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  • Podcast EP6T1

    Amazonas: um mar de “água doce” Amazonas?!... O que uma oceanógrafa foi fazer lá. Autora: Jana Del Favero Post original: Maio de 2016, seção Vida de Cientista Ilustração: Joana Ho Narração: Catarina Marcolin Edição: Catarina Mello Ouça também em: Siga o Bate-Papo com Netuno nas redes sociais: Facebook: fb.com/batepapocomnetuno Instagram: @batepapocomnetuno Twitter: @batepapocomnetuno Youtube: bit.ly/netuno_youtube #vidadecientista #janamdelfavero #amazonas #institutomamirauá #joanaho #podcastdobpcn #catarinarmarcolin #catarinarmello

  • Manguezais

    Por Juliana Leonel Os manguezais são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinho e terrestre. Localizados nas regiões tropicais e subtropicais, abrigam um grande número de espécies e têm ampla importância ecológica, econômica, social, na manutenção do clima, na proteção costeira, como fonte de nutrientes para a zona costeira, na retenção de contaminantes etc. Imagem de Lamiot via Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0 Do ponto de vista ecológico é muito comum a frase “manguezais são berçários para diversas espécies”, mas o que isso significa? Isso quer dizer que muitas espécies dependem dos manguezais para sua reprodução e manutenção da população. Na verdade, o número de espécies que dependem dos manguezais, direta ou indiretamente e durante toda a vida ou apenas em um período dela, é muito grande. Somado a isso, nos manguezais há espécies que não ocorrem em outros ecossistemas, altamente adaptadas às características específicas deste local. Por exemplo, por serem zona de transição sofrem os efeitos da oscilação da maré com consequentes variações de temperatura, salinidade e quantidade de água, além da baixa quantidade de oxigênio no sedimento. Os manguezais são ambientes com sedimento fino (lama) que tem pouca troca gasosa com a atmosfera e, consequentemente, limitada oxigenação. Por isso aquele cheiro de “ovo podre” forte é bem característico deste local. Mas não tem nada de errado com isso, pelo contrário! Com a baixa presença de oxigênio as bactérias passam a usar o enxofre para realizar a degradação da matéria orgânica (que é outra coisa que tem muito no sedimento dos manguezais), em um processo anaeróbico, que produz ácido sulfídrico (= cheiro de ovo podre). Essas características do sedimento permitem que haja uma diversidade microbiológica bastante específica nesse ambiente, inclusive algumas com potencial para biorremediação de alguns tipos de contaminação, como hidrocarbonetos de petróleo. São poucas as espécies de árvores presentes no manguezal, mas elas têm diversas adaptações para sobreviverem em um ambiente com tantas limitações. Entre elas, a Rhizophora mangle (mangue vermelho), tem raízes aéreas longas que aumentam a fixação no sedimento com baixa compactação e auxiliam na troca de gases e água. Essas estruturas ajudam a conter os processos erosivos devido a ação de marés e ondas. Além disso, oferecem proteção adicional em casos de eventos extremos. Por exemplo, no tsunami que atingiu a costa tailandesa em 2004, observou-se que as áreas com densa floresta de mangues foram menos destruídas, por dissipar a energia das ondas, quando comparadas com as áreas onde não haviam manguezais. Ou seja, os manguezais são importantes também para a segurança das cidades costeiras. Adaptações de Rhizophora mangle (via Wikimedia em Domínio Público) e da Avicennia marina (de Piripitus via Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0) Entre as muitas espécies de peixes, crustáceos e moluscos que vivem nos manguezais, encontram-se diversas de interesse comercial que são fonte de alimento e de renda para muitas comunidades de baixa renda. Dessa forma, a preservação desse ecossistema significa preservar uma fonte importante de proteína e também a sobrevivência financeira de muitas pessoas. Caranguejo Uçá (Pancrat via Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0) Caranguejo Aratu (Bob Peterson via Flickr com liceça CC BY 2.0) Os manguezais são um dos ambientes costeiros mais importantes no armazenamento de carbono azul (blue carbon) que é o carbono atmosférico fixado por ecossistemas costeiros ao invés dos ecossistemas terrestres tradicionais. Nos manguezais o dióxido de carbono é retirado da atmosfera através do crescimento de plantas e acúmulo e soterramento de matéria orgânica no sedimento. O fato de ser um ambiente com pouca oxigenação no sedimento não favorece a degradação da matéria orgânica (que libera dióxido de carbono) e favorece seu acúmulo. Ou seja, no balanço final, eles retêm mais carbono do que liberam e isso tem um papel fundamental na manutenção do clima. Apesar de todos os benefícios gerados pelos manguezais, eles estão em constante risco devido ao crescimento urbano, obras costeiras, expansão da maricultura, mineração e sobrepesca de algumas espécies. O Brasil sozinho possui em torno de 15% de toda a área de manguezal do mundo; segundo o Ministério do Meio Ambiente, em 2009, eram 1 225 444 hectares distribuídos desde o Oiapoque (AM) até Laguna (SC). No entanto, estima-se que houve uma perda de 20% em área só na última década e meia. Para saber mais: Recomendamos o material Desvendando os manguezais da Fundação Grupo o Boticários #Mangue #Manguezais #AmbienteCosteiro #Oceanografia #Descomplicando #JulianaLeonel #ZonaCosteira

  • Orcas: from sea monsters to the Blackfish effect

    By Dani Abras English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on November 27, 2015 Illustration by Carla Elliff Until the 1960s, Orca (Orcinus orca) were a little known species in the world. They were only seen in the wild, in the areas they live, mainly the coastal regions of Canada and New Zealand. That all changed in 1977, when a film called “Orca: The Killer Whale” was released. The ominous title, along with the little that was known about these animals in mainstream culture quickly made orcas one of the most feared species by humans. The popular name “killer whale” is misleading and the worst kind of marketing for these animals for three reasons: First: orcas are not whales, but dolphins! True whales belong to the Mysticeti sub-order, which are cetaceans that have no teeth but baleen bristles in their mouth, which they use to filter food. Orca are in the sub-order Odontoceti (toothed cetaceans), and are further classified within the family Delphinidae, the same family as Flipper, the bottle-nosed-dolphin. Second: the term “killer whale” comes from an incorrect translation of the term used in the Mediterranean in the 1920s or 1930s meaning “whale killer” (“asesina de ballenas”, in Spanish). Someone wrongly translated this name into the English name "killer whale," giving the false impression that orcas are whales that kill. In reality, their Spanish name was given due to the fact that they sometimes prey on some species of whales (gray, minke, and humpback, for example). Third: aren't orcas so beautiful and charismatic? Why not adopt the name Sea Panda? I vote for that! Killer Whale or Sea Panda? (by @Liz Climo) It was then that Shamu (and her predecessors) came into the game, completely changing the negative image of orcas to the general public. The first orca to be captured and put on display to the public was named Moby Doll. The Vancouver Aquarium wanted to study its brain and make a life-size replica of an orca, and commissioned a specimen from hunters in the region to serve as a model. This animal, which they mistakenly thought was a female (and who should not have survived the hunt), was taken to a tank, where he only lived for 87 days. This happened in 1964, by coincidence, the same year SeaWorld opened in the USA. The marine parks already had dolphins on display, but never an orca, and Moby Doll sparked interest and caught the attention of the park's owners. The original “Shamu” was the third orca that lived in captivity, but the first one captured exclusively for this purpose. In 1965, SeaWorld ordered its purchase, and since then, it has kept orcas in its tanks. The first Shamu died in 1971, but to this day she “lives” as the main attraction and icon of SeaWorld. It was from this moment that orcas ceased to be feared animals and became charismatic beings, capturing the hearts of spectators worldwide. Soon, all of the SeaWorld water parks brought in wild orcas for shows, which became the flagship of their attractions. Moby Doll (Vancouver Aquarium, available under license CC BY SA) In 2010, this image of happy captive orcas began to unravel. Dawn Brancheau, an experienced orca trainer, was brutally murdered in front of hundreds of spectators, by the largest orca that ever lived in captivity, the male Tilikum. As investigations into the attack continued, a series of lies that SeaWorld told its millions of annual visitors began to be unmasked. A chorus of people joined the few scientists who were already opposed to keeping orcas captive for entertainment, initiating the "Blackfish Wave" or "Blackfish Effect." This wave of opposition was triggered by the documentary of the same name (Blackfish - or Animal Fury, in Portuguese - a very bad name, in my opinion) released in 2013. The documentary was centered around the issues of captivity and focuses on Tilikum, and the three deaths that he caused during his 27 years of confinement. The documentary explains the problems of keeping orcas in captivity, from their brutal capture, to the low quality of life that individuals suffer while in small pools, to the issue of selective inbreeding between the captive orcas, especially with regards to the problematic behaviors in Tilikum’s family line. Blackfish is a disturbing documentary. Not because it contains strong images - the documentary's director, Gabriela Cowperthwaite, has said she wanted “children [to be able to] watch the film, without traumatizing the audience” - but because it unravels uncomfortable facts for any animal lover. Some images of the daily life of the orcas and the procedures they are subjected to in the water parks are discussed, explaining how the animals suffer from confinement and other unnatural methods. The film features reports from former trainers about the relationships they formed with the animals they cared for, the extensive daily training, and situations of aggression and violence by orcas that never made it into the news. Logo for the Blackfish documentary (Wikimedia Commons, under public domain) The film sheds light on some of the most absurd lies that SeaWorld preaches to its visitors. The biggest one is that orcas live to be around 30 years old, when we know that in the wild, an orca can live about 80 years, and reach up to 104 years (one orca named "Granny" off the west coast of Canada). At shows, trainers say that their animals exhibit behaviors similar to natural ones, but when we realize that an orca swims around 80 km a day, and that it needs to circle the pool 1,500 times to reach this distance, we see how much captivity escapes the reality of a wild orca. The term “Blackfish” is a popular name given to orcas by the First Nations, indigenous peoples in western Canada that, above all, respect orcas as they are “animals that have great spiritual power.” The orca population that lives in this place is classified as threatened, not because of the native people, but because of the captive orca industry. Orca in numbers: 15 aquariums and marine parks have orcas in their facilities, today in the world. Corky 2, the oldest captive orca, has already spent 46 years in confinement. 57 orcas live in captivity today. 162 orcas have died in captivity. 151 accidents have occured between trainers and orcas. 4 people have died from attacks by captive orcas. 0 people have died from attacks by orcas in the wild. $162,855,000.00 reais is what Brazilians spend at SeaWorld Orlando, per year. 770,000 Brazilians visit the park in Orlando annually. Orca in British Columbia, Canada (Photo by Thomas Lipke on Unsplash) After the release of the film Blackfish in 2013, SeaWorld's shares fell by more than 30%, and the number of park goers decreases each year. In November 2015, SeaWorld announced a change in the theatrical patterns of the orca presentations, in an attempt to adapt to the criticism it has been receiving, and to appeal to its lost viewers. This change proposes a more organic nature to the presentations. The end of acrobatic shows does not mean freeing the orcas or ending the shows permanently however. It will only be a restructuring of the show, to appear more "natural" to the viewer. I believe that there are two effective weapons in the struggle against captivity: information and decision. The information is available on several sites on the internet as well as some documentaries: in addition to "Blackfish," "A Fall From Freedom," "Lolita: Slave to Entertain," and "The Cove" have great information. The decision not to go to aquatic parks and aquariums that have cetaceans (orcas, dolphins and belugas) in captivity is with you, dear reader. When there is no more demand, there will be no more space for this type of entertainment, but as long as there are people paying to attend these places, there will be suffering orcas. So, join the campaign #EndCaptivity, share this idea with your relatives and friends. Blackfish can be viewed on Netflix or Net’s Now, in addition to YouTube. Official website: http://www.blackfishmovie.com/ Facebook: www.facebook.com/BlackfishFilm About the author: Daniela Abras is from Belo Horizonte, she has a bachelor’s degree in Marine Biology from UFRJ, and a Masters’ degree in Oceanography from USP. She has loved cetaceans since she was 8 years old, when she did a school project about them. When she was a teenager, she would say that she wanted to work with whales, but was never taken seriously. In the early 1990s, she heard the famous National Geographic “Whale Songs” vinyl record and discovered the “Save the whales” project. This originated her biggest determination: to study and protect whales. Founder of VIVA Instituto Verde Azul, she is now a researcher for the Brazilian Humpback Whale Institute, dedicating herself daily to studying these magnificent animals. #MarineScience #Whale #Blackfish #Guests #Odontoceti #Orca #Documentary #CarlaElliff

