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- Tiradas do Netuno #21
“Cação” nada mais é do que uma forma de chamar a carne de tubarões (e às vezes raias). Esse nome é usado há anos em peixarias para não afugentar clientes que poderiam ter medo de saber que estão comprando tubarão! Além da fama injusta de maus, há várias razões para não se comer cação… Para saber mais, acesse o post “Tubarão: caçador ou caça?” publicado em 17/05/2018. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Cação #Nadadeiras #Tubarão #Extinção #Peixe
- Como minha curiosidade me levou a publicar na Nature
Por Yonara Garcia Ilustração: Joana Ho Fazer pesquisa não é um mar de rosas e acho que quem está desenvolvendo uma sabe bem que muitos obstáculos, erros, burocracias etc., podem ocorrer durante o caminho. No texto “ Os desafios para chegar até aqui ”, eu contei um pouquinho sobre o making of da minha pesquisa durante o mestrado, onde abordo diversas situações que tive que contornar para conseguir entregar minha dissertação. E dentre estas situações, uma delas trouxe um plot twist bem positivo pra mim. Então senta que lá vem história! (Ixi, acho que com essa frase entreguei que já passei dos trinta rsrsrsrs). Minha pesquisa de mestrado consistiu, basicamente, no estudo do comportamento natatório da associação entre uma diatomácea e um ciliado, a fim de avaliar suas possíveis consequências ecológicas, por meio de filmagens em um sistema óptico tridimensional. Foi um estudo muito interessante, mas que teve vários desafios, como eu já contei no outro post. Entre esses desafios, um deles foi na etapa de experimentos, onde, após todo o sistema óptico estar pronto, alinhado, computadores em “perfeito” funcionamento, eu dependia que os organismos estivessem presentes no ponto de coleta no dia que me organizei. Mas não era bem assim. Às vezes, não aparecia nenhum exemplar pra me dar esperança ou apareciam poucos, insuficientes para analisar os dados estatisticamente. O jeito era me preparar e realizar coletas diárias até que os organismos surgissem e, então, fazer os experimentos. Em um desses dias, coletei as amostras de plâncton e comecei a triar as amostras no laboratório. Neste dia, não havia exemplares dos organismos que eu precisava para os meus experimentos. Depois de um tempo procurando, resolvi explorar a amostra, para ver o que mais de interessante poderia ter . Então a coloquei em um microscópio com maior resolução para explorar organismos bem menores que não eram possíveis identificar na lupa. A amostra estava linda, super diversa, com várias diatomáceas, dinoflagelados que lembravam naves espaciais, ciliados, entre outros, até que eu vi algo que me chamou a atenção. Uma diatomácea movimentando-se em associação com um ciliado. A diatomácea em questão era a Fragilariopsis doliulos e o ciliado era a Salpingella sp. E como eu sabia que não havia muitos registros na literatura sobre aquela associação, resolvi conectar uma super câmera (que é capaz de filmar os batimentos dos cílios de organismos diminutos) ao microscópio e filmar o deslocamento da associação. Na hora eu pensei “vou deixar registrado. Quando eu tiver tempo, posso trabalhar nesse material e, quem sabe, escrever uma nota para alguma revista científica”. Contei para meu orientador sobre os registros, deixei os arquivos guardados e voltei minha atenção para minha dissertação. Diatomácea Fragilariopsis doliulos em associação ao ciliado Salpingella sp. Fonte: Vincent et al, 2018 / CC BY 4.0 Um tempo depois, meu orientador fez uma viagem para França para visitar um laboratório que desenvolvia trabalhos compatíveis com a linha de pesquisa que ele estava desenvolvendo aqui no Brasil. Nesta parte da história, eu não sei bem como aconteceu, mas uma pesquisadora que havia participado de uma das expedições do Tara Oceans ficou sabendo que eu tinha feito aqueles registros curiosos e marcou uma reunião com meu orientador para conversar sobre o meu material. Em uma dessas expedições, ela e sua equipe identificaram a mesma associação que eu vi aqui nos mares do Brasil. Essa equipe havia desenvolvido um trabalho detalhado sobre esses organismos, com análises filogenéticas, microscopia eletrônica de varredura, entre outros. Escreveram o artigo científico e enviaram para a revista The ISME Journal: Multidisciplinary Journal of Microbial Ecology , que é publicada pela Nature, uma das revistas de maior impacto na ciência. Sempre que você envia um artigo científico para uma revista de qualidade, ele passa por uma série de revisões e, a partir dessas revisões, a revista decide se vai publicar o artigo ou não, ou se vai publicar, mas precisa de correção em certas partes, e no caso deste trabalho que eles enviaram, os revisores não aceitaram por um detalhe. Como era uma associação que ainda não tinha sido observada em organismos vivos e os únicos registros do artigo em questão eram dos organismos fixados, os revisores disseram que a associação poderia ser um artefato. Ou seja, ao jogar os reagentes para preservação da amostra (substâncias que adicionamos imediatamente após a coleta da amostra, como álcool 70% ou formaldeído, a fim de conservar tudo o que foi coletado exatamente naquele momento), os organismos poderiam ter se unido, indicando uma falsa associação, que não ocorria de verdade na natureza. Neste ponto, o grupo francês não tinha o que fazer. Ou arrumavam uma prova de que aquela associação existia de verdade ou todo aquele trabalho só seria publicado quando houvesse provas de que era uma associação verdadeira. E é aqui que eu entro. A pesquisadora então propôs uma colaboração. Eu e meu orientador participaríamos como coautores do artigo, ao ceder o material e assim, conseguiríamos publicar o trabalho a partir dessa parceria. Foi uma proposta muito boa, pois eu ainda não tinha artigos científicos publicados e, no início da carreira, conseguir um artigo em uma revista de grande impacto seria fantástico! Então cedemos o material, o artigo foi aceito e o vídeo que viraria uma nota para uma revista acabou fazendo parte de um artigo científico de uma equipe de grandes pesquisadores. Aqui eu poderia terminar o texto com a moral da história “Há males que vem para o bem”. Mas toda essa história me fez refletir