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  • Mulheres em posição de liderança

    Por Anônima Ilustração de Caia Colla Desde os trabalhos e projetos que fiz durante a escola, sempre estive em posições de liderança. Sempre tive essa vocação para liderar grupos e gosto muito disso. Sou uma mulher de palavras claras e diretas. Não gosto de contornos, apesar de muitas vezes precisar dar voltas para não me entenderem errado. Afinal de contas, um homem assertivo é considerado um homem decidido, mas uma mulher assertiva é considerada uma mulher mal educada, dura ou “de gênio forte”. Você já viu um homem sendo acusado de ser duro, mesmo sendo? Há algum tempo, tive meu primeiro cargo formal em posição de liderança, que foi como presidenta do Diretório Acadêmico do meu curso, e, mais recentemente, presidenta da comissão organizadora de um evento nacional. Com isso, vieram muitas coisas boas, pois tive espaço para colocar minhas ideias em prática com a ajuda de pessoas maravilhosas na equipe. Porém, infelizmente nem tudo são flores, e passei a receber comentários maldosos, mas não me dava conta do porquê… Até que, certo dia, escutando o episódio 186 O lobby do batom vermelho e a geração da desesperança do podcast “Bom dia, Obvious”, me vieram flashes de que nas gestões passadas do Diretório Acadêmico pouco se fazia, e nunca ninguém disse nada. Por quê? Porque todas foram lideradas por homens! Eu fui a primeira mulher a assumir o cargo em muito tempo. E, como é de costume em uma sociedade patriarcal, uma mulher em posição de liderança é um alvo muito fácil. Estava aí o porquê das críticas tão pesadas às minhas ações. Durante o podcast, é falado que a política é uma máquina de moer mulheres. Com isso, afirmo que não só a política tradicional, mas qualquer cargo de liderança é uma máquina de moer mulheres. Para observar isso, basta relembrar como se deu o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, que sofreu inúmeros ataques misóginos. Ou, ainda, o discurso de renúncia ao cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, alegando “não ter mais combustível no tanque”. Há uma distância imensa no julgamento recebido por homens e mulheres em um mesmo ato. Muitas vezes a mulher comete um ato BEM menor e é massacrada. Quando olhamos para a realidade da academia vemos situações similares. Depois que você se dá conta do problema, passa a perceber que ele é recorrente. Presenciei uma ocasião em que dois professores (uma mulher e um homem) demitiram os alunos de seus cargos de um projeto. Mas adivinhem quem foi a louca e grossa? O professor homem é que não foi! Como abordado em outro texto do Bate-Papo com Netuno, quantas mulheres estão em cargos de lideranças de projetos? E quantas podem agir como os homens e pedir para que seus alunos façam uma apresentação para ela sem que sejam chamadas de incapazes? Outro ponto é perceber que, para ser respeitada, uma mulher precisa estar bem vestida, caso contrário, logo pensam: “mas como assim ela é a minha chefe?”. Você precisa se montar toda, passar maquiagem, colocar uma roupa bem formal (e só vale ser abaixo do joelho, hein!!). Enquanto isso, os homens desfilam de shorts, chinelo e blusas folgadas pela universidade, trabalho e congressos. Ouvi uma vez de uma mulher que ocupava uma posição de liderança na área de computação que ela se vestia bem e usava salto alto não porque gostava, mas porque percebeu que assim ela era mais respeitada. Ser mulher em um cargo de liderança é solitário, apesar de ter boas pessoas com você. Não se pode deslizar, pois, por menor que seja, isso será motivo para duvidarem da sua capacidade e da sua índole. O tempo todo temos que provar a nossa capacidade; ser mulher é não ter um minuto sequer de descanso. #MulheresNaCiência #Liderança #Gênero #Misoginia #Anônima

  • Menos a Luiza, que está na Antártica

