pessoas tem sido bem complicado, como para as mamães, que além de tudo precisam cuidar e distrair as crianças que estão em casa, em especial as menores. Por isso sondei nas minhas redes sociais o que as mulheres estão fazendo nesse caso: Seja honesta : diga aos seus colegas de trabalho suas condições de home office . Avise que está com criança em casa. Isso pode reduzir sua ansiedade e nervosismo em eventualidades como, por exemplo, se uma reunião for interrompida por um choro. Usar crachá : ensinar para a criança que quando a mãe está com o crachá, ela está trabalhando e não pode ser interrompida. Quando ela tira o crachá, pode ajudar com as tarefas, lanche, almoço e brincadeiras. Tentar manter a rotina : se despedir da criança de manhã explicando que vai trabalhar, e então fechar a porta do quarto. Só sair no horário de almoço - aí você dá atenção, brinca, etc, e depois se despede novamente pro turno da tarde (pra essa você precisa de alguém ajudando, claro). Estabeleça alguma rotina : algumas escolas estão disponibilizando atividades e aulas online que podem ser importantes para estabelecer uma rotina em casa; Trabalhar enquanto o filho dorme (seŕa que tá liberado cochilo das 9h às 18h? rs) Alternar com o pai (se possível) : enquanto um fica com os filhos, o outro está trabalhando e à tarde se revezam, como fez nossa editora Catarina Não apele para o celular : nos momentos de desespero, quando só a tela faz mágica, que tal colocar algo na TV pro filho assistir? Pode ser Netflix ou Amazon Prime também, mas coloque na TV, assim a criança fica em um cômodo específico. Além disso, o efeito do celular parece ser muito mais hipnotizante. De forma alguma coloque vídeos no YouTube, porque a reprodução é automática e sem fim, e em um momento pode começar um vídeo impróprio para crianças - mesmo no YouTube Kids. Mas não esqueça de usar a TV com moderação! Permita o ócio : ter horário para fazer atividades em casa é importante, mas permita também à criança eleger a atividade que quer fazer, mesmo se for fazer nada! O ócio também é importante, estimula a criatividade, e a criar novas brincadeiras. Coloque as crianças para trabalhar : calma, não é o que você está pensando. Ensine ela pode ajudar nas tarefas de casa, como arrumar o quarto, limpar a casa, lavar os pratos, regar as plantas, colocar a comida do cachorro… respeitando a idade de seu(sua) filho(a), claro. Não se culpe : esse cenário é novo para muitas famílias, e todas estão aprendendo como fazer funcionar da melhor forma. Você está fazendo seu melhor. Pra terminar, veja o depoimento (adaptado) de uma das mães com quem falei: “Trabalho escrevendo minha dissertação, lido com as lições (online) passadas pela escola do meu filho e ainda brinco com ele. A verdade é que temos mais horas de trabalho e menos horas de sono. O bom é que é tudo num só lugar, nossa casa, e assim temos mais tempo juntos”. #vidadecientista #homeoffice #quarentena #produtividade #bemestar #crianças #teletrabalho #carlaelliff #cláudianamiki #catarinarmarcolin #janamdelfavero #julianaleonel #raquelmoreirasaraiva

  • O que o COVID-19 pode nos ensinar sobre conservação ambiental

    Por Carla Elliff Ilustração por Joana Ho Ao longo das últimas semanas, o  COVID-19 , ou novo coronavírus, se tornou o assunto mais discutido na maior parte do mundo. Outros termos como “distanciamento social”, “pandemia” e “quarentena” também entraram no nosso palavreado do dia a dia. No entanto, não foi apenas nosso vocabulário que expandiu dentro deste cenário. Há muito para se aprender vivendo numa situação de pandemia. Algumas das lições mais óbvias talvez sejam aquelas de empatia, solidariedade e higiene das mãos… Mas eu gostaria de mudar o nosso foco para um tópico talvez menos óbvio:  conservação ambiental . Imagens de  águas cristalinas nos canais de Veneza  viralizaram tanto quanto o próprio COVID-19, com pessoas admiradas com o que a ausência de humanos pode produzir. Porém, fique atento a exageros como as recentes notícias falsas sobre golfinhos e cisnes voltando a habitar essas áreas. Outros exemplos incríveis da natureza se recuperando incluem a diminuição da poluição atmosférica na  China  e  Itália . E o que esses casos nos mostram? Aqui estão