sobre a essência da ciência. Pra mim, a essência da ciência é a curiosidade. Ser cientista é ser curioso. É querer descobrir o por quê das coisas e inventar mil maneiras para chegar a uma resposta. É querer entender como os sistemas, processos, funcionam. É explorar e fazer descobertas. É pensar, refletir, estudar, criar hipóteses. Então, esse vídeo que fiz em um dia que as coisas deram “errado” no meu trabalho de mestrado me fez lembrar por quê eu quis me tornar uma bióloga/ pesquisadora. E ao mesmo tempo me fez perceber que muito dessa essência tem sido perdida, pois hoje entramos num ritmo de produtividade que é exaustivo, que afasta as pessoas que estão chegando, que exclui quem não mantém o ritmo, que faz com que muitos abandonem a carreira por problemas de saúde mental. E isso está muito ligado ao nosso modo de avaliar a qualidade da instituição ou do pesquisador. Mudar isso não é algo simples, mas é preciso. Como diz Gundula Bosch, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins, em seu artigo “ Train PhD students to be thinkers not just specialists ” (“Treinar estudantes de doutorado para serem pensadores e não apenas especialistas”), “estudantes devem ser apresentados ao processo científico como ele é - com limitações e potenciais equívocos, aspectos divertidos, descobertas por acaso e alguns erros hilários”. E para você, qual é a essência da ciência? Referências: BOSCH, Gundula. Train PhD students to be thinkers not just specialists. Nature , v. 554, n. 7690, p. 277-278, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01853-1 VINCENT, Flora J. et al. The epibiotic life of the cosmopolitan diatom Fragilariopsis doliolus on heterotrophic ciliates in the open ocean. The ISME journal , v. 12, n. 4, p. 1094-1108, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41396-017-0029-1 #VidaDeCientista #YonaraGarcia #Ciência #Oceanografia #Biologia #BiologiaMarinha
- Parem de usar evidência anedótica em conversas sobre gênero
Tradução livre do artigo Stop using anecdotal evidence in conversations about gender , por Juliana Hipólito e Luisa Maria Diele-Viegas . Deixem os dados guiarem as discussões sobre igualdade. Ilustração de Caia Colla . Em nossa experiência como duas cientistas mulheres brasileiras, nós já vimos alguns colegas, a maioria homens, se baseando em evidências anedóticas - alegações baseadas em observações pessoais, sem dados coletados de maneira sistemática - para concluir que sexismo não é um problema no ambiente acadêmico. Frases como “tem muitas mulheres no meu departamento” ou “minha superior é mulher” são usadas com frequência para justificar suas crenças de que não existe viés de gênero na ciência. Alguns dos nossos colegas pesquisadores nos dizem que nossas reclamações sobre viés de gênero na academia são exageradas. Apesar disso, muitas mulheres experimentam diferentes formas de assédio, incluindo tentativas de coagir a uma atividade sexual ou, e comentários, gestos, e outros insultos que muitas vezes ameaçam nossa saúde mental. Quando Luisa Maria Diele-Viegas estava começando sua carreira, por exemplo, ela ouviu frases como: "Não vou respeitar uma mulher de cabelo vermelho e tatuagem." "Você não é merecedora dessa posição." "Você não tem capacidade de escrever um projeto." "Seu estudo é um desserviço para a área." "Você está muito estressada, é falta de homem?" e ainda, "Você é como um rolo compressor, e isso é ruim para seus colaboradores." Alguns sexismos são mais implícitos, mascarados como "preocupação” ou ainda refletindo pontos de vista bem estabelecidos culturalmente. Por exemplo, Juliana Hipólito já ouviu durante a sua carreira: "Não te convidei para esse trabalho porque você tem um filho." "Você realmente quer essa posição e ter menos tempo para estar com sua família?" Sigam os dados! Apesar de nossas experiências pessoais, estes exemplos sozinhos não são prova de um sexismo acadêmico persistente. Como cientistas, devemos sempre buscar evidências empíricas e não anedóticas para testar hipóteses. Existem evidências amplamente documentadas de discriminação no ambiente acadêmico que vão desde diferenças no salário até sub-representação em corpos editorais, comitês científicos e posições permanentes, especialmente as mais seniores. De certa forma, é bom saber que nossas experiências refletem os dados: mulheres ainda são discriminadas nas ciências. Historicamente, isso resultou em um intenso aumento no número de mulheres que abandonam sua carreira - fenômeno conhecido como " leaking pipeline " (= tubulação com vazamento) , principalmente nos estágios mais avançados das carreiras. De acordo com o Relatório Científico da UNESCO (2021) , as mulheres representam cerca de 45-55% dos graus de bacharel e mestre e 44% dos graus de doutores globalmente. Apesar disso, elas representam apenas 33,3% dos pesquisadores e 12% dos membros em academias de ciência ao redor do mundo, incluindo no Brasil. Homens cientistas são também mais passíveis de colaborar com outros homens cientistas. Consequentemente, este viés de gênero também é visto nas publicações. Nas ciências biológicas, menos de 40% das publicações têm mulheres como primeiras autoras, e menos de 30% têm mulheres como últimas autoras ou autoras sêniores (ser a última autora significa ser a líder daquela pesquisa). No campo da ecologia e evolução, especificamente na nossa área de pesquisa, apenas 11% dos principais autores de publicações são mulheres. Esses dados destacam o sexismo acadêmico, desafiando a evidência anedótica de nossos colegas acerca da igualdade de gênero na ciência. Humanos pensam em histórias, e as experiências pessoais acabam sendo os meios mais poderosos de argumentação do que simplesmente citar estatísticas secas. Apesar disso, aqueles que perpetuam o sexismo – sabendo ou não – e aqueles que buscam desmascarar isso devem lembrar dos dados: é lá que a história é de fato contada. Como podemos mudar este cenário? Soluções incluem ter mais mulheres em posições de liderança, ter espaços acadêmicos neutros onde o assédio sexual pode ser denunciado e verificado, e estar sempre em busca de novos meios para evitar a discriminação na ciência. Sobre as autoras: Juliana Hipólito Graduada em biologia pela UFBA com mestrado e doutorado pela mesma