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  • Violências em atividades de campo - Mesa redonda no Congresso Virtual da UFBA

    No dia 25 de maio de 2020, às 17h, nossas editoras Carla Elliff e Catarina Marcolin participaram do Congresso Virtual da UFBA, mediando e participando de uma mesa redonda sobre Violências em atividades de campo: preconceitos e assédios contra mulheres nas ciências. A mesa redonda contou com a participação de Priscila Camelier, representante da rede Kunhã Asé e do coletivo IctioMulheres, Tatiane Combi e Simone Cruz, representantes do coletivo Mulheres Terra, o Bate-papo com Netuno e a psicóloga Gabriela Lamego, professora do IHAC/UFBA que trabalha com a temática da violência contra a mulher. Se você perdeu esse momento tão rico em troca de experiências, não se preocupe! A atividade foi gravada e está disponível no canal do YouTube da TV UFBA aqui: #netuniandoporai #catarinarmarcolin #carlaelliff #assédionão #mulheresembarcadas #mulheresemtrabalhodecampo #embarque #trabalhodecampo #mulheresterra #kunhaase #ictiomulheres

  • Manamar: minha carreira de educadora ao ar livre

    Por Patricia Bianca Ribeiro Uma história de empreender dentro da oceanografia e seguir uma carreira pouco provável para oceanógrafos: educação ao ar livre. Já pensou que sonho seria transformar o mar em uma sala de aula? Esse é o meu trabalho! Ilustração: Joana Ho Eu estava no fim da graduação em oceanografia no Brasil e já havia feito inúmeros estágios e trabalhos, mas não tinha vontade de me especializar em nenhuma das áreas oferecidas. Então, mesmo antes de terminar a graduação, resolvi fazer intercâmbio para viver coisas diferentes em outro país e me dar um “tempo” para pensar. Foi um período transformador na minha vida! Fui para Plymouth, na Inglaterra, onde além de cursar dois semestres na universidade, também fiz meu primeiro curso de educação ao ar livre, ministrado pela ONG ETE (Education Through Expeditions - educação através de expedições). Essa ONG foi criada pelo britânico Anthony Jinman para compartilhar suas experiências (ele esquiou sozinho até o Polo Sul em 2014!) e sensibilizar jovens e crianças. O curso desenvolvia habilidades socioemocionais como resiliência, autoliderança, capacidade de resolução de conflitos e tomada de decisão através de atividades desafiantes na natureza. Habilidades tão importantes no mercado de trabalho, mas pouco treinadas dentro de escolas e universidades. Realizar atividades de desenvolvimento pessoal e inteligência emocional em meio à natureza foi impactante para mim. Fiquei realmente encantada com o potencial da atividade! Caminhada e prática de navegação durante o curso na ETE (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) Após toda essa vivência, ao retornar para o Brasil, terminei a graduação e procurei cursos sobre educação ao ar livre. Aos interessados, gostei muito de realizar o curso “Fundamentos de Educação ao Ar Livre” da ONG Outward Bound Brasil. Quando falamos de educação e conservação e na importância de lutar por isso para um mundo melhor, percebemos que oceanografia e educação ao ar livre podem ser carreiras interligadas! Porém, muitas pessoas não têm nem ideia do que um oceanógrafo ou educador faz ao ar livre e, por conta disso, infelizmente, as oportunidades de trabalho ainda são restritas. A carreira de educador ao ar livre é mais conhecida fora do Brasil, inclusive com programas de graduação nessa área em alguns países como os Estados Unidos, Finlândia e Inglaterra. Por aqui, a área chega a se misturar com o turismo, que foi onde, inclusive, consegui meus primeiros trabalhos para atuar como educadora ao ar livre em viagens escolares de turismo pedagógico. As viagens têm o intuito de levar crianças para o campo, mostrando a elas os benefícios, riquezas e vida desses espaços. Por exemplo, algumas têm como destino o complexo estuarino Cananéia-Iguape, SP, um ambiente incrível para proporcionar experiências na natureza às crianças “urbanas”. Também para ensinar sobre os diversos ecossistemas do bioma Mata Atlântica, cultura caiçara e quilombola e unidades de conservação. Quando visitamos as comunidades tradicionais, as crianças geralmente interagem com os líderes para fazer perguntas, ouvir histórias e aprender um pouco sobre os costumes. Acredito que nessa troca de informações as crianças aprendem a valorizar a diversidade cultural que temos no Brasil e compreender a importância de respeitar e preservar estas comunidades. Atuando no Brasil em viagem para Tiradentes, MG (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) O conhecimento técnico de oceanografia, aulas de educação ambiental em escolas, experiências com viagens pessoais e saber um segundo idioma me proporcionaram meus primeiros trabalhos.  Foi nessas viagens que me encontrei profissionalmente e foi então que surgiu a ideia do Manamar. Finalmente! O Manamar é um projeto de educação ao ar livre com o objetivo de aproximar as pessoas da natureza através de experiências que possam sensibilizar os participantes e trazer aprendizado. A educação ao ar livre é uma forma de refletir sobre a importância do ambiente no qual a aula acontece, e tem alto potencial como método para estimular a aprendizagem ao vincular emoção e memória. Essa é uma forma de unir e de agregar uma experiência física e emocional ao compartilhar conhecimento. Isso é muito enriquecedor para nossas vidas e pode gerar transformações de comportamento. Neste caso, por exemplo, modificação de hábitos pessoais para preservação do espaço marinho. Escolhi o nome Manamar para a empresa unindo as palavras Mana com Mar. Mana de Manacá da Serra, uma árvore que ocorre no ecossistema da Mata Atlântica. Suas flores brancas mudam para rosa e roxo durante a floração, o que para mim representa a terra e as constantes mudanças da vida. Mar para representar os mares e oceanos. Assim, o nome faz menção à conexão entre terra e mar. No logo, o desenho do peixe, rosto e flor unem fauna e flora aos homens por um símbolo de infinito, mostrando a interconexão entre todos os seres que habitam esse planeta. Esse nome também tem uma conexão com minha infância “entre terra e mar”, já que tive uma criação rodeada pela natureza. Minha avó materna era agricultora e cresci no mato com ela. Do outro lado, minha avó paterna adorava ir à praia e eu sempre a acompanhava. Quando colocamos em prática nossos sonhos, vida pessoal e profissional se tornam uma coisa só. Este ano, meu projeto completa dois anos. Ele oferece uma experiência única de mergulho livre na Praia da Fortaleza de Ubatuba (SP), durante os meses de verão! Me inspirei no Projeto Ecosteiros do Instituto de Biologia da USP, o qual acontece há mais de dez anos na Ilha Anchieta proporcionando contato com mergulho (porém, neste caso, mergulho com cilindro) para públicos diversos. No Manamar, levamos participantes de todos os perfis para realizar o mergulho livre, sempre guiados por um instrutor. Alguns nunca tiveram contato próximo com o mar ou com mergulho. Outros, algumas vezes são maus nadadores e sempre temeram mergulhar próximo aos costões de pedras. Pensando nisso, para atender a todos os perfis e respeitar as medidas de segurança para proporcionar uma atividade divertida e segura, levamos coletes e boias flutuadoras. Assim, os participantes são capazes de vencer o medo e se conectar com o ambiente marinho, observando a beleza e as maravilhas que este mundo silencioso tem a oferecer. Nas nossas atividades, o papel do educador ao ar livre é fundamental. Durante o mergulho ele deve zelar pela segurança e instruir sobre a utilização dos equipamentos necessários. Além disso, e, talvez o mais importante, o educador deve orientar sobre como se comportar durante a visita ao ambiente marinho, gerando o mínimo de impacto e danos. A maioria dos turistas não sabe o quão sensível são os seres vivos que compõem o ambiente de costões rochosos. Por isso, a troca de informações com o educador traz sempre novos conhecimentos, detalhes e curiosidades sobre os animais vistos no local. A educação ao ar livre é uma forma de entender a importância das práticas de campo nas nossas vidas. Após uma experiência vivida em um local específico, fica marcado nos participantes a relevância da preservação daquele espaço. Atividade de mergulho na Praia da Fortaleza em Ubatuba, SP (Fonte: Patricia B. Ribeiro com licença de uso CC BY SA 4.0) Aos olhos externos, trabalhar com educação ao ar livre parece o emprego dos sonhos: ser pago para viajar para lugares lindos! Essa é a parte boa, mas enfrentamos alguns desafios. Até alguns pouco comuns para os trabalhadores assalariados de profissões mais convencionais. Educadores ao ar livre possuem carga horária de trabalho muito intensa. São muitos dias fora de casa, convivendo quase 24h com colegas de profissão e clientes. Além disso, somos autônomos, sem direitos garantidos, como registro trabalhista. Por isso, o Manamar surgiu não só de um sonho, mas também por necessidade. As contas chegam o ano inteiro, porém meu trabalho nas viagens escolares com crianças acontece apenas durante os períodos letivos. Então, o Manamar me permitiu continuar ensinando e gerar renda durante o verão. Agora, com três anos na área, sinto que a jornada ainda está apenas começando! Muitos desafios e incríveis experiências ainda estão para acontecer! Todo o aprendizado proporcionado por muitos dias em ambientes naturais me ensinou a manter o otimismo e resiliência em situações desafiantes, como o que vivemos ainda relacionado à Covid-19. Nada será mais como antes, mas poderá ser ainda melhor! Espero voltar logo a ensinar e aprender na natureza, atividades ainda mais importantes após um momento de crise! --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Sobre a autora: Patricia Bianca Ribeiro, 26 anos Educadora ambiental e oceanógrafa formada pela USP em 2016. Fundadora do projeto Manamar (@manamar.educ_) de mergulho e educação ao ar livre na praia do Fortaleza em Ubatuba (SP). Caipira de Taubaté, com um toque de influência dos ares paulistanos e internacionais. Foi para o mundo, mas se identifica mesmo é com o mato. Adora uma trilha, uma escalada, um surf, um camping, um rolê de bike ou qualquer convite para aventuras. Sempre com bons livros para descansar entre as aventuras! Instagram: @patriciabr_ #educaçãoaoarlivre #educaçãonanatureza #educaçãoambiental #turismo #mergulho #vidadecientista #convidados