algumas lições que podemos aprender. Compartilhamento de recursos Os clichês “todos vivemos num mesmo planeta”, “este é o único lar que temos” e, o meu favorito, “não existe Planeta B” trazem a mesma ideia geral: estamos compartilhando o planeta Terra e seus recursos. Assim como todo organismo vivo, nós geramos um impacto no nosso meio. O problema com o impacto humano é que este tende a ser menos sustentável que o da maioria das espécies. Qualquer material ou substância danosa introduzida no meio ambiente é considerada uma forma de poluição e tem um monte de coisas que nós nos acostumados a ter e usar que são grandes fontes de poluição . Nossos meios de transporte, a comida que consumimos (especialmente as ultraprocessadas e embaladas em muito plástico) e as indústrias que fornecem basicamente tudo o que precisamos são todas fontes potenciais de poluição. Apesar de haver vários tipos de leis e regulamentações ambientais para tentar manter nossas atividades ambientalmente corretas, nós estamos claramente falhando nesse quesito. Aliás, estimativas mostram que o número de vidas salvas com essas diminuições globais de poluição atmosférica devido a outras doenças respiratórias  ultrapassa o número de mortes pelo COVID-19 . Dessa forma, uma posição de “ business as usual ” (ou seja, tudo funcionando como de costume) é inaceitável pós-COVID-19 e coisas terão que mudar substancialmente se quisermos manter o ar mais limpo na China e os canais de Veneza mais límpidos. Durante a quarentena também tivemos a infeliz oportunidade de ver muitos exemplos de compartilhamento ruim de recursos nos supermercados locais. Prateleiras vazias de papel higiênico, álcool gel e comida compõe um retrato perfeito de como a humanidade lida com o compartilhamento de recursos naturais também. Lição No. 1: Se nós reduzirmos e fizermos uma melhor gestão de nossos recursos, a natureza irá se recuperar e vamos todos respirar melhor. Você prefere fazer melhores escolhas agora com relação ao seu próprio uso de recursos ou quer que alguém seja obrigado a implementar restrições sérias no futuro próximo? Importância da conservação da vida silvestre Como descrito nessa matéria do The New York Times , estima-se que 60% das doenças infecciosas emergentes que afetam humanos sejam de origem animal (ou seja, são zoonóticas), sendo que mais de dois terços destas se originam da vida silvestre. Malária, AIDS, a peste bubônica e, agora, COVID-19 são exemplos de doenças zoonóticas. Aliás, existe toda uma área de pesquisa dedicada ao estudo da ecologia e epidemiologia de doenças da vida silvestre. No entanto, raramente pensamos em conservação da vida silvestre como uma forma de preservar a saúde humana, não é? O manejo de animais selvagens e o consumo de sua carne representam importantes fontes de patógenos em todo o mundo, que devem ser monitorados com cuidado. A Sociedade da Vida Silvestre ( The Wildlife Society ) enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar quando lidando com esse problema complexo. Essa necessidade tem sido um estímulo para a One Health Initiative , um esforço colaborativo que combina todos os aspectos de cuidado com a saúde humana, animal e do meio ambiente, com a missão de melhorar a vida de todas as espécies. O aparecimento de doenças zoonóticas são uma das principais preocupações para esta iniciativa. Lição No. 2: O objetivo da conservação da vida silvestre não é promover um ambiente bucólico livre de humanos. Profissionais dessa área se dedicam a garantir o bem-estar e continuidade de espécies selvagens, mas também são importantes agentes para promover interações saudáveis entre humanos e animais. Essas pessoas salvam vidas. Emissões de CO2 A queda da poluição atmosférica ao redor do mundo não é apenas boa para comunidades locais, ela tem levado a uma queda global nas emissões de gás carbônico (CO2). Além das indústrias, vou apresentar outro importante contribuidor para a emissão deste gás de efeito estufa que tem sido seriamente afetado pelo COVID-19... Uma das formas mais eficientes para um vírus chegar a mais pessoas é pegando uma carona em um dos nossos milhões de voos diários em todo o mundo. Assim, companhias aéreas sofreram um grande baque, com cancelamentos