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  • Tiradas do Netuno #22

    Nós, seres humanos, incluímos mais um item alimentar no cardápio das aves marinhas: OS PLÁSTICOS! As aves marinhas, confundem o plástico com algum item alimentar e os ingerem. Esses plásticos podem adsorver pesticidas (ou seja, as moléculas da substância em questão ficam aderidas/fixadas na superfície do plástico). E Bingo!... Além de todo o dano causado pela ingestão do plástico por si só, as aves ainda estão consumindo plásticos cobertos de pesticidas e outros poluentes! Para saber mais, acesse os posts “Pesticidas e aves marinhas”, publicado em 18/05/2017, e “DO MAR AO AR: microplásticos em aves marinhas e costeiras”, publicado em 10/12/2020. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #CiênciasDoMar #AvesMarinhas #Pesticidas #Plásticos #Microplásticos #LixoNoMar

  • Os furacões e seus nomes

    Por Carolina Barnez Gramcianinov Ilustração: Silvia Gonsales A temporada de ciclones tropicais no Atlântico começou dia 19 de abril e já temos um furacão para entrar na história. Irma foi devastador e provavelmente não teremos mais furacões com esse nome no Atlântico. Você sabe por quê? Já se perguntou de onde vem os nomes dados aos furacões e por que isso é feito? Nomear os ciclones tropicais (ou furacões) com nomes próprios, simples e curtos facilita a comunicação e os alertas à população. Antigamente, códigos envolvendo a latitude e longitude eram usados, mas isso causava certa confusão pela quantidade de letras e números. Durante a temporada de furacões é comum ter mais de um sistema atuando no Atlântico ao mesmo tempo e é importante que o alerta seja entendido claramente para cada um deles.  A confusão entre furacões que ocorrem ao mesmo tempo e atuam em regiões diferentes ou em sequência era muito comum quando a notícia era passada, principalmente via rádio, o que atrasava e comprometia os alertas e planos de evacuação. A tradição de nomear furacões tem sua origem no Oceano Índico Oeste, onde as comunidades atingidas os nomeavam de acordo com o santo do dia. No início do século XIX, um meteorologista australiano passou a dar nomes femininos aos ciclones e essa prática foi adotada ao redor do mundo, especialmente por meteorologistas da Marinha e Exército durante a 2a Guerra Mundial. Apenas em 1978 nomes masculinos passaram a ser usados no leste do Pacífico Norte e, um ano depois, no Atlântico e Golfo do México. Atualmente, os nomes são escolhidos a partir de listas organizadas pela Organização Mundial de Meteorologia (WMO, em inglês(1)). Existe uma série de listas para cada região oceânica afetada por ciclones tropicais, totalizando 10 grandes listas. Todas obedecem ordem alfabética, o que permite saber qual é o número do ciclone da estação. Em qualquer região, um ciclone tropical que começa com A é o primeiro da estação. Regiões com muita atividade de ciclones têm listas mais extensas. A lista do Atlântico e Golfo do México, por exemplo, possui 21 nomes por estação, a do Pacífico Norte Central possui apenas 12. Mas e, se durante a estação, houver mais furacões do que nomes? Cada região tem uma saída para isso. No Atlântico inicia-se o alfabeto grego, Alfa, Beta e assim por diante. Em outras regiões passa-se para a lista do ano seguinte, e em algumas existe até uma lista de nomes reservas! Cada grande região já tem uma lista que contempla nomes para mais de um ano. Quando se chega ao último nome da última lista disponível, volta-se à primeira. Por exemplo, no Atlântico temos 6 listas, isso significa que a cada 7 anos, as repetimos. Portanto, em 2023 estaremos usando a mesma lista deste ano! Por isso, às vezes, ouvimos nomes repetidos, ou, quando vamos pesquisar sobre um furacão aparece mais de um com o mesmo nome. Mas então há a pergunta: por que nomes de ciclones "famosos" como Katrina e Sandy não aparecem mais na lista? A resposta é que, por consideração às vítimas, ciclones que causaram muitos danos e mortes têm seus nomes retirados das listas. Nesse caso a WMO elege um nome com a mesma inicial para a substituição. Esse é o caso dos ciclones tropicais Haiyan (Filipinas, 2013), Sandy (EUA, 2012), Katrina (EUA, 2005) e Mitch (Honduras, 1998), por exemplo. Para mais nomes aposentados de furacões, clique aqui. O furacão Irma (2017) já está entre os mais intensos da história e foi o ciclone mais intenso a atingir os EUA desde o Katrina (2005). Outra característica marcante foi a quantidade de dias que ele ficou em sua intensidade máxima: foram cerca de 2 dias com ventos que atingiram quase 300 km/h (2).  Os danos foram enormes e já se discute sua retirada da lista de nomes (3). Ele é o décimo nome com “I” a ser retirado da lista do Atlântico, sendo esta inicial a com maior quantidade de nomes retirados: Ione (1955), Inez (1966), Iris (2001), Isidore (2002), Isabel (2003), Ivan (2004), Ike (2008), Igor (2010), Irene (2011),  Ingrid (2013). Se quiser saber qual será o nome do próximo ciclone tropical, confira as listas no site da Organização Mundial de Meteorologia1. Quer saber qual será o nome do próximo furacão? Veja na página do National Huricane Center: http://www.nhc.noaa.gov/ Referências: (1) https://public.wmo.int/en/About-us/FAQs/faqs-tropical-cyclones/tropical-cyclone-naming (2) http://fingfx.thomsonreuters.com/gfx/rngs/STORM-IRMA/010050RH1R0/index.html (3)https://www.usatoday.com/story/weather/2017/09/07/irma-likely-join-long-list-retired-hurricane-names-start-i/641999001/ Sobre Carolina Barnez Gramcianinov: Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre me interessei pelo impacto dos oceanos no tempo e no clima, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Desde que entrei na graduação, me apaixonei pela física dos oceanos e seus impactos em outros processos. Agora no doutorado, foi impossível não me encantar com a dinâmica e termodinâmica da atmosfera. Busco estar entre esses dois meios e acredito que ainda falta um entendimento integrado entre estas áreas para uma melhor compreensão do sistema climático. #ciênciasdomar #convidados #furacão #interdisciplinaridade #iousp #meteorologia #oceanografia #CarolinaBarnezGramcianinov

