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  • Recifes de coral

    Por Jana del Favero e Carla Elliff Quem são os corais? Os corais são organismos do filo Cnidário (mesmo filo das águas-vivas). Eles começam sua vida como larvas que assentam sobre algum substrato, tornando-se recrutas. Com algumas exceções, corais tendem a crescer formando colônias. Isso quer dizer que uma única “cabeça” de coral é composta por centenas ou até milhares de indivíduos vivendo em conjunto. Além disso, a maioria das espécies de coral constroem exoesqueletos calcários. Esses exoesqueletos são a principal base para a formação da estrutura rochosa que tanto admiramos, os recifes de coral . Nem todo coral tem a capacidade de formar recifes. Porém, como este post é focado neste ecossistema, vamos explorar apenas aqueles que são considerados construtores. Zooxantelas: os melhores amigos dos corais O coral e as zooxantelas têm uma importante interação biológica, chamada mutualismo ou simbiose. Os corais garantem proteção contra a predação dessas microalgas e fornecem nutrientes essenciais (através de suas excretas) para que realizem a fotossíntese, enquanto as zooxantelas fornecem oxigênio e material orgânico (alimento) produzidos pela fotossíntese ao coral. Dessa forma, um cuida do outro. A interação entre as zooxantelas e corais faz com que grande parte da ciclagem dos nutrientes ocorra nos próprios recifes de corais. Esta ciclagem de nutrientes interna é de importância primordial na manutenção da produtividade do recife em mares tropicais, que são tipicamente oligotróficos (pobre em nutrientes). Por isso recifes de coral são hotspots de biodiversidade, como um oásis no deserto. As zooxantelas vivem dentro do tecido do coral em uma relação de simbiose (Fonte: Smithsonian Institution ) Temperatura e turbidez Além da disponibilidade de nutrientes, a temperatura e a transparência da água também são importantes reguladores para o desenvolvimento dos recifes. Aqui vemos novamente como a relação de simbiose entre os corais e as zooxantelas é crucial para o sucesso não só de uma colônia de coral, mas para um recife inteiro. A temperatura limita o crescimento de corais e recifes. Águas com temperaturas abaixo de 18 °C são frias demais para esses ecossistemas e acabam provocando a morte das zooxantelas. Esse limite influencia a distribuição de recifes de coral não só com relação às zonas tropicais e subtropicais, mas também com relação a qual lado do continente vamos encontrá-los. Recifes de coral tendem a ser mais extensivamente desenvolvidos ao longo das bordas orientais dos continentes (ou seja, o lado ocidental dos oceanos), pois estes são banhados por correntes quentes equatoriais dos giros de circulação oceânica (releia os posts sobre correntes aqui ). Isso explica em parte o porquê de vermos tantos recifes no lado caribenho do Oceano Atlântico, mas tão poucos no lado africano, por exemplo. Os pontos vermelhos do mapa indicam a ocorrência dos principais recifes de coral do mundo (Fonte: NOAA ) Por outro lado, temperaturas altas também são prejudiciais, pois levam à expulsão das zooxantelas do corpo dos corais. Essa é uma das principais causas de um fenômeno chamado branqueamento. Ao perder as zooxantelas presentes nos seus tecidos, os corais ficam brancos, pálidos. Porém a cor é apenas uma indicação do processo, o perigo mesmo para o coral está no fato de terem perdido seu principal fornecedor de alimento. Apesar de ser um processo reversível, é um fenômeno muito estressante e pode levar os corais à morte. Em 2016, uma onda de calor nos oceanos causou branqueamento seguido de mortalidade em massa em recifes de coral em diversos locais do planeta. O documentário Chasing Coral retrata muito bem como esse processo ocorre e seus efeitos devastadores sobre o ecossistema recifal. Com relação à transparência da água, sabemos que águas turvas (ou seja, com alta turbidez) são pouco favoráveis para o desenvolvimento de corais. Isso é porque águas turvas/escuras, em geral, têm muito material particulado. As partículas em suspensão interferem na taxa fotossintetizante das zooxantelas, pois bloqueiam a passagem de luz. Assim, menos luz é absorvida pela água e luz é essencial para a fotossíntese pelas zooxantelas. Além disso, essas partículas podem ser de sedimento presente na água que, ocasionalmente,podem se depositar aos poucos em cima do próprio coral. Mesmo uma fina camada de sedimento pode ser o suficiente para soterrar e matar esse animal. No entanto, algumas espécies, como a Montastrea cavernosa , têm mecanismos de defesa bem eficientes para suportar essa condição e conseguem se limpar desse material nocivo. Adaptar para sobreviver! As formas dos recifes Falando em sobrevivência do mais apto, durante a viagem do navio Beagle na década de 1830, Charles Darwin observou três tipos básicos de recifes de coral e formulou uma hipótese de formação que os relacionava. Segundo Darwin, a formação dos recifes é iniciada com o assentamento das larvas de coral com natação livre nas bordas submersas das ilhas ou continentes. Com crescimento e expansão desse coral, um recife em franja é formado ao longo da costa ou em torno de uma ilha. Este tipo de recife é o predominante no Mar do Caribe. Se o recife em franja estiver conectado às bordas de uma ilha vulcânica ou à outra massa de terra que está submergindo lentamente, os corais que compõem o recife continuam a crescer para a superfície (permanecendo na área com luz) e uma barreira de corais pode eventualmente se formar. Recifes em barreira são separados da terra por uma lagoa, como o Grande Recife em Barreira da Austrália. Os atóis, por sua vez, marcam o último estágio deste processo geológico. Com o passar do tempo, a ilha vulcânica do exemplo que demos começa a sucumbir a processos erosivos. Isso quer dizer que ela vai diminuindo em altura até submergir abaixo do nível do mar. Nesse cenário, o recife de coral é deixado como um anel em torno de uma lagoa (ex. Atol da Rocas, localizado no litoral do Rio Grande do Norte - o único atol do Atlântico Sul). Apesar de este ser apenas uma entre várias opções de evolução para os recifes de coral, até hoje usamos essa classificação descrita por Darwin para descrever a história evolutiva de alguns recifes. Nem só de corais vive um recife Quando o recife se desenvolve, densas colônias de corais se misturam para formar uma intrincada rede de habitats que fornecem diversos nichos especializados para outros organismos. Daria para escrever uma enciclopédia se fossemos listar os tipos, cores, tamanhos, formas, estruturas especializadas, habitats e comportamentos de todas as espécies da fauna que habitam os grandes recifes. Para se ter uma noção, apesar dos recifes de coral cobrirem menos de 0,1% da área total dos oceanos do mundo, quase um quarto da fauna marinha conhecida é encontrada em recifes durante alguma fase de sua vida, ressaltando sua importância ecológica e econômica. Todos esses organismos que ocupam o recife ajudam a moldá-lo. Por exemplo, o budião (também chamado de peixe-papagaio) tem um papel muito importante: ele se alimenta de algas que competem com os corais. Sem ele e outros peixes herbívoros, o recife poderia ser tomado por algas, que oferecem um ambiente muito menos complexo e que não é capaz de suportar toda a vida que depende daquele local. Além disso, a própria estrutura de carbonato de cálcio que forma os recifes não é feita apenas por esqueletos de corais. Organismos como esponjas, moluscos e até algas do tipo incrustantes colaboram na construção do recife, secretando carbonato de cálcio para se fixarem e viverem uma vida séssil. Saiba mais sobre o jardineiro dos recifes, o Budião, nesse vídeo: Impactos e conservação dos recifes Por estarem em regiões rasas e próximas à costa, os recifes de coral são muito vulneráveis às ações humanas. Crescimento urbano desordenado, descargas de poluentes, turismo descontrolado e pesca predatória são alguns exemplos das ameaças a esses ecossistemas tão importantes. Mesmo longe do foco desses impactos muitas vezes crônicos aos recifes costeiros, infelizmente até recifes remotos também mostram sinais de degradação, principalmente devido a mudanças climáticas. Esse fenômeno traz diversos riscos. O aumento da temperatura média dos oceanos é frequentemente o primeiro problema que pensamos, causando branqueamento e estresse aos corais. No entanto, a acidificação dos mares é outro assunto importante nessa discussão. Com mais CO2 nas águas, os oceanos se tornam mais ácidos e isso dificulta a formação da estrutura carbonática do recife e a torna frágil. Combinado a isso, há o aumento na frequência e intensidade de tempestades também causado pelas mudanças climáticas. Um recife já fragilizado é menos capaz de suportar uma tempestade, sofrendo quebras e demorando muito tempo para se recuperar. Ações urgentes são necessárias para garantir a conservação desse ecossistema. Medidas para diminuir a emissão de gases do efeito estufa devem ser promovidos, além de melhorar a gestão da nossa zona costeira. O lado bom é que as ações que precisamos para ajudar os recifes de coral são os mesmos que precisamos para ajudar mais um monte de ecossistemas! Aquelas dicas de sempre como diminuir o uso do carro, ser um consumidor consciente, não desperdiçar recursos, e tratar bem nosso meio ambiente continuam valendo. Além disso, cobrar de nosso poder público ações efetivas é essencial. #descomplicando #recifesdecoral #cnidarios #zooxantelas #biodiversidade #mudançasclimáticas #janamdelfavero #carlaelliff

