A tripla crise planetária e o oceano
- há 2 dias
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Por Carla Elliff

Imagem por Natasha Hoff
"Tripla crise planetária." Tente falar isso três vezes rápido. Pois é, se você for como eu, tropeçou neste desafio. Não acho que isso seja à toa – um nome difícil para um conceito que também não é simples. Mas vale o esforço de entender, porque estamos falando de três crises globais (mudanças climáticas, poluição e perda de biodiversidade) que não apenas coexistem, mas se potencializam.
Antes de discutir as sinergias entre os elementos da tripla crise, vamos destrinchar o que cada um representa individualmente:
As mudanças climáticas, também chamadas de crise climática ou emergência climática em função da magnitude de suas implicações, são impulsionadas principalmente pelo acúmulo excessivo de gases de efeito estufa na atmosfera, como o dióxido de carbono e o metano. Como apontado nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), esses gases excessivos têm origem antropogênica, sendo liberados pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento, por práticas agropecuárias e do setor industrial. Vale lembrar que o efeito estufa é um fenômeno natural, essencial para a manutenção da vida na Terra. A exacerbação de sua efetividade é semelhante a um cobertor extra ao redor do planeta – que já estava quentinho o suficiente. Com mais gases na atmosfera, o calor que deveria escapar para o espaço fica retido, elevando as temperaturas globais. As consequências já são visíveis em todo o planeta, por exemplo, ondas de calor mais intensas e frequentes, secas prolongadas, eventos climáticos extremos e o derretimento acelerado das calotas polares.
A poluição, por sua vez, se manifesta de formas diversas: química, sonora, luminosa, por nutrientes, por resíduos sólidos... Com essa diversidade de tipos, também são igualmente diversas as suas origens, implicações e respostas que precisamos para mitigar seus impactos. Por exemplo, o excesso de nitrogênio e fósforo de fertilizantes agrícolas impacta importantes ciclos biogeoquímicos; metais tóxicos oriundos de atividades industriais se bioacumulam e biomagnificam pela teia trófica; poluição sonora e luminosa alteram habitats e o comportamento de organismos; e temos também a poluição por plásticos, que têm ganhado destaque pela sua onipresença, sendo encontrados no oceano profundo, no ar que respiramos, no corpo humano e em tantos outros lugares.
Já a perda de biodiversidade é, talvez, a mais silenciosa das três crises — e, por isso, frequentemente subestimada. Como indicado pela Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), estima-se que a taxa atual de extinção de espécies seja entre dezenas e centenas de vezes maior do que a taxa natural de fundo, aquela que existiria sem interferência humana. Desmatamento, supressão de habitats, caça, introdução de espécies exóticas e, claro, as próprias mudanças climáticas e a poluição se combinam para empurrar espécies e ecossistemas inteiros além do limite. Aqui é importante destacar que a perda de biodiversidade não é apenas uma consequência negativa, ela também leva a desdobramentos na tripla crise. Quando uma espécie desaparece, perdemos toda uma rede de relações ecológicas que muitas vezes nem chegamos a conhecer, essenciais para a manutenção de habitats e serviços ecossistêmicos.
Esses três elementos estão em constante interação globalmente. O oceano, um grande conector planetário, é palco para sinergias bastante complexas nessa tripla crise.
Considerando a relação entre poluição por plástico e as mudanças climáticas (uma relação conhecida como o nexo plástico-clima), temos alguns dados alarmantes, publicados em um relatório produzido no âmbito da Estratégia Nacional Oceano sem Plástico: a cadeia produtiva do plástico é responsável por 3% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo que 94% dessas emissões ocorrem no início da cadeia do plástico (na extração, polimerização e produção de plástico primário). Uma vez no oceano, o plástico segue contribuindo para as mudanças climáticas. Por exemplo, a presença de plásticos – sobretudo microplásticos – sobre a neve reduz o albedo (capacidade de refletir a luz solar) de ecossistemas polares, o que intensifica a absorção de calor e amplifica o feedback positivo do derretimento do gelo. Já em ambientes tropicais, temos o impacto na capacidade de sequestro de carbono por ecossistemas costeiros, como os manguezais, pois a presença de plásticos altera a composição dos sedimentos e os ciclos biogeoquímicos que controlam esses processos.