  • Antropoquinas: rochas e lixo no mar

    Por Carla Elliff Ilustração por Joana Ho. A poluição por lixo no mar (principalmente plástico) está em toda parte. Relatos de lixo sendo ingerido por tartarugas, mamíferos e aves têm se tornado cada vez mais comuns. Também já sabemos que além das nossas praias, encontramos lixo em grandes profundidades no oceano. Por isso, o tema tem sido discutido amplamente, sendo incluído também em políticas públicas que buscam entender e amenizar o problema. Mas um compartimento ambiental ainda pouco explorado quando o assunto é lixo no mar, é o geológico. Sim, geologia. Aquela que estuda o “palco” sobre o qual toda a vida no planeta se desenvolve. Esse arcabouço também é afetado pela nossa poluição, mesmo sendo não vivo (abiótico). Para ilustrar como, trago o exemplo das antropoquinas: rochas sedimentares recentes com cimentação natural de itens de origem humana. Antes de chegar nelas, deixa eu contar sobre os bastidores dessa descoberta… Exemplo de antropoquina coletada no litoral gaúcho. Essa amostra consiste em uma tampinha de metal com grãos e uma concha de bivalve cimentados de forma natural. (Foto por Gerson Fernandino com licença CC BY 4.0). Em 2018, eu e meu marido, Gerson Fernandino, passamos alguns meses na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Eu como doutoranda, cursando algumas disciplinas lá como aluna especial, ele como professor substituto. Foram 4 meses de inverno no melhor estilo Cassino! Vento, umidade e frio de renguear cusco! Mas também foram 4 meses junto a pessoas incríveis, que nos acolheram como velhos amigos. Entre essas pessoas estavam os professores Paula Dentzien-Dias e Heitor Francischini. Ambos paleontólogos, grudamos neles logo no início, fascinados pelo trabalho que desenvolvem. Aprendemos, por exemplo, que o Rio Grande do Sul é riquíssimo em fósseis da megafauna do Pleistoceno. Essa época geológica corresponde a cerca de 11 mil anos antes do presente e a megafauna é representada por mamíferos como mastodontes (parecidos com mamutes), gliptodontes (mamíferos extintos que parecem tatus gigantes) e preguiças-gigantes. Nem só de dinossauros vive a paleonto! Parte do trabalho da Paula e do Heitor consiste em ir até certos pontos no extremo sul do litoral gaúcho – ou seja, no finzinho do Brasil (ou seria o começo?) – e procurar esses fósseis. As condições de vento e maré têm que estar propícias para garantir uma boa coleta. Então, ficando de olho na previsão do tempo, chegamos a uma semana ideal. Eu e Gerson rapidamente nos voluntariamos para ajudar! Fomos até a Praia do Hermenegildo e depois nos Concheiros do Albardão, munidos de caixas para amostras e, claro, casaco corta-vento. Passamos o dia praticamente (ou às vezes literalmente) jogados de bruços na praia separando o que era material recente e o que eram fósseis, muitos só restando seus fragmentos. Coletando fósseis na Praia do Hermenegildo e Concheiros do Albardão. Muitos dos fósseis são pequenos fragmentos, então fica mais fácil se deitar na areia para encontrá-los! Às vezes uma peça maior é coletada, como essa garra de preguiça-gigante. (Fotos por Carla Elliff com licença CC BY 4.0). Além dos fósseis, outro item geologicamente interessante da região são as coquinas. Coquinas são rochas sedimentares formadas majoritariamente por fragmentos de conchas. Elas são bastante comuns na região e preservam muita história com cada um dos bioclastos (fragmentos de origem biológica que formam uma rocha) que as compõem. Amostra de coquina ao lado de uma caneta, usada como escala. (Foto por Carla Elliff com licença CC BY 4.0). Bom, realizado nosso sonho de sermos paleontólogos por um dia, continuamos a frequentar o laboratório durante nossa estada na FURG. Sabendo do nosso trabalho com poluição por plástico, um dia Paula e Heitor dizem “Ah! Temos uma amostra que vocês vão gostar”. Eis que eles nos trazem algo que só tínhamos imaginado que poderia ocorrer: rochas sedimentares que, além dos usuais grãos de areia e bioclastos, continham também itens de metal e plástico cimentados naturalmente em sua composição. Essas amostras haviam sido coletadas em trabalhos de campo anteriores no litoral, guardadas mais por serem curiosas do que qualquer outro interesse. Eu lembro da cara do Gerson analisando a amostra, como se Papai Noel tivesse trazido o brinquedo que ele pediu! Desde seu mestrado ele teorizava como o plástico poderia futuramente fazer parte do ciclo das rochas, considerando que ele está em toda parte, inclusive como fragmentos entre os grãos de areia. Alguns estudos já reportaram o que se chama de plastiglomerados, piroplástico e plasticrostas. Todos são exemplos de interações de plástico com o compartimento geológico (e descritos apenas no hemisfério norte até o momento), mas nenhum resultante de processos naturais de diagênese (o conjunto de processos que leva sedimentos à sua consolidação na forma de rochas). O que tínhamos em mãos era um lixo bem valioso. Apelidamos as amostras de “antropoquinas”, em homenagem às numerosas coquinas encontradas na região, adicionando o sufixo antropo- para representar a contribuição humana naquela rocha. O nome pegou e, assim, reportamos a ocorrência curiosa no artigo Anthropoquinas: First description of plastics and other man-made materials in recently formed coastal sedimentary rocks in the southern hemisphere. As primeiras amostras de antropoquinas que vimos. Elas incluem tampinhas de metal, um brinco de plástico, um cravo de metal (possivelmente de um navio) e um fragmento transparente de plástico. (Fotos por Carla Elliff com licença CC BY 4.0) No entanto, descrever as antropoquinas responde apenas a algumas das nossas perguntas. Sabemos agora que é possível, sim, que itens de lixo, inclusive plástico, possam ser incorporados em rochas sedimentares recentes. Sabemos que é um processo natural e a composição química do material natural que compõe essas amostras. Sabemos que isso está ocorrendo no Rio Grande do Sul. Abrimos agora a porteira para mais um monte de perguntas: quão recentes são essas rochas? Quais as condições ambientais necessárias para sua formação? Qual a abrangência de sua ocorrência? Qualquer tipo de material consegue ser cimentado em uma antropoquina? Por quanto tempo esse lixo cimentado “sobreviverá” nas rochas? Deixarão vestígios? Quais as implicações dessa interação para a preservação da nossa geodiversidade? Se o nosso lixo chegou até as rochas, que chance temos de mitigar os impactos dessa poluição? Me arrisco agora a responder, mesmo que superficialmente, a essa última pergunta. Não há dúvidas que a humanidade deixa sua marca no planeta. Seja pela presença de lixo, pelos sinais radioativos que deixamos com bombas nucleares, pela extinção de espécies (inclusive algumas da tal megafauna que mencionei) ou pela nossa contribuição de gases do efeito estufa. Se esta marca é irreversível, ainda não temos certeza. Discute-se também o uso destes tipos de ocorrências humanas no registro geológico do planeta para dar suporte à proposta de uma nova época geológica, o Antropoceno, ainda sem consenso em nível global. Limpar por completo o planeta dos sinais deixados pela nossa sociedade moderna pode ser uma tarefa impossível e talvez sem sentido. Por isso, prefiro focar em algo mais tangível: reduzir os impactos dos sinais que estão aí e não permitir que continuem a se expandir. Encontraremos ainda muitas antropoquinas no meio do caminho. Que sirvam de alerta e lembrete sobre nossa responsabilidade com a Terra. O que deixamos para trás diz muito sobre o nosso futuro. A nossa pesquisa conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS, processo Nº 19/2551-0001804-5). #CiênciasDoMar #Plástico #LixoNoMar #Poluição #Geologia #RochaSedimentar #Fósseis #Antropoceno #CarlaElliff #JoanaHo #Antropoquinas #Coquinas #Oceanografia #OceanografiaGeológica #Geologia

  • Grossa ou Assertiva: depende do gênero?

