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- Dia Mundial da Limpeza 2019
Todo ano, no terceiro sábado do mês de setembro, é comemorado o Dia Mundial da Limpeza. Em 2019, essa data caiu no dia 21 de setembro e não passou em branco entre as editoras do Bate-Papo com Netuno! O objetivo dessa data é atrair os olhares do mundo para o problema da poluição das nossas praias e nossos rios. Isso é feito por meio de mutirões de limpeza nesses ambientes, organizados por escolas, ONGs, cientistas ou qualquer pessoa que se sensibilize com a causa. Também não é incomum pessoas tomarem iniciativa sozinhas para fazer sua ação em escala individual. Foi o caso de nossas editoras Jana Del Favero e Raquel Saraiva este ano, que mesmo sem participar de grandes mutirões, fizeram sua parte. Jana caminhou ao longo dos três quarteirões que separam sua casa da praia no Rio de Janeiro em uma ação de limpeza solo. Ela coletou todo o lixo que encontrava pelo caminho e ficou chocada pelo resultado: três pilhas, um circuito elétrico, plástico de presente, garrafas, latinhas e bitucas, muitas bitucas! Esse lixo todo corria o risco de parar na praia, carregado pelo vento e chuva. Já Raquel realizou uma ação individual em água doce. Às margens do rio Negro, na província de Rio Negro, na Argentina, Raquel coletou diversos itens de lixo que eventualmente chegariam no litoral, fazendo estrago pelo caminho. Voltando a terras (e mares) brasileiros, as editoras Catarina Marcolin, Gabrielle Souza, Carla Elliff e Juliana Leonel participaram de mutirões em diferentes cidades. No Nordeste brasileiro, Catarina acompanhou sua filha, Clara, em uma atividade de limpeza na cidade de Porto Seguro (BA). Ela ficou encantada pela iniciativa ter partido da escola de Clara! Gabrielle também participou de uma ação em Porto Seguro, porém organizada pela Plogging Porto Seguro. Essa foi o maior dos mutirões entre aqueles que nossas editoras participaram! Quase mil pessoas se dividiram em setores diferentes da cidade e retiraram 354 sacos de lixo das praias e rios da área. Foi a primeira participação de Gabrielle em um evento desse tipo e ela lamentou a necessidade dessas limpezas. Porém, como ela mesma ponderou, se esse trabalho de formiguinha servir para fazer alguém repensar suas atitudes e consumo, já terá valido a pena! Gabrielle e voluntários (a maioria nessas fotos alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Sul da Bahia, UFSB) participando de mais uma ação em Porto Seguro. Saindo do Nordeste e indo até o Sul do país, Carla aproveitou o mutirão de limpeza realizada no município de Imbé (RS) para apresentar seu projeto “A areia sob nossos pés” (financiado pela American Geophysical Union - AGU e extensão pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS). Ela e outros integrantes do projeto levaram uma lupa e amostras de areia poluídas por microplásticos e pellets plásticos, para que os participantes da ação pudessem ver o quão sério é o problema da poluição de nossas praias. Carla coordena o projeto “A areia sob nossos pés” e convidou participantes do mutirão de limpeza em Imbé (RS) a olharem nossas praias mais de perto. Já Juliana participou de uma ação em Florianópolis (SC). A atividade foi realizada no Campus Trindade da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi organizada pelas iniciativas UFSC Sem Plástico junto com a Juventude Lixo Zero. Um total de 30 voluntários limpou a área por 40 minutos. Nos mais de 25 kg de lixo coletados, as campeãs em quantidade foram mais uma vez as bitucas! Ao todo foram mais de 1700 bitucas, 111 carteiras de cigarro, 184 garrafas de vidro, 513 copos plásticos, 200 garrafas PET, entre muitos outros materiais. Mutirão de limpeza realizada pela UFSC Sem Plástico junto com a Juventude Lixo Zero. Clique na seta da direita para saber mais! (Crédito pelas imagens: UFSC Sem Plástico). E você? Participou de alguma ação esse ano? O próximo Dia Mundial da Limpeza será dia 19 de setembro de 2020, não perca! #netuniandoporai #diamundialdalimpeza #lixomarinho #poluição #janamdelfavero #raquelmoreirasaraiva #catarinarmarcolin #gabriellesouza #carlaelliff #julianaleonel
- Botos e humanos: amigos de pescaria
Por Carla Elliff Uma amizade tão bela quanto improvável. Ilustração: Joana Ho. Tainha na brasa é um dos pratos mais típicos do litoral sul do Brasil e a forma como esse peixe vai do mar ao seu prato em dois locais em particular traz uma história surpreendente. Acredita-se que a pesca artesanal da tainha tenha origem indígena, tendo sido depois influenciada por imigrantes vindos do Arquipélago do Açores que assentaram nesta região do país, passando a tradição de geração para geração. Mas os pescadores artesanais e as tainhas não são os únicos atores nessa história. Um grande aliado dos pescadores são os botos, caracterizando o que se chama de pesca cooperativa. Esses botos são da espécie Tursiops gephyreus, sendo seu parente mais próximo comumente chamado de golfinho-nariz-de-garrafa em outros lugares do mundo. Aliás, o gênero dessa espécie (Tursiops) é o mesmo do personagem no filme Flipper (Universal Studios, 1996)! Esses cetáceos são animais inteligentes e com comportamentos bastante complexos, inclusive com relação à comunicação e à socialização. Eles se orientam e caçam usando ecolocalização, um processo onde o animal emite um som e percebe os ecos produzidos para calcular a distância entre as coisas. Foi combinando essa estratégia de ecolocalização e uma parceria com os pescadores locais que esses botos desenvolveram uma nova maneira de se alimentar. Boto da espécie Tursiops gephyreus (foto por Ignacio Moreno). Atualmente há apenas dois locais no mundo onde esse ritual de amizade na pesca acontece: no estuário do município de Laguna (SC) e na Barra do Rio Tramandaí, entre os municípios de Imbé e Tramandaí (RS). Registros históricos sugerem que a prática também era comum nos estuários próximos aos municípios de Araranguá (SC), Torres (RS) e na Lagoa dos Patos (RS), mas hoje já não se vê esse fenômeno com tanta frequência. Você deve estar se perguntando: por que essa pesca cooperativa só acontece nesses dois lugares? Como os botos aprenderam a pescar junto ao ser humano? Não tem perigo de a pesca fazer mal aos botos? Perguntas assim, muitas ainda sem a resposta exata, têm motivado cientistas a pesquisar sobre o tema, como o Professor Ignacio Moreno da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que tão gentilmente forneceu imagens tiradas por ele e seus colegas para ilustrar o post de hoje! O prof. Ignacio é coordenador do Projeto Botos da Barra, realizado dentro do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) da UFRGS. O objetivo do projeto é valorizar e conservar a pesca cooperativa, garantindo a continuidade dessa prática e a sobrevivência da comunidade de pescadores e botos na Barra do Rio Tramandaí. E, afinal, como é que acontece essa parceria? Na Barra do Rio Tramandaí, quando os botos detectam um cardume de tainhas, eles o perseguem e o leva para próximo das margens. Os pescadores, munidos de suas tarrafas (um tipo de rede de pesca circular), ficam lá a postos, esperando os sinais característicos que os botos fazem com suas cabeças, indicando que é hora de jogarem suas redes sobre o cardume encurralado. Sim, os botos acenam para os pescadores para avisar que os peixes estão ali! Assim, os pescadores conseguem pegar mais peixes em uma só tarrafeada e os botos conseguem abocanhar mais facilmente as tainhas que ficam desorientadas com a rede batendo na água. Boto garantindo sua tainha (fotos por Ignácio Moreno). Essa pesca de tarrafa é considerada uma estratégia sustentável por várias razões. Por exemplo, por se tratar de uma pescaria para comércio local ou até de subsistência, ou seja, consumo próprio, a pressão sobre os recursos pesqueiros é muito menor do que no caso da pesca industrial. Além disso, usando uma malha de tamanho adequado, a tarrafa se torna um material (ou petrecho de pesca) seletivo, capturando apenas peixes adultos de interesse comercial. Com anos de convivência e ajuda mútua, criaram-se laços afetivos genuínos nessa interação. Os pescadores, que consideram os botos seus amigos, sabem identificar pelo nome qual deles está ajudando (ou às vezes atrapalhando). Tem a Geraldona, a Rubinha, o Chiquinho, o Lobisomem (conhecido por ser guloso e ter aprendido a abrir a tarrafa