de viagens e fechamento de fronteiras. Ao passo que isso é um desastre econômico, a situação chamou a atenção para uma discussão importante: quantas viagens são excessivas? Acredita-se que atualmente o transporte aéreo é responsável por cerca de  2% das emissões de gases do efeito estufa , principalmente o CO2. Este número pode até parecer pequeno, mas essa indústria está crescendo rapidamente e acredita-se que vá duplicar ao longo das próximas duas décadas. Além disso, o transporte aéreo é normalmente a maior fonte de CO2 quando pensamos na escala de uma pessoa. Isso significa que se você, como indivíduo, está procurando formas de diminuir seu impacto negativo no mundo, você pode começar por voar menos. Como cientista, isso me afetou de uma maneira muito específica: todos meus eventos científicos do ano foram cancelados ou estão em alerta. Mais especificamente ainda, como uma cientista na área ambiental, sinto que agora estamos diante de uma mudança há muito necessária na forma como interagimos. Por anos, conferências como o International Coral Reef Society Symposium (simpósio da sociedade internacional de recifes de coral) têm enfrentado um dilema: nesses eventos estão milhares de cientistas, vindos de todas as partes de mundo (ou seja, altas emissões de CO2) para falar sobre soluções para recifes de coral, um ecossistema que está morrendo pela crise climática causada pela emissão de gases do efeito estufa. Este e outros simpósios têm várias estratégias para compensar emissões, mas participação virtual ainda é a exceção da regra neste mundo de conferências. Apesar de haver  muitos benefícios cumulativos  com a participação virtual, este é um caminho pedregoso que deve ser percorrido com cuidado para garantir que se torne acessível e inclusivo. Lição No. 3: Algumas reuniões podem ser apenas e-mails e, mesmo aquelas que precisam ser reuniões, podem ser reuniões virtuais. Dê as boas-vindas ao século XXI no seu trabalho e, sempre que possível, faça o que precisar remotamente! Importância da ciência "No começo de todo filme de desastre tem um cientista sendo ignorado ”. Essa foi uma das minhas placas favoritas mostradas na primeira Marcha pela Ciência lá em 2017. O movimento  anticiência  tem ganhado força em muitas frentes nos últimos anos e todos estamos em pior situação por causa disso. Com cortes gigantes no orçamento e cada vez mais instabilidade, cientistas estão trabalhando em condições aquém das ideais (para dizer o mínimo) enquanto buscam responder perguntas grandes e importantes. O problema é que essas perguntas podem não parecer grandes e importantes para o público em geral e governos enquanto elas ainda estão sendo estudadas. Por exemplo, para desenvolver um novo remédio, um cientista não pode começar misturando alguns ingredientes e dando isso para pessoas doentes. As investigações começam lá atrás, pensando em nível celular (e às vezes molecular). Então, pode parecer estranho que há pessoas que passaram 20 anos estudando como uma molécula muito específica reage a diferentes substâncias, mas o resultado disso é a base para desenvolver um produto farmacêutico muito necessário. Durante a pandemia do COVID-19 vimos pessoas recorrendo à ciência para as soluções e a ciência tem lutado para conseguir responder. Talvez se tivessem tido mais recursos investidos, as respostas seriam mais rápidas. Nesse momento, a única coisa que podemos fazer é esperar que a situação melhore antes da próxima crise. Lição No. 4: Você não precisa gostar da ciência. A ciência não é um sistema de crenças. O propósito de pessoas buscando uma carreira nas ciências é para melhorar alguma coisa: melhorar nossos cuidados com a saúde, melhorar nossas tecnologias, melhorar nosso uso de recursos, melhorar nosso entendimento do mundo. Essas últimas semanas têm sido desgastantes de muitas maneiras. Se não aprendermos com nossos erros, não conseguiremos melhorar. Fique em casa, fique bem. Lave as mãos. Tradução do post original: What COVID-19 can teach us about environmental conservation , de mesma autoria, publicado no blog da rede Young Ecosystem Services Specialists (YESS). #carlaelliff #joanaho #ciênciasdomar #conservaçãoambiental #covid19 #ficaemcasa

  • ​O sexo (ainda) importa?