  • Precisamos falar dos homens nas ciências do mar

    Por Juliana Leonel ATENÇÃO: antes de me cancelar leia o texto até o final. Ilustração de Alexya Queiroz Ekman, Coriolis, Navier, Stokes, Reynold, Redfield... Muitos são os homens responsáveis por incríveis descobertas oceanográficas e, por isso, precisamos falar deles. Isso mesmo, você não entendeu errado. Mas o que eles têm em comum, além de serem homens? Vejamos alguns conceitos essenciais para a oceanografia e que levam o nome de quem os descobriu/inventou: - Efeito de Coriolis (Gaspard-Gustave de Coriolis, 1792-1843, era francês) - Transporte de Ekman (Vagn Walfrid Ekman, 1874-1954, era sueco) - Equação de Navier-Stokes (Claude-Louis Navier, 1785- 1836, era francês e George Gabriel Stokes, 1819-1903, era irlandês) - Razão de Redfield (Alfred C. Redfield, 1890-1983, era americano) - Número de Reynolds (Osborne Reynolds, 1842-1912, era irlandês). São em sua maioria europeus e realizaram seus feitos científicos em períodos nos quais esperava-se que as mulheres se interessassem apenas por casar, ter filhos e cuidar da família. Naquele tempo, frequentar uma universidade e obter um diploma era bastante incomum para uma mulher, para não dizer quase impossível, ou então restrito a algumas áreas consideradas "mais femininas", como literatura e artes. A presença feminina era temida de tal forma no ambiente científico que até para os pesquisadores homens, associar-se a uma mulher, poderia ser o fim da sua carreira. Vejamos o caso de Stokes que, em 1857, teve que abrir mão da sua posição no Pembroke College (Cambridge) porque o estatuto da instituição não permitia que ele se casasse; ele só retornou ao cargo 12 anos depois quando o estatuto foi revisado. Sir George Gabriel Stokes, co-autor das equações de Navier–Stokes equations, foi impedido de seguir em sua posição no Pembroke College de Cambridge por ter se casado. (Fonte: WikiCommons, domínio público) Além disso, mesmo que as mulheres conseguissem fazer um curso na área de ciência naturais ou exatas ou engenharia, não lhes era permitido participar das expedições oceanográficas - nos EUA, por exemplo, as mulheres só foram permitidas em embarques científicos a partir de 1959 e a primeira expedição liderada por uma mulher só ocorreu em 1968 com a americana Tanya Atwater. Drª Tanya Atwater, a primeira mulher a liderar uma expedição oceanográfica. Isso ocorreu apenas em 1968! A pesquisadora segue ativa - aliás, esta é a foto de seu perfil no ResearchGate, vale a pena acompanhar seu trabalho por lá. (Fonte: University of California, Copyright © 2006). E se fosse o contrário ou se as mulheres também pudessem seguir uma carreira em ciência? Se o Ekman não tivesse a bordo do Fram para estudar a deflexão dos icebergs para a direta do vento predominante? Como se chamaria o Efeito de Ekman hoje? Talvez Efeito de Catarina? Pode parecer exagero imaginar esses cenários, mas vamos relembrar que mesmo quando mulheres fazem descobertas elas são apagadas. Não podemos esquecer dos estudos de Eunice Foote de 1856 sobre dióxido de carbono como gás estufa e os efeitos no aquecimento do clima; no entanto, quem leva os créditos por isso é o irlandês Tohn Tydall que só falou disso em 1861. Pois é, ciência e descobertas não são sobre genialidade, mas sobre oportunidade (e visibilidade). Outro cenário: enquanto Ekman se debruçava sobre seus estudos para entender o movimento dos icebergs, quem lavava sua roupa? Quem limpava sua casa? Quem lhe servia uma comida quentinha e gostosa (ok, estou supondo que a comida era quente e gostosa, mas como era sueco talvez sua comida favorita fosse gravlax - que sim, é gostoso, mas não é quente). Os livros não trazem essa parte, mas com certeza tinha uma mulher "dando uma forcinha" nessas tarefas… quem sabe uma mulher negra, visto que a escravidão na Suécia foi mantida até metade do século XIX. Agora vamos refletir sobre a origem de todos esses grandes pesquisadores, desbravadores e aventureiros… todos vindos do hemisférios norte (= Europa ou EUA). O quanto deixou-se de aprender - ou demorou-se mais para tal - porque o conhecimento vindo de outros povos foi desconsiderado? Por exemplo, no extremo meridional do Saara, está o que sobrou da cidade de Timbuktu, guardiã de milhares de manuscritos científicos antigos. Eles revelam um conjunto de conhecimentos próprios no campo da astronomia, sem que aquele povo tivesse qualquer contato com o desenvolvimento científico da Europa renascentista. Apesar de não ser um exemplo direto sobre oceanografia, serve para ilustrar como a hegemonia européia da ciência excluiu conhecimentos científicos que não vieram dos detentores do lugar de fala (= homem, branco, europeu). Por isso, precisamos falar sim sobre os homens (e tantos outros recortes) nas ciências do mar. Sugestão de leitura complementar: “Mulheres e o oceano: invisibilidade ou cegueira?”, por Juliana Leonel e Adriana Lippi para a revista Conexão de Saberes. #MulheresNaCiência #Oceanografia #MulheresNaOceanografia #Descobertas #JulianaLeonel

