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  • Mulheres, ciência e o mar: navegar é preciso

    Por Natália Roos O meu contato com o mar começou muito cedo. Quando eu era criança, amava explorar o costão rochoso da pequena praia em que minha família costumava passar o veraneio, chamada Barreta, no Rio Grande do Norte. Naquela época, eu já conhecia vários peixinhos por seus nomes populares, porém, não imaginava que um dia chamaria o famigerado peixe “saberé” de Abudefduf saxatilis , ou o “peixe-gato” de Labrisomus nuchipinnis , e que o “peixe vermelho” que eu pesquei aos oito anos se tratava de um Holocentrus adscensionis . Eu costumava andar por todo o costão e nunca tinha medo de nada. Entre algumas insolações, arranhões e beliscões de siris, eu aprendi muita coisa observando a dinâmica daquele lugar. Mal sabia que todo aquele aprendizado seria muito útil vinte anos depois. Eu nunca tive dúvidas de que trabalharia com algo relacionado ao meio ambiente e por isso escolhi cursar Ecologia. Por incrível que pareça, no início eu não pensava em trabalhar com ecologia marinha, o que agora me parece loucura: onde eu estava com a cabeça? A minha relação com o mar tinha adormecido. Somente quando entrei no mestrado, essa relação começou a aflorar novamente, e durante o doutorado, desabrochou de vez e muita coisa aconteceu. Em abril de 2015 lá estava eu navegando rumo à minha primeira expedição na Reserva Biológica do Atol das Rocas para participar de um projeto de microchipagem de tartarugas marinhas . A reserva possui como chefe a Maurizélia Brito, mais conhecida como Zelinha, mulher forte com uma história incrível. O Atol das Rocas localiza-se a 266 quilômetros da costa de Natal/RN, e é o único atol do Oceano Atlântico Sul. Para chegar lá são necessárias 24 horas de navegação em uma embarcação tipo catamarã. Foi a primeira vez em que passei muitas horas em um barco e, assim como quando eu era criança, continuava sem medo de nada. Nessa época eu ainda não tinha muito conhecimento científico sobre peixes marinhos, mas aprendi como era uma expedição de um mês em um local totalmente isolado onde a água doce era só para beber; banheiro e banho, só no mar, dentre muitas outras coisas que só o isolamento em uma ilha proporciona. Mais tarde, em julho de 2016, chegou a hora de fazer minha coleta de dados para o doutorado e junto com ela muitos desafios. O campo envolvia a realização de censos visuais de peixes em diversos ambientes recifais do Rio Grande do Norte através do mergulho autônomo , ou seja, com o uso de equipamentos de suprimento de ar. Detalhe: eu mal sabia mergulhar. Contei com a ajuda de várias pessoas, é claro, incluindo meu amigo e orientador Guilherme Longo, com quem muito aprendi. Mais uma vez, lá estava eu, sem medo de nada e navegando rumo ao desconhecido, literalmente. Não foi fácil: barco de pesca, cheiro de diesel, monta equipamento de um lado, vomita do outro, mergulha, e assim por diante. Na época, eu era a única mulher na equipe. Essa foi a minha rotina de trabalho de campo mensal durante praticamente um ano e meio. Apesar de não ter sido fácil, o conhecimento que adquiri nessa época foi enorme e transformador. Em pouco tempo, aprendi o nome científico de diversos peixes, corais, algas, esponjas e sobre as várias interações entre esses organismos, o que só aumentou o meu fascínio pelo mar. De quebra, aprendi de vez a mergulhar. Quando me dei conta, eu estava navegando em um mar de oportunidades. O conhecimento adquirido durante o doutorado me abriu muitas portas. Tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, incluindo mulheres cientistas que muito admiro, dentre elas, Roberta Bonaldo, Mariana Bender e Beatrice Padovani. Também tive a oportunidade de voltar à Reserva Biológica do Atol das Rocas como parte da equipe do Projeto de Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Ilhas Oceânicas Brasileiras (PELD-iloc). A expedição de 2019 no Atol ocorreu entre maio e junho e contou com a participação de três mulheres cientistas: eu, Tainá Gaspar e Isadora Cord; e do querido Jarian Dantas, funcionário da reserva que conhece o local há mais de vinte anos e estava lá para nos guiar. Durante a expedição realizamos diversas atividades, incluindo novos censos visuais de peixes, monitoramento da estrutura da comunidade bentônica e da saúde, branqueamento e recrutamento de corais, coleta de algas para extração de seus metabólitos, investigação do comportamento alimentar de peixes herbívoros, dentre outras. O Atol das Rocas abriga um ecossistema único importante para muitos organismos, incluindo tubarões, tartarugas marinhas, peixes recifais endêmicos, corais e aves marinhas. Voltar a este lugar único depois de quatro anos com um olhar diferente e novos conhecimentos, foi emocionante. Pensando sobre a minha trajetória até aqui, tenho vontade de dizer a todas as mulheres (e serve para mim como um lembrete): vocês não imaginam do que são capazes! Eu pelo menos, não imaginava. Mas ao lembrar de mim aos oito anos de idade no costão rochoso, tudo parece fazer sentido. Nós, mulheres, passamos a vida sendo sistematicamente desencorajadas a fazer diversas atividades, mas saibam que o mar de possibilidades é infinito quando queremos algo e não temos medo – navegar é preciso! Sobre Natália: Ecóloga, doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Atualmente é pós-doutoranda no Laboratório de Ecologia Marinha (LECOM) da UFRN. Durante o doutorado, utilizou tributos bioecológicos, demografia e ferramentas moleculares com o objetivo de avaliar a vulnerabilidade do budião azul ( Scarus trispinosus ) e subsidiar ações para a conservação da espécie. Em seu tempo livre treina capoeira angola. Email: nataliaroos@gmail.com #vidadecientista #EcologiaMarinha #Mergulhadoras #mulheresnaciência #ilhasoceânicas #atol #convidados #mergulhocientífico #NatáliaRoss

  • Roda de Conversa "Mulheres nas ciências" - I Sembio-UFSB

    No dia 26 de setembro de 2019, nossa editora Gabrielle Souza participou da roda de conversa sobre Mulheres nas Ciências organizada por ela e pelo coletivo de Mulheres nas Ciências da UFSB. A atividade foi parte da programação da I Semana de Biologia da UFSB, que teve como tema “Dialogando saberes para tecer novas percepções na Biologia”. Coletivo de Mulheres nas Ciências da UFSB com ganhadoras do sorteio realizado após a roda de conversa #netuniandoporai #Gabriellesouza #mulheresnaciência

  • Is the Pacific Ocean getting smaller?