universidade. Professora visitante na UFBA. Professora e orientadora dos cursos de pós-graduação Inpa (Ecologia e Botânica) e UFBA (PPG Ecotav). Atua no campo da ecologia da polinização. Contato: juhipolito@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/1843831280195803 Luisa Maria Diele Viegas Doutora em ecologia e evolução e atualmente é professora e pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal de Alagoas. Sua pesquisa envolve a avaliação do impacto das ações do homem na biodiversidade, com enfoque em mudanças climáticas e vertebrados ectotérmicos terrestres. Também pesquisa os vieses implícitos e explícitos dentro da academia, considerando questões de gênero, raça, etnia, classe, sexualidade, pessoas com deficiência e suas intersecções. É líder climática, fundadora do projeto de divulgação científica Minha Amiga Cientista, uma das fundadoras do Fórum Clima Salvador, da rede Nordeste de Clima, da rede Kunhã Asé de mulheres na ciência e da rede de Mulheres na Zoologia. É consultora do projeto da UNESCO Girls in STEM and Digital Skills in Brazil , e integra a Organização para mulheres na ciência no mundo em desenvolvimento, também da UNESCO. Integra ainda a Comissão de Diversidade e Inclusão da Sociedade Brasileira de Herpetologia, o Comitê de Diversidade do Programa de Pós Graduação em Diversidade Biológica e Conservação dos Trópicos da UFAL e a Rede CoVida - Ciência, Informação e Solidariedade. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9032844663306862 #MulheresNasCiências #Convidados #ViésDeGênero
- Tiradas do Netuno #20
Que mulher nunca desejou ter tantos braços quanto um polvo? Por mais que isso pareça vantajoso, não seria melhor desejar que nossas demandas coubessem nos nossos dois bracinhos humanos mesmo? São muitas as reflexões quando pensamos no famoso “ dar conta de tudo ”! Para saber mais, acesse o post “ “Mulheres são melhores em multitarefas”: você conhece essa lenda urbana? ” publicado em 01/09/2020 e o post “ Mulheres do século 21 com comportamentos do século 20 e tarefas do século 19 ” publicado em 07/03/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Multitarefas #TerceiroTurnoDeTrabalho #Maternidade #ViésDeGênero #Carreira
- Live: Assédio em Embarcações é real!
Em 15 de março de 2022, a mestra Michele Maia e nossa editora Catarina Marcolin , orientadora do mestrado em questão no PPGCTA (UFSB/IFBA), realizaram a Live “Assédio em Embarcações é Real” para compartilhar os resultados alcançados em nossa pesquisa sobre assédio em embarcações. Nossa pesquisa resultou da dissertação de mestrado da Michele Maia, que teve como título “Relações de Gênero nas Ciências Ambientais: Uma Análise sobre Situações de Assédio em Embarcações”. A Live foi transmitida pelo canal do YouTube e, se você perdeu, pode assistí-la no canal do YouTube do Bate-Papo com Netuno. No primeiro momento da live, foram apresentados os resultados que demostraram que o assédio é mais prevalente entre as mulheres, principalmente as mulheres pretas, e que mulheres sofrem mais assédio sexual e múltiplos tipos de assédio. Além disso, a experiência de assédio em embarcações tem forte potencial para interferir diretamente na trajetória acadêmica e profissional, uma vez que provoca consequências físicas e psicológicas nas vítimas, inclusive com grande frequência de sintomas relatados entre os homens também. Assim, nós reforçamos que esse não é um problema exclusivo das mulheres, mas de toda a sociedade! Também foi apresentado um guia para gestores/as que tem o intuito de orientar a elaboração de ações de prevenção e combate ao assédio em embarcações, tendo como subsídio uma cartilha online e uma ficha de avaliação de cada embarque, ambos elaborados por nós. Em breve vocês encontrarão aqui na página do Bate-Papo com Netuno dedicada ao combate ao assédio , um link para minha dissertação, o guia para gestores/gestoras e a cartilha para compartilhar à vontade. Se você tem algum material bacana para compartilhar sobre o tema, envie pra gente, que iremos colocar na nossa página. Vamos lutar por um mundo onde não haja tolerância ao assédio! #NetuniandoPorAi #EmbarqueSemAssédio #MulheresnaCiências #catarinarmarcolin #Live
- Prêmio Marta Vannucci de Mulheres na Ciência do Oceano
Por Carla Elliff “Completo no início da Década do Oceano, uma década como oceanógrafa.” Não acredito que já faz quase um ano desde que primeiro rascunhei essas palavras – é difícil acreditar também na montanha-russa emocional que foi refletir sobre esses 10 anos. A razão que me fez parar em meio a esse mundo caótico, respirar fundo e olhar para trás, foi o Prêmio Marta Vannucci de Mulheres na Ciência do Oceano , que tive a honra de receber na categoria Jovem Cientista. O prêmio, que em 2021 realizou sua primeira edição, é uma homenagem feita pela Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano, ligada ao Instituto Oceanográfico (IO) e ao Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), e pela Liga das Mulheres pelo Oceano. Profª Drª Marta Vannucci foi uma pioneira nas ciências do mar no Brasil, sendo a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Ciências como membro associado e atuando como diretora do Instituto Oceanográfico da USP, nas décadas de 1950 e 1960. Todo seu legado inspirou a criação desse prêmio que busca promover, destacar e reconhecer o trabalho de cientistas brasileiras, identificando mulheres inspiradoras (categoria Cientista Inspiração) e premiando jovens cientistas talentosas e promissoras (categoria Jovem Cientista) no campo das Ciências Marinhas (como detalhado lá no blog da Liga das Mulheres pelo Oceano ). Me perguntei muito se eu deveria me candidatar a esse prêmio. Tenho muito orgulho da minha trajetória e conquistas, mas mais do que isso eu tenho gratidão por todos aqueles que caminharam comigo. Não me parecia justo me candidatar a um prêmio por uma história escrita a tantas mãos. Foram semanas de indecisão! (e só aquela primeira frase escrita na carta de apresentação necessária para a inscrição...) Fui refletindo o que de fato era essa minha indecisão e receio (alô, terapia?!). Sou muito da lógica de que o “não” a gente já tem, então se não custa tentar, bora lá! Mas parecia ser mais difícil esse “bora lá” quando o que estaria sendo