  • Algas flutuantes: o meio de transporte dos invertebrados marinhos

    Por Izadora Mattielo Um caso na Patagônia Chilena... Durante a faculdade, fui fazer um estágio de férias no Chile com um professor da Ecologia Marinha. Lembram do post de sexta-feira (acesse aqui)? Pois é, internacionalizar é preciso!!! A minha sorte é que um mês antes da viagem eu encontrei este professor em um congresso aqui no Brasil, onde pudemos planejar o meu projeto que seria com as “algas flutuantes”. Oi? Ele queria que eu entrasse em um barco e caçasse as algas que estavam flutuando no meio do mar para analisar a fauna acompanhante. - Hummm, OK. E? Aí o professor me explicou que essas algas se desprendiam por causa das fortes correntes marinhas, tempestades ou ventos, e iam flutuando à deriva, termo em inglês chamado de rafting. E junto a elas acompanhava uma fauna que se abrigava entre suas folhas, principalmente de invertebrados marinhos que não tinham fase larval e, sim, desenvolvimento direto. Ou seja, as algas seriam um mecanismo de dispersão e conectividade das espécies marinhas! Este professor e sua equipe já haviam reportado o aparecimento de espécies nativas em diferentes regiões do país, principalmente de animais que não tinham fase larval. Portanto, não tinha como esses animais se dispersarem livremente. Isso só seria explicado através de um “carregamento” dessas espécies para novas regiões...ou seja, pelas algas: o novo meio de transporte da comunidade marinha! Interessante, não? E foi! Como eu só fiquei três meses lá, não pude participar das coletas das minhas amostras (da parte mais legal), porque quando eu chegasse já teria que começar a identificação da fauna. Mas meu chefe foi muito legal e me levou em uma expedição de outro projeto! Pensem em um lugar paradisíaco, ondas gigantes, barco pequeno, muito frio e sol ao mesmo tempo, GPS na mão, binóculos na outra, papel e lápis para anotações e somente três pessoas a bordo para fazer tudo. Não podíamos tirar a atenção do mar à busca das frondes de algas. Ah, se eu passei mal de tanto olhar pra baixo para a água? Imagina! Nestas horas, é só contrair o abdome e lembrar do amor à ciência que dá tudo certo! O meu projeto tinha como um dos objetivos comparar a fauna acompanhante de algas flutuantes com a de algas que ainda não se desprenderam, que chamamos de bentônicas, ou seja, que estão fixas ao fundo ou a algum substrato, pedra, por exemplo. E neste caso, elas foram coletadas através de mergulho autônomo. As algas que trabalhei eram da espécie Macrocystis pyrifera, que formam grandes kelps (florestas) no Oceano Pacífico. Fronde de algas bentônicas à esquerda, os famosos kelps marinhos; e à direita detalhe da Macrocystis pyrifera, com suas folhas e aerocistos. Segunda foto por: Ivan Hinojosa. No laboratório, estas algas foram lavadas sobre peneiras para reter os animais que queríamos identificar. Depois disso, pesamos as algas, medimos o tamanho das folhas e outras estruturas importantes. Na lupa, fizemos a identificação dos animais. Então vamos ao que interessa: os resultados! As algas bentônicas, que estavam fixas, tinham uma abundante fauna acompanhante, diferentemente das flutuantes. Além disso, certos grupos nunca apareciam nas algas flutuantes, como os ouriços-do-mar e alguns tipos de crustáceos (que na biologia são chamados de decápodas), provavelmente pelo fato de não conseguirem se agarrar às algas e não ficarem fixos durante a “viagem” à deriva. Outro fato interessante é que apesar da menor abundância de espécies, as algas flutuantes apresentaram, em sua maioria, espécies com desenvolvimento direto, sem fase larval, o que reforça ainda mais a nossa hipótese inicial de que as algas flutuantes contribuem na dispersão das espécies. Um caso bem conhecido na costa chilena é do molusco bivalve Gaimardia trapesina. Infelizmente, quase tudo tem seu lado negativo. Neste caso é o carregamento do lixo! Com tanto lixo marinho, que nós humanos porcamente poluímos, as algas acabam por fazer esse tipo de transporte também. Durante minhas análises, cansei de jogar fora plásticos, tampinhas de garrafas, pedacinhos de corda, que acabaram grudando nas algas. Nestas horas fica bem nítido o quanto a gente já abusou desse ecossistema. Você gosta de lixo no seu carro, no metrô, no avião? Quando estiver na praia lembre-se do meio de transporte dos animais marinhos, pelo menos... Saiba mais em: Lab BEDIM Até a próxima! #algas #izadoramattielo #ciênciasdomar