embaixo d’água!), a Manchada... Uma verdadeira família! No entanto, nem tudo é alegria nessa história. A ocupação urbana do litoral norte do RS tem crescido de maneira intensa e desordenada, levando a impactos ambientais como a supressão de campos de dunas, a perda, fragmentação e desmatamento da vegetação nativa, a geração de resíduos sólidos em excesso, a contaminação da água, e o ruído e tráfego intenso de embarcações e de esporte náuticos. Além disso, a profissão de pescador artesanal apresenta certa vulnerabilidade social: apesar de oferecer uma oportunidade de pesca sustentável, é pouco valorizada e há menos jovens hoje aprendendo a tradição. Esse cenário serve para reforçar a necessidade de medidas individuais e coletivas para melhorar o meio ambiente. Por exemplo, após a implementação de leis de zoneamento na área em 2016 e a fiscalização decorrente, os botos começaram a aparecer mais frequentemente durante o verão – época do ano em que eles não apareciam tanto, o que podia estar associado às intensas atividades de turismo e superpopulação de pessoas nesta área. Então, lembre-se: se você estiver pelo litoral norte do RS ou em Laguna (SC), vá cedinho para praia e garanta sua tainha diretamente com o amigo do boto! Para saber mais: Projeto Botos da Barra: https://www.facebook.com/ProjetoBotosdaBarra/ botosdabarra@ufrgs.br Guia de apoio pedagógico para educadores: interação entre pescadores, botos e tainhas: aprendizados sobre cooperação, tradição e cultura. Eliza Berlitz Ilha e colaboradores. Porto Alegre: UFRGS, 2018. 90p. #ciênciasdomar #cetáceos #golfinho #boto #pesca #pescacooperativa #pescasustentável #carlaelliff #joanaho
- Reciclagem de Plásticos
Por Juliana Leonel Uma das maiores causas da contaminação do ambiente marinho por resíduos plásticos é a falta de gerenciamento adequado desse material que, muitas vezes, poderia ser destinado a cooperativas de reciclagem. Mas daí surgem algumas questões importantes. Todos os plásticos podem ser reciclados? Todos os plásticos são reciclados pelas mesmas técnicas? A reciclagem de plásticos é um processo simples? Quanto custa reciclar um plástico? Antes vamos rever o que é reciclagem: processo de converter material descartado (= resíduo) em novos materiais e produtos. A reciclagem ajuda a diminuir o problema do descarte de resíduos e a necessidade de extrair/gerar matéria prima nova para produção de materiais. Isso resulta em menor emissão de gases estufas, uso de água, e poluição aquática e atmosférica. Agora vamos lembrar que plásticos são formados por polímeros sintéticos (polímeros = macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores). Existem dois grupos principais de plásticos de acordo com os tipo de polímeros usados: os termoplásticos e os termorrígidos (ou termofixos). Os termoplásticos são aqueles que podem ser conformados e moldados quando aquecidos. Este grupo engloba 80% dos plásticos e inclui o polipropileno e o polietileno. Apesar de terem menor estabilidade térmica (resistência a altas temperaturas) que o termorrígidos, podem ser reprocessados diversas vezes e, consequentemente, podem ser reciclados. No entanto, perdem propriedades a cada ciclo de reciclagem, ou seja, só podem ser reciclados um certo número de vezes. Exemplos: garrafas PET e embalagens plásticas. Já os termorrígedos são aqueles em que a rigidez dos polímeros não se altera com o aumento da temperatura, ou seja, os polímeros não derretem e nem permitem serem moldados mesmo quando aquecidos. Isso impede a reciclagem desse material pelas formas convencionais. Alguns exemplos de termorrígedos são borracha vulcanizada, poliéster e resina epóxi. Classificação dos plásticos Nos itens feitos de termoplásticos é possível encontrar um número rodeado por um triângulo de setas. Mas você sabe o que significa esse símbolo? Esse símbolo serve para identificar o tipo de polímero usado para fabricar o item em questão e, dessa forma, orientar as pessoas quanto à maneira correta de fazer o descarte seletivo. Isso porque diferentes tipos de polímeros precisam de diferentes técnicas para serem reciclados e a empresa que recicla um deles não necessariamente irá reciclar os demais. A classificação dos plásticos (seguindo a numeração de 1-7) é seguida internacionalmente e no Brasil ela é estabelecida pela NBR 13.230/2008: Plástico tipo 1 - Politereftalato de Etileno (PET): é um dos tipos de plásticos mais utilizados pelos consumidores e inclui embalagens de refrigerante e água, potes de margarina, bandeja para microondas, frascos de cosméticos etc. Ele é produzido usando o petróleo como matéria-prima. Por ser um termoplástico, sua reciclagem é possível. No entanto, quando misturado com fibras de algodão (no caso das roupas de PET) sua reciclagem fica inviabilizada. Plástico tipo 2 - Polietileno de Alta Densidade (PEAD): material plástico altamente utilizado por ser resistente a quebra e a baixas temperaturas, leve, impermeável, rígido e com resistência química. Seus principais usos são em embalagens de detergentes e shampoos, óleos lubrificantes, sacolas de supermercados, tampas, potes, entre outros. Sua matéria-prima principal é o petróleo, mas pode ser também produzido a partir de fontes vegetais (nesse caso temos os bioplásticos). Plástico tipo 3 - Policloreto de Polivinila (PVC): termoplástico muito utilizado em tubulações e encanamentos, mangueiras, embalagens para remédios, maionese e sucos, brinquedos, material hospitalar, entre outros. Por possuir cloro na sua composição apresenta alguns problemas ambientais tanto na produção quanto na reciclagem; por exemplo, o uso de compostos tóxicos (com cloro em sua composição) como matéria prima. Plástico tipo 4 - Polietileno de Baixa Densidade (PEBD): usado em sacos transparentes, filmes, sacaria industrial, fraldas descartáveis, embalagens, rótulos, entre outros. Por ser um material leve, transparente, flexível e impermeável é amplamente utilizado. Plástico tipo 5 - Polipropileno (PP): trata-se um termoplástico produzido em formas variadas. Devido à sua resistência (inclusive a altas temperaturas e ao congelamento), transparência e rigidez, tem diversas aplicações, incluindo em filmes de revestimento, fibras têxteis em roupas térmicas, cartões bancários, recipientes reutilizáveis, seringas, entre outros. Plástico tipo 6 - Poliestireno (PS): usado em espumas para embalagens, talheres, embalagens para proteção de produtos eletrônicos, pratos e copos descartáveis, etc. Possui características de leveza, isolamento térmico, baixo custo, flexibilidade e moldabilidade. Nesse grupo encontra-se o poliestireno expandido, ou isopor; e o poliestireno extrudado. Plástico tipo 7 - Outros: plásticos formados das misturas dos outros 6 tipos e que não podem ser reciclados. Isso significa que existem apenas sete tipos de plásticos? Não! Existem muitos outros tipos de plásticos, tanto termoplásticos como termorrígidos, que não foram englobados na classificação acima. Tipos de reciclagem Além dos dois grupos de plásticos e das sete classificações de termoplásticos, existem diferentes tipo de reciclagem: a) reciclagem física: o plástico é fragmentado, aquecido e remoldado em novos produtos. b) reciclagem química: processo químicos para recuperar resinas plásticas fazendo-as voltar ao estágio químico inicial. Essa técnica tem mais flexibilidade sobre a composição do material a ser reciclado e é mais tolerante a impurezas. No entanto, é muito mais cara que a anterior. c) reciclagem energética: transformação dos plásticos, através de incineração, em energia térmica ou elétrica. Apesar de usado em alguns lugares do mundo, essa técnica gera debate porque não considera o gasto de matéria prima e os problemas (contaminação) gerada caso a incineração não seja feita em condições adequadas. Quando a reciclagem pode ser um problema É importante também salientar que aos polímeros que dão origem aos plásticos também podem ser adicionados plastificantes, corantes, estabilizantes, retardantes de chama etc. Dessa forma, quando novos produtos são feitos com plásticos reciclados esses compostos vão junto. Mas isso pode ser um problema? Sim, isso pode ser um problemão. Durante muitas décadas difenis éter polibromados (PBDEs) foram adicionados aos plásticos com o objetivo de evitar que pegassem fogo (ou para retardar esse processo em caso de incêndio). No entanto, hoje sabemos que os PBDEs são um tipo de poluente orgânico persistente e seu uso é proibido. Assim, quando um produto plástico contendo PBDEs é reciclado, o novo produto também terá em sua composição PBDEs (mesmo hoje eles sendo proibidos). Voltando às nossas perguntas: Mas todo os plásticos podem ser reciclados? Não. Todos os plásticos são reciclados pelas mesmas técnicas? Não. A reciclagem de plásticos é um processo simples? Não. Isso são alguns dos motivos pelos quais a reciclagem deve ser a última opção entre "repensar - recusar - reduzir - reparar - reusar - revolucionar - reciclar". Ou seja, antes de comprar ou de aceitar um produto de plástico, pense e repense: eu realmente preciso disso? Caso positivo, eu consigo reduzir o consumo desse item? Tenho alternativas ao uso desse item? Depois de adquirido, eu consigo dar outros usos para o mesmo produto? Por fim, somente quando não tiver mais uso, descarte o material, e de maneira correta. #descomplicando #julianaleonel #plásticos #reciclagem #plástico
