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- Propagação de ondas e o caso do tsunami no Brasil
Por Nandara Bortoli (Fonte: Nandara Bortoli ©) Na última semana, o aumento das atividades sísmicas do vulcão Cumbre Vieja em La Palma (uma das Ilhas Canárias) chamou a atenção nas notícias aqui no Brasil. Mas por que um vulcão do outro lado do Atlântico chamou tanto a nossa atenção? Muitos veículos de comunicação, inclusive alguns bem sensacionalistas e prevendo um apocalipse, noticiaram que se houver a erupção, a costa do Brasil será atingida por um tsunami. No dia 19 de setembro de 2021 o temido vulcão entrou em erupção e nossa costa continua intacta. De qualquer modo, vamos entender um pouco mais sobre o assunto que causou tanto alarme e fez algumas pessoas quererem fugir para as montanhas, além de divertidos memes (pois somos brasileiros né?)? Na evolução do planeta Terra, houve períodos de grande atividade que promoveram a modificação dos ambientes rapidamente em relação a escala de tempo geológica. Um grande número de ilhas oceânicas têm origem vulcânica e,em função disso, apresentam um potencial de fragmentação rochosa dos vulcões, com possibilidade de deslizamentos no seu entorno. Caso estejam próximas ao mar, pelo tamanho dessas rochas e a velocidade de transporte até encontrar o oceano, tendem a gerar tsunamis de alta intensidade que se propagam por longas distâncias, como cruzar uma bacia oceânica em poucas horas, causando impactos em regiões distantes do ponto que iniciou a geração do tsunami. Mas o que são os tsunamis? Tsunamis são ondas de gravidade que se propagam na superfície do oceano, geradas a partir de uma perturbação inicial, (ex: terremotos, deslizamentos submarinos ou subaéreos) que são extremamente energéticos e parte dessa energia é transferida para a coluna d’água, formando essas ondas intensas e com grande amplitude. O Vulcão Cumbre Vieja localiza-se na porção sul da Ilha de La Palma, que pertence ao Arquipélago das Canárias e é uma das ilhas mais jovens deste arquipélago. O vulcão tem uma área e volume subaéreo correspondente a 220 km² e 125 km³, respectivamente. Sua altura atinge 6 km, medidos a partir do fundo oceânico, dos quais 2 km estão acima do nível do mar. O Cumbre Vieja apresenta uma área de instabilidade de 20 km de comprimento e 8 km de largura, o volume de material que pode gerar o deslizamento pelo colapso das paredes do vulcão é de aproximadamente 200 km³. Devido à instabilidade do Cumbre Vieja, sabe-se que parte deste vulcão deslizará para dentro do Oceano Atlântico, em algum momento no futuro. Não se sabe, no entanto, quando e qual será o tamanho deste deslizamento, mas devido sua localidade em La Palma, parte do colapso desta parede vulcânica irá potencialmente gerar um tsunami, que tem inquietado a comunidade científica por anos. Como os cientistas através da modelagem numérica podem nos ajudar a prever o que está por vir? Com o objetivo de investigar o impacto e tempo de propagação de um tsunami, gerado devido a um colapso parcial do Vulcão Cumbre Vieja, até algumas cidades da costa brasileira (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Santos e Florianópolis), nosso grupo de pesquisa realizou a modelagem de propagação das ondas que seriam geradas. Para isso, foi utilizado um modelo numérico, onde foi criado três cenários para o deslizamento, considerando deslizamentos de 20 km³, 40 km³ e 80 km³, que são dados fornecidos pelo projeto de pesquisa europeu TRANSFER (“Tsunami Risk And Strategies For the European Region”, nesse site tem informações sobre o projeto: https://cordis.europa.eu/project/id/37058 ), que mede continuamente a estabilidade dos flancos do vulcão. A tentativa foi de avaliar a chegada das ondas na costa do Brasil, e para isso foram criados marégrafos virtuais que medem a altura da onda. Para os cálculos, levamos em consideração os dados que nos foram fornecidos e também estudos publicados anteriormente, pensando em como ajustar para o mais próximo do real caso aconteça este fenômeno e também para realizar a propagação das ondas. O tempo de simulação foi de 18h, tempo necessário para garantir que as ondas geradas atingissem todas as cidades de interesse na costa brasileira. O sertão vai virar mar? No caso em discussão, com a perturbação inicial localizada próximo da Ilha de La Palma, a costa norte brasileira - até a cidade de Natal (RN) - , poderia ser a parte que sofreria o maior impacto, pois está diretamente voltada para a região do evento. O local que seria mais afetado (com a onda de maior amplitude) seria Recife (o mar avançaria 4,85m; 6,9m e 9,8m; para os experimentos de 20 km3, 40 km3 e 80 km3) 6:08h após o início da propagação. Já em Florianópolis, o local que o tsunami chegaria por último dentre os locais que foram considerados de interesse para este estudo, a onda chegaria após 10:27 h e com amplitude de 0,49m (20km³), 0,7m (40km³) e 0,98m (80km³). Resultados das diferentes simulações para distintas cidades brasileiras (Fonte: Nandara Bortoli ©) Apesar do nosso estudo mostrar que sim, a costa brasileira seria afetada no caso do deslizamento de parte do Cumbre Vieja, não há sinais claros que isso irá acontecer durante a erupção. Diversos grupos de pesquisadores estão monitorando a região constantemente e neste domingo, 19 de setembro de 2021, o vulcão entrou em erupção. Então, mantenha-se informado e leia notícias com fontes seguras, antes de planejar sua fuga para as montanhas. Referência: BORTOLI, N.; FETTER, A. MODELAGEM NUMÉRICA DE TSUNAMI OCASIONADO PELO COLAPSO LATERAL DO VULCÃO CUMBRE VIEJA, LA PALMA, ILHAS CANÁRIAS: ANÁLISE NA COSTA BRASILEIRA . In: OMARSAT, XIII, 2019, Arraial do Cabo- RJ, p. 380-384. Sobre a autora: Me chamo Nandara, sou oceanógrafa formada pela UFSC, mãe da Lívia e vegetariana. Amo viajar, ler, praticar atividade física e aprender (principalmente sobre os oceanos). Este trabalho foi realizado durante minha iniciação científica na graduação em oceanografia sob orientação do prof. Dr. Antonio Fetter. Este trabalho foi apresentado no congresso OMARSAT XIII em 2019. Instagram pessoal: @n.bortoli instagram profissional : @oceanografia_brasil e-mail: nandara.oceanografa@gmail.com #Tsunami #Vulcao #CienciasDoMar #convidados #BatePapoComNetuno #Oceanografia #Sísmica #CumbreVieja #TsunamiNoBrasil
- Tiradas do Netuno #16
O mar profundo é um ambiente bastante oligotrófico, isso é, com grande escassez de alimento. Cada vez que uma carcaça da megafauna (tubarões, golfinhos e baleias principalmente) afunda, há um verdadeiro banquete que se divide em diferentes estágios. Os peixes grandes se alimentam dos pedaços maiores, e, aos poucos, toda aquela biomassa vai sendo consumida por diferentes animais da teia trófica. Existem até pequenos poliquetas (do gênero Osedax) que colonizam os ossos das carcaças e por ali permanecem por muitos meses ou anos, até que toda a gordura dos ossos seja consumida. Para saber mais, acesse o post “A extraordinária vida associada às carcaças de baleias no mar profundo” publicado em 31/03/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno#MarianeSoares#Oceanografia#OceanografiaBiológica#CiênciasDoMar#BiologiaMarinha #MarProfundo #CarcaçasDeBaleia #TeiaTróficaNoMarProfundo
- Quem come quem? Descomplicando a teia trófica marinha e a alça microbiana
Por Jana M. del Favero e Juliana Leonel Independentemente do tipo e local, os ecossistemas operam diariamente trocando energia e matéria. De maneira geral, os organismos autotróficos (produtores primários) produzem biomassa a partir da matéria inorgânica usando a radiação solar como fonte de energia, ou seja, eles realizam fotossíntese. Há também os organismos que utilizam apenas a energia química (e não solar) para produzir matéria orgânica, realizando a quimiossíntese (como ocorre, por exemplo, nas fontes hidrotermais). Essa conversão de compostos inorgânicos em orgânicos (= produção de biomassa) é o alicerce que dá suporte para a vida dos demais organismos nos oceanos. Exemplo de cadeia alimentar pelágica (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Os produtores primários são então consumidos pelos consumidores primários, que, por sua vez, são consumidos pelos consumidores secundários e assim por diante. Esse arranjo linear de transferência de energia e matéria orgânica através de vários níveis tróficos é chamado de cadeia alimentar (ou cadeia trófica). A cadeia alimentar pelágica começa com o fitoplâncton ou o bacterioplâncton como produtores primários que formam o primeiro nível trófico. Algumas espécies de zooplâncton, que se alimentam diretamente dos produtores primários (como copépodes e salpas), compõem o segundo nível trófico. Níveis tróficos subsequentes são formados pelas espécies carnívoras do zooplâncton (como Chaetognatha), e pelos carnívoros que se alimentam de outros pequenos carnívoros (incluindo medusas e peixes). O mais alto nível trófico é ocupado por aqueles animais que não têm predadores (além dos humanos), podendo incluir tubarões, algumas espécies de peixes ósseos, aves e golfinhos. Há evidências para sugerir que o número de níveis na cadeia alimentar pelágica varia com a localidade e pode ser determinado pelo tamanho individual dos produtores primários. O número de níveis tróficos pode chegar até seis no oceano aberto (pobre em nutrientes e com produtores primários de menor porte), até cerca de quatro nas plataformas continentais e apenas até três em zonas de ressurgência e regiões polares (ricas em nutrientes e com produtores primários de maior tamanho, sendo que muitas vezes os peixes se alimentam diretamente desses grandes produtores primários). A energia passa de um nível para outro conforme um organismo se alimenta de outro de um nível inferior. Porém, apenas cerca de 10% da energia é transferida de um nível para outro, ou seja, a maior parte da energia está na base da cadeia trófica, diminuindo a cada nível trófico. Transferência de energia ao longo da malha trófica. (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Na realidade, raramente temos cadeias alimentares lineares simples no mar, onde um organismo preda o outro, que preda o outro, que preda o outro e fim. Praticamente todas as espécies podem ser consumidas por mais de uma espécie, e a maioria dos animais comem mais de um tipo de alimento (como as espécies onívoras e detritívoras). Algumas espécies mudam as dietas (e os níveis tróficos) ao longo do ciclo de vida, ou são parasitas, ou são até mesmo canibalistas. Além disso, a cadeia alimentar bentônica também está ligada à produção pelágica: algumas espécies bentônicas filtradoras (por exemplo, cracas e mexilhões) alimentam-se diretamente do fito/zooplâncton e outras são indiretamente dependentes da produção pelágica. Assim, esse sistema é retratado com melhor precisão como uma rede alimentar com interações múltiplas e variáveis entre os organismos envolvidos, a chamada teia trófica. Exemplo de teia trófica marinha (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Seja lá qual for o número de níveis tróficos e de interações, os organismos que fazem parte das teias tróficas são responsáveis pela produção de carbono orgânico particulado (COP) e carbono orgânico dissolvido (COD). Essa produção ocorre através da morte de células, alimentação incompleta do zooplâncton e excreção de resíduos, por exemplo. Tanto o COP como o COD têm importantes papéis para a manutenção da vida nos oceanos. O COD, devido ao seu tamanho, é mais dificilmente aproveitado pela maioria dos organismos. No entanto, as bactérias têm capacidade de assimilar essa forma de carbono e reintroduzi-la na teia trófica, disponibilizando matéria e energia adicional para os níveis tróficos superiores, fechando o que chamamos de alça microbiana. Ela é de particular importância no aumento da eficiência da teia alimentar marinha por meio da utilização do COD, que normalmente não está disponível para a maioria dos organismos marinhos. Esquema mostrando a alça microbiana (em laranja). COD = carbono orgânico dissolvido (Fonte: Bate Papo Com Netuno com Licença CC BY SA 4.0). Para saber mais: Recomendamos o seguinte vídeo: Fonte: Pinet, P.R. 2014. Invitation To Oceanography. 7a edição. Jones & Bartlett. Learning. 662 p. #DescomplicandoNetuno #TeiaTrófica #CadeiaAlimentar #AlçaMicrobiana #Oceanografia #BiologiaMarinha #OceanografiaBiológica #BatePapoComNetuno #JanaMDelFavero #JulianaLeonel