    O que a integrante do Bate-Papo com Netuno foi fazer na Antártica? Por Luiza Soares Ilustração de Alexya Queiroz Com o risco de cair na generalização, ouso afirmar que a Antártica vive no imaginário de todo oceanógrafo. Desde o início da graduação, seja nas disciplinas, nas histórias dos professores ou mesmo de colegas, ouvimos falar do continente antártico quase como algo mítico. Essas aulas, histórias e ensinamentos foram criando em mim um desejo profundo de, um dia, independente do meio (seja pela pesquisa, turismo ou tal qual uma grande aventureira que sai velejando por aí), conhecer a Antártica. Um sentimento estranho, mais para uma utopia do que uma grande meta de vida, mas que, de alguma forma, moveu-me a realizá-lo. E realizá-lo só foi possível pela confiança creditada a mim pela minha orientadora, a Profª Camila Negrão Signori, que, inclusive, já relatou ao Bate Papo com Netuno sua experiência de mergulhar em mar profundo por meio do submersível Alvin. No meu mestrado, depois de algumas mudanças, decidi trabalhar com amostras já existentes de micro-organismos antárticos. As amostras foram procedentes de embarques polares realizados pela minha orientadora através do Projeto Ecopelagos coordenado pelo Prof.º Dr.º Eduardo Secchi da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e financiado pela CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. O projeto é desenvolvido no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) e tem como objetivo o estudo integrado dos diversos compartimentos da biota marinha, desde as bactérias até os grandes mamíferos, e o efeito das mudanças climáticas sobre eles. Mais especificamente, minha pesquisa de mestrado dentro deste projeto se propõe a investigar a diversidade (quem) e inferência metabólica (o que fazem) da estrutura das comunidades microbianas (bactérias e arqueias) na região da Península Antártica Ocidental no verão austral de 2016 e determinar os principais fatores ambientais que as influenciam. Uma vez inserida no PROANTAR por meio de um projeto de pesquisa, as chances de ir para Antártica sobem de 1% para 50%. Meio caminho andado. Mas ainda faltavam os outros 50% mais importantes: uma vaga disponível para a expedição Antártica e a possibilidade do convite. E, depois de muito tentar controlar as (já altíssimas) expectativas, foi o que aconteceu. A partir daí, começou minha jornada na Operação Antártica XLI. Minha função embarcada foi coletar água superficial e profunda, por meio de garrafas acopladas em uma Rosette, de diversas estações oceanográficas pré-estabelecidas, e filtrá-la para que toda a microbiota ficasse retida em filtros específicos que depois seriam analisados em laboratórios. Mas eu já vou chegar lá. Antes, para que eu estivesse apta a embarcar nesta expedição, passei (com dezenas de pesquisadores que também tinham a possibilidade de ir para a Antártica) pelo Treinamento Pré-Antártico (TPA) da Marinha do Brasil, responsável por toda a logística do PROANTAR, na Ilha de Marambaia – Rio de Janeiro. Durante uma semana, passamos por testes de aptidão física e também por palestras sobre o continente austral ministradas por diversos profissionais, desde médicos a geopolíticos. Uma vez aprovada, comecei a preparação do material que deveria ser embarcado para suprir todas as necessidades metodológicas da pesquisa. No meu caso: bomba peristáltica (para filtrar a água coletada), filtros, luvas, água destilada... Este material é despachado meses antes da expedição começar e esse planejamento é um belo exercício mental ao tentar prever o imprevisível para que, naquelas caixas, meses depois, eu encontre a solução de qualquer problema que possa surgir, seguindo a máxima de que em alto mar “quem tem um, não tem nenhum”. Foto 1. Crachá de identificação do pesquisador e projeto do Treinamento Pré-Antártico. (Foto de Luiza Soares) Depois do material, tem o checklist dos exames médicos. Além do treinamento de aptidão física, temos que comprovar que estamos com a saúde ótima. Afinal, são 30 dias de embarque em um continente com condições extremas de frio e vento. Mesmo que tenhamos um médico e um dentista a bordo à disposição da tripulação, a ideia é que não precisemos fazer uso de seus serviços. Sendo assim, os exames incluem hemograma, teste de esforço, audiometria, eletrocardiograma e, claro, vacinação em dia. Documentação