  • O trabalho silencioso dos oceanos

    Por Aline S. Martinez Você já ouviu falar sobre funções ecológicas dos organismos e ecossistemas marinhos? E sobre os serviços prestados para a sociedade por eles? Ilustração: Joana Ho Você já deve ter ouvido por aí que o fitoplâncton , os minúsculos organismos fotossintetizantes dos oceanos, é o que nos permite respirar no planeta (dê uma olhada no post “ O ar que você respira ”). Isso é um exemplo de serviço ecossistêmico . O funcionamento ecológico dessas microalgas, ou seja, a realização de suas atividades normais para manter-se vivas, oferece diversos benefícios para o meio ambiente e também para os seres humanos. Por meio da fotossíntese, as microalgas produzem o oxigênio do qual nós, humanos, dependemos e respiramos. Do mesmo modo, existem outros organismos e ecossistemas marinhos que produzem diversos serviços dos quais dependemos para nossa sobrevivência. Além do valor intrínseco da biodiversidade, os ecossistemas fazem parte do nosso capital natural, representando a base sobre o qual desenvolvemos todas as nossas atividades e retiramos todos os nossos recursos para a vida como conhecemos. Os ambientes costeiros, por exemplo, prestam serviços à sociedade que valem aproximadamente 52 trilhões de dólares por ano,. Esta estimativa é baseada nos lucros gerados por cada ecossistema ou o custo para construir algo que exerça a mesma função que um ecossistema natural, como por exemplo, o valor econômico da lagosta nos mercados de frutos do mar, os pacotes de turismo nos recifes de coral ou o custo de construção de barreiras de contenção contra tempestades na costa. A conservação da biodiversidade e saúde dos mares é a chave para manter o bom funcionamento dos ecossistemas e, consequentemente, manter a provisão destes valiosos serviços. Mas, para entender melhor o que os fazem tão valiosos para nós, vamos explicar o que são e como estes serviços nos beneficiam. Os serviços ecossistêmicos são geralmente divididos em quatro categorias principais, sendo estes serviços de suporte, cultura, provisão ou bens produzidos, e regulação. Os serviços de suporte estão relacionados principalmente aos organismos formadores de habitat, conhecidos como espécies fundadoras. Dentre estes, destacam-se os corais , macroalgas, mexilhões e marismas . A estrutura física destes organismos fornece moradia para diversas espécies, refúgio contra predadores e proteção climática. Além disto, o habitat fornecido por estes organismos serve como área de alimentação e berçário para muitas espécies, incluindo algumas de interesse econômico, como lagostas, que vivem em ambientes recifais de águas rasas, e peixes, que vivem em mangues e gramíneas marinhas. Os serviços culturais referem-se a benefícios não materiais dos ecossistemas obtidos pelo ser humano através de, desenvolvimento cognitivo, vivências aestéticas, recreacionais e enriquecimento “espiritual”. Isto inclui o prazer obtido ao descansar na praia ao som das ondas, a admiração e alegria decorrente da observação dos animais se movimentando em meio aos corais ou mesmo o conforto espiritual em atividades de oferenda e reza associados aos deuses ou guias espirituais do mar (como por exemplo, a Iemanjá). Já os serviços de provisão, ou os bens, incluem tudo o que podemos extrair dos oceanos, como por exemplo, o pescado que comemos, recursos energéticos e minerais, extratos de algas e esponjas para produção de remédios, e até mesmo a areia das praias para uso em construções civis. Os serviços de regulação, por sua vez, incluem todas as funções ou atividades que os seres marinhos executam, regulando processos físicos e químicos do ecossistema. Por exemplo, as plantas dos manguezais e as marismas estocam grandes quantidades de carbono em seus tecidos e nos sedimentos que ficam aprisionados entre suas raízes. Esse é um papel extremamente importante na regulação climática da Terra. Sem o armazenamento de carbono nos solos oceânicos, o efeito estufa na Terra aumentaria muito, intensificando o aquecimento global. Além de armazenar carbono, esses ecossistemas são importantes para a proteção costeira, pois mangues e marismas tem a capacidade de amortecer a energia das ondas que chegam na costa, funcionando como quebra-mares naturais. Outros organismos que também têm a capacidade de fornecer esse serviço ecossistêmico de proteção à linha de costa e regulação de erosão são os recifes de coral . As ostras e mexilhões, além da proteção da costa, ao se aderir firmemente ao substrato formando uma estrutura natural rígida, são também fontes de alimento humano, formadores de habitat e exercem um importante papel de purificação da água. Como eles se alimentam filtrando partículas que estão na coluna d’água, acabam removendo impurezas da água. Através da filtração, estes organismos contribuem para uma boa qualidade de água, evitando a eutrofização e proporcionando praias limpas para que possamos desfrutar. Como é possível perceber, o mesmo ecossistema ou grupo de organismos pode fornecer vários serviços diferentes ao mesmo tempo! O trabalho que venho desenvolvendo busca entender como estressores antrópicos (ou seja, alterações físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente causadas por atividades humanas) estão alterando o funcionamento dos ecossistemas. Temos uma boa noção da importância desses sistemas para o nosso benefício, porém ainda não sabemos quais as consequências de tantas mudanças que vêm ocorrendo associadas ao rápido crescimento de cidades costeiras. Recentemente, descobrimos que a filtração por mexilhões é afetada pela contaminação de metais, indicando que estes organismos estão estressados, porém ainda mantendo suas funções biológicas. O aumento dessa contaminação foi diretamente relacionado com o aumento de áreas urbanizadas na costa, o que indica que a expansão das cidades costeiras irá aumentar a quantidade de poluição no litoral. O que não sabemos ainda é o limiar de contaminação que os mexilhões suportam. Assim, meu trabalho busca entender melhor como estamos afetando os sistemas costeiros para buscarmos soluções que evitem o colapso de ecossistemas. Esta seria uma perda irreparável para o ser humano. Bom, espero ter esclarecido aqui a relação entre o funcionamento ecológico e os serviços fornecidos pelos ecossistemas, o que nos mostra a importância de cuidarmos bem do meio ambiente. Os exemplos que descrevi acima são apenas alguns dos muitos bens e serviços que a natureza nos proporciona. Infelizmente não estamos cuidando da saúde dos ecossistemas marinhos e já temos indícios de que nossas ações causam danos a esses ecossistemas. Se não manejarmos nossas ações de forma sustentável, corremos o risco de não usufruir dos muitos benefícios que o mar nos dá com tanta generosidade. É importante repensarmos as nossas atitudes quanto ao meio ambiente e as nossas escolhas de consumo para que possamos buscar o equilíbrio entre natureza e sociedade. Agora que você já sabe mais sobre alguns dos benefícios que obtemos a partir de ecossistemas saudáveis e equilibrados, tenho certeza que verá o mar com outros olhos na próxima visita à praia! Aproveite e espalhe estas ideias por aí... os nossos oceanos agradecem. Referências: Barbier, E.B., 2017. Marine ecosystem services. Current Biology 27, R507-R510. Austen, M., Hattam, C., Borger, T., 2015. Ecosystem services and benefits from marine ecosystems, in: Crowe, T.P., Frid, C.L.J. (Eds.), Marine Ecosystems: Human Impacts on Biodiversity, Functioning and Services. Cambridge University Press, United Kingdom, pp. 21-41. Costanza, R., de Groot, R., Sutton, P., van der Ploeg, S., Anderson, S.J., Kubiszewski, I., Farber, S., Turner, R.K., 2014. Changes in the global value of ecosystem services. Global Environmental Change 26, 152-158. Martinez, A.S., Mayer-Pinto, M., Christofoletti, R.A., 2019. Functional responses of filter feeders increase with elevated metal contamination: Are these good or bad signs of environmental health? Marine Pollution Bulletin 149, 110571. Ostroumov, S., 2005. Suspension-feeders as factors influencing water quality in aquatic ecosystems, in: Dame, R.F., Olenin, S. (Eds.), Comparative Roles of Suspension-Feeders in Ecosystems, pp. 147-164. Sobre a autora: Sou oceanógrafa formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e doutora em ecologia pela Universidade de Sydney (USYD). Nascida em Minas, o mar foi amor à primeira vista. Desde pequena sou apaixonada pela natureza e me encantei pelos mistérios do fundo do mar. Trabalho na área de ecologia bentônica, onde investigo o efeito de atividades humanas na estrutura e funcionamento de comunidades bentônicas em ecossistemas costeiros. Ao longo de minha carreira atuei em projetos de manejo, educação e conservação ambiental, e trabalhos de consultoria ambiental, além de desenvolver a linha de pesquisa já mencionada. Através do meu trabalho científico, almejo buscar soluções para que possamos viver em harmonia com a natureza. Mas, o mar não é somente meu objeto de estudo. Tenho uma conexão muito forte com ele. Nos meus momentos de lazer, adoro mergulhar, surfar e fotografar a vida marinha. #serviçosecossistêmicos #saúdedosoceanos #naturezaviva #capitalnatural #convidados #ciênciasdomar