- Conservação da biodiversidade: sobre mulheres, desafios e representatividade
Por Clarissa Ribeiro Teixeira, Julia Cavalli Pierry e Mariane Barbosa Santos Novelli Ilustração por Verônica Lorraine. “Estou de pé sobre o sacrifício de milhões de mulheres antes de mim pensando no que eu posso fazer para deixar esta montanha ainda mais alta para que as mulheres que venham depois de mim possam ver mais longe.” (Legado – Rupi Kaur) O Brasil é o país com o maior número de pessoas conservacionistas assassinadas por ano. É também o quinto país em que mais matam mulheres. É preciso começar assim, de forma dura e indigesta – tal qual essa realidade – para assimilarmos desde o começo que todas as mulheres brasileiras conservacionistas são, também, sobreviventes. Mesmo sendo historicamente colocadas à margem da sociedade, o Brasil é um dos países com a maior porcentagem de artigos científicos produzidos por mulheres, seja como autoras principais ou coautoras. O pioneirismo feminino na ciência brasileira é marcado por grandes nomes, como o da bióloga e sufragista Bertha Lutz (1874-1976). Especialista em anfíbios anuros, Lutz catalogou mais de 4.000 espécies nacionais e foi também a segunda mulher brasileira a ocupar um cargo de servidora pública, ao tornar-se secretária do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Seu pioneirismo ultrapassou o âmbito científico e chegou na atuação política ao assumir a liderança na luta pelo direito das mulheres ao voto e pela igualdade de gêneros, e ao fundar a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Bertha Lutz durante Conferência de São Francisco realizada em 1945, onde lutou para incluir o termo “mulheres” no documento que fundou a ONU (Fonte: Arquivo Nacional com licença CC BY 3.0). Outra grande referência é Maria Tereza Jorge Pádua. Agrônoma e conservacionista, participou da criação do IBAMA e foi responsável por gerar mais de oito milhões de hectares de áreas protegidas no Brasil, englobando parte das Unidades de Conservação da Amazônia, o Parque Nacional do Pantanal, a Chapada Diamantina e o Arquipélago de Fernando de Noronha. Em 2016, foi a segunda mulher na história a receber a Medalha John C. Philips – a mais alta condecoração do Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Além da inestimável contribuição para a conservação da biodiversidade brasileira, o trabalho destas e de outras pioneiras abriu caminho para a atuação de muitas outras que vieram posteriormente. Inspiradas por elas, convidamos quatro mulheres que atuam ou atuaram na conservação para compartilhar experiências vividas ao longo de suas trajetórias. A bióloga Daniela Fettuccia atuou em projetos de educação ambiental, e desenvolveu suas pesquisas de pós-graduação no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Durante oito anos, Daniela estudou o tucuxi (Sotalia fluviatilis) - uma das espécies de boto que ocorre na região. Em um de seus estudos, ela avaliou a variação morfológica entre esqueletos de tucuxis e botos-cinza (Sotalia guianensis), que até pouco tempo eram consideradas uma única espécie, contribuindo assim com informações relevantes para a ecologia e conservação destes animais. Bióloga e ativista, Luciana Leite esteve presente em um dos maiores desastres ambientais da atualidade: auxiliou a combater o fogo e resgatar animais queimados ou debilitados durante as queimadas no Pantanal mato-grossense. Devido ao seu engajamento e à receptividade da comunidade local, Luciana atualmente lidera o coletivo Chalana Esperança, uma iniciativa criada juntamente com Cecília Licarião, Daniella França e Lua Benício e que busca desenvolver projetos de educação e sensibilização quanto aos problemas que ameaçam a biodiversidade pantaneira. Luciana Leite - Ilhas de alimentação durante queimadas no Pantanal (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0) Ainda adolescente, Maria Emilia Morete (Mia), já se considerava uma ativista ambiental contra a caça das baleias. Sempre teve consigo o desejo de ajudar na conservação desses animais e, ao se tornar bióloga, trilhou um caminho em direção a esse objetivo. Especialista em estudos de ponto fixo utilizando a ferramenta teodolito, Mia e “Teo” - como apelidou carinhosamente seu equipamento - atuam juntos há quase 25 anos em estudos de baleias e golfinhos. Em 2016, Mia fundou o Instituto Verde Azul - VIVA que atua na educação, pesquisa e ativismo e tem como principal objetivo sensibilizar as pessoas para a conservação dos mamíferos aquáticos. Bióloga e professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Michele de Sá Dechoum trabalha desde o seu mestrado com ecologia de espécies exóticas invasoras, buscando obter informações que possibilitem a gestão e o manejo dessas espécies. Também coordena o Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas - LEIMAC, e é gestora da base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental. Seu estudo teórico e prático colabora de forma primordial para a conservação de ecossistemas nativos brasileiros em diferentes frentes de atuação. Painel das mulheres conservacionistas entrevistadas: Mia Morete, Daniela Fettuccia, Luciana Leite e Michele de Sá Dechoum (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0). Quando questionadas sobre representatividade feminina ao longo de suas carreiras, as entrevistadas reforçam sua importância: “não apenas na área ambiental, mas também na literatura, música, cinema, teatro, esportes – precisamos ter referências de mulheres!” – reflete Michele. Luciana lembra que, quando criança, ouvia sobre mulheres que mudaram a história da conservação ambiental no mundo, mas que essas pareciam muito distantes da sua realidade — brasileira e nordestina. Além de exemplos femininos na ciência e ativismo, Mia evidencia o quanto mulheres do seu cotidiano foram e seguem sendo fontes de inspiração, destacando Berna Barbosa, guarda parque há mais de 30 anos no Parque Nacional Marinho de Abrolhos. Já Daniela destaca a honra de ter sido orientada por uma das maiores referências na pesquisa de mamíferos aquáticos, a Dra. Vera Maria Ferreira da Silva, e complementa: “considerando todos os lugares que já visitei durante a pós-graduação, tenho notado que o número de mulheres assumindo posição de destaque tem crescido notavelmente, felizmente”. Essa atuação, entretanto, segue acompanhada pelas dificuldades inerentes às questões de gênero: “na minha percepção, mulheres têm que ser muito mais produtivas, fazer ‘muito mais por merecer’ do que homens, para que consigam atingir seus objetivos. Acho também que somos menos ouvidas e reconhecidas em nossos ambientes de trabalho, que são majoritariamente masculinos”, reforça Michele. Pensando em soluções coletivas que poderíamos adotar enquanto sociedade para mudar esse cenário, Michele continua: “precisamos seguir lutando pelos nossos direitos, sermos engajadas, falarmos sobre desigualdades entre gêneros, sempre que possível. Precisamos que isso faça parte da nossa práxis e do nosso discurso”, e Luciana complementa: “além de conversarmos abertamente sobre o tema, precisamos exigir políticas institucionais que fomentem ambientes acadêmicos e científicos inclusivos e amigáveis para todes”, com um acordo geral de que um dos caminhos necessários para alcançarmos tais mudanças é a educação. Evidentemente, o papel das mulheres na conservação da biodiversidade no Brasil vai muito além do meio acadêmico e científico: professoras, educadoras ambientais, ativistas, mulheres de comunidades tradicionais, ocupantes de cargos administrativos, gestoras de unidades de conservação e muitas outras vêm exercendo funções de destaque. Em Cananéia-SP, por exemplo, um grupo de artesãs caiçaras conhecidas como Mulheres da Enseada da Baleia atuam na produção de peças artísticas sustentáveis por meio do reaproveitamento de redes de pesca descartadas. Ao reutilizar material pesqueiro que estaria poluindo o ecossistema marinho, essa iniciativa contribui de forma direta na conservação local, gera empregos e renda para as mulheres da região, além de sensibilizar a comunidade local a repensar seu consumo. Outro exemplo são as Guerreiras da Floresta - um grupo de mulheres criado para auxiliar na defesa do território do povo Guajajara no Maranhão, por meio do combate aos madeireiros e garimpos ilegais e de debates sobre a importância da natureza para os povos indígenas em escolas locais. Ao olharmos para o protagonismo feminino na conservação brasileira, podemos perceber que apesar dessa diversidade de atuações, não observamos uma pluralidade de mulheres e, consequentemente, de suas distintas realidades em todos esses cargos. Muitos dos espaços conquistados - principalmente no meio acadêmico e científico - são ocupados majoritariamente por mulheres cisgênero e brancas. Reflexo de uma cultura escravocrata, ainda hoje os obstáculos são maiores e as oportunidades mais escassas para aquelas que sofrem outros tipos de opressão na sociedade em que vivemos. Assim, é necessário que reconheçamos nossos privilégios e que, a partir deles, busquemos formas de ampliar o acesso à formação acadêmica para todas que desejarem e, principalmente, que valorizemos a atuação de todas em qualquer frente de conservação, respeitando o conhecimento e a cultura dos povos nativos e a importância da luta de todas nós. A conservação ambiental e a justiça social podem e devem caminhar juntas. “É importante lembrar que, em um país racista e classista como o Brasil, sou uma mulher cercada de privilégios (...) a minha luta feminista não se baseia apenas na minha vivência pessoal enquanto mulher e cientista ou ambientalista, mas sim nas experiências e obstáculos enfrentados por outras mulheres, em toda a sua diversidade.” (Luciana Leite) Esse texto nasceu com o intuito de homenagear as mulheres que atuam na conservação da biodiversidade brasileira. Ao longo do processo, percebemos que essas trajetórias não foram construídas apenas com conquistas, mas também com obstáculos que variam de acordo com as diferentes realidades. Enquanto mulheres, biólogas e atuantes em um projeto de conservação socioambiental que se reconhecem em posição de privilégio, compartilhamos a gratidão pelo caminho trilhado pelas que vieram antes, o reconhecimento das que lutam todos os dias para permanecer atuando e o desejo de contribuir com aquelas que buscam trilhar o mesmo caminho. Que esse texto possa inspirar e tornar a montanha um pouco mais alta para todas nós. Foto das autoras - Mariane, Julia e Clarissa - ao final de um dia de coleta de dados em campo (Fonte: cedido pela autora com licença CCBY-SA 4.0). Sobre as autoras Clarissa Ribeiro Teixeira Sou Bacharel e Licenciada em Ciências Biológicas (UFPR), Mestre em Zoologia (UFPR) e Doutora em Ecologia (UFSC). Atualmente sou pesquisadora colaboradora do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e do Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC), onde atuo como técnica de Ecologia Comportamental no Projeto Boto-Cinza (Petrobrás Socioambiental). Sempre fui fascinada pela etologia e desde a minha graduação atuei em projetos de pesquisas com mamíferos marinhos nesta linha de pesquisa. Durante o meu doutorado, resolvi mudar meu foco e comecei a trabalhar com biomarcadores (isótopos estáveis) para avaliar o uso de habitat e ecologia trófica da megafauna marinha. Desde então, esse tema se tornou minha paixão! Se quiser saber um pouco mais sobre mim me segue lá no Twitter (@ClaTeixeira), entra no meu site (sites.google.com/view/clarissarteixeira) ou me manda um e-mail (clarissa.rteixeira@gmail.com) Julia Cavalli Pierry Sou Bacharel em Ciências Biológicas e Mestre em Ecologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atuo como técnica de campo e pesquisadora responsável da linha de Padrões Populacionais no Projeto Boto-Cinza do IPeC. Pesquiso os padrões populacionais e comportamentais de cetáceos há quase dez anos e sou completamente apaixonada por esses animais e seu habitat desde criança. Além de procurar borrifos no mar, amo pedalar, escrever, dançar e fotografar. Se quiser conferir algumas fotografias e saber mais sobre meu trabalho me segue no Instagram (@ju.pierry) ou envia um e-mail (juliapierry@yahoo.com.br). Mariane Barbosa Santos Novelli Bacharel em Ciências Biológicas (Univasf), Mestranda em Zoologia (UFPR) e Designer Gráfico nas horas vagas. Combinação que me permite atuar, hoje, no setor de Comunicação do Projeto Boto-Cinza do IPeC e com algumas das coisas que mais gosto: conservação da biodiversidade, educação ambiental, divulgação científica e, é claro, o mar. Alguns dos meus projetos estão no meu portfólio (https://www.behance.net/marianebsnovelli) e também podemos trocar uma ideia pelo meu Instagram (@marianebsnovelli) ou e-mail (marianebsnovelli@gmail.com). Referências: Amarante, Suely. Kalil, Irene. 