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- Dolphins and humans: best fishing buddies
By Carla Elliff A friendship that is as beautiful as it is unlikely. Illustration by Joana Ho One of the most traditional seafood dishes in southern Brazil is grilled mullet, and the story of how this fish gets from the ocean to your plate in two special places is amazing. The artisanal fisheries that captures mullets in southern Brazil is believed to have indigenous origin, later being influenced by immigrants from the Azores Archipelago who settled in this region of the country. The tradition has since been passed down from generation to generation . Artisanal fisherman using a casting net to capture mullets at the inlet of the Tramandaí River (photo by Ignacio Moreno). But artisanal fishermen and mullets aren’t the only players in this story. Dolphins are a crucial ally for fishermen, characterizing what is called a cooperative artisanal fishery. The species of dolphin involved here is Tursiops gephyreus , whose close relative is commonly known as the bottlenose dolphin in other parts of the world. In fact, the genus of this species ( Tursiops ) is the same as that of the character Flipper (Universal Studios, 1996)! These cetaceans are intelligent animals and have highly complex behaviors, including when they communicate and socialize. They orient themselves and hunt using echolocation , a process where an animal emits a sound and perceives the echoes produced to calculate the distance between objects. By combining their echolocation strategy with a partnership with local fishermen, these dolphins developed a new way to eat. The Tursiops gephyreus dolphin (photo by Ignacio Moreno). There are currently only two places in the world where this fishing friendship ritual takes place: in the estuary of the municipality of Laguna (SC) and at the inlet of the Tramandaí River, between the municipalities of Imbé and Tramandaí (RS). Historical reports suggest that this practice was also common in the estuaries near the municipalities of Araranguá (SC) and Torres (RS) and in the Patos Lagoon (RS), but this phenomenon has become much rarer. You must be asking yourself: why does this cooperative fishery only happen in these two places? How did the dolphins learn to fish with humans? Can this fishery harm the dolphins? Questions like these, many without a precise answer, have motivated scientists to do research on this occurrence, such as Professor Ignacio Moreno from the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS), who so kindly supplied pictures taken by himself and his colleagues to illustrate today’s post! Prof. Ignacio is the coordinator of the Projeto Botos da Barra , carried out within the Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) of UFRGS. The objective of this project is to value and conserve the cooperative fishery, guaranteeing its continuity and the livelihood of the fisherman community and dolphins of the Tramandaí River inlet. Dolphin-friendly fisherman (pescador amigo dos botos), a partner of the Projeto Botos da Barra conducted by CECLIMAR/IB/UFRGS (photo by Ignacio Moreno). But what happens exactly in this partnership? When the dolphins detect a school of mullets at the inlet of the Tramandaí River, they chase the group and lead them towards the shore. The fishermen, armed with their casting nets (a type of circular net), are there prepared and waiting for the characteristic telltale signs the dolphins make with their heads, indicating that it is time to throw their nets over the cornered fish. Yes, the dolphins nod to the fishermen to let them know when the mullets are there! This way, the fishermen are able to catch more fish in a single throw of their nets and it is easier for the dolphins to catch their mullet, since the fish become disoriented with the net hitting the water. Dolphin catching a mullet (photos by Ignacio Moreno). Fishing with a casting net is considered a sustainable practice for many reasons. For example, since this is a small-scale fishery for either local of subsistence consumption, the pressure over this resource is much lower than with industrial fisheries. Moreover, by using an adequate mesh size, the casting net becomes a selective fishing gear, capturing only adult fish of commercial importance. With years of comradery and mutual help, true bonds have formed with this interaction. The fishermen, who consider the dolphins their friends, can tell them apart by name and know which one is helping (or sometimes getting in their way). There is Geraldona, Rubinha, Chiquinho, Lobisomem (known as being particularly greedy and even learned how to open the casting net underwater!), Manchada... A real family! Artisanal fishermen casting his net with the help of Geraldona (photo by Ignacio Moreno). However, there are dark clouds in this story as well. Urban occupation along the northern coast of the state of RS has grown intensely and in a disorganized way, leading to environmental impacts such as the suppression of dune fields, the loss, fragmentation and deforestation of native vegetation, the generation of excessive waste, the contamination of waters, and intense noise and traffic from boats and nautical sports. Moreover, the craft of being an artisanal fisherman is considered socially vulnerable: although this is an option for sustainable fisheries, it is not highly valued and there are less young people learning the trade. Multiple uses at the inlet of the Tramandaí River, RS (photo by Ignacio Moreno). This scenario reinforces the need for individual and collective measures to improve our environment. For example, after zoning laws and monitoring came into effect in 2016, the dolphins began to appear more frequently during the summer – a time of year when they were not so common, possibly due to the intense tourism and overpopulation in the area during the season. So, remember: if you are near the northern coast of RS or in Laguna (SC), go a bit earlier to the beach and get your fish directly from the dolphins’ friends! Artisanal fisherman during the mullet season in Tramandaí, RS (photo by Elisa Ilha). To know more: Projeto Botos da Barra: https://www.facebook.com/ProjetoBotosdaBarra/ botosdabarra@ufrgs.br Guia de apoio pedagógico para educadores: interação entre pescadores, botos e tainhas: aprendizados sobre cooperação, tradição e cultura. Eliza Berlitz Ilha e colaboradores. Porto Alegre: UFRGS, 2018. 90p. #marinesciences #cetaceans #dolphin #fishing #cooperativefishing #sustainablefishing #carlaelliff #joanaho
- As dores e os anseios de um doutorado sanduíche em tempos de coronavírus
Por: Anônima* Ilustração Caia Colla É muito curioso que para grande parte dos pesquisadores com quem convivo ou já convivi é realmente difícil separar a pessoa da profissão. Acredito que a paixão pelo que fazemos é tão grande que faz parte do que somos, sendo a energia que nos alimenta para atravessar os obstáculos. A minha história com a ciência começa muito antes do início da minha formação. Meu avô trabalhava com a manutenção de microscópios ópticos, aqueles que comumente são vistos em filmes e desenhos ao lado de cientistas. A nossa convivência me proporcionou desde cedo a descoberta de novos mundos (ele sempre colocava uma coisinha ou outra, como folhas, pétalas e pequenos insetos, para que eu pudesse observar pela janelinha mágica). A partir daí é fácil imaginar que as tardes de entretenimento se identificaram como vocação e missão. Particularmente para mim, ter a oportunidade de desenvolver parte da pesquisa em uma universidade estrangeira, ampliando meu conhecimento e capacidade de resolução de problemas sob outras perspectivas, era sonho e desafio. E as etapas do processo seletivo, exames de proficiência e o próprio visto foram uma jornada à parte. Embora a agência financiadora (CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) depositasse parte da bolsa aproximadamente um mês antes do início das atividades no exterior, os pós-graduandos têm de arcar com custos referentes à documentação de passaportes/vistos e todos esses trâmites são muito caros e demandam um tempo significativo. Além disso, o meu processo foi um pouco conturbado devido aos cortes financeiros que o Ministério da Educação (MEC) sofreu no último ano. O calendário atrasou e em vários momentos não sabíamos se o edital poderia ser cancelado, o que tornava inviável adiantar toda essa burocracia. Pude organizar os preparativos para a viagem e conseguir um lugar para ficar somente depois da homologação e de ter recebido a primeira parte da bolsa, quando foi depositado em minha conta corrente o valor total em reais correspondente às três primeiras parcelas, auxílio instalação e seguro saúde, com cotação da moeda estrangeira na época. No final de 2019 a segunda parte da jornada começava e foi um misto de alegrias, medos, expectativas e anseios. Naquele momento, a cidade de Wuhan na China apresentava os primeiros casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e ninguém esperava por uma pandemia. Durante os três primeiros meses vivenciei a melhor experiência de todas! A minha supervisora foi muito receptiva, me instalando em seu laboratório e apresentando o campus logo que cheguei. Além de todo o conhecimento que obtive através da sua orientação e frequentes reuniões para acompanhar o andamento do projeto, a convite dela pude cursar sua disciplina (embora a bolsa do sanduíche não cubra taxas e mensalidades). Como o meu objetivo era o de aprender uma nova abordagem estatística e a sua aplicação aos animais com que trabalho, boa parte das minhas obrigações envolviam aprendizado teórico e evolução da construção dos modelos utilizando linguagem computacional, e por isso suas aulas eram essenciais. No país em que estava, a situação da Covid-19 começou a sair de controle em alguns estados durante o mês de fevereiro. Embora não houvesse nenhum caso especificamente para a minha região, a universidade mostrava preocupação e programava algumas medidas de controle, como a possibilidade de fechamento dos campi e realização de aulas, seminários e reuniões por meio de videoconferência. O primeiro caso na cidade ocorreu no início de março, e foi aí que tudo começou a mudar... Imediatamente as aulas foram suspensas e posteriormente