  • Explorar, definir e fiscalizar: o mar como fonte de recursos

    Por Jana del Favero É impossível listar todos os recursos fornecidos pelos oceanos, ainda mais considerando que frequentemente novos recursos marinhos são descobertos. No entanto, diversas nações e comunidades dependem economicamente ou tiram seu sustento do mar, caracterizando a chamada Economia Azul. Segundo a Política Nacional para os Recursos do Mar (PNRM) os recursos do mar são todos aqueles, vivos e não-vivos, existentes nas águas sobrejacentes ao leito do mar, no leito do mar e sua subsuperfície, bem como nas áreas costeiras adjacentes, cujo aproveitamento sustentável é relevante sob os pontos de vista econômico, social e ecológico. Os recursos pesqueiros e a diversidade biológica estão entre os chamados recursos vivos, e incluem recursos genéticos ou qualquer outro componente da biota marinha de utilidade biotecnológica ou de valor para a humanidade. Os recursos não-vivos do mar compreendem os recursos minerais (incluindo a própria água) e os recursos energéticos advindos dos ventos, marés, ondas, correntes e gradientes de temperatura. Inserem-se, ainda, entre os recursos em questão, as potencialidades do mar para as atividades de aquicultura marinha, turísticas, esportivas e de recreação. Dentre os recursos vivos, destacam-se os pesqueiros, que podem ser definidos como organismos aquáticos cuja captura gera benefícios para o homem, seja como alimento, renda ou recreação. Os recursos pesqueiros marinhos são obtidos através da pesca ou do cultivo, ou seja, da maricultura. Aproximadamente 2/3 dos estoques pesqueiros podem ser considerados como sobre-explotados, porque a retirada excessiva de biomassa, através das capturas, compromete a capacidade de reposição natural. O Brasil não reporta a produção oficial (captura e aquicultura) para a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) desde 2014, com exceção dos atuns e afins (FAO, 2020). Entre os recursos não-vivos, destaca-se o petróleo e o gás natural. Nos oceanos, as descobertas e a produção de hidrocarbonetos situam-se nas plataformas e taludes continentais. Entretanto, a exploração se direciona cada vez mais para águas profundas, como as imensas reservas descobertas pela PETROBRAS na Bacia de Campos (RJ). Além do petróleo, outros recursos não-vivos (como os nódulos de manganês) e recursos vivos são frequentemente descobertos, principalmente em águas profundas e afastadas da costa. Isso gerou uma série de questionamentos sobre os direitos legais das nações para a exploração desses recursos, que culminou, em 1982, após 15 anos de discussões, na conclusão da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Apoiado pela maioria dos países-membros, este Tratado do Direito do Mar define o seguinte: 1) no Mar Territorial (ao longo das costas dos diferentes países, com até 12 milhas náuticas de largura - 1 milha náutica equivale a 1,852 quilômetros), o país costeiro tem soberania plena sobre as águas e o fundo do mar, embora os demais países conservem alguns direitos, como, por exemplo, a passagem de navios, chamada de passagem inocente; 2) na Zona Econômica Exclusiva (ZEE, localizada entre 12 e 200 milhas náuticas do litoral), o Estado costeiro mantém direitos exclusivos sobre os recursos das águas e do fundo do mar, devendo porém explorá-los de forma sustentável e, quanto à pesca, ceder aos outros países o que exceder à sua capacidade de exploração; 3) em Alto Mar (além da ZEE), nenhum país tem soberania, a pesca é praticamente livre e os recursos minerais são considerados pertencentes à humanidade, sendo sua exploração regida pela Autoridade Internacional para os Fundos Marinhos (ISA). Deve-se ainda considerar que, quando a Plataforma Continental excede os limites da ZEE, o Estado costeiro tem direito aos recursos vivos e minerais do fundo do mar na área excedente, mas não aos das águas sobrejacentes. Esses conceitos são essenciais para que se definam os direitos e as obrigações dos países quanto à conservação e preservação dos recursos e do meio ambiente na área em que tem soberania. No Alto Mar, todos os países têm direito à pesca, que é limitada apenas por restrições vagas, imprecisas e com pouca fiscalização, ou seja, na prática é como dizer que o Alto Mar é de todos, quando na verdade não é de ninguém. No Brasil, criou-se a expressão “Amazônia Azul”, que abrange a ZEE brasileira mais a expansão da Plataforma Continental (pleiteada em 2004 à ONU). A criação desse termo foi uma tentativa da Marinha de voltar os olhos do Brasil para o mar, por ser fonte relevante de recursos e pela sua alta biodiversidade, equivalentes (ou até mesmo superiores) ao encontrado na “Amazônia verde”. É importante alertar que a velocidade com que exploramos os recursos marinhos é superior à velocidade de realização de pesquisas. É imprescindível estimar a quantidade de recursos existentes, saber quais cuidados devem ser tomados, os limites de uso e como remediar em caso de acidentes ou sobrexplotação. Além disso, é urgente aumentar a fiscalização para controlar irregularidades e, assim, efetivar a conservação dos recursos do Mar. #DescomplicandoNetuno #RecursosMarinhos #AmazôniaAzul #DireitoDoMar #JanaMdelFavero