- Conexão Oceano
Em meio a atores, atletas, jornalistas, empresários e professores, nossa editora Jana del Favero apresentou, no último dia 3 de setembro, o Blog Bate-papo com Netuno como um case de sucesso em comunicação científica no Conexão Oceano. Voltado para comunicadores, influenciadores, acadêmicos, pesquisadores e sociedade em geral, o evento gratuito uniu participantes ligados pelos ecossistemas marinhos para mobilizar o público pela defesa desses ambientes. Em sua fala, Jana reforçou a importância dos cientistas na geração de dados e busca de soluções para os problemas do reino oceanográfico e mostrou como o blog tem reafirmado seu compromisso em conectar os oceanos, os cientistas e a sociedade. O Conexão Oceano foi promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da UNESCO, UNESCO BRASIL e Museu do Amanhã. Ele teve o objetivo de conscientizar e engajar as pessoas sobre a importância dos mares e trazer o tema à tona, já que o período entre 2021 e 2030 foi declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a Década dos Oceanos. A apresentação completa da nossa editora pode ser assistida no nosso canal: https://www.youtube.com/watch?v=Waxa-7juByU #netuniandoporai #conexaooceano #fundacaooboticario #iocunesco #museudoamanha #decadadosoceanos #ods #janamdelfavero
- The air that you breathe
By Cláudia Namiki English edit Carla Elliff On 2018 September 3rd I received a ‘beautiful’ message congratulating me on Biologist Day (celebrated on this date in Brazil), which said: “Biology: thank you so much for NOT being a part of my life”. After realizing the NOT in this phrase, I couldn’t help but think about the paradox presented. Bio means life, so the human being that wrote this message was most likely alive and kicking, using up oxygen produced by other living beings through photosynthesis in order to maintain their cells working, while thinking how biology has nothing to do with his/her life… Illustration by Joana Ho What if I told you that a large portion of the oxygen consumed by this individual was produced by microalgae and cyanobacteria, organisms that are so small you can’t even see them? These microorganisms form a group we call phytoplankton, which in addition to supporting the whole marine food web, are also responsible for approximately 40% of all the oxygen produced annually on the planet, according to the American biological oceanographer Dr. Paul Falkowski. This means that while you can’t see microalgae and cyanobacteria when looking at the ocean, keep in mind that they can affect the oxygen and carbon cycles on Earth just as profoundly as our lush terrestrial plants. (Check out why algae are not plants). But the importance of these minute critters does not stop there: life on our planet as it is today would not exist without cyanobacteria. Geologists have found that during the first half of the 4.6-billion-year existence of Earth there was no free oxygen in the planet’s atmosphere. Oxygen started to accumulate in our atmosphere only 2.4 billion years ago, thanks to the photosynthesis of ancestors of current cyanobacteria. Terrestrial plants only appeared 2 billion years ago, as explained by Dr. Falkowski, after the levels of atmospheric oxygen started to increase. This means that all Homo sapiens sapiens, including yourself, of course, and all other life forms that depend on oxygen owe their existence largely to the appearance of a single cell able to obtain energy from the Sun to transform inorganic matter (carbon, water and other nutrients) into nourishment. So, don’t think that Biology is not a part of your life just because you haven’t pursued a career in this subject! It is everywhere, including in the air you breathe! To know more, check out this video. I also recommend the song Spyro Gyro by Jorge Ben, just so you have proof that microalgae can even influence Brazilian music. ;) Related post: Ocean fertilization and climate change (https://www.batepapocomnetuno.com/post/ocean-fertilization-and-climate-change) References: Paul G. Falkowski. The role of phytoplankton photosynthesis in global biogeochemical Cycles. Photosynthesis Research 39: 235-258. 1994. Paul G. Falkowski. The power of plankton. Nature, 483: 17:20. 2012. #cyanobacteria #marinescience #chatcláudianamiki #chatcarlaelliff #phytoplankton #photosynthesis #joanaho #microalgae #microorganisms #oxygen
- Ciência combina com você
Por Catarina R. Marcolin, Tatiana Dadalto e Florisvalda Santos Vocês sabiam que os pilares das universidades são: o ensino, a pesquisa e a extensão? Isso significa que uma instituição de qualidade precisa estar baseada nesse tripé, e cabe a nós, estudantes, pesquisadores e/ou professores realizar atividades focadas em cada um desses pilares. Mas o que cada um desses pilares quer dizer? O ensino é a transferência de conhecimento, com atividades voltadas ao aprendizado dos alunos. A pesquisa é a atividade com construção de novos conhecimentos. E por fim, a extensão é a difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural, da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição para a população. Em outras palavras, a extensão cria uma relação entre a comunidade e a universidade que não precisa ser unidirecional, o ideal é que exista uma troca verdadeira de conhecimentos. Apesar da extensão ser um dos tripés que respaldam as universidades brasileiras, ela ainda é bastante tímida na maioria das universidades, especialmente em cursos de ciências. Sabendo disso, o MEC lançou uma resolução em 2018 que define que cada curso de graduação tenha pelo menos 10% de sua carga horária voltada à atividades de extensão, na tentativa de fomentar uma relação mais íntima entre Sociedade e Universidade. E foi assim, que três professoras do Centro de Formação em Ciências Ambientais da UFSB (incluindo nossa editora Catarina Marcolin), desenvolveram uma oficina no Centro Integrado de Educação de Porto Seguro (CIEPS). Nós convidamos cientistas das ciências do mar para conversar com estudantes do ensino médio sobre suas histórias de vida, sobre como descobriram que gostariam de ser cientistas e as aventuras e percalços ao longo de suas carreiras. Os três convidados são docentes do curso de Oceanologia da Universidade Federal do Sul da Bahia: Silvio Sasaki (oceanografia química), Juliana Quadros (oceanografia geológica) e Andresa Oliva (geofísica marinha). Além de contar um pouco sobre suas histórias, os convidados ainda realizaram experimentos e demonstrações de atividades científicas com os alunos. Foi muito emocionante ver as carinhas de espanto, curiosidade e divertimento dos alunos e alunas à medida em que iam desconstruindo a imagem do que é ser cientista. Afinal, muitas crianças e adolescentes enxergam os cientistas como um homem de óculos, usando um jaleco e com cara de maluco, e não como uma pessoa comum, que pode estar ao lado deles na fila do supermercado! Os melhores momentos da oficina foram compilados no vídeo abaixo. As perguntas que vocês verão ao longo do mesmo são fruto da curiosidade destes/as jovens. Divirtam-se! https://www.youtube.com/watch?v=0mQnJwrIZus Sobre Catarina: Acesse o link para o perfil de nossa editora. Sobre Tatiana: Tatiana Pinheiro Dadalto é oceanógrafa, doutora em Geologia e Geofísica Marinha pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2017). Atualmente, é professora substituta na Universidade Federal do Sul da Bahia. Gosta de passar seu tempo livre em família e também de cozinhar, fotografar e estar ao ar livre em contato com a natureza. Sobre Florisvalda: Florisvalda Santos é agrônoma, doutora em fitopatologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA, 2006). Atualmente, é professora associada na Universidade Federal do Sul da Bahia. Gosta de passar seu tempo livre em contato com horta e jardinagem. #netuniandoporai #catarinarmarcolin #ufsb #ciêncianaescola