a presença nos prédios da universidade foi restringida, sendo autorizada apenas funcionários e pesquisadores que conduziam experimentos com animais vivos. A circulação na cidade também começou a diminuir e o comércio fechou. Ainda que os efeitos da Covid-19 estivessem sérios em outros países (que expressavam significativo número de mortes ), muitas pessoas se comportavam como se estivessem de férias e desobedeciam às orientações de isolamento social. Infelizmente, era comum ver os parques e praias lotados. Em nossa última reunião, minha supervisora me aconselhou vigorosamente que retornasse ao Brasil o quanto antes. “Não gostaria de estar longe de casa e da minha família em um momento como este! Têm chances de você ficar presa aqui, visto a redução de voos e possível fechamento de fronteiras”, ela me aconselhou. Confesso que, após a nossa conversa, fiquei um pouco assustada. Claro que já havíamos falado sobre a situação, mas essa foi a primeira vez em que ela realmente se mostrou preocupada. Por coincidência ou não, ao voltar para o laboratório e retomar minhas atividades, verifiquei que havia recebido um e-mail da CAPES pela plataforma de comunicação Linha Direta, um canal de comunicação entre a agência de fomento e os bolsistas apoiados para tratar exclusivamente dos processos relacionados às bolsas no exterior. Era uma mensagem padrão falando sobre a pandemia e comunicando que os pesquisadores que quisessem antecipar sua volta ao Brasil, teriam a possibilidade de suspender a bolsa e retomar as atividades assim que a situação se normalizasse. Imediatamente entrei em contato, manifestando meu interesse e solicitando orientações de como proceder para organizar o meu retorno. Sinceramente? Até hoje as orientações não chegaram! Sei que provavelmente a agência estava sobrecarregada com casos muito mais sérios do que o meu, mas as únicas mensagens que recebi específicas à minha situação tratam-se de cobranças... Tive muito receio, mas não aguardei o retorno da CAPES. Àquela altura, o programa de pós-graduação em que meu doutorado está vinculado no Brasil, havia sido comunicado de tudo o que estava acontecendo e me deu suporte sobre o que fazer. Por sorte consegui reagendar a passagem de volta. Quando entrei no avião percebi que tinha tomado a decisão correta, já que boa parte dos passageiros eram comissários de bordo e pilotos da companhia aérea que voltavam para casa. Atualmente, o país em que me encontrava vive um dos cenários mais drásticos da doença. Alguns dias depois da minha chegada, o Brasil fechou as fronteiras para estrangeiros e, como esperado, os voos reduziram drasticamente. Nenhuma preocupação quanto ao meu bem-estar e segurança foi demonstrado por parte da agência e, aparentemente, os demais pesquisadores que interromperam suas atividades enfrentam os mesmos problemas. Como mostra uma reportagem do UOL , a CAPES tem cobrado a devolução das mensalidades que não serão utilizadas, com cotação da moeda atual. O grande problema é que o pagamento referente aos meses de março e abril foi efetuado em reais durante o mês de janeiro, quando o valor do dólar e do euro eram bem menores. Isso me deu um prejuízo pessoal de quase R$ 2.000,00, sem falar dos custos que tive que arcar com conversões e transferências internacionais. Sigo desenvolvendo meu projeto no Brasil, cumprindo o cronograma organizado com a universidade estrangeira, contudo ainda não sei quando a minha bolsa de doutorado regular será reativada. Estou sem fonte de renda. É frustrante pensar que não só o meu sonho, mas com certeza de todos os outros pesquisadores que buscam ampliar seu conhecimento e aperfeiçoar suas habilidades, tenham de ser interrompidos de forma brusca e sem respaldo algum. A ciência brasileira vem sofrendo significamente com a falta de investimentos e, ainda assim, mostra um trabalho de qualidade, feito com muita determinação e capacidade. Se há uma lição positiva de toda essa catástrofe que o mundo tem enfrentado, acredito que seja a percepção do quanto a pesquisa científica é importante e que sem ela perdemos informação e conhecimento, impedindo o desenvolvimento de diversas áreas! *a autora não quis se identificar para não prejudicar os processos com a agência de fomento. #doutorado #pósgraduação #vidadecientista #pandemia #capes #covid19 #coronavírus #doutoradosanduíche
- Comunicação descomplicada em ciências do mar também é coisa de mulher
Em 16 de abril de 2020, 20h, nossa idealizadora, Catarina Marcolin , participou de uma live muito bacana no Instagram do Projeto Reef Bank . Foram mais de 300 espectadores e rendeu um papo muito interessante sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres nas ciências. Foram apresentados dados sobre a desigualdade de gênero no ambiente acadêmico e uma discussão bem rica sobre a necessidade de enfrentamento dessas desigualdades. Não perca a live completa no nosso canal no YouTube ! #netuniandoporai # catarinarmarcolin #mulheresnaciência #maternidadereal #comunicação
- O Guia do veraneio de Águas Rasas
Por Pedro Foloni Água no umbigo é sinal de perigo! Sinalização de perigo das praias do litoral paulista demarcando regiões de ocorrência de corrente de retorno (Fonte: BPCN com Licença CC BY SA 4.0) É muito bom reunir a família e ter um momento de descontração e lazer na praia, esquecer os problemas e se refrescar nas águas salgadas. Naturalmente, existem cuidados para que esses momentos de alegria não se tornem desagradáveis. Por exemplo, ter um guarda sol e passar protetor solar são cuidados automáticos que tomamos quando vamos à praia. Contudo, outros perigos além de queimaduras de sol podem acabar com a felicidade dos veranistas. O texto de hoje expõe um dos maiores perigos a que os banhistas podem se submeter ao entrarem no mar para se refrescar. Não, definitivamente não são os tubarões ! São as correntes de retorno. Na terminologia inglesa, correntes de retorno são conhecidas como RIP currents, onde RIP é um acrônimo da língua inglesa muito utilizado em homenagens a finados, cujo significado é “Rest In Peace”, traduzido para o nosso português como “descanse em paz”. Essas correntes são a principal causa de resgate de banhistas em praias de todo o mundo. Elas são geradas pela quebra das ondas, que ao empurrar a água do mar para costa, causa um empilhamento dessa massa d’água, que escapa de volta para o mar em correntes fortes - as correntes de retorno. Claramente não vou sugerir que paremos de frequentar as praias! Ao invés disso, é melhor que nos conscientizemos, então vamos conhecer um pouco mais sobre esse perigo. Primeiro, devemos saber identificar uma corrente de retorno. Para o nosso alívio, essas correntes apresentam algumas características que podem ser detectadas por um observador atento. Preste atenção às placas de perigo, elas não estão ali à toa. O corpo de bombeiros faz um difícil e muito nobre trabalho, tanto na prevenção, quanto na remediação. Outra característica que pode ser notada é a coloração da água: o fluxo destas correntes remobiliza a areia que está no fundo da praia, fazendo com que ela seja transportada em suspensão. Por conta disso, a água nas zonas de retorno adquire uma coloração amarronzada. Outro fator é o senso comum de pensar que as regiões mais seguras estão onde as ondas não estão quebrando, e na prática é justamente o contrário, pois a profundidade do canal formado pelas correntes de retorno dificulta a quebra das ondas. Neste contexto vale ressaltar um tipo particular de corrente de retorno chamada corrente de borda. Estas correntes são controladas por estruturas rígidas, como por exemplo um costão rochoso. Este tipo de corrente é especialmente perigoso pois o costão rochoso cria uma zona de sombra, ou seja uma região de baixa energia de ondas, tornando o local convidativo para o banho, contudo são locais preferenciais para a existência de um perigo oculto. Por final, já notou que às vezes o mar fica com uma certa textura “encrespada”? Isso acontece porque há uma interação (como se fosse um “bater de frente”) entre estas correntes que fluem em direção ao oceano aberto e o fluxo de água em direção à praia proveniente da quebra das ondas. Imagem retratando a pluma de sedimentos transportada pelo fluxo das correntes de retorno ( Fonte com licença de Domínio Público) Corrente de retorno rompendo a zona de rebentação das ondas, em regime de saída ( Fonte com licença de Domínio Público) Agora, para os desafortunados que acabaram caindo em um sistema de retorno, sinto muito, mas não faz diferença o quão rápido você nada, e sim o quão inteligentemente você irá nadar. Veja bem, tomando como exemplo o maior vencedor olímpico em provas de natação, Michael Phelps, este atleta profissional consegue nadar em uma velocidade de aproximadamente 2,2 metros por segundo. Porém, as correntes de retorno, em casos extremos, podem atingir velocidades de 3,5 metros por segundo, ou até mais que isso. Ou seja, nem Phelps vence a corrente de retorno em termos de velocidade. Vamos então a algumas dicas gerais que podem salvar sua vida. Primeiro: não se desespere e mantenha-se atento. Pode parecer difícil numa situação dessas, mas também pode ser a diferença entre a vida e a morte, pois o desespero leva a um gasto energético que certamente fará falta. Segundo: tente chamar a atenção de surfistas ou banhistas para que acionem socorro. Agora, voltando ao nado inteligente, entramos então em uma questão que requer muito a atenção do banhista. Existem basicamente dois tipos de regime de correntes retorno, o regime de saída e o regime circulatório, saber identificá-los é crucial. Cada um destes dois regimes requer estratégias de escape distintas. O regime de saída acontece quando um jato flui em direção ao mar aberto e o fluxo começa a se dissipar no que chamamos de cabeça de RIP. Nesse caso a melhor estratégia é nadar paralelamente à costa, até chegar a uma região propícia para regressar para terra firme. Geralmente estas regiões são os locais de quebra de onda, você pode usar a energia das ondas como um impulso extra para escapar do mar. No regime circulatório, fluxos assimétricos paralelos à costa convergem para a cabeça de RIP, nesse sentido nadar paralelamente à costa pode representar um esforço inútil, caso a vítima esteja sobre a corrente de alimentação principal. Neste caso a melhor saída é simplesmente boiar, deste modo a própria célula de circulação irá te carregar para um lugar mais propício para o escape." Agora lembre-se: não é porque leu este breve texto que deve se sentir confiante e desafiar o mar. Estudos apontam que condições de mar moderado são as que mais causam acidentes e fatalidades. Ondas menores são mais convidativas, mas igualmente perigosas. Não existe uma estratégia universal e infalível para sobreviver a uma situação destas, entretanto conhecendo o perigo as chances de sobrevivência são muito maiores. É importante ressaltar que em alguns casos os sinais mencionados não são tão evidentes, então se lembre da regra número 1, “água no umbigo é sinal de perigo”. Opte pela precaução e aproveite a praia, mas aproveite com moderação. Referências: CASTELLE, B., T. SCOTT, R. W. BRANDER, AND R. J. MCCARROLL. 