    Por Juliana Leonel Foto: Carla Elliff Sim, o sexo, o gênero, a opção sexual, a cor, a etnia. Tudo isso importa! No entanto, meu lugar de fala é de uma mulher branca, hétero, cis e que teve acesso a educação, então vou me deter a falar sob essa perspectiva na academia. Mas deixo aqui o convite para que demais mulheres também se pronunciem. Em 2015 o Bate-papo com Netuno trouxe essa pergunta e mostrou que sim o sexo importa . Cinco anos depois o que mudou (ou não mudou)? Como avaliar se mudou? O que precisamos fazer para mudar? Quem pode mudar isso? A realidade é que a representatividade das mulheres continua sendo menor quanto mais se avança na carreira acadêmica, que o reconhecimento das mulheres é menor, que elas recebem menos oportunidades, que elas ocupam menos cargos de liderança, etc. Mas por que o tempo passa e isso não muda? Será que estamos avaliando da forma correta? Qual a forma correta de medir a equidade de sexo na academia? Nota-se aqui o uso da palavra equidade ao invés de igualdade, pois ela se refere à busca por justiça e por oportunidades iguais, independente do sexo, lembrando que nem todos são iguais e podem ter necessidades distintas. Por exemplo, em geral, as mulheres tem um terceiro turno de trabalho e isso deve ser levado em conta quando sua produtividade é avaliada. Fonte: Bate Papo com Netuno com licença CC BY SA 4.0 Dito isso, já é possível perceber logo de cara que não basta apenas comparar o número de homens e mulheres dentro de um departamento, centro, instituto, universidade para dizermos se há equidade entre sexos. Outros fatores precisam ser levados em conta, como: a) salários; b) proporção entre homens e mulheres como líderes de grupos de pesquisa, posições de chefia e demais cargos de destaque; c) como a maternidade e paternidade afetam de forma distinta a carreira de mulheres e homens; d) comprometimento das instituições em dar suporte à carreira das mulheres e ao combater assédios. Vamos explorar cada um desses pontos? a) Salários : no Brasil, quando consideramos universidades federais ou estaduais dentro do mesmo estado, os salários são tabelados e sem diferenças entre homens e mulheres no mesmo plano de carreira. No entanto, a progressão, dentro e entre níveis, requer avaliações que levam em conta a produtividade. Isso inclui publicações, coordenação de projetos de pesquisa, orientações de mestrado e doutorado, etc. Mas, como comparar a produtividade entre homens e mulheres quando majoritariamente são elas as principais responsáveis por atividades fora do ambiente de trabalho (cuidar dos filhos, atividades domésticas, etc)? Quando são elas que dão a luz e entram em licença maternidade? Quando os órgãos de fomento também não consideram os fatores acima na avaliação do projetos de pesquisa? Quando existe uma tendência de revisores serem mais propensos a aprovar as publicações de pesquisadores homens (1)? b) Líderes/posições de destaque : mesmo em áreas em que há uma igualdade no número de pesquisadores mulheres e homens, quem são os líderes dos grupos de pesquisa? Ou quem mais assume cargos de chefia? Ou são as pessoas de destaque? Em geral, pesquisadores homens. Isso porque, historicamente, eles são vistos como mais aptos, com mais pulso firme (ou como já ouvi alguns colegas dizerem " com mais culhão "), como líderes natos que inspiram e não se deixam levar pelas emoções facilmente. Isso está diretamente ligado com a visão que, quando o homem impõe a sua vontade ou exige ser ouvido ou até mesmo levanta a voz, ele está sendo enfático. No entanto, quando a mulher faz o mesmo, ela está sendo tirana, louca e intransigente. Essa percepção está incrustada de tal forma na cultura acadêmica que estudantes aceitam, e até aprovam, um comportamento mais enérgico/duro (ou