  • The fish of Alcatrazes Archipelago

    By Natasha Hoff English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on April 14, 2016 Illustration by Joana Ho To talk about Alcatrazes, I need to talk about my history with this incredible place. It started in 2011, when I learned about the archipelago in a lecture and decided to propose a project in the region, which would be developed in the context of a course. It turned out that our project was not selected by the course, but we were invited by the staff of the ESEC Tupinambás to execute it. Thus began a partnership, a project, a final paper (a completed thesis!), and a master's degree. Alcatrazes archipelago, São Sebastião, Brazil Too many unfamiliar terms and names? Well, calm down because I'm going to explain. Alcatrazes is an archipelago, predominantly rocky, formed by islands, islets, rock slabs, and patches. It is located on the northern coast of São Paulo, in the municipality of São Sebastião, approximately 43 km from the coast. The main island, the largest and more imposing than the other islands (visible from higher elevations in São Sebastião and Ilhabela), shares the archipelago name - Alcatrazes Island. And why Alcatrazes? Alcatraz is the popular name for the birds that are very abundant there. The Alcatrazes are Frigatebirds (Fregata magnificens, Image2, left), but it can also refer to another species, the Atobá, or Brown booby (Sula leucogaster, Image 2, right). It certainly is not the American island with an infamous maximum security prison! I have already received many questions about that Alcatraz Island as well… Very abundant bird species in the Alcatrazes archipelago: Frigatebird (Fregata magnificens; left) and Brown booby (Sula leucogaster; right) The second term that may be unfamiliar to the reader is "ESEC Tupinambás." ESEC is an abbreviation for Ecological Station, which is a type of fully protected Conservation Unit. In other words, the main objective of an ESEC is nature preservation and scientific research, and public visitation is not allowed. The Tupinambás ESEC was established in 1987 and has two nuclei. The first is formed by the Cabras and Palmas islands, which also make up the Anchieta Island archipelago, in Ubatuba. The second is composed of portions of the Alcatrazes archipelago in São Sebastião. But why only portions? I think it was a first attempt to show how important the region is, but it was not very well used by us (civil society and environmental agencies). To this day, the small protected portions remain the same. But this may change, and I will explain more about this later! ESEC Tupinambás map, on the northern coast of São Paulo state. Source: ICMBio/ESEC Tupinambás Last, but not least, we have the Delta area of the Brazilian Navy. This is a 710 km² area delimited around the archipelago for military training. Despite being, theoretically, important to Brazil, the shooting training brought severe negative impacts to the island of Alcatrazes, which was used as a target until 2013. Examples of these impacts include increased occurrence of successive forest fires, the suppression of about 12% of the original vegetation for the construction of support structures, and the introduction of molasses grass, an invasive exotic species. No work has been done to ascertain the effects on the marine biota. Currently, anchoring and fishing are prohibited throughout the Delta area. Although this is not its purpose, the Delta area represents the largest no-fishing zone in the coastal zone of the state of São Paulo. Having clarified these terms, we can begin the conversation about the work that I developed during my master's degree. When I finished my end of term paper, I realized that this place that fascinated me so much was severely lacking in basic information. So I found my opening and decided to pursue it. I had a broad idea for a project that was refined by my new advisor. I was migrating from chemical oceanography to biological oceanography (one of the wonders of being an oceanographer!), so being open to new proposals was fundamental! The idea was to evaluate the biotic integrity of the ecosystems in the Alcatrazes archipelago region using the demersal marine ichthyofauna (also known as the bottom-dwelling marine fish community) as an indicator of the environmental quality. I am often asked: what is biotic integrity? My typical answer is that it is the extent to which an ecosystem can maintain its health, despite external influences such as ship traffic, port activity, etc. The data I used came from three different sources: 1. A paper published in 1989 by Prof. Alfredo M. Paiva Filho (former director of the Oceanographic Institute at USP) and collaborators. This was an interesting dive into the history of work at the archipelago, as well as a glimpse into how the researcher instinct is born with us. The idea of collecting there came during a trip between Ubatuba and Santos, like one of those "clicks" of brilliant ideas we have. They went there, sampled, published, and this was the only work using demersal ichthyofauna in the area published up to that point! 2. In 2011, along with our abiotic survey, sampling was done to help in the preparation of the ESEC Management Plan (this would promote a better and more organized management of the ESEC). 3. New sampling was conducted in 2014 for this project. It was the first fishing trip for Alpha Delphini’s research boat, and it was a great experience for all of us involved! To evaluate the data, I used two methods: the Index of Biotic Integrity (IIB) and ABC curves (Abundance Biomass Comparison). These methods were established in the 1980s, but are still extremely underused in Brazil. The IIB is based on community characteristics that are considered indicators of ecosystem health. What would these characteristics be in a so-called healthy ecosystem? A greater number of species, among which the individuals are well distributed; with a greater occurrence of top predators, here represented by elasmobranchs, and specialists regarding food (piscivores or invertivores, for example). The presence of a greater number of young individuals (not capable of reproduction) can also be considered a positive characteristic, indicating that a particular habitat may be being used as an area for feeding and growth of the fish. On the other hand, ABC curves are based on the characteristics of the species: for example, when stressors are present, the dominant species will typically be the smaller, more numerous species with a fast reproductive cycle and short life cycle, which we call r-strategist species. Thus, we notice a greater number of organisms with small biomass, so the abundance distribution curve would predominate under the biomass curve in an impacted environment and vice versa. We recorded 90 species of fish, 12 of which were elasmobranchs. Among them, those that occurred in the three periods and are among the most abundant were: Dactylopterus volitans (Flying Gurnard), Prionotus punctatus (Atlantic Searobin) and Pagrus pagrus (Common Seabream). These, together with more than 30 other species, are considered the accompanying fauna of the shrimp fishery in southeastern Brazil, and can be discarded, sold as a mixture, or sold separately, such as hake, angler, five species of sole, etc. Most abundant species observed in 1986, 2011 and 2014: Dactylopterus volitans (Flying Gurnard), Prionotus punctatus (Atlantic Searobin), and Pagrus pagrus (Seabream). Credit: Natasha T. Hoff The main results point to an environment that, although protected, is still recovering. In 1986, neither the Delta area nor the ESEC had been established. That is, there was nothing that protected the ichthyofauna of the region in any way, except for the distance from the coast. The environment was classified as poor and the abundance curve predominated under the biomass curve. The ecosystem had low species richness, one elasmobranch species (group formed by the rays, sharks, and dogfish), and low numbers of top predators (in this case, the piscivorous organisms, which feed primarily on fish). From this time until 2011, enforcement by the ESEC was incipient and therefore I attribute the presence of the Brazilian Navy and the Delta area to the protection and improvement of environmental quality in this period. Thus, the environmental quality went from poor to moderate and the abundance and biomass curves became closer. Many more species were recorded, including elasmobranchs, which increased from one to nine species, as well as fish-eating species, etc. As of 2011, the possibility of a more effective protection plan for the archipelago increased. This, associated with the presence of the Delta area, ensured a further improvement in environmental quality in 2014, which went from moderate to good, but the abundance and biomass curves remained close, indicating that there are still signs of stress in the fish community. Thus, it was possible to observe that, despite the limitations of the methods and data used, the results were relevant and consistent with the history of environmental protection around the Alcatrazes archipelago and the ESEC Tupinambás, which still needs more effective protection. With so little information about the archipelago, we decided to carry out a large bibliographic survey. We were able to map the archipelago, associating information in literature with data related to the susceptibility of each stretch of the archipelago to oil (for prevention in case an oil spill reaches the region, which I hope does not happen!) This mapping generates what we call the Environmental Sensitivity Chart to Oil Spills, or simply the SAO Chart. The chart includes information about the biota, marine currents, location of archeological sites, historical points, and the ESI (Index of Sensitivity of the Coast, which varies according to the capacity of penetration and permanence of the oil in different points of the region under study), among other relevant information. Environmental Sensitivity Chart to Oil Spill (SAO Chart) of the Alcatrazes archipelago region, São Sebastião - SP. Note: not original scale When making the chart, a large gap of knowledge about phytoplankton (a topic already addressed in this blog) and primary productivity, species of marine invertebrates, algae, etc. was pointed out. Regarding the high biodiversity of the Alcatrazes archipelago, it is expected that the area will remain protected through the restrictions on fishing and boat traffic in the Brazilian Navy's Delta area, by the existence of the Tupinambás Ecological Station, and by the distance from the coast. Demersal fishing, for example, affects not only the target species, but those removed by bycatch, as well as disrupting the associated bottom surface habitats. The Alcatrazes archipelago represents a very important coastal region, and still very little is known about it. We need to understand its ecological relationships, occupation by, and use of the area by different organisms in order to support its conservation and management. Update: In 2016, another conservation unit was created in this area – the Alcatrazes Wildlife Refuge (REVIS) –, with 67,000 ha. The Management Plan, published in 2017, includes the register of many species occurring in the archipelago, as marine invertebrates, which was pointed out as a knowledge gap in the text. Public visitation is also allowed now (excluding the ESEC Tupinambás zones) and ruled by the REVIS Public Use Plan. Nowadays, military training uses only the Sapata Island, which was excluded from the REVIS. Want to know more? Conservation units: http://www.mma.gov.br/areas-protegidas/unidades-de-conservacao ESEC Tupinambás: Leite, K. L. (2014), Gestão e integração de uma Unidade de Conservação Marinha Federal (Estação Ecológica Tupinambás) no contexto regional de gerenciamento costeiro do Estado de São Paulo, Dissertação de mestrado, Escola Nacional de Botânica Tropical, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. My dissertation: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21134/tde-22092015-135056/pt-br.php Accompanying fauna and shrimp fisheries: Graça Lopes, R., A. R. G. Tomás, S. L. S. Tutui, E. S. Rodrigues, & A. Puzzi (2002), Fauna acompanhante da pesca camaroeira no litoral do estado de São Paulo, Brasil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 28(2), 173–188. Sedrez, M. C., J. O. Branco, F. Freitas Júnior, H. S. Monteiro, & E. Barbieri (2013), Ichthyofauna bycatch of sea-bob shrimp (Xiphopenaeus kroyeri) fishing in the town of Porto Belo, SC, Brazil, Biota Neotrop., 13(1), 165–175. Vianna, M., F. E. S. Costa, & C. N. Ferreira (2004), Length-weight relationship of fish caught as by-catch by shrimp fishery in the southeastern coast of Brazil, B. Inst. Pesca, São Paulo, 30(1), 81–85. About the author: Natasha has a bachelor's degree in Oceanography from the University of São Paulo (USP), and a master's degree and PhD in Sciences (Oceanography, Biological Oceanography concentration area) also from USP. Currently, she is a post-doctoral researcher at the same university’s Oceanographic Institute. #MarineSciences #Alcatrazes #Fish #EnvironmentalProtectionAreas #Guests #JoanaHo