2016. “Rip Current Types, Circulation and Hazard.” Earth-Science Reviews 163: 1–21. COWELL, P. J.; THOM, B. G. Morphodynamics of coastal evolution. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, 1994. DAVIS JR, R. A.; FITZGERALD, D. M. Beaches and Coasts, 419 pp. 2004. Sobre o autor Pedro Foloni: Sou oceanógrafo formado pela Universidade de São Paulo, atualmente faço pós-graduação em Oceanografia Geológica no Instituto Oceanográfico da USP e trabalho no Laboratório de Dinâmica Costeira. Minha família tem origem no interior de São Paulo, mas logo que nasci ela se mudou para Ubatuba. Me auto intitulo caiçara, mesmo não tendo raízes genealógicas com esta população tradicional. Para mim, o mar sempre significou muito, em diversos aspectos da minha vida, seja no âmbito recreativo, cultural e educacional. Nascido dia 02 de fevereiro, dia de Iemanjá, até os astros conspiraram em semear esta paixão. Mas a influência do mar sobre a minha vida, começou antes mesmo de eu nascer, infelizmente de forma trágica. Perdi meu avô dois meses antes do meu nascimento, justamente devido a um sistema de correntes de retorno. Durante o ensino médio tentei ingressar no colégio naval em Angra, sem sucesso (na época não me dedicava muito ao estudo hahaha). Já mais velho, optei por cursar Oceanografia. Hoje em meio a um mestrado, estudo uma temática que certamente impactou muito a minha família. Nunca foi algo planejado, foi simplesmente o caminho que a vida me levou, e sou muito feliz no que faço. Espero trazer uma contribuição para a sociedade, de modo que através da ciência consiga melhorar, mesmo que um pouquinho, a segurança nas praias e dos banhistas. #aguanoumbigosinaldeperigo #correntesderetorno #caminhosemretorno #cienciasalvavidas #comciencia #afogamento #oceanografiafisica #descomplicando #convidados
- Defesa de tese virtual: relato da minha experiência
Por Viviane Becker Narvaes No último dia 20 de março, de 2020, defendi minha tese de doutorado intitulada “O Teatro do Sentenciado de Abdias Nascimento: classe e raça na modernização do teatro brasileiro” junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) . A defesa ocorreu, portanto, no cenário do desencadeamento da crise global gerada pela disseminação do novo Coronavírus. Não parece haver um problema na ordem dessa sentença? Reflito que ela seria melhor formulada da seguinte maneira de acordo com as condições de vida que temos hoje: - a crise global que vivemos gerou a disseminação do novo coronavírus. Ao fazer essa inversão, adianto que é neste sentido que faço meu relato da experiência de defesa. De modo geral, trata-se o momento atual como suspensão da normalidade. Por um lado é isso mesmo, excepcionalidade, mas por outro a normalidade que vivíamos precisa ser criticada, pois era aceitável apenas como um véu obnubilando a visão de quem ocupa posições menos precarizadas no mundo do trabalho na nossa sociedade. Diante da magnitude da pandemia, às vésperas da defesa da tese, me vi mergulhada em reflexões dessa natureza. No Rio de Janeiro, onde resido, bem como em São Paulo, onde se realizaria a defesa, as políticas de enfrentamento da doença começaram a estabelecer o isolamento social, a redução da mobilidade entre as duas cidades, a quarentena para quem teve contato com doentes ou realizou viagens internacionais, dentre outras medidas. A incerteza sobre a realização da defesa na data prevista começou a se instaurar. No dia 13 de março recebi o primeiro comunicado da pró-reitoria de pesquisa informando sobre novas possibilidades de realização das defesas. Sob a insígnia “A USP não pode parar”, cada dia recebia um comunicado novo, sempre sem mencionar possibilidade de adiamento. Até o dia 18, nem eu, nem minha orientadora sabíamos se iria ocorrer de fato, embora em termos técnicos e burocráticos tudo estivesse certo. Busco ao relatar minha experiência refletir simultaneamente sobre aspectos da minha subjetividade nesse contexto e sobre as ideias gerais, mais objetivas, que consubstanciou minha vivência. A concentração, preparação e ansiedade que vivi nos dias que antecederam a defesa, sentimentos e ações esperadas que perpassam qualquer pessoa que esteja no fechamento de um ciclo de pós-graduação, se intensificaram, principalmente por conta das indefinições e das contradições entre as medidas tomadas pela universidade e aquelas dos setores públicos estaduais tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo. A manutenção da data da defesa implicou em risco à vida da minha orientadora e dos trabalhadores da USP que precisaram estar na universidade para que tudo ocorresse. Precisei também dar conta das novas rotinas impostas pelo isolamento em relação à minha família. A isto, se somou a necessidade de discutir e resolver questões relacionadas ao trabalho na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) , onde sou professora. Todas essas implicações foram muito angustiantes. Não sei o que ocorria com cada membro da banca, em suas casas, famílias e trabalho nesse período, mas posso imaginar que se deram dificuldades da mesma natureza. A ansiedade que foi em mim gerada por tantas notícias de internet e demandas de mensagens virtuais, suponho que também ocorreu com cada um que participou. Comigo essas dinâmicas geraram, inclusive, muita dificuldade de concentração na realização de tarefas simples. Na data prevista, a defesa ocorreu e fui aprovada. O ato de defesa se deu por meio do aplicativo Skype , com cada membro da banca, eu e minha orientadora, em locais diferentes. Tudo mediado por um aplicativo eletrônico. Eu utilizei uma versão gratuita, e creio que os membros da banca também, talvez apenas a versão da USP seja paga. A velocidade da minha internet residencial é a mais alta possível e meus equipamentos são relativamente novos, o que sei que não é a realidade de grande parte de meus colegas de pós-graduação. A defesa começou com um pequeno atraso devido aos ajustes técnicos para fazer funcionar a tecnologia e contatar cada uma das pessoas. Cerca de três minutos após o início, todos os vídeos desapareceram da minha tela, eu não via mais ninguém. Só podia ouvir a argüição. Nesse momento eu informei o que ocorria, mas nada havia a ser feito, pois o problema era na minha interface. Todos estavam assistindo o vídeo que preparei para apresentação que foi compartilhado pela minha orientadora. Não ver as pessoas falando durante a arguição transformou a defesa em uma das coisas mais difíceis que já fiz, pois sem as expressões do rosto, sem os olhares e sem o gestual, uma parte da comunicação foi totalmente prejudicada, e mesmo a variação no volume da voz exigiu de mim uma concentração enorme. O rito de defesa foi preservado, foi o mesmo em aparência e em função pública, mas em essência foi completamente desumanizado. Conquanto a qualidade das intervenções e da defesa em si foram mantidas, uma fração importante do processo não estava presente, pois o espaço de empatia e afeto, que o encontro face a face permite, foi sequestrado. A ideia de que não se pode parar, de que a USP e a pós-graduação não podem parar, não é nova: na última década, pelo menos, esse discurso foi apresentado contra as greves dos trabalhadores da educação. O aspecto nocivo da subserviência aos sistemas de ranqueamento das universidades já vinha mostrando seus efeitos nas perdas de direitos dos trabalhadores e agora, durante a pandemia, mostra que não basta o adoecimento dos docentes e a inviabilidade de se aposentar com tempo para viver com qualidade de vida. É uma necropolítica mesmo, na qual a vida é menos importante do que a produtividade. Talvez se possa, diante de tanta contradição, enfrentar daqui pra frente os discursos anti-greve que pretendiam denunciar que este instrumento estava caduco para os trabalhadores da educação sob o argumento que não somos fábrica e portanto não parávamos a produção stricto sensu . Pois, neste momento eles caem por terra, quando diante do quadro de crise a universidade afirma que não pode parar. Os precedentes para quando voltarmos às situações presenciais foram abertos, e é possível que este modelo seja adotado sem grandes críticas, pois o contingenciamento de verbas já estava em curso antes da pandemia e, se for imposta a garantia de parcos recursos para pesquisa e sua divulgação, em troca de se abrir mão da presença física nas bancas, não será surpreendente que tal procedimento ganhe aceitação. Tenho visto uma acolhida entusiasmada de defesas à distância por parte de muitos colegas da pós-graduação (professores e estudantes), que se sentem às vezes mais confortáveis em realizar essas atividades de dentro das suas casas, tal a precarização que está instalada. Não é de se estranhar esse primeiro encantamento, pois a sobrecarga de trabalho em que muitos se encontram dá a aparência que esse mecanismo economiza tempo. Muitas análises sobre o isolamento social que estamos vivendo indicam que a vida a nossa volta vai ficar diferente quando tudo isto passar. Desejo profundamente que isto ocorra, que exista mais solidariedade, que se estabeleça outra relação com o meio ambiente, que o trabalho seja menos explorado, que se possa ter mais lazer e mais saúde. No entanto, se durante esse período admite-se como normalidade, no meio universitário, práticas que excluem do processo pedagógico e intelectual a qualidade que o encontro, a coletividade e o afeto promovem, creio que o caminho inverso está sendo traçado. Sobre a autora: Possui graduação em Arte Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2004), graduação em Artes cênicas - Licenciatura pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2008) ,mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (2007) e Doutorado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo - USP (2020). É professora adjunta IV da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Teatro, atuando principalmente nos seguintes temas: teatro, espetáculo teatral, ensino de teatro, encarceramento e performance. Desde 2009, coordena em parceria com outros docentes o Programa de Extensão Cultura na Prisão; Atualmente é chefe do Departamento de Ensino de Teatro. #covid19 #coronavírus #defesa #doutorado #convidados #vidadecientista #defesavirtual #homeoffice