    By Jana M. del Favero English edit Carla Elliff Before answering this question, we must understand some concepts and theories. So, grab a world map and observe. By looking at this kind of map we are under the impression that our continents are anchored for good to a certain point of the Earth’s surface, right? But, in fact, they are drifting around the world over time. During the time it takes you to read this post, the place where you are will have slowly but surely drifted.  Looking at our world map again we can see an impressive jigsaw formed by the coastlines of either side of the Atlantic Ocean, especially along Africa and South America. This suggests that if you carefully put together the borders of all continents, they can be regrouped into a single landmass, solving the jigsaw puzzle. By using geological and paleontological (mainly fossils) information, the German meteorologist and geophysicist Alfred Wegener presented to the world in 1915 a new hypothesis to understand the history of Earth: the continental drift . According to Wegener, between 100 and 150 million years ago, a single landmass called Pangea broke up and its pieces, which are now our continents, moved apart, opening up new ocean basins between them (an important detail here is that if there used to be a single supercontinent, there was also a single ocean, which was called Panthalassa ). However, several researchers objected to Wegener’s affirmation that the granite crust of the continents could “plow” its way through the denser basalt crust of the oceans. At the time, some geophysicists calculated that continental drift was not possible. In addition, Wegener himself could not explain why the continents drifted. Thus, Wegener’s theory remained ignored for over half a century.  However, with the later discovery of the Mid-Atlantic Ridge mountain range, new similarities were observed between the shape of this feature and the margins of Atlantic continents. Moreover, the seafloor of the valley of this mountain ridge was shown to be composed of newly crystallized basalt. Thus, in the mid-1960s, geologists and geophysicists proposed a new hypothesis: new seafloor and crust are created continuously!  They emerge from the intrusion and extrusion of basalt at the crest of all mid-oceanic ridges. The newly formed crust moves laterally, giving way at the crest of the ridges for new basaltic crust to form. This process, known as seafloor spreading , causes the expansion of ocean basins and this is how the continents on each side of the basin move with the seafloor, thus explaining continental drift! The continental drift hypothesis then became part of a larger theory: plate tectonics . This theory was formulated in the 1960s and is based on the idea that the planet’s surface is divided into a series of plates with borders that are defined by seismicity, which means the frequency/amount, magnitude/strength and distribution of earthquakes. These plates, known as tectonic or lithospheric plates, are like thin pancakes covering our planet because they are much wider than they are thick – their width can be 10 to 50 times greater than their thickness.  In all ocean basins there are plates that are moving apart forming mid-ocean ridges and new seafloor ( seafloor spreading ).  In turn, other plates, especially those around the Pacific Ocean are undergoing a process called subduction : when a pair of plates actively collide and one plate is “forced” to dive under the other towards the asthenosphere (Earth’s second layer, right below the lithosphere), where it melts and is incorporated into the magma. When the continents of two different plates meet at a subduction zone, they collide and squash the marine sediments between each other, lifting them up and creating huge mountain folds, like those found in the Himalayas.  Last but not least, when the lithosphere is neither created nor destroyed at the limit of plates, we have what is called a transform fault . In these cases, plates slide along the sides of each other. Now we are ready to get back to our initial question: is the Pacific Ocean getting smaller? The answer is yes! Since there are very few subduction zones in the Atlantic, Indian and Arctic oceans, these basins are expanding due to seafloor spreading. On the other hand, most subduction zones are found at the margins of the Pacific Ocean. Since subduction rates are much greater than the rates of producing new seafloor at the mid-oceanic ridges, simply because there are more spreading regions than subduction zones, the result is that the Pacific Ocean is shrinking on a geological time scale. Sources:  Garrison, T. Essentials of oceanography. 5a edição. Brooks/Cole, Cengage Learning, 464 p.  Pinet, P.R. 2014. Invitation To Oceanography. 7a edição. Jones & Bartlett Learning. 662 p. #chatjanamdelfavero #marinescience #seafloor #oceanbasins #continentaldrift #platetectonics

  • Dia Mundial da Limpeza 2019

    Todo ano, no terceiro sábado do mês de setembro, é comemorado o Dia Mundial da Limpeza . Em 2019, essa data caiu no dia 21 de setembro e não passou em branco entre as editoras do Bate-Papo com Netuno! O objetivo dessa data é atrair os olhares do mundo para o problema da poluição das nossas praias e nossos rios. Isso é feito por meio de mutirões de limpeza nesses ambientes, organizados por escolas, ONGs, cientistas ou qualquer pessoa que se sensibilize com a causa. Também não é incomum pessoas tomarem iniciativa sozinhas para fazer sua ação em escala individual. Foi o caso de nossas editoras Jana Del Favero e Raquel Saraiva este ano, que mesmo sem participar de grandes mutirões, fizeram sua parte. Jana caminhou ao longo dos três quarteirões que separam sua casa da praia no Rio de Janeiro em uma ação de limpeza solo. Ela coletou todo o lixo que encontrava pelo caminho e ficou chocada pelo resultado: três pilhas, um circuito elétrico, plástico de presente, garrafas, latinhas e bitucas, muitas bitucas! Esse lixo todo corria o risco de parar na praia, carregado pelo vento e chuva. Já Raquel realizou uma ação individual em água doce. Às margens do rio Negro, na província de Rio Negro, na Argentina, Raquel coletou diversos itens de lixo que eventualmente chegariam no litoral, fazendo estrago pelo caminho. Voltando a terras (e mares) brasileiros, as editoras Catarina Marcolin , Gabrielle Souza , Carla Elliff e Juliana Leonel participaram de mutirões em diferentes cidades. No Nordeste brasileiro, Catarina acompanhou sua filha, Clara, em uma atividade de limpeza na cidade de Porto Seguro (BA). Ela ficou encantada pela iniciativa ter partido da escola de Clara! Gabrielle também participou de uma ação em Porto Seguro, porém organizada pela Plogging Porto Seguro. Essa foi o maior dos mutirões entre aqueles que nossas editoras participaram! Quase mil pessoas se dividiram em setores diferentes da cidade e retiraram 354 sacos de lixo das praias e rios da área. Foi a primeira participação de Gabrielle em um evento desse tipo e ela lamentou a necessidade dessas limpezas. Porém, como ela mesma ponderou, se esse trabalho de formiguinha servir para fazer alguém repensar suas atitudes e consumo, já terá valido a pena! Gabrielle e voluntários (a maioria nessas fotos alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Sul da Bahia, UFSB) participando de mais uma ação em Porto Seguro. Saindo do Nordeste e indo até o Sul do país, Carla aproveitou o mutirão de limpeza realizada no município de Imbé (RS) para apresentar seu projeto “ A areia sob nossos pés ” (financiado pela American Geophysical Union - AGU e extensão pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS). Ela e outros integrantes do projeto levaram uma lupa e amostras de areia poluídas por microplásticos e pellets plásticos, para que os participantes da ação pudessem ver o quão sério é o problema da poluição de nossas praias. Carla coordena o projeto “A areia sob nossos pés” e convidou participantes do mutirão de limpeza em Imbé (RS) a olharem nossas praias mais de perto. Já Juliana participou de uma ação em Florianópolis (SC). A atividade foi realizada no Campus Trindade da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e foi organizada pelas iniciativas UFSC Sem Plástico junto com a Juventude Lixo Zero. Um total de 30 voluntários limpou a área por 40 minutos. Nos mais de 25 kg de lixo coletados, as campeãs em quantidade foram mais uma vez as bitucas! Ao todo foram mais de 1700 bitucas, 111 carteiras de cigarro, 184 garrafas de vidro, 513 copos plásticos, 200 garrafas PET, entre muitos outros materiais. Mutirão de limpeza realizada pela UFSC Sem Plástico junto com a Juventude Lixo Zero. Clique na seta da direita para saber mais! (Crédito pelas imagens: UFSC Sem Plástico). E você? Participou de alguma ação esse ano? O próximo Dia Mundial da Limpeza será dia 19 de setembro de 2020, não perca! #netuniandoporai #diamundialdalimpeza #lixomarinho #poluição #janamdelfavero #raquelmoreirasaraiva #catarinarmarcolin #gabriellesouza #carlaelliff #julianaleonel