    Por Ju Leonel Ilustrado por Lídia Paes Leme Falar usando um tom firme, de forma séria e indo direto ao ponto pode gerar duas interpretações: ou te consideram uma pessoa assertiva ou te consideram uma pessoa grossa. Mas qual a linha que separa uma da outra? Alguns dirão que a linha é tênue, que depende da situação, do contexto, dos gestos... A verdade é que a linha é bem clara e bem demarcada. Ela é o gênero, também pode ser traçada em função da cor de pele, orientação sexual ou identidade sexual - falarei como mulher branca, cis, hetero, que é o meu lugar de fala, mas fica aberto o convite para quem quiser falar sob outras perspectivas. Isso mesmo: se eu falo com um tom firme sou taxada de grossa, quando um homem fala a mesma coisa usando o mesmo tom (quiçá até de forma rude) ele é descrito como assertivo. Será que essa percepção corresponde à realidade? - alguns devem estar se perguntando. Que atire a primeira pedra a mulher que nunca passou e/ou vivenciou essa situação; ou que até mesmo não traçou essa linha. Desde a nossa infância, nós mulheres, somos condicionadas a assumir uma determinada postura; devemos ser delicadas, manter o tom de voz baixo, não devemos nos impor em uma discussão etc, ao ponto em que consideramos grosseira uma mulher que está apenas sendo assertiva e consideramos assertivo um homem que está sendo grosseiro. Essa diferença entre o comportamento que é aceito quando exibido por homem, mas não quando vem de uma mulher, é usualmente observada em sala de aula quando professores aceitam melhor os questionamentos, críticas ou comentários de um estudante do gênero masculino do que os de uma estudante do gênero feminino. Outro exemplo é quando estudantes consideram “normal” o comportamento de determinado professor, mas o mesmo tipo de comportamento não é mais aceitável quando apresentado por uma professora. Fora do ambiente acadêmico, em reuniões de trabalho, por exemplo, também podemos observar essa diferença: ao homem é dado de antemão o “direito” de interromper, de falar mais alto, de perder a paciência e até mesmo se exaltar, enquanto a mulher que fizer o mesmo será classificada como histérica, desequilibrada ou louca*. *substantivo feminino muitas vezes usado para invalidar as falas e ou sentimentos de uma mulher Em meus muitos anos na academia (entre formação e trabalho), já presenciei diversas situações difíceis, entre elas a de um aluno que saiu da sala de aula batendo a porta e bravejando, tudo isso por não aceitar que zerou um trabalho descaradamente plagiado, um crime segundo nosso código penal. Já presenciei um colega, professor doutor, abandonar uma reunião batendo a porta porque foi contrariado pelos demais docentes. No entanto, nunca vi uma mulher (seja aluna ou professora/pesquisadora) ter as mesmas atitudes. O que vi foram mulheres sendo taxadas de "descontroladas", "pessoas que não sabem trabalhar em grupo", "inflexíveis" e a clássica "elas devem estar na TPM" em momentos em que pediram a palavra ou que, simplesmente, esperavam respeito ao discordarem dos demais. Uma das situações que mais me marcou aconteceu há poucos anos, quando um colega foi extremamente grosso com todo​s ao longo de uma reunião, porque​,​ ​após se referir às mulheres​ ali​ presentes ​como meninas​,​ foi lembrado que "aqui só há mulheres e nenhuma menina". ​E, como era de se esperar, a colega que o lembrou disso recebeu olhares que expressavam o descontentamento com seu comentário, considerado desnecessário pelos presentes. Caso você esteja se perguntando, também comentaram sobre o comportamento dele, mas apenas para justificá-lo, foram usadas frases como "ele está sobrecarregado de trabalho", quase em tom de pena. Pois é, isso é fruto do machismo estrutural impregnado na nossa criação e que nos cerca no dia a dia de tal forma que, muitas vezes, nos faz normalizar o inadmissível. Mas qual a verdade por trás dessa tentativa de calar as mulheres e/ou nos diminuir: medo de terem sua competência questionada? Medo de comparações e que o mundo se dê conta de que mulheres são tão competentes e capazes quanto os homens? Receio de um sistema mais diverso e, consequentemente, com menos privilégios para os homens? Não é de hoje que a equidade é vista, mesmo que de forma inconsciente, como uma ameaça. Isso porque ela significa romper com a estrutura que sempre privilegiou homens e os colocou como líderes natos, simplesmente por serem homens. Reconhecer que julgamos de forma diferente o discurso do outro por conta de seu gênero, raça, cor e classe é o primeiro dos inúmeros passos para uma sociedade mais justa. Por isso, pare, avalie seus atos e faça a sua parte. #Mulheres #JulianaLeonel #MulheresNaCiência #Feminismo #LendaUrbana #ViésDeGênero #LídiaPaesLeme

  • Orcas: de monstro marinho ao Efeito Blackfish

    Por Daniela Abras Até a década de 50, a orca (Orcinus orca) era uma espécie pouco conhecida no mundo. Era vista apenas nos locais onde aparece com frequência, principalmente as regiões costeiras do Canadá e Nova Zelândia. Em meados da década de 60, um “brilhante” cineasta fez um filme chamado “ORCA, a baleia assassina”, convertendo-a em uma das espécies mais temidas pelo ser humano, principalmente pelo pouco que se conhecia sobre ela, e ainda mais sob este título. Pôster do filme Orca: A baleia assassina. Fonte O nome “baleia assassina” é uma designação muito equivocada para um nome popular e a pior propaganda de marketing de espécie por três motivos: Primeiro: orcas não são baleias, e sim golfinhos! As baleias pertencem à sub-ordem Mysticeti, que são cetáceos que não possuem dentes e sim barbatanas ou cerdas na boca, que usam para filtrar o alimento. As orcas, são da sub-ordem Odontoceti, que possuem dentes, sendo classificadas dentro da família Delphinidae, mesma do golfinho-flíper, por exemplo; Segundo: o nome mais coerente, que se aproxima do atual, seria “assassina de baleias”, como era conhecida na Espanha mediterrânica da década de 20 ou 30 (“asesina de ballenas”, em espanhol). Alguém traduziu erroneamente este nome para o famoso nome em inglês “killer whale” (quando o correto seria “whale killer”), dando a falsa impressão de que as orcas são “baleias assassinas”. Na verdade, elas predam algumas espécies de baleias (cinzenta, minke e jubarte, por exemplo), e por isso eram chamadas “assassinas” de baleias. Terceiro: as orcas não são tão lindas e carismáticas? Por que não adotar o nome de Panda do Mar (“Sea Panda”, em inglês)? Faço votos!! Fonte. Traduzido por Dani Abras Foi então que Shamu entrou no jogo, mudando totalmente a imagem ruim das orcas para o público em geral. A primeira orca que foi para o cativeiro chamava-se Moby Doll. O Aquário de Vancouver queria estudar seu cérebro e fazer uma réplica em tamanho real de uma orca, e encomendou um espécime a caçadores da região, para servir como modelo. Esse animal, que pensavam ser uma fêmea (e que não deveria ter sobrevivido à caçada), foi então levado a um tanque, onde viveu por 87 dias. Isso ocorreu em 1964, por coincidência, mesmo ano de abertura do SeaWorld, nos EUA. Os parques marinhos já possuíam golfinhos em exibição, mas nunca uma orca, e Moby Doll despertou este interesse e chamou a atenção dos donos do parque. A “Shamu” original foi a terceira orca que viveu em cativeiro, mas a primeira capturada exclusivamente para este fim. Em 1965, o SeaWorld encomendou sua compra, e desde então mantém orcas em seus tanques. A primeira Shamu morreu em 1971, mas até hoje ela “vive” como a principal atração e o ícone do SeaWorld. Foi a partir deste momento que as orcas deixaram de ser animais temidos e se tornaram carismáticos seres, cobiçados mundialmente pelos espectadores. Os parques aquáticos lotaram com a presença das orcas, que se tornaram o carro-chefe das suas atrações. Moby Doll. Fonte Foi então que, em 2010, o cenário de amor pelas orcas em cativeiro começou a se desmanchar. Dawn Brancheau, uma experiente treinadora de orcas, foi brutalmente assassinada na frente de centenas de espectadores, pela maior orca que já viveu no cativeiro, o macho Tilikum. A partir de então, de forma crescente como uma onda, uma série de mentiras que o SeaWorld conta aos seus milhares de pagantes anualmente começou a ser desmascarada. Um coro de pessoas leigas se uniu aos poucos cientistas que já se opunham ao entretenimento, iniciando a “Onda Blackfish” ou “Efeito Blackfish”. Esta onda foi engatilhada pelo documentário homônimo (ou Blackfish - Fúria Animal, em português – nome de muito mal gosto, na minha opinião) lançado em 2013, que tem como objetivo mostrar um pouco da  problemática do cativeiro, com foco em Tilikum, e as três mortes que ele causou ao longo de seus 27 anos de clausura. O documentário explica bem didaticamente a problemática de se manter orcas em cativeiro, desde sua brutal captura, à falta de qualidade de vida que os indivíduos sofrem sua permanência em pequenas piscinas, à questão do intercruzamento entre as orcas, principalmente com o gene do problemático Tilikum. Blackfish é um documentário perturbador. Não por conter imagens fortes - já que a própria diretora do documentário, Gabriela Cowperthwaite, declarou seu desejo de que “crianças pudessem assistir ao filme, sem traumatizar o público” - mas por desvendar fatos constrangedores para qualquer amante dos animais. Algumas imagens do cotidiano das orcas e os procedimentos à que são submetidas nos parques aquáticos são abordados, explicando como os animais sofrem com o confinamento e métodos nada naturais. O filme traz relatos de ex-treinadores sobre as relações que formam com os animais que cuidam, extensos treinos diários, e situações de agressões e violências por parte das orcas que nunca chegaram a ser noticiados. Pôster do filme Blackfish O filme traz esclarecimentos sobre algumas das mentiras mais absurdas que o SeaWorld prega a seus frequentadores. A maior delas é que as orcas vivem em torno dos 30 anos, quando sabemos que na natureza, uma orca pode viver cerca de 80 anos, e chegam até 104 anos (orca “Granny”, na costa oeste do Canadá). Nos shows, os treinadores dizem que seus animais exibem comportamentos semelhantes aos naturais, mas quando pensamos que uma orca nada em torno de 80 km por dia, e que ela precisa girar 1.500 vezes na piscina para atingir esta distância, vemos o quanto o cativeiro foge da realidade de uma orca selvagem. O termo “Blackfish”, ou “Peixe-negro” é um nome popular dado às orcas pelos “Primeiros Nativos”, uma tribo indígena da região oeste do Canadá que, acima de tudo, respeita as orcas: “É um animal que possui grande poder espiritual”.  Por coincidência, a população de orcas que vive neste local está classificada como ameaçada, não por conta dos nativos, mas por conta da indústria das orcas em cativeiro. Orcas em números: 15 aquários e parques marinhos detém orcas em suas instalações, hoje no mundo. Corky 2, a orca mais antiga em cativeiro já possui 46 anos de confinamento. 57 orcas vivem em cativeiro, atualmente. 162 orcas morreram no cativeiro. 151 acidentes de treinadores com orcas. 4 pessoas morreram por ataque das orcas cativas. Nenhuma pessoa morreu por ataque de orcas selvagens. 162.855.000,00 reais que brasileiros gastam no SeaWorld Orlando,  por ano. 770.000 brasileiros visitam o parque em Orlando, anualmente. Após o lançamento do filme Blackfish, em 2013, as ações do SeaWorld caíram em mais de 30%, e o número de espectadores diminui a cada ano. Em novembro de 2015, o SeaWord anunciou uma alteração dos moldes teatrais das apresentações das orcas, em uma tentativa de se adequar às críticas que vem recebendo, e para apelar para o retorno de seus espectadores. Essa alteração propõe um cunho mais orgânico nas apresentações. O fim dos shows acrobáticos, não significa libertar as orcas ou acabar com os shows em definitivo. Será apenas uma reestruturação do show, pra parecer mais "natural" ao espectador. Eu acredito que existam duas armas efetivas na luta conta o cativeiro: a informação e a decisão. A informação está disponível em diversos sites na internet, além de alguns documentários, além do próprio “Blackfish”, “A fall from freedom”, “Lolita: slave to entertain”, “The Cove”...  Já a decisão de não ir a parques aquáticos e aquários que possuam cetáceos (orcas, golfinhos e belugas) em cativeiro fica com você, caro leitor. Quando não houver mais demanda, não haverá mais espaço para este tipo de entretenimento, mas enquanto existam pessoas frequentando estes lugares, ainda existirão orcas em sofrimento. Por isso, junte-se à campanha “Não ao cativeiro”, compartilhe essa ideia com seus parentes e amigos. Blackfish pode ser visto no Netflix ou no Now da Net, além do YouTube. Site oficial: http://www.blackfishmovie.com/ Facebook: www.facebook.com/BlackfishFilm Sobre a autora: Daniela Abras é mineira de Belo Horizonte, formada em bióloga marinha pela UFRJ, e mestre em Oceanografia pela USP. É aficionada pelo cetáceos desde seus 8 anos, quando fez um trabalho na escola sobre o tema. Durante a adolescência, já dizia que queria trabalhar com baleias, e muita gente não a levou a sério. No início dos anos 90, escutou o famoso vinil com a gravação das baleias cantando da revista da National Geographic e conheceu o movimento “Save the whales” e disso partiu sua maior obstinação: estudar e proteger as baleias e golfinhos. Fundadora da página do facebook VIVA Baleias, Golfinhos e Cia www.facebook.com/VIVABaleiasegolfinhos, hoje é pesquisadora do Instituto Baleia Jubarte, e se dedica diariamente ao seu estudo destes magníficos animais. A Daniela já publicou com a gente o seguinte post sobre o seu mestrado "Um giro pelo: oceano entendendo o vai e vem das baleias-jubarte" #ciênciasdomar #baleia #blackfish #convidados #danielaabras #odontoceti #orca

  • Baleias ou golfinhos?