- Da teoria à prática: cruzando o Oceano Atlântico de Sul a Norte
Por Luciana Shigihara Lima Um mês a bordo de um curso flutuante, dialogando, questionando e fazendo ciência Desde criança faço perguntas curiosas: por que o céu é azul? Como as ondas se formam? Como as nuvens “flutuam no céu”? De tantos porquês encontrei na pesquisa meu lugar de acolhimento. O prazer de descobrir e buscar constante aprendizado, movida sempre pela curiosidade me fez escolher a carreira acadêmica como atividade profissional. Nessa trajetória, nunca poupei esforços para sair da zona de conforto, a fim de aprender mais e mais. Fiz curso técnico em hidrologia e graduação em Engenharia Hídrica, sempre com o enfoque maior em água doce. No mestrado, ao sair mais uma vez da minha zona de conforto, conheci Netuno, e toda a diversidade de cores, tons e particularidades que o oceano apresenta. De amostragens em campo coletando solos e medindo vazão de rios em dias de chuva, fui mergulhar em computação e modelagem numérica, casando a física com a biologia: tentando explicar como as mudanças climáticas podem afetar a dispersão de ovos e larvas de peixes entre as ilhas oceânicas brasileiras e o continente, semelhante ao trabalho da Clarissa, já apresentado aqui no blog . Dentro deste mundo numérico e navegando nas ondas da internet e livros, aprendi bastante sobre os complexos processos que ocorrem no oceano (algumas vezes, inclusive, recorrendo ao Descomplicando Netuno ). E, certo dia, imersa em meus cálculos, modelagens e mil abas abertas da internet (quem nunca, né?), encontrei o site de uma organização chamada POGO *( Partnership for Observation of the Global Ocean ) informando que estavam abertas as inscrições para o SoNoAT 2019 (uma escola flutuante que foca em preparar e conectar os cientistas para o futuro). Preparei minha inscrição, carta de motivação e aguardei. E, no início do ano de 2019, recebi o tão esperado e-mail, eu era uma entre os 25 estudantes selecionados (foram aproximadamente 800 inscritos) para participar da expedição que sairia das Ilhas Falkland (Malvinas) rumo à Alemanha. Os meses seguintes foram de preparação: exames médicos, envios de documentos, passaporte, terminar a dissertação, uma baita correria, que valeu a pena. No final de maio saí de São José dos Campos (BR) rumo a Punta Arenas (Chile), onde conheci os outros estudantes e professores, oriundos de todos os cantos do mundo, que embarcaram nessa aventura. Chegando lá conhecemos a Universidade de Magallanes e a cidade Punta Arenas. Nos planos, passaríamos a primeira noite em Port Stanley nas Ilhas Falklands e conheceríamos cientistas destas ilhas remotas, mas devido a alguns contratempos, mal chegamos às ilhas e já zarpamos em nosso “lar” pelos próximos dias. Primeiro contato com o R/V Polarstern, e logo, um frio no estômago quando percebi que tinha que subir pela escada de corda para entrar no navio. Fotos tiradas pelos colegas da expedição. Créditos: Debra Ramon e Anneke Heins. Licença de uso: CC BY-SA 4.0. Foram dias de intenso aprendizado, em diversas áreas do conhecimento em oceanografia. O curso que participei se chama SoNoAT (South North Atlantic Transect), um programa (2016-2019) de treinamento que reuniu participantes internacionais por meio da colaboração entre o Alfred Wegener Institute (AWI) , Partnership for Observation of the Global Ocean (POGO) e financiada pela Fundação Nippon e ATLANTOS . O tema científico de 2019 foi baseado nas interações entre o oceano e o clima e foi projetado para fornecer aos participantes uma visão completa dos princípios fundamentais sobre o oceano e mudanças climáticas. Trajeto da expedição PS120 – SoNoAT 2019. Créditos: Ilias Nasis (Polarstern, AWI - F. Laeisz Group). Créditos: Ilias Nasis (Polarstern, AWI - F. Laeisz Group). Licença de uso: CC BY-SA 4.0. Foi uma experiência única, levamos 26 dias para cruzar o Oceano Atlântico de Sul a Norte, de 60°S a 45°N, a bordo do navio R/V Polarstern, importante navio de pesquisa alemão, junto a pesquisadores de mais de 26 países diferentes e a tripulação que se preparava a para a Expedição MOSAIC2 **. Liderados pela chefe-cientista Karen Wiltshire, cerca da metade dos cientistas que embarcamos éramos mulheres. Esta expedição representou um uma ótima oportunidade para jovens mulheres cientistas e um grande exemplo de manutenção de igualdade de gênero, dada a dificuldade e desafio que é ser mulher na ciência, em um campo que historicamente é representado por homens. Durante os dias embarcados fomos divididos em cinco grupos para assistir aos módulos do curso. A cada semana assistimos a aulas sobre assuntos técnicos e temas considerados de vanguarda na ciência. De extração de DNA da água em pleno mar aberto, filtragens de água para análise de clorofila, microplásticos, propriedades químico-físicas da água (em diversas profundidades), medidas de irradiância e análises de sensoriamento remoto , até boas discussões sobre sistemas climáticos, e cálculos em alto-mar. Foram semanas de intenso aprendizado, e de muito trabalho em equipe, além de ótimas trocas de ideias com os professores. O legal disso tudo foi não só o intercâmbio de conhecimento científico, como também os diferentes olhares sobre um mesmo assunto, visto que a maioria de nós somos de profissões diferentes e de países com realidades diferentes. Mesmo assim, com um objetivo em comum: buscar entender toda a dinâmica do oceano, biológico, químico e físico, além do impacto antrópico e os efeitos das mudanças climáticas. Módulos realizados durante o Floating Summer School SoNoAT 2019. Adaptado de Alfred-Wegener-Institut. Fonte: Alfred-Wegener-Institut. Licença de uso: CC BY-SA 4.0. https://www.awi.de/fileadmin/user_upload/AWI/Ueber_uns/Standorte/Helgoland/CofE/Downloads/SoNoAT_2019_CourseContent.pdf Além de aprendermos sobre cada assunto apresentado nos módulos, sentimos como é o dia-a-dia a bordo (para muitos de nós foi a primeira experiência em alto-mar). Auxiliamos na montagem e desmontagem dos laboratórios temporários, trabalhamos bastante em equipe e ao final, ainda embarcados, elaboramos projetos individuais. Ao mesmo tempo que nós, alunos, realizamos a “prova final” - ficamos responsáveis pelo último ponto de coleta com o CTD e a roseta, desde o planejamento até a execução. Aula de instrumentação e máquinas oceanográficas, lançamento de XBT (sensor de temperatura), operação da roseta e CTD, coleta de água da superfície com o uso de balde, filtragem de amostras de água para análise de fitoplâncton, copos de isopor para mostrar o efeito da pressão no fundo do mar para crianças e jovens de escolas em vários países, uso de equipamento de sensoriamento remoto. Fotos tiradas pelos colegas da expedição. Créditos: Lilian Krug, Kristine Carstens, Luciana Shigihara Lima, Anneke Heins e Mara Gomez Licença de uso: CC BY-SA 4.0. Foram 26 nacionalidades a bordo, de todos os continentes, em que 24 horas por dia, 7 dias por semana pudemos conviver e discutir sobre ciências do mar (do café da manhã até as madrugadas de estudos e preparação de relatórios...). Para mim foi uma oportunidade incrível sentir na pele o que eu vinha estudando e observando apenas pela tela de um computador. Inclusive, foi uma viagem de autoconhecimento, de ocupar “cargos” em equipes, e aprender a delegar e ouvir. Estamos em constante aprendizado, embora em alguns momentos que passamos em nossas vidas percebemos que realizamos um salto no amadurecimento. E, esta experiência, para muitos de nós foi um divisor de águas. Algo que sempre digo: vale a pena sair da zona de conforto e enfrentar as barreiras da linguagem, distância, isolamento, entre tantas outras, pois podem te propiciar experiências únicas, que neste caso, marcaram não só a vida profissional de cada um de nós, como também a pessoal , brindando-nos com novos amigos além-mar! Cientistas e parte da tripulação embarcados na PS120 a bordo do navio de pesquisa oceanográfico R/V Polarstern. Créditos: Eberhard Sauter (AWI) Licença de uso: CC BY-SA 4.0. Referências: Wiltshire, K. H. (2019): Expedition Programme PS120, Expeditionsprogramm Polarstern, Bremerhaven, Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research, 21 p. Mais informações em: SoNoAT EXPEDITION PROGRAMME PS120 - Polarstern POGO - Partnership for Observation of the Global Ocean Mosaic Expedition *A POGO é uma parceria entre organizações e instituições oceanográficas de diversos países para promover a observação global do oceano, e concentra a atenção em questões de implementação, como compatibilidade técnica entre redes de observação; uso compartilhado de infraestrutura; e na divulgação pública e capacitação técnica. **MOSAIC Expedition - Em setembro de 2019, o navio alemão quebra-gelo de pesquisas oceanográficas R/V Polarstern embarcou para uma expedição de um ano no Ártico, para estudar a dinâmica das mudanças climáticas e os efeitos do aquecimento global sobre a região mais boreal do planeta. Sobre a autora: Sou Mestre (2019) e doutoranda em Sensoriamento Remoto, técnica em Hidrologia (2009) e Engenheira Hídrica (2016). Atualmente estou vinculada ao Laboratório de Estudos do Oceano e da Atmosfera (LOA), no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Busco estar sempre alerta às oportunidades que me forneçam novas experiências e desafios. Movida pelos porquês, amo estar com os pés na água - doce ou salgada (literalmente), e as mãos no livro! #SoNoAT #PS120 #Polarstern #vidadecientista #embarqueoceanográfico #convidados
- Pandemia, quarentena e um bebê a caminho...