check, chega a hora de partir. Foto 2. Luiza Soares prestar a embarcar na aeronave KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB). (Foto de Luiza Soares) Devo dizer que a ida até a Antártica já é uma viagem à parte. O roteiro incluiu São Paulo – Rio de Janeiro (em pleno carnaval!), onde encontrei, pela primeira vez, parte da equipe de pesquisadores para embarcarmos na aeronave KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB) rumo a Pelotas, no Rio Grande do Sul. Chegando em Pelotas, experimentamos o vestuário específico emprestado pela Marinha para aguentar as baixas temperaturas do continente gelado e suas rajadas de vento e chuva. De lá, partimos para Punta Arenas, no Chile, uma cidade portuária onde o Navio Polar Almirante Maximiano fica atracado para receber as equipes científicas. Após passar pelos belíssimos canais chilenos, começamos a travessia no Mar de Drake, o mais temido de todo o globo por causa das suas fortes correntes. Foto 3. Foto de foto a equeipe científica reunida em frente ao Navio Polar Almirante Maximiano. (Foto de Elisa Seyboth) Para mim, que nos primeiros anos cursando oceanografia passava mal nas aulas práticas mesmo com a embarcação parada, atravessar o Drake sem grandes enjoos foi a constatação de uma baita evolução (claro que eu estava com meu estoque de remédios a postos!). Além disso, pegamos um tempo calmo durante os três dias de navegação até chegarmos na Península Antártica, onde iniciamos, finalmente, os nossos trabalhos. Chegar na Antártica, depois de meses de preparação e anos de sonho, beirou o surreal. A paisagem que encontrei foi uma prévia do que veria ao longo da expedição. Mar agitado, volumoso, parecia denso de tão escuro em contraste com a espuma branca da crista das ondas gerada pelo atrito com os ventos fortes. O céu, em oposição, era de um branco intenso e sua brancura se confundia com os cumes nevados dos glaciares. Era preciso olhar duas vezes para distinguir onde terminava o cume e começavam as nuvens. Ventos tão fortes que poderiam me arrastar, causavam uma sensação térmica muito mais baixa do que realmente estava. Foto 4. Uma das paisagens antárticas sob o céu nublado. (Foto de Luiza Soares) Nessas condições, o trabalho foi dividido em turnos: diurno e noturno. Eu fiquei com o turno noturno, trabalhando das 19h às 7h. Como o embarque ocorreu no final de verão, as noites antárticas estavam se prolongando cada vez mais, escurecendo por volta das 21h e amanhecendo por volta das 6h. Esses finais de tarde e inícios de manhã eram lindos de apreciar! Costumava passar longos minutos entre as estações de coletas e filtrações contemplando a paisagem. Nesses momentos, quase meditativos, observando os primeiros raios de sol aparecerem e tingirem o mar escuro de azul, o céu de roxo e os glaciares de branco brilhante, quando o vento, embalando as ondas numa dança, convidava as aves a se juntarem, o cansaço batia, mas a sensação de estar exatamente onde eu deveria (e queria) estar era grande. Eu esperava ansiosamente por esses momentos, queria gravar todos os detalhes do que estava vendo e vivenciando, recapitulava todos os passos que me fizeram chegar até ali. Foto 5. Paisagem vista da proa do navio Navio Polar Almirante Maximiano para a Baía do Almirantado. Dia ensoladorado e de mar calmo. (Foto de Luiza Soares) Durante as longas noites de trabalho, onde todos ficavam a postos e atentos, era também quando aconteciam as maiores interações entre as equipes de projeto. Cada qual com seu repertório pessoal e profissional, sempre era uma ótima oportunidade para trocar experiências de vida, conhecer melhor os colegas de trabalho e, claro, ouvir as empolgantes discussões científicas. Embarques científicos são ambientes muito ricos de aprendizagem. Estar em contato com profissionais de diversas áreas, e que, direta e indiretamente, se relacionam com meu tema de pesquisa, fez com que eu expandisse minhas referências sobre o assunto. Para um pesquisador, essa é a melhor coisa que pode acontecer. E, com a convivência, as discussões inicialmente profissionais, acabam abrindo brechas para