avaliado não era um projeto ou artigo que eu escrevi, mas eu mesma – um tópico que eu sou bem tímida para falar (vide o gigante atraso para escrever este post!). E acho que esse dilema interno que eu estava passando é justamente uma das razões que motivam prêmios como este para mulheres na ciência. A carreira de cientista tem muitos momentos de rejeição, revisão e escrutínio. Isso é necessário para avançarmos nos nossos conhecimentos, faz parte da base do método científico. No entanto, existem formas e formas de se criticar o trabalho de alguém. Infelizmente, é muito comum vermos pessoas que minam em vez de elevar a confiança de quem estão mentoreando – e muitas vezes indo além e chegando a situações de assédio. Aqui no Bate-Papo com Netuno já compartilhamos diversas histórias nesta temática e vemos como a balança pesa de maneira desfavorável para mulheres. Para mim, nunca fez sentido o ambiente tóxico de altíssima competitividade da academia. Fui procurando nichos e parcerias que rejeitassem também essa cultura e, felizmente, descobri que existem muitas pessoas que pensam o mesmo! E, não surpreendente, me vejo hoje trabalhando em grupos majoritariamente femininos, onde sinto que pude crescer muito sem medos do trio rejeição-revisão-escrutínio irem para além do necessário. Um desses grupos é o próprio Bate-Papo com Netuno! Enorme fonte de inspiração e motivação para mim. Aliás, em um dos meus momentos de indecisão sobre me inscrever ou não no prêmio, lembro direitinho de receber uma mensagem da Juliana Leonel no nosso grupo de whatsapp dizendo “Se inscrevam, mulheres!!”, copiando o link do prêmio. E isso é algo que precisamos mais e que está ao nosso alcance: apoio. E foi com muito apoio que escrevi a tal carta de apresentação. Foram precisamente 300 palavras (o limite máximo!) para contar a “importância prática e/ou teórica de sua trajetória científica” e, olha, ô 300 palavras difíceis! Ao final, porém, eu senti que eu tinha viajado no tempo. Relembrei alegrias e conquistas e me deu uma saudade gostosa da história de como me tornei a profissional que sou hoje. A cerimônia de premiação foi inteiramente online e lá dividi a mesa com mulheres fantásticas, incluindo a Profª Drª Yocie Yoneshigue Valentin, ganhadora da categoria Cientista Inspiração. Vocês podem conferir como foi pelo canal do YouTube da Cátedra para Sustentabilidade do Oceano (isso é, se não se incomodarem com a quantidade de água salgada que despejo enquanto mal consigo falar!) Como comecei o post com minha frase de abertura na carta de apresentação, finalizo da mesma forma que fechei minha carta: “Ainda não sei se uma década é muito ou pouco, mas sei que sou muito grata por esses primeiros dez anos e estou ansiosa pelos próximos.” Muito, muito obrigada. #MulheresNaCiência #Prêmio #MartaVannucci #CátedraUnesco #LigaDasMulheresPeloOceano #DécadaDoOceano #Oceanografia
- Quanto custa o acesso à informação?
Por Juliana Leonel Ilustração por Alexya Queiroz . Para conduzir a sua pesquisa, um grupo de cientistas precisa de salário/bolsas¹ e de laboratórios - sejam eles cheios de vidrarias e reagentes, de equipamentos que parecem saídos de um filme de ficção científica, de computadores ou de livros. Só isso? Não! Toda pesquisa surge a partir de uma pergunta e de hipóteses que são levantadas para respondê-la. Mas para elaborar as perguntas e as hipóteses é preciso saber o que já foi estudado sobre o assunto, o que já se sabe, quais perguntas ainda estão sem respostas, o que nunca foi investigado, e até mesmo o que já deu errado nas pesquisas sobre o tópico em questão. E isso tudo implica em muita, mas muita leitura sobre o tema de trabalho. E para que isso seja possível é preciso acesso às pesquisas já desenvolvidas. Quando um cientista finaliza uma pesquisa ele escreve artigos científicos sobre o trabalho que desenvolveu onde apresenta sua motivação, a importância do trabalho, objetivos, métodos de estudo e, por fim, mostra os resultados e os discute. Esses artigos são enviados para revistas científicas onde são revisados por outros cientistas e depois (não sem antes passar por modificações e ajustes) são publicados para que todos tenham acesso aos dados e informações. Mas será que todos de fato têm acesso? Vale lembrar que a maior parte das revistas científicas de algumas áreas (da oceanografia, por exemplo) são revistas internacionais em que os trabalhos são publicados em língua inglesa. O inglês é considerado por muitos como a língua da ciência e que publicar nessa língua permite que pessoas dos mais diversos países leiam os trabalhos (aumentando o acesso a pesquisa). No entanto, o Brasil mesmo é um exemplo de país em que aprender inglês é um privilégio, mesmo para pessoas que têm acesso à educação superior. Temos aqui a primeira barreira para o acesso à informação científica. Mesmo que o inglês não fosse um problema, esses artigos são escritos usando termos e jargões que não são familiares à maioria da população. Ou será que todos sabem o que é um glúon? Logo, mesmo artigos publicados em português, não são acessíveis para todos. E aqui destaco a importância de divulgadores de ciência que, entre outras muitas coisas, fazem a “tradução” das pesquisas para uma linguagem mais acessível e inclusiva. Por fim, nem para os pesquisadores os artigos científicos são realmente (sempre) acessíveis . Como assim? Não faz sentido, né? A maioria das revistas científicas onde os trabalhos são publicados pertencem a poucos grupos que têm corpos editoriais que organizam a logística de recebimento dos artigos, passando pela revisão até a publicação. Claro que tudo isso envolve custos e, por isso, para acessar esses trabalhos os pesquisadores ou suas instituições devem assinar essas revistas ou podem comprar apenas os artigos que têm interesse em ler. Acontece que o preço de um artigo varia, em média, de 30-40 dólares. Isso mesmo, por um artigo, UMzinho! Sabe quantos artigos um pesquisador lê? Ao longo de um doutorado, por exemplo, centenas… faz as contas aí de quanto sai tudo isso. A verdade é que os valores cobrados estão muito aquém do custo envolvido na produção dos periódicos científicos e tem algumas pessoas lucrando muito com isso. Estima-se que a margem de lucro da Elsevier , uma das gigantes