Por Juliana Leonel Ilustração: Joana Ho . Era uma terça-feira a noite e eu estava na trigésima quarta semana de gestação quando chegou a notícia de que a cidade entraria em quarentena. A universidade já havia suspendido as aulas desde o dia anterior e estudava interromper todas as atividades presenciais (o que se concretizou na sequência). Até aí tudo estava sob controle, ao menos o máximo de controle que conseguimos ter quando estamos a espera de um bebê: as consultas obstétricas apontavam que tudo estava tranquilo com o desenvolvimento do Ian, já havíamos escolhido a maternidade, a doula, finalizado a roda de gestantes e a mala já estava no carro. Com certeza, a notícia que deveríamos ficar em isolamento devido a uma pandemia nos preocupou, mas ainda não tínhamos ideia do que viria pela frente. Na semana seguinte aconteceram algumas coisas: Fui avisada que meu obstetra não estava conseguindo retornar para a cidade e, que quando conseguisse, teria que fazer quarentena (ele havia viajado para um congresso nas semanas anteriores); as maternidades começaram a colocar regras para a segurança de todos: algumas limitaram o acesso das doulas, outras não estavam aceitando acompanhante (ou seja, teria que ficar sozinha não só durante o parto, mas enquanto estivesse no hospital depois do nascimento do Ian); ter que ir a clínicas fazer consultas e exames ou mesmo uma ida ao supermercado nos preocupava cada vez mais, principalmente quando havia (e ainda há) muitas pessoas achando que o isolamento, os cuidados e a preocupação com o vírus eram um grande exagero e continuavam com suas atividades normalmente. Acho que aqui é a hora que deveria dizer que surtei, que fiquei sem chão e que me bateu o desespero total… acho que seria mais ou menos assim, se não fossem os milagres operados em mim pelos hormônios da gestação. Quem me conhece sabe que sou super ansiosa, ligada no 220, sem paciência, que se exige muito (e exige muito dos outros também), etc. Mas a gestação me transformou em uma pessoa mais calma, mais espontânea, com menos cobranças e, principalmente, que não sofre por antecedência. Meu coração estava mais tranquilo e me dizendo que estava fazendo o meu melhor. Ok, mas ainda tinha que resolver os "detalhes" acima… Conseguimos ser atendidos pela obstetra da roda de gestantes que participamos e ela não só nos assegurou que estava tudo bem com o bebê e que, por isso, poderíamos reduzir consultas e ultrassons, como indicou uma clínica que vinha até em casa para fazer as coletas para os exames que eu devia fazer. Mas, e o parto? E a ida para a maternidade no meio da pandemia? Uma opção que havíamos cogitado era de fazer o parto em casa (e assim poderíamos restringir ao máximo o número de pessoas a ter contato conosco e com o bebê). Nunca tive restrições com relação ao parto em casa, nunca duvidei que era tão seguro quanto um realizado na maternidade. Entretanto, duvidava da minha capacidade de "dar conta do recado", não acreditava que teria forças para isso… foi um longa conversa com a obstetra e mais algumas horas de conversa com a doula. Depois de muito refletir, resolvi deixar meu coração (embalado pelos hormônios) me dar a resposta. E ela veio simples e clara: teria meu bebê em casa. Sem me preocupar com trânsito, no fluxo de pessoas na maternidade, se meu marido poderia ou não estar comigo, quem cuidaria do cachorro enquanto estivesse fora… Naquele momento, tudo fez tanto sentido que não tive dúvidas que estava tomando a melhor decisão possível. Estamos (quase) na trigésima nona semana e estou tranquila, em breve o Ian estará nos nossos braços e teremos muitas noite sem dormir pela frente. Vai sair como o planejado? Possivelmente não. A pandemia tem nos ensinado que as coisas podem mudar muito rapidamente e que nem tudo (ou quase nada) está sob o nosso controle. Olho para fora, leio as notícias, vejo os números, as projeções, as ações (ou falta delas) tomadas pelos governantes e penso que não é esse o mundo que quero para o meu filho… Mas, é nesse mundo que ele vai nascer e estamos lutando para melhorá-lo. E me acalenta saber que não estamos sós, nesse momento de incertezas vemos muitas pessoas se unindo, tomando a frente nas lutas e não desanimando. Seguimos juntas! Como serão os primeiros meses dele durante a pandemia? Não sei, talvez daqui 1-2 meses eu tenha uma história completamente diferente para dividir com vocês, mas espero que os hormônios continuem acalmando meu coração. Sei que muitas gestantes, talvez a maioria delas, estejam com o coração apertado, apreensivas e com muito medo nesse momento. Acho que é o natural no momento que estamos vivendo. Nunca vivemos nada como isso antes, então se já está difícil para quem não está à espera de um bebê, imagina para quem vai trazer uma nova vida ao mundo? Sei dos meu privilégios financeiros e que ter um companheiro incansável ao meu lado me permite adaptar melhor a situação atual, mas como estará a cabeça de quem não tem estrutura familiar e/ou a segurança financeira para fazer escolhas? #mulheresnaciência #pandemia #partohumanizado #quarentena #julianaleonel Nota da autora: o Ian nasceu no amanhecer do dia 22/04/2020, o dia da Terra. Ele nasceu em casa, como planejamos, e veio rápido e intenso para nos dar a certeza que a vida nunca mais será igual e que eu nunca mais serei a pessoa que era antes.
- How the melting of glaciers can affect the oceans and climate
By Juliana Marini Marson English edited by: Lidia and Katy Illustration by Joana Ho These days, we hear a lot about climate change. Although the headlines focus on the increasing air temperature, the entire climate system - atmosphere, ocean, cryosphere, vegetation and land area - is being affected, since its components are linked by complex interactions. For example, as a result of the current atmospheric warming, glaciers are melting at an accelerated rate. As a result, a huge volume of fresh water that was stored within these glaciers on land is now entering the ocean. In addition to the subsequent rise in sea level, questions also arise as to how this input of fresh water may affect climate. This was one of the questions that motivated my doctoral thesis. The ocean, just like the atmosphere, is constantly moving. In addition to the wind and tides, an important force that generates ocean movement is density differences between water masses. Observe the experiment in the video below. In this video, an ice cube (blue) and a small opened bottle with warm water (red) are gently placed in a tank full of room temperature water. The cold, blue water sinks to the bottom of the tank while the warm, red water stays close to the surface. Therefore we can say that the cold water is “heavier” (denser) than the warm water. Salinity is also important in determining the density of water masses in the ocean. Salinity can be lowered with rain, snow, or continental ice entering the ocean; salinity rises with evaporation and the formation of marine ice. How can this be, you may wonder. First you say that ice lowers salinity and then you say that it makes the ocean saltier? There is an important distinction to make here about how ice is formed. Continental ice, the ice that forms glaciers, is made from freshwater; it is formed on land through the accumulation and compaction of snow (freshwater). Marine ice is the result of the freezing of seawater. Although it is slightly salty, most of the salt in the water is expelled as it freezes. Therefore, the salt that was in that parcel of water ends up in the water below the ice, making it more saline. Because the salt molecules are “heavier” than the water molecules, salt water is “heavier” than the saltless water (fresh). So, warm fresh water is “lighter” than cold salt water, that is why the former tends to be above the latter. In this search for stability (less dense above, denser below), seawater circulates like a treadmill: the hot tropical waters are transported to higher latitudes where they lose heat and receive salt (by the formation of marine ice). They are then denser than when they entered the cold polar regions and sink. This then forms deep water masses, which originate in the North Atlantic (close to Greenland) and in the Southern ocean (especially in the Atlantic). These deep water masses are exported from the Atlantic to other oceans and eventually return to the surface, where they’re heated and return to the poles, restarting the cycle. This circulation is known as Meridional Overturning Circulation (MOC), a process that has a fundamental role in heat distribution around the Earth. Schematic of Meridional Overturning Circulation (Source: Wikimedia Commons in public domain) Many glaciers are located in these polar areas where deep water is formed. These glaciers are losing mass quickly, and the resulting meltwater makes the surface less salty and therefore less dense and able to sink. If little dense water is formed in high latitudes, the MOC is weakened, affecting global heat distribution. Warm, tropical water would then not be efficiently transported to the poles, which would ultimately make the mid- and high latitude regions (Europe, for example) experience overall lower temperatures. This is why it is important to study the impact of meltwater in ocean circulation. But how can we do this? The climate has always and will always be in a state of change on Earth. Factors that affect climate in long time scales include astronomical parameters like the tilt of the Earth’s axis and orbital eccentricity, the amount of ice covering the planet, variation in vegetation, and the concentration of naturally occurring greenhouse gases in the atmosphere. We can therefore use data on past climate changes to understand and try to predict future responses of the planet due to changes. 