2018. Pesquisadoras falam sobre mulheres e pesquisa científica. Portal FioCruz - Pesquisadoras falam sobre mulheres e pesquisa científica Camargo, Suzana. 2016. Maria Tereza Pádua é primeira brasileira e segunda mulher a receber a maisreceber mais alta condecoração ambientalista do mundo. Conexão Planeta - https://conexaoplaneta.com.br/blog/maria-tereza-padua-e-primeira-brasileira-e-segunda-mulher-receber-mais-alta-condecoracao-ambientalista-do-mundo/ Fowks, Jacqueline. 2018. Brasil, o país mais letal para defensores da terra e do meio ambiente. El País - Brasil, o país mais letal para defensores da terra e do meio ambiente Gustafson, Jessica. 2019. Brasil caminha para liderar ranking mundial da violência contra mulher. Portal Catarinas - Brasil caminha para liderar ranking mundial da violência contra mulher Marasciulo, Marília. 2019. Bertha Lutz, a bióloga pioneira no movimento de igualdade de gênero. Revista Galileu - Bertha Lutz, a bióloga pioneira no movimento de igualdade de gênero - Revista Galileu | Sociedade (globo.com) Melo, Karina. 2020. Mulheres indígenas e crise climática: vulnerabilidades e contribuições fundamentais. Todos os olhos na Amazônia - Mulheres Indígenas e crises climática: Vulnerabilidades e Contribuições Fundamentais | (todososolhosnaamazonia.org) Tokarnia, Mariana. 2019. Mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados pelo Brasil. Agência Brasil - Mulheres assinam 72% dos artigos científicos publicados pelo Brasil #MulheresNaConservação #Biodiversidade #Representatividade #MulheresNasCiências #Convidados
- Como tomar decisões sobre biodiversidade? Minha experiência na IPBES
Por Carla Elliff Ilustração de Alexya Queiroz Fazer trabalhos em grupo sempre causa certa tensão, especialmente quando não temos total escolha sobre quem serão nossos colegas de equipe, não é? Tenho várias memórias de trabalhos de escola e projetos em que a vontade era largar tudo ou pegar tudo e fazer do meu jeito sozinha, só para acabar logo com aquilo! Óbvio que nenhuma dessas soluções é a ideal e, aos poucos, a gente vai aprendendo algumas habilidades e estratégias (além de respirar fundo!) para lidar melhor. Esse aprendizado de ouvir e compreender é talvez um dos menos valorizados em um mundo onde o ego fala mais alto. No entanto, quando dois ambientes que infelizmente têm muito ego, como a ciência e a política, se encontram, como fazer esse trabalho em grupo render um resultado benéfico para todos? Recentemente tive a oportunidade de acompanhar um processo para a definição do escopo e planos de trabalhos da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) na sua 8ª plenária. As escolhas eram indissociáveis de visões históricas e políticas, pontuadas pelas orientações de especialistas. IPBES é uma instituição relativamente nova, estabelecida em 2012, cujos arranjos administrativos são manejados pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA - ou UNEP, em sua sigla em inglês que aparece tão frequentemente por aí). Uma comparação comum para começar a entender o que é essa plataforma é pensar nela como o “IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima) da biodiversidade”. Se você nunca ouviu falar da IPBES, não se preocupe: você não está só! Nesse texto, a Dra. Carla Washbourne, pesquisadora no Reino Unido, elenca algumas razões do porquê uma organização tão essencial ainda não é tão conhecida. A primeira eu já mencionei: a plataforma é bastante recente, ganhando maior reconhecimento ano a ano (especialmente após o seu relatório global alertando sobre perda de biodiversidade, lançado em 2019, e sua indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2020). Segundo, a plataforma foca essencialmente em produzir relatórios técnicos e documentos relevantes para políticas públicas, com algumas ações apenas mais recentemente de comunicação para além desse público mais restrito. E, por último, eles mexem numa ferida que muitos querem ignorar, a crise global da biodiversidade, mas que felizmente está ganhando os holofotes. Capa do relatório da avaliação global de biodiversidade e serviços ecossistêmicos da IPBES, onde foi apontado que 1 milhão de espécies de fauna e flora correm o risco de extinção. (Copyright © 2019, Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES)) Qualquer país membro das Nações Unidas pode se tornar membro da IPBES e, assim, participar das discussões sobre avaliações globais e regionais sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Além dos Estados membros e da equipe da plataforma (formado por uma espécie de conselho, secretaria e painel de especialistas), há duas redes de atores sociais e algumas dezenas de organizações observadoras que congregam indivíduos e entidades interessados no tema. Ou seja, são muitas contribuições vindas dos mais variados setores! E isso é ótimo para garantir visões de mundo diferentes, mas também exige muito diálogo, paciência e compreensão. Minha participação na plenária de 2021 (IPBES-8) se deu por meio de uma das organizações observadoras credenciadas, a rede de especialistas em serviços ecossistêmicos em início de carreira YESS – Young Ecosystem Services Specialists. Faço parte dessa rede de jovens pesquisadores e profissionais desde 2013, mais ou menos, quando estava no mestrado e ela foi fantástica para buscar recursos e ajuda no desenvolvimento do meu trabalho! Todos os anos, a YESS organiza uma delegação de membros para ir à plenária da IPBES. Em 2020, devido às incertezas da pandemia, a plenária foi cancelada. Agora em 2021, tendo mais tempo para buscar um formato alternativo que cumprisse com os objetivos do evento, a plenária se deu de forma inteiramente virtual. Há muito o que se dizer sobre os prós e contras dessa adaptação e isso está sendo estudado com muito cuidado pela equipe IPBES para saber como melhor conduzir a plenária nos próximos anos (talvez um formato híbrido?). Ok, falei um monte sobre como essa gente toda se organiza para discutir biodiversidade e serviços ecossistêmicos, mas como isso de fato acontece e o que se produz nessas discussões? Mencionei o relatório global de 2019 da plataforma, vamos tomá-lo como exemplo. Antes de virar um relatório disponível para o público geral, fornecendo um diagnóstico baseado em evidências e pronto para informar governos, este documento passou por um longo processo. Três anos antes de sua publicação, na 4ª plenária da plataforma, todos os membros interessados se reuniram para decidir sobre o escopo dessa avaliação global de biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Este foi o momento quando delegações de diversos países precisaram chegar em um consenso sobre o conteúdo do relatório, depois de muito estudarem uma prévia do material. Uma vez acordado, este documento de escopo foi então usado como guia para os especialistas, que foram os autores do relatório final (que antes de finalizado passou por mais várias rodadas de revisão por pares!). Relatório escrito, revisado, disponibilizado para os membros da IPBES? Vai para a plenária para ser aprovado oficialmente! Esse processo pode parecer longo e trabalhoso, mas é muito importante para produzir um material que seja útil para políticas públicas, aplicável para os membros da plataforma e que represente de fato o estado da arte do assunto. Não participei desse processo de avaliação para o relatório global e, com base no que observei aqui na plenária deste ano, imagino que tenham sido discussões extremamente detalhadas (alguns colegas me disseram que em plenárias anteriores, algumas sessões se estenderam até às três da manhã!). E são nesses detalhes que vemos algumas posições políticas importantes, que cada membro quer ver refletidas no relatório final. Por exemplo, fiquei muito feliz em ver que diversos países pediram a inclusão de menções específicas para “ecossistemas marinhos” ao longo dos documentos sendo avaliados na IPBES-8, enfatizando a importância de se equilibrar as avaliações do meio terrestre e aquático. Por outro lado, fiquei angustiada em outros momentos por não poder falar nada quando as discussões ficavam em torno de trocas de palavras que aparentemente não mudavam em nada o conteúdo! Este é um dos lados ruins das organizações observadoras, pois elas fazem exatamente isso: apenas observam o processo durante a plenária (porém, contribuímos em diversas outras etapas, onde aí sim podemos expressar nossas preocupações e considerações, como já vou exemplificar). Fiquei também impressionada com a insistência sobre alguns pontos, como a tentativa de evitar mencionar o Acordo de Paris nominalmente em alguns momentos. Me pareceu que ainda há muito para se caminhar num entendimento que biodiversidade é indissociável de mudanças climáticas (tanto que o IPCC e a IPBES acabaram de lançar um relatório conjunto sobre o assunto), já que para muitos países (Brasil dentre eles) esses dois tópicos são trabalhados ainda de forma não integrada. Além disso, assuntos como crescimento econômico, capitalismo, colonialismo e matrizes energéticas renderam muitas intervenções dos presentes (com certeza com algumas pessoas xingando atrás dos microfones e câmeras desligados). Talvez uma das partes mais interessantes da plenária tenham sido as discussões que tivemos entre os membros da delegação YESS e de outras redes de atores, organizadas pela ONet. Em uma semana pude trocar ideias com pessoas de diversos países (numa mistura de inglês, espanhol, português!), todas aprendendo com o processo e criando um ambiente muito amigável e de cooperação. Como resultados da IPBES-8 tivemos a aprovação dos documentos sendo avaliados, discussões importantes para manter a plataforma atualizada, e as seguintes mensagens de encerramento foram preparadas por nós, observadores vinculados à ONet, como atores observadores de todo esse processo: “Agradecemos à IPBES pela excelente organização da plenária neste formato virtual. Parabenizamos as delegações dos Estados Membros, toda a equipe IPBES, autores e revisores, e a grande comunidade de atores por sua perseverança e dedicação em manter essa plataforma de ciência-política viva e significativa. Gostaríamos de notar que houve uma sub-representação de regiões valiosas do mundo, a maioria das quais se localizam no Sul Global, nesta plenária e expressamos nossa preocupação quanto a isso sobre a robustez do processo da IPBES nesse contexto. Devemos levar em consideração também o contexto de pandemia: ao passo que um formato virtual permitiu que mais membros da delegação jovem participassem, foi mais difícil também acompanhar inteiramente toda a agenda de reuniões, além de haver menos oportunidades para networking para todos. Recomendamos um formato híbrido para o futuro. Chamamos para ação os Estados Membros da IPBES para que aumentem seus esforços para treinamento e os estimulamos a garantir consultas inclusivas com atores relevantes em todos os níveis. Pedimos que as reuniões regionais sejam abertas aos atores. Saudamos o relatório da oficina IPBES-IPCC e pedimos veementemente que membros da IPBES abordem e lidem com as crises das Mudanças Climáticas e da Biodiversidade de forma simultânea. Reconhecemos a inclusão dos ambientes de água doce e marinhos nos relatórios de escopo das avaliações do Nexo e Mudanças Transformativas. Recomendamos que autores da IPBES considerem inteiramente problemas marinhos, com base em material já existente como as Avaliações Globais do Oceano da ONU para evitar duplicação de esforços. Finalmente, recomendamos que a atenção devida seja dada dentro da avaliação do Nexo para o acesso e repartição justa e equitativa como uma opção para fornecer uma abordagem sustentável para a área financeira.” Foi minha primeira participação em um processo decisório intergovernamental como esse e, devo dizer, cada vez vejo mais que o lugar do cientista é para muito além do laboratório! Para mais informações, sugiro visitar o canal do YouTube da IPBES, além de conhecer a plataforma brasileira de biodiversidade e serviços ecossistêmicos, a BPBES (Brazilian Platform on Biodiversity and Ecosystem Services). #VidaDeCientista #IPBES #IPBES8 #ForNature #BPBES #YESS #Biodiversidade #ServiçosEcossistêmicos #CiênciaEPolítica #TomadaDeDecisões #CarlaElliff