  • A vida “dura” de um peixe marinho bebê

    Por Cássia G. Goçalo Muitos não sabem, mas a maioria dos peixes que habitam os oceanos liberam suas células reprodutoras (óvulos e espermatozoides) no ambiente marinho, onde ocorre a fertilização formando os ovos. Peixes como sardinhas, garoupas, bijupirás e atuns apresentam essa estratégia e são capazes de produzir milhões de ovos. Ao fim do desenvolvimento do embrião, após 24 horas (mais ou menos, dependendo da espécie), sucede o nascimento (eclosão) de uma pequena larva. Para que essa pequena larva sobreviva no ambiente, é necessário que o alimento (organismos do zooplâncton, leia mais em Para o plâncton, tamanho é documento...) seja ideal, em sua qualidade e quantidade. Afinal, “bebês precisam ser bem alimentados”, para garantir uma boa saúde e continuar crescendo até atingirem a fase adulta. No mar há muitas formas de vida que se alimentam de pequenos organismos, além do mais, ovos e filhotes na natureza são alimentos nutritivos. Os milhões de ovos e larvas são ingeridos por outros peixes e demais animais marinhos, como por exemplo águas-vivas, compondo a cadeia trófica marinha. Acreditava-se que essa pequena larva ficava flutuando na água do mar durante dias enquanto ocorria o desenvolvimento completo dos olhos, da boca e das nadadeiras. Em meu projeto de doutorado estudei o comportamento dessas pequenas larvas nos primeiros dias de vida e observei que além de flutuarem, elas possuem uma capacidade natatória incrível e são capazes de atingir uma velocidade extremamente alta, até 40 vezes o tamanho do corpo, enquanto nadam e capturam o alimento. E pensar que os homens mais rápidos do mundo nadam a uma velocidade de 1,5 vezes o tamanho do corpo por segundo! A natação dos organismos marinhos, de modo geral, está relacionada com a alimentação, reprodução e fuga de predadores. Para nadar até o alimento as larvas de peixes precisam movimentar as nadadeiras, dar impulsos, abrir a boca e capturar a presa. Já para fugir de predadores flexionam o corpo e mudam de direção para escapar. Esses padrões comportamentais foram registrados em meus estudos com larvas de garoupas (Epinephelus marginatus) e bijupirás (Rachycentron canadum). Para realizar essa pesquisa nós (eu e a equipe do Laboratório de Sistemas Planctônicos da USP) montamos um sistema óptico, com uma configuração semelhante a de um microscópio, porém no sentido horizontal, possibilitando o estudo com os organismos de tamanhos de 2 a 5 milímetros dentro de um pequeno aquário, sendo observados por uma câmera de vídeo que captura uma alta taxa de quadros por segundos (também conhecida como "supercâmera lenta"). Veja mais em https://www.facebook.com/lapsiousp. Mesmo com toda essa habilidade, ainda assim, cerca de apenas 1% das larvas sobrevive nos mares. Esta elevada taxa de mortalidade acontece devido à predação e/ou inanição, ou seja, morrem de fome. Uma pequena larva ao passar por todos os desafios, se tornará um peixe adulto atingindo a maturidade, e produzirá uma nova geração de ovos e larvas mantendo um equilíbrio natural entre as espécies e o ecossistema marinho. O comportamento das larvas de peixes marinhos ainda precisa ser investigado mais a fundo, uma vez que há no ambiente marinho cerca de 16 mil espécies de peixes. Outros estudos abordaram o comportamento de peixes adultos através das filmagens apresentadas pelo National Geographic Channel. Os pesquisadores oferecem diferentes presas e filmam o comportamento natatório e alimentar de diferentes espécies de peixes marinhos. Para os curiosos: acessem a página e assistam o vídeo “Blink of an eye”. Dúvidas e comentários entrem em contato e mandem mensagens. Até o próximo post!!! References: FUIMAN, L. A. Special considerations of fish eggs and larvae. In: Fuiman, L. A.; Werner, R. G. (eds). Fishery Science: The unique contributions of early life stages. Blackwell Science. p. 1- 32, 2002. GOÇALO, C.G.; AQUINO, N. A. de; KERBER, C. E.; NAGATA, R. M.; LOPES, R. M. Swimming behavior of cobia larvae (Rachycentron canadum) facing prey and predator. 38th Annual Larval Fish Conference, Quebéc, Canadá. 2014 HOUDE, E. D. Emerging from Hjort’s shadow. J. Northwest Atl. Fish. Sci., v. 41, p. 53-70, 2008. #comportamento #larvas #peixes #cássiaggoçalo

  • No balanço do navio...

    Por Izadora Mattielo Você sabia que o mecanismo para o navio se equilibrar no mar pode afetar o ecossistema marinho e a saúde humana? Você já se perguntou como o navio se equilibra no mar? Como ele consegue carregar tantas pessoas e mercadorias sem tombar? Acho que é fácil imaginar que há um peso máximo ideal, projetado e calculado pelos engenheiros, de quanto o navio suporta para não afundar. Até aí, ok. Mas e quando ele está vazio? Como ele consegue manter o seu equilíbrio? A resposta é até que simples: é preciso colocar um peso nele quando está vazio e depois tirar quando for carregar com mercadoria ou pessoas! No início, foram feitas diversas tentativas com pedras e pedaços de madeira, mas devido ao grande trabalho de colocar e tirar esse material, pensou-se em usar a própria água do mar, já que utilizando bombas seria fácil puxar e soltar essa água quando o navio estivesse atracado. Este método é utilizado até hoje, os navios possuem um tanque de lastro para bombear a chamada água de lastro. Bom, é aí que começa a minha história! Imagina um navio saindo da China vazio para o porto do Brasil, onde será carregado com a mercadoria daqui. Pela explicação acima, o navio teria que bombear água da costa chinesa para manter o equilíbrio durante a viagem. A questão é que ao bombear esta água ela não vem pura e livre de qualquer organismo. Pelo contrário, inúmeros (e inúmeros mesmo) organismos invertebrados e vertebrados são bombeados junto com esta água e ficam aprisionados no tanque de lastro. Você deve estar se perguntando, mas não existe uma malha para filtrar e impedir a entrada destes organismos? Até existe! Mas não é eficiente, principalmente para os micro-organismos. Um segundo problema é que, pelas leis da Organização Marítima Internacional (IMO), o navio deveria trocar esta água no mar aberto, pois, teoricamente, os organismos bombeados na região portuária, não suportariam as diferentes condições oceanográficas do mar aberto. Em outras palavras, a temperatura, salinidade, bem como a quantidade de nutrientes e de itens alimentares disponíveis  são diferentes nos dois ambientes, o que dificultaria a sobrevivência de qualquer organismo vivo aprisionado no tanque de lastro. Entretanto, não é isso que ocorre. Além de muitos navios não pararem para fazer esta troca de água, muitos organismos são resistentes à viagem e às diferentes condições ambientais. Aí que vem o terceiro problema: ao chegar ao porto de destino, estes organismos não nativos são descarregados junto com a água do tanque, causando sérios problemas para a fauna e flora local, além da saúde pública. Ou seja, o navio que tinha saído da China, se não fez a troca em mar aberto e não existe nenhum tipo de tratamento da água dentro do tanque, ao chegar ao porto brasileiro, irá descarregar a água cheia de organismos nativos da costa chinesa! Imagina o impacto ambiental que isso pode causar? Por isso, há diversos países e grupos da IMO investigando maneiras de sanar o problema. Uma das soluções propostas é o tratamento da água de lastro no tanque durante a viagem. Diversos tratamentos foram propostos: mecânicos, físicos e químicos. Só que ainda estão em testes, pois alguns geram resíduos e outros não são totalmente eficazes. No meu mestrado trabalhei com microalgas marinhas, que são o fitoplâncton dos mares (já explicado no primeiro post aqui). Por serem microscópicas, passam facilmente pelas malhas (que barram a entrada) para o interior dos navios. Algumas delas podem ser resistentes a quaisquer tratamentos e outras podem ser tóxicas, tanto para outros organismos aquáticos, quanto para seres humanos. Já ouviu falar da maré vermelha? Pois bem, é um grupo de microalgas que causa esse evento (mas teremos um post só sobre isso). Portanto, meu desafio era buscar formas de erradicar essas algas microscópicas da água de lastro de navios. Eu testei três tratamentos: exposição ao UV, ao ozônio e ao Peraclean, uma substância química, com características parecidas com a da água oxigenada. O mais interessante desta etapa dos meus testes foi a minha parceria com a empresa incubada no Cietec da Usp, chamada Brasil Ozônio. Quando escrevi o projeto sabia que estes tratamentos eram de grande importância e necessitavam de mais estudos. Eu tinha o UV e o Peraclean, mas como conseguir o ozônio? Foi aí que “googlei” e achei esta empresa do meu lado! Foi a minha sorte! Não tenham medo de fazer parcerias universidade-empresa. Muito do nosso conhecimento não vai para frente porque o pesquisador não quer se expor e a empresa não vai atrás. Mas não temos nada a perder, só basta ser tudo muito claro e genuíno. E não é que meus melhores resultados foram com o ozônio? Consegui erradicar até mesmo as microalgas mais resistentes que nenhum outro tratamento tinha conseguido tratar! Além de ser eficiente, este tratamento não gera resíduos para a água tratada, a qual pode ser descarregada ao mar. Nos próximos posts vou aprofundando mais sobre meus resultados. Mas, caso queiram saber um pouco mais sobre isso, seguem os links da minha dissertação e de uma matéria que saiu no jornal da Usp: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21134/tde-02022015-135423/pt-br.php http://www.usp.br/aun/exibir.php?id=6118&edicao=1076 Até a próxima! #águadelastro #izadoramattielo #ciênciasdomar #impactoambiental #microalgas #ozônio

  • Internacionalizar é preciso!