  • Tiradas do Netuno #21

    “Cação” nada mais é do que uma forma de chamar a carne de tubarões (e às vezes raias). Esse nome é usado há anos em peixarias para não afugentar clientes que poderiam ter medo de saber que estão comprando tubarão! Além da fama injusta de maus, há várias razões para não se comer cação… Para saber mais, acesse o post “Tubarão: caçador ou caça?” publicado em 17/05/2018. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Cação #Nadadeiras #Tubarão #Extinção #Peixe

  • Como minha curiosidade me levou a publicar na Nature

    Por Yonara Garcia Ilustração: Joana Ho Fazer pesquisa não é um mar de rosas e acho que quem está desenvolvendo uma sabe bem que muitos obstáculos, erros, burocracias etc., podem ocorrer durante o caminho. No texto “Os desafios para chegar até aqui”, eu contei um pouquinho sobre o making of da minha pesquisa durante o mestrado, onde abordo diversas situações que tive que contornar para conseguir entregar minha dissertação. E dentre estas situações, uma delas trouxe um plot twist bem positivo pra mim. Então senta que lá vem história! (Ixi, acho que com essa frase entreguei que já passei dos trinta rsrsrsrs). Minha pesquisa de mestrado consistiu, basicamente, no estudo do comportamento natatório da associação entre uma diatomácea e um ciliado, a fim de avaliar suas possíveis consequências ecológicas, por meio de filmagens em um sistema óptico tridimensional. Foi um estudo muito interessante, mas que teve vários desafios, como eu já contei no outro post. Entre esses desafios, um deles foi na etapa de experimentos, onde, após todo o sistema óptico estar pronto, alinhado, computadores em “perfeito” funcionamento, eu dependia que os organismos estivessem presentes no ponto de coleta no dia que me organizei. Mas não era bem assim. Às vezes, não aparecia nenhum exemplar pra me dar esperança ou apareciam poucos, insuficientes para analisar os dados estatisticamente. O jeito era me preparar e realizar coletas diárias até que os organismos surgissem e, então, fazer os experimentos. Em um desses dias, coletei as amostras de plâncton e comecei a triar as amostras no laboratório. Neste dia, não havia exemplares dos organismos que eu precisava para os meus experimentos. Depois de um tempo procurando, resolvi explorar a amostra, para ver o que mais de interessante poderia ter. Então a coloquei em um microscópio com maior resolução para explorar organismos bem menores que não eram possíveis identificar na lupa. A amostra estava linda, super diversa, com várias diatomáceas, dinoflagelados que lembravam naves espaciais, ciliados, entre outros, até que eu vi algo que me chamou a atenção. Uma diatomácea movimentando-se em associação com um ciliado. A diatomácea em questão era a Fragilariopsis doliulos e o ciliado era a Salpingella sp. E como eu sabia que não havia muitos registros na literatura sobre aquela associação, resolvi conectar uma super câmera (que é capaz de filmar os batimentos dos cílios de organismos diminutos) ao microscópio e filmar o deslocamento da associação. Na hora eu pensei “vou deixar registrado. Quando eu tiver tempo, posso trabalhar nesse material e, quem sabe, escrever uma nota para alguma revista científica”. Contei para meu orientador sobre os registros, deixei os arquivos guardados e voltei minha atenção para minha dissertação. Diatomácea Fragilariopsis doliulos em associação ao ciliado Salpingella sp. Fonte: Vincent et al, 2018/ CC BY 4.0 Um tempo depois, meu orientador fez uma viagem para França para visitar um laboratório que desenvolvia trabalhos compatíveis com a linha de pesquisa que ele estava desenvolvendo aqui no Brasil. Nesta parte da história, eu não sei bem como aconteceu, mas uma pesquisadora que havia participado de uma das expedições do Tara Oceans ficou sabendo que eu tinha feito aqueles registros curiosos e marcou uma reunião com meu orientador para conversar sobre o meu material. Em uma dessas expedições, ela e sua equipe identificaram a mesma associação que eu vi aqui nos mares do Brasil. Essa equipe havia desenvolvido um trabalho detalhado sobre esses organismos, com análises filogenéticas, microscopia eletrônica de varredura, entre outros. Escreveram o artigo científico e enviaram para a revista The ISME Journal: Multidisciplinary Journal of Microbial Ecology, que é publicada pela Nature, uma das revistas de maior impacto na ciência. Sempre que você envia um artigo científico para uma revista de qualidade, ele passa por uma série de revisões e, a partir dessas revisões, a revista decide se vai publicar o artigo ou não, ou se vai publicar, mas precisa de correção em certas partes, e no caso deste trabalho que eles enviaram, os revisores não aceitaram por um detalhe. Como era uma associação que ainda não tinha sido observada em organismos vivos e os únicos registros do artigo em questão eram dos organismos fixados, os revisores disseram que a associação poderia ser um artefato. Ou seja, ao jogar os reagentes para preservação da amostra (substâncias que adicionamos imediatamente após a coleta da amostra, como álcool 70% ou formaldeído, a fim de conservar tudo o que foi coletado exatamente naquele momento), os organismos poderiam ter se unido, indicando uma falsa associação, que não ocorria de verdade na natureza. Neste ponto, o grupo francês não tinha o que fazer. Ou arrumavam uma prova de que aquela associação existia de verdade ou todo aquele trabalho só seria publicado quando houvesse provas de que era uma associação verdadeira. E é aqui que eu entro. A pesquisadora então propôs uma colaboração. Eu e meu orientador participaríamos como coautores do artigo, ao ceder o material e assim, conseguiríamos publicar o trabalho a partir dessa parceria. Foi uma proposta muito boa, pois eu ainda não tinha artigos científicos publicados e, no início da carreira, conseguir um artigo em uma revista de grande impacto seria fantástico! Então cedemos o material, o artigo foi aceito e o vídeo que viraria uma nota para uma revista acabou fazendo parte de um artigo científico de uma equipe de grandes pesquisadores. Aqui eu poderia terminar o texto com a moral da história “Há males que vem para o bem”. Mas toda essa história me fez refletir sobre a essência da ciência. Pra mim, a essência da ciência é a curiosidade. Ser cientista é ser curioso. É querer descobrir o por quê das coisas e inventar mil maneiras para chegar a uma resposta. É querer entender como os sistemas, processos, funcionam. É explorar e fazer descobertas. É pensar, refletir, estudar, criar hipóteses. Então, esse vídeo que fiz em um dia que as coisas deram “errado” no meu trabalho de mestrado me fez lembrar por quê eu quis me tornar uma bióloga/ pesquisadora. E ao mesmo tempo me fez perceber que muito dessa essência tem sido perdida, pois hoje entramos num ritmo de produtividade que é exaustivo, que afasta as pessoas que estão chegando, que exclui quem não mantém o ritmo, que faz com que muitos abandonem a carreira por problemas de saúde mental. E isso está muito ligado ao nosso modo de avaliar a qualidade da instituição ou do pesquisador. Mudar isso não é algo simples, mas é preciso. Como diz Gundula Bosch, pesquisadora da Universidade Johns Hopkins, em seu artigo “Train PhD students to be thinkers not just specialists” (“Treinar estudantes de doutorado para serem pensadores e não apenas especialistas”), “estudantes devem ser apresentados ao processo científico como ele é - com limitações e potenciais equívocos, aspectos divertidos, descobertas por acaso e alguns erros hilários”. E para você, qual é a essência da ciência? Referências: BOSCH, Gundula. Train PhD students to be thinkers not just specialists. Nature, v. 554, n. 7690, p. 277-278, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01853-1 VINCENT, Flora J. et al. The epibiotic life of the cosmopolitan diatom Fragilariopsis doliolus on heterotrophic ciliates in the open ocean. The ISME journal, v. 12, n. 4, p. 1094-1108, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41396-017-0029-1 #VidaDeCientista #YonaraGarcia #Ciência #Oceanografia #Biologia #BiologiaMarinha