    Por Carla Elliff Certa vez acompanhei minha mãe em um evento de trabalho. Na hora do jantar, depois de um dia cheio de reuniões, estavam todos ainda com a cabeça nos negócios. Para evitar continuar falando de trabalho e tentar diversificar o tema, minha mãe se levanta da mesa e diz: - Pessoal, vou pegar uma bebida. Enquanto isso, a Carla vai explicar para todos vocês que a “Baleia Assassina” é na verdade um golfinho! Imediatamente, todos da mesa pararam suas conversas e se viraram para mim com cara de quem acabou de ver um truque de mágica! Eu, com o rosto vermelho pela atenção súbita, começo a explicação... As baleias e os golfinhos são parentes próximos. Esses mamíferos marinhos são de uma ordem chamada Cetacea, que vem do grego ketos (uma divindade marinha monstruosa, que personifica os perigos do mar). Os animais pertencentes a essa ordem, os cetáceos, se dividem em duas grandes sub-ordens: os odontocetos e os misticetos. E quando falamos de golfinhos ou baleias, normalmente são essas as categorias definidoras. Já a palavra “boto” normalmente é usada para descrever odontocetos que habitam rios e estuários, mas isso não é regra. Dentre os representantes de águas doces e salobras temos os botos-cor-de-rosa, as toninhas, os botos-de-lahille... Exposição de golfinhos e baleias no Museum der Walforschungsorganisation Mingan Island Cetacean Study (MICS) (Foto de Marc-Lautenbacher com licença CC BY-SA 4.0) Odontocetos são os cetáceos que possuem dentes. Estes são os golfinhos. A presença de dentes significa que esses mamíferos se alimentam de presas relativamente grandes, como peixes e até outros mamíferos. Já os misticetos têm uma estrutura bucal chamada barbatana. Isso mesmo, barbatanas não têm nada a ver com nadadeiras! Na realidade, são grandes cerdas feitas de material queratinoso, semelhante às nossas unhas. Ao contrário de dentes, as barbatanas não servem para mastigar, mas sim para filtrar a água. Apesar de seu grandioso tamanho, baleias se alimentam principalmente de pequenos organismos - como o krill, um pequeno crustáceo - que são filtrados da água. Krill, um pequeno crustáceo e um dos alimentos favoritos das baleias (Foto de Sophie Webb/NOAA, sob domínio público). As formas de alimentação dessas duas sub-ordens (odoncetos e misticetos) é bastante diversa! Além das diferenças mencionadas acima, em relação ao tamanho da presa, espécies de cada sub-ordem desenvolveram estratégias de caça peculiares. Por exemplo, a tal “baleia assassina”, que já sabemos se tratar na realidade de um odontoceto, - também conhecido como orca - emprega diferentes formas de caça entre grupos familiares. Enquanto um grupo na Nova Zelândia aprendeu uma estratégia de caçar raias, tomando o cuidado de evitar ferrões com veneno, outro grupo da Argentina ficou conhecido por encalhar de propósito para alcançar leões marinhos. Dentre os misticetos, destaca-se a estratégia das baleias jubarte, que consiste em mergulhar em sincronia e expulsar ar para criar uma cortina de bolhas; isso faz com que seu alimento - organismos planctônicos - concentre-se em um local e esteja pronto para ser abocanhado. Dentes de um golfinho-nariz-de-garrafa, um odontoceto (Fonte: Pixabay). Barbatanas de uma baleia-jubarte, um misticeto (Fonte: Pixabay). Além dos dentes e barbatanas, existem outras características físicas que diferenciam essas duas sub-ordens. Uma delas é o orifício respiratório (espiráculo), ou seja, aquele buraco no topo da cabeça dos cetáceos por onde eles respiram. Esse orifício é independente da boca dos cetáceos; assim eles não correm o risco de água chegar aos seus pulmões quando estão se alimentando debaixo d’água. Enquanto os odontocetos possuem apenas um orifício, os misticetos têm dois. O borrifo de água característico de golfinhos e baleias é na realidade a condensação do vapor na expiração dos cetáceos (parecido com quando a gente expira num dia frio e vemos uma “fumacinha”). Dependendo da espécie, esse borrifo pode ter diversas formas, o que auxilia na identificação desses animais em seu ambiente natural. Outra maneira de diferenciar odontocetos e misticetos é olhando seu crânio. Odontocetos têm crânios assimétricos, enquanto o crânio dos misticetos é simétrico. Existem algumas hipóteses que explicam essa diferença. A principal hipótese especula que os crânios assimétricos dos golfinhos são um produto evolutivo vantajoso que persistiu nessa sub-ordem pois permitiu o desenvolvimento da ecolocalização. A ecolocalização é um recurso muito usado por odontocetos no momento da caça: ao emitir ondas sonoras que batem e refletem sobre um cardume de peixes, por exemplo, um golfinho é capaz de calcular a distância até sua presa. Não devemos confundir ecolocalização com vocalização. Tanto golfinhos quanto baleias são capazes de produzir sons e cantos. No entanto, os misticetos não conseguem usar a ecolocalização, pois não possuem sacos aéreos especializados próximos aos espiráculos como os odontocetos; característica resultante de seus crânios assimétricos. Crânio bastante assimétrico de uma cachalote, um odontoceto (Foto por Bill Stillwell, com licença CC BY 2.0). Por fim, mas e os narvais? Os narvais, por mais diferentões que sejam, também são odontocetos, da família Monodontidae (junto com as belugas). Conhecidos também como unicórnios do mar, o “chifre” do narval é na realidade um dente modificado. Não se sabe ao certo a “função” desse dente. Poderia ser uma ferramenta para sobrevivência, servindo para caçar ou revirar o fundo marinho em busca de comida, ou até para quebrar o gelo ártico onde habita. Porém, apenas uma minoria das fêmeas tem esse dente e, considerando que elas vivem mais que os machos, se o dente for uma ferramenta de sobrevivência, não seriam os machos mais longevos? Outra possibilidade é que o dente sirva de órgão sensorial, já que ele possui diversas terminações nervosas que ajudam o narval a identificar mudanças de temperatura e salinidade, por exemplo. Narvais são odontocetos encontrados somente no Ártico, seu longo dente é frequentemente confundido com um chifre (Fonte: NOAA). Se quiser saber mais sobre as características dos cetáceos, dê uma olhada nos links abaixo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ceto_(mitologia) https://wildwhales.org/speciesid/ https://dosits.org/animals/sound-production/how-do-marine-mammals-produce-sounds/ https://www.livescience.com/narwhal-facts.html https://wearesonar.org/2015/06/08/three-amazing-orca-hunting-strategies/ #CarlaElliff #Descomplicando #Baleias #Golfinhos #Cetáceos #MamíferosMarinhos #Odontocetos #Misticetos #BiologiaMarinha #OceanografiaBiológica