- As algas antárticas contra doenças
Por Leandro Clementino Ilustração: Joana Ho Quem nunca tomou um chazinho para curar uma dor de cabeça ou para “acalmar” os nervos? Pois bem, naquele chazinho ingerimos substâncias, produzidas por uma determinada planta, que nos ajudam a melhorar. Estas substâncias são chamadas de produtos naturais, ou seja, substâncias produzidas por plantas, animais, microrganismos, etc., que são utilizadas pelo homem desde a antiguidade para a cura de doenças. Estas substâncias são fonte para o desenvolvimento de novos fármacos a partir de uma série de moléculas inéditas, descobertas nos mais diversos organismos. Plantas terrestres são tradicionalmente utilizadas para o tratamento de várias doenças, devido ao conhecimento acumulado por anos pela população sobre caules, folhas, sementes e frutos que possuem alguma propriedade medicinal. Isso despertou o interesse científico para o estudo destas plantas e, ainda, foi mais além... Já que os produtos naturais terrestres apresentam tamanho potencial, o que se pode pensar e afirmar sobre os produtos naturais marinhos? Quando encontramos estas substâncias que apresentam influência no tratamento de alguma doença, as chamamos de moléculas bioativas e em laboratório fazemos uma busca destas moléculas nos mais diversos organismos. Dizemos, então, que fazemos bioprospecção destas moléculas. Embora seja no ambiente terrestre que estão concentrados a maioria dos trabalhos de investigação de produtos naturais, é no ambiente marinho que encontramos a maior diversidade biológica, com cerca de 300.000 espécies de fauna e flora descritas. Nos últimos 50 anos, mais de 20.000 produtos naturais foram descobertos, com as mais diversas aplicações contra micro-organismos, auxiliando o nosso sistema imunológico e até mesmo contra a diabetes. E isto pode ser atribuído ao grande campo de exploração, que vão de algas e fungos até os próprios animais, tornando o ambiente marinho uma fonte de destaque em produtos naturais. Em meio a toda esta diversidade do ambiente marinho, o nosso foco de estudo concentra-se nas macroalgas [1] , que são utilizadas há muito tempo na alimentação e também no campo medicinal. Elas são distribuídas em três grandes grupos: pardas ou marrons, verdes, e vermelhas. Estes organismos sofrem influência direta do ambiente marinho onde habitam. Por isso, as macroalgas possuem grande aplicabilidade no setor farmacêutico, pois uma vez que ficam expostas a condições climáticas adversas, são capazes de produzir substâncias únicas de grande interesse para o desenvolvimento de novos medicamentos. Macroalga antártica Cystosphaera jacquinotii. Fonte: Arquivo pessoal. Há cerca de dez anos, o projeto “Biodiversidade, monitoramento, estratégias de sobrevivência e prospecção de macroalgas extremófilas da Antártica Marítima”, no âmbito do Programa Antártico Brasileiro, coordenado pelo Professor Doutor Pio Colepicolo (IQ-USP), estuda a diversidade de espécies e diversidade química de algas do continente antártico. As macroalgas desse continente sobrevivem a condições ambientais únicas, em que seu metabolismo produz substâncias importantes para sobrevivência em meio a temperaturas extremamente baixas durante o inverno e temperaturas amenas durante o verão, o que as tornam muito importantes nos estudos de prospecção química de substâncias. O Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular de Tripanossomatídeos está localizado na FCF-UNESP em Araraquara, é coordenado pela Professora Doutora Marcia Graminha e há mais de 15 anos vem somando esforços no descobrimento de novas substâncias com potencial para tratamento das leishmanioses. Nosso laboratório é especializado em doenças negligenciadas, com ênfase em leishmanioses, e somos um colaborador do projeto citado há pouco mais de 5 anos. Este conjunto de doenças causa milhares de mortes anualmente e põem em risco cerca de um milhão de pessoas. A leishmaniose é uma doença infecciosa, transmitida pela picada de insetos, e pode afetar a pele do indivíduo ou seus órgãos internos, a depender da forma da doença. O tratamento disponível para as leishmanioses é baseado no uso de quimioterápicos, não específicos, que são altamente tóxicos, por isso são necessários esforços na busca de novos fármacos, e as macroalgas têm sido uma importante fonte de substâncias que ajudam no combate deste conjunto de doenças. Nosso grupo já testou uma série de substâncias isoladas de macroalgas antárticas, com diversas moléculas que estão em processo de identificação. Todavia, identificamos vários ácidos graxos que apresentaram potencial contra a forma cutânea da doença, causada pela espécie de protozoário Leishmania amazonensis. Estas substâncias foram encontradas nas algas Iridaea cordata (vermelha), Ascoseira mirabilis (parda) e Himantotalus grandifolius (parda) coletadas no continente Antártico, na Baía do Almirantado. Estes dados, embora preliminares, nos mostram um indicativo do quanto as macroalgas antárticas possuem potencial para o desenvolvimento de novos fármacos contra as leishmanioses. Recentemente, em parceria com o Laboratório de Química Orgânica do Ambiente Marinho FCF-USP, coordenado pela Professora Doutora Hosana Debonsi, começamos a avaliar a atividade de substâncias produzidas por fungos endofíticos (que vivem em simbiose com o hospedeiro) provenientes das macroalgas antárticas, tentando explorar ao máximo o potencial dos organismos extremófilos antárticos no combate as leishmanioses. Glossário: moléculas bioativas – São substâncias provenientes da purificação de extratos naturais através de técnicas de separação, como cromatografia. bioprospecção – Pesquisa e exploração da biodiversidade de uma região, dos seus recursos genéticos e bioquímicos de valor comercial. macroalgas – É o termo usado pelos biólogos para se referir a organismos eucariotas, fotossintetizadores e pluricelulares, mas que não tem as estruturas especializadas e as formas de reprodução das plantas verdadeiras. leishmanioses – Conjunto de doenças infecciosas causada por protozoários parasitários do gênero Leishmania transmitidos pela picada de insetos da subfamília dos flebotomíneos ácidos graxos – Ou ácidos gordos, são ácidos monocarboxílicos de cadeia normal que apresentam o grupo carboxila (–COOH) ligado a uma longa cadeia alquílica, saturada ou insaturada. simbiose – Interação entre duas espécies que vivem juntas. Referências: CRAGG, G. M.; NEWMAN, D. J. Natural products: a continuing source of novel drug leads. Biochimica Biophysica Acta, v. 1830, n. 6, p. 3670-3695, 2013. CARDOZO, K. H.; GUARATINI, T.; BARROS, M. P.; FALCÃO, V. R.; TONON, A. P.; LOPES, N. P.; CAMPOS, S.; TORRES, M. A.; SOUZA, A. O.; COLEPICOLO, P. Metabolites from algae with economical impact. Comparative Biochemistry and Physiology Part C: Toxicology & Pharmacology, v. 146, n. 1, p. 60-78, 2007. MAYER, A. M.; RODRIGUEZ, A. D.; TAGLIALATELA-SCAFATI, O.; FUSETANI, N. Marine pharmacology in 2009-2011: marine compounds with antibacterial, antidiabetic, antifungal, anti-inflammatory, antiprotozoal, antituberculosis, and antiviral activities; affecting the immune and nervous systems, and other miscellaneous mechanisms of action. Marine Drugs, v. 11, n. 7, p. 2510-2573, 2013. LOHARIKAR, A.; DUMOLARD, L.; CHU, S.; HYDE, T.; GOODMAN, T. Status of new vaccine introduction – worldwide, september 2016. Weekly Epidemiological Record, n. 1, 2017. Disponível em: . Acesso em: 20 Mai. 2017. RANGEL, K. C.; DEBONSI, H. M.; CLEMENTINO, L. C.; GRAMINHA, M. A. S.; VILELA, L. Z.; COLEPICOLO, P.; GASPAR, L. R. Antileishmanial activity of the Antarctic red algae Iridaea cordata (Gigartinaceae; Rhodophyta). J Appl Phycol, v. 31, p. 825-834, 2018. https://doi.org/10.1007/s10811-018-1592-1. Sobre o autor: Leandro Clementino é graduado em Engenharia de Biotecnologia e Bioprocessos (UFCG-PB), Mestre e Doutorando em Biotecnologia (UNESP-SP). Desenvolve projetos voltados para o descobrimento de substâncias bioativas contra as leishmanioses. Trabalha com identificação de metabólitos naturais de plantas tropicais e macroalgas antárticas, bem como substâncias sintéticas e possíveis mecanismos de ação. #macroalgasantárticas #produtosnaturais #leishmanioses #substânciasbioativas #doençasnegligenciadas #ciênciasdomar #convidados