- Oceanography on Ice
By Katyanne M. Shoemaker Illustration by Joana Ho The first time I saw sea ice, it seemed like a mirage. As we approached it on the German research vessel Polarstern, other scientists who had previously done Arctic research started pointing out the sea ice in the distance. It just looked like a low hanging cloud over the ocean. But as we got closer, I finally realized the first bit of ice in the distance was a peninsula-type outcropping from an immense realm of frozen water, and we were heading straight into it. Our ship was a double-hulled ice breaker, and it easily pushed through the marginal ice zone with thin and broken chunks of ice. After a few hours of steaming, the ice became thicker, and you could feel the ship moving a little more slowly, yet 1-meter-thick ice was still no challenge for the ship. Our second day in the ice, we reached even thicker areas, but the ship persisted, often needing to back up and ram the thickest ice (3+ meters) multiple times to break through. Sometimes, the entire ship would tilt to one side and remain for several minutes, turning a normal corridor into a hill to be climbed. Although slightly annoying (possibly more so for those with motion sickness) and difficult to sleep through, ship life continued as normal through the backing and ramming operations. After all, labs needed to be set up and science needed to be done! A) The ice sheet appeared as a shimmering white band on the horizon as we approached. B) The marginal ice zone was easy for the ship to cut through, as it had loosely packed ice that was fairly thin. C) As the ship moved further north into the ice sheet, the ice was thicker and harder to move through. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) So why all this effort? Why were we trying to force ourselves into this thick ice sheet? Well, this was part of the yearlong MOSAiC (Multidisciplinary drifting Observatory for the Study of Arctic Climate) Expedition. Details of my experience leading up to this trip can be found here. The goal of the expedition was to study one stable piece of ice for an entire year, by allowing the ship to be frozen in the ice in the fall during the freeze-up, drift with the ice across the pole throughout the winter and spring, and then melt out in the summer, somewhere (hopefully) in the Fram Strait. Ocean circulation and wind currents are forces constantly acting on the ice, pushing huge sections across the Arctic Ocean. In September of 2019, when the Polarstern entered the ice, a team of physical oceanographers, sea ice physicists, and modelers carefully chose one special piece of ice to call home, our floe. A map of the drift path during the MOSAiC expedition. The German icebreaker Polarstern drifted with the Arctic ice for nearly a full year, only leaving the chosen floe in June to exchange passengers and restock supplies in Svalbard. (Image credit: Matthew Shuppe, License CC BY 4.0) The ‘M’ of MOSAiC stands for Multidisciplinary, which this expedition most certainly was. Teams of scientists worked together to plan sampling locations, drill holes in ice a few meters thick from which equipment could be deployed, and carry out intensive sampling. Sea ice physicists did regular transect walks around the floe to measure ice depth, snow depth, and numerous other variables. Massive helium-filled balloons were tethered to the ice and carried equipment high into the clouds to measure atmospheric conditions. Seawater and zooplankton were collected from the side of the ship using wenches to send gear thousands of meters down. There was even a Remotely Operated Vehicle (ROV) that was able to perform measurements and collect samples (including zooplankton for my research) from directly under the sea ice. The ROV, named Beast, being prepared for a dive under the sea ice (left). The ROV was tethered with an orange cable which carried information to the controllers in a small hut on the ice. On this deployment, Beast towed a zooplankton net behind it, which was released here by my lab mate (right). (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Throughout the cold (down to -35°C), dark winter, scientists worked on this ice floe collecting samples from the ice, ocean, and atmosphere. Luckily for me, my role in the expedition took place in the summer, when the Arctic sees 24 hours of sunlight and temperatures stay within a few degrees of freezing (generally -2 – +2°C). At these relatively warm temperatures, the ice can melt quickly from above and below. When the surface ice melts, you can see beautiful blue freshwater ponds (meltponds), which can eventually melt all the way through to mix with the seawater underneath. The ice also melts on the underside as light returns and temperatures increase in the Spring. This melting water brings with it microscopic organisms that were trapped in the ice when it formed, including photosynthetic ice algae. Once released back into the ocean, these ice algae can take advantage of the nutrients and sunlight to start a phytoplankton bloom. This transition to a bloom period was exactly what I was interested in catching. Blooming phytoplankton in the ocean usually cascades into a burst of life higher in the food chain. My project in the MOSAiC Expedition was to look at what zooplankton in the Arctic are feeding on, and I was especially interested to see if they were feeding on ice algae directly or waiting until it was released into the ocean. Zooplankton in the Arctic come in many different sizes, from single-celled microzooplankton to jellies, pteropods, and krill that you could pick up with your hands. I was especially interested in copepods which are highly abundant throughout the oceans, but are pivotal in the Arctic food web. A helicopter view of the ice sheet and the ship shows varying shades of blue. The light blue areas on the ice are ponds of melted water. As the ponds get deeper, they can melt all the way through to the seawater below. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Diversity abounds under the ice! Contents of a zooplankton net tow show various species and life stages of copepods and other zooplankton. The large orange copepod in the lower middle is a Paraeuchaeta, the fast swimming red ovals are known as Ostracods, and the animals with the long red antennae are Calanus copepods. Hundreds of hours were spent at sea sorting these animals for experiments and to photograph and preserve for lab analysis. (Video credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Different species of copepods have different life strategies. Some, like the blue glowing Metridia, are active all year and eat anything available to them, including phyto- and zooplankton and dead sinking particles. Others appear to be strict carnivores, like the large Paraeuchaeta. By far the most abundant group of copepods I saw in the Arctic were the Calanus copepods which have typically been considered herbivores but may also take advantage of smaller animal prey if available. The Calanus copepods feast in the phytoplankton-abundant summer surface water and build up fat stores in a lipid sac. This fat helps the copepods survive the long winter in a hibernation-like state known as diapause. The fat (Omega-3 fatty acids, like in your healthy fish oil supplements) also just happens to be super tasty to just about everything living around the copepods, and they are often on the menu for many whale species in the Arctic as well as polar cod. The summer melt season in the Arctic brings with it light and food! These images show the developing green color in Calanus copepods’ guts, indicating a change in food type and abundance. The oil sac inside of these animals is also growing as the copepods eat, to store energy for the upcoming winter. (Photo credit: Katyanne Shoemaker, License CC BY 4.0) Because being able to eat and store lipids is so important for copepods, their lives are delicately entwined with the seasonal rhythms of sunlight and ice melt. Some species of copepods only begin reproducing when there is an abundance of food, to ensure the survival of the largest number of their offspring. Other species lay eggs before the bloom period, in expectation that there will be sufficient food when the copepod babies (called nauplii) reach feeding age. My research focus is to understand what they are currently eating in relation to what is available in the surrounding seawater, and the timing of their feeding activity. This work will become a baseline for current feeding cues in the central Arctic. We cannot currently predict if or how these seasonal patterns may be disrupted in a warming ecosystem. What we do know is that the polar regions are experiencing climate change more dramatically than anywhere else on Earth. How will changes in the rate and start of the ice melt season affect the seasonal patterns of the organisms that rely on sea ice? Only time will tell what the fate of the Arctic ecosystem will be. Additional reading: To find out more about how climate change is affecting the polar regions, see here: https://worldoceanreview.com/en/wor-6/climate-change-impacts-in-the-polar-regions/ For more information on the MOSAiC Expedition, including daily blog entries from a year at sea, visit: https://mosaic-expedition.org/ #MarineScience #Arctic #PolarResearch #Oceanography #MarineBiology #Copepod #Zooplankton #MOSAiC #MOSAiCExpedition #ClimateChange #SeaIce #Ice #KatyanneShoemaker
- Tiradas do Netuno #15
Os cavalos-marinhos são peixes ósseos que se destacam no reino animal por uma característica peculiar: os machos ficam grávidos! Os machos são os responsáveis por todo cuidado parental após a fecundação: eles carregam os filhotes durante a gestação, sentem as “dores do parto” e por fim dão à luz! Para saber mais, acesse o post “Querida, estou grávido!” publicado em 11/04/2016. Criação: Mariane Soares (@marisoares.art), com palpites das editoras do Bate-Papo com Netuno. #TiradasDoNetuno #MarianeSoares #Oceanografia #OceanografiaBiológica #CiênciasDoMar #BiologiaMarinha #CavalosMarinhos #Peixes #PeixesÓsseos #DiaDosPais
- Mulheres da academia: uni-vos!