  • Parem de usar evidência anedótica em conversas sobre gênero

    Tradução livre do artigo Stop using anecdotal evidence in conversations about gender, por Juliana Hipólito e Luisa Maria Diele-Viegas. Deixem os dados guiarem as discussões sobre igualdade. Ilustração de Caia Colla. Em nossa experiência como duas cientistas mulheres brasileiras, nós já vimos alguns colegas, a maioria homens, se baseando em evidências anedóticas - alegações baseadas em observações pessoais, sem dados coletados de maneira sistemática - para concluir que sexismo não é um problema no ambiente acadêmico. Frases como “tem muitas mulheres no meu departamento” ou “minha superior é mulher” são usadas com frequência para justificar suas crenças de que não existe viés de gênero na ciência. Alguns dos nossos colegas pesquisadores nos dizem que nossas reclamações sobre viés de gênero na academia são exageradas. Apesar disso, muitas mulheres experimentam diferentes formas de assédio, incluindo tentativas de coagir a uma atividade sexual ou, e comentários, gestos, e outros insultos que muitas vezes ameaçam nossa saúde mental. Quando Luisa Maria Diele-Viegas estava começando sua carreira, por exemplo, ela ouviu frases como: "Não vou respeitar uma mulher de cabelo vermelho e tatuagem." "Você não é merecedora dessa posição." "Você não tem capacidade de escrever um projeto." "Seu estudo é um desserviço para a área." "Você está muito estressada, é falta de homem?" e ainda, "Você é como um rolo compressor, e isso é ruim para seus colaboradores." Alguns sexismos são mais implícitos, mascarados como "preocupação” ou ainda refletindo pontos de vista bem estabelecidos culturalmente. Por exemplo, Juliana Hipólito já ouviu durante a sua carreira: "Não te convidei para esse trabalho porque você tem um filho." "Você realmente quer essa posição e ter menos tempo para estar com sua família?" Sigam os dados! Apesar de nossas experiências pessoais, estes exemplos sozinhos não são prova de um sexismo acadêmico persistente. Como cientistas, devemos sempre buscar evidências empíricas e não anedóticas para testar hipóteses. Existem evidências amplamente documentadas de discriminação no ambiente acadêmico que vão desde diferenças no salário até sub-representação em corpos editorais, comitês científicos e posições permanentes, especialmente as mais seniores. De certa forma, é bom saber que nossas experiências refletem os dados: mulheres ainda são discriminadas nas ciências. Historicamente, isso resultou em um intenso aumento no número de mulheres que abandonam sua carreira - fenômeno conhecido como "leaking pipeline" (= tubulação com vazamento) , principalmente nos estágios mais avançados das carreiras. De acordo com o Relatório Científico da UNESCO (2021), as mulheres representam cerca de 45-55% dos graus de bacharel e mestre e 44% dos graus de doutores globalmente. Apesar disso, elas representam apenas 33,3% dos pesquisadores e 12% dos membros em academias de ciência ao redor do mundo, incluindo no Brasil. Homens cientistas são também mais passíveis de colaborar com outros homens cientistas. Consequentemente, este viés de gênero também é visto nas publicações. Nas ciências biológicas, menos de 40% das publicações têm mulheres como primeiras autoras, e menos de 30% têm mulheres como últimas autoras ou autoras sêniores (ser a última autora significa ser a líder daquela pesquisa). No campo da ecologia e evolução, especificamente na nossa área de pesquisa, apenas 11% dos principais autores de publicações são mulheres. Esses dados destacam o sexismo acadêmico, desafiando a evidência anedótica de nossos colegas acerca da igualdade de gênero na ciência. Humanos pensam em histórias, e as experiências pessoais acabam sendo os meios mais poderosos de argumentação do que simplesmente citar estatísticas secas. Apesar disso, aqueles que perpetuam o sexismo – sabendo ou não – e aqueles que buscam desmascarar isso devem lembrar dos dados: é lá que a história é de fato contada. Como podemos mudar este cenário? Soluções incluem ter mais mulheres em posições de liderança, ter espaços acadêmicos neutros onde o assédio sexual pode ser denunciado e verificado, e estar sempre em busca de novos meios para evitar a discriminação na ciência. Sobre as autoras: Juliana Hipólito Graduada em biologia pela UFBA com mestrado e doutorado pela mesma universidade. Professora visitante na UFBA. Professora e orientadora dos cursos de pós-graduação Inpa (Ecologia e Botânica) e UFBA (PPG Ecotav). Atua no campo da ecologia da polinização. Contato: juhipolito@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/1843831280195803 Luisa Maria Diele Viegas Doutora em ecologia e evolução e atualmente é professora e pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Federal de Alagoas. Sua pesquisa envolve a avaliação do impacto das ações do homem na biodiversidade, com enfoque em mudanças climáticas e vertebrados ectotérmicos terrestres. Também pesquisa os vieses implícitos e explícitos dentro da academia, considerando questões de gênero, raça, etnia, classe, sexualidade, pessoas com deficiência e suas intersecções. É líder climática, fundadora do projeto de divulgação científica Minha Amiga Cientista, uma das fundadoras do Fórum Clima Salvador, da rede Nordeste de Clima, da rede Kunhã Asé de mulheres na ciência e da rede de Mulheres na Zoologia. É consultora do projeto da UNESCO Girls in STEM and Digital Skills in Brazil, e integra a Organização para mulheres na ciência no mundo em desenvolvimento, também da UNESCO. Integra ainda a Comissão de Diversidade e Inclusão da Sociedade Brasileira de Herpetologia, o Comitê de Diversidade do Programa de Pós Graduação em Diversidade Biológica e Conservação dos Trópicos da UFAL e a Rede CoVida - Ciência, Informação e Solidariedade. Lattes: http://lattes.cnpq.br/9032844663306862 #MulheresNasCiências #Convidados #ViésDeGênero

  • Tiradas do Netuno #20

    Que mulher nunca desejou ter tantos braços quanto um polvo? Por mais que isso pareça vantajoso, não seria melhor desejar que nossas demandas coubessem nos nossos dois bracinhos humanos mesmo? São muitas as reflexões quando pensamos no famoso “dar conta de tudo”! Para saber mais, acesse o post ““Mulheres são melhores em multitarefas”: você conhece essa lenda urbana?” publicado em 01/09/2020 e o post “Mulheres do século 21 com comportamentos do século 20 e tarefas do século 19” publicado em 07/03/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.dsgn), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Multitarefas #TerceiroTurnoDeTrabalho #Maternidade #ViésDeGênero #Carreira

  • Live: Assédio em Embarcações é real!