  • Botos e humanos: amigos de pescaria

    Por Carla Elliff Uma amizade tão bela quanto improvável. Ilustração: Joana Ho . Tainha na brasa é um dos pratos mais típicos do litoral sul do Brasil e a forma como esse peixe vai do mar ao seu prato em dois locais em particular traz uma história surpreendente. Acredita-se que a pesca artesanal da tainha tenha origem indígena, tendo sido depois influenciada por imigrantes vindos do Arquipélago do Açores que assentaram nesta região do país, passando a tradição de geração para geração. Mas os pescadores artesanais e as tainhas não são os únicos atores nessa história. Um grande aliado dos pescadores são os botos, caracterizando o que se chama de pesca cooperativa . Esses botos são da espécie Tursiops gephyreus , sendo seu parente mais próximo comumente chamado de golfinho-nariz-de-garrafa em outros lugares do mundo. Aliás, o gênero dessa espécie ( Tursiops ) é o mesmo do personagem no filme Flipper (Universal Studios, 1996)! Esses cetáceos são animais inteligentes e com comportamentos bastante complexos, inclusive com relação à comunicação e à socialização. Eles se orientam e caçam usando ecolocalização , um processo onde o animal emite um som e percebe os ecos produzidos para calcular a distância entre as coisas. Foi combinando essa estratégia de ecolocalização e uma parceria com os pescadores locais que esses botos desenvolveram uma nova maneira de se alimentar. Boto da espécie Tursiops gephyreus (foto por Ignacio Moreno). Atualmente há apenas dois locais no mundo onde esse ritual de amizade na pesca acontece: no estuário do município de Laguna (SC) e na Barra do Rio Tramandaí, entre os municípios de Imbé e Tramandaí (RS). Registros históricos sugerem que a prática também era comum nos estuários próximos aos municípios de Araranguá (SC), Torres (RS) e na Lagoa dos Patos (RS), mas hoje já não se vê esse fenômeno com tanta frequência. Você deve estar se perguntando: por que essa pesca cooperativa só acontece nesses dois lugares? Como os botos aprenderam a pescar junto ao ser humano? Não tem perigo de a pesca fazer mal aos botos? Perguntas assim, muitas ainda sem a resposta exata, têm motivado cientistas a pesquisar sobre o tema, como o Professor Ignacio Moreno da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que tão gentilmente forneceu imagens tiradas por ele e seus colegas para ilustrar o post de hoje! O prof. Ignacio é coordenador do Projeto Botos da Barra , realizado dentro do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) da UFRGS. O objetivo do projeto é valorizar e conservar a pesca cooperativa, garantindo a continuidade dessa prática e a sobrevivência da comunidade de pescadores e botos na Barra do Rio Tramandaí. E, afinal, como é que acontece essa parceria? Na Barra do Rio Tramandaí, quando os botos detectam um cardume de tainhas, eles o perseguem e o leva para próximo das margens. Os pescadores, munidos de suas tarrafas (um tipo de rede de pesca circular), ficam lá a postos, esperando os sinais característicos que os botos fazem com suas cabeças, indicando que é hora de jogarem suas redes sobre o cardume encurralado. Sim, os botos acenam para os pescadores para avisar que os peixes estão ali! Assim, os pescadores conseguem pegar mais peixes em uma só tarrafeada e os botos conseguem abocanhar mais facilmente as tainhas que ficam desorientadas com a rede batendo na água. Boto garantindo sua tainha (fotos por Ignácio Moreno). Essa pesca de tarrafa é considerada uma estratégia sustentável por várias razões. Por exemplo, por se tratar de uma pescaria para comércio local ou até de subsistência , ou seja, consumo próprio, a pressão sobre os recursos pesqueiros é muito menor do que no caso da pesca industrial. Além disso, usando uma malha de tamanho adequado, a tarrafa se torna um material (ou petrecho de pesca ) seletivo, capturando apenas peixes adultos de interesse comercial. Com anos de convivência e ajuda mútua, criaram-se laços afetivos genuínos nessa interação. Os pescadores, que consideram os botos seus amigos, sabem identificar pelo nome qual deles está ajudando (ou às vezes atrapalhando). Tem a Geraldona, a Rubinha, o Chiquinho, o Lobisomem (conhecido por ser guloso e ter aprendido a abrir a tarrafa embaixo d’água!), a Manchada... Uma verdadeira família! No entanto, nem tudo é alegria nessa história. A ocupação urbana do litoral norte do RS tem crescido de maneira intensa e desordenada, levando a impactos ambientais como a supressão de campos de dunas, a perda, fragmentação e desmatamento da vegetação nativa, a geração de resíduos sólidos em excesso, a contaminação da água, e o ruído e tráfego intenso de embarcações e de esporte náuticos. Além disso, a profissão de pescador artesanal apresenta certa vulnerabilidade social: apesar de oferecer uma oportunidade de pesca sustentável, é pouco valorizada e há menos jovens hoje aprendendo a tradição. Esse cenário serve para reforçar a necessidade de medidas individuais e coletivas para melhorar o meio ambiente. Por exemplo, após a implementação de leis de zoneamento na área em 2016 e a fiscalização decorrente, os botos começaram a aparecer mais frequentemente durante o verão – época do ano em que eles não apareciam tanto, o que podia estar associado às intensas atividades de turismo e superpopulação de pessoas nesta área. Então, lembre-se: se você estiver pelo litoral norte do RS ou em Laguna (SC), vá cedinho para praia e garanta sua tainha diretamente com o amigo do boto! Para saber mais: Projeto Botos da Barra: https://www.facebook.com/ProjetoBotosdaBarra/ botosdabarra@ufrgs.br Guia de apoio pedagógico para educadores: interação entre pescadores, botos e tainhas: aprendizados sobre cooperação, tradição e cultura. Eliza Berlitz Ilha e colaboradores. Porto Alegre: UFRGS, 2018. 90p. #ciênciasdomar #cetáceos #golfinho #boto #pesca #pescacooperativa #pescasustentável #carlaelliff #joanaho