Por Ju Leonel A academia é historicamente composta por homens, brancos, de meia idade, héteros que estabelecem regras de entrada e permanência considerando seus próprios interesses. Então, não é surpresa que qualquer pessoa com perfil diferente deste encontre dificuldades que podem levar ao abandono do meio acadêmico. Nesse contexto são inúmeros os fatores que fazem as mulheres desistirem da carreira acadêmica: balanço entre vida pessoal x profissional (maternidade, cuidado dos pais, avós ou outros familiares, terceiro turno de trabalho etc.), síndrome do impostor, favorecimento dos homens em avaliações/revisões, silêncio institucional frente a algumas situações (por exemplo, racismo, assédio moral e sexual), ausência de políticas de equidade etc. Mas como sobreviver nesse ambiente espinhoso e tão hostil para nós, mulheres? Esperar que o sistema se adeque? Esperar compreensão dos colegas? Se fechar em uma cápsula e tentar ignorar os arredores? Trabalhar muito (mas, muito!) mais, colocando a saúde física e mental em risco, para tentar provar seu valor? Não! Nada disso vai acontecer ou mudar a realidade, nem em 10, nem em 100 anos. Então, o que nos resta? Desistir da carreira acadêmica? Também não. Nos resta construir redes de apoio. Quem é mãe cansa de ouvir “tenha uma boa rede de apoio”, “construa uma rede de apoio para te ajudar nos momentos mais difíceis”, “conte sempre com sua rede de apoio” etc. Assim como a rede de apoio é importante para as mães, ela também é na academia. Enquanto uma mulher sozinha pode ser facilmente ignorada em uma reunião ou ser taxada de doida/histérica por seu pedido e/ou reclamação, o mesmo não vai acontecer quando 3, 5, 10, 20 mulheres reivindicarem a mesma coisa ou cobrarem para que sejam ouvidas. Da mesma forma, a rede de apoio ajuda no sentimento de pertencimento, a desabafar, a combater a síndrome do impostor e a diminuir a sensação de isolamento. Isso pode soar estranho, pois fomos criadas (em geral) para ver outras mulheres como rivais; quem nunca ouviu que “não existe amizade entre mulheres” ou “juntou muita mulher, fica complicado”? O natural não seria pensarmos que outras mulheres sofrem pressões similares e enfrentam os mesmo obstáculos que nós? E que, por isso, são as melhores aliadas para enfrentar e mudar esse sistema patriarcal que não nos aceita? Por que nos fazer acreditar que não podemos nos unir? Seria uma forma de garantir que o machismo estrutural não será nem questionado, quanto mais destruído? Esse laço entre mulheres não precisa vir na forma de um juramento de amizade eterno; não precisa nem se estender para além dos muros da universidade (embora, acredite: você vai querer levar essa rede com você para todo lugar); tampouco requer se expressar como uma guerrilheira armada que vai enforcar em praça pública os homens da instituição. A conexão pode se manifestar em pequenas ações que demonstrem apoio. Alguns exemplos: Quando uma colega pedir a fala em uma reunião, mas de forma “não-intencional” a palavra não for passada a ela, você pode educadamente dizer “pessoal, a Silvia está pedindo a vez na fala”; Quando uma colega for interrompida você pode comunicar aos colegas que “pessoal, eu gostaria de ouvir até o fim o que a Luisa tem a nos dizer”; Quando um colega tentar se apropriar da ideia da colega você pode lembrar o grupo comentando "que bom que você também apoia a ideia proposta inicialmente pela Ana"; Quando os colegas contarem e/ou rirem de uma piada machista ou racista, as mulheres podem puxar uma sequência de perguntas como "por que vocês acham isso engraçado?", "vocês não se sentem incomodados que em pleno 2021 tentem fazer piada sobre mulheres?"; O apoio também pode vir na forma de chamar para um café uma colega que anda desanimada com o trabalho ou que acabou de se juntar ao grupo; Não deixar as colegas se auto sabotarem - você pode fazer isso lembrando-as de suas conquistas e de tudo que percorreram ao longo da carreira. Os benefícios da amizade entre mulheres na carreira acadêmica foram recentemente objeto de estudo e os resultados publicados em um artigo científico. Nele, as autoras, mostraram que essa ligação mitiga os impactos da marginalização na vida acadêmica, pois estimula o crescimento pessoal e profissional. Isso porque esses relacionamentos são baseados em igualdade, mutualidade e reciprocidade, o que faz um contraponto com os valores acadêmicos tradicionais de hierarquia, performance e orientados a objetivos (= números). Na academia, principalmente nas ciências exatas, somos em menor número tanto como estudantes de graduação e pós-graduação, quanto como professoras, chefes de departamento, diretoras e reitoras. Dessa forma, o sistema (aquele, construído pelo homem, branco, hétero e de meia idade) sempre coloca nós mulheres como exceção e, da mesma forma, coloca nossas necessidades como exceção, como algo específico demais para ser considerado para o todo. Ao nos unirmos, temos a chance de começar a mudar isso. Não é um caminho fácil, não será rápido, mas juntas teremos mais chance de sucesso. A realidade nos mostra também que a forma como a mulher branca é silenciada e marginalizada na academia é diferente de como ocorre com mulheres pertencentes a outras camadas sociais, pois além do machismo, sexismo e misoginia, entram questões interseccionais como racismo, classismo, capacitismo, transfobia e homofobia. E estes são motivos que impulsionam ainda mais a necessidade de construir redes de apoio e luta, pois o feminismo apenas branco, hetero e cis não tem valor algum. Finalizo aqui lembrando que o ambiente acadêmico é um reflexo da nossa sociedade. Como explicou Ruth Manus,: “A sociedade na qual estamos inserida é machista, sim, é patriarcal, sim, e é cruel com as mulheres, sim. Vamos fazer uma pausa para pensar melhor a esse respeito” (Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas, 2019) Fonte: Bate-Papo com Netuno, licença CC BY SA 4.0 Sugestões de leitura: Kaeppel K, Grenier RS, Björngard-Basayne E. The F Word: The Role of Women’s Friendships in Navigating the Gendered Workplace of Academia. Human Resource Development Review. 2020;19(4):362-383. doi:10.1177/1534484320962256 Pequeno Manual Antirracista - Djamila Ribeiro - Companhia das Letras, 2019 Mulheres e caça às bruxas - Silvia Federici - Boitempo, 2019 Feminismo para os 99%, um manifesto - Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser - Boitempo, 2019 #mulheresnaciência #julianaleonel #equidade #carreira
- Pum de peixe evita guerra no Mar Báltico. Ou... o poder da diplomacia científica no oceano
Por Andrei Polejack Ilustração por Alexya Queiroz Adoro essa estória. Durante a Guerra Fria, lá nos idos dos anos 80 quando muitos da minha geração achavam que o mundo ia acabar com o apertar de um botão vermelho, um submarino militar soviético encalhou nos recifes da costa da Suécia, no Báltico. Os suecos estavam em pânico, sentindo-se monitorados, ameaçados e dragados para a guerra. Aumentaram o monitoramento subaquático por hidrofones, ativaram os canais diplomáticos e ficaram paranóicos com atividades militares não autorizadas. A União Soviética negou qualquer atividade e se isentou de prestar mais esclarecimentos. Localização do Mar Báltico. Fonte: Wikimedia com licença CC SA BY 3.0 Anos se passaram, a Guerra Fria chegou ao fim, e não houve uma hecatombe atômica iniciada pelo botão vermelho. No entanto, os hidrofones continuaram captando sinais sonoros de motores de submarinos em atividade na região. A paranoia cresceu e ninguém ainda se sentia seguro. Os soviéticos juraram de pé junto que não mantinham atividades não autorizadas no Báltico. Sem resposta clara e com uma hiper pulga atrás da orelha, os militares suecos pediram arrego para os pesquisadores, tudo em sigilo estratégico de defesa nacional. Dois pesquisadores suecos, Wahlberg & Westerberg, então analisaram os padrões sonoros e construíram várias hipóteses a serem testadas. Uma delas envolvia algum tipo de ruído natural, não descrito antes e possivelmente produzido pelos organismos locais. Foi assim que descobriram, em 1996, que os arenques, peixes muito comuns na região Báltica, que se reúnem em cardumes de milhares de indivíduos, possuem uma ligação entre a bexiga natatória (órgão que auxilia os peixes ósseos na flutuabilidade ) e seu ânus capaz de produzir bolhas que seriam muito similares ao ruído captado pelos hidrofones. E foi assim que um estudo científico sobre pum de peixe evitou uma guerra entre Suécia e União Soviética. Imagem ilustrativ do Arenque. Fonte: NY Public Library em domínio público Essa anedota fantástica sempre me ajuda a pensar fora da caixinha sobre a influência da ciência nas relações internacionais. Para mim, sempre foi fácil reconhecer que a ciência era necessária para elucidar aspectos essenciais dos processos de negociação internacional sobre nosso oceano, mas isto nem sempre é claro para todos os envolvidos. Domínio público Há muitos exemplos dessa relação: foi a ciência que nos informou sobre a perda de habitats e serviços ecossistêmicos em consequência das ações do homem, bem como nos mostrou porque os corais têm se branqueado como resultado da acidificação marinha e por aí vai. Igualmente fácil, era reconhecer que por meio da ciência muitos países se aproximaram em projetos conjuntos, abrindo um diálogo fluido mesmo quando experimentavam conflitos em outras áreas, como, por exemplo, a cooperação científica entre EUA e Cuba, no Chipre, e nas regiões polares. Finalmente, enquanto à frente da área de oceano, Antártica e geociências do MCTI, percebi muitos investimentos à pesquisa serem direcionados a temas aos quais a diplomacia clamava por informações. Como exemplo posso citar o atual regime em negociação sobre a biodiversidade além das jurisdições nacionais, o BBNJ, que fez diplomatas entenderem a diferença entre in vivo, in situ e in silico. A esses três aspectos que eu ilustrei anteriormente, ou seja, ciência subsidiando a tomada de decisão internacional, projetos de pesquisa aproximando países apesar de conflitos existentes e a diplomacia trazendo investimentos à ciência, são, segundo um relatório da Royal Society de Londres e a AAAS de 2010, as três categorias de Diplomacia Científica: ciência na diplomacia, ciência para a diplomacia e, diplomacia na ciência. O pum de peixe me tira dessas caixinhas também, porque, apesar de não ser um caso clássico de diplomacia científica, me puxa a pensar que a realidade é muito mais complexa que qualquer categoria que a gente crie. Foi assim que eu resolvi me afastar da função de burocrata para voltar pra Academia (momentaneamente, claro!) e entender o que significava esse movimento político e científico chamado Diplomacia Científica para a governança do oceano. Ainda estou em processo de entender isso tudo e a coisa só complica, mas recentemente publiquei um artigo na revista científica Frontiers in Marine Science contextualizando e exemplificando como a Diplomacia Científica é, na verdade, um processo fundamental para a governança do oceano. Fiz isso logo cortando na carne de qualquer um que trabalha nessa área: fui direto pra Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, a constituição do oceano. A Convenção estabelece os direitos e deveres dos países signatários em relação ao uso, conservação e exploração do oceano e, mais importante, estabelece espaços marinhos de distintas jurisdições aos quais cabem tais direitos e deveres. A negociação da Convenção, que demorou mais que a Guerra Fria para ser aprovada, teve uma base técnico-científica enorme, com resultados de pesquisa informando os itens da agenda e impactando as posições adotadas pelos países. Por exemplo, Sam Robinson, pesquisador britânico, discute que foi o temor de países em desenvolvimento pelos possíveis usos de tecnologias para exploração dos minerais do leito marinho (tecnologias que até hoje não dispomos) que determinou a discussão sobre o regime para a Área (leito, solo e subsolo marinho além da jurisdição dos países) na Convenção. A desigualdade entre desenvolvidos e em desenvolvimento também fez com que a Convenção adotasse mecanismos de trocas de tecnologia e desenvolvimento de capacidades, o que eu e Luciana Coelho, querida brazuca parceira de doutorado aqui na Suécia, exploramos em outro artigo, publicado na outra revista da Frontiers, mas com um olhar contemporâneo e focado na América Latina e Caribe. O Brasil é um gigante em pesquisa oceânica no Atlântico Sul e olha que ainda estamos longe de termos o mínimo necessário para jogar no mesmo time dos desenvolvidos. Porém, temos sim capacidades em termos de pessoal e infraestrutura que poucos possuem na região. Por isso, nos envolvemos em um processo de diplomacia científica oceânica com europeus, sul-africanos, americanos, canadenses, argentinos e cabo-verdianos: a Aliança de Pesquisa para Todo o Atlântico (All-Atlantic Ocean Research Alliance). Digo “diplomacia científica oceânica” porque envolveu muitos pesquisadores e governos, mas também iniciativa privada e outros setores sociais, aplicando