  • Sobre ser cientista: as injustas cobranças de dentro e de fora

    Por Catarina R. Marcolin Ilustração: Lidia Paes Leme No finalzinho de 2020, fui convidada para falar sobre minha pesquisa por uma estudante de pós-graduação de um dos melhores institutos de oceanografia do mundo, o Scripps Institution of Oceanography . No momento em que recebi o convite eu fiquei muito animada, mas não precisou nem de 5 minutos para eu ser arrebatada com uma sensação muito familiar, descrita para pessoas que sofrem com a síndrome do impostor . Alguns dos pensamentos foram: “O que é que eu vou falar?”, “Eu tenho tão poucas publicações”, “Mas eu nem tenho liderança em pesquisa”, entre outras coisas… E foi daí que eu decidi que deveria mostrar a “ big picture ”, ou seja, eu falaria não só da minha ciência, mas também das minhas atividades de extensão com o Bate-Papo com Netuno. Quando decidi isso, meu coração se encheu de alegria e fiquei mais confiante, porque eu tenho muito orgulho dessa plataforma de divulgação científica. Aqui eu me sinto realmente útil. Mas peraí! Por que eu me sinto útil ao falar do Bate-Papo com Netuno, mas me sinto insegura ao falar sobre a ciência à qual venho dedicando os últimos 14 anos da minha vida? Em vários sites da internet você vai encontrar informações sobre como reconhecer se você é acometida pela síndrome do impostor. Inclusive, na maioria deles tem uma lista de sentimentos , que você usa para verificar se se aplicam a você. Mas lembre-se: você não deve se auto-diagnosticar ou se medicar sem a orientação de um profissional. Vamos lá: Eu tenho receio de dar a impressão de ser mais competente do que realmente sou. Eu frequentemente tenho medo que descubram quanto conhecimento me falta. Eu não mereço as minhas conquistas. Eu sinto que valorizam demais meu sucesso, embora não mereça. Minhas conquistas foram devido à sorte ou a estar na hora certa, no lugar certo. Eu procuro validação externa, embora não acredite totalmente quando receba. Quando me elogiam, eu tenho medo de não atender às expectativas. Eu tendo a focar no que fiz errado ao invés de considerar os diversos acertos. Eu acredito que o que faço nunca é suficiente. Quando li sobre isso, percebi que vários desses sentimentos eu reconheço em mim. Mas a big picture aqui é: por que me sinto uma impostora ao falar de ciência, mas me sinto confiante fazendo divulgação de ciência? E aí começa minha autoanálise. A carreira de uma cientista é muito excitante, a gente faz o que ama, vai a campo, coleta dado, analisa dado, se anima quando lê algo interessante e se anima mais ainda quando finalmente consegue publicar nossos resultados, ou quando a gente passa num tão sonhado concurso. Mas tem muita frustração também, como, por exemplo, quando a gente não consegue ir num cruzeiro importante, quando o equipamento quebra bem na hora da sua amostragem, quando um revisor esquece as boas maneiras e te envia uma crítica ríspida e degradante sobre o seu trabalho, quando suas propostas e publicações são rejeitadas, entre vários outros possíveis percalços. Além disso, a trajetória até o tão sonhado emprego estável é realmente longa e cheia de dúvidas e incertezas. E agora que completo mais de 5 anos nesse tão sonhado emprego de pesquisadora/professora, com quase 40 anos de vida, percebo um misto de emoções difícil de compreender. Por isso, escrevo esse texto, como forma de terapia mesmo. Quem nunca? rsrsrsr Eu ainda amo o que faço e me sinto realizada em muitos aspectos. Me sinto confortável financeiramente, afinal, nunca sonhei em ser rica. Mas tudo o que faço está sob pressão e sob regulamentação. A cada dois anos eu tenho que fazer um super relatório, dizendo tudo o que fiz e comprovando com documentos cada aula que dei, se fui bem avaliada pelos alunos, cada evento do qual participei ou organizei, cada artigo que publiquei, cada discente que orientei, de quantas comissões participei, se fiz atividades de extensão etc. Enfim, cada passo dado precisa ser registrado e pontuado, literalmente, para que uma comissão analise e decida se estou apta a conseguir aprovação no meu estágio probatório ou um minúsculo aumento no meu salário. Você pode estar pensando que tudo bem, o servidor público precisa ser constantemente avaliado mesmo e eu compreendo isso. Mas esse patrulhamento, entre outras coisas, também traz consequências mais sutis e difíceis de mensurar. Relatarei a seguir algumas das minhas impressões/inseguranças sobre o que é ser uma professora universitária no Brasil: Se eu não publicar artigos em revistas qualis A (que são aquelas mais bem classificadas) todos os anos serei vista como pouco inteligente, preguiçosa, desorganizada ou até mesmo mal relacionada, incapaz de constituir redes profissionais. Se eu for uma professora muito rigorosa, seria vista como carrasca, mas se eu for pouco rigorosa, serei vista como alguém que não se importa. Se meus alunos fazem uma má avaliação sobre mim, não importa quais sejam os motivos, serei mal vista pelos coordenadores dos cursos. Se eu não me envolver com extensão, serei vista como a egocêntrica que não se importa com a sociedade. Mas se me envolvo com extensão, sou vista como aquela que “tem tempo sobrando”. Se eu não me envolver em 43559584848 atividades burocráticas eu serei vista como uma folgada. Mas se eu me envolver em atividades burocráticas e pisar na bola, não serei perdoada. Eu percebo claramente que há vários empecilhos para o desenvolvimento de um trabalho pleno nas universidades brasileiras, especialmente uma tão nova como a minha. Por exemplo, a falta de estrutura dos laboratórios, falta de apoio administrativo, capacitações ao trabalho como docente (tendo tempo pra isso), e até mesmo discentes que não receberam um preparo adequado em seu ensino médio etc. Mas mesmo assim, é muito difícil não personalizar os fracassos. Talvez isso seja um reflexo do sentimento de culpa que nossa cultura essencialmente cristã nos deixou de presente. Ou talvez, e mais provávelmente, é que de fato o ambiente acadêmico é muito hostil e recheado de julgamentos. Nós nos julgamos constantemente, da mesma forma que uma influencer fitness faz com que outras mulheres se sintam fora do padrão. Quando comparamos nossos currículos com os de outros colegas, a gente sempre se sente “fora do padrão”. Nessa onda, a gente não apenas se compara, como se agride, ainda que não com palavras, mas com omissão, quando ouvimos comentários excessivamente críticos dirigidos a outros colegas. Outra reflexão importante, é que essa insegurança, tão comum em cientistas, não se reflete em incompetência ou na falta de habilidades para liderança. A pergunta que interessa é por que nos sentimos inseguras mesmo após anos de treinamento na carreira científica? Possíveis respostas podem incluir a falta de confiança das outras pessoas sobre nosso desempenho. Orientadores, chefes de laboratório e até mesmo colegas frequentemente questionam e testam suas habilidades se você for mulher, verificam nossos cálculos ou nossos programas, não nos atribuem tarefas de maior responsabilidade porque não vamos “dar conta”, assumem que iremos desistir da carreira se quisermos ser mães ou se decidimos nos casar e a lista segue infinitamente. Por outro lado, no meu mundo da divulgação científica, onde trabalho essencialmente com outras mulheres, percebo que somos mais amáveis umas com as outras e mais compreensivas com eventuais percalços. Em abril de 2021, o Bate-Papo com Netuno completa 6 anos de existência e vejo o quanto trabalhar com essa equipe me fez crescer como pessoa. Por isso talvez, de forma (in)consciente, tenho colaborado cada vez mais com outras mulheres na área científica também. Quem sabe um dia, quando tivermos mais diversidade nas universidades, possamos ter um ambiente de trabalho mais leve, onde sejamos todos e todas mais gentis, especialmente com nós mesmas. Para saber mais: https://www.blogs.unicamp.br/cienciapelosolhosdelas/2018/07/27/sindrome-do-impostor-ja-ouviu-falar/ https://jornal.usp.br/atualidades/sindrome-do-impostor-pode-prejudicar-desempenho-profissional/ https://www.sciencemag.org/careers/2008/02/no-youre-not-impostor Stop Telling Women They Have Imposter Syndrome #MulheresNaCiência #SíndromeDoImpostor #BurnOut #Academia #Pressão #Insegurança #Confiança #Cobrança #Expectativas #CatarinaRMarcolin

  • When to add children to the academic timeline?

    Por  Jana M. del Favero Edited by Katyanne M. Shoemaker When starting a research project, it is necessary to establish a project timeline in which all of the activities to be carried out are mapped out to keep on schedule. My question, one I know other women ask as well, is where and how to fit a pregnancy in the academic timeline? During undergrad, we're too young and have the whole world ahead of us; during a masters', time is short, we have approximately two years in which it is impossible to think of things other than classes and the thesis. Then comes the doctorate. We're more mature, some are already married, but we still only think of research and publications – we know that after the four years of the doctorate we'll face the competition for jobs or need to be able to engage in a postdoctoral position. Therefore, the best option would be to wait for all of that to end, and decide to get pregnant after getting hired, with some professional, financial, and personal stability guaranteed. That stability generally occurs when a woman is around 37 years old, though, long after her fertility peak (Figure 1). Although it is not difficult to name successful female researchers/professors with kids, the “graduate students that gave up their academic career after getting pregnant” scenario is far more common. As Figure 2 shows, the dropout percentage amongst post-doctorate researchers with no kids or plans to have kids is practically the same for both men and women. However, having a child after starting a post-doc doubles the dropout rate among women, but has no effect for men.   Of course a child can alter a woman's life path, and also her academic productivity. Leslie (2007) shows that the more children a woman has, the less time she spends on professional activities (Figure 3). Shockingly (although the research dialog doesn't discuss reasons), the same study shows that the effect is reversed in men: more kids equals more working hours! I won't dare to go further in discussing causes for this difference, but I see two possibilities: a man sees it as more responsibility and, seeing himself as the family provider, works more (this is not necessarily his fault, the systemic tradition imposes and teaches women to take care of their home and men to provide for it); or they run from the domestic responsibilities for whatever reasons. A friend told me that when his child was a baby and required all mom's all attention and care, he would prefer to work late to avoid getting home before the baby was asleep, justifying himself by saying he was jealous of all the care his spouse had for the baby and felt he didn’t fit in his own home. One way to enhance female representation in universities and to reduce the academic dropouts is to focus on the problems mothers face to take care of a family while studying and researching. Williams and Ceci (2012) made a list of strategies that could be adopted to minimize problems and help families. As an example: universities could offer quality childcare, offer maternity leave for the primary care giver, regardless of sex; they could also instruct selection committees how to ignore curriculum gaps that happened while one was using more time to take care of the family (as an example, the committee would understand why someone didn't publish for some time if that time was used to take care of a newborn), and so on. What is not on the study's list, and what I consider extremely important, is a structural change in people's minds. I heard once that, to be accepted in a certain lab in Spain, the professor in charge would ask women to sign a form, agreeing not to get pregnant during the doctoral program. It's painfully hard to believe many minds still work like that! And back to Brazil, where are we? USP, one of the largest universities in Brazil, has a childcare center that is praised by the parents, but just got at least 117 spots suspended for lack of funds invested in them (read more here ). Not all funding agencies provide paid maternity leave for those with grants. Some progress can be seen, but many setbacks are still noticed. Even though some universities have adopted measures to help families' lives, a lot still need to be done. I'll not be able to give an answer to the question I posed in the text's title here, mostly because I believe it's a personal decision and not just a cake recipe. Personally, I've been married for 3 years and will finish my PhD in the middle of 2016, with no intentions of expanding the family by then. Nonetheless, I will not end the post with this matter. The blog will have testimonials of “women who are warriors,” that managed to study and have children; “altruistic women,” that gave up their academic career to dedicate themselves fully to their family and feel good about it; “scrappy women,” that stepped out of the university for a while to take care of kids and suffered many obstacles to get back in. My testimonial of an “indecisive woman” you already have. What about you, have something to share? We welcome you to comment or contact us. References: Goulden, M.; Frasch, K.; Mason, M. 2009. Staying competitive: Patching America's leaky pipeline in the sciences. Center for American Progress, https://www.americanprogress.org/issues/technology/report/2009/11/10/6979/staying-competitive/ Leslie, D.W. 2007. The reshaping of America's academic workforce. Research Dialogue 87. https://www.tiaa-crefinstitute.org/public/pdf/institute/research/dialogue/87.pdf Willians, W.M.; Ceci, S.J. 2012. When Scientists Choose Motherhood. American Scientist, Volume 100. http://www.americanscientist.org/issues/pub/when-scientists-choose-motherhood/1 #chatjanamdelfavero #womeninscience #children #chat #motherhood