  • Reciclagem de Plásticos

    Por Juliana Leonel Uma das maiores causas da contaminação do ambiente marinho por resíduos plásticos é a falta de gerenciamento adequado desse material que, muitas vezes, poderia ser destinado a cooperativas de reciclagem. Mas daí surgem algumas questões importantes. Todos os plásticos podem ser reciclados? Todos os plásticos são reciclados pelas mesmas técnicas? A reciclagem de plásticos é um processo simples? Quanto custa reciclar um plástico? Antes vamos rever o que é reciclagem: processo de converter material descartado (= resíduo) em novos materiais e produtos. A reciclagem ajuda a diminuir o problema do descarte de resíduos e a necessidade de extrair/gerar matéria prima nova para produção de materiais. Isso resulta em menor emissão de gases estufas, uso de água, e poluição aquática e atmosférica. Agora vamos lembrar que plásticos são formados por polímeros sintéticos (polímeros = macromoléculas formadas a partir de unidades estruturais menores). Existem dois grupos principais de plásticos de acordo com os tipo de polímeros usados: os termoplásticos e os termorrígidos (ou termofixos) . Os termoplásticos são aqueles que podem ser conformados e moldados quando aquecidos. Este grupo engloba 80% dos plásticos e inclui o polipropileno e o polietileno. Apesar de terem menor estabilidade térmica (resistência a altas temperaturas) que o termorrígidos, podem ser reprocessados diversas vezes e, consequentemente, podem ser reciclados. No entanto, perdem propriedades a cada ciclo de reciclagem, ou seja, só podem ser reciclados um certo número de vezes. Exemplos: garrafas PET e embalagens plásticas. Já os termorrígedos são aqueles em que a rigidez dos polímeros não se altera com o aumento da temperatura, ou seja, os polímeros não derretem e nem permitem serem moldados mesmo quando aquecidos. Isso impede a reciclagem desse material pelas formas convencionais. Alguns exemplos de termorrígedos são borracha vulcanizada, poliéster e resina epóxi. Classificação dos plásticos Nos itens feitos de termoplásticos é possível encontrar um número rodeado por um triângulo de setas. Mas você sabe o que significa esse símbolo? Esse símbolo serve para identificar o tipo de polímero usado para fabricar o item em questão e, dessa forma, orientar as pessoas quanto à maneira correta de fazer o descarte seletivo. Isso porque diferentes tipos de polímeros precisam de diferentes técnicas para serem reciclados e a empresa que recicla um deles não necessariamente irá reciclar os demais. A classificação dos plásticos (seguindo a numeração de 1-7) é seguida internacionalmente e no Brasil ela é estabelecida pela NBR 13.230/2008: Plástico tipo 1 - Politereftalato de Etileno (PET): é um dos tipos de plásticos mais utilizados pelos consumidores e inclui embalagens de refrigerante e água, potes de margarina, bandeja para microondas, frascos de cosméticos etc. Ele é produzido usando o petróleo como matéria-prima. Por ser um termoplástico, sua reciclagem é possível. No entanto, quando misturado com fibras de algodão (no caso das roupas de PET) sua reciclagem fica inviabilizada. Plástico tipo 2 - Polietileno de Alta Densidade (PEAD): material plástico altamente utilizado por ser resistente a quebra e a baixas temperaturas, leve, impermeável, rígido e com resistência química. Seus principais usos são em embalagens de detergentes e shampoos, óleos lubrificantes, sacolas de supermercados, tampas, potes, entre outros. Sua matéria-prima principal é o petróleo, mas pode ser também produzido a partir de fontes vegetais (nesse caso temos os bioplásticos). Plástico tipo 3 - Policloreto de Polivinila (PVC): termoplástico muito utilizado em tubulações e encanamentos, mangueiras, embalagens para remédios, maionese e sucos, brinquedos, material hospitalar, entre outros. Por possuir cloro na sua composição apresenta alguns problemas ambientais tanto na produção quanto na reciclagem; por exemplo, o uso de compostos tóxicos (com cloro em sua composição) como matéria prima. Plástico tipo 4 - Polietileno de Baixa Densidade (PEBD): usado em sacos transparentes, filmes, sacaria industrial, fraldas descartáveis, embalagens, rótulos, entre outros. Por ser um material leve, transparente, flexível e impermeável é amplamente utilizado. Plástico tipo 5 - Polipropileno (PP): trata-se um termoplástico produzido em formas variadas. Devido à sua resistência (inclusive a altas temperaturas e ao congelamento), transparência e rigidez, tem diversas aplicações, incluindo em filmes de revestimento, fibras têxteis em roupas térmicas, cartões bancários, recipientes reutilizáveis, seringas, entre outros. Plástico tipo 6 - Poliestireno (PS): usado em espumas para embalagens, talheres, embalagens para proteção de produtos eletrônicos, pratos e copos descartáveis, etc. Possui características de leveza, isolamento térmico, baixo custo, flexibilidade e moldabilidade. Nesse grupo encontra-se o poliestireno expandido, ou isopor; e o poliestireno extrudado. Plástico tipo 7 - Outros: plásticos formados das misturas dos outros 6 tipos e que não podem ser reciclados. Isso significa que existem apenas sete tipos de plásticos? Não! Existem muitos outros tipos de plásticos, tanto termoplásticos como termorrígidos, que não foram englobados na classificação acima. Tipos de reciclagem Além dos dois grupos de plásticos e das sete classificações de termoplásticos, existem diferentes tipo de reciclagem: a) reciclagem física: o plástico é fragmentado, aquecido e remoldado em novos produtos. b) reciclagem química: processo químicos para recuperar resinas plásticas fazendo-as voltar ao estágio químico inicial. Essa técnica tem mais flexibilidade sobre a composição do material a ser reciclado e é mais tolerante a impurezas. No entanto, é muito mais cara que a anterior. c) reciclagem energética: transformação dos plásticos, através de incineração, em energia térmica ou elétrica. Apesar de usado em alguns lugares do mundo, essa técnica gera debate porque não considera o gasto de matéria prima e os problemas (contaminação) gerada caso a incineração não seja feita em condições adequadas. Quando a reciclagem pode ser um problema É importante também salientar que aos polímeros que dão origem aos plásticos também podem ser adicionados plastificantes, corantes, estabilizantes, retardantes de chama etc. Dessa forma, quando novos produtos são feitos com plásticos reciclados esses compostos vão junto. Mas isso pode ser um problema? Sim, isso pode ser um problemão. Durante muitas décadas difenis éter polibromados (PBDEs) foram adicionados aos plásticos com o objetivo de evitar que pegassem fogo (ou para retardar esse processo em caso de incêndio). No entanto, hoje sabemos que os PBDEs são um tipo de poluente orgânico persistente e seu uso é proibido. Assim, quando um produto plástico contendo PBDEs é reciclado, o novo produto também terá em sua composição PBDEs (mesmo hoje eles sendo proibidos). Voltando às nossas perguntas: Mas todo os plásticos podem ser reciclados? Não. Todos os plásticos são reciclados pelas mesmas técnicas? Não. A reciclagem de plásticos é um processo simples? Não. Isso são alguns dos motivos pelos quais a reciclagem deve ser a última opção entre "repensar - recusar - reduzir - reparar - reusar - revolucionar - reciclar". Ou seja, antes de comprar ou de aceitar um produto de plástico, pense e repense: eu realmente preciso disso? Caso positivo, eu consigo reduzir o consumo desse item? Tenho alternativas ao uso desse item? Depois de adquirido, eu consigo dar outros usos para o mesmo produto? Por fim, somente quando não tiver mais uso, descarte o material, e de maneira correta. #descomplicando #julianaleonel #plásticos #reciclagem #plástico