a ciência na diplomacia e a diplomacia na ciência. A Aliança se baseia em três processos diplomáticos sucessivos, informados pela ciência e com objetivos de elevar a compreensão do oceano e o bem estar de nossos cidadãos. Em outro artigo recente, eu e minhas queridas co-autoras, Sigi Gruber e Mary Wisz, descrevemos esse processo passo-a-passo e analisamos algo essencial para se entender diplomacia científica: os interesses nacionais (políticos, econômicos, sociais e de poderio) que impulsionam o uso da ciência da diplomacia. Discutimos o poder brando (soft power, conceito de Joseph Nye) que a ciência exerce em atrair e seduzir outros países aos seus valores nacionais, meio que como a cenoura na frente do burro. A Aliança e a Década da ONU da ciência oceânica para o desenvolvimento sustentável são meus casos de estudo. A Década, um processo diplomático no âmbito da ONU, tem como base a promoção da ciência e seu uso para a tomada de decisões a favor da sustentabilidade ambiental, um caso de mão cheia para diplomacia científica oceânica. Espero que esse meu trabalho, além de me dar um tesão enorme em desvendar o assunto, sirva para que o Brasil possa melhorar seu posicionamento em negociações internacionais mais justas e paritárias, além de melhorar o processo nacional de influência da ciência na tomada de decisões sobre o oceano, tomando esses dez anos que a Década nos apresenta pela frente. Referências ou sugestão de leitura: Nye, J. S. (2017). Soft power: the origins and political progress of a concept. Palgrave Communications, 3(1), 17008. https://doi.org/10.1057/palcomms.2017.8 Polejack, A. (2021). The Importance of Ocean Science Diplomacy for Ocean Affairs, Global Sustainability, and the UN Decade of Ocean Science. Frontiers in Marine Science, 8(March). https://doi.org/10.3389/fmars.2021.664066 Polejack, A., & Coelho, L. F. (2021). Ocean Science Diplomacy can Be a Game Changer to Promote the Access to Marine Technology in Latin America and the Caribbean. Frontiers in Research Metrics and Analytics, 6(April), 34–36. https://doi.org/10.3389/frma.2021.637127 Polejack, A., Gruber, S., & Wisz, M. S. (2021). Atlantic Ocean science diplomacy in action: the pole-to-pole All Atlantic Ocean Research Alliance. Humanities and Social Sciences Communications, 8(1), 52. https://doi.org/10.1057/s41599-021-00729-6 Robinson, S. (2020). Scientific Imaginaries and Science Diplomacy: The Case of Ocean Exploitation. Centaurus, 1–21. https://doi.org/https://doi.org/10.1111/1600-0498.12342 Wahlberg, M., & Westerberg, H. (2003). Sounds produced by herring (Clupea harengus) bubble release. Aquatic Living Resources, 16(3), 271–275. https://doi.org/10.1016/S0990-7440(03)00017-2 Sobre o/a autor/a: Andrei Polejack é biólogo e mestre em Ecologia pela UnB e agora doutorando pelas ciências sociais na World Maritime University, Suécia. É analista sênior do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações onde ocupou por muitos anos a função de Coordenador-Geral de Oceanos, Antártica e Geociências. @AndreiPolejack #ScienceDiplomacy #AllAtlantic #SciDip #SciComm #Convidados #CiênciasDoMar #DiplomaciaCientífica #RelaçõesInternacionais #Política #DécadaDoOceano #BatePapoComNetuno
- Reescrevendo histórias: a importância do desenvolvimento comunitário para as associações locais
Por Natália C. F. Bahia Ilustração por Joana Ho Escrevi este texto para contar um pouco da minha trajetória profissional na área de desenvolvimento comunitário em áreas costeiras e para compartilhar reflexões sobre os desafios enfrentados. Meu percurso teve início em 2012, quando fui morar em Paraty (Rio de Janeiro) e trabalhei como pesquisadora e consultora em projetos socioambientais e intervenções pontuais realizadas na região. Paraty, reconhecida como Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade pela UNESCO em 2019, juntamente com Ilha Grande, abriga paisagens exuberantes e grande diversidade biológica e sociocultural. No entanto, o município traz em sua história muitos conflitos socioambientais e diferentes graus de violência vivenciadas por populações culturalmente diferenciadas que lá vivem (como, tentativas de expropriação de terras e criminalização dos modos de vida tradicionais). Em parceria com movimentos sociais locais, técnicos, universidades e gestores públicos, nos últimos 9 anos, participei da mediação de processos e da elaboração de documentos para conciliar desenvolvimento local, reprodução cultural e conservação ambiental (como, cartografia social, revisão de plano de manejo, termo de autorização e protocolo de consulta comunitária). Disponibilizei o link de algumas publicações no final do texto. Vale a pena conferir! Dentre as intervenções realizadas, gostaria de destacar minha contribuição no processo de formalização da atividade embarcada feita por uma associação comunitária em uma unidade de conservação de uso restrito. Essa foi, inclusive, a principal motivação para minha permanência em Paraty por todo esse tempo. Navegando por águas desconhecidas! A narrativa se passa na comunidade caiçara de Trindade, onde parte do território tradicional está inserido no Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), incluindo a Baía do Caixa d'Aço. Essa baía é uma área marinha de rara beleza e muito importante para a pesca artesanal e para o turismo. Imagem da Baía do Caixa d'Aço, Paraty- RJ (Fonte: Acervo pessoal, 2018, com copyright). Tal sobreposição traz, como pano de fundo, diversos conflitos entre os trindadeiros e a equipe gestora do PNSB devido às diversas proibições e ações de fiscalização realizadas, especialmente a partir da década de 2000, das quais, algumas se tornaram processos judiciais. Identifiquei na atividade turística realizada pela Associação dos Barqueiros e Pequenos Pescadores de Trindade (ABAT), uma janela de oportunidade para estimular o desenvolvimento local e a conservação ambiental em uma rota menos adversa, guiada pela cooperação. A ABAT, organização com quem desenvolvi a consultoria em desenvolvimento comunitário, oferece diferentes roteiros de passeios de barco aos turistas, tanto no interior do PNSB como em localidades próximas. Imagem da Piscina Natural do Caixa d´Aço, um dos grandes atrativos turísticos de Trindade (Paraty-RJ) (Fonte: Acervo pessoal, 2019, com copyright). As unidades de conservação brasileiras são criadas, implementadas e geridas de acordo com as diretrizes e instrumentos previstos no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Como o SNUC lida com o passeio de barco realizado na Baía do Caixa d´Aço? A formalização de atividades de apoio à visitação em parques nacionais é necessária e acontece quando ela é feita de acordo com os objetivos dessa categoria de unidade de conservação. Assim, um grupo de trabalho com a participação de representantes da ABAT, do PNSB e apoiadores foi estabelecido em 2012. As diretrizes de funcionamento desse grupo de trabalho e o plano de ação para formalização do passeio de barco foram definidos durante os encontros realizados nos primeiros meses de 2013. Após uma série de etapas percorridas, o termo de autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para continuidade do empreendimento comunitário foi finalmente obtido no final de 2020. Registro fotográfico do evento para assinatura do documento de autorização (Fonte: Acervo da Associação dos Barqueiros e Pequenos Pescadores da Trindade, 2020, com copyright). Integrantes de universidades, técnicos especializados e financiadores participaram desse processo ao longo do tempo, contudo, eu assumi a responsabilidade de reavivar o processo de negociação, estimulando os envolvidos a cumprirem as ações acordadas durante sete anos. Sete anos? Sim, isso mesmo! Eu imagino que alguns leitores estejam se perguntando como foi possível financiar meu trabalho por tanto tempo. Aqui está um dos grandes desafios que enfrentei! Utilizando um conhecido clichê: “houve épocas de vacas mais gordas e outros períodos de vacas mais magras”. A disponibilidade de recursos foi maior quando as ações propostas estavam vinculadas a algum projeto com financiamento. Os financiamentos, contudo, não duram o tempo necessário de germinação dos processos participativos e/ou da morosidade da burocracia pública. Além disso, as demandas sociais e ambientais nem sempre se enquadram nas tendências, ou seja, nas temáticas abrangidas pelos editais de financiamento. Quando a disponibilidade de recursos era menor, fui contratada pela própria associação para dar continuidade ao trabalho. Vale destacar que esse fato representou um importante amadurecimento institucional. A presença de uma facilitadora foi importante para animar os associados a seguirem em frente na negociação, apesar da lentidão do processo e da insegurança diante da tendência nacional de terceirização da prestação de serviços turísticos em áreas protegidas por meio de grandes concessões. Isso também foi importante para incentivar os associados a lidarem com a troca de gestores do PNSB e da diretoria da própria associação. Isso também foi importante para incentivar os associados a lidarem com a troca de gestores do PNSB e da diretoria da própria associação. Entre as ações que eu desenvolvi, destaco a mobilização dos pescadores-barqueiros, a execução de oficinas de capacitação, a regularização da documentação e da situação fiscal da associação, o estímulo da ativa participação nos espaços de negociação promovidos pelo PNSB (por exemplo, conselho gestor e grupos de trabalho) e o registro do processo de formalização do passeio de barco. Entre as ações que eu desenvolvi, destaco a mobilização dos pescadores-barqueiros, a execução de oficinas de capacitação, a regularização da documentação e a situação fiscal da associação, o estímulo da ativa participação nos espaços de negociação promovidos pelo PNSB (por exemplo, conselho gestor e grupos de trabalho) e o registro do processo de formalização do passeio de barco. Oficinas de capacitação realizadas com os sócios da Associação dos Barqueiros e Pequenos Pescadores da Trindade (ABAT) (Fonte: Acervo pessoal, 2015-2016, com copyright). Lições aprendidas durante a navegação A falta de diálogo, desconfiança e incertezas eram evidentes não apenas na interação do PNSB com a comunidade caiçara de Trindade, mas com todas as comunidades tradicionais residentes no interior e ao redor dessa unidade de conservação. Sob esse olhar, vou lhes contar um breve episódio. Em paralelo ao trabalho relatado, tive oportunidade de atuar, por curto período e não por isso menos intenso, junto a um grande movimento social que reúne povos indígenas e comunidades quilombolas e caiçaras da região e seus apoiadores. Fui acolhida por muitos comunitários em suas casas, ouvi histórias de luta e resistências incríveis (muitas vezes, indescritíveis!) e aprendi formas diferentes de ver o mundo durante essa vivência. O conflito entre os integrantes desse movimento e os primeiros gestores ambientais do PNSB era bastante grave devido ao trato impositivo e às discussões calorosas diante das restrições estabelecidas no SNUC sobre os modos de vida tradicionais, impossibilitando o diálogo e a construção de atividades em conjunto. Eu considero ações de resistência fundamentais para que se equilibre a disparidade de poder entre os comunitários e os gestores públicos. Contudo, não consegui conciliar ambas as experiências profissionais, que embora similares, ganhavam condições contraditórias em determinados momentos. A ambiguidade é reflexo, dentre outros fatores, da maneira como o SNUC trata os diferentes modos de vida locais, separando-os em categorias de acordo com a extração ou não de recursos naturais e empregando uma variedade de instrumentos aplicáveis a cada caso. Os modos de vida tradicionais são compostos por atividades diárias que se complementam e geralmente estão relacionadas aos ciclos naturais (por exemplo, disponibilidade de pescados, maior fluxo de turistas no verão). A meu ver, na prática, estamos utilizando ferramentas de difícil entendimento e que apresentam especificidades na sua aplicação para simplesmente lidar com o cotidiano dos comunitários, envolvendo, na maioria das vezes, os mesmos indivíduos na construção. Essa questão causa uma enorme bagunça nos processos de negociação quando negligenciada! Escolhi então trilhar uma trajetória independente por meio da realização de consultoria em desenvolvimento comunitário e mediação de conflitos, focando principalmente em aspectos de operacionalização das possíveis parcerias entre comunitários e gestores ambientais. Nesse momento, houve mudanças na equipe a frente da gestão tanto da ABAT quanto do PNSB e contei com a parceria de uma consultora jurídica. Farei, a seguir, uma comparação (muito simplificada!) entre a construção de uma ponte e a minha participação na negociação e a elaboração do documento de formalização da atividade embarcada. O primeiro passo para se construir uma ponte é avaliar as características do local para definir a maneira de implantação. Assim, identifiquei os diferentes entendimentos