21,000 years ago, North America and part of Europe were covered by large mantles of ice in a period known as the Last Glacial Period. The average temperature of Earth was approximately 4°C (compared to today’s average of 14°C). Due to an increase in atmospheric heat insolation on Earth, the last glaciation came to an end and those mantles started to melt. In these last 21,000 years, this melted ice has caused approximately 120 meters of sea level rise. That is A LOT of freshwater entering the ocean! Therefore, this period serves a nice model to understand how the ocean’s circulation responds to the addition of meltwater. Thus, the purpose of my work was to diagnose changes in ocean circulation under the influence of fresh water from melting continental ice. To achieve this goal, we used results from a numerical model (similar to those used in weather forecasting) that simulated the variation of the Earth's climate over the last 21,000 years. The model was generated by scientist Feng He at the University of Wisconsin-Madison (USA) and encompasses the atmosphere, the ocean, the Earth's surface, and the ice and vegetative cover. In the simulation, Feng He informed the model how and when the astronomical parameters varied, the concentration of greenhouse gases, and where, when, and how much melt water may have entered the ocean. This is estimated by using data obtained through the analysis of geological records (for example, gas bubbles trapped in deep ice sheets in Antarctica and Greenland). It is important to note that a numerical simulation, however detailed, is not a complete representation of what happened in the past. Simulations do however, take into account both physical laws and conditions known from the past - so they are not in any way “guesses” or “hunches.” In this particular simulation, the evolution of the air temperature is very similar to that reconstructed from geological records. Thus, it can be considered a good approximation of what happened. In this numeric scenario, we observed that the introduction of polar melt water in the North Atlantic really weakens the MOC. This weakening is associated with cold periods in the Northern Hemisphere. Conversely, when the influx of fresh water was abruptly interrupted, the MOC was intensified and warm periods were observed. Additionally, the warm water masses of the Atlantic were very different 21,000 years ago from those we see today. The water masses formed around the Antarctic were considerably saltier, possibly due to the greater formation of sea ice, encouraged by the low temperatures of that time. These salty waters occupied much of the Atlantic. On the other side of the world, the waters formed in the North Atlantic did not reach as great of depths as today, nor were they transported so far to the south. The nucleus of the water mass that originated in the North Atlantic reached 1000-2000 meters down and would stay essentially contained in the North Hemisphere, while today it reaches 3500-4000 m in depth and latitudes around 40°S. Meridional Circulation seen vertically (cutting the Atlantic Ocean in half, North-South). Schematic of how circulation was 21,000 years ago (top panel) and how it is today (bottom panel). The effects of meltwater entering the North Atlantic was also observed far away; In the tropical Indian Ocean, the discharge of meltwater is associated with changes to atmospheric circulation, which leads to changes in the intensity of monsoons, typical of the region. From this, we conclude that the melting of continental ice, induced by the rise of air and sea temperature, leads to changes in oceanic circulation and in the distribution of water masses in the Atlantic. This may eventually be reflected in the air temperature, creating a cycle. Rahmstorf and collaborators published an article in the magazine Nature Climate Change showing a weakening in the MOC in the 20th century, especially after 1970. They point to the accelerated melting of the Greenland ice sheet as one of the primary reasons for this weakening. (It is important to emphasize that these cause-and-effect relationships in climate systems are very complex and are far from being taken as definitive. Many of them are still not completely clear, and all we can do is infer if they are in agreement with what the data shows.) Detailed information about this study can be found here: Marson, J.M., Wainer, I., Mata, M.M., and Liu, Z. (2014). The impacts of deglacial meltwater forcing on the South Atlantic Ocean deep circulation since the Last Glacial Maximum. Climate of the Past, 10(5), 1723-1734. http://www.clim-past.net/10/1723/2014/ Marson, J.M., Mysak, L.A., Mata, M.M., and Wainer, I. Evolution of the deep Atlantic water masses since the Last Glacial Maximum based on a transient run of NCAR-CCSM3. Climate Dynamics, DOI: 10.1007/s00382-015-2876-7. http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00382-015-2876-7 Stefan Rahmstorf, Jason E. Box, Georg Feulner, Michael E. Mann, Alexander Robinson, Scott Rutherford & Erik J. Schaffernicht, 2015. Exceptional twentieth-century slowdown in Atlantic Ocean overturning circulation. Nature Climate Change, DOI: 10.1038/NCLIMATE2554). Link para o artigo: http://www.nature.com/nclimate/journal/vaop/ncurrent/full/nclimate2554.html About Juliana Marini Marson: Born in a small town, away from the coast, I fell in love with marine science when I was 12 years old, after participating in an intensive course on the ocean and environmental conservation. I graduated with a Bachelor’s degree in Oceanology and a Master’s degree in Physical Oceanography from the Universidade Federal do Rio Grande (FURG). I obtained my Doctorate title at the Universidade de São Paulo (USP). My focus was always on the study of the polar oceans’ physics and its interactions with climate. Throughout my academic career, Antarctica was my main field of study. Currently, I am a Postdoctoral fellow at the University of Alberta (Canada), where I am learning more deeply about the ocean on the other side of the world - the Arctic. #marinescience #julianamarinimarson #oceancirculation #guests #joanaho # climatechange #ocean
- Rodolitos: ‘Like a rolling stone’
Por Nicholas Vale Arrastados por correntes marinhas, rolando pelo fundo e aos poucos ganhando uma aparência de seixos, os rodolitos (uma junção dos termos rodófitas = algas vermelhas + oolito = nódulos) se formam pela aglomeração de pequenas algas calcárias (algas do grupo Rhodophyta). Essas algas crescem umas sobre as outras ou incrustadas em fragmentos de concha,grãos de areia outambém aderidas a um substrato contínuo, recobrindo costões rochosos . Os rodolitos ocorrem na maioria dos habitats marinhos, dos trópicos aos pólos, da zona entremarés até 270 m de profundidade, estando entre os organismos mais abundantes a viverem na zona fótica, que é a parte de um ecossistema aquático que recebe luz solar suficiente para que ocorra a fotossíntese. Figura 1A. Exemplo de rodolitos com macroalga ( Stypopodium sp.) associada. Figura 1B. Imagem aproximada de um rodolito com destaque para a cobertura viva (coloração vinácea) e diversas macroalgas associadas. (Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0). Os rodolitos são chamados vulgarmente de rochas vivas por causa das algas que formam seu exterior, chamados também de organismos construtores, porque acumulam carbonato de cálcio na sua constituição, assim como corais, briozoários e moluscos com conchas, e contribuem para a formação do fundo do oceano. Os rodolitos variam muito em forma e tamanho, podendo estar agregados uns aos outros, transformando fundos de areia em ambientes altamente complexos, com reentrâncias e saliências que servem de abrigo para peixes, crustáceos e invertebrados. Embora tenham uma parte viva, os rodolitos não são recursos renováveis. “São necessários milhares de anos para os rodolitos se formarem e criarem um banco expressivo. Eles aumentam de tamanho (1 - 1,5 mm por ano) à medida que seu esqueleto, rico em carbonato de cálcio (CaCO3), mineraliza”, afirmou o pesquisador brasileiro Rodrigo Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no artigo publicado na revista científica PloS ONE em 2012, sobre os bancos de rodolitos do Atlântico Sudoeste Tropical. Os bancos de rodolitos ocorrem nos oceanos do mundo todo e estão entre as maiores comunidades bentônicas marinhas do planeta dominadas por macroalgas, em termos de cobertura espacial. São um dos componentes mais abundantes no recobrimento do fundo de plataformas continentais, especialmente no Brasil, mas também na costa do México e da Austrália. Mergulhador à 8 m de profundidade, no banco de rodolitos do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos ( Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0). Os primeiros estudos que localizaram fundos de algas calcárias no Brasil, na década de 1970, tinham apenas caráter geológico e focaram na caracterização dos sedimentos da plataforma continental e perspectivas para a potencial exploração mineral deste recurso. A partir de meados dos anos 90, os bancos de rodolitos começaram a ser estudados sob um ponto de vista biológico, provendo informações sobre o mapeamento e estrutura do banco. Porém, apenas a partir do ano 2000, com o incremento de estudos relacionados a diferentes aspectos de bancos de rodolitos, é que foi possível ter informações consideradas consistentes sobre a distribuição em pequena e média escala, estrutura dos bancos, organismos associados, composição de espécies de algas calcárias, produção de CaCO3 e aspectos fisiológicos da formação dos rodolitos. Os bancos de rodolitos são hotspots de biodiversidade, sendo importantes para a vida de outros organismos por servir de abrigo, onde diversos organismos vivem dentro e em cima do rodolito, como invertebrados, esponjas e outras algas, e proporcionar um ambiente mais rico biologicamente do que um fundo de areia. Eles são essenciais na construção de recifes de corais em regiões tropicais, agindo como cimentadores, protegendo esse ambiente contra ação erosiva de ondas, possibilitando o desenvolvimento e a manutenção desses ecossistemas. Além disso, funcionam como corredores entre os recifes de corais, facilitando a migração de lagostas e peixes. Por isso, existe uma comunidade diversa associada, formada por microrganismos, algas, invertebrados e peixes. “Em geral os recifes de corais concentram as atenções, mas agora se sabe que o Brasil tem essas outras fábricas de carbonato de cálcio de vital importância para a biodiversidade marinha”, comenta o biólogo Jason Hall-Spencer, da Universidade de Plymouth, Inglaterra. No entanto, o pesquisador levanta preocupação ao apontar que “Essas algas coralinas estão entre os organismos calcificantes que parecem mais sensíveis à acidificação dos oceanos”. Do ponto de vista