  • Conexão Oceano

    Em meio a atores, atletas, jornalistas, empresários e professores, nossa editora Jana del Favero apresentou, no último dia 3 de setembro, o Blog Bate-papo com Netuno como um case de sucesso em comunicação científica no Conexão Oceano. Voltado para comunicadores, influenciadores, acadêmicos, pesquisadores e sociedade em geral, o evento gratuito uniu participantes ligados pelos ecossistemas marinhos para mobilizar o público pela defesa desses ambientes. Em sua fala, Jana reforçou a importância dos cientistas na geração de dados e busca de soluções para os problemas do reino oceanográfico e mostrou como o blog tem reafirmado seu compromisso em conectar os oceanos, os cientistas e a sociedade. O Conexão Oceano foi promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da UNESCO, UNESCO BRASIL e Museu do Amanhã. Ele teve o objetivo de conscientizar e engajar as pessoas sobre a importância dos mares e trazer o tema à tona, já que o período entre 2021 e 2030 foi declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a Década dos Oceanos. A apresentação completa da nossa editora pode ser assistida no nosso canal: https://www.youtube.com/watch?v=Waxa-7juByU #netuniandoporai #conexaooceano #fundacaooboticario #iocunesco #museudoamanha #decadadosoceanos #ods #janamdelfavero

  • The air that you breathe

    By Cláudia Namiki English edit Carla Elliff On 2018 September 3rd I received a ‘beautiful’ message congratulating me on Biologist Day (celebrated on this date in Brazil), which said: “Biology: thank you so much for NOT being a part of my life”. After realizing the NOT in this phrase, I couldn’t help but think about the paradox presented. Bio means life, so the human being that wrote this message was most likely alive and kicking, using up oxygen produced by other living beings through photosynthesis in order to maintain their cells working, while thinking how biology has nothing to do with his/her life… Illustration by Joana Ho What if I told you that a large portion of the oxygen consumed by this individual was produced by microalgae and cyanobacteria, organisms that are so small you can’t even see them? These microorganisms form a group we call phytoplankton, which in addition to supporting the whole marine food web, are also responsible for approximately 40% of all the oxygen produced annually on the planet, according to the American biological oceanographer Dr. Paul Falkowski. This means that while you can’t see microalgae and cyanobacteria when looking at the ocean, keep in mind that they can affect the oxygen and carbon cycles on Earth just as profoundly as our lush terrestrial plants. (Check out why algae are not plants ). But the importance of these minute critters does not stop there: life on our planet as it is today would not exist without cyanobacteria. Geologists have found that during the first half of the 4.6-billion-year existence of Earth there was no free oxygen in the planet’s atmosphere. Oxygen started to accumulate in our atmosphere only 2.4 billion years ago, thanks to the photosynthesis of ancestors of current cyanobacteria. Terrestrial plants only appeared 2 billion years ago, as explained by Dr. Falkowski, after the levels of atmospheric oxygen started to increase. This means that all Homo sapiens sapiens , including yourself, of course, and all other life forms that depend on oxygen owe their existence largely to the appearance of a single cell able to obtain energy from the Sun to transform inorganic matter (carbon, water and other nutrients) into nourishment. So, don’t think that Biology is not a part of your life just because you haven’t pursued a career in this subject! It is everywhere, including in the air you breathe! To know more, check out this video . I also recommend the song Spyro Gyro by Jorge Ben, just so you have proof that microalgae can even influence Brazilian music. ;) Related post: Ocean fertilization and climate change ( https://www.batepapocomnetuno.com/post/ocean-fertilization-and-climate-change ) References: Paul G. Falkowski. The role of phytoplankton photosynthesis in global biogeochemical Cycles. Photosynthesis Research 39: 235-258. 1994. Paul G. Falkowski. The power of plankton. Nature, 483: 17:20. 2012. #cyanobacteria #marinescience #chatcláudianamiki #chatcarlaelliff #phytoplankton #photosynthesis #joanaho #microalgae #microorganisms #oxygen

  • Ciência combina com você

    Por Catarina R. Marcolin , Tatiana Dadalto e Florisvalda Santos Vocês sabiam que os pilares das universidades são: o ensino, a pesquisa e a extensão? Isso significa que uma instituição de qualidade precisa estar baseada nesse tripé, e cabe a nós, estudantes, pesquisadores e/ou professores realizar atividades focadas em cada um desses pilares. Mas o que cada um desses pilares quer dizer? O ensino é a transferência de conhecimento, com atividades voltadas ao aprendizado dos alunos. A pesquisa é a atividade com construção de novos conhecimentos. E por fim, a extensão é a difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural, da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição para a população. Em outras palavras, a extensão cria uma relação entre a comunidade e a universidade que não precisa ser unidirecional, o ideal é que exista uma troca verdadeira de conhecimentos. Apesar da extensão ser um dos tripés que respaldam as universidades brasileiras, ela ainda é bastante tímida na maioria das universidades, especialmente em cursos de ciências. Sabendo disso, o MEC lançou uma resolução em 2018 que define que cada curso de graduação tenha pelo menos 10% de sua carga horária voltada à atividades de extensão, na tentativa de fomentar uma relação mais íntima entre Sociedade e Universidade. E foi assim, que três professoras do Centro de Formação em Ciências Ambientais da UFSB (incluindo nossa editora Catarina Marcolin), desenvolveram uma oficina no Centro Integrado de Educação de Porto Seguro (CIEPS). Nós convidamos cientistas das ciências do mar para conversar com estudantes do ensino médio sobre suas histórias de vida, sobre como descobriram que gostariam de ser cientistas e as aventuras e percalços ao longo de suas carreiras. Os três convidados são docentes do curso de Oceanologia da Universidade Federal do Sul da Bahia: Silvio Sasaki (oceanografia química), Juliana Quadros (oceanografia geológica) e Andresa Oliva (geofísica marinha). Além de contar um pouco sobre suas histórias, os convidados ainda realizaram experimentos e demonstrações de atividades científicas com os alunos. Foi muito emocionante ver as carinhas de espanto, curiosidade e divertimento dos alunos e alunas à medida em que iam desconstruindo a imagem do que é ser cientista. Afinal, muitas crianças e adolescentes enxergam os cientistas como um homem de óculos, usando um jaleco e com cara de maluco, e não como uma pessoa comum, que pode estar ao lado deles na fila do supermercado! Os melhores momentos da oficina foram compilados no vídeo abaixo. As perguntas que vocês verão ao longo do mesmo são fruto da curiosidade destes/as jovens. Divirtam-se! https://www.youtube.com/watch?v=0mQnJwrIZus Sobre Catarina: Acesse o link para o perfil de nossa editora. Sobre Tatiana: Tatiana Pinheiro Dadalto é oceanógrafa, doutora em Geologia e Geofísica Marinha pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2017). Atualmente, é professora substituta na Universidade Federal do Sul da Bahia. Gosta de passar seu tempo livre em família e também de cozinhar, fotografar e estar ao ar livre em contato com a natureza. Sobre Florisvalda: Florisvalda Santos é agrônoma, doutora em fitopatologia pela Universidade Federal de Lavras (UFLA, 2006). Atualmente, é professora associada na Universidade Federal do Sul da Bahia. Gosta de passar seu tempo livre em contato com horta e jardinagem. #netuniandoporai #catarinarmarcolin #ufsb #ciêncianaescola