sobre a atividade turística para trazer elementos para fomentar o diálogo entre as partes envolvidas e a elaboração do documento de autorização. Há ainda um aspecto que se trata de uma “tradução de informações”, que variou de uma linguagem cotidiana e modo de fazer, intimamente ligado ao ritmo da natureza, para uma linguagem técnico-burocrática. Outro desafio é escolher a forma de execução do projeto e a escolha do material a ser utilizado na construção da ponte. Ou seja, saber avaliar o cenário político (local e regional) e criar estratégias de atuações ora mais interna, ora mais externa (em direção ao outro extremo), incluindo o “tom” da conversa. Além disso, incorporar no processo de negociação valores éticos, em especial respeito e transparência, e aliar o conhecimento técnico-científico ao conhecimento empírico. Por fim, as pontes devem ser flexíveis para aguentar as ações de cargas dinâmicas. O mesmo acontece com as negociações e relações interpessoais dos atores envolvidos que devem sempre passar por avaliação e ajustes necessários ao longo do tempo. Águas turbulentas podem estar por vir! Em paralelo à formalização do passeio de barco, o plano para concessão de serviços para implantação de estruturas gerenciais e para recepção dos visitantes do PNSB e as ações de ordenamento do turismo estavam sendo discutidos pela equipe do PNSB, o que acarretou em incertezas quanto à permanência do empreendimento comunitário. Embora o modelo defendido nas esferas federais e estaduais para o desenvolvimento do uso público em áreas protegidas siga a lógica de mercado, após a resistência local, a atual proposição incorporou a formalização de empreendimentos comunitários coletivos, bem como um projeto para concessão de serviços de apoio à visitação e estruturas gerenciais ainda em preparação. Em abril de 2021, o PNSB entrou para o Programa Nacional de Desestatização. Ainda não se sabe ao certo o que isso significa. Contudo, aponta para um novo ciclo de atuação que visa a continuidade do fortalecimento institucional da ABAT e a manutenção de um direito adquirido com a formalização da cooperação entre PNSB e ABAT. Leituras sugeridas: Staying Afloat. Disponível em: https://www.icsf.net/en/samudra/article/EN/78-4333-Staying-Afloat.html Caminhos para a Cooperação: uma Experiência de Inclusão de Commons em Áreas Protegidas. Disponível em: http://revistamares.com.br/index.php/files/article/view/38 Cartografia Social de Trindade – A pesca artesanal da comunidade caiçara de Trindade (Paraty, RJ). Disponível em: http://novacartografiasocial.com.br/download/cartografia-social-de-trindade-a-pesca-artesanal-da-comunidade-caicara-de-trindade-paraty-rj/ Protocolo de Consulta Prévia da Tekoa Itaxi Mirim - Guarani Mbya. Disponível em:https://www.icmbio.gov.br/cairucu/images/stories/downloads/Protocolo_Aldeia_Itax%C4%A9_Mirim.pdf Sobre a autora: Sou bióloga, mestra em Ecologia, apaixonada pelo mar e seus habitantes. Participo da Rede Transdisciplinar em Cogestão Adaptativa para o Ecodesenvolvimento (TransForMar) e curso especialização em Projetos Sociais e Políticas Públicas no SENAC. Trabalho atualmente como pesquisadora e consultora em projetos socioambientais voltados para planejamento participativo e gestão colaborativa do território e uso de recursos naturais, e fortalecimento de organizações de base comunitária. #desenvolvimentocomunitário #SNUC #Paraty #turismo #GestãoAmbiental #ComunidadesTradicionais #Trindade #OceanografiaSocial #GestãoParticipativa #Convidados #CiênciasdoMar
- Marine Ecotoxicology: The "Medical Exam" of the Sea
By Carolina Maciel English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on April 28, 2016 Illustration by Joana Ho When we become ill or are exposed to things that could make us sick, we go (or we should go) to the doctor, a professional trained to help us solve our health problems. It is not much different in the marine environment. The "health" of all ecosystems (defined as the integration of all living beings in an environment and their relationships to each other and the physical and chemical properties of the environment) can be diagnosed through testing, in the science we call ecotoxicology. Within ecotoxicology, animal tests may be performed similar to medical laboratory exams, giving results as to how the organisms are reacting to a "sick" environment. The animals used in the tests can range from (my beloved) plankton, fish, bats, and birds to large marine mammals such as whales. We also must not forget the algae and other plant life that can also be used for testing. In the case of organisms that have a vertebral column (vertebrates), the tests must be carried out with the approval of an ethics council, often regulated at a country-wide level. Example of organisms that are commonly used in ecotoxicological tests in seawater and freshwater. (Top left: Vibrio fischeri, CC BY-NC 2.0; Top right: Lytechinus variegatus, by Hans Hillewaert CC BY AS 4.0; Bottom left: Ceriodaphnia sp., by Andrei Savitsky CC BY AS 4.0; Bottom right: Danio rerio, by Tohru Murakami CC BY-NC 2.0) . Just as doctors give patients diagnoses of diseases, ecotoxicology's main objective is to detect what the problem is in order to heal the weakened environment, always aiming to preserve the species that live there. In this way, the tests indicate how "sick" an ecosystem is and how serious this "disease" is, and in many cases, assist in the treatment. Oiled bird after the Black Sea Oil Spill on November 12, 2006 (by Marine Photobank, CC BY 2.0). But the test results do not come out magically, and it takes a lot of work to test the organisms and then to interpret the results in relation to the environment. The organisms examined must be acquired directly from nature, or possibly grown in laboratory cultures, before testing can be performed. Although the title of the text refers to the marine environment, ecotoxicology is important in many environments. The pollutants that end up in the sea generally originate in freshwater, so ecotoxicologists often also do tests with freshwater organisms. Environmental quality testing can be done after natural disasters and major disruptions to the environment, and also for routine environmental "check ups" (or what we call environmental monitoring). A recent example of how important ecotoxicology is to assist the diagnosis of a "sick" environment impacted by human action is the Samarco's dam rupture in November last year in Mariana (MG). The event dumped large quantities of harmful substances into the environment that could potentially cause drastic effects to animals and plants living in nearby rivers. The mud even reached the marine environment. The collapse of this dam caused an environmental disaster, and took the environment out of its natural balance, effectively making it "sick" with mud contaminated with mining tailings. This is where (fortunately) ecotoxicology comes in. Mud from the Samarco dam that broke in the city of Mariana on 5 November 2015 reached the Doce River and flowed into the ocean (by Eli Kazuyuki Hayasaka CC BY 2.0). Another very familiar example (and one that has already been published here on the blog) was a doctoral study conducted by a student that aimed to quantify the levels of heavy metals (arsenic, selenium, lead, chromium, etc.) in the muscle tissue of flatfish. Besides being very important ecologically, an interesting point about this study is that a nuclear physics technique was employed to diagnose the level of these metals in the tissues! In this situation, a vertebrate was used to diagnose the degree of metal contamination in an environment (in the Bay of Santos, on the coast of São Paulo). The importance of studying levels of contamination in organisms is to reveal to society the damage that heavy metals are doing to living things and to try to prevent further degradation of the environment. The damage caused by the pollution of rivers and seas can be estimated through animal testing (that I explained a little bit above), where the effects of that toxic load on the mortality, growth and/or reproduction of those organisms present in the polluted environment are analyzed. One of the most important aspects of ecotoxicology is that by knowing the degree of environmental toxicity (how toxic substances can be to living organisms), it is possible to act to save the species that live in the polluted environment. Ecotoxicology studies can also provide evidence to the relevant authorities in order to assign appropriate punishment to those responsible for the pollution of a natural system. However, ecotoxicology also acts in happy cases, such as monitoring areas that are constantly receiving a load of potentially harmful substances without causing harm to the organisms that live in that environment. In this sense, the ecotoxicological "test" can be used to confirm that the environment is healthy. But why use living organisms to test the "health" of an environment? Well, this is easy! Precisely because they are in direct contact with the environment and are adapted to live in very specific ecological situations. Any small change in their ecosystem can be detected through the damage that organisms suffer from these changes. And now you ask yourself: what damage? Damage may appear as a decrease or complete stop of reproduction, immobility, mortality, or many other physical issues. Because of the nature of some testing, ecotoxicology is often seen as "cruel" by some, but it is extremely necessary to ensure a balanced life for many! About Carolina Maciel: A “caiçara” (native coastal resident of southern Brazil) and sea lover, I graduated from Universidade Santa Cecília (Santos, SP) with a degree in biology. Among all of the amazing sea creatures, I chose to work with zooplankton. I have experience identifying the main animal groups of the plankton and their distribution in the Santos estuary. Besides the sea, education is another of my passions: I have taught biology classes in a community “cursinho” (preparatory school) for underprivileged youth and for elementary school children in public schools. In 2016, I started my master's degree at the Oceanographic Institute of São Paulo (IOUSP), and I am studying the swimming behavior of plankton in Ubatuba (SP), trying to understand how these tiny organisms behave in this huge and complex ocean. #MarineScience #Ecotoxicology #Pollution #Lab #Biology #Oceanography #Guests #JoanaDiasHo
- Paleoceanografia – como e por que devemos reconstruir o passado dos oceanos?
Por Milena Ceccopieri Ilustração por Alexya Queiroz. Um dos assuntos que mais ouvimos falar hoje em dia são as mudanças climáticas e suas consequências para o futuro do planeta. O aquecimento global se tornou evidente a partir da observação do aumento da temperatura média global do ar e do oceano provocado pelo aumento na concentração de gases do efeito estufa na atmosfera provenientes das atividades humanas, tais como a queima de combustíveis fósseis, a industrialização e o desmatamento. Em um relatório especial feito em 2018 a convite da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPPC) mostrou que a temperatura global já se encontra 1,0 °C acima dos níveis pré-industriais, podendo atingir 1,5 °C entre 2030 e 2052, o que já vem trazendo alguns impactos para os ecossistemas terrestres e oceânicos e podem trazer consequências ainda mais drásticas para o clima da Terra. Projeção para o aumento da temperatura global até 2090 de acordo com o aumento do CO2. Figura traduzida via Wikimedia. Licença: CC BY SA 4.0 International Mas afinal, se estamos tão preocupados com as mudanças climáticas do futuro, por que precisamos estudar o passado? O conhecimento sobre como o clima do nosso planeta se comportava no passado sob determinada condição nos ajuda a entender e a prever como o clima irá se comportar no futuro se nos depararmos com condições similares. Por exemplo, sabemos hoje que a concentração de CO2 na atmosfera está subindo rapidamente, mas não sabemos ao certo quais serão as consequências desse aumento. Para tentar prever estas consequências, precisamos levantar algumas perguntas. Esse aumento já aconteceu antes? Em que velocidade? A temperatura aumentou? E o nível do mar? Como era o clima na Terra no período em que a temperatura e a concentração de CO2 eram similares ao que vemos hoje? É aí que entram os estudos paleoclimáticos e paleoceanográficos. Variação das concentrações de CO2 e CH4 com base em testemunhos de gelo da Antártica e da Groenlândia. Figura traduzida via Wikimedia. Licença: CC BY SA 4.0 International O termo “paleo” significa antigo, velho. Na paleoceanografia, o pesquisador atua como um detetive do passado, investigando a partir de evidências como a relação entre os oceanos e o clima da Terra varia em diferentes escalas de tempo, podendo ser décadas, centenas, milhares, ou até mesmo milhões ou bilhões de anos atrás. Mas qual seria o papel dos oceanos no clima global? O balanço de energia da Terra é modulado por 4 compartimentos: