Limbo acadêmico: quem nunca?

Por Natasha Travenisk Hoff


Ilustração de Luiza Soares


Um desabafo sobre a vida de MAIS uma pós-doutoranda em busca do seu lugar ao sol.


Sabe quando optamos pela carreira acadêmica mas há aqueles períodos de "entressafra" entre o final da graduação e a aprovação no mestrado ou entre a defesa do mestrado e o início do doutorado? A isto eu comecei a chamar "carinhosamente" de limbo acadêmico: um período de leve desespero e tensão no qual o seu futuro acadêmico e financeiro é incerto. Todos querem que este período seja o menor possível, pois as contas também precisam ser pagas nesta entressafra, certo? Mas após iniciar o estágio pós-doutoral (popularmente chamado de pós-doc) no ano passado, o termo limbo acadêmico ganhou um novo significado.


No exterior, o pós-doc é considerado um "trabalho" (como se nada do que fizéssemos fosse trabalho, né? Mas isso é outra coisa...) e você assina um contrato, geralmente por tempo determinado, prorrogável por mais um ou dois anos. Muitos editais contêm, inclusive, as funções para as quais você está sendo contratado.


E no Brasil, como funciona o pós-doutorado? Primeiro, não há vínculo empregatício, ou seja, você continuará a ouvir "e quando você vai parar de estudar e ir trabalhar?". Segundo, conseguir financiamento para projetos de pós-doutorado é outro processo complicado: a verba governamental está cada dia mais restrita, com muitos projetos sendo considerados aprovados, mas sem possibilidade de financiamento (lembrando que nos últimos editais do CNPq para pós-doutorado e outras modalidades, uma minoria dentre os pedidos foram contemplados com bolsa, mesmo com projetos cujo parecer fosse favorável). Então, você precisa de um projeto cheio de criatividade e inovação para ser aprovado, além de um pouco de sorte talvez.


Pronto: você tem 12 meses de financiamento garantido e, talvez consiga uma prorrogação de, no máximo, mais 12 meses. E neste curto período, você tem que fazer de tudo para melhorar seu currículo para tornar viável a busca por uma vaga como docente: pesquisa, publica artigos científicos, orienta e participa de disciplinas - quando alguém te dá essa abertura -, organiza eventos, tenta participar de alguns concursos por aí e se preocupa com o prazo final que logo chega e você vai precisar entregar um relatório. Se sobreviver a tudo isso, você terá que pensar em um novo financiamento para o seu projeto ou, ainda, precisa escrever um novo projeto para outros processos seletivos.


Mas, Natasha, por que razão você chama isso de limbo acadêmico? Neste curto período, enquanto tentamos de todas as formas cumprir todas as demandas e conquistar um espaço no ambiente acadêmico (a vontade era gritar "me dá uma chance!"), diferente dos graduandos, pós-graduandos, docentes e funcionários, nós não temos direito a qualquer representação oficial. Isso significa que os pós-doutorandos não têm voz na universidade, não podem lutar por condições melhores, ficam dependentes do que seus supervisores ou outros docentes permitem ou das demandas apresentadas pela comissão a qual estamos atrelados. Quando falei o termo em uma reunião de comissão estatutária do instituto no qual atuo no momento (na qual os pós-doutorandos não têm direito à representação, mesmo sendo quem mais é afetado pelas decisões ali tomadas), a reação dos docentes foi “imagina”, “não é assim, não” e coisas similares. Vale lembrar que a vida (e as cobranças) desses pesquisadores no início de suas carreiras era muito diferente daquela que experimentamos hoje e muitos, infelizmente, não levam isso em consideração.


Sem voz, muitas vezes, não conseguimos experiências que nos são cobradas na disputa por vagas para docente... ficamos muitas vezes à mercê daquilo que os docentes não estão dando conta, como orientar, avaliar trabalhos e participar de alguma banca. E, muitas vezes, isso acontece de maneira informal, ou seja, o seu nome permanece na obscuridade.


Agora, não posso falar em nome de outros pós-doutorandos, mas a sensação que eu tenho é de que, apesar de ter me esforçado muito durante todos esses anos, eu ainda não sou boa o bastante. Será a tal da Síndrome do Impostor? Será que meu esforço ainda não foi suficiente? Eu, que sofro de ansiedade generalizada e venho de uma relação abusiva com o meu ex-coorientador, acho sempre que não me dediquei o quanto deveria, não aprendi o tanto que deveria… Ainda tenho o NÃO muito relacionado à minha capacidade.


Muitos colegas já desistiram da vida acadêmica, quer seja pela dificuldade em conseguir uma vaga como docente, quer seja por não conseguir mais financiamento para seus projetos. Outros, ainda, com todos esses “perrengues”, acabaram por descobrir outras atividades de maior rentabilidade (ou pelo menos algo mais constante), o que também não é ruim, claro. Eu sigo lutando pelo meu lugar ao sol nessa carreira que, apesar de ser sofrida, eu amo demais.

 

Referências ou sugestão de leitura:


van der Wejden, Inge; Teelken, Christine; de Boer, Moniek; Drost, Mariske. 2016. Career satisfaction of postdoctoral researchers in relation to their expectations for the future. High Educ., 72:25-40. DOI: 10.1007/s10734-015-9936-0.


Ysseldyk, Renate; Greenaway, Katharine H.; Hassinger, Elena; Zutrauen, Sarah; Lintz, Jana; Bhatia, Maya P.; Frye, Margaret; Starkenburg; Tai, Vera. 2019. A leak in the Academic Pipeline: identity and health among postdoctoral women. Front. Psychol., 10:1297. DOI: 10.3389/fpsyg.2019.01297.


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