  • As algas antárticas contra doenças

    Por Leandro Clementino Ilustração: Joana Ho Quem nunca tomou um chazinho para curar uma dor de cabeça ou para “acalmar” os nervos? Pois bem, naquele chazinho ingerimos substâncias, produzidas por uma determinada planta, que nos ajudam a melhorar. Estas substâncias são chamadas de produtos naturais, ou seja, substâncias produzidas por plantas, animais, microrganismos, etc., que são utilizadas pelo homem desde a antiguidade para a cura de doenças. Estas substâncias são fonte para o desenvolvimento de novos fármacos a partir de uma série de moléculas inéditas, descobertas nos mais diversos organismos. Plantas terrestres são tradicionalmente utilizadas para o tratamento de várias doenças, devido ao conhecimento acumulado por anos pela população sobre caules, folhas, sementes e frutos que possuem alguma propriedade medicinal. Isso despertou o interesse científico para o estudo destas plantas e, ainda, foi mais além... Já que os produtos naturais terrestres apresentam tamanho potencial, o que se pode pensar e afirmar sobre os produtos naturais marinhos? Quando encontramos estas substâncias que apresentam influência no tratamento de alguma doença, as chamamos de moléculas bioativas e em laboratório fazemos uma busca destas moléculas nos mais diversos organismos. Dizemos, então, que fazemos bioprospecção destas moléculas. Embora seja no ambiente terrestre que estão concentrados a maioria dos trabalhos de investigação de produtos naturais, é no ambiente marinho que encontramos a maior diversidade biológica, com cerca de 300.000 espécies de fauna e flora descritas. Nos últimos 50 anos, mais de 20.000 produtos naturais foram descobertos, com as mais diversas aplicações contra micro-organismos, auxiliando o nosso sistema imunológico e até mesmo contra a diabetes. E isto pode ser atribuído ao grande campo de exploração, que vão de algas e fungos até os próprios animais, tornando o ambiente marinho uma fonte de destaque em produtos naturais. Em meio a toda esta diversidade do ambiente marinho, o nosso foco de estudo concentra-se nas macroalgas [ 1 ] , que são utilizadas há muito tempo na alimentação e também no campo medicinal. Elas são distribuídas em três grandes grupos: pardas ou marrons, verdes, e vermelhas. Estes organismos sofrem influência direta do ambiente marinho onde habitam. Por isso, as macroalgas possuem grande aplicabilidade no setor farmacêutico, pois uma vez que ficam expostas a condições climáticas adversas, são capazes de produzir substâncias únicas de grande interesse para o desenvolvimento de novos medicamentos. Macroalga antártica Cystosphaera jacquinotii . Fonte: Arquivo pessoal. Há cerca de dez anos, o projeto “Biodiversidade, monitoramento, estratégias de sobrevivência e prospecção de macroalgas extremófilas da Antártica Marítima”, no âmbito do Programa Antártico Brasileiro, coordenado pelo Professor Doutor Pio Colepicolo (IQ-USP), estuda a diversidade de espécies e diversidade química de algas do continente antártico. As macroalgas desse continente sobrevivem a condições ambientais únicas, em que seu metabolismo produz substâncias importantes para sobrevivência em meio a temperaturas extremamente baixas durante o inverno e temperaturas amenas durante o verão, o que as tornam muito importantes nos estudos de prospecção química de substâncias. O Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular de Tripanossomatídeos está localizado na FCF-UNESP em Araraquara, é coordenado pela Professora Doutora Marcia Graminha e há mais de 15 anos vem somando esforços no descobrimento de novas substâncias com potencial para tratamento das leishmanioses. Nosso laboratório é especializado em doenças negligenciadas, com ênfase em leishmanioses , e somos um colaborador do projeto citado há pouco mais de 5 anos. Este conjunto de doenças causa milhares de mortes anualmente e põem em risco cerca de um milhão de pessoas. A leishmaniose é uma doença infecciosa, transmitida pela picada de insetos, e pode afetar a pele do indivíduo ou seus órgãos internos, a depender da forma da doença. O tratamento disponível para as leishmanioses é baseado no uso de quimioterápicos, não específicos, que são altamente tóxicos, por isso são necessários esforços na busca de novos fármacos, e as macroalgas têm sido uma importante fonte de substâncias que ajudam no combate deste conjunto de doenças. Nosso grupo já testou uma série de substâncias isoladas de macroalgas antárticas, com diversas moléculas que estão em processo de identificação. Todavia, identificamos vários ácidos graxos que apresentaram potencial contra a forma cutânea da doença, causada pela espécie de protozoário Leishmania amazonensis . Estas substâncias foram encontradas nas algas Iridaea cordata (vermelha), Ascoseira mirabilis (parda) e Himantotalus grandifolius (parda) coletadas no continente Antártico, na Baía do Almirantado. Estes dados, embora preliminares, nos mostram um indicativo do quanto as macroalgas antárticas possuem potencial para o desenvolvimento de novos fármacos contra as leishmanioses. Recentemente, em parceria com o Laboratório de Química Orgânica do Ambiente Marinho FCF-USP, coordenado pela Professora Doutora Hosana Debonsi, começamos a avaliar a atividade de substâncias produzidas por fungos endofíticos (que vivem em simbiose com o hospedeiro) provenientes das macroalgas antárticas, tentando explorar ao máximo o potencial dos organismos extremófilos antárticos no combate as leishmanioses. Glossário: moléculas bioativas – São substâncias provenientes da purificação de extratos naturais através de técnicas de separação, como cromatografia. bioprospecção – Pesquisa e exploração da biodiversidade de uma região, dos seus recursos genéticos e bioquímicos de valor comercial. macroalgas – É o termo usado pelos biólogos para se referir a organismos eucariotas, fotossintetizadores e pluricelulares, mas que não tem as estruturas especializadas e as formas de reprodução das plantas verdadeiras. leishmanioses – Conjunto de doenças infecciosas causada por protozoários parasitários do gênero Leishmania transmitidos pela picada de insetos da subfamília dos flebotomíneos ácidos graxos – Ou ácidos gordos, são ácidos monocarboxílicos de cadeia normal que apresentam o grupo carboxila (–COOH) ligado a uma longa cadeia alquílica, saturada ou insaturada. simbiose – Interação entre duas espécies que vivem juntas. Referências: CRAGG, G. M.; NEWMAN, D. J. Natural products: a continuing source of novel drug leads. Biochimica Biophysica Acta , v. 1830, n. 6, p. 3670-3695, 2013. CARDOZO, K. H.; GUARATINI, T.; BARROS, M. P.; FALCÃO, V. R.; TONON, A. P.; LOPES, N. P.; CAMPOS, S.; TORRES, M. A.; SOUZA, A. O.; COLEPICOLO, P. Metabolites from algae with economical impact. Comparative Biochemistry and Physiology Part C : Toxicology & Pharmacology, v. 146, n. 1, p. 60-78, 2007. MAYER, A. M.; RODRIGUEZ, A. D.; TAGLIALATELA-SCAFATI, O.; FUSETANI, N. Marine pharmacology in 2009-2011: marine compounds with antibacterial, antidiabetic, antifungal, anti-inflammatory, antiprotozoal, antituberculosis, and antiviral activities; affecting the immune and nervous systems, and other miscellaneous mechanisms of action. Marine Drugs , v. 11, n. 7, p. 2510-2573, 2013. LOHARIKAR, A.; DUMOLARD, L.; CHU, S.; HYDE, T.; GOODMAN, T. Status of new vaccine introduction – worldwide, september 2016. Weekly Epidemiological Record , n. 1, 2017. Disponível em: < http://www.who.int/wer/2016/wer9123.pdf >. Acesso em: 20 Mai. 2017. RANGEL, K. C.; DEBONSI, H. M.; CLEMENTINO, L. C.; GRAMINHA, M. A. S.; VILELA, L. Z.; COLEPICOLO, P.; GASPAR, L. R. Antileishmanial activity of the Antarctic red algae Iridaea cordata (Gigartinaceae; Rhodophyta). J Appl Phycol , v. 31, p. 825-834, 2018. https://doi.org/10.1007/s10811-018-1592-1. Sobre o autor: Leandro Clementino é graduado em Engenharia de Biotecnologia e Bioprocessos (UFCG-PB), Mestre e Doutorando em Biotecnologia (UNESP-SP). Desenvolve projetos voltados para o descobrimento de substâncias bioativas contra as leishmanioses. Trabalha com identificação de metabólitos naturais de plantas tropicais e macroalgas antárticas, bem como substâncias sintéticas e possíveis mecanismos de ação. #macroalgasantárticas #produtosnaturais #leishmanioses #substânciasbioativas #doençasnegligenciadas #ciênciasdomar #convidados