- Praias: a complexidade dos grãos de areia
Por Jana M. del Favero Lugar de lazer, habitat de muitos seres vivos e escritório de surfistas e pesquisadores. Não importa como é utilizada, e nem a cor e a profundidade do mar ou extensão da faixa de areia: o termo praia é usado livremente para falar geograficamente da parte da superfície terrestre que toca o mar. Pensando assim, o termo representa desde ambientes de praias oceânicas abertas, com alta energia de ondas, até ambientes estuarinos, extremamente protegidos. Existem também praias de ambientes de água doce, mas não falaremos neles por aqui. Apesar dessa amplitude de significados, de maneira geral, pode-se considerar praias arenosas como áreas do litoral abertas para o mar, com sedimento inconsolidado que é constantemente retrabalhado pelas ondas. Esses ambientes dominam a maior parte da linha de costa dos trópicos, como aqui no Brasil, e regiões temperadas. O que conhecemos popularmente como areia é em sua maioria uma mistura de partículas irregulares de quartzo, com fragmentos de conchas e detritos derivados de fontes marinhas e terrestres. No entanto, o termo “areia” na verdade se refere ao tamanho do grão (que varia de aproximadamente 0,1 mm a 2 mm), indiferente da composição, que pode ser muito variável. Areias podem ser mais finas ou mais grossas, a depender, por exemplo, do grau de ação das ondas: as praias protegidas têm partículas de areia mais finas do que as expostas, pois a energia das ondas só é suficiente para ressuspender e transportar grãos de pequeno porte. Além disso, existem praias que são formadas não só por areia, mas também por grãos de outros tamanhos. Existe um gradiente em tamanho de partícula entre cascalho, areia e lama, com a lama sendo composta de partículas bem mais finas (chamadas silte e argila) e depositada em áreas de pouca movimentação das ondas, como nos estuários. À medida que o tamanho de partícula aumenta, o sedimento é então chamado de cascalho (veja mais sobre sedimentos marinhos nesse post). Estes substratos de partículas grandes não retêm água por causa de sua alta porosidade. Essa característica contribui para uma ausência ou baixa diversidade de vida em uma praia de cascalho. Divisões de uma praia A praia está subdividida em inúmeros ambientes: a zona de antepraia, que se estende da zona de arrebentação, onde as ondas começam a quebrar, até a zona de espraiamento, onde a praia é coberta e descoberta com o aumento da onda, formando um espelho d’água em alguns casos. À medida que o ciclo das marés cobre e descobre a praia, a zona de antepraia avança e retrocede. A região entre a zona de arrebentação e a zona de espraiamento, a chamada zona de surfe é onde a maior parte de energia de onda se dissipa - e onde os surfistam surfam. A berma é caracterizada pela proeminente deposição de sedimentos carreados pelas ondas, constituindo um acúmulo de areia que mantém uma superfície superior plana e uma inclinação relativamente íngreme em direção ao mar. A zona costa afora é o mar aberto que se encontra ao largo da zona litorânea, e a zona do pós-praia é a região compreendida entre a crista do berma até o início das dunas. Classificações das praias As praias arenosas são classificadas de acordo com as sua declividade e a intensidade da quebra das ondas, já que a quantidade de energia liberada na arrebentação condiciona a distribuição dos grãos de sedimento. Assim, elas podem ser classificadas em: Refletivas: possuem grande declividade, tamanho de grãos maior e incidência de ondas com alta energia sobre a face da praia; Dissipativas: apresentam uma extensa região de quebra de ondas, onde a energia vai se dissipando. Na face da praia a energia de ondas é baixa, com granulometria mais fina e pouca declividade; Intermediárias: abrangem todas as praias que ficam entre os extremos dissipativos e refletivos. Veja fotos desses diferentes tipos de praias aqui. Biodiversidade das praias Os animais necessitam de adaptações especiais para viver em um ambiente onde substrato é fisicamente instável, já que os grãos de areia são continuamente movido pela água. O deslocamento contínuo da superfície de praias expostas exclui a possibilidade de morada para grandes espécies sésseis e grande epifauna (animais que vivem na superfície de um substrato do fundo marinho). Além disso, as praias de areia contêm relativamente baixas concentrações de matéria orgânica, o que significa que há menos disponibilidade de alimento para algumas espécies. Mas nem tudo é problema! Por outro lado, a areia funciona como um tampão contra grandes flutuações de temperatura e salinidade e como capa protetora para intensa radiação solar. Assim, organismos que se enterram nas areias são mantidos úmidos e protegidos. Embora existam diferenças no ambiente e na distribuição de espécies, os padrões de zonação não são tão claros quanto em costões rochosos (falaremos sobre costões rochosos em um próximo Descomplicando). A zonação nas praias arenosas é dinâmica e variável, pois quando a maré sobe, muitas populações mudam suas posições podendo ir em direção ao pós-praia ou procurando abrigo. Viu quanta informação cabe em uma praia? E agora, quando for a uma você irá olhá-la de maneira diferente?! #janamdelfavero #descomplicando #oceanografia #praiasarenosas #areia #praia #grãodeareia #sedimentomarinho
- E agora, para onde vamos? Sobre ovos e larvas de peixes e as áreas de proteção ambiental marinhas
Por Clarissa Akemi Kajiya Endo Ilustração: Joana Ho O Brasil possui uma vasta área oceânica, a Amazônia Azul, com aproximadamente 4,5 milhões de km². Sabe o que isso representa? Mais da metade da área continental do país! Além de ser extensa, é uma região bastante rica, não somente em recursos minerais (como o petróleo e gás natural), mas também em diversidade biológica. Como sabemos, esses ecossistemas marinhos são impactados pelas mudanças ambientais, causadas por variações climáticas e pelas atividades humanas. Para tentar proteger uma porção destes diversos ecossistemas, foram criadas as áreas de proteção ambiental marinhas (APAs marinhas). Dentre as áreas que são comumente protegidas estão os recifes de coral, que são ecossistemas especialmente sensíveis às mudanças ambientais, pois algumas espécies de peixes recifais e os próprios corais possuem movimentação limitada quando adultos. Mesmo assim, sabia que algumas espécies de peixes são encontradas em recifes de coral tanto no litoral como nas ilhas oceânicas, separados por distâncias de centenas de quilômetros? Isso é possível porque certos organismos marinhos possuem um ciclo de vida bastante interessante. Muitas espécies possuem ovos e larvas que ficam na coluna d’água “ao sabor” das correntes e do ambiente (lembram do famoso plâncton?). São muitas as variáveis que contribuirão ou não para que esse “bebê” consiga chegar e se estabelecer em sua casa nova. Os desafios dessa jornada ainda não são muito estudados no Brasil. Mas já sabemos da grande importância que essa tal conectividade entre áreas promove na preservação da nossa diversidade. Pensando em tudo isso, decidi estudar no meu mestrado como as atuais APAs com recifes de coral na costa do Brasil se conectam, promovendo a preservação das espécies desses ambientes. Em outras palavras, como ocorre a troca de indivíduos entre essas áreas. Mas como estudar uma região tão grande, envolvendo tantos processos? Nós utilizamos uma ferramenta chamada modelagem numérica. Combinamos um modelo hidrodinâmico, que prevê os parâmetros físicos dos oceanos (temperatura, salinidade, correntes, etc.) e um outro modelo que prevê a dispersão ou para onde vão os ovos e larvas, chamado de modelo baseado em indivíduo (MBI). Também precisamos escolher uma espécie que fosse representativa desses ambientes e que ocorresse em todas as APAs de interesse. Além disso, era importante que houvessem estudos prévios sobre a biologia, reprodução e distribuição dessa espécie, importantes para que os resultados do modelo