Apesar de você, me tornei doutora

Atualizado: Mar 18

Por Gabriela Figueiredo

Aviso de gatilho.

Ilustração: Catarina Ruiz Mello

Após um ano da conclusão do meu mestrado em Biologia de Ambientes Aquáticos na Universidade Federal de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, um dilema apareceu: o que fazer em seguida? A dúvida e incerteza de que rumo tomar aumentaram ainda mais quando me deparei com o desemprego e a falta de opções de trabalho na minha área. Vi no doutorado a luz no fim do túnel. Não sabia que essa escolha traria muitos desafios e tomadas de decisões, que foram as mais difíceis na minha vida acadêmica.

Desde minha graduação em Ciências Biológicas na Universidade Estadual da Paraíba – Campina Grande, estudei ecologia trófica de peixes, que se tornou minha paixão aprofundada no mestrado. Quando fui pesquisar departamentos e laboratórios em que eu pudesse continuar trabalhando nessa área, vi que na Universidade Federal de Pernambuco isso seria possível. Achei um professor que atuava nessa área. Coincidentemente eu já havia lido alguns trabalhos científicos dele. Muitos me alertaram sobre a forma como ele trabalhava, de sua fama de super exigente, mas eu, na ânsia de ingressar logo em um doutorado, acreditei que era um exagero. Fiz a seleção nos meses de outubro e novembro de 2015. De início, ele já queria que eu me mudasse para iniciar os trabalhos desde janeiro, quando o ano letivo só iniciaria em março. Por um acaso, no final de dezembro, antes de ingressar no doutorado, quebrei meu pé e não pude me mudar em janeiro, como ele havia recomendado. Nesse momento, começou a minha saga.

Ele não acreditou que eu, realmente, tivesse quebrado o pé, passado por uma cirurgia e que estava impossibilitada de trabalhar. Foi necessário eu viajar até Recife com a ajuda dos meus pais, para ele ver com os próprios olhos a minha situação. Ainda tive que ouvir piadinhas como “Nossa, você quebrou mesmo seu pé. Achava que era mais uma desculpa de aluno para não trabalhar. Essa seria a desculpa mais diferente que eu já ouvi”. Lembro-me de não ter dado muita atenção ao comentário. Mas desde então, ele começou com uma série de comentários e atitudes que me deixavam mal. Primeiro, ele falou que eu teria que merecer a chave do laboratório. Então, todos os dias, eu tinha que chegar primeiro e ficar esperando alguém abrir a porta para eu poder trabalhar. Ele chegou a duvidar da minha capacidade de realizar as atividades laboratoriais, mudou meu projeto, tirando a parte mais inovadora do trabalho simplesmente porque quis. Durante quase um ano que passei no laboratório, ele não me deixava analisar os dados que seriam utilizados na minha tese. Ao invés disso, me mandava fazer outros trabalhos.

Foram muitos os abusos morais. Ele chegou a cancelar uma disciplina em que eu tinha me inscrito com a desculpa de que eu estava faltando muito no laboratório e disse para eu colocar na justificativa que estava cancelando a matrícula na disciplina porque ele havia mandado. Quando falei que tinha interesse em fazer um doutorado sanduíche, ele argumentou que eu não faria, pois seus alunos não precisavam disso, já que esse argumento só era válido para estudantes que não conseguiam publicar. Um dia, chegou a gritar e brigar comigo por eu estar ajudando outra aluna a melhorar a apresentação do seu projeto. Falou que eu não era a orientadora dela, que eu deveria estar trabalhando, ao invés de estar ajudando a colega. Gritou comigo dizendo que eu estava ‘peitando’ ele. Além dessas grosserias e falta de respeito, ele fazia alguns comentários extremamente machistas e humilhantes. Para ele, era uma vitória fazer o aluno chorar. Sentia prazer quando dizíamos que a fama dele era de carrasco.