  • Praias: a complexidade dos grãos de areia

    Por Jana M. del Favero Lugar de lazer, habitat de muitos seres vivos e escritório de surfistas e pesquisadores. Não importa como é utilizada, e nem a cor e a profundidade do mar ou extensão da faixa de areia: o termo praia é usado livremente para falar geograficamente da parte da superfície terrestre que toca o mar. Pensando assim, o termo representa desde ambientes de praias oceânicas abertas, com alta energia de ondas, até ambientes estuarinos , extremamente protegidos. Existem também praias de ambientes de água doce, mas não falaremos neles por aqui. Apesar dessa amplitude de significados, de maneira geral, pode-se considerar praias arenosas como áreas do litoral abertas para o mar, com sedimento inconsolidado que é constantemente retrabalhado pelas ondas. Esses ambientes dominam a maior parte da linha de costa dos trópicos, como aqui no Brasil, e regiões temperadas. O que conhecemos popularmente como areia é em sua maioria uma mistura de partículas irregulares de quartzo, com fragmentos de conchas e detritos derivados de fontes marinhas e terrestres. No entanto, o termo “areia” na verdade se refere ao tamanho do grão (que varia de aproximadamente 0,1 mm a 2 mm), indiferente da composição, que pode ser muito variável. Areias podem ser mais finas ou mais grossas, a depender, por exemplo, do grau de ação das ondas: as praias protegidas têm partículas de areia mais finas do que as expostas, pois a energia das ondas só é suficiente para ressuspender e transportar grãos de pequeno porte. Além disso, existem praias que são formadas não só por areia, mas também por grãos de outros tamanhos. Existe um gradiente em tamanho de partícula entre cascalho, areia e lama, com a lama sendo composta de partículas bem mais finas (chamadas silte e argila) e depositada em áreas de pouca movimentação das ondas, como nos estuários. À medida que o tamanho de partícula aumenta, o sedimento é então chamado de cascalho (veja mais sobre sedimentos marinhos nesse post ). Estes substratos de partículas grandes não retêm água por causa de sua alta porosidade. Essa característica contribui para uma ausência ou baixa diversidade de vida em uma praia de cascalho. Divisões de uma praia A praia está subdividida em inúmeros ambientes: a zona de antepraia , que se estende da zona de arrebentação , onde as ondas começam a quebrar, até a zona de espraiamento , onde a praia é coberta e descoberta com o aumento da onda, formando um espelho d’água em alguns casos. À medida que o ciclo das marés cobre e descobre a praia, a zona de antepraia avança e retrocede. A região entre a zona de arrebentação e a zona de espraiamento, a chamada zona de surfe é onde a maior parte de energia de onda se dissipa - e onde os surfistam surfam. A berma é caracterizada pela proeminente deposição de sedimentos carreados pelas ondas, constituindo um acúmulo de areia que mantém uma superfície superior plana e uma inclinação relativamente íngreme em direção ao mar. A zona costa afora é o mar aberto que se encontra ao largo da zona litorânea, e a zona do pós-praia é a região compreendida entre a crista do berma até o início das dunas. Classificações das praias As praias arenosas são classificadas de acordo com as sua declividade e a intensidade da quebra das ondas, já que a quantidade de energia liberada na arrebentação condiciona a distribuição dos grãos de sedimento. Assim, elas podem ser classificadas em: Refletivas : possuem grande declividade, tamanho de grãos maior e incidência de ondas com alta energia sobre a face da praia; Dissipativas : apresentam uma extensa região de quebra de ondas, onde a energia vai se dissipando. Na face da praia a energia de ondas é baixa, com granulometria mais fina e pouca declividade; Intermediárias : abrangem todas as praias que ficam entre os extremos dissipativos e refletivos. Veja fotos desses diferentes tipos de praias aqui . Biodiversidade das praias Os animais necessitam de adaptações especiais para viver em um ambiente onde substrato é fisicamente instável, já que os grãos de areia são continuamente movido pela água. O deslocamento contínuo da superfície de praias expostas exclui a possibilidade de morada para grandes espécies sésseis e grande epifauna (animais que vivem na superfície de um substrato do fundo marinho). Além disso, as praias de areia contêm relativamente baixas concentrações de matéria orgânica, o que significa que há menos disponibilidade de alimento para algumas espécies. Mas nem tudo é problema! Por outro lado, a areia funciona como um tampão contra grandes flutuações de temperatura e salinidade e como capa protetora para intensa radiação solar. Assim, organismos que se enterram nas areias são mantidos úmidos e protegidos. Embora existam diferenças no ambiente e na distribuição de espécies, os padrões de zonação não são tão claros quanto em costões rochosos (falaremos sobre costões rochosos em um próximo Descomplicando). A zonação nas praias arenosas é dinâmica e variável, pois quando a maré sobe, muitas populações mudam suas posições podendo ir em direção ao pós-praia ou procurando abrigo. Viu quanta informação cabe em uma praia? E agora, quando for a uma você irá olhá-la de maneira diferente?! #janamdelfavero #descomplicando #oceanografia #praiasarenosas #areia #praia #grãodeareia #sedimentomarinho