ambiental, os rodolitos têm ainda outra função importante: ajudam a retirar carbono da atmosfera, influenciando a regulação do clima do planeta. Eles absorvem o gás carbônico (CO2) diluído na água e o transformam em calcário. Exemplo da parte interna de um rodolito. Note a presença de conchas de moluscos bivalves ( Lithophaga sp.), fragmento de anelídeo ( Sipuncula sp. ) , pequenos tubos brancos de poliquetas (Serpulidae), espaços vazios possivelmente oriundos da perfuração de organismos erosores e a presença de alga calcária (em coloração esbranquiçada na parte mais externa do rodolito) ( Fonte: arquivos pessoais do autor N. Vale com Licença CC BY-SA 4.0). Uma curiosidade é que a maioria dos bancos de rodolitos em todo o mundo são compostos por apenas duas ou três espécies de algas e cada rodolito é geralmente constituído por uma única espécie. Os bancos de rodolitos no Brasil são uma exceção, onde seis ou mais espécies podem ser encontradas formando rodolitos em uma área relativamente restrita, e não é incomum encontrar até quatro espécies de algas crescendo em um único rodolito. Mesmo sendo tão importantes, os rodolitos estão ameaçados pelas atividades humanas. A maior ameaça é o aumento da acidez do mar, consequência da elevação dos níveis de CO2 na atmosfera – em boa parte por queima de combustíveis fósseis. Outra ameaça aos rodolitos é a exploração econômica do calcário. De acordo dados levantados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) em 2008, entre 96.000 e 120.000 toneladas deste recurso são extraídos por ano no Brasil. Como são fáceis de coletar, há empresas que os usam como fonte do mineral. Além de calcário, eles contêm quantidades variáveis de outros elementos químicos (ferro, manganês, bromo, níquel, cobre, zinco e molibdênio) usados na agricultura, nas indústrias dietética e de cosméticos, na nutrição animal e no tratamento da água. Assim como a não criação de áreas de preservação de bancos de rodolitos e o descarte de efluentes no mar também são ameaças. O refinamento de informações sobre a distribuição e a estrutura dos bancos de rodolitos da plataforma continental tem sido apontado pelo IBAMA como necessidade e prioridade para aprimorar o processo de licenciamento ambiental de atividades de exploração e produção de óleo e gás na plataforma continental brasileira. Conhecer os bancos de rodolitos da maneira mais completa possível é essencial e urgente para que se possa gerir esforços no desenvolvimento de estratégias de conservação eficientes, que permitam fazer inferências sobre áreas mais ou menos importantes, áreas com maior ou menor diversidade associada, áreas marginais, dentre outros aspectos, servindo de base para a tomada de decisão pelos órgãos governamentais. Para saber mais: Amado Filho, G.M., Moura, R.L. et al. 2012. Rhodolith beds are major CaCO3 bio-factories in the tropical south west Atlantic. PLoS ONE. v. 7(4). DOI: 10.1371/journal.pone.0035171 . Amado Filho, G.M., Pereira-Filho, G.H., Bahia, R.G., Longo, L.L. 2017. South Atlantic Rhodolith Beds: Latitudinal distribution, species composition, structure and ecosystem functions, threats and conservation status. In Riosmena-Rodrigues, R., Nelson, W., Aguirre, J. (eds). Rhodolith/Maërl Beds: A Global Perspective. Coastal Research Library, Springer, 15: 299-318. DOI: 10.1007/978-3-319-29315-8_12 . Kerr, R. ; Kintisch, E. ; Stokstad, E. 2010. Will Deepwater Horizon Set a New Standard for Catastrophe? Science, vol. 328, issue 5979, pp. 674-675. DOI: 10.1126/science.328.5979.674 . M. Nasri Sissini, F. Berchez, J. Hall-Spencer, et al. 2020. Brazil oil spill response: Protect rhodolith beds. Science 367 (6474), 156. DOI: 10.1126/science.aba2582 . Oceanos: Zona Fótica. https://somos.twigworld.com.br/film/oceanos-zona-fotica-7297/ Vale, N.F.L., Amado-Filho, G.M., Braga, J.C., et al. 2018. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth. Journal of South American Earth Science, 84: 149-159. DOI: 10.1016/j.jsames.2018.03.014 . Sobre o autor: Biólogo de formação e nascido no Ceará, atualmente sou estudante de Doutorado em Botânica pelo Instituto de Pesquisa Jardim Botânico do Rio de Janeiro (Brasil) e em Ciências da Terra pela Universidad de Granada (Espanha), em regime de cotutela. Realizei minha trajetória científica na área de Oceanografia Biológica e na área de Botânica Marinha, atuando principalmente nas áreas de caracterização da biodiversidade marinha, estrutura e dinâmica de bancos de rodolitos e evolução paleoecológica de plataformas carbonáticas. Atualmente venho atuando mais diretamente na determinação do papel dos organismos construtores (algas calcárias) na estruturação de formações coralíneas da Plataforma Continental Brasileira e na avaliação da evolução paleoecológica da Margem Equatorial Brasileira. A minha ligação com o oceano começou ainda na adolescência, quando assistia os garotos mais velhos surfar nas ondas das praias de Fortaleza/CE nos finais de semana. Não demorou muito a me enturmar e começar a surfar, consequentemente a me aproximar da natureza do mar e do estilo de vida proporcionado pelo esporte. O que me levou inevitavelmente a escolher Biologia como profissão. Na graduação tive a oportunidade de conhecer diversas áreas, mas a que mais me encantou foram as Ciências Marinhas, por estudar a biota e a ecologia dos oceanos, buscando compreender os mecanismos biológicos que funcionam nos oceanos relacionado com a física, a química e a geologia do oceano. Também tenho relevante interesse no estudo paleoambiental, para compreender e interpretar a história evolutiva dos oceanos e da Terra. nicholasdovale@jbrj.gov.br / nicholasvale@correo.ugr.es #rollingstones #rhodolithbeds #calcariumalgae #carbonateshelf #divulgaçãocientífica #descomplicando #convidados #rodolitos #algacalcaria #plataformacarbonática
- Violências em atividades de campo - Mesa redonda no Congresso Virtual da UFBA
No dia 25 de maio de 2020, às 17h, nossas editoras Carla Elliff e Catarina Marcolin participaram do Congresso Virtual da UFBA , mediando e participando de uma mesa redonda sobre Violências em atividades de campo: preconceitos e assédios contra mulheres nas ciências. A mesa redonda contou com a participação de Priscila Camelier, representante da rede Kunhã Asé e do coletivo IctioMulheres , Tatiane Combi e Simone Cruz, representantes do coletivo Mulheres Terra , o Bate-papo com Netuno e a psicóloga Gabriela Lamego, professora do IHAC/UFBA que trabalha com a temática da violência contra a mulher. Se você perdeu esse momento tão rico em troca de experiências, não se preocupe! A atividade foi gravada e está disponível no canal do YouTube da TV UFBA aqui: #netuniandoporai #catarinarmarcolin #carlaelliff #assédionão #mulheresembarcadas #mulheresemtrabalhodecampo #embarque #trabalhodecampo #mulheresterra #kunhaase #ictiomulheres
- Manamar: minha carreira de educadora ao ar livre
Por Patricia Bianca Ribeiro Uma história de empreender dentro da oceanografia e seguir uma carreira pouco provável para oceanógrafos: educação ao ar livre. Já pensou que sonho seria transformar o mar em uma sala de aula? Esse é o meu trabalho! Ilustração: Joana Ho Eu estava no fim da graduação em oceanografia no Brasil e já havia feito inúmeros estágios e trabalhos, mas não tinha vontade de me especializar em nenhuma das áreas oferecidas. Então, mesmo antes de terminar a graduação, resolvi fazer intercâmbio para viver coisas diferentes em outro país e me dar um “tempo” para pensar. Foi um período transformador na minha vida! Fui para Plymouth, na Inglaterra, onde além de cursar dois semestres na universidade, também fiz meu primeiro curso de educação ao ar livre, ministrado pela ONG ETE ( Education Through Expeditions - educação através de expedições). Essa ONG foi criada pelo britânico Anthony Jinman para compartilhar suas experiências (ele esquiou sozinho até o Polo Sul em 2014!) e sensibilizar jovens e crianças. O curso desenvolvia habilidades socioemocionais como resiliência, autoliderança, capacidade de resolução de conflitos e tomada de decisão através de atividades desafiantes na natureza. Habilidades tão importantes no mercado de trabalho, mas pouco treinadas dentro de escolas e universidades. Realizar atividades de desenvolvimento pessoal e inteligência emocional em meio à natureza foi impactante para mim. Fiquei realmente encantada com o potencial da atividade! Caminhada e prática de navegação durante o curso na ETE (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) Após toda essa vivência, ao retornar para o Brasil, terminei a graduação e procurei cursos sobre educação ao ar livre. Aos interessados, gostei muito de realizar o curso “Fundamentos de Educação ao Ar Livre” da ONG Outward Bound Brasil. Quando falamos de educação e conservação e na importância de lutar por isso para um mundo melhor, percebemos que oceanografia e educação ao ar livre podem ser carreiras interligadas! Porém, muitas pessoas não têm nem ideia do que um oceanógrafo ou educador faz ao ar livre e, por conta disso, infelizmente, as oportunidades de trabalho ainda são restritas. A carreira de educador ao ar livre é mais conhecida fora do Brasil, inclusive com programas de graduação nessa área em alguns países como os Estados Unidos, Finlândia e Inglaterra. Por aqui, a área chega a se misturar com o turismo, que foi onde, inclusive, consegui meus primeiros trabalhos para atuar como educadora ao ar livre em viagens escolares de turismo pedagógico. As viagens têm o intuito de levar crianças para o campo, mostrando a elas os benefícios, riquezas e vida desses espaços. Por exemplo, algumas têm como destino o complexo estuarino Cananéia-Iguape, SP, um ambiente incrível para proporcionar experiências na natureza às crianças “urbanas”. Também para ensinar sobre os diversos ecossistemas do bioma Mata Atlântica, cultura caiçara e quilombola e unidades de conservação. Quando visitamos as comunidades tradicionais, as crianças geralmente interagem com os líderes para fazer perguntas, ouvir histórias e aprender um pouco sobre os costumes. Acredito que nessa troca de informações as crianças aprendem a valorizar a diversidade cultural que temos no Brasil e compreender a importância de respeitar e preservar estas comunidades. Atuando no Brasil em viagem para Tiradentes, MG (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) O