no mundo de publicações científicas, seja maior que a do Google (30-40 %). Não é à toa que diversas universidades ao redor do mundo começaram a discutir sobre esses custos e alguns países, como a Suécia, pararam de assinar periódicos de grandes grupos e começaram a incentivar seus pesquisadores a só publicar em periódicos científicos de acesso aberto. Nestes, é comum que os autores dos artigos paguem uma taxa antes da publicação (e normalmente o valor é bem alto!). Apesar de existirem periódicos predatórios (pagou = publicou) existem muitos que são sérios e comprometidos com a ciência que adotam esse método. No Brasil, há o Portal de Periódicos da CAPES, financiado pelo governo federal, em que são disponibilizadas milhares de assinaturas de revistas científicas. No entanto, o acesso só pode ser feito por quem estiver dentro de uma instituição pública (ou tiver um registro em uma). Ou seja, uma parcela grande de pessoas não tem acesso; embora todos paguem impostos. Além disso, nem todos os periódicos estão disponíveis no sistema CAPES. Agora como fica o pesquisador que finalizou seu doutorado, ainda precisa publicar seus resultados, mas para isso precisa ter acesso a outros artigos científicos?² O que acontece com quem trabalha em uma empresa ou em órgãos do governo estadual, por exemplo? Não é só quem está na universidade que precisa ter acesso a esses periódicos. Essa barreira invisível é chamada de paywall e ela impede ou restringe o acesso aos estudos científicos . E isso tem consequências importantes: restringe o número de revistas e artigos científicos a serem acessados e isso modula a ciência, pois as pesquisas e discussões científicas serão baseadas somente no material ao qual se teve acesso; gera uma segregação entre pesquisadores/grupos de pesquisa que têm mais ou menos acesso às informações; impede que informações científicas sobre grandes problemas (como mudanças climáticas, água potável, biodiversidade) sejam acessadas pelo maior número possível de pessoas; favorece o desenvolvimento de uma ciência regulada em função dos interesses dos detentores do paywall . Você já tinha pensado nesse custo? Ou em como o paywall impede que a ciência seja acessível para todos (mesmo para cientistas)? Há pessoas que não só pensam sobre isso como também tentam mudar essa realidade (mesmo que suas práticas sejam ainda consideradas ilegais), como é o caso do Aaron Swartz (que se matou depois de ter sido condenado a pagar 1 milhão de dólares em multa e mais 35 anos de prisão por ter disponibilizado artigos que conseguiu através da sua conta do MIT) e da Alexandra Elbakyan (que hoje vive escondida por ter criado uma plataforma para distribuição livre de artigos científicos). Ironicamente, em 2016, a própria Nature (que cobra até 2 mil dólares para os cientistas publicarem em suas revistas) a nomeou uma das 10 pessoas mais relevantes para a ciência. Você já pensou no impacto que a plataforma criada pela Alexandra teve na sua pesquisa? Ou já pensou em incluí-la na lista de agradecimentos do seu TCC, dissertação, tese, artigo? ¹ Lembrando que bolsa não é salário ² Algumas universidades possuem cadastros para estudantes egressos para permitir que continuem acessando os periódicos #VidaDeCientista #PreçoDaCiência #FreeScience #Artigos #Publicações #OpenAccess #RevistaCientífica #JulianaLeonel #AlexyaQueiroz
- Tiradas do Netuno #19
Estamos chegando ao fim do primeiro ano da Década do Oceano , mas o que isso significa? Em 2017 a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que o período de 2021 a 2030 será dedicado à Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, apelidada carinhosamente de Década do Oceano. Desde então, muito trabalho tem sido feito para mobilizar e articular ações em prol do lema da Década: “a ciência que precisamos para o oceano que queremos”. O caminho é longo, mas juntos chegaremos lá! Para saber mais, acesse o post “ Década do Oceano: 10 anos para nunca mais tirarmos os olhos do mar ” publicado em 11/06/2020. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #DécadaDoOceano #ONU #IOC #UNESCO #DesenvolvimentoSustentável #Oceanografia #Oceano #Marinho
- Pesquisa de plâncton para proteção ambiental: poluição por cosméticos de proteção solar
Por Sabine Schultes Ilustração por Joana Dias Ho . Em meu último post , apresentei a vocês a preocupação de poluir o ambiente aquático com cosméticos que nos protegem contra a radiação UV. Desde então, tive a ajuda de muitos de nossos estudantes de biologia da LMU Munique para coletar dados sobre questões específicas de pesquisa e para alcançar e comunicar o problema ao público. Neste post, eu me detenho aos resultados que Helena, Theresa, Alexandra, Franziska, Mirjam, Daniela e Isabel obtiveram em seus trabalhos finais de bacharelado ou estágios de pós-graduação em laboratório - sim, apenas mulheres jovens inteligentes estiveram trabalhando aqui! Nossa pesquisa concentrou-se no plâncton, que é a base das teias tróficas aquáticas, e pudemos trabalhar com métodos de laboratório pontuais para estudar os efeitos da poluição sobre o crescimento, a fisiologia e a diversidade. Comunidades de plâncton de lagos e águas costeiras foram amostradas, espécies individuais de fitoplâncton e zooplâncton foram cultivadas e utilizadas em experimentos. As estudantes trabalharam duro no laboratório e passaram semanas no microscópio - até mesmo no microscópio eletrônico! - Elas usaram contadores de células e analisadores de pigmento para coletar resultados. Uma abordagem direta para descobrir os efeitos negativos foi trabalhar com culturas de uma espécie e poluí-las com diferentes concentrações de um protetor solar. Isso nos permitiu estimar mudanças na taxa de divisão celular, para organismos unicelulares como o fitoplâncton, ou medir o sucesso do desenvolvimento de larvas à adultos quando trabalhamos com zooplâncton. Para resumir uma longa história, descobrimos que as taxas de crescimento e recrutamento em uma cultura de copépodes, isto é, pequenos crustáceos, foram diminuídas quando em concentrações de protetores solares que eram duas ordens de magnitude inferiores às concentrações necessárias para reduzir a taxa de crescimento de seus alimentos. Voltarei às consequências disso depois. Levando a