fossem o mais próximo do observado na natureza. Por isso escolhemos o gênero Sparisoma, mais conhecidos como budiões ou peixes papagaio. Áreas de estudo (em vermelho) e foto de um budião (Fonte). Agora já temos um panorama das ferramentas utilizadas no estudo, mas por onde começamos? Resumidamente, primeiro utilizamos o modelo hidrodinâmico para simular o comportamento dos oceanos durante um período escolhido, nós avaliamos os resultados, para ter certeza que eles se parecem com o que observamos na natureza. Depois estes resultados são fornecidos para o MBI que também usa alguns dados biológicos e calcula o destino dos ovos e larvas de peixe. Assim saberemos a chance de os indivíduos sobreviverem ou morrerem, de onde vieram e para onde foram. Imagens representando alguns resultados obtidos. Temperatura da superfície do mar de acordo com o modelo hidrodinâmico (esquerda) e possíveis trajetórias dos ovos e larvas do budião (direita). No fim das contas, a pergunta que não quer calar é: os budiões conseguem chegar em uma nova casa adequada? Os nossos resultados mostraram que a sobrevivência e trajetória dos ovos e das larvas dos budiões variam de acordo com as estações do ano, sendo regulados principalmente pelas correntes superficiais dos oceanos na costa do Brasil. São poucos os que superam os desafios da jornada e conseguem chegar em suas novas casas, indicando que as APAs talvez sejam distantes demais umas das outras. Contudo, existem outras regiões na costa brasileira que podem servir de habitat para estes peixes e que não são protegidas atualmente. A criação de novas APAs depende de muitos outros fatores que devem ser considerados, além do tamanho e da conectividade, mas nossos resultados indicam que se as APAs fossem maiores haveria um aumento na conectividade, aumentando a diversidade genética e, consequentemente, aumentando a conservação dessas populações de budiões. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Os resultados obtidos durante o meu mestrado foram publicados na Scientific Reports, da Nature. Assim, quem quiser saber mais sobre a conectividade entre as APAs na costa do Brasil, pode acessar o artigo em: https://www.nature.com/articles/s41598-019-45042-0 Sobre a autora: Clarissa é formada em Oceanografia pelo IO-USP, possui mestrado pelo programa de pós-graduação em Sensoriamento Remoto pelo INPE e, atualmente, é doutoranda no Institute of Marine Research em parceria com a University of Oslo na Noruega. A autora estuda a dispersão de ovos e larvas de peixes através do uso de modelos numéricos e estatísticos para melhor compreender os processos de conectividade, recrutamento, ecologia e dinâmica de populações. Além de trabalhar com modelos numéricos, adora estar em campo ou embarcada. LinkedIn: www.linkedin.com/in/clarissa-akemi-kajiya-endo-30827758 Instagram: @clari.endo E-mail para contato: clari.endo@gmail.com #ciênciasdomar #ictioplâncton #conectividade #apas #unidadesdeconservação #peixes #joanaho #convidados
- Small jellyfish and the secret to eternal life
By Renato Nagata English edit Carla Elliff In the summer of 1988, Christian Sommer, a German marine biology student in his twenties, and his girlfriend were on holiday in the small town of Rapallo, in the Italian Riviera. While on vacation, Christian was also conducting some studies involving small jellyfish (or medusas). He would dive in the turquoise blue waters of the sea, between the Portofino cliffs, in search of these creatures, rummaging on the seafloor and using very fine nets to collect medusas that are almost imperceptible while diving. Among the different species he came across, Christian found a tiny jellyfish species called Turritopsis dohrnii, which is purple in color, has 15 to 30 tentacles and measures only a few millimeters in size. After a few days of observation, Christian forgot about his small medusas, but instead of them dying, they shriveled up and transformed into a younger stage. Investigating this phenomenon more closely, Christian and other Italian scientists in Genova realized that, unlike other jellyfish that normally grow and develop into adults, Turritopsis seemed to develop like the character in the “Curious Case of Benjamin Button”, a story portrayed in a movie in 2008, based on a novel by F. Scott Fitzgerald in 1921, in which this character grew younger as time went by. Some years later, Christian and these other scientists published a study demonstrating the ability of this species to develop in two directions, either growing and becoming older, or regressing to younger stages, the opposite of what would be the usual direction of development. This regression to younger stages can be followed by normal growth again, which would effectively make Turritopsis dohrnii a potentially immortal species. As with any other animal, most of the 1,000 known species of jellyfish go through life following the natural path. They grow swimming freely following the sea currents, they feed off other planktonic animals (read more here), they develop over a series of stages until they become sexually mature adults. They can then reproduce (by the way, they have very similar eggs and sperm to ours!) and, after that, they die and disintegrate. This reproduction generates a small larva called planula, which goes down to the bottom of the ocean and transforms into a tube-shaped creature with tentacles around its mouth called polyp. Polyps grow stuck to the seafloor and can divide themselves to form large colonies with many clone polyps, which by definition have identical DNA. After a while, individual polyps (or colonies of polyps, depending on the species) produce new medusas that will grow, thus closing the “life cycle” of these species. The problem is that among jellyfish the exception seems to be the rule, and the diversity of lifecycle patterns is the greatest in all the animal kingdom. One of these alternative routes is the ability to develop backwards, called “reverse development” or “ontogeny reversal”, which is known to occur in very few species of jellyfish (but may possibly be more common than originally thought). The medusa, usually still young stops eating, its tentacles retract, and it goes down to the seafloor, where in a few hours it becomes a small mass of tissue. This mass of tissue can “rest” for a long time and later transform back into a polyp, resuming the usual development cycle. The big difference with Turritopsis dorhnii, however, is its ability to make this reversion even after becoming an adult and doing so during any stage of its life, as pointed out by another Italian researcher who has studied this phenomena since the 1990s. Reversing after full adult development would be like an adult butterfly instead of dying, simply being able to transform back into a caterpillar. But what is the secret to the potential immortality of this species? In the case of Turritopsis, scientists have observed that various stressful conditions, like lack of food, very low temperatures, or even the mechanical destruction of the medusa, can trigger reverse development. These alterations activate certain gene groups that cause changes to the organization of cells. All animals have the famous stem cells (or pluripotent cells), which differentiate into several other specialized cells such as muscle cells, neurons, and other tissues. However, Turritopsis dohrnii has cells that can do the inverse path, meaning that already specialized cells can return to a non-differentiated state (of a stem cell) or even directly transform into other types of cells. And that is the secret of Turritopsis! This cell transforming ability is called “cell transdifferentiation” and allows this medusa to reorganize the specialized cells in its body, losing “unnecessary” cells and reversing growth. If a single medusa could do this reversion indefinitely, it would potentially make it immortal. However, no medusa has been followed-up for very long and we still do not have the means to measure the age of jellyfish in the wild to know how many times it is possible for them to do this reversion. Only the Japanese scientist Shin Kubota, from the University of Kyoto, was able to monitor Turritopsis dorhnii for 2 years, and observed this growth and reversion cycle happening 10 times in a row. From right to left: Hydractinia carnea, Nausithoe aurea and Laodicea