  • Todos os caminhos nos levam ao mar

    Plumas costeiras e o transporte de nutrientes para o oceano profundo Por Douglas Vieira da Silva Os rios transportam para o oceano uma série de nutrientes, esse aporte é essencial para manter a produtividade marinha em regiões que carecem de outras fontes de nutrientes. Por isso, é de se esperar que os rios desempenhem um papel importante para o balanço de nutrientes no oceano. A carga de nutriente dos rios se origina de processos de erosão e escoamento pelo continente, que por sua vez, desembocam no mar. Essa descarga de água dos rios, relativamente menos salina, quando se espalha no mar é chamada de pluma costeira. Uma vez que a água doce e os nutrientes chegam à costa, eles são transportados mar à dentro por padrões de circulação regidos pelas plumas costeiras. O padrão de circulação de cada pluma costeira é determinado pela intensidade da vazão do rio, pelas correntes marinhas locais e pela rotação da Terra associada a latitude em que a pluma se encontra. Dessa forma, a carga de nutrientes do rio se espalha em função do caminho realizado pela pluma e da sua mistura com o oceano aberto, um processo mediado pelas forçantes citadas. Entretanto, os mares mais rasos da plataforma continental são ambientes bastante dinâmicos e mais produtivos que o oceano profundo. Logo, uma parte dos nutrientes que chega através dos rios já é consumida parcialmente na porção mais costeira pelos organismos do fitoplâncton e uma fração menor restante é exportada para o oceano profundo. Esquema mostrando a excursão de uma pluma costeira até o oceano profundo. Nota-se que apenas parte do volume da pluma atinge águas oceânicas (em cor azul), o que age como limitador ao aporte de nutrientes (representados por N). Outro fator importante é que os nutrientes são consumidos na plataforma continental, ficando disponível uma fração reduzida para fertilizar as águas do oceano mais profundo (Fonte: feito pelo próprio autor com licença CC BY-SA 4.0). Considerando que há diferentes tipos de plumas ao redor do mundo, podemos esperar que a contribuição de cada uma delas para a entrada de nutrientes no oceano seja diferente. Para podermos entender o que explica essa diferença, precisamos partir de dois parâmetros principais que atuam sobre as plumas e afetam a travessia dos nutrientes até o oceano profundo: comprimento e latitude. Como comprimento, consideramos a distância da foz do rio até a borda da pluma, onde a língua de água doce pode ser distinguida por um gradiente abrupto com a água salgada do mar, separando claramente as duas massas de água. O comprimento da pluma depende do volume de descarga do rio (o qual também é dependente da latitude, como veremos a seguir) e da geometria de desembocadura do rio. A latitude da pluma é importante para a descarga, pois a média de chuva do planeta é maior na região dos trópicos, isto é, nas baixas latitudes. Em média, as plumas de rios dos trópicos apresentam as maiores descargas fluviais. Como por exemplo, o Rio Congo e o Rio Amazonas, que representam as maiores entradas de água doce no oceano Atlântico. Dessa forma, as plumas de regiões tropicais acabam sendo relativamente maiores em comprimento, conforme esquematizado abaixo. Essa maior extensão facilita a travessia pela quebra da plataforma, promovendo maior entrada de nutrientes no oceano profundo. Já as plumas de altas latitudes, localizadas em regiões onde a média de precipitação é menor, apresentam em média descargas fluviais menores e comprimentos reduzidos. Além da variável climática, nas altas latitudes o efeito da rotação do planeta, via aceleração de Coriolis, que tende a aprisionar as plumas ao longo da costa . A aceleração de Coriolis age sobre o movimento das correntes, causando a sua deflexão . A água das plumas quando defletidas acabam encontrando a linha costa como uma barreira lateral. Assim, a água da pluma e os nutrientes trazidos por ela permanecem por um período maior na região de plataforma, uma vez que a ação do Coriolis impede o espalhamento da pluma em direção ao oceano. Por conta disso, uma fração ainda maior de nutrientes acaba sendo retida e consumida ali mesmo, o que diminui a entrada de nutrientes em águas oceânicas mais profundas. Exemplo do efeito da rotação da Terra sobre o comprimento das plumas costeiras, que combinado com o padrão de chuvas determina o comprimento da pluma costeira. As plumas com comprimento superior à extensão da plataforma continental são capazes de exportar mais nutrientes para as águas oceânicas mais profundas. (Fonte: feito pelo próprio autor com licença CC BY-SA 4.0). Vemos então que esses dois parâmetros determinantes (comprimento da pluma e latitude) estão correlacionados. Dessa forma, podemos dividir as plumas em duas classes: as que possuem um comprimento maior do que a extensão da plataforma continental e as que possuem um comprimento menor e não ultrapassam a quebra de plataforma. Vamos pegar o exemplo da pluma do Rio Amazonas, uma pluma de grande escala com comprimento de 400 km. Esta não sofre o efeito da rotação planetária, já que se encontra em uma região Equatorial, onde a aceleração de Coriolis é muito pequena e portanto as correntes não sofrem deflexão. Dessa forma, a pluma do Rio Amazonas é capaz de atingir águas oceânicas com uma frequência muito maior, e, assim, entregar uma maior fração de nutrientes para o oceano profundo. Em contrapartida, a pluma do Rio da Prata é relativamente menor, com uma descarga considerável e comprimento de 200 km. Devido à latitude em que se encontra, a deflexão devido ao Coriolis (e condição de ventos apropriadas) tende a aprisionar a sua descarga na plataforma, canalizando seu escoamento ao ponto de apresentar episódios em que a sua pluma atinge a latitude do estado de São Paulo (cerca de 1600 km ao norte da desembocadura do Rio da Prata). Nesse deslocamento paralela à costa, sua carga de nutrientes se mantém predominantemente na plataforma, ao invés de alcançar as águas profundas do oceano Atlântico. Os nutrientes acabam sendo consumidos na própria plataforma, já que ficam por lá durante um longo período. Portanto, neste caso, a contribuição para a entrada de nutrientes na foz é bem menor do que seria se esta pluma estivesse em uma latitude menor. Essa diferença pode ser observada a partir da pluma de baixa salinidade associada a cada um desses rios, conforme o mapa abaixo. Mapa de salinidade da superfície do mar para o Atlântico Sul, mostrando os rios com as maiores descargas nessa bacia oceânica. Fica evidente a diferença de escala entre a Pluma do Rio Amazonas, cuja anomalia de salinidade chega a ocupar uma grande extensão do Oceano Equatorial, e a Pluma do Rio da Prata, que fica aprisionada no ambiente de plataforma. (Fonte: www.remss.com - Soil Moisture Active Passive Mission - SMAP, domínio público). Ao estudar as plumas costeiras podemos traçar a origem dos nutrientes transportados para o mar, uma vez que os nutrientes apresentam proporções de compostos ligados à sua origem continental. Como a proporção de nutrientes pode ser ligada à influência de uma pluma específica, é possível avaliar a contribuição de cada uma delas aos diversos sistemas marinhos que se encontram à margem das plataformas continentais. A quantidade de nutrientes na água do mar é um fator determinante para a produção primária, a qual, além de refletir diretamente nas teias tróficas marinhas, tem papel relevante nos processos climáticos, uma vez que as plumas também alteram a estrutura superficial do oceano que interage com a atmosfera, estabelecendo-se um sistema complicado de interação e feedback positivo entre organismos e processos físicos. Uma vez que as plumas se distribuem pelas bacias oceânicas, não é suficiente apenas saber o quanto entra de nutrientes no mar, mas também é necessário estimar como o comportamento e circulação das plumas costeiras altera a fração de nutrientes que chega ao mar aberto. A maioria das estimativas de produtividade do oceano consideram a entrada de nutrientes dos rios apenas como os valores obtidos na sua foz, sendo que fica evidente a necessidade de considerar as transformações que essa carga de nutrientes passa ao longo da sua travessia junto com as plumas. Afinal, todos os caminhos levam ao mar, mas alguns atalhos fazem a diferença e podemos pensar nas plumas costeiras como atalhos para os nutrientes chegarem mais longe, oceano adentro. Referências ou sugestões de leitura: HORNER-DEVINE, Alexander R.; HETLAND, Robert D.; MACDONALD, Daniel G. Mixing and transport in coastal river plumes. Annual Review of Fluid Mechanics, v. 47, p. 569-594, 2015. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-fluid-010313-141408 KJERFVE, Björn; MIRANDA, Luiz Bruner de; CASTRO, Belmiro Mendes. Princípios de oceanografia física de estuários. São Paulo: EDUSP, 2002. SIMPSON, John H.; SHARPLES, Jonathan. Introduction to the physical and biological oceanography of shelf seas. Cambridge University Press, 2012. SHARPLES, Jonathan et al. What proportion of riverine nutrients reaches the open ocean?. Global Biogeochemical Cycles, v. 31, n. 1, p. 39-58, 2017. DOI: https://doi.org/10.1002/2016GB005483 Sobre o autor: Oceanógrafo e mestre em oceanografia física, química e geológica. Meus temas de pesquisa sempre se focaram em regiões de plataforma continental, estuários e lagunas costeiras da região Sul e Sudeste do Brasil. Atualmente sou doutorando em meteorologia no IAG-USP, onde estudo a interação oceano-atmosfera na Pluma do Rio Amazonas. #PlumasCosteiras #Nutrientes #RiosEMares #Foz #Descomplicando #Oceanografia #Convidados