    Em 15 de março de 2022, a mestra Michele Maia e nossa editora Catarina Marcolin, orientadora do mestrado em questão no PPGCTA (UFSB/IFBA), realizaram a Live “Assédio em Embarcações é Real” para compartilhar os resultados alcançados em nossa pesquisa sobre assédio em embarcações. Nossa pesquisa resultou da dissertação de mestrado da Michele Maia, que teve como título “Relações de Gênero nas Ciências Ambientais: Uma Análise sobre Situações de Assédio em Embarcações”. A Live foi transmitida pelo canal do YouTube e, se você perdeu, pode assistí-la no canal do YouTube do Bate-Papo com Netuno. No primeiro momento da live, foram apresentados os resultados que demostraram que o assédio é mais prevalente entre as mulheres, principalmente as mulheres pretas, e que mulheres sofrem mais assédio sexual e múltiplos tipos de assédio. Além disso, a experiência de assédio em embarcações tem forte potencial para interferir diretamente na trajetória acadêmica e profissional, uma vez que provoca consequências físicas e psicológicas nas vítimas, inclusive com grande frequência de sintomas relatados entre os homens também. Assim, nós reforçamos que esse não é um problema exclusivo das mulheres, mas de toda a sociedade! Também foi apresentado um guia para gestores/as que tem o intuito de orientar a elaboração de ações de prevenção e combate ao assédio em embarcações, tendo como subsídio uma cartilha online e uma ficha de avaliação de cada embarque, ambos elaborados por nós. Em breve vocês encontrarão aqui na página do Bate-Papo com Netuno dedicada ao combate ao assédio, um link para minha dissertação, o guia para gestores/gestoras e a cartilha para compartilhar à vontade. Se você tem algum material bacana para compartilhar sobre o tema, envie pra gente, que iremos colocar na nossa página. Vamos lutar por um mundo onde não haja tolerância ao assédio! #NetuniandoPorAi #EmbarqueSemAssédio #MulheresnaCiências #catarinarmarcolin #Live

  • Prêmio Marta Vannucci de Mulheres na Ciência do Oceano

    Por Carla Elliff “Completo no início da Década do Oceano, uma década como oceanógrafa.” Não acredito que já faz quase um ano desde que primeiro rascunhei essas palavras – é difícil acreditar também na montanha-russa emocional que foi refletir sobre esses 10 anos. A razão que me fez parar em meio a esse mundo caótico, respirar fundo e olhar para trás, foi o Prêmio Marta Vannucci de Mulheres na Ciência do Oceano, que tive a honra de receber na categoria Jovem Cientista. O prêmio, que em 2021 realizou sua primeira edição, é uma homenagem feita pela Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano, ligada ao Instituto Oceanográfico (IO) e ao Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), e pela Liga das Mulheres pelo Oceano. Profª Drª Marta Vannucci foi uma pioneira nas ciências do mar no Brasil, sendo a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Ciências como membro associado e atuando como diretora do Instituto Oceanográfico da USP, nas décadas de 1950 e 1960. Todo seu legado inspirou a criação desse prêmio que busca promover, destacar e reconhecer o trabalho de cientistas brasileiras, identificando mulheres inspiradoras (categoria Cientista Inspiração) e premiando jovens cientistas talentosas e promissoras (categoria Jovem Cientista) no campo das Ciências Marinhas (como detalhado lá no blog da Liga das Mulheres pelo Oceano). Me perguntei muito se eu deveria me candidatar a esse prêmio. Tenho muito orgulho da minha trajetória e conquistas, mas mais do que isso eu tenho gratidão por todos aqueles que caminharam comigo. Não me parecia justo me candidatar a um prêmio por uma história escrita a tantas mãos. Foram semanas de indecisão! (e só aquela primeira frase escrita na carta de apresentação necessária para a inscrição...) Fui refletindo o que de fato era essa minha indecisão e receio (alô, terapia?!). Sou muito da lógica de que o “não” a gente já tem, então se não custa tentar, bora lá! Mas parecia ser mais difícil esse “bora lá” quando o que estaria sendo avaliado não era um projeto ou artigo que eu escrevi, mas eu mesma – um tópico que eu sou bem tímida para falar (vide o gigante atraso para escrever este post!). E acho que esse dilema interno que eu estava passando é justamente uma das razões que motivam prêmios como este para mulheres na ciência. A carreira de cientista tem muitos momentos de rejeição, revisão e escrutínio. Isso é necessário para avançarmos nos nossos conhecimentos, faz parte da base do método científico. No entanto, existem formas e formas de se criticar o trabalho de alguém. Infelizmente, é muito comum vermos pessoas que minam em vez de elevar a confiança de quem estão mentoreando – e muitas vezes indo além e chegando a situações de assédio. Aqui no Bate-Papo com Netuno já compartilhamos diversas histórias nesta temática e vemos como a balança pesa de maneira desfavorável para mulheres. Para mim, nunca fez sentido o ambiente tóxico de altíssima competitividade da academia. Fui procurando nichos e parcerias que rejeitassem também essa cultura e, felizmente, descobri que existem muitas pessoas que pensam o mesmo! E, não surpreendente, me vejo hoje trabalhando em grupos majoritariamente femininos, onde sinto que pude crescer muito sem medos do trio rejeição-revisão-escrutínio irem para além do necessário. Um desses grupos é o próprio Bate-Papo com Netuno! Enorme fonte de inspiração e motivação para mim. Aliás, em um dos meus momentos de indecisão sobre me inscrever ou não no prêmio, lembro direitinho de receber uma mensagem da Juliana Leonel no nosso grupo de whatsapp dizendo “Se inscrevam, mulheres!!”, copiando o link do prêmio. E isso é algo que precisamos mais e que está ao nosso alcance: apoio. E foi com muito apoio que escrevi a tal carta de apresentação. Foram precisamente 300 palavras (o limite máximo!) para contar a “importância prática e/ou teórica de sua trajetória científica” e, olha, ô 300 palavras difíceis! Ao final, porém, eu senti que eu tinha viajado no tempo. Relembrei alegrias e conquistas e me deu uma saudade gostosa da história de como me tornei a profissional que sou hoje. A cerimônia de premiação foi inteiramente online e lá dividi a mesa com mulheres fantásticas, incluindo a Profª Drª Yocie Yoneshigue Valentin, ganhadora da categoria Cientista Inspiração. Vocês podem conferir como foi pelo canal do YouTube da Cátedra para Sustentabilidade do Oceano (isso é, se não se incomodarem com a quantidade de água salgada que despejo enquanto mal consigo falar!) Como comecei o post com minha frase de abertura na carta de apresentação, finalizo da mesma forma que fechei minha carta: “Ainda não sei se uma década é muito ou pouco, mas sei que sou muito grata por esses primeiros dez anos e estou ansiosa pelos próximos.” Muito, muito obrigada. #MulheresNaCiência #Prêmio #MartaVannucci #CátedraUnesco #LigaDasMulheresPeloOceano #DécadaDoOceano #Oceanografia

  • Quanto custa o acesso à informação?