Foram quase 12 meses nesse processo, até que um dia, ele avisou que todos seus alunos iriam participar de um congresso em outro estado, no qual ele seria palestrante. Conversando com ele, falei que para mim, só seria interessante participar se enviasse algum resumo, pois seria uma viagem cara. Como eu não tinha nenhum resultado da minha tese, porque ele não me deixava analisar as amostras do meu trabalho, ele me deu uns dados resultantes de um ex-aluno e falou para eu fazer o resumo com aqueles dados. Falei para ele que não queria, pois não eram meus resultados. Ele bateu na mesa e disse que os dados eram dele e que eu deveria fazer o que ele quisesse. Depois de pronto, ele veio me questionar se eu concordava com o que eu havia escrito, e começou a me chamar de plagiadora, disse que plágio dava cadeia, me chamou de mau caráter, burra... Não poupou palavras. Fiquei em choque e sem nenhuma reação. Sabia que se eu me descontrolasse, perderia a minha razão. Voltei pra casa arrasada. Nunca tinha ouvido tanta baixaria. Nunca ninguém tinha dito aquelas palavras para mim. Lembro de ter conversado com meus pais e ter dito que não ia deixar isso ficar desse jeito. Era muita falta de respeito comigo e eu não merecia nenhuma palavra daquelas que foram proferidas numa sexta-feira.

Na segunda-feira, fui falar com ele. Mas parecia que estava adivinhando, pois chegou ao laboratório já com a cara fechada. Ainda assim, me mantive firme e fui conversar. Quando comecei a falar que não tinha gostado da nossa conversa, ele bateu o celular na mesa, falou que a porta era a serventia da casa, disse que não estava gostando da orientação e mandou pegar minhas coisas e ir embora. Não consegui falar absolutamente nada, mas escutei o que, no fundo, eu mais queria ouvir: sair daquele laboratório. Arrumei meus materiais e saí de lá, pela última vez. Ele ainda teve a cara de pau de me 'expulsar' e sair espalhando mentiras no departamento. Ainda disse para seus alunos que eu teria uma chance de voltar para o laboratório, caso eu me desculpasse, o que eu jamais faria, por não ter culpa de nada. Lembro de ter ido em busca dos meus direitos, mas como não havia provas suficientes de assédio, não consegui levar adiante.

Saindo de lá, fui conversar com o coordenador do curso, expliquei a minha situação e tive seu total apoio para mudar de orientador. Não foi nada fácil, até porque eu era nova no departamento e não conhecia muito bem os professores. Mas tive muita sorte da coordenação me apoiar e tornar o processo de mudança de orientador mais simples. Fui em busca de alguém que trabalhasse com uma metodologia que eu havia usado no mestrado e, naquele momento, encontrei o meu orientador atual, com o qual terminei meu doutorado. Ao me apresentar, recebi dele o apoio necessário para recomeçar minha nova etapa.

Como já havia passado quase um ano de curso, o tempo era insuficiente para fazermos novas coletas. Por isso, ele me propôs trabalhar com dados coletados, mas para tal, eu teria que mudar completamente de área. Foi assim que eu entrei para o mundo do zooplâncton. Foi uma decisão difícil, deixar a paixão pela ecologia de peixes e aprender do zero sobre uma comunidade extremamente importante no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Mas aceitei esse desafio, e junto com ele, vieram: a volta da minha autoestima, o prazer de trabalhar no novo assunto, além de parcerias com laboratórios e colaboradores franceses, com os quais pude, finalmente, realizar meu doutorado sanduíche, sonho antigo. Após trabalhar intensivamente no Brasil, morei durante um ano na França, onde consegui concluir meus estudos com sucesso.

Apesar dessa mudança radical, hoje percebo que foi o melhor que poderia ter me acontecido. Fui acolhida na família “zooplanctônica”, me apaixonei pelo zooplâncton, concluí minha tese de doutorado da qual tenho muito orgulho, além de já ter dois artigos publicados, o que coroou meu esforço.

Sobre Gabriela:

Gabriela Guerra Figueiredo é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre em Biologia de Ambientes Aquáticos e Continentais pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e doutora em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Sempre amou os animais, e trabalhar com biologia marinha era sua paixão. Atualmente trabalha com ecologia de zooplâncton com ênfase em análise de isótopos estáveis.

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