    Por Catarina R. Marcolin Olá a todos, a postagem de hoje é sobre uma das grandes vantagens em se tornar cientista: conhecer o mundo! Desde quando era apenas uma adolescente eu já sonhava em viajar para outros lugares, conhecer novas culturas, ver lindas paisagens, enfim, conhecer nossos vizinhos nesse planeta que é tão grandioso e ao mesmo tão pequeno. Eu nasci no interior da Bahia e sempre senti falta de ter acesso maior à cultura, de poder visitar museus, de poder viajar para outros lugares além de Subaúma nas férias de janeiro. Uma das motivações para me tornar cientista dos mares foi a oportunidade que nós temos de trabalhar diretamente com a natureza. Então, por mais que eu não achasse que iria viajar para muito longe de casa, pelo menos meu trabalho me permitiria viajar para alguma praia paradisíaca de um modo diferente do turista comum (mesmo que fosse na Bahia, minha terrinha). Quando viajamos para coletar nossos dados temos uma oportunidade única de conhecer um lugar do jeitinho que ele é. Uma experiência bem diferente do modo engessado, tão comumente propagado pelas agências de turismo. Quando viajamos para coletar, podemos conhecer não somente as paisagens turísticas, mas vamos a recantos muitas vezes inexplorados, conhecemos as pessoas que ali vivem, descobrimos um pouco da sua cultura e podemos nos conectar com essas pessoas de forma mais verdadeira e não apenas através de relações de compra e venda de produtos e serviços. É possível descobrir um pouco da história de vida dessas pessoas e de como elas se relacionam com seu vilarejo, com a natureza, com a vida. Além disso, fui descobrindo que é extremamente importante para um cientista ter oportunidades de interagir com pesquisadores de outros países, de vivenciar o dia a dia em laboratórios com rotinas completamente diferentes da sua instituição de origem. Portanto a ciência me ajudou a preencher esse “vazio“, essa necessidade que eu tinha de consumir cultura e de conhecer o mundo. Durante o doutorado, foi quando tive as melhores oportunidade em termos de internacionalização. Durante minha entrevista de seleção, a comissão de seleção da pós-graduação do IO-USP me informou que era muito importante que eu me esforçasse ao máximo para fazer um doutorado-sanduíche, ou seja, passar alguns meses trabalhando em um laboratório fora do Brasil. Ainda fiquei sabendo nesta ocasião que havia bolsas suficientes para isso e que internacionalização é um item muito importante para a avaliação de qualidade dos cursos de pós-graduação feita pela CAPES. Nos últimos anos, o Brasil vivenciou um período muito bom para os estudantes de graduação e pós-graduação em termos de internacionalização. Muitas bolsas foram concedidas para estudos temporários no exterior e eu fui contemplada com uma delas durante para fazer doutorado-sanduíche, bem no começo do programa Ciência sem Fronteiras. Apesar deste programa ser importantíssimo, é relevante destacar que estar na USP, associada a um pesquisador produtivo e reconhecido internacionalmente (conheça mais sobre nosso laboratório aqui), fez toda a diferença na minha formação acadêmica. Então, além de trabalhar com um tema que me fascina, tive acesso à tecnologias inovadoras e pude viajar bastante. Passei não apenas quatro meses fazendo doutorado-sanduíche nos EUA em College Station (Texas) como também fiz um curso na Noruega e outro na Islândia sobre temas correlacionados à minha tese e participei de dois congressos internacionais, fazendo apresentações orais do meu trabalho, em Pucón, Chile, e em New Orleans, EUA. Tem mais informações sobre essas experiências (só as divertidas) no blog catviajandoporai. Além de viajar pelo mundo eu também participei de embarques em navios oceanográficos para coletar os dados do meu projeto de doutorado. Passei muitos dias ao mar, navegando com outros pesquisadores e com a tripulação desses navios. Um dos embarques mais marcantes aconteceu a bordo de um veleiro como parte do projeto Tara Oceans, com uma equipe internacional, num projeto liderado por franceses. Foi através destas experiências, entre outras, que fui aprendendo ao longo do caminho sobre como trabalhar de forma mais eficiente, sobre como me comunicar de forma adequada com outros pesquisadores, usando linguagem correta, e de aprimorar técnicas para escrever artigos científicos em inglês. Além disso, pude conhecer vários cientistas apaixonados pelo que fazem, pessoas inspiradoras, que se divertem enquanto fazem seu trabalho e nos ajudam a superar os desafios que surgem ao longo desse processo. Mas todo bônus tem um ônus. Houve uma ocasião em que não pude embarcar em um dos projetos associados ao meu doutorado simplesmente por ser mulher, pois o navio da marinha destacado para o embarque não aceitava mulheres. A justificativa era que o navio não tinha “instalações adequadas” para mulheres. Não é incomum ouvirmos na nossa área que mulheres não são bem-vindas num embarque oceanográfico porque não carregam peso como deveriam e que, portanto, isso acabaria sobrecarregando algum homem. Mas isso definitivamente não condiz com a realidade. Conheço diversos homens que enrolam no trabalham e mulheres que trabalham muito, e vice-versa. E tenho certeza que você também conhece, dentro da sua realidade. Fonte Além de ter de lidar com esse tipo de pré-conceito, diversas vezes ouvi pessoas questionando meu estilo de vida, pois desse jeito eu não conseguiria “segurar um homem”. Foi interessante enquanto eu estava fazendo sanduíche nos EUA como conheci vários casais onde os homens estava passando uma temporada no exterior, acompanhados de suas mulheres, enquanto o contrário não era visto. Não conheci uma única mulher que tinha levado seu acompanhante nesse período. Infelizmente ainda é comum essa visão de que a mulher que prioriza seu trabalho está destinada a ficar "encalhada", "pra titia". Muitos dos amigos e familiares já não acreditavam que meu relacionamento a distância durante o doutorado (eu morava em São Paulo e ele em Salvador) pudesse dar certo, ainda mais sabendo que eu passava até 15 dias embarcada num navio acompanhada por uma maioria de homens. Além disso, eu já estava fazendo 30 anos e ainda não havia casado, muito menos tido filhos. O quesito filhos é o único que me causa ainda um pouco de aflição, pois quanto mais adiamos, menores nossas chances de engravidar. E se engravidamos no meio do caminho, nos tornamos menos competitivas para o mercado de trabalho como cientista, arriscando o tão almejado emprego na universidade. (leia mais sobre isso no post da Jana Quando colocar filhos no cronograma?) Mas apesar das dificuldades em ficar longe da família, amigos, namorado/marido, sempre tive apoio dessas mesmas pessoas para perseguir meus sonhos e me tornar uma profissional melhor. E só tenho a dizer que valeu a muito pena e que continua valendo! Hoje tenho 33 anos, estou casada, sem filhos no cronograma, buscando o tão almejado emprego e ainda com muito desejo de continuar viajando (literal e filosoficamente), aprendendo cada vez mais sobre esse mundão que me fascina. Até o próximo bate-papo com Netuno. #internacionalização #viagens #catarinarmarcolin #mulheresnaciência

  • Quando colocar filhos no cronograma?