    Por Juliana Leonel Ilustração por Alexya Queiroz. Para conduzir a sua pesquisa, um grupo de cientistas precisa de salário/bolsas¹ e de laboratórios - sejam eles cheios de vidrarias e reagentes, de equipamentos que parecem saídos de um filme de ficção científica, de computadores ou de livros. Só isso? Não! Toda pesquisa surge a partir de uma pergunta e de hipóteses que são levantadas para respondê-la. Mas para elaborar as perguntas e as hipóteses é preciso saber o que já foi estudado sobre o assunto, o que já se sabe, quais perguntas ainda estão sem respostas, o que nunca foi investigado, e até mesmo o que já deu errado nas pesquisas sobre o tópico em questão. E isso tudo implica em muita, mas muita leitura sobre o tema de trabalho. E para que isso seja possível é preciso acesso às pesquisas já desenvolvidas. Quando um cientista finaliza uma pesquisa ele escreve artigos científicos sobre o trabalho que desenvolveu onde apresenta sua motivação, a importância do trabalho, objetivos, métodos de estudo e, por fim, mostra os resultados e os discute. Esses artigos são enviados para revistas científicas onde são revisados por outros cientistas e depois (não sem antes passar por modificações e ajustes) são publicados para que todos tenham acesso aos dados e informações. Mas será que todos de fato têm acesso? Vale lembrar que a maior parte das revistas científicas de algumas áreas (da oceanografia, por exemplo) são revistas internacionais em que os trabalhos são publicados em língua inglesa. O inglês é considerado por muitos como a língua da ciência e que publicar nessa língua permite que pessoas dos mais diversos países leiam os trabalhos (aumentando o acesso a pesquisa). No entanto, o Brasil mesmo é um exemplo de país em que aprender inglês é um privilégio, mesmo para pessoas que têm acesso à educação superior. Temos aqui a primeira barreira para o acesso à informação científica. Mesmo que o inglês não fosse um problema, esses artigos são escritos usando termos e jargões que não são familiares à maioria da população. Ou será que todos sabem o que é um glúon? Logo, mesmo artigos publicados em português, não são acessíveis para todos. E aqui destaco a importância de divulgadores de ciência que, entre outras muitas coisas, fazem a “tradução” das pesquisas para uma linguagem mais acessível e inclusiva. Por fim, nem para os pesquisadores os artigos científicos são realmente (sempre) acessíveis. Como assim? Não faz sentido, né? A maioria das revistas científicas onde os trabalhos são publicados pertencem a poucos grupos que têm corpos editoriais que organizam a logística de recebimento dos artigos, passando pela revisão até a publicação. Claro que tudo isso envolve custos e, por isso, para acessar esses trabalhos os pesquisadores ou suas instituições devem assinar essas revistas ou podem comprar apenas os artigos que têm interesse em ler. Acontece que o preço de um artigo varia, em média, de 30-40 dólares. Isso mesmo, por um artigo, UMzinho! Sabe quantos artigos um pesquisador lê? Ao longo de um doutorado, por exemplo, centenas… faz as contas aí de quanto sai tudo isso. A verdade é que os valores cobrados estão muito aquém do custo envolvido na produção dos periódicos científicos e tem algumas pessoas lucrando muito com isso. Estima-se que a margem de lucro da Elsevier, uma das gigantes no mundo de publicações científicas, seja maior que a do Google (30-40 %). Não é à toa que diversas universidades ao redor do mundo começaram a discutir sobre esses custos e alguns países, como a Suécia, pararam de assinar periódicos de grandes grupos e começaram a incentivar seus pesquisadores a só publicar em periódicos científicos de acesso aberto. Nestes, é comum que os autores dos artigos paguem uma taxa antes da publicação (e normalmente o valor é bem alto!). Apesar de existirem periódicos predatórios (pagou = publicou) existem muitos que são sérios e comprometidos com a ciência que adotam esse método. No Brasil, há o Portal de Periódicos da CAPES, financiado pelo governo federal, em que são disponibilizadas milhares de assinaturas de revistas científicas. No entanto, o acesso só pode ser feito por quem estiver dentro de uma instituição pública (ou tiver um registro em uma). Ou seja, uma parcela grande de pessoas não tem acesso; embora todos paguem impostos. Além disso, nem todos os periódicos estão disponíveis no sistema CAPES. Agora como fica o pesquisador que finalizou seu doutorado, ainda precisa publicar seus resultados, mas para isso precisa ter acesso a outros artigos científicos?² O que acontece com quem trabalha em uma empresa ou em órgãos do governo estadual, por exemplo? Não é só quem está na universidade que precisa ter acesso a esses periódicos. Essa barreira invisível é chamada de paywall e ela impede ou restringe o acesso aos estudos científicos. E isso tem consequências importantes: restringe o número de revistas e artigos científicos a serem acessados e isso modula a ciência, pois as pesquisas e discussões científicas serão baseadas somente no material ao qual se teve acesso; gera uma segregação entre pesquisadores/grupos de pesquisa que têm mais ou menos acesso às informações; impede que informações científicas sobre grandes problemas (como mudanças climáticas, água potável, biodiversidade) sejam acessadas pelo maior número possível de pessoas; favorece o desenvolvimento de uma ciência regulada em função dos interesses dos detentores do paywall. Você já tinha pensado nesse custo? Ou em como o paywall impede que a ciência seja acessível para todos (mesmo para cientistas)? Há pessoas que não só pensam sobre isso como também tentam mudar essa realidade (mesmo que suas práticas sejam ainda consideradas ilegais), como é o caso do Aaron Swartz (que se matou depois de ter sido condenado a pagar 1 milhão de dólares em multa e mais 35 anos de prisão por ter disponibilizado artigos que conseguiu através da sua conta do MIT) e da Alexandra Elbakyan (que hoje vive escondida por ter criado uma plataforma para distribuição livre de artigos científicos). Ironicamente, em 2016, a própria Nature (que cobra até 2 mil dólares para os cientistas publicarem em suas revistas) a nomeou uma das 10 pessoas mais relevantes para a ciência. Você já pensou no impacto que a plataforma criada pela Alexandra teve na sua pesquisa? Ou já pensou em incluí-la na lista de agradecimentos do seu TCC, dissertação, tese, artigo? ¹ Lembrando que bolsa não é salário ² Algumas universidades possuem cadastros para estudantes egressos para permitir que continuem acessando os periódicos #VidaDeCientista #PreçoDaCiência #FreeScience #Artigos #Publicações #OpenAccess #RevistaCientífica #JulianaLeonel #AlexyaQueiroz

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