  • Seaspiracy e a armadilha das meias verdades

    Por Cintia Miyaji Desde que foi anunciado, o documentário Seaspiracy da Netflix, aparece incansavelmente nas minhas mensagens de e-mail, mídias sociais e por aí afora. Criei uma expectativa gigante e, assim que pude, sentei-me no sofá com meu marido (que, diga-se de passagem, é um pesquisador da pesca, e dos melhores!) e assistimos juntos. Trocamos alguns olhares, fechei meus olhos em algumas cenas, fiquei raivosa em algumas partes, mas perplexa em outras. No final, fiquei com uma imensa sensação de frustração, um incômodo danado, que eu não sabia como definir. Comecei minha carreira de pesquisadora estudando as comunidades de animais que habitam os fundos oceânicos, mas as oportunidades de emprego e carreira me levaram por outros caminhos. E eu, sincera e apaixonadamente, me dediquei a todas essas oportunidades. Há cerca de quinze anos, junto a um grupo interdisciplinar de profissionais amantes do oceano, criamos o primeiro Guia de Consumo Responsável de Pescado do país, para orientar as pessoas em suas compras e escolhas nos restaurantes. Muito antes disso, eu já me dedicava à formação de recursos humanos em Ciências do Mar, orgulhosamente contribuindo para a criação do Fórum de Coordenadores de Curso de Oceanografia do Brasil. Então, quando consigo unir a comunicação sobre o oceano, baseada na ciência e em favor da conservação dos recursos pesqueiros, me sinto realizada! Sabem aquela intersecção entre paixão, missão, profissão e vocação? Os japoneses chamam de ikigai. Por tudo isso, achei que Seaspiracy poderia atender aos meus mais antigos e profundos desejos de uma “arma” realmente eficaz, capaz de levar ao público consumidor, em massa, a mensagem de que precisamos cuidar do oceano, de seus recursos e ecossistemas, e que nós todos, sem exceção, temos um importante papel a cumprir. Claro que eu sabia a que público se dirigiria a mensagem, assim como tenho a clareza de que diretor, produtores, patrocinadores e a Netflix sabiam exatamente a quem e como transmitir a sua mensagem, e devo admitir que foram excepcionalmente bem-sucedidos! Então, o que é que me perturbou tanto? O fato é que, embora os problemas apresentados pelo documentário sejam exatamente aqueles que me incomodam todos os dias, como a depleção dos estoques e a sobrepesca, a pesca ilegal, o impacto sobre espécies ameaçadas, as redes fantasma, os descartes e desperdícios, a aquicultura mal manejada, a violação dos direitos humanos, entre tantos outros, Seaspiracy incentiva o público a acreditar que ele tem o poder de mudar esses cenários de horror através de uma solução simplista... parar de comer peixe. E o argumento mais explorado é o de que não há uma forma confiável de se definir uma pesca como sustentável. Trabalho há cinco anos com um grupo incrível de pessoas, que mesmo distribuídas em 13 diferentes organizações de 11 países, se reúne mensalmente para discutir e elencar coletivamente um conjunto de critérios mínimos que caracterizam e que permitam avaliar pescarias e cultivos como ambientalmente sustentáveis, para assim podermos elaborar recomendações de consumo de pescado em todo o mundo. Não certificamos ou concedemos selos ambientais a nenhuma pessoa, pescaria ou empresa. Trabalhamos também, em conjunto, para definir estratégias de comunicação, compartilhando experiências e apoiando ações mutuamente. Além dos encontros virtuais, já estivemos presencialmente reunidos em cinco encontros anuais, então já são incontáveis as horas de trabalho e pessoas envolvidas. Apesar de tanto esforço, não conseguimos chegar a uma definição única para pesca e aquicultura sustentáveis. Não há critérios que possam ser utilizados de forma homogênea em todas as pescarias e cultivos, muito menos nas diferentes realidades de cada país ou região. Nem sempre sabemos como lidar com a ausência de dados. Não sabemos exatamente como ponderar as diferentes medidas de impacto da pesca artesanal em relação à industrial. Assim, talvez nos restem mais dúvidas do que certezas, mas temos clareza de que pesca e aquicultura sustentáveis são possíveis, e embora complexas de se definir individualmente, elas tendem a crescer e aumentar sua representatividade global e localmente, como consequência do nosso trabalho. Não vou me debruçar aqui a, minuciosamente e ponto a ponto, desconstruir todas as informações numéricas apresentadas no documentário com a nítida intenção de chocar. Muitos pesquisadores, infinitamente mais gabaritados no assunto do que eu, já reuniram suas referências bibliográficas para mostrar que o documentário usou dados ultrapassados, mal interpretados, distorcidos e tendenciosos. Nesse aspecto, Seaspiracy alcançou um êxito que nenhum outro evento científico conseguiu: reuniu as duas maiores autoridades globais no estudo da gestão e da dinâmica das populações pesqueiras para concordar que o documentário errou, e errou feio, em muitos aspectos. Ray Hilborn se manifestou em vídeo e Daniel Pauly em um artigo de divulgação, enquanto Boris Worm, o primeiro autor do mais que citado artigo que “previu o colapso das pescarias em 2048” apoiou o artigo de Pauly através de uma mensagem em redes sociais. Claro que as críticas jamais alcançarão nem uma pequena fração daqueles que assistiram ao documentário, mas encontrarão eco e repercussão nos meios envolvidos com a pesquisa e a cadeia da pesca. Então, em tempos de tantas críticas e plataformas especializadas em desmentir fake news de políticos, figuras públicas e imprensa, por que ainda vejo tantos influenciadores e ativistas que preferem ignorar as falhas e aceitar as informações do documentário, elogiando-o e divulgando-o mundo afora? Na minha visão, isso ocorre porque Seaspiracy usa uma estratégia muito bem pensada e arquitetada, de empoderar o espectador ( aquele específico do perfil do assinante da Netflix), e dar a ele a sensação de que ao final do filme, uma atitude decorrente de uma decisão sua, consciente e legítima, vai contribuir para alterar as situações que o fizeram se sentir tão mal durante o documentário. Então, ao final, você tem que estar convencido de que não comer pescado é a solução, porque é a única que está ao seu alcance individualmente. Para construir um argumento de que pesca ou aquicultura sustentáveis são apenas narrativas inventadas, o documentário cria situações e edita entrevistas para colocar em dúvida a idoneidade de alguns esquemas de certificação, selos ambientais e ONGs. Sem fazer juízo dos casos isolados apresentados, nada disso é justo e honesto com uma legião de profissionais que trabalham dura e incansavelmente para promover transformações na pesca e na aquicultura, atividades econômicas importantíssimas para o bem-estar de pessoas, dos ecossistemas, do oceano e de todo o planeta. Sim, milhões de pessoas dependem da atividade pesqueira como forma de se nutrir e obter renda. Garantir a segurança alimentar e uma vida digna para milhões de pessoas em situações de vulnerabilidade como consequência dos impactos promovidos pelas mudanças climáticas ou pela poluição, passa por promover uma adaptação em suas práticas pesqueiras ou incentivar o cultivo de organismos marinhos em áreas costeiras. Fortalecer as tradições pesqueiras e a cultura das comunidades litorâneas faz com que elas se fixem nessas regiões, preservando seu modo de vida e o ambiente do qual elas dependem. Sim, promover uma atividade pesqueira de forma bem gerida, organizada, manejada e fiscalizada traz benefícios para os ecossistemas. Criar zonas de exclusão, orientar e estabelecer períodos e tamanhos proibidos de captura, definir cotas, limitar licenças, regulamentar práticas e métodos de pesca e cultivo de menor impacto, entre tantas outras iniciativas, quando baseadas em ciência de qualidade, permitem que os estoques se recuperem e cresçam. Para além de propiciar pescarias sustentáveis, medidas de gestão adequadas podem garantir a regeneração de áreas e ecossistemas degradados. A forma como fazer tudo isso é um grande e complexo desafio! E é um desafio que depende do trabalho cooperativo, colaborativo e de impacto coletivo. Depende de uma ação organizada em inúmeras frentes e orquestrada com inteligência. Há alguns anos, venho tentando construir os alicerces da Aliança Brasileira pela Pesca Sustentável. Reunimos as pessoas e as instituições, compartilhamos nossas experiências, construímos um grande esboço do que queríamos enquanto grupo, mas sem uma governança bem definida e um apoio financeiro... ainda vagamos apenas na dimensão dos sonhos. Por isso, não posso aceitar que com todo o potencial e o alcance que tem nas mãos, a Netflix tenha optado por um caminho tão questionável para atrair a atenção das pessoas para os problemas da pesca e do oceano. Da maneira como o fez (e ninguém me convencerá de que foi por desconhecimento e ingenuidade), Seaspiracy tem aumentado a distância e acalorado as discussões em um ambiente de polarização entre ciência e ativismo, ONGs “boas” e ONGs “más”, veganos e não veganos, pescadores e aquicultores, pesca artesanal e industrial, certificações e recomendações, e tantas outras que só a criatividade humana é capaz de explicar! Seaspiracy também perdeu a chance de dialogar construtivamente com os consumidores de uma elite socioeconômica que, inquestionavelmente, tem o poder de mudar a realidade através da sua forma de consumo e de suas escolhas políticas. Deixar de comer pescado e ainda assim ter uma dieta saudável e balanceada, requer um poder aquisitivo que está muito distante da população média mundial. Deixar de comer peixe sem estar preparado e informado para questionar a origem, a composição, o preparo e a saudabilidade dos alimentos que vão substituí-lo, pode ser tão ou mais perigoso para a saúde do planeta. E para aqueles que ficaram chocados com as atrocidades da pesca e não puderem arcar com a substituição adequada da proteína na sua dieta, nem tiverem acesso às orientações de um nutrólogo ou nutricionista, ficarão com parte da “culpa pela destruição do oceano” ou renunciarão à sua saúde? Essas são escolhas impossíveis, mas existem escolhas possíveis! Existem as escolhas baseadas na “ciência que precisamos, para o oceano que queremos”. Existem as escolhas baseadas em discussões inclusivas, equitativas e colaborativas. Existem as escolhas individuais e existem as escolhas coletivas. Existem as escolhas que impactam apenas a sua vida e existem as escolhas que impactam a vida de muitos outros. Nem sempre há escolhas fáceis, como não há soluções simples para problemas complexos. Não estamos em condições de aprofundar as diferenças e aumentar as distâncias. Nossa ação conjunta é necessária e urgente. O planeta, o oceano e a humanidade precisam de ações que os preservem. Ajude-nos a melhorar a comunicação entre as pessoas, no seu círculo social, na sua rede de contatos, na sua área de influência, orientando e disseminando informações de fontes seguras e confiáveis, nutrindo, treinando e até desafiando o senso crítico dessas pessoas. Leia, divulgue e apoie iniciativas como o Bate-Papo com Netuno! PS: Quando eu tentava finalizar a revisão desse texto, uma publicação me chamou a atenção e fui ler... a discussão sobre os desdobramentos e consequências do Seaspiracy foram parar nas profundezas escuras da lama do mar profundo! Cientistas e pesquisadores estão sendo acusados de serem financiados, e assim corrompidos, pela indústria pesqueira para apresentar conclusões em seus trabalhos científicos, diferentes e muito mais positivas do que as do documentário, para justificar a continuidade da atividade. Se for assim, para tudo que eu quero descer!!! Então nos ajudem a trazer a discussão para a zona eufótica, por favor! Leituras sugeridas: Gostaria de mergulhar ainda mais no assunto? O seguinte link reúne diversas postagens e opiniões de pesquisadores sobre o documentário. Foi um jeito de não perder os links sobre o tema e ainda está em construção. Sobre a autora: Bióloga, mestre e doutora em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da USP. Estudou as comunidades bentônicas, com ênfase em moluscos gastrópodes. Ainda é apaixonada pela sistemática desses animais e publica aqui e ali com o apoio dos colegas taxonomistas. Depois de uma longa experiência acadêmica na formação de recursos humanos em Ciências do Mar, dedica-se atualmente ao fortalecimento da cultura do consumo responsável de pescado no Brasil, através da atuação como consultora na empresa que fundou em 2018, a Paiche. Idealizadora da Aliança Brasileira pela Pesca Sustentável, integra também a Global Seafood Ratings Alliance. Esposa de um também biólogo e pesquisador, mãe de dois seres-humaninhos incríveis e de uma cachorrinha adorável. Mora perto do mar, mas adora se meter no meio do mato. #Seaspiracy #CiênciasDoMar #BatePapoComNetuno #Pesca #PescaSustentável #PescaIndustrial #Oceanografia #Oceano #PescaArtesanal #Documentário #Netflix #Convidados

