Um tesouro chamado recife de coral

Atualizado: Mar 18

Por Carla Elliff


De atrações turísticas a testemunhas vivas da história natural, entenda a importância dos recifes.

Ilustração: Joana Ho.


Ao falar sobre a conservação dos nossos ecossistemas não é incomum ouvir perguntas como “mas para quê proteger essa área?”, “isso não é só mato?”, “por que embargar uma obra por causa de uma área de reprodução de um bicho qualquer?”. Uma das minhas principais linhas de estudo lida em parte com essas dúvidas, respondendo à pergunta: para que servem nossos ecossistemas? Quais tesouros eles guardam?


Durante meu mestrado e doutorado no programa de pós-graduação em geologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) eu investiguei os chamados “serviços ecossistêmicos” dos recifes de coral. Serviços ecossistêmicos são basicamente os benefícios que nós como seres humanos obtemos de um ambiente, o que permite nosso bem-estar.


Esses serviços incluem materiais que podemos retirar do meio ambiente, processos dentro dos ecossistemas que mantém tudo em equilíbrio, e até serviços mais abstratos como valores emocionais e sentimento de pertencimento – como aquela sensação de paz que temos quando estamos contemplando uma paisagem ou dando um mergulho no mar.


E podem confiar, os recifes de coral têm muitos serviços ecossistêmicos a oferecer!


Imagine um recife de coral. A primeira imagem que talvez venha à sua mente é uma estrutura embaixo d’água, muito colorida e cheia de vida, um exemplo de biodiversidade. Ao passo que a biodiversidade em si não é um serviço ecossistêmico, ela faz parte do capital natural que promove serviços. Ou seja, a biodiversidade impulsiona serviços como o turismo e a recreação: recifes com alta biodiversidade são mais atraentes e, assim, podem contribuir para a economia local por meio de atividades de mergulho, por exemplo.


A autora durante um mergulho de reconhecimento no litoral baiano.

Além disso, muitos tipos de pescado que consumimos passam alguma parte de seu ciclo de vida sobre os recifes de coral. Apesar desse ecossistema estar presente em menos de 0,1% dos oceanos, ela concentra quase 25% de toda a fauna marinha! E essa fauna encontrada nos recifes serve não só como fonte de proteína, mas também organismos como as esponjas têm alto potencial na área de biotecnologia (nós já escrevemos sobre esponjas aqui) .


Os recifes de coral são hotspots de biodiversidade. (Fonte da imagem: Pixabay em Pexels)



Agora, tirando o rosto de dentro d’água podemos ver outro aspecto importante de um recife. Perceba como as ondas que chegam à costa quebram exatamente em cima do recife. Essa transformação acontece porque a presença dessa estrutura feita de carbonato de cálcio representa um obstáculo repentino no fundo para as ondas. Isso quer dizer que os recifes são capazes de promover a quebra das ondas incidentes e atenuar a energia e altura delas, como um quebra-mar natural. Esse serviço de proteção à linha de costa se torna ainda mais importante diante de tempestades cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas.


Ondas quebrando sobre o recife de coral da ilha de Boipeba, Bahia.

Falando em mudanças climáticas, os recifes de coral são também um arquivo de história natural incrível! É possível identificar condições oceanográficas do passado a partir do estudo de seus esqueletos, já que o crescimento de um coral é muito lento. Isso quer dizer que conseguimos estimar a temperatura passada daquele ambiente, a ocorrência de fenômenos climáticos ao longo dos anos, e outros fatores lendo o esqueleto dos corais como anéis no tronco de uma árvore. Infelizmente, esse crescimento lento também é parte do porquê esse ecossistema é tão frágil. Um recife degradado pode demorar séculos ou até milênios para se recuperar de um evento adverso.


Esses serviços que mencionei são apenas alguns exemplos, mas já é possível perceber a importância não só ambiental, mas também socioeconômica de um recife saudável. O caminho para o desenvolvimento sustentável começa com o reconhecimento dos nossos recursos naturais em todo o seu potencial!

Referências e sugestão de leitura:


ELLIFF, C.I. & KIKUCHI, R.K.P. 2015. The ecosystem service approach and its application as a tool for integrated coastal management. Natureza & Conservação, 13:105-111. (doi:10.1016/j.ncon.2015.10.001)


ELLIFF, C.I. & KIKUCHI, R.K.P. 2017. Ecosystem services provided by coral reefs in a Southwestern Atlantic Archipelago. Ocean & Coastal Management, 136(2017):49-55. (doi:10.1016/j.ocecoaman.2016.11.021)


ELLIFF, C.I. & SILVA, I.R. 2017. Coral reefs as the first line of defense: shoreline protection in face of climate change. Marine Environmental Research, 127:148-154. (doi:10.1016/j.marenvres.2017.03.007)


PRINCIPE, P.; BRADLEY, P.; YEE, S.; FISHER, W.; JOHNSON, E.; ALLEN, P. & CAMPBELL, D. 2012. Quantifying coral reef ecosystem services. U.S. Environmental Protection Agency, Office of Research and Development, Research Triangle Park, NC. EPA/600/R-11/206. Disponível em: http://www.epa.gov/ged/quantify.pdf.


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