  • Apesar de você, me tornei doutora

    Por Gabriela Figueiredo Aviso de gatilho. Ilustração: Catarina Ruiz Mello Após um ano da conclusão do meu mestrado em Biologia de Ambientes Aquáticos na Universidade Federal de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, um dilema apareceu: o que fazer em seguida? A dúvida e incerteza de que rumo tomar aumentaram ainda mais quando me deparei com o desemprego e a falta de opções de trabalho na minha área. Vi no doutorado a luz no fim do túnel. Não sabia que essa escolha traria muitos desafios e tomadas de decisões, que foram as mais difíceis na minha vida acadêmica. Desde minha graduação em Ciências Biológicas na Universidade Estadual da Paraíba – Campina Grande, estudei ecologia trófica de peixes, que se tornou minha paixão aprofundada no mestrado. Quando fui pesquisar departamentos e laboratórios em que eu pudesse continuar trabalhando nessa área, vi que na Universidade Federal de Pernambuco isso seria possível. Achei um professor que atuava nessa área. Coincidentemente eu já havia lido alguns trabalhos científicos dele. Muitos me alertaram sobre a forma como ele trabalhava, de sua fama de super exigente, mas eu, na ânsia de ingressar logo em um doutorado, acreditei que era um exagero. Fiz a seleção nos meses de outubro e novembro de 2015. De início, ele já queria que eu me mudasse para iniciar os trabalhos desde janeiro, quando o ano letivo só iniciaria em março. Por um acaso, no final de dezembro, antes de ingressar no doutorado, quebrei meu pé e não pude me mudar em janeiro, como ele havia recomendado. Nesse momento, começou a minha saga. Ele não acreditou que eu, realmente, tivesse quebrado o pé, passado por uma cirurgia e que estava impossibilitada de trabalhar. Foi necessário eu viajar até Recife com a ajuda dos meus pais, para ele ver com os próprios olhos a minha situação. Ainda tive que ouvir piadinhas como “Nossa, você quebrou mesmo seu pé. Achava que era mais uma desculpa de aluno para não trabalhar. Essa seria a desculpa mais diferente que eu já ouvi”. Lembro-me de não ter dado muita atenção ao comentário. Mas desde então, ele começou com uma série de comentários e atitudes que me deixavam mal. Primeiro, ele falou que eu teria que merecer a chave do laboratório. Então, todos os dias, eu tinha que chegar primeiro e ficar esperando alguém abrir a porta para eu poder trabalhar. Ele chegou a duvidar da minha capacidade de realizar as atividades laboratoriais, mudou meu projeto, tirando a parte mais inovadora do trabalho simplesmente porque quis. Durante quase um ano que passei no laboratório, ele não me deixava analisar os dados que seriam utilizados na minha tese. Ao invés disso, me mandava fazer outros trabalhos . Foram muitos os abusos morais. Ele chegou a cancelar uma disciplina em que eu tinha me inscrito com a desculpa de que eu estava faltando muito no laboratório e disse para eu colocar na justificativa que estava cancelando a matrícula na disciplina porque ele havia mandado. Quando falei que tinha interesse em fazer um doutorado sanduíche, ele argumentou que eu não faria , pois seus alunos não precisavam disso, já que esse argumento só era válido para estudantes que não conseguiam publicar. Um dia, chegou a gritar e brigar comigo por eu estar ajudando outra aluna a melhorar a apresentação do seu projeto. Falou que eu não era a orientadora dela, que eu deveria estar trabalhando, ao invés de estar ajudando a colega. Gritou comigo dizendo que eu estava ‘peitando’ ele. Além dessas grosserias e falta de respeito, ele fazia alguns comentários extremamente machistas e humilhantes . Para ele, era uma vitória fazer o aluno chorar. Sentia prazer quando dizíamos que a fama dele era de carrasco. Foram quase 12 meses nesse processo, até que um dia, ele avisou que todos seus alunos iriam participar de um congresso em outro estado, no qual ele seria palestrante. Conversando com ele, falei que para mim, só seria interessante participar se enviasse algum resumo, pois seria uma viagem cara. Como eu não tinha nenhum resultado da minha tese, porque ele não me deixava analisar as amostras do meu trabalho, ele me deu uns dados resultantes de um ex-aluno e falou para eu fazer o resumo com aqueles dados. Falei para ele que não queria, pois não eram meus resultados. Ele bateu na mesa e disse que os dados eram dele e que eu deveria fazer o que ele quisesse. Depois de pronto, ele veio me questionar se eu concordava com o que eu havia escrito, e começou a me chamar de plagiadora, disse que plágio dava cadeia, me chamou de mau caráter, burra ... Não poupou palavras. Fiquei em choque e sem nenhuma reação. Sabia que se eu me descontrolasse, perderia a minha razão. Voltei pra casa arrasada. Nunca tinha ouvido tanta baixaria. Nunca ninguém tinha dito aquelas palavras para mim. Lembro de ter conversado com meus pais e ter dito que não ia deixar isso ficar desse jeito. Era muita falta de respeito comigo e eu não merecia nenhuma palavra daquelas que foram proferidas numa sexta-feira. Na segunda-feira, fui falar com ele. Mas parecia que estava adivinhando, pois chegou ao laboratório já com a cara fechada. Ainda assim, me mantive firme e fui conversar. Quando comecei a falar que não tinha gostado da nossa conversa, ele bateu o celular na mesa, falou que a porta era a serventia da casa, disse que não estava gostando da orientação e mandou pegar minhas coisas e ir embora. Não consegui falar absolutamente nada, mas escutei o que, no fundo, eu mais queria ouvir: sair daquele laboratório. Arrumei meus materiais e saí de lá, pela última vez. Ele ainda teve a cara de pau de me 'expulsar' e sair espalhando mentiras no departamento. Ainda disse para seus alunos que eu teria uma chance de voltar para o laboratório, caso eu me desculpasse, o que eu jamais faria, por não ter culpa de nada. Lembro de ter ido em busca dos meus direitos, mas como não havia provas suficientes de assédio, não consegui levar adiante. Saindo de lá, fui conversar com o coordenador do curso, expliquei a minha situação e tive seu total apoio para mudar de orientador. Não foi nada fácil, até porque eu era nova no departamento e não conhecia muito bem os professores. Mas tive muita sorte da coordenação me apoiar e tornar o processo de mudança de orientador mais simples. Fui em busca de alguém que trabalhasse com uma metodologia que eu havia usado no mestrado e, naquele momento, encontrei o meu orientador atual, com o qual terminei meu doutorado. Ao me apresentar, recebi dele o apoio necessário para recomeçar minha nova etapa. Como já havia passado quase um ano de curso, o tempo era insuficiente para fazermos novas coletas. Por isso, ele me propôs trabalhar com dados coletados, mas para tal, eu teria que mudar completamente de área. Foi assim que eu entrei para o mundo do zooplâncton. Foi uma decisão difícil, deixar a paixão pela ecologia de peixes e aprender do zero sobre uma comunidade extremamente importante no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Mas aceitei esse desafio, e junto com ele, vieram: a volta da minha autoestima, o prazer de trabalhar no novo assunto, além de parcerias com laboratórios e colaboradores franceses, com os quais pude, finalmente, realizar meu doutorado sanduíche, sonho antigo. Após trabalhar intensivamente no Brasil, morei durante um ano na França, onde consegui concluir meus estudos com sucesso. Apesar dessa mudança radical, hoje percebo que foi o melhor que poderia ter me acontecido. Fui acolhida na família “zooplanctônica”, me apaixonei pelo zooplâncton, concluí minha tese de doutorado da qual tenho muito orgulho, além de já ter dois artigos publicados, o que coroou meu esforço. Sobre Gabriela: Gabriela Guerra Figueiredo é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestre em Biologia de Ambientes Aquáticos e Continentais pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e doutora em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Sempre amou os animais, e trabalhar com biologia marinha era sua paixão. Atualmente trabalha com ecologia de zooplâncton com ênfase em análise de isótopos estáveis. #Convidados #AssedioMoraléCrime #VidaDeCientista #PósGraduação #AssédioMoral #Doutorado

  • Sorria recife, você está sendo fotografado!

    Por Carolina D. Teixeira Muitos aqui já devem ter ouvido falar que os recifes são ecossistemas com rica biodiversidade e que prestam serviços ecossistêmicos da mais alta relevância, tais como a mineralização do carbonato de cálcio, o provimento de recursos pesqueiros e a proteção das linhas de costa. Sem falar no imenso potencial turístico! Os maiores e mais ricos recifes do Atlântico Sul, Abrolhos, estão localizados no sul da Bahia e no norte do Espírito Santo. São os únicos, em todo o mundo, que formam os chamados “chapeirões”, que consistem em estruturas recifais cogumelares com paredes íngremes sombreadas e topos expandidos lateralmente e bem iluminados. Essas colunas recifais enormes são construídas por algas coralináceas, briozoários e corais , podendo chegar a mais de 20 metros de profundidade e 50 metros de diâmetro. Visando conservar uma parte desse ecossistema único foi criado, em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos , o primeiro dessa categoria no Brasil. No entanto, a região como um todo sofre constantemente com o mal uso da zona costeira, incluindo dragagens próximas aos recifes, desmatamento e urbanização descontrolada. Os recifes de Abrolhos também têm sido profundamente impactados pelas mudanças climáticas, como mostrei no meu trabalho de iniciação científica , e sofrem com a má gestão da pesca. O Parque Nacional, apesar de muito importante, não é suficiente para controlar essa enxurrada de ameaças! Diante desse contexto, estudos de longo prazo são essenciais para orientar os gestores e demais atores responsáveis pelo manejo dos recursos do mar. Desde 2006, cientistas de diferentes universidades do Brasil, reunidos na Rede Abrolhos , monitoram a região através de amostragens dentro e fora do Parque Nacional, e em locais mais ou menos impactados pelas atividades na zona costeira. O meu trabalho de mestrado envolveu a análise de dados do esforço empreendido entre 2006 e 2018, como parte do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração do CNPq. A partir dessa base de dados, procurei responder três questões centrais: 1) como a cobertura bentônica mudou ao longo dos anos?; 2) houve mudança de dominância em algum sítio e/ou habitat específico?; 3) como as histórias de vida das espécies mais abundantes influenciam na dinâmica da comunidade? Para responder essas questões, escolhemos 5 recifes, 3 deles próximos a costa (recifes costeiros) e 2 mais afastados (recifes externos). Os sítios costeiros incluíram os recifes Pedra de Leste e Sebastião Gomes, onde as águas são naturalmente mais turvas, sendo que Sebastião Gomes também recebe sedimentos de uma operação de dragagem de um canal de navegação usado para escoar toras de madeira. O Recife das Timbebas, também costeiro, ocorre numa área costeira menos sujeita à sedimentação e parcialmente protegida pelo Parque Nacional. Os dois recifes monitorados no Parcel dos Abrolhos, a mais de 60 km da costa (veja o mapa a seguir para se localizar na área), estão localizados na área menos turva e mais emblemática e protegida do Parque Nacional. (A): Mapa da área de estudo e os pontos amostrais localizados nos diferentes recifes (TIMB = Timbebas, PLES = Pedra de Leste, SGOM = Sebastião Gomes, PAB = Parcel dos Abrolhos). Os valores de turbidez (Kd490) se referem as médias de inverno de 2018; (B) e (C): vista aérea dos recifes externos e costeiros, respectivamente. O barco presente em B e C mede 15 metros. Fonte: Rede Abrolhos, licença CC BY SA 4.0. No primeiro ano (2006), quando eu ainda estava no 6º ano do ensino fundamental II e meu orientador era um jovem recém-doutor, foram colocados pinos metálicos nos recifes, de forma a permitir que as exatas mesmas parcelas fossem re-amostradas ao longo do tempo. E assim o foram nos últimos 15 anos! Nesses pinos são encaixadas estruturas de PVC com 15 subdivisões, as quais são fotografadas individualmente. Esse método é conhecido como foto-quadrado, e cada recife conta com 20 pontos fixos que nos permitem gerar 300 fotos padronizadas a cada ano. Ao final do trabalho, analisei cerca de 16 mil imagens! (A): quantificação do bentos utilizando o método do foto-quadrado no topo (B): quantificação do bentos utilizando o método do foto-quadrado na parede (C). Fonte: Rede Abrolhos, licença CC BY SA 4.0. Em geral, os recifes de Abrolhos mantiveram a cobertura de corais relativamente estável, sem um declínio regional que pudesse caracterizar o processo conhecido como “mudança de fase”, ou seja, sem a substituição maciça de corais por outros organismos que não constroem recifes, como as macroalgas. As flutuações na cobertura de corais foram ligadas principalmente aos eventos de anomalias térmicas positivas, quando a temperatura medida é superior à temperatura média da região ao longo dos anos. No entanto, em Sebastião Gomes, o sítio mais próximo da área de descarte da dragagem, organismos não-construtores de crescimento rápido se sobrepuseram aos corais, com destaque para o zoantídeo Palythoa caribaeorum, popularmente conhecido como “baba-de-boi”. A menor variação temporal foi observada nos topos dos chapeirões do Parque Nacional e nas paredes dos recifes costeiros, uma tendência que pode estar relacionada à história de vida dos organismos dominantes desses locais, que incluem corais conhecidos por serem mais tolerantes a flutuações ambientais, tais como a Montastraea cavernosa . Montastraea cavernosa , coral mais abundante dos recifes de Abrolhos. Fonte: Rede Abrolhos, licença CC BY SA 4.0. Apesar de não termos identificado um declínio da cobertura coralínea na escala regional, temos evidências suficientes para supor que a cobertura dos recifes não continuará estável por muito mais tempo. Os estressores não param de se intensificar e as anomalias térmicas estão ficando cada vez mais frequentes. O nosso trabalho, realizado a muitas mãos (são 14 co-autores de 5 universidades diferentes), mostra claramente que o controle dos estressores locais que contribuem para a deterioração dos recifes deve ser priorizado, inclusive porque a reversão e a restauração tendem a se tornar cada vez mais difíceis e caras na medida que a degradação se amplia. Leitura sugerida: Nossa pesquisa já foi publicada e pode ser acessada em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0247111 . O histórico da degradação da região de Abrolhos pode ser encontrado em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0247111.s002 . Para conhecer os demais trabalhos da Rede Abrolhos, nos siga nas redes sociais ou visite nosso site: http://abrolhos.org/ . Sobre a autora: Carolina D’Ornellas Teixeira é carioca, formada em Biologia Marinha pela UFRJ e mestre em Ecologia, também pela UFRJ. Se interessou pelo mundo dos corais ainda na graduação quando estudou o branqueamento em massa causado pelas anomalias térmicas de 2015-2017. Atualmente trabalha no Laboratório de Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade (SAGE-COPPE), na UFRJ, onde atua no âmbito do PELD Abrolhos. #RedeAbrolhos #CiênciasDoMar #Recifes #Coral #Abrolhos #MonitoramentoAmbiental #Oceanografia #BiologiaMarinha #Convidados