complexidade um passo adiante, as estudantes incubaram água do lago, que continha uma mistura natural de espécies fitoplanctônicas, e novamente poluíram as amostras com diferentes concentrações de protetor solar. Desta vez, pudemos observar que um grupo de fitoplâncton, as diatomáceas, foi particularmente sensível às mudanças na química da água. As cianobactérias, no entanto, aproveitaram para crescer mesmo sob condições altamente poluídas, onde espécies pertencentes a outros grupos (chlorophytas e cryptophytas) também estavam desaparecendo. Nesses níveis, os copépodes morrem em 24 horas. Nesta imagem do microscópio eletrônico de varredura, você pode ver como as partículas minerais contidas nos cosméticos de proteção solar se aderem a uma célula de diatomáceas. Diatomáceas dispostas em uma lâmina. Copyright D.Maurer (Bachelor thesis, LMU Munich). Por que é um problema quando a poluição química interfere no crescimento do plâncton? No ambiente aquático, tanto no de água doce quanto no marinho, todas as espécies da comunidade estão conectadas em uma complexa teia alimentar onde a energia é transferida dos produtores (fitoplâncton) através de consumidores de primeira ordem (zooplâncton) para consumidores de topo (peixes, por exemplo). Os nutrientes inorgânicos são constantemente utilizados e reciclados e o ecossistema é considerado como estando em equilíbrio dinâmico. Quando alguns dos componentes da cadeia alimentar são perdidos devido a uma maior sensibilidade à poluição, este equilíbrio é deslocado, levando eventualmente a uma maior perda de espécies e, enfim, a uma degradação da qualidade da água para níveis onde a saúde humana também é afetada. Se a poluição por protetores solares leva a este tipo de consequência ou não, dependerá da quantidade de cosméticos que entram na água com os banhistas. Como se pode ver nesta figura, a facilidade em que protetores solares se dissolvem em água varia grandemente entre marcas. Copyright M.Kathol (Bachelor thesis, LMU Munich). A circulação da água diluirá a poluição localmente aumentada por toda a coluna de água. Portanto, o plâncton em pequenos lagos ou sistemas com pouca troca e agitação da água durante o verão estará mais em risco do que ao longo das praias oceânicas que têm uma alta taxa de fluxo de água. Além disso, se os ingredientes cosméticos puderem ser quebrados por bactérias, o ecossistema se recuperará rapidamente, mas alguns componentes são resistentes à degradação microbiana e se acumularão ao longo da cadeia alimentar em consumidores de topo. O que podemos fazer para encontrar uma solução para este problema? Em vez de poluir as amostras de plâncton com marcas comerciais e, portanto, misturas químicas, começamos a explorar quais dos componentes individuais eram "seguros para o plâncton" e quais não eram. Para isso, utilizamos uma receita DIY (faça você mesmo) para cosméticos naturais - essa foi a parte fácil - e fizemos experimentos com uma teia trófica artificial de plâncton. Foi um trabalho extremamente entediante! Nesta foto você pode comparar a cor das garrafas à esquerda com as da direita. Um dos componentes que testamos alterou o equilíbrio entre os produtores verdes (algas) e seus consumidores - portanto, o consideramos NÃO "seguro para plâncton". Frascos de incubação. Copyright I.Schultz-Pernice (relatório de estágio principal LMU Munique) Para comunicar nosso trabalho científico ao público em geral, uma de minhas alunas fez uma pesquisa de opinião em "pontos de banho" populares em Munique. Ela recebeu ajuda de uma cientista social que trabalha no campo da comunicação ambiental - outra jovem brilhante! - e, juntas, desenvolveram um questionário. Os banhistas foram questionados sobre seus hábitos de compra e uso de protetor solar. Copyright M. Kathol (tese de bacharelado, LMU Munique) A maioria das pessoas ainda não estava ciente da poluição da água devido aos produtos cosméticos com proteção solar e outros produtos de higiene pessoal. Nós os informamos sobre nossas pesquisas e lhes sugerimos estratégias sobre como conciliar sua própria "segurança solar" com um comportamento ambientalmente amigável. Os banhistas estão abertos a encontrar soluções como a compra de cosméticos ambientalmente seguros, mas os produtos precisam permanecer acessíveis, já que o preço é muito importante para a escolha do consumidor. Então, você pode se proteger E proteger também o meio ambiente aquático? Acho que esta pergunta precisa ser respondida individualmente. Se você trabalha fora e em contato com a água, por exemplo, se você ensina esportes aquáticos, a escolha deveria ser usar roupas de proteção. Como um turista que tem o hábito de tomar bastante sol durante suas curtas férias, você deve procurar por cosméticos com proteção solar que sejam ecologicamente corretos, mesmo que custem um pouco mais. Além do mais, esses também serão bons para sua pele - e lembre-se também de todo o esforço de pesquisa que provavelmente foi investido em seu desenvolvimento! Estamos trabalhando nisso… Trabalho em andamento: Incubação de amostras de água para testar a segurança do plâncton sob um cosmético DIY (faça você mesmo) em condições reais de luz (~ 2 m de profundidade da água) em uma praia mediterrânea. Licença CC4.0 BY. Sobre a autora: Olá e obrigada por terem vindo ao meu perfil. Estou feliz por contribuir para este blog e por alcançar outros amantes do Oceano. Minha formação universitária é em biologia e oceanografia. Passei 20 anos longe de casa estudando e trabalhando em outros países e em outros continentes. Tive a oportunidade de trabalhar como cientista e professora universitária. Atualmente, vivo de volta em casa e leciono em uma escola maravilhosa em Munique. A água é uma substância fascinante. Nenhuma vida é possível sem água líquida. A água molda nossos terrenos e toda a água do Oceano ajuda a manter a temperatura da Terra. Da próxima vez que você estiver na praia, pegue uma garrafa e encha-a com água do mar (limpa!). Cheire-a e agite-a. Compare com sua água mineral e você terá um primeiro vislumbre de que o Oceano está vivo. #CiênciasDoMar #Oceanografia #BiologiaMarinha #ProtetorSolar #PoluiçãoProtetorSolar #Convidadas #Convidados #SabineSchultes #MulheresNaCiência
- Ciclos biogeoquímicos: Parte 1 - Ciclo do Carbono