    Por Jana M. del Favero Ao escrever um projeto de pesquisa é necessário elaborar um cronograma, detalhando as atividades que serão executadas a cada período do tempo total do projeto. A minha pergunta, e sei que de muitas outras mulheres, consiste em saber em qual momento devemos encaixar uma gravidez e como conciliá-la com a vida acadêmica. Durante a graduação somos jovens demais, temos um mundo pela frente; o mestrado é curto, são aproximadamente dois anos em que é impossível pensar em qualquer outra coisa além das disciplinas e da dissertação. Então vem o doutorado, já somos maduras, muitas já estão casadas, mas mesmo assim só pensamos em pesquisar e publicar pois sabemos que ao final dos quatro anos de doutoramento vamos nos deparar com a concorrência do mercado de trabalho ou precisamos estar aptas para fazer um pós-doutorado de impacto. Portanto, o melhor seria aguardar tudo isso acabar e só engravidar quando já estiver contratada, com alguma estabilidade profissional, financeira e pessoal garantida. Porém, tal estabilidade geralmente ocorre quando a mulher tem em torno de 37 anos, bem depois do seu pico de fertilidade (figura 1). Apesar de não ser difícil citar pesquisadoras/professoras de sucesso com filhos, o cenário de pós-graduandas que desistiram da carreira acadêmica após engravidar é bem mais comum. Conforme ilustrado na figura 2, a porcentagem de desistência da carreira acadêmica entre homens e mulheres sem filhos e sem planos de engravidar é praticamente a mesma entre os pós-doutorandos. Porém, ter um filho depois do começo do pós-doutorado duplica a porcentagem de desistência entre as mulheres, e permanece inalterado entre os homens. É claro que um filho pode alterar o rumo da vida das mulheres, alterando também sua produtividade. Um estudo realizado por Leslie (2007) mostra que quanto mais filhos a mulher tem, menos tempo ela gasta em atividades profissionais (figura 3). Agora pasmem, apesar de não discutir as razões, o mesmo estudo mostrou que o contrário ocorre com os homens: mais filhos = mais horas trabalhadas! Não me atrevo a aprofundar a discussão do porquê dessa diferença, mas vejo duas possibilidades: ou o homem encara como um aumento de responsabilidade e, como se enxerga como o provedor financeiro da família, passa a trabalhar mais (o que não é necessariamente culpa dele, afinal de contas assim como mulheres são tradicionalmente ensinadas a cuidar do seu lar, homens são tradicionalmente ensinados a prover financeiramente esse mesmo lar); ou fogem das responsabilidades domésticas por motivos diversos. Tenho um amigo que me disse que quando seu filho era bebê e requeria toda a atenção e cuidados da mãe, ele preferia trabalhar até mais tarde e só ir pra casa quando já se aproximava a hora do filho dormir, alegando que tinha ciúmes de todo o carinho que a mulher prestava ao bebê e que não estava se encaixando em sua própria casa. Uma das maneiras de aumentar a representatividade feminina nas universidades e diminuir a desistência de seguir uma carreira acadêmica, consiste em focar nos problemas enfrentados pelas mães que lutam para cuidar da família enquanto realizam estudos e pesquisas. Uma lista de estratégias que poderiam ser adotadas para amenizar problemas e ajudar as famílias é citada por Willians e Ceci (2012). Como exemplo: as universidades poderiam oferecer berçários e creches de qualidade, ter licença maternidade para o cuidador primário, independente do sexo, poderiam instruir comitês de seleção para ignorar lacunas no currículo devido à vazios relacionados ao tempo desprendido para cuidar da família (por exemplo entender porque a candidata ficou um prazo sem publicar caso tenha sido para cuidar do filho recém- nascido), entre outros. Um fato que não consta na lista do estudo apresentado e que considero de fundamental importância é uma mudança na mentalidade das pessoas. Já ouvi que para ser aceita em um laboratório numa faculdade espanhola, o professor responsável solicita que as mulheres assinem um termo se comprometendo a não engravidar durante o doutorado? Difícil de acreditar que algumas mentes ainda funcionem assim! E no Brasil, como estamos? A USP, umas das maiores universidades brasileiras, possui uma creche muito elogiada pelos pais usuários, porém suspendeu ao menos 117 vagas no começo de 2015 por falta de verba (Acesse a matéria aqui). Nem todas as agências de fomento concedem licença maternidade remunerada aos seus bolsistas. Ou seja, por mais que às vezes aconteça um progresso, muitos retrocessos ainda são notados... Por mais que diversas universidades tenham adotado medidas que auxiliem a vida das famílias, muito ainda precisa ser feito e melhorado. Não conseguirei trazer uma resposta à pergunta realizado no título do texto com esse post, até porque acredito que seja uma decisão pessoal e não uma receita de bolo. Eu mesma, casada há 3 anos, vou terminar meu doutorado no começo de 2016, sem pretensões de aumentar a família até lá. Entretanto, não finalizarei esse assunto com essa publicação. Traremos no blog depoimentos de “mulheres guerreiras”, que conciliaram estudos e filhos; “mulheres altruístas”, que desistiram da carreira acadêmica para se dedicar à família e se sentem realizadas com a decisão tomada; “mulheres batalhadoras”, que se afastaram da universidade um período para cuidar dos filhos, e sofrem diversos entraves ao tentar retornar. O meu depoimento, de uma “mulher indecisa”, vocês já têm. E você, tem um depoimento que queira compartilhar? Sinta-se bem-vinda para comentar abaixo ou nos enviar mensagens. Referências Goulden, M.; Frasch, K.; Mason, M. 2009. Staying competitive: Patching America's leaky pipeline in the sciences. Center for American Progress, https://www.americanprogress.org/issues/technology/report/2009/11/10/6979/staying-competitive/ Leslie, D.W. 2007. The reshaping of America's academic workforce. Research Dialogue 87. https://www.tiaa-crefinstitute.org/public/pdf/institute/research/dialogue/87.pdf Willians, W.M.; Ceci, S.J. 2012. When Scientists Choose Motherhood. American Scientist, Volume 100. http://www.americanscientist.org/issues/pub/when-scientists-choose-motherhood/1 #carreira #filhos #janamdelfavero #mulheresnaciência

  • Desafios antigos para mulheres atuais

    Por Jana M. del Favero Sou mulher e pesquisadora. Como qualquer mulher que queira seguir a carreira acadêmica já me deparei com diversos questionamentos. Tais questionamentos vão desde algo aparentemente banal, como que roupa usar em um embarque sem parecer “vulgar” (sim, apesar do calor do Brasil sempre tomo cuidado para não usar roupa decotada ou curta demais e sempre fico morrendo de inveja dos homens que simplesmente tiram a camisa e trabalham!) até algo mais complexo, como em que momento devo encaixar filhos no “cronograma” da minha tese (apresentarei esse tópico em uma outra publicação). Entretanto, apesar de já ter discutido com amigas as dificuldades de ser mulher e pesquisadora, nunca pensei que esse assunto fosse sair de uma mesa de bar ou de um cafezinho no laboratório. Assim, tão grande foi a minha surpresa ao receber um e-mail sobre o primeiro workshop da recém formada Society for Women in Marine Science (SWMS), organizado pelo Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI). Não tive dúvidas em me inscrever, e em setembro de 2014 estava com mais 90 mulheres de diversas faixas de idade e posições, analisando as dificuldades e buscando soluções para mulheres nas ciências marinhas. Foi um dia intenso, com apresentações, mesa redonda e uma enorme quantidade de mulheres que queriam dar o seu depoimento. Uma colega da Universidade de Massachusetts contou que ela teve que embarcar por três dias enquanto ainda estava amamentando seu filho de quase 10 meses e além de ter sido julgada por várias pessoas como uma péssima mãe, abandonando o filho com o marido (pai), ainda teve que lidar com a dificuldade de estar com uma tripulação apenas de homens e ter que “fugir” do trabalho algumas vezes para retirar leite e armazená-lo corretamente. Uma das palestras mais interessantes foi a da Dra. Penny Sallie Chisholm, professora de biologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology), contando sua experiência como membro formadora do “MIT Committee on Women Faculty in the MIT School of Science”, cujo objetivo é coletar dados e analisar a posição das mulheres cientistas no MIT. Em 1999 tal comitê publicou um relatório confirmando claras desigualdades de gênero na contratação, salário, pensão, prêmios, promoções, inclusão em comitês e alocação de recursos valiosos, tais como espaço de laboratório e dinheiro de pesquisa no MIT (o relatório completo pode ser acessado aqui). Após esse primeiro relatório, diversas mudanças ocorreram: salários foram ajustados, a licença maternidade foi aumentada, as práticas de contratação mudaram. O número de professoras na faculdade de ciências, por exemplo, aumentou de 30 para 52, conforme o último relatório, publicado em 2011 (disponível aqui). Apesar das claras melhorias observadas, o comitê do MIT ressalta estar ciente de que se trata de um processo contínuo e que muitas mudanças ainda precisam ser efetuadas. Porém me conforta ouvir histórias de grupos de pessoas que se juntaram por uma causa e obtiveram resultados positivos. Se você se interessou pelo assunto é possível se cadastrar na lista de e-mails da SWMS para receber informações sobre workshops futuros e seguir o nosso blog. #janamdelfavero #mulheresnaciência