  • Importância e curiosidades das coleções científicas

    Por Jana M. del Favero Entre o fim do mestrado e o começo do doutorado fiz uma pausa de um ano e meio na qual participei da montagem da Coleção Biológica Prof. Edmundo F. Nonato - ColBio , do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Foram meses verificando frascos com algum tipo de material biológico, entre peixes, zooplâncton, otólitos, e digitando todas as informações sobre os mesmos no computador, como datas de coleta, locais, profundidades de coleta, o tipo de amostrador usado, a embarcação etc. Foi durante esse período que percebi a importância das coleções científicas, que preservam materiais cuidadosamente coletados para diversos fins, possibilitando inúmeras pesquisas.  Sou suspeita para falar, pois foi durante esse período trabalhando na coleção que observei que havia amostras de ovos e larvas de uma espécie de peixe ( Engraulis anchoita ) durante vários anos, desde 1974 até 2010, o que me possibilitaria uma análise da distribuição e abundância desses organismos  em um longo período de tempo, verificando a influência de fatores ambientais que não podemos analisar com poucos meses de coleta. Citando o que a Silvia Gonsales (nossa ilustradora) me disse, “as coleções armazenam peças com informações relevantes de um quebra-cabeça a ser montado e desvendado pelos pesquisadores”. É por isso que quando ocorre algum acidente, como o incêndio do Instituto Butantã em 2010, não são apenas cobras já mortas que se perdem, mas sim informações relevantes, insubstituíveis, que deixarão buracos nesses quebra-cabeças, que podem se tornar impossíveis de serem montados.  Outra grande importância das coleções biológicas é a economia financeira que podem proporcionar. Muitas vezes não nos damos conta  do alto custo de uma saída de campo para uma instituição ou para uma agência financiadora do projeto. A saída fica ainda mais cara se para a realização da mesma for necessário o uso de algum navio de pesquisa, principalmente se a área estudada for muito afastada da costa ou muito grande! Eu mesma, no meu projeto de doutorado não gastei um real com coletas, graças ao material guardado no ColBio. Agora suponhamos que você faz um trabalho no qual quer saber quais espécies de peixes ocorrem em uma certa região. Você identifica as espécies e na hora da publicação, ou em algum outro momento, algum pesquisador o questiona se você identificou corretamente a espécie X. Se a sua espécie X tiver ao menos um indivíduo depositado (guardado) em alguma coleção biológica, o pesquisador questionador pode analisar por si mesmo o “espécime-testemunho”, ou seja, o indivíduo por você depositado, e comprovar a identificação daquela espécie.  Ou até mesmo quando você está identificando um indivíduo coletado e tem dúvidas quanto à sua classificação. Nessa hora não há nada melhor do que consultar uma coleção científica e analisar as possíveis espécies que seu indivíduo parece pertencer. Incontáveis vezes fui ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo-MUZUSP durante o meu mestrado para ver indivíduos depositados na coleção ictiológica (de peixes). Se vocês achavam que o museu de uma universidade ou de ciências só tem aquela parte de exposição onde os visitantes circulam livremente, engana-se! Muito maior, e na minha opinião mais importante, são as coleções científicas.  Ah, e se esse museu arquivar o holótipo então, a coleção torna-se ainda mais preciosa. Holótipo ou espécime-tipo é o indivíduo que o pesquisador designou como base no momento da descrição de uma nova espécie. E sim, estamos constantemente descobrindo novas espécies e designando novos holótipos, principalmente no oceano, ainda tão pouco explorado!  Explorando o banco de dados do Museu de História Natural de Londres, achei diversos holótipos do Brasil, dentre os quais  citarei um que me chamou a atenção:  uma espécie de esponja (leia mais sobre esponjas aqui ) coletada em 1996 na região de São Sebastião, SP. Aos curiosos de plantão aqui está o link da coleção científica do Museu de História Natural de Londres. Eu particularmente achei demais ficar pesquisando espécimes coletados por Darwin, Linnaeus, de exemplares coletados no Brasil, que hoje estão guardados em outro continente!  É importante esclarecer que o holótipo nem sempre precisa ser o indivíduo inteiro, principalmente no caso de espécies extintas, cuja descrição é muitas vezes baseada em fósseis (por exemplo, um holótipo de um dinossauro descrito pode ser o fêmur do mesmo). Em alguns casos o holótipo pode até ser uma ilustração!  E por falar em ilustração, a Silvia Gonsales fala rapidamente em seu perfil aqui do blog sobre a importância das ilustrações científicas: “o desenho ajuda os pesquisadores a representarem e/ou explicarem suas ideias com algo além de palavras. Por exemplo, quando uma espécie nova é descoberta, alguém precisa descrevê-la, ou seja, fazer um registro exato de como ela é. O desenho científico complementa e sintetiza esse registro, mostrando todas as suas características importantes que, muitas vezes, não aparecem claramente em fotografias”. Assim, o desenho da espécie descrita auxilia, e muito, os pesquisadores na identificação de uma espécie ou até mesmo do estágio de desenvolvimento no qual  ela se encontra. No seu Trabalho de Conclusão de Curso, Silvia Gonsales utilizou desenhos científicos para descrever e caracterizar as fases larvais de uma espécie de peixe (vejam o desenho abaixo como exemplo de 3 estágios). E no post da Claudia Namiki ela mostra como o desenho científico foi utilizado para descrever otólitos (veja aqui ). Os originais dos desenhos científicos também ficam depositados em coleções científicas, disponibilizados para consulta de pesquisadores. O desenho é fácil de ser arquivado e guardado por muito tempo, mas como são guardados os outros materiais? Bem, tudo depende do que está sendo depositado. Os otólitos e ossos apenas precisam estar limpos e etiquetados para serem depositados, as amostras de plâncton normalmente encontram-se em  frascos de vidro preservadas em formaldeído 4% e peixes em álcool 70%. Plantas são prensadas, secas em estufas e fixadas em cartolina, chamadas exsicatas, como as da coleção que há no Jardim Botânico de São Paulo e no do Rio de Janeiro . Há também a taxidermia, conhecida popularmente como a atividade de “empalhar”, pois antigamente se utilizava palha para preencher a pele do animal que estava sendo montado. Hoje em dia, usa-se um material semelhante às fraldas, como os animais taxidermizados do   Museu de Pesca de Santos . Aposto que muitos aqui nunca pensaram que o animal “empalhado” poderia também ser usado a favor da ciência, não somente utilizado por caçadores para ficar expondo animais em sua sala de estar (credo!). Fig. 4: Exemplo de peixes fixados em álcool 70%, de aves marinhas taxidermizadas, do esqueleto de uma ave montado (Fotos: Jana M. del Favero) e de uma exsicata (Foto: Richieri Sartori).  Uma das coleções que conheci que mais me fez brilhar os olhos foi a coleção de vidro de flores e de invertebrados marinhos da Universidade de Harvard, parte exposta no Museu de História Natural e no Museu de Zoologia Comparada, da própria universidade. Ambas as coleções foram inicialmente criadas para serem utilizadas em salas de aula, uma vez que nem a planta prensada e nem o animal fixado mostram como o organismo realmente é (na fixação, principalmente de invertebrados, o animal perde a cor e pode deformar). No caso do organismo de vidro, mesmo estando muito perto, eu juraria que era de verdade, e olha que os modelos foram feitos entre 1887 e 1936. Uma obra de arte a favor da academia! Mais informações sobre a coleção de flores de vidro podem ser obtidas aqui e sobre os invertebrados marinhos aqui . No final de ambas as páginas há um filminho com imagens belíssimas, contando a história e como foram feitos esses organismos de vidro. Fig. 5. Organismos de vidro da coleção do Museu de História Natural da Universidade de Harvard. Foto: Jana M. del Favero. Os museus podem guardar ainda preciosidades bibliográficas em suas coleções, como por exemplo, livros com as descrições de Carolus Linnaeus, um dos pesquisadores pioneiros na identificação de animais, considerado o “pai da taxonomia”, mantidas pelo Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo.. Este material é tão raro e de grande relevância que  é preciso ser  manuseado com luvas. Uma pesquisa recente relatou que apenas 12% dos entrevistados visitaram um museu de ciência e tecnologia nos últimos 12 meses. Apesar de baixo, essa porcentagem aumentou se comparado com a mesma pesquisa em 2006, na qual apenas 4% afirmaram terem visitado um museu no último ano, e 8% em 2010. Entre os que não foram à nenhum museu, apenas 14,2% justificaram com a falta de interesse, sendo que 32,2% não tiveram tempo e 31,1% afirmaram que só não foram pois não existe nenhum em sua região.  Segundo o site que divulgou a pesquisa, o fato demostra muito mais a falta de acesso ao museu, ou de conhecimento sobre o mesmo, do que a falta de interesse, mostrando que a oferta é restrita e a informação é esparsa ( Fonte ). Então, após as curiosidades apresentadas aqui, que tal planejar uma ida ao museu e tentar enxergá-lo de um modo diferente?!  #ciênciasdomar #janamdelfavero #conservação #interdisciplinaridade #silviagonsales