undulata. These three jellyfish species also have reserve development! Immortality can in fact be undesirable, like in Greek mythology when gods curse mortals that have tricked them with eternity. Or in the novel “Death with Interruptions” written by José Saramago in 2005, in which Death puts its job on hold, condemning humans to live forever. If this jellyfish was indeed immortal in nature, the ocean would soon be full of this species, which would cause mayhem. However, fortunately, ontogeny reversal does not stop the destiny of these medusas of becoming food for fish, sea turtles, or other marine animals. Moreover, as any other living being, Turritopsis is not immune to diseases, such that there are ways to interrupt the life of this species. Reverse development is a survival strategy: if the species finds an unfavorable environment, internal mechanisms make it go back to a previous stage. Meaning, if things go south, the medusa interrupts its growth, goes back to the bottom of the sea and starts all over. Other species of medusa and even polyps can also transform into masses of tissue protected by a sort of capsule and stay in this form for years, waiting for conditions to improve for their development. Even so, the cell transdifferentiation capacity of Turritopsis dorhnii can represent a big step in the comprehension of many other cell aging mechanisms, regeneration of tissues and even rejuvenation in the animal kingdom. Who knows, one day it might reveal some secrets about immortality (see Youtube link – Google Zeitgeist: Dr. Shin Kubota and the immortal jellyfish). Suggested reading: Bavestrello, G., Sommer, C., and Sarà, M. (1992) Bi-directional conversion in Turritopsis nutricula (Hydrozoa). In Aspects of hydrozoan biology. Edited by J. Bouillon, F. Boero, F. Cicogna, J.M. Gili, and R.G. Hughes. Scientia Marina 56: 137–140. Kubota S. (2011). Repeating rejuvenation in Turritopsis, an immortal hydrozoan (Cnidaria, Hydrozoa). Biogeography 13: 101–103. Piraino, S., Boero, F., Aeschbach, B., and Schmid, V. (1996) Reversing the life cycle: medusae trasforming into polyps and cell transdifferentiation in Turritopsis nutricula (Cnidaria, Hydrozoa). Biological Bulletin 190: 302–312. Piraino S, De Vito D, Schmich J, Bouillon J, Boero F (2004) Reverse development in Cnidaria. Canadian Journal of Zoology 82:1748–1754 Rich, N. Can a Jellyfish Unlock the Secret of Immortality? The Ney York Times, 28 Nov 2012. http://www.nytimes.com/2012/12/02/magazine/can-a-jellyfish-unlock-the-secret-of-immortality.html?_r=0 accessed 30 May 2015. About the author: As many other people, I have always been attracted to the sea, a strange and unfamiliar environment for someone born and raised in the interior of the state of Paraná, Brazil. While I was studying for my undergraduate biology degree at UFPR, I had the opportunity to do an internship on jellyfish. I could not have imagined the vast universe of so many possibilities that I was diving into. Not only are jellyfish beautiful, I came to notice that they were abundant in beaches around the world. This triggered many questions in my mind: when do they occur? What are their effects on man and other components of the ecosystem? I decided to become a marine biologist specialized in jellyfish. I did my master’s degree (UFPR) and doctorate (USP) in zoology and I am currently a professor at the Oceanography Institute of the Federal University of Rio Grande (FURG). I am interested in questions that can only be investigated when we look at live and pulsating animals: How is the growth and development of these animals? How do different species carry out basic functions like swimming and getting food? In addition to my research, I also feel the need to share a bit of what I do. This is why I immediately accepted the call for a chat with Neptune, to tell some tales and bring some curious facts about these fascinating ocean-dwellers! #jellyfish #marinebiology #marinescience #cnidaria #medusa #plankton #renatonagata #chatcarlaelliff
- Um tesouro chamado recife de coral
Por Carla Elliff De atrações turísticas a testemunhas vivas da história natural, entenda a importância dos recifes. Ilustração: Joana Ho. Ao falar sobre a conservação dos nossos ecossistemas não é incomum ouvir perguntas como “mas para quê proteger essa área?”, “isso não é só mato?”, “por que embargar uma obra por causa de uma área de reprodução de um bicho qualquer?”. Uma das minhas principais linhas de estudo lida em parte com essas dúvidas, respondendo à pergunta: para que servem nossos ecossistemas? Quais tesouros eles guardam? Durante meu mestrado e doutorado no programa de pós-graduação em geologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) eu investiguei os chamados “serviços ecossistêmicos” dos recifes de coral. Serviços ecossistêmicos são basicamente os benefícios que nós como seres humanos obtemos de um ambiente, o que permite nosso bem-estar. Esses serviços incluem materiais que podemos retirar do meio ambiente, processos dentro dos ecossistemas que mantém tudo em equilíbrio, e até serviços mais abstratos como valores emocionais e sentimento de pertencimento – como aquela sensação de paz que temos quando estamos contemplando uma paisagem ou dando um mergulho no mar. E podem confiar, os recifes de coral têm muitos serviços ecossistêmicos a oferecer! Imagine um recife de coral. A primeira imagem que talvez venha à sua mente é uma estrutura embaixo d’água, muito colorida e cheia de vida, um exemplo de biodiversidade. Ao passo que a biodiversidade em si não é um serviço ecossistêmico, ela faz parte do capital natural que promove serviços. Ou seja, a biodiversidade impulsiona serviços como o turismo e a recreação: recifes com alta biodiversidade são mais atraentes e, assim, podem contribuir para a economia local por meio de atividades de mergulho, por exemplo. Além disso, muitos tipos de pescado que consumimos passam alguma parte de seu ciclo de vida sobre os recifes de coral. Apesar desse ecossistema estar presente em menos de 0,1% dos oceanos, ela concentra quase 25% de toda a fauna marinha! E essa fauna encontrada nos recifes serve não só como fonte de proteína, mas também organismos como as esponjas têm alto potencial na área de biotecnologia (nós já escrevemos sobre esponjas aqui) . Os recifes de coral são hotspots de biodiversidade. (Fonte da imagem: Pixabay em Pexels) Agora, tirando o rosto de dentro d’água podemos ver outro aspecto importante de um recife. Perceba como as ondas que chegam à costa quebram exatamente em cima do recife. Essa transformação acontece porque a presença dessa estrutura feita de carbonato de cálcio representa um obstáculo repentino no fundo para as ondas. Isso quer dizer que os recifes são capazes de promover a quebra das ondas incidentes e atenuar a energia e altura delas, como um quebra-mar natural. Esse serviço de proteção à linha de costa se torna ainda mais importante diante de tempestades cada vez mais frequentes devido às mudanças climáticas. Falando em mudanças climáticas, os recifes de coral são também um arquivo de história natural incrível! É possível identificar condições oceanográficas do passado a partir do estudo de seus esqueletos, já que o crescimento de um coral é muito lento. Isso quer dizer que conseguimos estimar a temperatura passada daquele ambiente, a ocorrência de fenômenos climáticos ao longo dos anos, e outros fatores lendo o esqueleto dos corais como anéis no tronco de uma árvore. Infelizmente, esse crescimento lento também é parte do porquê esse ecossistema é tão frágil. Um recife degradado pode demorar séculos ou até milênios para se recuperar de um evento adverso. Esses serviços que mencionei são apenas alguns exemplos, mas já é possível perceber a importância não só ambiental, mas também socioeconômica de um recife saudável. O caminho para o desenvolvimento sustentável começa com o reconhecimento dos nossos recursos naturais em todo o seu potencial! Referências e sugestão de leitura: ELLIFF, C.I. & KIKUCHI, R.K.P. 2015. The ecosystem service approach and its application as a tool for integrated coastal management. Natureza & Conservação, 13:105-111. (doi:10.1016/j.ncon.2015.10.001) ELLIFF, C.I. & KIKUCHI, R.K.P. 2017. Ecosystem services provided by coral reefs in a Southwestern Atlantic Archipelago. Ocean & Coastal Management, 136(2017):49-55. (doi:10.1016/j.ocecoaman.2016.11.021) ELLIFF, C.I. & SILVA, I.R. 2017. Coral reefs as the first line of defense: shoreline protection in face of climate change. Marine Environmental Research, 127:148-154. (doi:10.1016/j.marenvres.2017.03.007) PRINCIPE, P.; BRADLEY, P.; YEE, S.; FISHER, W.; JOHNSON, E.; ALLEN, P. & CAMPBELL, D. 2012. Quantifying coral reef ecosystem services. U.S. Environmental Protection Agency, Office of Research and Development, Research Triangle Park, NC. EPA/600/R-11/206. Disponível em: http://www.epa.gov/ged/quantify.pdf. #ciênciasdomar #recifesdecoral #serviçosecossistêmicos #capitalnatural #carlaelliff #joanaho