  • E agora, para onde vamos? Sobre ovos e larvas de peixes e as áreas de proteção ambiental marinhas

    Por Clarissa Akemi Kajiya Endo Ilustração: Joana Ho O Brasil possui uma vasta área oceânica, a Amazônia Azul, com aproximadamente 4,5 milhões de km². Sabe o que isso representa? Mais da metade da área continental do país! Além de ser extensa, é uma região bastante rica, não somente em recursos minerais (como o petróleo e gás natural), mas também em diversidade biológica. Como sabemos, esses ecossistemas marinhos são impactados pelas mudanças ambientais, causadas por variações climáticas e pelas atividades humanas. Para tentar proteger uma porção destes diversos ecossistemas, foram criadas as áreas de proteção ambiental marinhas ( APAs marinhas ). Dentre as áreas que são comumente protegidas estão os recifes de coral , que são ecossistemas especialmente sensíveis às mudanças ambientais, pois algumas espécies de peixes recifais e os próprios corais possuem movimentação limitada quando adultos. Mesmo assim, sabia que algumas espécies de peixes são encontradas em recifes de coral tanto no litoral como nas ilhas oceânicas, separados por distâncias de centenas de quilômetros? Isso é possível porque certos organismos marinhos possuem um ciclo de vida bastante interessante. Muitas espécies possuem ovos e larvas que ficam na coluna d’água “ao sabor” das correntes e do ambiente (lembram do famoso plâncton ?). São muitas as variáveis que contribuirão ou não para que esse “ bebê ” consiga chegar e se estabelecer em sua casa nova. Os desafios dessa jornada ainda não são muito estudados no Brasil. Mas já sabemos da grande importância que essa tal conectividade entre áreas promove na preservação da nossa diversidade. Pensando em tudo isso, decidi estudar no meu mestrado como as atuais APAs com recifes de coral na costa do Brasil se conectam, promovendo a preservação das espécies desses ambientes. Em outras palavras, como ocorre a troca de indivíduos entre essas áreas. Mas como estudar uma região tão grande, envolvendo tantos processos? Nós utilizamos uma ferramenta chamada modelagem numérica . Combinamos um modelo hidrodinâmico , que prevê os parâmetros físicos dos oceanos (temperatura, salinidade, correntes, etc.) e um outro modelo que prevê a dispersão ou para onde vão os ovos e larvas, chamado de modelo baseado em indivíduo (MBI). Também precisamos escolher uma espécie que fosse representativa desses ambientes e que ocorresse em todas as APAs de interesse. Além disso, era importante que houvessem estudos prévios sobre a biologia, reprodução e distribuição dessa espécie, importantes para que os resultados do modelo fossem o mais próximo do observado na natureza. Por isso escolhemos o gênero Sparisoma , mais conhecidos como budiões ou peixes papagaio. Áreas de estudo (em vermelho) e foto de um budião ( Fonte ). Agora já temos um panorama das ferramentas utilizadas no estudo, mas por onde começamos? Resumidamente, primeiro utilizamos o modelo hidrodinâmico para simular o comportamento dos oceanos durante um período escolhido, nós avaliamos os resultados, para ter certeza que eles se parecem com o que observamos na natureza. Depois estes resultados são fornecidos para o MBI que também usa alguns dados biológicos e calcula o destino dos ovos e larvas de peixe. Assim saberemos a chance de os indivíduos sobreviverem ou morrerem, de onde vieram e para onde foram. Imagens representando alguns resultados obtidos. Temperatura da superfície do mar de acordo com o modelo hidrodinâmico (esquerda) e possíveis trajetórias dos ovos e larvas do budião (direita). No fim das contas, a pergunta que não quer calar é: os budiões conseguem chegar em uma nova casa adequada? Os nossos resultados mostraram que a sobrevivência e trajetória dos ovos e das larvas dos budiões variam de acordo com as estações do ano, sendo regulados principalmente pelas correntes superficiais dos oceanos na costa do Brasil. São poucos os que superam os desafios da jornada e conseguem chegar em suas novas casas, indicando que as APAs talvez sejam distantes demais umas das outras. Contudo, existem outras regiões na costa brasileira que podem servir de habitat para estes peixes e que não são protegidas atualmente. A criação de novas APAs depende de muitos outros fatores que devem ser considerados, além do tamanho e da conectividade, mas nossos resultados indicam que se as APAs fossem maiores haveria um aumento na conectividade, aumentando a diversidade genética e, consequentemente, aumentando a conservação dessas populações de budiões. ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Os resultados obtidos durante o meu mestrado foram publicados na Scientific Reports, da Nature. Assim, quem quiser saber mais sobre a conectividade entre as APAs na costa do Brasil, pode acessar o artigo em: https://www.nature.com/articles/s41598-019-45042-0 Sobre a autora: Clarissa é formada em Oceanografia pelo IO-USP, possui mestrado pelo programa de pós-graduação em Sensoriamento Remoto pelo INPE e, atualmente, é doutoranda no Institute of Marine Research em parceria com a University of Oslo na Noruega. A autora estuda a dispersão de ovos e larvas de peixes através do uso de modelos numéricos e estatísticos para melhor compreender os processos de conectividade, recrutamento, ecologia e dinâmica de populações. Além de trabalhar com modelos numéricos, adora estar em campo ou embarcada. LinkedIn: www.linkedin.com/in/clarissa-akemi-kajiya-endo-30827758 Instagram: @clari.endo E-mail para contato: clari.endo@gmail.com #ciênciasdomar #ictioplâncton #conectividade #apas #unidadesdeconservação #peixes #joanaho #convidados

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