  • A story about sponges

    By Lilian Pavani English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on July 14, 2015 Illustration by Catarina Mello Falling in love is unexpected, inexplicable, and incomprehensible. All of a sudden, it’s BANG! You’re in love! Well, this crazy thing happened to me, but with something quite different than another human -- it happened with a sponge (and I’m not talking about our friend Sponge Bob Square Pants). When I decided to study biology, I knew that I enjoyed marine biology and cellular biology and that I wanted to do research. I left cellular biology behind after my first semester of college, but marine biology was still waiting for me to discover it. As I soon learned, my ideas about what marine biology was were fairly limited and would soon change. What I knew at that point came mostly from what I saw in Porto de Galinhas: beaches and coral reefs filled with tiny fish. I really had no idea about what I was going to study. As I started to study invertebrate zoology, I was surprised to find out that there are more than thirty phyla of animals, not just the nine that I’d studied in school. This was the first time that I looked at sponges with a new set of eyes. Can any organism be more obscure than a sponge? Sponges have no true tissue (they don’t have basal lamina ), therefore there are no germ layers, coelom or organs. They are practically a cluster of specialized cells with different functions that can organize themselves to create a single asymmetric organism that eats, grows and reproduces. They do all of this without moving, because they’re sessile, and what's more, they decorate the environment with their beautiful colors!! That’s it, I was hooked! The Tedania ignis sponge, the object of my study (Photo by Renata Goodridge with a CC00 license) During my invertebrate zoology course, each student picked a phylum to present on. Of course I volunteered to speak about sponges, so I could learn more about these fascinating animals. For instance, because they are filter feeders, they are good bioindicators of environmental quality. Also, since they are sessile, they need a way to compete with other organisms for space, so they can produce secondary metabolites. These metabolites are of pharmaceutical interest! Around the same time, I read in the college newspaper that someone from the Economics Department had developed a study about the economic effects of the drop in tourism and fisheries in the region of Ilhabela and São Sebastião due to a recent oil spill. Aha! A lightbulb went on: I could use sponges to study beach pollution! Tedania ignis on a rock (Photo by Eduardo Hajdu) No one specialized in sponges at my university, but sponges live along rocky shorelines, and practically everybody worked in those regions. Even though the rest of the lab was involved in the Biota Project , my advisor gave me a vote of confidence and allowed me to write a proposal of my own while I was an intern in the laboratory. My only requirements were that I would have to include amphipods (a tiny crustacean that would later provide me with a Masters’ degree) and set the pollution aspect aside for a bit. At first that bothered me, but only until I realized the world that could fit within a sponge, or even on top of it. Sponges are secondary substrates to marine life, meaning that they expand the area of occupation within rocky shores, allowing many more organisms to live there. The structure of the sponge provides a variety of microhabitats, specifically good for juvenile organisms, therefore contributing to the local biodiversity. For my study I chose the sponge Tedania ignis , commonly known as the fire sponge, given that it can cause dermatitis that looks like burns on the skin. These sponges live in easily accessible places, so I could collect them without using diving equipment during spring tides (tides of maximal range near the time of full moon and new moon). During these periods of really low tide, the sponge can easily be spotted along the rocky shore. Back in the lab, while screening my samples, I discovered several marine organisms that I had never seen before, like small hydrozoa and pycnogonida (sea spiders). I also saw “miniature” versions of animals I recognized, including bivalves . It was a great surprise to open a chamber and find a “nest” of nematodes ! It was a really fun activity. My study lasted a year, with monthly sampling. In this time, I was able to analyze the temporal variation of the associated fauna. I also looked at relationships between the fauna present and environmental factors, such as the amount of organic matter at the collection site and within the sponge itself, using the dry weight as a parameter. Example of bivalve molluscs found inside and on top of the sponge Tedania ignis : a) Modiolos carvalho ; b) Sphenia antillensis ; c) Isognomon bicolor ; d) Lithophaga bisculata (no scale). (Photos by Lilian Pavani). An interesting thing I found out about this sponge is that most of the organisms live on its surface. These external organisms (epibiont fauna) were more affected by the amount of organic matter present in the environment than the animals inside of the sponge. The epibiont fauna also changed more temporally, showing that environmental factors (specifically food availability) were most important for these external animals. A curious thing I noticed in this study is that, contrary to what I initially thought, large sponges (heavier dry weight) do not host more organisms inside. While I didn’t study the size of my sponge’s chambers, I found out from other studies that the fauna that live inside of sponges are more influenced by the size and shape of their chambers than by the sponge’s total size, and apparently there’s a preference for small chambers. Probably, when a small sponge grows, its chambers grow as well, which makes its interior less appealing to the endobiotic animals. Big canals may offer smaller niche diversity and less protection than smaller canals. Longitudinal cut of the sponge T. ignis , detail of the canals. In grey: marine sediments, the main source of filtered food by sponges. (Photograph by Mariana Fernandes and Izadora Mattiello) And that’s how sponges taught me to write a scientific proposal and initiated me to marine science. I have eternal admiration, gratitude, and love for them! About the author: Lilian is a biologist, she holds a Masters in Ecology with a specialty in Environmental Engineering from the University Estadual of Campinas. She is a lover of sponges and other marine invertebrates, especially the colorful ones. After sailing through the world of sponges, algae, amphipods, and petroleum, the winds eventually took her down other literal roads, where she worked studying roadkill and doing environmental management and supervision of highway construction. She has diverse interests including education, innovation, and cooking. Lilian plays the flute with an amateur group of musicians, writes creatively, and enjoys bird watching. She lives with her feet in the sand and sort of between tides. #MarineBiology #Corals #Sponges #MarineScience #Guests

  • Uma história sobre esponjas

    Por Lilian Pavani Apaixonar-se é meio assim, inesperado, inexplicável, incompreensível. De repente, pronto: é amor! Mais curioso é quando isso ocorre em relação a algo tão diferente de você, como uma esponja – e não estou falando do nosso amigo Bob, aquele da calça quadrada. Pois bem, aconteceu comigo. Quando decidi estudar biologia, gostava de biologia marinha, biologia celular e queria fazer pesquisa. A biologia celular foi deixada de lado ainda no primeiro semestre da faculdade. Mas a biologia marinha continuava lá, esperando uma oportunidade para ser testada. Mas o que era a biologia marinha para mim até então? Praia e recifes de coral cheios de peixinhos, como eu tinha visto em Porto de Galinhas. O que eu ia estudar eu realmente não fazia a menor ideia. Quando comecei a estudar zoologia dos invertebrados, além do susto de descobrir que havia mais de trinta filos de animais, e não apenas os nove que eu havia estudado na escola, eu olhei pela primeira vez para as esponjas com outros olhos.  Pode algum organismo ser mais aleatório do que uma esponja? As esponjas não tem tecidos verdadeiros (não possuem lâmina basal), portanto, não podemos falar em folhetos embrionários, celoma ou órgãos. São praticamente um aglomerado de células com funções diferentes e especializadas, que conseguem se organizar e constituir um organismo único, assimétrico, que come, cresce e se reproduz. E fazem tudo isso sem sair do lugar, pois são sésseis, e ainda enfeitam o ambiente com suas lindas cores!! Pronto, gamei! Esponja Tedania ignis, meu objeto de estudo (Foto de Renata Goodridge com licença CC00 ). Naquela disciplina, a cada aula um aluno poderia escolher um filo para fazer uma pequena apresentação de curiosidades. Claro que me voluntariei para falar das esponjas. E descobri mais: uma vez que são filtradoras, as esponjas são bioindicadoras da qualidade ambiental e, por serem sésseis, produzem metabólitos secundários usados para competir por espaço com outros organismos. E esses metabólitos possuem  interesse farmacêutico ! Mais ou menos na mesma época li no jornal da faculdade que um rapaz da economia havia desenvolvido um estudo sobre os efeitos econômicos da queda do turismo e pesca na região de Ilhabela e São Sebastião, decorrentes de um vazamento de óleo que havia ocorrido algum tempo antes. Ahá! A luzes se acenderam: eu poderia estudar esponjas para descobrir mais sobre poluição nas praias! Tedania ignis incrustada em uma rocha (Fonte: Eduardo Hajdu). Na minha universidade não tinha ninguém especializado em esponjas, mas  as esponjas vivem em costão rochoso e praticamente todo mundo trabalhava com isso. Apesar de todos estarem envolvidos com a finalização do Projeto Biota , a minha orientadora me deu um voto de confiança e permitiu que eu fosse escrevendo um projeto enquanto fazia um estágio no laboratório. Mas eu teria que incluir anfípodes (pequenos crustáceos que me renderiam  um mestrado mais tarde) e deixar um pouco de lado a poluição. No começo aquilo me chateou, mas somente até eu perceber o mundo que poderia caber dentro de uma esponja, ou mesmo sobre ela. Elas funcionam como substrato secundário para a vida marinha, ou seja, ampliam a área de ocupação dos costões rochosos permitindo que muito mais organismos morem ali, pois oferecem uma série de microhabitats especialmente para organismos juvenis, contribuindo assim para a biodiversidade local. Para o meu estudo escolhi a esponja Tedania ignis , popularmente chamada de esponja de fogo, uma vez que pode provocar dermatites parecidas com queimaduras em contato com a pele. Essa esponja vive em locais de fácil acesso e pude coletá-la sem o auxílio de equipamento de mergulho, sempre em maré de sizígia (maré de grande amplitude que ocorre durante a lua cheia e a lua nova). Nesse período de maré bem baixa essas esponjas são facilmente avistadas no costão rochoso. No laboratório, a cada triagem eu fui descobrindo vários organismos marinhos que nunca tinha visto, como pequenos hidrozoários e picnogonidas (aranhas-do-mar), ou então encontrava “miniaturas” de outros mais conhecidos, como bivalves . E que surpresa era abrir uma câmara e descobrir lá dentro um “ninho” de nematodas ! Foi uma atividade realmente muito prazerosa. Meu estudo durou um ano, com amostragens mensais. Assim pude analisar a variação temporal da fauna acompanhante, buscando alguma relação com fatores ambientais, como a quantidade de matéria orgânica do local de coleta, e também com a própria esponja, utilizando seu peso seco como parâmetro. Exemplo de moluscos bivalves encontrados tanto dentro como sobre a esponja Tedania ignis: a. Modiolos carvalhoi; b. Sphenia antillensis; c. Isognomon bicolor; d. Lithophaga bisculata (foto sem escala). Fonte: Lilian Pavani. O que descobri é que nessa esponja a maioria  dos organismos vive sobre sua superfície. Esses organismos que habitam o lado externo foram mais afetados pela quantidade de matéria orgânica presente no ambiente e pela variação do tempo do que aqueles do interior da esponja, indicando que para a fauna epibionte os fatores ambientais, principalmente recursos alimentares (matéria orgânica em suspensão), são mais importantes.  O curioso desse estudo foi que pensei que quanto maior a esponja (maior peso seco), maior seria a quantidade de organismos em seu interior. Mas o resultado foi exatamente o contrário! Embora eu não tenha estudado o tamanho das câmaras dessa esponja, descobri em outros trabalhos que a fauna que vive dentro das esponjas é influenciada pelo tamanho e formato de suas câmaras mais que pelo tamanho total da esponja, e que parece haver uma preferência por câmaras pequenas. Provavelmente, quando a esponja estudada cresce, suas câmaras crescem também, o que torna seu interior menos interessante para os animais endobiontes, pois canais grandes podem oferecer menor diversidade de nichos do que canais pequenos. Corte longitudinal da esponja T. ignis, com detalhe para os canais. Em cinza, o sedimento marinho, principal fonte de alimento filtrado pelas esponjas. Fonte: Mariana Fernandes e Izadora Mttiello. E assim as esponjas me ensinaram a escrever um projeto de iniciação científica e permitiram o meu primeiro contato com as ciências do mar. Tenho por elas admiração, gratidão e amor eternos <3 !  Sobre  Lilian Pavani : Bióloga, mestre em ecologia e especialista em engenharia ambiental pela Universidade Estadual de Campinas, amante de esponjas e outros invertebrados marinhos, principalmente os coloridos. Após navegar entre esponjas, algas, anfípodes e petróleo, as correntes e ventos a levaram literalmente a outras estradas, onde atuou no estudo de fauna atropelada, supervisão e gerenciamento ambiental de obras de rodovias. Nutre interesses muito diversos como educação, inovação e cozinha, toca flauta doce em um grupo amador de música antiga, escreve pensamentos e observa pássaros. Enfim, vive com os pés na areia e meio que assim, entre marés. #biologiamarinha #convidados #corais #esponjas #iniciaçãocientífica #ciênciasdomar #lilianpavani