mesmo grosseiro) vindo de um professor/orientador, mas isso não acontece quando vem de uma professora/orientadora(2, 3). Da professora/orientadora eles esperam compreensão, tratamento materno, etc. Dessa forma, uma atitude grosseira de um homem não só não lhe causa prejuízos, como muitas vezes lhe traz recompensas na carreira e, para muitas pessoas, instiga respeito. Homens também recebem mais visibilidade do que mulheres em eventos científicos: homens são a maioria como chair de sessões, palestrantes e participantes de mesas redondas (4, 5). Essa visibilidade aumenta a reputação dos pesquisadores, as colaborações para pesquisa, as redes de contatos e, consequentemente, a produtividade. Em muitos casos, os organizadores do eventos (em sua maioria homens brancos de meia idade) justificam essa disparidade dizendo que "não encontram experts mulheres na área". Para evitar esse tipo de “desculpa”, foi criada a plataforma https://request500womenscientists.org/ , que auxilia a compilar nomes de mulheres cientistas no mundo inteiro. c) Maternidade x Paternidade : a lei brasileira possibilita às mulheres uma licença maternidade de até seis meses e aos homens de até 15 dias (para servidores públicos federais). Por esses números já é possível ver que não há equidade nem com relação a quanto tempo mulheres e homens podem se dedicar à criança recém chegada. Da mesma forma, não há regras que considerem o tempo que a mulher passou afastada do trabalho na hora de avaliar projetos de pesquisa e conceder bolsas, além de que tudo na carreira do cientista leva em consideração a produtividade. Considerando que as progressões na carreira acadêmica, em geral, ocorrem a cada 2 anos em universidades federais, como exigir que o desempenho de uma mulher que trabalhou 18 meses (e ficou seis em licença maternidade) seja igual ao de um homem que trabalhou 24 meses? Em geral, o que acontece é a mulher ficar para trás na aprovação de projetos, publicações, orientações, etc. Além disso, apesar da licença maternidade ser de seis meses, já se sabe que recuperar a produção desse período pode demorar até alguns anos. Alguns motivos: 1. dependendo da área de atuação (oceanografia química, por exemplo), o trabalho de laboratório fica limitado por questões de saúde do bebê durante a gestação e a lactação (6); 2. limitações (logísticas e financeiras) para participar de conferências e congressos diminuem a interação com outros pesquisadores e também o estabelecimentos de projetos em conjunto; 3. estudos apontam que o cérebro da mãe é reestruturado por pelo menos 2 anos após o nascimento do bebê e isso pode afetar a sua produtividade (7); d) Comprometimento das instituições : para melhorar o balanço não basta apenas incentivar que mais mulheres invistam em uma carreira acadêmica, é preciso que as instituições se comprometam em dar suporte às suas carreiras e a combater assédios. No caso das instituições públicas brasileiras já temos igualdade de salários, mas como resolver o restante dos problemas? Seria responsabilidade de cada departamento ou centro/instituto? Ou deveria ser algo vindo da instituição? A verdade é que se as administrações centrais não estabelecerem políticas que permitam a equidade, esta não será atingida. Precisamos de regulamentos, regimentos e editais que considerem os pontos apresentado nos itens anteriores. Da mesma forma, precisamos que as instituições responsabilizem seus funcionários por atitudes inapropriadas; sejam elas comentários inapropriados ou até assédios (morais e sexuais). As administrações não podem mais "passar pano" para comportamentos inadequados que acabam por constranger as mulheres e até mesmo afastá-las do ambiente acadêmico. Dados apontam que um fator importante para mulheres abandonarem a carreira