Para ilustrar os outros dois nexos (clima-biodiversidade e poluição-biodiversidade), os recifes de coral de águas rasas são um bom exemplo. Esses ecossistemas são amplamente reconhecidos por sua sensibilidade a alterações na temperatura da água. Com ondas de calor mais frequentes e intensas, inclusive no oceano, a temperatura da superfície do mar tem quebrado recordes a cada ano, com as chamadas anomalias térmicas positivas ocorrendo por longos períodos e afetando áreas extensas. Nessas situações, quando a temperatura sobe além de um limiar crítico por tempo suficiente, causando estresse térmico, os corais expulsam as algas simbióticas (zooxantelas) que vivem em seu tecido e fornecem boa parte da energia que eles precisam para sobreviver por meio de fotossíntese. Sem as zooxantelas, os corais ficam branqueados. É uma condição de estresse fisiológico severo, que pode levar à morte e torna o coral menos resiliente a outros impactos concomitantes no oceano. Aqui entra uma sinergia surpreendente com o elemento de poluição por plástico: um coral branqueado precisa aumentar sua alimentação heterotrófica para sobreviver, pois sua fonte de energia principal, as zooxantelas, foram expulsas. O problema é que em um oceano cada vez mais contaminado por microplásticos, nem sempre as partículas capturadas pelo coral são alimento de verdade... Um estudo recente demonstrou esse risco aumentado de ingestão de microplásticos em duas espécies de coral de ocorrência no Oceano Pacífico, durante períodos de estresse térmico. Ainda precisamos de mais estudos para saber como este processo se dá nos nossos corais endêmicos ao Atlântico Sudeste.
O que mais os dados científicos nos revelam sobre o estado atual do oceano diante de tudo isso?
O 9º Relatório do Estado do Oceano, publicado pelo programa europeu Copernicus em 2025, oferece um retrato preocupante. Em 2023 e 2024, a temperatura média da superfície do mar superou um recorde histórico e alcançou a marca de 21 °C. O nível do mar, por sua vez, sobe a uma taxa de 4,1 mm por ano, a mais alta já registrada, e acumula 228 mm de elevação desde 1901 – colocando cidades costeiras (e países inteiros) em situações de vulnerabilidade a erosão e inundações. O planeta já passou por variações naturais nesses parâmetros, mas os dados mostram que tanto o aquecimento quanto a elevação do nível do mar estão se acelerando de forma inédita.
Esses números ganham ainda mais peso quando olhamos para a biodiversidade. Segundo o mesmo relatório, 30% dos corais criticamente ameaçados já estão expostos a aquecimento ou acidificação oceânica acima das médias globais. E aqui o nexo com a poluição aparece novamente: 75% dos países que emitem mais de 10 mil toneladas de lixo plástico por ano estão localizados adjacentes a corais ameaçados ou criticamente ameaçados. Em outras palavras, um dos ecossistemas mais vulneráveis às mudanças do clima é, ao mesmo tempo, um dos mais expostos à poluição plástica.
E agora, José?
Diante desse problema planetário, fica claro que não existe uma solução única. Tem uma frase de Inger Andersen, Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que acho que captura algo essencial: “Só o multilateralismo pode resolver a tripla crise planetária”. Ou seja, nenhum país sozinho, nenhum setor da sociedade isoladamente e, muito menos, uma só pessoa tem a capacidade de responder às diversas facetas desse problema complexo e interconectado.
A boa notícia é que esse multilateralismo já está em movimento, ainda que de forma imperfeita e urgentemente necessária de ser ampliada. Alguns exemplos:
Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030): proclamada em 2017 pela Assembleia Geral das Nações Unidas e coordenada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, a Década do Oceano – como é apelidada – tem como visão alcançar “a ciência que precisamos para o oceano que queremos”. Passado metade dessa década, o último relatório de progresso mostra que a mobilização reúne milhares de programas, projetos, contribuições e atividades endossadas em 75 países parceiros – com o Brasil em posição de destaque na sua atuação;
Conferências das Nações Unidas sobre o Oceano (UNOCs): estes fóruns internacionais de alto-nível foram criados em 2017 para impulsionar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 “Vida na Água”. A UNOC3, realizada em 2025 em Nice, reuniu mais de 15 mil pessoas e resultou no Plano de Ação para o Oceano de Nice, que inclui como prioridades financiar a economia azul, concluir o Tratado de Alto Mar (e que de fato foi ratificado no final de 2025!), combater a poluição plástica e integrar o oceano na ação climática;
Meta 30x30: adotada na COP15 da Biodiversidade em 2022, este compromisso internacional visa proteger ao menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030. Mais de 190 países assinaram este compromisso, incluindo o Brasil, e agora todos precisam trabalhar em prol do fortalecimento e estabelecimento de suas áreas protegidas – aqui não vale apenas “parques de papel”!