  • Dance a sua tese

    Por Camila Burigo Marin A ciência, a arte e a multipotencialidade. Camila Burigo dançando a sua tese (Foto: Camila Burigo Marin, com licença CC BY) Que o mar é inspiração ninguém pode negar, certo? Tema de filmes, pinturas, poesias, músicas, danças e ciência, o mar cativa e intriga as pessoas ao longo de toda a existência humana. Embora inspirador, cativante e intrigante, quem aceita o chamado do mar e segue uma carreira nas ciências do mar, normalmente se depara com a rigidez das ciências conhecidas como “duras”. Em nossa formação, normalmente somos condicionados a esquecer nossas habilidades adquiridas extra-academia e temos que focar no método científico, único e exclusivamente. Mas, como esquecer que em nosso corpo cientista habita um ser que canta, toca, dança, faz poesia, fotografa, pinta, desenha, sente e se emociona? E foi por esse mesmo caminho de negligência que a arte e a ciência foram desvinculadas, deixando a arte como uma parte dita mais “emotiva” e a ciência com o “racional”. Desde que conheci o concurso “Dance your PhD”, com a minha amiga e orientadora Katia Kuroshima me dizendo: - Camila, olha isso! É a tua cara!, nunca mais os questionamentos sobre arte e ciência me deixaram. E é exatamente isso que o concurso dance your PhD, de uma das mais importantes revistas científicas do mundo, a Science Magazine, propõe. Desde 2008, desafiam cientistas das mais diversas áreas a contarem, através da dança, o que fizeram na sua tese de doutorado, com uma linguagem acessível e compreensível por todos. Ainda no início do doutorado, prontamente aceitei o desafio e lembro-me de ter respondido à minha orientadora: - Que incrível, nós temos que fazer isso! O que eu não poderia imaginar é que essa motivação se tornaria a coluna vertebral da minha tese de doutorado. Quando menos esperávamos, estava eu, justamente dançando a minha tese! Durante minha graduação comecei a atuar com popularização científica. Katia foi a responsável por me apresentar e me inserir nesse mundo. Para mim, que atuo com e para a comunidade, era muito frustrante a ideia de que todo o trabalho que estávamos desenvolvendo ficasse “apenas no meio científico”, afinal a resolução da problemática da poluição marinha requer o envolvimento de todos nós. Se somos parte do problema, somos também parte da solução! Imagem do Espetáculo Onda de Desperdício, a tal coluna vertebral da minha tese (Foto: Monique Burigo Marin, com licença CC BY) Além disso, em mim havia uma necessidade absurda de extravasar. Meu corpo que dançou a vida inteira não conseguia mais se separar do meu corpo cientista. As coletas, as análises, aquilo tudo que eu via e descobria no mar e no laboratório, não eram mais capazes de serem descritos através das minhas palavras. Para minha surpresa, ao olhar ao meu redor percebi que este anseio não era só meu. Muitos dos meus alunos sentiam o mesmo: a falta de um espaço de expressão! Assim nasceu o espetáculo “Onda de Desperdício: Os Perigos Visíveis e Invisíveis do Lixo no Mar”. Um grande desafio para quem o faz e uma provocação para quem o vê. Fazer e vivenciar arte e ciência é sem dúvida sair da zona de conforto; confesso que usar meu multipotencial para transformar minha tese em um espetáculo foi a coisa mais difícil e realizadora que já fiz. Entre duras críticas, preconceito, análises de laboratório e exaustivos ensaios, os cientistas viraram também bailarinos. Fomos descobrindo formas não apenas de nos expressarmos, mas também de nos conectarmos com aqueles que estavam nos assistindo, resultando em uma troca emocionante e que nos motiva a continuar. Assim como eu acredito que qualquer corpo é capaz de dançar, o concurso incentiva a expressão através da dança, por aqueles que já dançam ou não. Destacam que o fundamental é permitir o coração falar através do corpo e nos lembram que com os nossos superpoderes de cientistas, vem a responsabilidade de comunicar a emoção da ciência. Pesquisadores como a brasileira Maria Cândida Moraes e o espanhol Saturnino De La Torre, explicam que as nossas escolhas ditas racionais são fundadas em nosso emocional, nenhum indivíduo é capaz de aprender e mudar se estiver emocionalmente preso ou bloqueado em relação a aceitação de determinados argumentos. Tanto o espetáculo como o vídeo para o concurso, foram projetados não apenas para informar, mas para mexer com as emoções e assim despertar para a ação. No preparo do vídeo para o concurso* (que se assemelha muito ao processo do espetáculo), além de eleger o conteúdo científico, foram incontáveis horas investidas na preparação do roteiro, seleção e montagem da trilha sonora, no estudo das cores e movimentos para despertar determinadas emoções, na gravação, na edição... Enquanto escrevo esse texto, penso que a trabalheira do processo é insignificante perto da aflição que tenho ao imaginar em não ter tido a oportunidade de viver tudo isso. Fico pensando nas “Camilas” que não têm uma “Katia” para incentivar e apoiar. Quantos de nós deixamos de usar nossa multipotencialidade e de ser quem somos, pensando que para sermos cientistas temos que fazê-lo pelo método “tradicional”? Se vamos ganhar o concurso? Não sei... Mas o que eu e toda a equipe do Projeto Água Viva** temos certeza é que somos muito melhores desde que tudo começou. Todos nós precisamos do oceano e o oceano precisa urgentemente de nós! Precisamos cada vez mais compartilhar os problemas e as soluções, sejam através de artigos científicos, resgatando a velha e boa união entre a arte e a ciência ou nos permitindo descobrir novas maneiras. *Se você ainda não viu o vídeo para o dance a sua tese, lá no meu canal do Youtube, corre lá! **Projeto Água Viva: É um projeto de extensão universitária da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, que executa o espetáculo em suas intervenções. Referências ou sugestões de leitura: MORAES, Maria Cândida; LATORRE, Saturnino de. 2004. Sentipensar: Fundamentos e estratégias para reencantar na educação. 2. ed. S.n: Vozes. MARIN, Camila Burigo; KUROSHIMA, Katia Naomi. 2020. Da Ciência à Arte: Onda de Desperdício – Os Perigos Visíveis e Invisíveis do Lixo no Mar. O meio ambiente e a interface dos sistemas social e natural. Vol 2: 11p. DOI: 10.22533/at.ed.78420100822 Sobre a autora: Camila é um ser inquieto que desde cedo ouviu o chamado do mar. Fugia de casa para mergulhar e se aventurar na praia. Entre a curiosidade científica e a expressão através da arte da dança, cresceu querendo ser cientista do mar e bailarina. Estuda danças desde os 4 anos de idade. Aprendeu sobre os primeiros fenômenos oceanográficos através da observação e da curiosidade sobre o mar, o que foi fundamental em todo o seu processo de aprendizado, desenvolvendo competências de socialização, leitura e investigação para conseguir entender o que era que tinha visto no mar. Em um momento da vida, Camila teve que escolher entre a ciência e a arte. Seguiu o desejo de conhecer mais sobre o mar na carreira como Oceanógrafa, mas ainda na faculdade se sentiu incompleta e retomou seus estudos de dança. Hoje mestra em Oceanografia Física, Química e Geológica, Especialista em Projetos Sustentáveis e Doutora em Ciência e Tecnologia Ambiental, atua como pesquisadora, professora e extensionista. Quando as palavras, gráficos e fotos já não eram mais suficientes para expressar e compartilhar tudo aquilo que via acontecendo no mar, decidiu que estava na hora de usar o seu corpo dançante para se conectar com as pessoas e chamá-las para realidade. @camila_burigo_marin milaoceano@gmail.com #DivulgaçãoCientífica #ArteECiência #DécadaDoOceno #DanceASuaTese #Convidados #DanceYourPhD #Dançar #OndaDeDesperdício #VidaDeCientista