  • Até os peixes amam praia

    Por Jana M. del Favero As praias podem parecer um ambiente sem vida, pois o que enxergamos facilmente é apenas a areia e o mar. Então, se prestarmos um pouco mais de atenção, lembramos dos caranguejos, dos tatuís, das bolachas da praia e nossa opinião começa a mudar. Daí vamos para um mergulho e, às vezes, mesmo estando bem no raso é possível avistar alguns peixes. A quantidade de peixe avistada é mínima se compararmos com o que é visto ao nadar perto de um recife de coral ou perto de um costão rochoso. Mesmo sem ter uma fenda na rocha, um buraco no coral ou uma raiz do manguezal para protegê-los, é possível notar alguns peixinhos “brigando” com aquele vai e vem das ondas. E foi exatamente esse grupo de peixes que resolvi estudar durante o meu mestrado, os peixes da zona rasa de ambientes de praias. O principal objetivo do trabalho foi analisar a influência das  variáveis ambientais (diferentes praias, marés, estações do ano, salinidade e temperatura) na composição e estruturação da ictiofauna (= fauna de peixes) de ambientes praiais. Para obter os dados do meu projeto, coletei, com a ajuda dos técnicos da base de pesquisa do IO-USP localizada em Cananéia (SP), os peixes de três praias situadas na Ilha Comprida e três na Ilha do Cardoso, sul do estado de São Paulo (ou seja, tive a oportunidade de viajar durante um ano para um cantinho especial, como dito no post “ Internacionalizar é preciso ”). Essas praias tinham diferentes graus de exposição em relação às águas do estuário (para definição de estuário clique aqui ): duas mais voltadas para o interior do estuário, onde quase não se observavam ondas e havia influência das águas estuarinas, duas intermediárias e duas expostas, com ondas maiores e mais fortes e sem influência das águas estuarinas. Para essa coleta utilizamos uma rede chamada de “picaré”, que é arrastada manualmente por duas pessoas, uma em cada ponta. Foto 1: Coletando com a rede “picaré” em uma praia “exposta” e em uma “abrigada” da Ilha Comprida (SP) ( Fotos por Jana del Favero com licença CC BY SA 4.0 .). No total foram amostradas 57 espécies de peixes, a maioria em sua fase juvenil, com principal variação de tamanho de 0.4 a 6 cm. Foram também amostradas algumas larvas (ver post A vida "dura" de um peixe marinho bebê ). Quanto mais protegida a praia, maior a quantidade de indivíduos amostrados e maior o número de espécies. Por outro lado, as praias mais expostas apresentaram alta dominância de poucas espécies, principalmente de pampos (gênero Trachinotus ) e de tainhas e paratis (gênero Mugil ). Foto 2: Trachinotus carolinus (Pampo), esquerda (A e B); e Mugil curema (Parati), direita (C e D). As fotos superiores mostram indivíduos jovens, enquanto as inferiores mostram adultos. (Fotos A e D por Jana M. del Favero, licença CC BY SA 4.0 / Foto B por Trevor Meyer , licença CC BY NC / Foto D por Carla Elliff , licença CC BY). Os peixes utilizam a área estudada por diferentes motivos: alguns utilizam como área para o crescimento, (apesar da falta de “esconderijos” como citado no começo do texto, o simples fato da área ser  rasa já impede que predadores de maior tamanho venham se alimentar, oferecendo proteção aos pequenos), outros como uma rota de migração entre o oceano e o estuário, e apenas uma espécie, o Peixe- rei ( Atherinella brasiliensis) pode ser classificada como residente, ou seja, o peixe passa todas as fases de seu desenvolvimento (larvas, jovens e adultos) naquela mesma região ao longo do ano.  Foto 3: Menticirrhus littoralis, exemplo de uma espécie que utilizou a área estudada para o crescimento (até mesmo o maior indivíduo da foto ainda era jovem) ( Foto por Jana del Favero com licença CC BY SA 4.0 .). Um peixe da Califórnia, EUA, que pertence à mesma família do nosso Peixe -rei (família Atherinopsidae), utiliza a praia de uma maneira bastante diferente: eles saem completamente da água para desovar na areia. O mais interessante é que eles saem aos milhares, então a praia fica cheia de peixes “dançando”. Vale a pena ver o vídeo:  Outro fato interessante é que a maior quantidade de peixe e a maior diversidade é obtida durante o verão, estação na qual também ocorrem os maiores impactos nas praias por causa do turismo, como o aumento de lixo! Se interessou pelo assunto? Minha dissertação pode ser obtida no seguinte clicando aqui . Boa praia a todos! #ciênciasdomar #janamdelfavero #peixes #praia

  • Mudanças Climáticas ou Aquecimento Global?

    Por Carolina Barnez Gramcianinov Texto original: Tempo.com Encontramos na internet ou na TV um monte de notícias sobre o aquecimento global. As vezes ouvimos a expressão "mudanças climáticas". Será que esses termos querem dizer a mesma coisa? De forma simples, o aquecimento global é um dos maiores sintomas das mudanças climáticas causadas pelo homem. Imagem de Gerd Altmann por Pixabay . Muitas vezes para dar um tom apelativo às reportagens e artigos usa-se aquecimento global como sinônimo de mudanças climáticas, gerando certos equívocos na transmissão de informações científicas. De forma simples podemos encarar o aquecimento global como um dos maiores sintomas das mudanças climáticas causadas pelo homem. Aquecimento global se refere apenas ao aumento da temperatura média da superfície da Terra, enquanto mudanças climáticas é um termo mais genérico que abrange este aquecimento e seus efeitos secundários, como derretimento do gelo, aumento de chuvas ou períodos de seca em algumas regiões, aumento do nível do mar e etc. Além disso, normalmente o termo aquecimento global é empregado para falar do aquecimento causado pelas atividades humanas. Já mudanças climáticas engloba tanto mudanças causadas pelo homem quanto variações naturais do clima. A elevação da temperatura média na superfície do planeta ocorre devido ao rápido aumento do dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera provenientes principalmente da queima de carbono, petróleo e gás. O homem também pode influenciar o clima através da emissão de partículas chamadas aerossóis e transformação de paisagens, como desmatamento, por exemplo. Por que falamos "Aquecimento Global"? O termo aquecimento global foi usado a primeira vez pelo geoquímico Wallace Broecker em 1975 (Science). Naquela época os cientistas já percebiam que as atividades humanas podiam impactar o clima, porém, ainda não se sabia quais seriam as consequências. Qual efeito dominaria o clima? Resfriamento pela emissão de aerossóis ou aquecimento pela emissão dos gases de efeito estufa? A tendência da temperatura global na superfície da Terra é positiva na maior parte do planeta. Áreas em cinza não possuem dados suficientes para o cálculo da tendência. Fonte: NOAA Climate Em 1979, um grupo de cientistas estudou o impacto do dióxido de carbono (CO2) no clima. Nesse trabalho o termo de Broecker "aquecimento global" foi retomado para falar do aumento da temperatura média da superfície da Terra devido ao aumento do CO2 na atmosfera. No entanto, a expressão mudanças climáticas foi usado para discutir as outras consequências induzidas pelo aumento de CO2. O uso do termo aquecimento global gera confusão quando mal explicado ou mal usado. Muitos questionam "como pode estar ocorrendo aquecimento global se tal região está ficando mais fria?" Apesar da temperatura em algumas regiões do globo estarem diminuindo, em outras a temperatura está aumentando ainda mais. Desta forma, quando se faz a média das temperaturas na superfície em várias regiões do planeta, observa-se um aumento. Variabilidade Natural vs. Atividades Humanas Muitos cientistas preferem usar o termo mudanças climáticas em seus estudos. Separar os efeitos da variabilidade natural dos efeitos causados pelo homem não é uma tarefa fácil e esse trabalho é feito através de simulações do clima em situações distintas - por exemplo, sem o aumento dos gases do efeito estufa por atividades humanas e com o aumento de emissões como temos hoje. Sabemos que o planeta já passou por mudanças climáticas, mas a temperatura média global está aumentando mais rápido se comparado com registros prévios. Fonte: NOAA Climate O planeta já experimentou mudanças climáticas ao longo de seus 4,54 bilhões de anos, com eras do gelo e períodos mais quentes. Porém o aumento atual da temperatura média global parece estar ocorrendo muito mais rápido que em qualquer outro ponto do nosso registro de temperatura. Por isso acreditamos que o aquecimento global é um tipo de mudança climática sem precedentes, e está gerando um série de efeitos secundários em nosso sistema climático. Sobre Carolina B. Gramcianinov : Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre quis saber mais sobre o impacto do oceanos no tempo e clima da Terra, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Meus maiores interesses estão relacionados à física dos oceanos e atmosfera e seus impactos em outros processos ambientais e nas atividades humanas. Acredito que um entendimento integrado dos fenômenos meteológicos e oceanográficos é fundamental para a compreensão do sistema climático e previsão do tempo e estado do mar.  A autora já publicou outro post aqui no blog, relembre:  Os furacões e seus nomes . #CarolinaBarnezGramcianinov #aquecimentoglobal #mudançasclimáticas #descomplicando #convidados

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