Por Juliana Leonel Ciclos biogeoquímicos são os processos pelos quais elementos passam pela biosfera, atmosfera, litosfera e hidrosfera. O mais conhecido possivelmente seja o da água, mas há outros, como o ciclo do carbono (C), nitrogênio (N), fósforo (P), sílício (Si), enxofre (S), ferro (Fe) etc. Alguns termos importantes quando falamos dos ciclos biogeoquímicos são: reservatório, fluxo e tempo de residência. Reservatório é cada um dos compartimentos que compõem o ciclo; sedimento marinho, biota e coluna d'água são exemplos de reservatórios. Fluxo é a quantidade da substância que entra (ou sai) do compartimento por unidade de tempo; por exemplo, 500 toneladas de C por ano. E o tempo de residência é o período médio que cada partícula da substância reside no compartimento. Para calcular o tempo de residência basta dividir o tamanho do compartimento pelo fluxo de entrada ou de saída. Os reservatórios podem ter tamanhos, fluxo e tempo de residência variados. Um dos ciclos mais importantes é o do carbono. Ele contribui para a manutenção do clima na Terra (ao longo do período geológico os momentos de resfriamento ou aquecimento ocorreram por desequilíbrios nesse ciclo), além de ser responsável pelo tamponamento da água do mar e fonte de energia para a vida terrestre. O ciclo do carbono pode ser dividido em dois subciclos que se ligam pela incorporação de carbono (seja orgânico ou inorgânico) nas rochas sedimentares e pelo seu intemperismo: a) ciclo curto (ou bioquímico) b) ciclo longo (ou geológico) Representação dos subciclos do carbono: ciclo bioquímico (curto) e ciclo geoquímico (longo) O ciclo curto engloba a produção da matéria orgânica, pela fotossíntese ou quimiossíntese, através da assimilação do carbono inorgânico pelos organismos autotróficos para a produção de matéria orgânica. Além disso, ele envolve a degradação da biomassa para carbono inorgânico (CO2). A meia vida desse ciclo varia de poucos dias até décadas. Já o ciclo longo (ou geoquímico), como o nome sugere, tem meia vida muito maior, chegando até a milhões de anos. Ele inclui a incorporação do C (seja na forma de matéria orgânica ou carbonato de cálcio) nas rochas sedimentares, seu retrabalhamento (que pode levar a formação de combustíveis fósseis ) e o retorno desse C à atmosfera (como CO2, CH4, CO etc), seja pela erosão das rochas ou pela queima de combustíveis fósseis. Embora o ciclo geoquímico do C seja quantitativamente o mais importante (as rochas sedimentares são o maior reservatório de C na Terra), todo a matéria orgânica (=carbono orgânico) e o carbonato (=carbono inorgânico) é originário do subciclo bioquímico. O oceano representa o maior reservatório biologicamente ativo no ciclo do C, contendo 50 vezes mais C que a atmosfera e 70 vezes mais que a vegetação terrestre. Por ser o maior de todos os reservatórios, o oceano controla as quantidades de carbono na atmosfera, o que impacta diretamente o clima em escalas intermediárias. Estudar os fluxos de carbono no oceano nessas diferentes escalas de tempo e espaço é essencial para a compreensão da dinâmica do clima global e para fazer projeções futuras, dado esse momento tão delicado no qual vivemos imersos em mudanças climáticas. #Descomplicando #CicloDoCarbono #CiclosBiogeoquímicos #OceanografiaQuímica #Carbono #JulianaLeonel
- Tiradas do Netuno #18
Os cetáceos se destacam entre os grupos de organismos que evoluíram dependentes do uso do som em meio aquático. Entre os cetáceos viventes há dois grupos principais: os misticetos (comumente reconhecidos como baleias) e os odontocetos (golfinhos), os quais podem ser diferenciados, por exemplo, pelos seus aparatos bucais e utilização destes para captura de alimento. Outra maneira de diferenciar esses dois grupos é por meio das características do repertório sonoro. Golfinhos e baleias emitem sons com diferentes propósitos, como por exemplo, para atrair parceiros para cópula, para expressões de alerta entre predadores e presas e delimitação de território. Além disso, o som pode ser utilizado como um processo de percepção ativa, envolvendo a produção e a recepção de ondas, chamado ecolocalização. Neste caso o som é utilizado como referência geográfica. Este processo envolve a produção de som, geralmente emitido em um curto intervalo de tempo e em alta frequência, cujo eco ou reverberação no ambiente é interpretado e utilizado como auxílio na orientação ou na captura de uma presa. Resumidamente, o som pode ser utilizado pelos cetáceos com funções de comunicação e sociabilidade, assim como em um sistema de georreferenciamento. Entretanto, nem todos os cetáceos ecolocalizam. Apesar dos misticetos e dos odontocetos emitirem sons, apenas os odontocetos são reconhecidos como ecolocalizadores. Para saber mais, acesse o post “ Os sons dos oceano ” publicado em 16/03/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarinha #SonsDoOceano #Ecolocalização #Golfinho
- Plankton research for environmental protection: pollution from sunscreen cosmetics
By Sabine Schultes Illustration by Joana Ho In my last post I introduced you to the concern of polluting the aquatic environment with cosmetics that protect us from UV-radiation. Since then, I’ve had help from many of our biology students at LMU Munich to collect data on specific research questions and to reach out and communicate the problem to the public. In this post, I dwell on the results that Helena, Theresa, Alexandra, Franziska, Mirjam, Daniela and Isabel obtained in their B.Sc. theses or post-graduate lab internships - yes, only smart young women were at work here! Our research focused on plankton, which is the basis of aquatic food webs and we were able to work with timely lab methods to study pollution effects on growth, physiology and diversity. Plankton communities from lakes and coastal waters were sampled, individual species of phytoplankton and zooplankton were grown in culture and used in experiments. The students worked hard in the laboratory and spent weeks at the microscope - even the electron microscope! - they used cell counters and pigment analyzers to gather results. A straightforward approach to find out about negative effects was to work with cultures of one species and pollute those with different concentrations