  • Recifes de coral

    Por Jana del Favero e Carla Elliff Quem são os corais? Os corais são organismos do filo Cnidário (mesmo filo das águas-vivas). Eles começam sua vida como larvas que assentam sobre algum substrato, tornando-se recrutas. Com algumas exceções, corais tendem a crescer formando colônias. Isso quer dizer que uma única “cabeça” de coral é composta por centenas ou até milhares de indivíduos vivendo em conjunto. Além disso, a maioria das espécies de coral constroem exoesqueletos calcários. Esses exoesqueletos são a principal base para a formação da estrutura rochosa que tanto admiramos, os recifes de coral. Nem todo coral tem a capacidade de formar recifes. Porém, como este post é focado neste ecossistema, vamos explorar apenas aqueles que são considerados construtores. Zooxantelas: os melhores amigos dos corais O coral e as zooxantelas têm uma importante interação biológica, chamada mutualismo ou simbiose. Os corais garantem proteção contra a predação dessas microalgas e fornecem nutrientes essenciais (através de suas excretas) para que realizem a fotossíntese, enquanto as zooxantelas fornecem oxigênio e material orgânico (alimento) produzidos pela fotossíntese ao coral. Dessa forma, um cuida do outro. A interação entre as zooxantelas e corais faz com que grande parte da ciclagem dos nutrientes ocorra nos próprios recifes de corais. Esta ciclagem de nutrientes interna é de importância primordial na manutenção da produtividade do recife em mares tropicais, que são tipicamente oligotróficos (pobre em nutrientes). Por isso recifes de coral são hotspots de biodiversidade, como um oásis no deserto. As zooxantelas vivem dentro do tecido do coral em uma relação de simbiose (Fonte: Smithsonian Institution) Temperatura e turbidez Além da disponibilidade de nutrientes, a temperatura e a transparência da água também são importantes reguladores para o desenvolvimento dos recifes. Aqui vemos novamente como a relação de simbiose entre os corais e as zooxantelas é crucial para o sucesso não só de uma colônia de coral, mas para um recife inteiro. A temperatura limita o crescimento de corais e recifes. Águas com temperaturas abaixo de 18 °C são frias demais para esses ecossistemas e acabam provocando a morte das zooxantelas. Esse limite influencia a distribuição de recifes de coral não só com relação às zonas tropicais e subtropicais, mas também com relação a qual lado do continente vamos encontrá-los. Recifes de coral tendem a ser mais extensivamente desenvolvidos ao longo das bordas orientais dos continentes (ou seja, o lado ocidental dos oceanos), pois estes são banhados por correntes quentes equatoriais dos giros de circulação oceânica (releia os posts sobre correntes aqui). Isso explica em parte o porquê de vermos tantos recifes no lado caribenho do Oceano Atlântico, mas tão poucos no lado africano, por exemplo. Os pontos vermelhos do mapa indicam a ocorrência dos principais recifes de coral do mundo (Fonte: NOAA) Por outro lado, temperaturas altas também são prejudiciais, pois levam à expulsão das zooxantelas do corpo dos corais. Essa é uma das principais causas de um fenômeno chamado branqueamento. Ao perder as zooxantelas presentes nos seus tecidos, os corais ficam brancos, pálidos. Porém a cor é apenas uma indicação do processo, o perigo mesmo para o coral está no fato de terem perdido seu principal fornecedor de alimento. Apesar de ser um processo reversível, é um fenômeno muito estressante e pode levar os corais à morte. Em 2016, uma onda de calor nos oceanos causou branqueamento seguido de mortalidade em massa em recifes de coral em diversos locais do planeta. O documentário Chasing Coral retrata muito bem como esse processo ocorre e seus efeitos devastadores sobre o ecossistema recifal. Com relação à transparência da água, sabemos que águas turvas (ou seja, com alta turbidez) são pouco favoráveis para o desenvolvimento de corais. Isso é porque águas turvas/escuras, em geral, têm muito material particulado. As partículas em suspensão interferem na taxa fotossintetizante das zooxantelas, pois bloqueiam a passagem de luz. Assim, menos luz é absorvida pela água e luz é essencial para a fotossíntese pelas zooxantelas. Além disso, essas partículas podem ser de sedimento presente na água que, ocasionalmente,podem se depositar aos poucos em cima do próprio coral. Mesmo uma fina camada de sedimento pode ser o suficiente para soterrar e matar esse animal. No entanto, algumas espécies, como a Montastrea cavernosa, têm mecanismos de defesa bem eficientes para suportar essa condição e conseguem se limpar desse material nocivo. Adaptar para sobreviver! As formas dos recifes Falando em sobrevivência do mais apto, durante a viagem do navio Beagle na década de 1830, Charles Darwin observou três tipos básicos de recifes de coral e formulou uma hipótese de formação que os relacionava. Segundo Darwin, a formação dos recifes é iniciada com o assentamento das larvas de coral com natação livre nas bordas submersas das ilhas ou continentes. Com crescimento e expansão desse coral, um recife em franja é formado ao longo da costa ou em torno de uma ilha. Este tipo de recife é o predominante no Mar do Caribe. Se o recife em franja estiver conectado às bordas de uma ilha vulcânica ou à outra massa de terra que está submergindo lentamente, os corais que compõem o recife continuam a crescer para a superfície (permanecendo na área com luz) e uma barreira de corais pode eventualmente se formar. Recifes em barreira são separados da terra por uma lagoa, como o Grande Recife em Barreira da Austrália. Os atóis, por sua vez, marcam o último estágio deste processo geológico. Com o passar do tempo, a ilha vulcânica do exemplo que demos começa a sucumbir a processos erosivos. Isso quer dizer que ela vai diminuindo em altura até submergir abaixo do nível do mar. Nesse cenário, o recife de coral é deixado como um anel em torno de uma lagoa (ex. Atol da Rocas, localizado no litoral do Rio Grande do Norte - o único atol do Atlântico Sul). Apesar de este ser apenas uma entre várias opções de evolução para os recifes de coral, até hoje usamos essa classificação descrita por Darwin para descrever a história evolutiva de alguns recifes. Nem só de corais vive um recife Quando o recife se desenvolve, densas colônias de corais se misturam para formar uma intrincada rede de habitats que fornecem diversos nichos especializados para outros organismos. Daria para escrever uma enciclopédia se fossemos listar os tipos, cores, tamanhos, formas, estruturas especializadas, habitats e comportamentos de todas as espécies da fauna que habitam os grandes recifes. Para se ter uma noção, apesar dos recifes de coral cobrirem menos de 0,1% da área total dos oceanos do mundo, quase um quarto da fauna marinha conhecida é encontrada em recifes durante alguma fase de sua vida, ressaltando sua importância ecológica e econômica. Todos esses organismos que ocupam o recife ajudam a moldá-lo. Por exemplo, o budião (também chamado de peixe-papagaio) tem um papel muito importante: ele se alimenta de algas que competem com os corais. Sem ele e outros peixes herbívoros, o recife poderia ser tomado por algas, que oferecem um ambiente muito menos complexo e que não é capaz de suportar toda a vida que depende daquele local. Além disso, a própria estrutura de carbonato de cálcio que forma os recifes não é feita apenas por esqueletos de corais. Organismos como esponjas, moluscos e até algas do tipo incrustantes colaboram na construção do recife, secretando carbonato de cálcio para se fixarem e viverem uma vida séssil. Saiba mais sobre o jardineiro dos recifes, o Budião, nesse vídeo: Impactos e conservação dos recifes Por estarem em regiões rasas e próximas à costa, os recifes de coral são muito vulneráveis às ações humanas. Crescimento urbano desordenado, descargas de poluentes, turismo descontrolado e pesca predatória são alguns exemplos das ameaças a esses ecossistemas tão importantes. Mesmo longe do foco desses impactos muitas vezes crônicos aos recifes costeiros, infelizmente até recifes remotos também mostram sinais de degradação, principalmente devido a mudanças climáticas. Esse fenômeno traz diversos riscos. O aumento da temperatura média dos oceanos é frequentemente o primeiro problema que pensamos, causando branqueamento e estresse aos corais. No entanto, a acidificação dos mares é outro assunto importante nessa discussão. Com mais CO2 nas águas, os oceanos se tornam mais ácidos e isso dificulta a formação da estrutura carbonática do recife e a torna frágil. Combinado a isso, há o aumento na frequência e intensidade de tempestades também causado pelas mudanças climáticas. Um recife já fragilizado é menos capaz de suportar uma tempestade, sofrendo quebras e demorando muito tempo para se recuperar. Ações urgentes são necessárias para garantir a conservação desse ecossistema. Medidas para diminuir a emissão de gases do efeito estufa devem ser promovidos, além de melhorar a gestão da nossa zona costeira. O lado bom é que as ações que precisamos para ajudar os recifes de coral são os mesmos que precisamos para ajudar mais um monte de ecossistemas! Aquelas dicas de sempre como diminuir o uso do carro, ser um consumidor consciente, não desperdiçar recursos, e tratar bem nosso meio ambiente continuam valendo. Além disso, cobrar de nosso poder público ações efetivas é essencial. #descomplicando #recifesdecoral #cnidarios #zooxantelas #biodiversidade #mudançasclimáticas #janamdelfavero #carlaelliff

  • O trabalho silencioso dos oceanos

    Por Aline S. Martinez Você já ouviu falar sobre funções ecológicas dos organismos e ecossistemas marinhos? E sobre os serviços prestados para a sociedade por eles? Ilustração: Joana Ho Você já deve ter ouvido por aí que o fitoplâncton, os minúsculos organismos fotossintetizantes dos oceanos, é o que nos permite respirar no planeta (dê uma olhada no post “O ar que você respira”). Isso é um exemplo de serviço ecossistêmico. O funcionamento ecológico dessas microalgas, ou seja, a realização de suas atividades normais para manter-se vivas, oferece diversos benefícios para o meio ambiente e também para os seres humanos. Por meio da fotossíntese, as microalgas produzem o oxigênio do qual nós, humanos, dependemos e respiramos. Do mesmo modo, existem outros organismos e ecossistemas marinhos que produzem diversos serviços dos quais dependemos para nossa sobrevivência. Além do valor intrínseco da biodiversidade, os ecossistemas fazem parte do nosso capital natural, representando a base sobre o qual desenvolvemos todas as nossas atividades e retiramos todos os nossos recursos para a vida como conhecemos. Os ambientes costeiros, por exemplo, prestam serviços à sociedade que valem aproximadamente 52 trilhões de dólares por ano,. Esta estimativa é baseada nos lucros gerados por cada ecossistema ou o custo para construir algo que exerça a mesma função que um ecossistema natural, como por exemplo, o valor econômico da lagosta nos mercados de frutos do mar, os pacotes de turismo nos recifes de coral ou o custo de construção de barreiras de contenção contra tempestades na costa. A conservação da biodiversidade e saúde dos mares é a chave para manter o bom funcionamento dos ecossistemas e, consequentemente, manter a provisão destes valiosos serviços. Mas, para entender melhor o que os fazem tão valiosos para nós, vamos explicar o que são e como estes serviços nos beneficiam. Os serviços ecossistêmicos são geralmente divididos em quatro categorias principais, sendo estes serviços de suporte, cultura, provisão ou bens produzidos, e regulação. Os serviços de suporte estão relacionados principalmente aos organismos formadores de habitat, conhecidos como espécies fundadoras. Dentre estes, destacam-se os corais , macroalgas, mexilhões e marismas. A estrutura física destes organismos fornece moradia para diversas espécies, refúgio contra predadores e proteção climática. Além disto, o habitat fornecido por estes organismos serve como área de alimentação e berçário para muitas espécies, incluindo algumas de interesse econômico, como lagostas, que vivem em ambientes recifais de águas rasas, e peixes, que vivem em mangues e gramíneas marinhas. Os serviços culturais referem-se a benefícios não materiais dos ecossistemas obtidos pelo ser humano através de, desenvolvimento cognitivo, vivências aestéticas, recreacionais e enriquecimento “espiritual”. Isto inclui o prazer obtido ao descansar na praia ao som das ondas, a admiração e alegria decorrente da observação dos animais se movimentando em meio aos corais ou mesmo o conforto espiritual em atividades de oferenda e reza associados aos deuses ou guias espirituais do mar (como por exemplo, a Iemanjá). Já os serviços de provisão, ou os bens, incluem tudo o que podemos extrair dos oceanos, como por exemplo, o pescado que comemos, recursos energéticos e minerais, extratos de algas e esponjas para produção de remédios, e até mesmo a areia das praias para uso em construções civis. Os serviços de regulação, por sua vez, incluem todas as funções ou atividades que os seres marinhos executam, regulando processos físicos e químicos do ecossistema. Por exemplo, as plantas dos manguezais e as marismas estocam grandes quantidades de carbono em seus tecidos e nos sedimentos que ficam aprisionados entre suas raízes. Esse é um papel extremamente importante na regulação climática da Terra. Sem o armazenamento de carbono nos solos oceânicos, o efeito estufa na Terra aumentaria muito, intensificando o aquecimento global. Além de armazenar carbono, esses ecossistemas são importantes para a proteção costeira, pois mangues e marismas tem a capacidade de amortecer a energia das ondas que chegam na costa, funcionando como quebra-mares naturais. Outros organismos que também têm a capacidade de fornecer esse serviço ecossistêmico de proteção à linha de costa e regulação de erosão são os recifes de coral. As ostras e mexilhões, além da proteção da costa, ao se aderir firmemente ao substrato formando uma estrutura natural rígida, são também fontes de alimento humano, formadores de habitat e exercem um importante papel de purificação da água. Como eles se alimentam filtrando partículas que estão na coluna d’água, acabam removendo impurezas da água. Através da filtração, estes organismos contribuem para uma boa qualidade de água, evitando a eutrofização e proporcionando praias limpas para que possamos desfrutar. Como é possível perceber, o mesmo ecossistema ou grupo de organismos pode fornecer vários serviços diferentes ao mesmo tempo! O trabalho que venho desenvolvendo busca entender como estressores antrópicos (ou seja, alterações físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente causadas por atividades humanas) estão alterando o funcionamento dos ecossistemas. Temos uma boa noção da importância desses sistemas para o nosso benefício, porém ainda não sabemos quais as consequências de tantas mudanças que vêm ocorrendo associadas ao rápido crescimento de cidades costeiras. Recentemente, descobrimos que a filtração por mexilhões é afetada pela contaminação de metais, indicando que estes organismos estão estressados, porém ainda mantendo suas funções biológicas. O aumento dessa contaminação foi diretamente relacionado com o aumento de áreas urbanizadas na costa, o que indica que a expansão das cidades costeiras irá aumentar a quantidade de poluição no litoral. O que não sabemos ainda é o limiar de contaminação que os mexilhões suportam. Assim, meu trabalho busca entender melhor como estamos afetando os sistemas costeiros para buscarmos soluções que evitem o colapso de ecossistemas. Esta seria uma perda irreparável para o ser humano. Bom, espero ter esclarecido aqui a relação entre o funcionamento ecológico e os serviços fornecidos pelos ecossistemas, o que nos mostra a importância de cuidarmos bem do meio ambiente. Os exemplos que descrevi acima são apenas alguns dos muitos bens e serviços que a natureza nos proporciona. Infelizmente não estamos cuidando da saúde dos ecossistemas marinhos e já temos indícios de que nossas ações causam danos a esses ecossistemas. Se não manejarmos nossas ações de forma sustentável, corremos o risco de não usufruir dos muitos benefícios que o mar nos dá com tanta generosidade. É importante repensarmos as nossas atitudes quanto ao meio ambiente e as nossas escolhas de consumo para que possamos buscar o equilíbrio entre natureza e sociedade. Agora que você já sabe mais sobre alguns dos benefícios que obtemos a partir de ecossistemas saudáveis e equilibrados, tenho certeza que verá o mar com outros olhos na próxima visita à praia! Aproveite e espalhe estas ideias por aí... os nossos oceanos agradecem. Referências: Barbier, E.B., 2017. Marine ecosystem services. Current Biology 27, R507-R510. Austen, M., Hattam, C., Borger, T., 2015. Ecosystem services and benefits from marine ecosystems, in: Crowe, T.P., Frid, C.L.J. (Eds.), Marine Ecosystems: Human Impacts on Biodiversity, Functioning and Services. Cambridge University Press, United Kingdom, pp. 21-41. Costanza, R., de Groot, R., Sutton, P., van der Ploeg, S., Anderson, S.J., Kubiszewski, I., Farber, S., Turner, R.K., 2014. Changes in the global value of ecosystem services. Global Environmental Change 26, 152-158. Martinez, A.S., Mayer-Pinto, M., Christofoletti, R.A., 2019. Functional responses of filter feeders increase with elevated metal contamination: Are these good or bad signs of environmental health? Marine Pollution Bulletin 149, 110571. Ostroumov, S., 2005. Suspension-feeders as factors influencing water quality in aquatic ecosystems, in: Dame, R.F., Olenin, S. (Eds.), Comparative Roles of Suspension-Feeders in Ecosystems, pp. 147-164. Sobre a autora: Sou oceanógrafa formada pela Universidade Federal de Rio Grande (FURG) e doutora em ecologia pela Universidade de Sydney (USYD). Nascida em Minas, o mar foi amor à primeira vista. Desde pequena sou apaixonada pela natureza e me encantei pelos mistérios do fundo do mar. Trabalho na área de ecologia bentônica, onde investigo o efeito de atividades humanas na estrutura e funcionamento de comunidades bentônicas em ecossistemas costeiros. Ao longo de minha carreira atuei em projetos de manejo, educação e conservação ambiental, e trabalhos de consultoria ambiental, além de desenvolver a linha de pesquisa já mencionada. Através do meu trabalho científico, almejo buscar soluções para que possamos viver em harmonia com a natureza. Mas, o mar não é somente meu objeto de estudo. Tenho uma conexão muito forte com ele. Nos meus momentos de lazer, adoro mergulhar, surfar e fotografar a vida marinha. #serviçosecossistêmicos #saúdedosoceanos #naturezaviva #capitalnatural #convidados #ciênciasdomar