- A paz que sinto num mergulho vs. a vida estressante dos corais
Por Daniel Castro Martignago Ilustração: Joana Ho Aposto que em algum momento da sua vida você já quis voar por aí, nem que seja só para fugir daquele trânsito do final de dia e chegar logo em casa. É possível ter, pelo menos, a sensação de estar voando... embaixo da água. Meu primeiro mergulho com cilindro foi em 2009, com 14 anos. Fiz o curso de mergulhador autônomo com meu pai e graças à vontade dele de experimentar coisas novas, descobri um mundo totalmente novo e apaixonante (bem mais legal que o mundo acima da superfície). Em um mergulho em Arraial do Cabo, Rio de Janeiro. (Foto de Daniel Martignago com licença CC BY SA 4.0). Os corais são animais cnidários, sendo que alguns possuem uma relação de simbiose no interior de suas células com microalgas, conhecidas como zooxantelas, responsáveis por grande parte da sua alimentação, coloração e crescimento. Conforme crescem, recifes de coral podem ser formados. Os recifes de coral são considerados as “florestas tropicais aquáticas”. Eles têm tanta riqueza e abundância de vida quanto uma floresta, e promovem benefícios para o planeta e para nós humanos, os serviços ecossistêmicos. Cada animal e planta encontrados em um recife serve para manter o equilíbrio ecológico deste lugar. Desde o coral que fornece abrigo para invertebrados e peixes pequenos, até o peixe-papagaio que raspa as macroalgas (que vemos a olho nu) de corais mortos, impedindo que elas cresçam e sombreiem os corais em crescimento. Como ecossistema ele mantém o mar povoado, permitindo que animais maiores de fora do recife também se alimentem, como aves e tubarões, e claro, o ser humano por meio da pesca. Infelizmente o ser humano impacta negativamente esses ambientes de diversas maneiras, em escala local e global. Seu protetor solar de base química, que contém oxibenzona, uma substância tóxica para os corais, é um estressante. Outro é o aquecimento global, que implica em outros problemas muito sérios, como o branqueamento dos corais. O tecido do coral é transparente. Quando há a expulsão das zooxantelas pelo coral, seu esqueleto de calcário interno (que é branco) fica evidente, dando o nome ao fenômeno chamado branqueamento de corais. Nessa condição, os corais têm mais chances de morrer, pois expulsaram seu principal fornecedor de alimento. Por que então eles expulsam as algas? Para responder, precisamos entender sobre balanço oxidativo. Todos os seres vivos produzem espécies reativas de oxigênio (EROs) durante a respiração celular e, para as plantas, no processo de fotossíntese também. As EROs são moléculas de oxigênio eletricamente reativas. Isso significa que elas possuem um elétron a mais e, quando doam esse elétron, causam a oxidação de outras moléculas. Esse elétron é capaz de interagir com lipídeos, proteínas e DNA, desestruturando-as, fazendo-as perder sua função. Os organismos possuem mecanismos de defesas para combater as EROs, os chamados antioxidantes, que são enzimas produzidas pelo organismo, como a catalase e a superóxido dismutase ou adquiridos via alimentação. Em homeostase, as EROs não causam problemas e até ajudam no funcionamento do organismo, porém quando elas excedem a quantidade de antioxidantes, elas começam a causar dano fisiológico, o estresse oxidativo. Voltando aos corais, o excesso de temperatura nos oceanos aumenta o metabolismo da sua alga simbiótica. Com o metabolismo acelerado, as zooxantelas fazem mais fotossíntese e geram mais quantidades de EROs, que passam para a célula do coral hospedeiro. O coral não consegue se defender da sua própria geração de EROs junto com a geração excedente das algas. Assim, a solução, em último caso, é expulsar as algas. As experiências de mergulho me motivaram a pesquisar esse ambiente fantástico. Quando me formei bacharel em Biologia, sabia que meu mestrado teria de ser em pesquisa marinha. Passei na seleção e ingressei no Laboratório de Fisiologia da Conservação, da PUC-RS, sob tutela da Prof.ª Guendalina Turcato. Na mesma época, tornei-me integrante do Projeto ReefBank, criado pelo Prof. Leandro Godoy, da UFRGS, que visa promover a conservação dos corais brasileiros via um banco de gametas congelados desses animais e por ações de educação ambiental. A primeira iniciativa do Atlântico Sul com esse foco. Cientistas sabem os efeitos negativos das mudanças globais nas colônias e coral, porém pouco se sabe como os gametas desses animais se comportam. Além de se reproduzirem assexuadamente por fragmentação de partes da colônia, por serem animais, os corais se reproduzem sexuadamente pela fertilização de um oócito por um espermatozoide. Minha dissertação entra no contexto de analisar e mensurar o dano lipídico causado pelas EROs no gameta feminino e suas defesas enzimáticas antioxidantes ao longo do tempo de vida da célula. A espécie alvo é a Mussismilia harttii, construtora de recifes, endêmica da costa brasileira e ameaçada de extinção. Colônia do coral Mussismilia harttii em tanque na Base de Pesquisa do Coral Vivo. (Foto de Daniel Martignago com licença CC BY SA 4.0). Fui para Arraial d’Ajuda (BA) fazer as coletas do meu mestrado, na Base de Pesquisa do Coral Vivo, parceiro do Projeto Reefbank. Lá também consegui fazer uma visita ao Parque Municipal Marinho de Recife de Fora e mergulhar nas águas claras e quentes do sul da Bahia. O parque foi criado em 1997 e possui uma área de 17,5 km², ficando apenas a 5 milhas náuticas da costa, uma viagem em torno de 40 min. O Recife de Fora abriga espécies de vários grupos de animais diferentes, como: algas, corais, anêmonas, moluscos, crustáceos, ouriços e diversos peixes, ou seja, uma biodiversidade enorme! Sendo uma das áreas de maior biodiversidade do Atlântico Sul e uma das áreas prioritárias do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais). Um passeio que vale a pena! Uma vez que as análises forem feitas e os resultados analisados, teremos os valores de defesa e de dano que o gameta feminino da espécie Mussismilia harttii sofre ao longo do seu tempo de vida em temperaturas atuaisda coluna da água. Com os valores basais de dano e defesa, conseguiremos fazer novas pesquisas do dano sofrido e de antioxidantes gerados, porém em outras temperaturas de coluna da água, estipulando, agora, para temperaturas futuras de aquecimento oceânico. Com esses dois valores, poder-se-á compará-los e analisar se o aumento de temperatura afeta negativamente a saúde dos gametas dos corais, assim como afeta a saúde da colônia. Se sim, significaria que além de matar as colônias já existentes, o aquecimento global também estaria impedindo a reprodução desses animais. Então não se esqueçam de fazer a sua parte para preservar os recifes de coral, enquanto ainda há tempo, pois quem sabe, quando for mergulhar da próxima vez, o leito marinho esteja branco, parado e sem vida. Aqui deixo meu convite para que você se interesse mais pela vida marinha e que cuide bem dela, e com isso faça um mergulho com cilindro, ou mesmo com snorkel, na próxima oportunidade que tiver. Tenho certeza de que irá se apaixonar, assim como eu. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Sugestão de leitura: Rede da Pesquisa Coral Vivo, Conhecendo os Recifes Brasileiros. Disponível em: Sobre o autor: Aluno de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Biodiversidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Formado em bacharelado e licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Membro do Projeto ReefBank para preservação de corais. Amante do mar e mergulhador PADI. Se desse, ficaria mais tempo embaixo da água. #VidaDeCientista #RecifesDeCoral #Branqueamento #RecifesBrasileiros #Mergulho #Zooxantela #Simbiose #Convidados