of a sunscreen cosmetic. It allowed us to estimate changes in the rate of cell division, for single celled organisms such as phytoplankton, or to measure the success of development from larvae to adult when working with zooplankton. To cut a long story short, we found out that growth and recruitment in a copepod culture, i.e. tiny crustaceans, were delayed at sunscreen concentrations that were two orders of magnitude lower than the concentrations needed to reduce the growth rate of their food. I will get back to the consequences of this later. Taking complexity one step further, the students incubated lake water, which contained a natural mixture of phytoplankton species, and again polluted the samples with different concentrations of sunscreen. This time, we were able to observe that one phytoplankton group, the diatoms, was particularly sensitive to the changes in water chemistry. Cyanobacteria, however, could take advantage and grew even under highly polluted conditions where species belonging to the other functional groups (chlorophytes and cryptophytes) were also disappearing. At these levels, copepods die within 24 hours. In this image from the scanning electron microscope, you can see how mineral particles contained in sunscreen cosmetics stick to a diatom cell. Several diatoms disposed on a blade (Copyright D.Maurer ,Bachelor thesis, LMU Munich) Why is it a problem when chemical pollution interferes with plankton growth? In the aquatic environment, both freshwater and marine, all species of the community are connected in a complex food-web where energy is transferred from producers (phytoplankton) via first order consumers (zooplankton) to top-consumers (fish, for example). Inorganic nutrients are constantly used and recycled and the ecosystem is considered to be in a dynamic equilibrium. When some of the components of the food-web are lost because of greater sensitivity to pollution, this equilibrium is shifted leading eventually to further loss of species and ultimately to a degradation of the water quality to levels where human health is also affected. Whether sunscreen pollution entails this kind of consequences will depend on the amount of cosmetics that enter the water with the swimmers. As you can see in this figure, how easily a sunscreen dissolves in water varies strongly between brands. (Copyright M.Kathol, Bachelor thesis, LMU Munich) Water circulation will dilute the locally enhanced pollution throughout the water column. Therefore, plankton in small lakes or systems with little exchange and stirring of water during the summer will be more at risk than along ocean beaches that have a high rate of flushing. Also, if cosmetic ingredients can be broken down by bacteria the ecosystem will recover quickly, but some components are refractory to microbial degradation and will accumulate along the food chain in top-consumers. What can we do to find a solution to this problem? Instead of polluting the plankton samples with commercial brands and hence chemical mixtures, we started to explore which of the individual components were “plankton safe” and which were not. For this, we used a DIY (do it yourself) recipe for natural cosmetics - that was the easy part - and experimented with an artificial plankton food web. It was extremely tedious work! In this picture you can compare the color of the bottles to the left with the ones on the right. One of the components that we tested shifted the balance between the green producers (algae) and their consumers – so we need to consider it NOT ”plankton safe” . Incubation bottles (Copyright I.Schultz-Pernice, Master internship report, LMU Munich) To communicate our scientific work to the general public, one of my students made an opinion poll at popular bathing spots around Munich. She got help from a social scientist working in the field of environmental communication – another bright young woman! - and together they developed a questionnaire. Swimmers were asked about their habits of buying and using sunscreen. (Copyright M. Kathol, Bachelor thesis, LMU Munich) The majority of people were not yet aware of the water pollution due to sunscreen cosmetics and other personal care products. We informed them about our research and suggested to them strategies on how to reconcile their own “sun safety” with an environment-friendly behavior. Swimmers and sunbathers are open to find solutions such as buying environmentally safe cosmetics but products need to remain affordable, since the price is really important for consumer choice. So, can you protect yourself AND the aquatic environment? I guess this question needs to be answered individually. If you work outside and in contact with water, for example if you teach water sports, the choice should be to wear protective clothing. As a tourist who has the habit to sunbathe intensively during your short holidays, you should search for sunscreen cosmetics that are environmentally friendly even if they cost a little bit more. As a matter of fact these will also be good for your skin – and remember all the research effort that has probably been invested into its development! We are working on it... Ongoing work: Incubation of water samples to test the plankton safety of a DIY sunscreen cosmetic under real light conditions (~ 2m water depth) at a Mediterranean beach. (License CC4.0 BY) About Sabine Hi and thanks for coming to my profile. I am happy to contribute to this blog and to reach out to other Ocean lovers. My university education is in biology and oceanography. I spent 20 years away from home studying and working in other countries and on other continents. I had the chance to work as a scientist and university teacher. At present, I live at home again and I teach at a wonderful school in Munich. Water is a fascinating substance. No life is possible without liquid water. Water shapes our land and all the water in the Ocean helps maintain Earth’s temperature. Next time you are at the beach, take a bottle and fill it with (clean!) seawater. Smell it and shake it. Compare it to your mineral water and you will get a first glimpse that the Ocean is alive. #MarineScience #Oceanography #MarineBiology #sunscreen #sunscreenpolution #Guests