  • Sobre ser cientista: as injustas cobranças de dentro e de fora

    Por Catarina R. Marcolin Ilustração: Lidia Paes Leme No finalzinho de 2020, fui convidada para falar sobre minha pesquisa por uma estudante de pós-graduação de um dos melhores institutos de oceanografia do mundo, o Scripps Institution of Oceanography. No momento em que recebi o convite eu fiquei muito animada, mas não precisou nem de 5 minutos para eu ser arrebatada com uma sensação muito familiar, descrita para pessoas que sofrem com a síndrome do impostor. Alguns dos pensamentos foram: “O que é que eu vou falar?”, “Eu tenho tão poucas publicações”, “Mas eu nem tenho liderança em pesquisa”, entre outras coisas… E foi daí que eu decidi que deveria mostrar a “big picture”, ou seja, eu falaria não só da minha ciência, mas também das minhas atividades de extensão com o Bate-Papo com Netuno. Quando decidi isso, meu coração se encheu de alegria e fiquei mais confiante, porque eu tenho muito orgulho dessa plataforma de divulgação científica. Aqui eu me sinto realmente útil. Mas peraí! Por que eu me sinto útil ao falar do Bate-Papo com Netuno, mas me sinto insegura ao falar sobre a ciência à qual venho dedicando os últimos 14 anos da minha vida? Em vários sites da internet você vai encontrar informações sobre como reconhecer se você é acometida pela síndrome do impostor. Inclusive, na maioria deles tem uma lista de sentimentos, que você usa para verificar se se aplicam a você. Mas lembre-se: você não deve se auto-diagnosticar ou se medicar sem a orientação de um profissional. Vamos lá: Eu tenho receio de dar a impressão de ser mais competente do que realmente sou. Eu frequentemente tenho medo que descubram quanto conhecimento me falta. Eu não mereço as minhas conquistas. Eu sinto que valorizam demais meu sucesso, embora não mereça. Minhas conquistas foram devido à sorte ou a estar na hora certa, no lugar certo. Eu procuro validação externa, embora não acredite totalmente quando receba. Quando me elogiam, eu tenho medo de não atender às expectativas. Eu tendo a focar no que fiz errado ao invés de considerar os diversos acertos. Eu acredito que o que faço nunca é suficiente. Quando li sobre isso, percebi que vários desses sentimentos eu reconheço em mim. Mas a big picture aqui é: por que me sinto uma impostora ao falar de ciência, mas me sinto confiante fazendo divulgação de ciência? E aí começa minha autoanálise. A carreira de uma cientista é muito excitante, a gente faz o que ama, vai a campo, coleta dado, analisa dado, se anima quando lê algo interessante e se anima mais ainda quando finalmente consegue publicar nossos resultados, ou quando a gente passa num tão sonhado concurso. Mas tem muita frustração também, como, por exemplo, quando a gente não consegue ir num cruzeiro importante, quando o equipamento quebra bem na hora da sua amostragem, quando um revisor esquece as boas maneiras e te envia uma crítica ríspida e degradante sobre o seu trabalho, quando suas propostas e publicações são rejeitadas, entre vários outros possíveis percalços. Além disso, a trajetória até o tão sonhado emprego estável é realmente longa e cheia de dúvidas e incertezas. E agora que completo mais de 5 anos nesse tão sonhado emprego de pesquisadora/professora, com quase 40 anos de vida, percebo um misto de emoções difícil de compreender. Por isso, escrevo esse texto, como forma de terapia mesmo. Quem nunca? rsrsrsr Eu ainda amo o que faço e me sinto realizada em muitos aspectos. Me sinto confortável financeiramente, afinal, nunca sonhei em ser rica. Mas tudo o que faço está sob pressão e sob regulamentação. A cada dois anos eu tenho que fazer um super relatório, dizendo tudo o que fiz e comprovando com documentos cada aula que dei, se fui bem avaliada pelos alunos, cada evento do qual participei ou organizei, cada artigo que publiquei, cada discente que orientei, de quantas comissões participei, se fiz atividades de extensão etc. Enfim, cada passo dado precisa ser registrado e pontuado, literalmente, para que uma comissão analise e decida se estou apta a conseguir aprovação no meu estágio probatório ou um minúsculo aumento no meu salário. Você pode estar pensando que tudo bem, o servidor público precisa ser constantemente avaliado mesmo e eu compreendo isso. Mas esse patrulhamento, entre outras coisas, também traz consequências mais sutis e difíceis de mensurar. Relatarei a seguir algumas das minhas impressões/inseguranças sobre o que é ser uma professora universitária no Brasil: Se eu não publicar artigos em revistas qualis A (que são aquelas mais bem classificadas) todos os anos serei vista como pouco inteligente, preguiçosa, desorganizada ou até mesmo mal relacionada, incapaz de constituir redes profissionais. Se eu for uma professora muito rigorosa, seria vista como carrasca, mas se eu for pouco rigorosa, serei vista como alguém que não se importa. Se meus alunos fazem uma má avaliação sobre mim, não importa quais sejam os motivos, serei mal vista pelos coordenadores dos cursos. Se eu não me envolver com extensão, serei vista como a egocêntrica que não se importa com a sociedade. Mas se me envolvo com extensão, sou vista como aquela que “tem tempo sobrando”. Se eu não me envolver em 43559584848 atividades burocráticas eu serei vista como uma folgada. Mas se eu me envolver em atividades burocráticas e pisar na bola, não serei perdoada. Eu percebo claramente que há vários empecilhos para o desenvolvimento de um trabalho pleno nas universidades brasileiras, especialmente uma tão nova como a minha. Por exemplo, a falta de estrutura dos laboratórios, falta de apoio administrativo, capacitações ao trabalho como docente (tendo tempo pra isso), e até mesmo discentes que não receberam um preparo adequado em seu ensino médio etc. Mas mesmo assim, é muito difícil não personalizar os fracassos. Talvez isso seja um reflexo do sentimento de culpa que nossa cultura essencialmente cristã nos deixou de presente. Ou talvez, e mais provávelmente, é que de fato o ambiente acadêmico é muito hostil e recheado de julgamentos. Nós nos julgamos constantemente, da mesma forma que uma influencer fitness faz com que outras mulheres se sintam fora do padrão. Quando comparamos nossos currículos com os de outros colegas, a gente sempre se sente “fora do padrão”. Nessa onda, a gente não apenas se compara, como se agride, ainda que não com palavras, mas com omissão, quando ouvimos comentários excessivamente críticos dirigidos a outros colegas. Outra reflexão importante, é que essa insegurança, tão comum em cientistas, não se reflete em incompetência ou na falta de habilidades para liderança. A pergunta que interessa é por que nos sentimos inseguras mesmo após anos de treinamento na carreira científica? Possíveis respostas podem incluir a falta de confiança das outras pessoas sobre nosso desempenho. Orientadores, chefes de laboratório e até mesmo colegas frequentemente questionam e testam suas habilidades se você for mulher, verificam nossos cálculos ou nossos programas, não nos atribuem tarefas de maior responsabilidade porque não vamos “dar conta”, assumem que iremos desistir da carreira se quisermos ser mães ou se decidimos nos casar e a lista segue infinitamente. Por outro lado, no meu mundo da divulgação científica, onde trabalho essencialmente com outras mulheres, percebo que somos mais amáveis umas com as outras e mais compreensivas com eventuais percalços. Em abril de 2021, o Bate-Papo com Netuno completa 6 anos de existência e vejo o quanto trabalhar com essa equipe me fez crescer como pessoa. Por isso talvez, de forma (in)consciente, tenho colaborado cada vez mais com outras mulheres na área científica também. Quem sabe um dia, quando tivermos mais diversidade nas universidades, possamos ter um ambiente de trabalho mais leve, onde sejamos todos e todas mais gentis, especialmente com nós mesmas. Para saber mais: https://www.blogs.unicamp.br/cienciapelosolhosdelas/2018/07/27/sindrome-do-impostor-ja-ouviu-falar/ https://jornal.usp.br/atualidades/sindrome-do-impostor-pode-prejudicar-desempenho-profissional/ https://www.sciencemag.org/careers/2008/02/no-youre-not-impostor Stop Telling Women They Have Imposter Syndrome #MulheresNaCiência #SíndromeDoImpostor #BurnOut #Academia #Pressão #Insegurança #Confiança #Cobrança #Expectativas #CatarinaRMarcolin

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