atmosfera, oceano, continente e o gelo. Em termos de troca/transporte de energia, os principais compartimentos são a atmosfera (mais dinâmica) e o oceano (mais lento). Os oceanos desempenham um papel fundamental no clima global devido à capacidade de armazenar e transportar grandes quantidades de calor, sendo o maior reservatório de calor do planeta! O calor proveniente do sol chega com muito mais intensidade nas baixas latitudes e é redistribuído para altas latitudes através da circulação oceânica. Para se ter uma melhor compreensão desse transporte de calor, é importante compreender a circulação termohalina como um todo. A circulação termohalina é impulsionada por mudanças potenciais de temperatura e salinidade entre diferentes massas d’água, gerando diferenças de densidade. A formação de gelo em altas latitudes resulta na formação de uma água fria de maior salinidade que é extremamente densa e vai afundar gerando uma corrente de fundo e impulsionando essa circulação global. Então se a circulação termohalina está diretamente relacionada à formação do gelo, o que pode acontecer com ela num cenário de aumento de temperatura global e derretimento das geleiras? Como fica o transporte e distribuição do calor global diante de um enfraquecimento da circulação termohalina? Os paleoceanógrafos estão preocupados em reconstruir parâmetros como paleotemperatura e paleosalinidade para investigar os padrões de variação na circulação global no passado, o que possibilita avaliar as consequências das variações no presente e no futuro. Ok, mas se os cientistas só começaram a coletar e registrar dados de temperatura e salinidade a partir dos anos 50, como podemos reconstruir as características da água do mar de milhões de anos atrás? Como as propriedades do passado dos oceanos não podem ser medidas diretamente, nós medimos de maneira indireta através de ferramentas ou os chamados proxies (não sabe o que é proxy? Não tem problema, já já vem a explicação). A matriz principal da paleoceanografia, ou seja, o tipo de amostra onde medimos os proxies, são os testemunhos marinhos, que são uma seção vertical da coluna sedimentar coletada do fundo do oceano. Esses registros sedimentares são formados após muitos e muitos anos de deposição de partículas nas bacias oceânicas. Essas partículas vão sendo depositadas em camadas acumuladas uma por cima da outra e guardam informações sobre as condições ambientais do oceano do momento da deposição. Amostragem de testemunho marinho. Figura traduzida e adaptada via Wikimedia. Licença: CC BY SA 4.0 International Amostragem de testemunho marinho. Fonte: Milena Ceccopieri com licença CC BY-SA 4.0. Repositório de testemunhos marinhos do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha, na Alemanha via Wikimedia. Licença: CC By SA 2.5 Generic Existem outras matrizes ambientais que também guardam informações sequenciais sobre o paleoclima da Terra, tais como os corais e os testemunhos de gelo. Dá até para se obter informações da atmosfera de centenas de milhares de anos atrás a partir de bolhas de ar encontradas nesses testemunhos de gelo! Nos continentes temos ainda os anéis de árvores, espeleotemas e registros sedimentares lacustres. A grande vantagem dos testemunhos marinhos em relação aos outros registros é que eles abrangem um período maior, podendo chegar até 100 milhões de anos! A idade de um testemunho marinho é algo que precisa estar bem definido antes de tudo, pois é ela quem limita o período e resolução temporal desse registro sedimentar que será a base de toda a interpretação. Essa cronologia é desenvolvida a partir da datação de alguns pontos do testemunho e construção de um modelo de idade. Existem diferentes tipos de datação adequados para cada período e tipo de material a ser datado, como por exemplo a datação pelos isótopos radioativos carbono-14 e chumbo-210. No caso dos testemunhos marinhos, o material mais indicado para a datação são as carapaças dos foraminíferos, organismos unicelulares bem pequenos que produzem uma estrutura composta por carbonato de cálcio, e a datação é comumente feita a partir do 14C, que cobre um período de até 45-50 mil anos, podendo se estender até centenas de milhares de anos quando associado a outras ferramentas. Seccionamento do testemunho e triagem de foraminíferos. Figura traduzida e adaptada via Wikimedia. Licença: CC BY SA 4.0 International Mas o que é exatamente um proxy? O proxy consiste em uma pista ou informação preservada ao longo do tempo que pode ser quantificada e guarda alguma relação com um parâmetro de interesse que nós não conseguiríamos medir diretamente. Por exemplo, a proporção entre o componente X e o componente Y em uma amostra de sedimento marinho pode estar relacionada a temperatura da água do mar no momento em que estes componentes foram formados na coluna d’água. Quanto mais fria a água, maior a formação de X, e quanto mais quente, maior a formação de Y. Se os componentes X e Y são depositados no fundo do mar e se mantêm preservados no sedimento com o passar dos anos, ao analisá-los hoje nós podemos reconstruir a temperatura da época em que eles foram formados. A proporção X/Y seria então um proxy que nos permite reconstruir a paleotemperatura da água do mar. Os componentes que se encontram preservados na amostra de sedimento marinho podem ser compostos orgânicos, inorgânicos, carapaças de organismos, pólen, pedaços de vegetação ou cinzas vulcânicas. Os proxies utilizados na paleoceanografia podem nos fornecer informações sobre parâmetros como temperatura, salinidade, massas d’água, produtividade marinha, concentração de CO2, aporte e tipo de vegetação terrestre. Tais proxies, quando analisados em conjunto, nos ajudam a reconstruir os mais variados processos ambientais, climáticos e oceanográficos, como por exemplo variações na camada de mistura, intensidade de correntes, precipitação continental, nível do mar e volume de gelo. A combinação de registros sedimentares coletados em várias partes do mundo nos fornece uma visão geral sobre mudanças na circulação termohalina, no transporte de calor global e no clima da Terra. A maioria dos trabalhos de paleoceanografia foca na reconstrução da temperatura da água do mar. Os proxies de temperatura podem ser divididos em dois grupos: inorgânicos e orgânicos. Os proxies de temperatura inorgânicos incluem a razão entre os isótopos oxigênio-18 e oxigênio-16 (representada por δ18O) e a razão elementar o magnésio e o cálcio (Mg/Ca), que estão presentes na calcita das carapaças dos foraminíferos. O proxy δ18O se baseia no princípio de que a proporção entre o oxigênio-16 (mais leve) e seu isótopo oxigênio-18 (mais pesado) durante a calcificação dos foraminíferos varia de acordo com a temperatura, de maneira que o aumento da temperatura resulta na precipitação de calcita empobrecida em oxigênio-18. O δ18O também é um medidor de salinidade e um excelente medidor de volume de gelo pois o gelo estoca mais oxigênio-16 (mais leve), sobrando mais oxigênio-18 (mais pesado) nos oceanos e consequentemente na carapaça dos foraminíferos presentes no fundo do oceano. No caso da razão Mg/Ca, o aumento da temperatura é responsável por aumentar a incorporação de Mg durante a calcificação dos foraminíferos. Tanto o δ18O quanto a razão Mg/Ca podem também ser aplicados na reconstrução da temperatura a partir de registros de corais, pois estes também são formados por carbonato de cálcio. Os proxies de temperatura orgânicos são baseados na capacidade de vários microrganismos de ajustar a estabilidade de suas membranas celulares às variações locais de temperatura por meio de mudanças nas estruturas de determinados compostos durante sua formação. Estas mudanças nas estruturas envolvem variações no número de insaturações ou de anéis em suas moléculas, que podem ser facilmente identificadas e quantificadas através de técnicas analíticas específicas. Dentre os compostos orgânicos preservados no sedimento marinho utilizados para reconstruir a temperatura da água do mar do passado estão as alquenonas (cetonas de cadeia longa com 2 a 4 insaturações) e os dióis de cadeia longa produzidos por microalgas, bem como os glicerol dialquil glicerol tetraéteres (GDGTs) produzidos por arqueias e bactérias. Todos os proxies usados na paleoceanografia carregam incertezas que podem afetar a precisão das estimativas e causar uma má interpretação das variações ambientais. Por isso é importante reconhecer a limitação de cada proxy e ter em mente que não existe proxy perfeito. É essencial tentar combinar proxies independentes para a reconstrução de um mesmo parâmetro e observar se eles apresentam a mesma tendência. O impacto potencial das atividades humanas no clima presente e futuro aumentou o interesse em compreender o clima do passado. Uma reconstrução confiável e com boa resolução das variações climáticas do passado é essencial para uma melhor investigação e previsão do que nos espera no futuro. Referências ou sugestões de leitura: Erez, J.; Luz, B. 1983. Experimental paleotemperature equation for planktonic foraminifera. Geochimica et Cosmochimica Acta, 47:1025–1031. https://doi.org/10.1016/0016-7037(83)90232-6 IPCC. 2018. Summary for Policymakers. In: Global Warming of 1.5°C. An IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, H.-O. Pörtner, D. Roberts, J. Skea, P.R. Shukla, A. Pirani, W. Moufouma-Okia, C. Péan, R. Pidcock, S. Connors, J.B.R. Matthews, Y. Chen, X. Zhou, M.I. Gomis, E. Lonnoy, T. Maycock, M. Tignor, and T. Waterfield (eds.)]. World Meteorological Organization, Geneva, Switzerland, 32 pp. Kim, J.H., van der Meer, J., Schouten, S., Helmke, P., Willmott, V., Sangiorgi, F., Koç, N., Hopmans, E.C., Sinninghe Damsté, J.S. 2010. New indices and calibrations derived from the distribution of crenarchaeal isoprenoid tetraether lipids: Implications for past sea surface temperature reconstructions. Geochimica et Cosmochimica Acta, 74:4639–4654. https://doi.org/10.1016/j.gca.2010.05.027 Locarnini, R.A., Mishonov, A.V., Antonov, J.I., Boyer, T.P., Garcia, H.E., Baranova, O.K., Zweng, M.M., Paver, C.R., Reagan, J.R., Johnson, D.R., Hamilton, M., Seidov, D., 2013. World Ocean Atlas 2013, Volume 1: Temperature. NOAA Atlas NESDIS. http://www.nodc.noaa.gov Mann, M. E.; Bradley, R. S.; Hughes, M. K. 1998. Global-scale temperature patterns and climate forcing over the past six centuries. Nature, 392:779. https://doi.org/10.1038/33859 Müller, P. J.; Fischer, G. 2004. Global core-top calibration of U37K (update). PANGAEA. https://doi.org/10.1594/PANGAEA.126662 Nürnberg, D.; Bijma, J.; Hemleben, C. 1996. Assessing the reliability of magnesium in foraminiferal calcite as a proxy for water mass temperatures. Geochimica et Cosmochimica Acta, 60:803–814. https://doi.org/10.1594/PANGAEA.126662https://doi.org/10.1016/0016-7037(95)00446-7 Prahl, F.G., Wakeham, S.G. 1987. Calibration of unsaturation patterns in long-chain ketone compositions for palaeotemperature assessment. Nature 330:367–369. https://doi.org/10.1038/330367a0 Rahmstorf, S. 2002. Ocean circulation and climate during the past 120,000 years. Nature, 419:207–214. https://doi.org/10.1038/nature01090 Rampen, S. W.; Willmott, V.; Kim, J. H.; Uliana, E.; Mollenhauer, G.; Schefuß, E.; Sinninghe Damsté, J. S.; Schouten, S. 2012. Long chain 1,13- and 1,15-diols as a potential proxy for palaeotemperature reconstruction. Geochimica et Cosmochimica Acta, 84:204–216. https://doi.org/10.1016/j.gca.2012.01.024 Schouten, S., Hopmans, E.C., Schefuß, E., Sinninghe Damsté, J.S. 2002. Distributional variations in marine crenarchaeol membrane lipids: a new tool for reconstructing ancient sea water temperatures? Earth and Planetary Science Letters, 204:265–274. https://doi.org/10.1016/S0012-821X(02)00979-2 Urey, H. C. 1947. The thermodynamic properties of isotopic substances. Journal of the Chemical Society (Resumed), 582:562. https://doi.org/10.1039/JR9470000562 Sobre a autora: Oceanógrafa pela UERJ, com mestrado e doutorado em química pela PUC-Rio, e doutorado sanduíche na Alemanha na Universidade de Bremen e no Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Polar e Marinha. Atualmente é pós-doutoranda no Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais da PUC-Rio, especializada na área de geoquímica orgânica marinha. Está sempre imersa no mundo dos lipídios e isótopos estáveis para compreender as fontes, transporte e destino da matéria orgânica, bem como sua relação com processos recentes ou do passado. Também possui experiência e adora se envolver com poluição marinha, com foco nos hidrocarbonetos de petróleo. É apaixonada pelas possibilidades de colaboração e troca de conhecimento entre todas as áreas da oceanografia, pois tudo está conectado e nenhuma área anda só. Os momentos de lazer se dividem entre praia, filmes, livros, música e, como boa carioca, gostaria que o carnaval durasse o ano inteiro. #MilenaCeccopieri #MudançasClimáticas #Paleoceanografia #SedimentoMarinho #GeoquímicaOrgânicaMarinha #BatePapoComNetuno #OceanograficaGeológica #Convidados #CiênciasDoMar