Tratado Global dos Plásticos: em março de 2022, com a Resolução 5/14 da UNEA, iniciou-se o processo para a criação de um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre poluição plástica, inclusive no ambiente marinho. Chamado informalmente de Tratado Global dos Plásticos (e variantes semelhantes), este é um marco histórico: o primeiro acordo ambiental multilateral dedicado à temática de poluição por plásticos. As negociações seguem em curso, com divergências significativas entre os cerca de 180 países envolvidos no processo, mas com grande apoio da comunidade internacional para chegar a um instrumento que considere todo o ciclo de vida do plástico.
Eu não poderia deixar de destacar que, no centro de qualquer resposta eficaz, precisa estar a ciência. Ela fornece uma base comum para discussões baseadas em evidências e com redução de vieses ideológicos, ajudando a evitar que o multilateralismo fragmente-se em interesses domésticos conflitantes. A diplomacia científica no oceano não deve ser subestimada.
Para os mais cínicos, vale lembrar um precedente histórico de sucesso deste tipo de esforço. Na década de 1980, cientistas confirmaram um buraco na camada de ozônio sobre a Antártica. Em 1987, 197 países assinaram o Protocolo de Montreal – uma adesão universal na época entre Estados-membros da ONU –, comprometendo-se a eliminar as substâncias responsáveis. Quase quatro décadas depois, cerca de 98% dessas substâncias foram eliminadas e a camada de ozônio está a caminho da recuperação, um resultado que o secretário-geral da ONU já chamou de exemplo do que o mundo pode alcançar quando trabalha junto “guiado pela ciência, unido pela ação”. Não foi simples ou rápido chegar a esse resultado, mas assim é a natureza do trabalho colaborativo. A tripla crise planetária é real, seus impactos já são sentidos, e já temos ferramentas para agir.
Queria finalizar com uma última reflexão: se mesmo depois dessa dose de esperança, você ainda não se sentir acalentado diante desse cenário de três crises globais, fruto da ação humana, podemos sempre recorrer à poesia – também fruto da nossa capacidade unicamente humana. Recomendo “E agora, José?” de Carlos Drummond de Andrade, para te ajudar a transformar a pergunta de desamparo diante de tudo isso em uma pergunta que nos instiga a seguir em frente: “José, para onde?”. Minha resposta seria: “Para o mar!”
Este texto foi produzido no âmbito do projeto “A tripla crise planetária sobre recifes de coral no Brasil: aquecimento global como um agente intensificador dos impactos da poluição por plásticos”, desenvolvido no Laboratório de Recifes de Coral e Mudanças Climáticas do IOUSP (LARC) e apoiado pela Fundação Universidade de São Paulo (edital FUSP Mudanças Climáticas).
Referências
Axworthy, J.B.; Padilla-Gamiño, J.L. 2019. Microplastics ingestion and heterotrophy in thermally stressed corals. Scientific reports, 9(1):18193, DOI: 10.1038/s41598-019-54698-7.
Grilli, N.M.; Silva, C.L.D.L; Cebuhar, J.D; Holanda, J.R.; Di Pasquale, A.I.B.S.L; Lando, G.A.; Justino, A.K.; Santos, A.C.A.; Andrades, R.; Castro, I.B.; & Elliff, C.I. 2025. Poluição por plástico no oceano e emergência climática. 24p. Disponível em <https://drive.google.com/file/d/1GzRPa8gWg76RP3cVbhjQzxrJrwNy-uv7/view?usp=sharing>
IPBES. 2019. Global assessment report on biodiversity and ecosystem services of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (pp. 1-1082). Brondízio, E. S.; Settele, J.; Díaz, S.; Ngo, H. T. (eds). IPBES secretariat, Bonn, Germany, DOI: 10.5281/zenodo.3831673
IPCC. 2023. Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland, pp. 35-115, DOI: 10.59327/IPCC/AR6-9789291691647.
von Schuckmann, K.; Gues, F.; Moreira, L.; Liné, A.; de Pascual Collar, Á. 2025. Global ocean change in the era of the triple planetary crisis. State of the Planet, 6, 1-10, DOI: 10.5194/sp-6-osr9-2-2025
Sobre a autora:

Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP.
O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado!
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