  • Floating algae: Transportation for marine invertebrates

    By Izadora Mattielo English edit: Lidia Paes Leme and Katyanne M. Shoemaker A study in the Chilean Patagonia... During college, I did a summer internship in Chile with a professor of marine ecology. A month before the trip I met up the professor at a meeting in Brazil, where we discussed my project. The project would be concentrated on studying “floating algae.” What? Yeah, he wanted me to get on a boat and hunt for algae that were floating in the middle of the ocean, in order to analyze the accompanying fauna. Hmmm…OK, and? The professor explained that these algae were detached because of strong marine currents, storms, and winds, and they were now drifting on the surface, a term called rafting. Along with the algae, some fauna would likely be attached, sheltered in between the leaves. Most of these companion fauna are marine invertebrates with no larval phase. Without a planktonic larval phase, many invertebrates have a limited distance they can move on their own. By hitching a ride on these floating algae, the algae become a mechanism for dispersion and connectivity for many marine species! Macrocystis pyrifera floating. By Ivan Hinojosa. Photo: Schematic of benthic and floating algae and the most common animals found in both states. By Ivan Hinojosa. This professor and his team had previously reported the presence of native species in different regions of the country, but the majority of those animals lacked a larval phase. It didn’t make sense how these animals could be so widely dispersed in different areas. This could only be explained by a “loading” of these species to new regions. It was then discovered that the floating algae were the means of transportation for these marine communities. The algae is like a bus, but instead of picking up and dropping off around a city, the algae can float for hundreds of miles in the ocean. Interesting, no? And it was! Since my internship only lasted three months, I wasn't able to participate in the collection of my samples (the cool part), because the identification of fauna would take too long after returning. However, the professor did take me on an expedition for another project! Imagine a paradise, with big waves, lots of sun, but very cold weather. Three of us were floating in a small boat, GPS in one hand, binoculars in the other, paper and pencil at the ready to take notes. We couldn't take our attention from the sea, always searching for the algae rafts. Oh, and man was I seasick! But in those moments, you just contract your stomach and remember your love for science, and everything will work out. Left: Me and the boat in Punta Choros before the expedition; Right: People collecting a raft of floating macroalgae with a sieve so animals cannot escape. Pics: Ivan Hinojosa My project aimed to compare the fauna accompanying floating algae with that of algae that have not yet detached, which we call benthic. Benthic algae are fixed to the bottom or to some substrate, like a stone, for example. The benthic algae were collected through scuba diving. The specific algae I studied were Macrocystis pyrifera, which form giant kelp forests in the Pacific Ocean. On the left are fronds of a benthic algae, the famous marine kelp. To the right is a close-up image of Macrocystis pyrifera, with its leaves and aerocysts. Second photo by Ivan Hinojosa In the lab, the algae were washed in strainers to size fractionate and retain the animals that we wanted to identify. After that, the algae were weighed and measured. We identified the animals with magnifying glasses. So, onto the results! The benthic algae had abundant companion fauna, which were different from the floating algae. Some groups like sea urchins and some crustaceans (called decapods) were only found on the benthic algae, likely because they were unable to hold onto the non-fixed algae while it drifted. Graph of the occurrence of different taxa within each kind of algae; floating and benthic. By Izadora Mattiello and Ivan Hinojosa. Another interesting finding was that despite the lower number of species, floating algae mostly supported species with direct development (those without a larval phase). This further reinforces our initial hypothesis that floating algae contribute to species dispersal. A well-known case on the Chilean coast is the bivalve mollusk Gaimardia trapesina. Unfortunately, almost everything has a downside. In this case, it is garbage loading! With all of the human-produced plastic waste that has been thrown into the ocean, the algae end up carrying litter in addition to animals. During my analysis, I got tired of throwing plastic away; there were bottle lids, pieces of rope, etc. that ended up entangled in the algae. It is very clear how much we have abused this ecosystem. Do you like rubbish in your car, the subway, or on an airplane? The next time you are at the beach, try to remember how tiny marine animals are transported, and grant them the same respect you expect for yourself. To the next! by Ivan Hinojosa. Know more at: Lab BEDIM #scientificpopularization #algae #flotingalgae #patagonia #chile #science #ocean #marinescience

  • Simpósio: Por mais mulheres na Zoologia, CBZOO 2020

    Por Catarina R. Marcolin No dia internacional da mulher queremos lembrar da importância de seguirmos na discussão sobre questões de gênero na Ciência. Nos últimos dias 5 e 6 de março, Rafaela Falaschi (UEPG) organizou um Simpósio chamado "Por mais Mulheres na Zoologia" durante o XXXIII Congresso Brasileiro de Zoologia, em Águas de Lindóia, SP. Foi a primeira vez em que estive em um congresso científico com tanto espaço e com tanto destaque para discutirmos essas questões. Além de termos enchido o salão nos dois dias, tivemos um público bem diverso, escutando, comentando, se engajando. Foi mais do que lindo, foi necessário. Foram muitos assuntos discutidos, por mulheres incríveis, que não posso deixar de citar: Márcia Barbosa (UFRGS, diretora da Academia Brasileira de Ciências), Annie Hsiou (USP), Fernanda Werneck (INPA), Laura Sousa (UNIFESP), Veronica Slobodian (UnB), Priscila Camelier (UFBA), Thaís Guedes (UEMA). Tive muito orgulho de estar entre elas. Falamos sobre representativade das mulheres na ciência, maternidade e ciência, síndrome do impostor, redes de cooperação entre mulheres, mulheres no campo e conhecemos de um jeito profundo e encantador a história da Bherta Lutz. Eu não tinha ideia do real tamanho da importância dessa cientista, especialmente sobre sua luta pelos direitos da mulher (se hoje podemos votar, agradeça à Bertha Lutz). E foi chocante notar como muitas das lutas de Bertha, são as mesmas de hoje. Eu estive como palestrante, junto com Verônica Slobodian, numa mesa redonda sobre "Mulheres no campo" e falei sobre assédio em embarques. Foi um momento muito tenso e emocionante, com lágrimas na plateia (eu já tinha derramado minha cota enquanto analisava os dados). Mas também foi gratificante perceber que os dados que apresentei causaram desconforto e um desejo/necessidade de fazer algo para mudar o cenário das mulheres que precisam trabalhar em ambientes confinados e perigosos. Queremos agradecer a todas as mulheres que responderam ao formulário sobre assédio em embarques, em breve divulgaremos os resultados. Tenho certeza que depois deste evento muitos laços e redes foram criados e que saímos de lá com propostas de ações para melhorarmos o cenário de inserção das mulheres na ciência, contribuindo para uma sociedade mais justa e mais eficiente. #assedionao #mulheresnaciência #cbzooo2020 #simposiodemulheres #catarinarmarcolin #netuniandoporai