conhecimento técnico de oceanografia, aulas de educação ambiental em escolas, experiências com viagens pessoais e saber um segundo idioma me proporcionaram meus primeiros trabalhos. Foi nessas viagens que me encontrei profissionalmente e foi então que surgiu a ideia do Manamar. Finalmente! O Manamar é um projeto de educação ao ar livre com o objetivo de aproximar as pessoas da natureza através de experiências que possam sensibilizar os participantes e trazer aprendizado. A educação ao ar livre é uma forma de refletir sobre a importância do ambiente no qual a aula acontece, e tem alto potencial como método para estimular a aprendizagem ao vincular emoção e memória. Essa é uma forma de unir e de agregar uma experiência física e emocional ao compartilhar conhecimento. Isso é muito enriquecedor para nossas vidas e pode gerar transformações de comportamento. Neste caso, por exemplo, modificação de hábitos pessoais para preservação do espaço marinho. Escolhi o nome Manamar para a empresa unindo as palavras Mana com Mar. Mana de Manacá da Serra, uma árvore que ocorre no ecossistema da Mata Atlântica. Suas flores brancas mudam para rosa e roxo durante a floração, o que para mim representa a terra e as constantes mudanças da vida. Mar para representar os mares e oceanos. Assim, o nome faz menção à conexão entre terra e mar. No logo, o desenho do peixe, rosto e flor unem fauna e flora aos homens por um símbolo de infinito, mostrando a interconexão entre todos os seres que habitam esse planeta. Esse nome também tem uma conexão com minha infância “entre terra e mar”, já que tive uma criação rodeada pela natureza. Minha avó materna era agricultora e cresci no mato com ela. Do outro lado, minha avó paterna adorava ir à praia e eu sempre a acompanhava. Quando colocamos em prática nossos sonhos, vida pessoal e profissional se tornam uma coisa só. Este ano, meu projeto completa dois anos. Ele oferece uma experiência única de mergulho livre na Praia da Fortaleza de Ubatuba (SP), durante os meses de verão! Me inspirei no Projeto Ecosteiros do Instituto de Biologia da USP, o qual acontece há mais de dez anos na Ilha Anchieta proporcionando contato com mergulho (porém, neste caso, mergulho com cilindro) para públicos diversos. No Manamar, levamos participantes de todos os perfis para realizar o mergulho livre, sempre guiados por um instrutor. Alguns nunca tiveram contato próximo com o mar ou com mergulho. Outros, algumas vezes são maus nadadores e sempre temeram mergulhar próximo aos costões de pedras. Pensando nisso, para atender a todos os perfis e respeitar as medidas de segurança para proporcionar uma atividade divertida e segura, levamos coletes e boias flutuadoras. Assim, os participantes são capazes de vencer o medo e se conectar com o ambiente marinho, observando a beleza e as maravilhas que este mundo silencioso tem a oferecer. Nas nossas atividades, o papel do educador ao ar livre é fundamental. Durante o mergulho ele deve zelar pela segurança e instruir sobre a utilização dos equipamentos necessários. Além disso, e, talvez o mais importante, o educador deve orientar sobre como se comportar durante a visita ao ambiente marinho, gerando o mínimo de impacto e danos. A maioria dos turistas não sabe o quão sensível são os seres vivos que compõem o ambiente de costões rochosos. Por isso, a troca de informações com o educador traz sempre novos conhecimentos, detalhes e curiosidades sobre os animais vistos no local. A educação ao ar livre é uma forma de entender a importância das práticas de campo nas nossas vidas. Após uma experiência vivida em um local específico, fica marcado nos participantes a relevância da preservação daquele espaço. Atividade de mergulho na Praia da Fortaleza em Ubatuba, SP (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) Aos olhos externos, trabalhar com educação ao ar livre parece o emprego dos sonhos: ser pago para viajar para lugares lindos! Essa é a parte boa, mas enfrentamos alguns desafios. Até alguns pouco comuns para os trabalhadores assalariados de profissões mais convencionais. Educadores ao ar livre possuem carga horária de trabalho muito intensa. São muitos dias fora de casa, convivendo quase 24h com colegas de profissão e clientes. Além disso, somos autônomos, sem direitos garantidos, como registro trabalhista. Por isso, o Manamar surgiu não só de um sonho, mas também por necessidade. As contas chegam o ano inteiro, porém meu trabalho nas viagens escolares com crianças acontece apenas durante os períodos letivos. Então, o Manamar me permitiu continuar ensinando e gerar renda durante o verão. Agora, com três anos na área, sinto que a jornada ainda está apenas começando! Muitos desafios e incríveis experiências ainda estão para acontecer! Todo o aprendizado proporcionado por muitos dias em ambientes naturais me ensinou a manter o otimismo e resiliência em situações desafiantes, como o que vivemos ainda relacionado à Covid-19. Nada será mais como antes, mas poderá ser ainda melhor! Espero voltar logo a ensinar e aprender na natureza, atividades ainda mais importantes após um momento de crise! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Sobre a autora: Patricia Bianca Ribeiro, 26 anos Educadora ambiental e oceanógrafa formada pela USP em 2016. Fundadora do projeto Manamar (@manamar.educ_) de mergulho e educação ao ar livre na praia do Fortaleza em Ubatuba (SP). Caipira de Taubaté, com um toque de influência dos ares paulistanos e internacionais. Foi para o mundo, mas se identifica mesmo é com o mato. Adora uma trilha, uma escalada, um surf, um camping, um rolê de bike ou qualquer convite para aventuras. Sempre com bons livros para descansar entre as aventuras! Instagram: @patriciabr_ #educaçãoaoarlivre #educaçãonanatureza #educaçãoambiental #turismo #mergulho #vidadecientista #convidados
- Algas flutuantes: o meio de transporte dos invertebrados marinhos
Por Izadora Mattielo Um caso na Patagônia Chilena... Durante a faculdade, fui fazer um estágio de férias no Chile com um professor da Ecologia Marinha. Lembram do post de sexta-feira ( acesse aqui )? Pois é, internacionalizar é preciso!!! A minha sorte é que um mês antes da viagem eu encontrei este professor em um congresso aqui no Brasil, onde pudemos planejar o meu projeto que seria com as “algas flutuantes”. Oi? Ele queria que eu entrasse em um barco e caçasse as algas que estavam flutuando no meio do mar para analisar a fauna acompanhante. - Hummm, OK. E? Aí o professor me explicou que essas algas se desprendiam por causa das fortes correntes marinhas, tempestades ou ventos, e iam flutuando à deriva, termo em inglês chamado de rafting . E junto a elas acompanhava uma fauna que se abrigava entre suas folhas, principalmente de invertebrados marinhos que não tinham fase larval e, sim, desenvolvimento direto. Ou seja, as algas seriam um mecanismo de dispersão e conectividade das espécies marinhas! Este professor e sua equipe já haviam reportado o aparecimento de espécies nativas em diferentes regiões do país, principalmente de animais que não tinham fase larval. Portanto, não tinha como esses animais se dispersarem livremente. Isso só seria explicado através de um “carregamento” dessas espécies para novas regiões...ou seja, pelas algas: o novo meio de transporte da comunidade marinha! Interessante, não? E foi! Como eu só fiquei três meses lá, não pude participar das coletas das minhas amostras (da parte mais legal), porque quando eu chegasse já teria que começar a identificação da fauna. Mas meu chefe foi muito legal e me levou em uma expedição de outro projeto! Pensem em um lugar paradisíaco, ondas gigantes, barco pequeno, muito frio e sol ao mesmo tempo, GPS na mão, binóculos na outra, papel e lápis para anotações e somente três pessoas a bordo para fazer tudo. Não podíamos tirar a atenção do mar à busca das frondes de algas. Ah, se eu passei mal de tanto olhar pra baixo para a água? Imagina! Nestas horas, é só contrair o abdome e lembrar do amor à ciência que dá tudo certo! O meu projeto tinha como um dos objetivos comparar a fauna acompanhante de algas flutuantes com a de algas que ainda não se desprenderam, que chamamos de bentônicas, ou seja, que estão fixas ao fundo ou a algum substrato, pedra, por exemplo. E neste caso, elas foram coletadas através de mergulho autônomo. As algas que trabalhei eram da espécie Macrocystis pyrifera , que formam grandes kelps (florestas) no Oceano Pacífico. Fronde de algas bentônicas à esquerda, os famosos kelps marinhos; e à direita detalhe da Macrocystis pyrifera , com suas folhas e aerocistos. Segunda foto por: Ivan Hinojosa. No laboratório, estas algas foram lavadas sobre peneiras para reter os animais que queríamos identificar. Depois disso, pesamos as algas, medimos o tamanho das folhas e outras estruturas importantes. Na lupa, fizemos a identificação dos animais. Então vamos ao que interessa: os resultados! As algas bentônicas, que estavam fixas, tinham uma abundante fauna acompanhante, diferentemente das flutuantes. Além disso, certos grupos nunca apareciam nas algas flutuantes, como os ouriços-do-mar e alguns tipos de crustáceos (que na biologia são chamados de decápodas), provavelmente pelo fato de não conseguirem se agarrar às algas e não ficarem fixos durante a “viagem” à deriva. Outro fato interessante é que apesar da menor abundância de espécies, as algas flutuantes apresentaram, em sua maioria, espécies com desenvolvimento direto, sem fase larval, o que reforça ainda mais a nossa hipótese inicial de que as algas flutuantes contribuem na dispersão das espécies. Um caso bem conhecido na costa chilena é do molusco bivalve Gaimardia trapesina . Infelizmente, quase tudo tem seu lado negativo. Neste caso é o carregamento do lixo! Com tanto lixo marinho, que nós humanos porcamente poluímos, as algas acabam por fazer esse tipo de transporte também. Durante minhas análises, cansei de jogar fora plásticos, tampinhas de garrafas, pedacinhos de corda, que acabaram grudando nas algas. Nestas horas fica bem nítido o quanto a gente já abusou desse ecossistema. Você gosta de lixo no seu carro, no metrô, no avião? Quando estiver na praia lembre-se do meio de transporte dos animais marinhos, pelo menos... Saiba mais em: Lab BEDIM Até a próxima! #algas #izadoramattielo #ciênciasdomar