acadêmica não são as atividades fora do ambiente do trabalho ou falta de apoio de seus companheiros/as, mas as atitudes de seus colegas de trabalho. Os quatro pontos citados acima são só alguns exemplos de como apenas igualar o número de mulheres e homens em um departamento, centro, instituto, universidade não é suficiente para dizer que alcançamos a equidade na academia. Além deles, vários outros podem ser citados, como divisão equitativa do trabalho tido como doméstico (inclusive no ambiente de trabalho, como fazer café, arrumar sala para reunião e organizar confraternizações de fim de ano), incentivos iguais para homens e mulheres seguirem uma carreira acadêmica, avaliações (na carreira, de projetos, etc) que considerem as diferentes realidades, etc. Dessa forma, para melhor combater a ausência de equidade de sexo na academia, antes de criar medidas para saná-la é necessário entender todas as suas causas. NOTA da autora: o texto focou em mulheres/homens, mas a verdadeira equidade em ciência deve garantir que todos (professores, estudantes, pesquisadores) independente do sexo, identidade e/ou expressão de gênero, orientação sexual, etnia sejam empoderados, desafiados, suportados e tenham acesso para se tornarem cientistas líderes em suas respectivas áreas. Referências: https://elifesciences.org/articles/21718 https://www.insidehighered.com/news/2018/01/10/study-finds-female-professors-experience-more-work-demands-and-special-favor https://www.insidehighered.com/news/2018/03/14/study-says-students-rate-men-more-highly-women-even-when-theyre-teaching-identical https://www.nytimes.com/2019/06/12/health/collins-male-science-panels.html?smid=fb-nytscience&smtyp=cur&fbclid=IwAR29qiAP_eZAV5h1A7xJvc4lC6dszMNLS9bbrTdA22HHcCHOprvuHknv5Oc https://www.pnas.org/content/115/1/104 https://www.theguardian.com/science/occams-corner/2013/aug/22/1 https://www.sciencemag.org/news/2016/12/pregnancy-resculpts-women-s-brains-least-2-years #mulheresnaciência #carreira #equidade #julianaleonel

  • Ciência no Bar - Mulheres na Ciência

    O Ciência no Bar é um projeto de extensão organizado por estudantes e professores da Ecologia/UFSC que leva discussões sobre assuntos variados para um bar ao alcance da comunidade. O evento ocorre quinzenalmente no Seu Tavares em Florianópolis. Cartaz de divulgação do evento (Fonte: Ciência no Bar ) No dia 12/03 nossa editora Juliana Leonel participou, junto com mais três professoras da UFSC, da conversa no tema Mulheres na Ciência. O tema foi o mais pedido em uma consulta feita recentemente para saber o que as pessoas queriam discutir e, dessa forma, ressalta a sua importância. Nossa editora falando sobre equidade na carreira acadêmica Nossa editora, falou sobre Equidade na Acadêmica ressaltando como alguns números podem nos passar a ideia de uma falsa igualdade entre homens e mulheres no meio acadêmico. O tema foi inspirado em um texto do Bate Papo com Netuno de 2015 ( Sexo Realmente Importa? ), mas que continua atual e que volta a ser discutido aqui . As participantes respondendo perguntas da plateia. A fala começou mostrando dados sobre o número de pesquisadoras e pesquisadores cadastrados nos grupos do CNPq para ilustrar que quando somente esses números são considerados parece haver uma igualdade entre sexo na academia. Mas, que quando as diferentes áreas de conhecimento ou a posição na carreira são analisadas estamos longe de atingir o equilíbrio. Na sequência foi discutido quais os fatores devem ser considerados quando discutimos equidade. A discussão foi bem recebida pelo público e houveram várias perguntas e exposição de experiências. #extensão #divulgaçãocientífica #mulheresnaciência #netuniandoporai #julianaleonel #ciencianobar

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