  • Costão Rochoso

    Por Jana del Favero e Carla Elliff O costão rochoso é um ambiente costeiro formado por rochas (substrato consolidado) situado na transição entre os meios terrestre e marinho. Pode ser formado por paredões verticais bastante uniformes, que se estendem muitos metros acima e abaixo da superfície da água (ex. a Ilha de Trindade) ou por matacões de rocha fragmentada de pequena inclinação (ex. na costa de Ubatuba/SP). Figura 1: Exemplos de costões rochosos na Ilha de Trindade-ES (à esquerda - Fonte. Com licença CC BY-SA 3.0) e em Ubatuba-SP (à direita - Fonte. Com licença CC BY-SA 4.0) Na maioria das vezes, os costões são extensões das serras rochosas que atingem o fundo do mar. No estado de São Paulo, por exemplo, observa-se que em locais onde a Serra do Mar está próxima ao oceano, ocorre um predomínio de costões rochosos na interface da terra com o mar (ex. Ubatuba), já em locais onde a Serra do Mar está muito distante da costa, ocorre o predomínio de manguezal ou restinga (ex. Cananéia). Já no Rio Grande do Sul, só existem costões rochosos no município de Torres, que representa o único ponto onde a Serra Geral encontra o mar! Figura 2: Praia da Guarita em Torres-RS (Fonte: Carla Elliff, licença CC BY-SA 4.0). O costão rochoso é um importante substrato de fixação para larvas de diversas espécies e locomoção para muitos organismos. A sua ocupação não ocorre aleatoriamente, ou seja, os organismos se estabelecem ou se locomovem em faixas bastante distintas normalmente perpendiculares à superfície do mar. Estas regiões (ou zonas) são formadas a partir das habilidades adaptativas dos organismos relacionadas a fatores abióticos (ambientais, como o nível da maré), e fatores bióticos (diversos níveis de interações biológicas, como predação e competição por espaço). A esta distribuição organizada dá-se o nome de zonação e, de maneira geral, três zonas foram definidas: 1) Supralitoral: região superior do costão rochoso que é permanentemente exposta ao ar, onde chegam somente borrifos de água do mar. Ela está compreendida entre o limite inferior de distribuição da vegetação terrestre, e o limite superior de ocorrência de cirripédios (cracas) ou, por vezes, de gastrópodos do gênero Littorina. Nessa zona os fatores abióticos como temperatura e radiação solar possuem grande importância na distribuição dos organismos, os quais são adaptados à perda de água e à variação da temperatura. 2) Mediolitoral: é a zona que fica submersa durante a maré alta e exposta durante a maré baixa. Comumente é marcada pela ocorrência de cracas e por algas verdes. Os organismos sésseis (aqueles que não se movem, são fixos) dessa zona estão adaptados à variação de maré e a todas as mudanças ambientais impostas por essa oscilação, o que inclui um período reduzido para alimentação e liberação de larvas. Os organismos móveis podem migrar para regiões inferiores na maré baixa e permanecem sempre submersos. Nessa zona ocorrem as poças de maré, depressões onde a água do mar forma piscinas sujeitas às condições atmosféricas e alta variabilidade de temperatura e salinidade durante a maré baixa (já falamos sobre os peixes encontrados nas poças de marés aqui). 3) Infralitoral: é a zona que fica sempre submersa, pois está situada abaixo do nível mínimo da maré baixa. Nessa zona, os fatores abióticos são mais estáveis e as relações biológicas (como predação, herbivoria, competição) determinam a distribuição dos organismos. Ela é caracterizada principalmente pela ocorrência de algas do gênero Sargassum e outros organismos da fauna como os equinodermas (ouriços-do-mar e estrelas-do-mar), cnidários (anêmonas), crustáceos (camarão, ermitão, caranguejo etc.), além de várias espécies de peixes. Figura 3: Esquema de um costão rochoso com indicação de suas zonações, exposto no Museu de Ciências Naturais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (MUCIN/UFRGS) (Fonte: Carla Elliff, licença CC BY-SA 4.0). Além de sua importância ecológica como substrato consolidado para o crescimento de tantos organismos, os costões rochosos são também importante área para exploração de recursos. Mexilhões e outros tantos moluscos bivalves são coletados durante as marés baixas em muitos desses locais, caracterizando a atividade de mariscagem. Além disso, a coleta de algas marinhas para consumo humano é também uma prática muito antiga realizada principalmente em países asiáticos, como o Japão. Outro aspecto importante dos costões rochosos é sua característica como um laboratório natural a céu aberto. Toda essa diversidade de vida marinha está lá fixa em sua zonação, prontinha para ser estudada! Cada mudança de maré gera grandes alterações ambientais, permitindo o estudo de diversas respostas biológicas que podem servir de base para outras pesquisas. Além disso, por se tratar de um ecossistema de fácil acesso (basta ficar de olho na tábua de maré para ver toda a zonação disponível), é também um ótimo local para crianças e adultos curiosos aprenderem sobre as ciências do mar. Figura 4: Famílias aproveitam a maré baixa em San Diego (EUA) para explorar a porção exposta de um costão rochoso e suas poças de maré (Fonte: Carla Elliff, licença CC BY-SA 4.0). #descomplicando #costãorochoso #ecologiamarinha #litoral #zonação #poçademaré #craca #mexilhão #carlaelliff #janamdelfavero

  • Minha vida de Oceanógrafa Geofísica em um ambiente predominado por homens

    Por Camila Antunes Uma história real de muito preparo e decisões difíceis para continuar acreditando na nossa profissão. Olá, me chamo Camila, tenho 30 anos, sou Bacharela em Oceanografia, formada em 2012 no Centro Universitário Monte Serrat (UNIMONTE) e sou também Marinheira de Convés e Rádio Operadora, meu foco de trabalho é em Geofísica. Essas três profissões estão tão interligadas na minha vida, que às vezes fica difícil dizer quando começa uma e termina outra. Para explicar como hoje conquistei minha realização profissional, preciso voltar para 2014. Dois anos após me formar na Universidade, tinha bons estágios no meu currículo (entre eles no Instituto de Pesca e na Companhia Docas (CODESP), ambos do Estado de São Paulo) e falava inglês e espanhol, mas ainda assim estava trabalhando como marinheira numa travessia de ferry boat da minha região, uma ocupação que não era meu objetivo. O ferry boat foi e é um lugar de muitas emoções para mim. Por um lado era ali que eu me sustentava, ganhando dinheiro para pagar meu aluguel e meus gastos. Por outro, eu estava estagnada e muito longe de me sentir realizada como Oceanógrafa. Trabalhei lá de 2010 a 2014, até que um grande amigo e Oceanógrafo, também da UNIMONTE, me deu o primeiro “empurrãozinho”. Ele fazia a travessia frequentemente e assim sempre conversávamos. Uma vez ele disse que entregou meu currículo para a empresa de dragagem que ele trabalhava. Batata, consegui a entrevista! Pedi as contas da travessia e fui para a empresa de dragagem. A partir daí, minha vida deu um giro de 180°, me tornei Survey (profissional responsável por realizar hidrografia). Comecei a aprender a fazer levantamentos de batimetria, que basicamente são medidas 3D do fundo do mar, usando equipamentos hidroacústicos, dados de maré e sonda de condutividade, temperatura e profundidade (CTD), formando uma imagem que representa o solo marinho. Esses levantamentos podem ser usados para encontrar objetos como navios naufragados, tubulações de plataformas de petróleo ou, no caso da dragagem, para calcular volume e caracterizar o tipo do fundo. Cheguei a um ponto no trabalho em que eu já comandava equipes de brasileiros e holandeses. Conheci praticamente todos os estados da costa brasileira, culturas diferentes, aprendi a usar equipamentos de sondagem como SingleBeam, MultiBeam, SideScan, marégrafo, CTD... Assim acrescentei muitas experiências profissionais ao meu currículo. Trabalhei nessa empresa de dragagem por três anos e meio e, criei uma boa bagagem e tanto na área, como oceanógrafa e como gestora. Claro que passei por algumas situações difíceis, mas essas a gente não posta no Instagram, né? Como chegar a ficar três meses direto a bordo de um navio sem desembarcar ou ficar em terra sozinha numa cidade qualquer, longe dos amigos e da família. Por várias vezes trabalhei por três ou quatro meses e depois ficava apenas uma semana em casa e já tinha que voltar. O celular e computador ficavam 24h ligados para que eu desse suporte, mesmo na folga. Algumas vezes eu chegava em reuniões em outras empresas e o cliente achava que eu era a secretária do meu gerente, porque esse é um ambiente predominantemente masculino. Muitos se assustavam e pareciam contrariados quando descobriam que eu seria a Survey responsável pelo levantamento e processamento batimétrico daquela região. Eu era a única mulher que fazia esse tipo de serviço na empresa naquele período e isso me deixava um pouco intimidada. Parecia que eu sempre precisava mostrar mais do que o necessário para executar o trabalho, sentia que sempre precisava provar mais e mais. Ao mesmo tempo, eu sabia que tinha responsabilidade para com as próximas mulheres que estavam por vir naquele mercado de trabalho, porque estava abrindo uma portinha. Pensava que o cliente já não iria ficar com o pé atrás com a próxima mulher que aparecesse para fazer aquele serviço, pois a Camila deu um bom exemplo antes. Chegou um momento em que minha vida profissional estava nas alturas, mas minha vida pessoal estava longe de ser flores. Mesmo nas folgas eu não tinha substitutos e por isso não conseguia descansar. Foi então que recebi uma proposta para trabalhar em Santos-SP, a 20 min da minha residência, onde meu salário seria um pouco menor, mas eu poderia ir para casa todos os dias. Pedi as contas da empresa de dragagem. Não foi uma decisão fácil, mas foi uma das melhores que tomei até hoje. Uma frase que aprendi e levo comigo como mantra: “É muito fácil ser workaholic e é muito fácil ser preguiçoso, difícil é você achar um equilíbrio entre os dois”. Estamos em janeiro de 2018 e comecei meu novo emprego como Survey numa empresa de hidrografia. Agora eu estava do outro lado: se antes eu acompanhava a dragagem, agora eu fiscalizava a dragagem, mais especificamente a do Porto de Santos. Essa empresa de hidrografia é uma das mais reconhecidas do ramo no Brasil. Ela é responsável pela aprovação de diversas batimetrias do tipo Cat A Especial (NORMAN-25-REV2), que são as batimetrias que mudam a carta náutica, o mapa oficial da nossa zona costeira e marinha. Para conseguir esse feito, obrigatoriamente, a empresa precisa ser reconhecida pela Marinha do Brasil. Centenas de novas cartas são enviadas todos os anos, mas apenas algumas dezenas são aprovadas. Naquele momento fiquei muito feliz, não só por ir para casa todos os dias, mas também com a experiência que poderia agregar naquele local. Eram muitos equipamentos e softwares diferentes para eu aprender, e a empresa ofereceu cursos, inclusive internacionais. Naquele momento estava me sentindo A profissional no ramo... e completa. Quando cheguei no primeiro dia de trabalho, conheci uma estagiária de engenharia que, um tempo depois, se tornou auxiliar de batimetria. Ela nunca tinha conhecido uma Survey mulher, então a partir dali eu a “adotei”, ensinando o que eu tinha aprendido e a incentivando para continuar nesse ramo ainda predominantemente masculino. Alguns meses depois havia entrado outra Oceanógrafa como Survey, mas infelizmente ela não ficou muito tempo. Foi meu primeiro contato com outra profissional da área diretamente. De 2014 até 2018, eu tinha agregado ao meu conhecimento dezenas de softwares utilizados para levantamentos e processamentos batimétricos, falava fluentemente inglês e espanhol. Mas algo ainda me incomodava, porque eu tinha uma certa dificuldade na parte física dos equipamentos. Por exemplo, identificar tipos de cabos, caso tivesse que instalar ou desinstalar alguma configuração, também com a parte do hardware... afinal eu sou Oceanógrafa de formação e não tenho conhecimento de T.I. ou eletrônica. Então pensei que precisaria estudar mais e mais, e resolvi começar um curso básico de Hardware e Redes. Incrível como a Oceanografia te leva a lugares que você nem imaginaria que tivesse envolvimento direto com o mar. Uma vez um garoto que estava para se formar em Oceanografia me perguntou: -Camila, como faço para trabalhar na área? Respondi: - O que você tem além da Oceanografia? Tem estágios? Fala outras línguas? Algum outro curso qualquer? Porque se você vai se candidatar para uma vaga de oceanografia, é óbvio que você é Oceanógrafo, mas o que o mercado quer saber é o que mais você pode oferecer. Voltando à empresa de hidrografia, trabalhei lá por apenas sete meses. Isso doeu um pouco, pois não imaginava sair do meu emprego anterior onde fiquei tanto tempo para ficar menos de um ano na nova empresa. Tomei essa decisão de sair pois não estava me sentindo confortável com algumas atitudes da empresa. Assim que eu pedi as contas, vieram conversar comigo, mas não tinha mais clima para continuar por lá. Saí sem perspectivas, desempregada, mas com minha dignidade intacta e com uma conta que me daria uma sobrevida de uns três meses no máximo e bem apertada. As contas chegando, o psicológico dando tilt. Enquanto passava os dias mandando currículo, criei um tempo para não pensar em besteira e comecei a fazer quadros de nós de marinharia para vender (minha 4ª profissão nas horas livres!). Foi uma experiência bem bacana, mas não queria aquilo para minha vida. Se tem algo que eu amo é minha profissão de oceanógrafa e queria/precisava voltar para a área. Passado 1 mês, 2 meses... no 3º mês eu já estava surtando! A oferta de emprego não chegava, então decidi abrir minha própria empresa, a CBA Oceanography. E não é que deu certo?! Não estava nem com o número do CNPJ ainda, quando uma empresa de batimetria offshore entrou em contato comigo, perguntando os valores da minha diária e se eu estava disponível para viajar. Nem acreditei! Foi meu primeiro passo na área offshore, que são empresas voltadas para o ramo de mar aberto, quilômetros de distância da costa. Utiliza-se equipamentos mais robustos (chamados subsea), e geralmente as operações são voltadas para monitoramento ou instalação de cabos submarinos ou em conjunto com plataformas de petróleo, chegando a mais de 4000 m de profundidade em cada projeto. Trabalhei por três meses nessa empresa com o objetivo de monitorar o fundo marinho de Natal-RN até Fernando de Noronha, para um lançamento de cabo submarino, onde eu e a equipe saímos numa reportagem do G1 pelo projeto. Acabou o projeto, mas os amigos ficaram. Um deles, oceanógrafo da UFES, disse que a universidade precisava de um treinamento rápido sobre um software de levantamento e processamento batimétrico, e me perguntou se a faculdade me pagasse poderia ensinar, já que eu tinha experiência. Óbvio que aceitei! Janeiro de 2019. Minha primeira turma de Treinamento de Configuração de Multibeam e Softwares, foi incrível! Graduados e mestres em Oceanografia, de olhos e ouvidos abertos para tudo o que eu falava, realmente é algo que vou levar para minha vida. Interessante como nada é por acaso. Durante o curso um dos alunos me perguntou: - Camila, você está gostando de ser autônoma? Respondi: -Sim, mas eu deixaria de ser autônoma se uma empresa que eu tenho interesse, e venho pesquisando há um tempo, me contratasse. Aluno: Qual empresa? Respondi: - DOF Subsea Aluno: - Ah, recebi uma mensagem em um grupo que a DOF está com vaga na área de batimetria... Quando ele falou isso nem acreditei! Peguei o e-mail do contato, acreditando/desacreditando ao mesmo tempo. No dia seguinte mandei um e-mail com meu CV e em umas duas semanas já tinha passado por todas as etapas do processo e conseguido a vaga. Fevereiro de 2019. Entrei na DOF Subsea, onde pela primeira vez encontrei várias mulheres da área tão capacitadas quanto eu, o que me deu bastante confiança para começar essa nova jornada. Lá entrei para um outro nicho de batimetria, com veículos submarinos autônomos (AUV), que consiste num veículo que funciona autonomamente coletando informações geofísicas do fundo marinho. Essas informações incluem o processamento e interpretação de dados coletados com equipamentos chamados sonar de varredura lateral (side-scan sonar) e perfilador de sub-fundo (sub-bottom profiler). Elas permitem uma interpretação geológica detalhada do fundo marinho e de subsuperfície a partir dos dados sísmicos, sonográficos e de batimetria, além de realizar o controle de qualidade dos dados de batimetria e backscatter provenientes do ecobatímetro multifeixe. Nesse ramo eu apliquei meus conhecimentos, mas também estive aberta para muitos outros aprendizados na empresa, como atuar em projetos internacionais. Recentemente fui para Angola, onde trabalhei por dois meses, e em breve estarei nos EUA, também com um projeto de AUV. Esse é um resumo da minha carreira profissional. Gosto de contar para vermos que nem tudo é como a gente imagina, nem fácil ou lindo com as paisagens do Instagram que eu costumo postar. Mas cada conquista e cada obstáculo superado me fizeram ser quem eu sou hoje e me orgulho muito disso. “Não tenha medo de arriscar”. Sobre a autora: Camila Basílio Antunes - Oceanógrafa e atua na área de Geofísica. Paulistana raiz e Caiçara de coração, casada a 5 anos, aquariana, gamer e geek; no meu tempo livre estou no meio desse mundo e tenho o mar como meu segundo lar. Instagram @camih_bas As imagens contidas nesse post, são de autoria própria. #Batimetria #Survey #Oceanografia #Hidrografia #Multibeam #mulheresnaciência #convidados

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