o surgimento de grandes amizades ao longo dos dias. O fato é que, muitas vezes, a fragilidade pode bater: cansaço, rotina intensa de trabalho, sono desregulado, saudades de casa… Nesses momentos, as amizades que foram construídas ali foram essenciais para fazer a experiência mais leve e completa. Ao final da expedição, tivemos a oportunidade de conhecer a Estação Antártica Comandante Ferraz. Descer para o continente (na verdade, ilha, pois a Estação fica na Ilha Rei George), depois de 20 dias embarcada, navegando pela Península Antártica, foi um presente de encerramento. Em terra, a paisagem muda completamente. Pudemos ver pinguins de perto, musgos de até 600 anos, a ossada de baleia montada por Jacques Cousteau, praia de cascalhos de origem vulcânica, e até pude experimentar o “sabor” de um gelo antártico. A nova Estação, reformada e inaugurada em 2020, conta com 14 laboratórios para atender diferentes especialidades e exigências científicas. É impactante a estrutura construída e pensada para apoiar o avanço do Brasil nas pesquisas Antárticas. Foto 6. Luiza Soares em frente a Estação Antártica Comandante Ferraz localizada na Baía do Almirantado. (Foto de Luiza Soares) Foto 7. Ossada de baleia montada por Jacques Cousteau localizada nas dependências da Estação Antártica Comandante Ferraz sobre um manto de musgos. (Foto de Luiza Soares) Após a visita, ainda tivemos um longo percurso de volta e, retornar pra casa depois de uma viagem que teve início no Treinamento pré-Antártico, meses atrás, e fim na Estação de Apoio no Rio de Janeiro, foi um mix de sentimentos. Aquela vontade de querer voltar para rotina e aconchego da minha casa ao mesmo tempo que queria ficar presa naquela vivência. Durante e depois do embarque, talvez eu tenha ficado com mais dúvidas do que respostas, mas com o desejo de um dia, quem sabe, ter outra oportunidade de voltar para este continente ao mesmo tempo hostil e maravilhoso. Pisei em terra com o coração tranquilo de que o trabalho foi concluído com sucesso: foram mais de 80 amostras coletadas em diversas estações oceanográficas prontas para serem analisadas! O meu desenvolvimento pessoal e profissional é mais difícil de quantificar, mas de uma coisa tenho certeza: não voltei a mesma. #VidaDeCientista #Antártica #LuizaSoares #Microbiologia #Embarque #MardeDrake #EACF

  • Mulheres na Conservação: da necessidade à sensibilidade

    Comemorando os 8 anos do Bate-Papo com Netuno, organizamos a exibição do documentário Mulheres na Conservação no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) no dia 19 de abril de 2023, em uma parceria com o Centro Acadêmico Panthalassa e o Coletivo Feminino Tethys. O evento contou com a presença dos produtores do documentário, Paulina Chamorro e Sylvio Rocha, além de outros membros da equipe, como Camilo Carrara, responsável pela trilha sonora. O documentário, que teve sua pré-estreia no Dia Internacional da Mulher, traz as histórias de sete mulheres que lutam pela conservação de diferentes biomas brasileiros. O documentário foi além, trazendo de uma forma muito sensível e apaixonante a trajetória de cada uma delas! É impossível não se emocionar! Após a exibição, realizamos uma roda de conversa importante e sensível sobre o tema com a participação da Paulina Chamorro, jornalista, ativista ambiental e produtora do documentário; da Profa. Dra. June Ferraz Dias, docente do IOUSP; da Dra. Cláudia Namiki, editora do Bate-Papo com Netuno e professora recém-aprovada do IOUSP; e da Dra. Natasha Travenisk Hoff, pós-doutora no IOUSP e editora do Bate-Papo com Netuno. Esta foi uma das primeiras exibições deste documentário incrível, sensível e necessário, que segue sendo exibido nas diferentes regiões do Brasil! Quem quiser, pode acompanhar as atividades envolvendo o documentário “Mulheres na Conservação” pelo Brasil através da página no instagram Mulheres na Conservação! Camilo Carrara, responsável pela trilha sonora do documentário; Claudia Namiki, editora do Bate-Papo com Netuno e docente do IOUSP; Sylvio Rocha e Paulina Chamorro, produtores do documentário; Natasha T. Hoff, pós-doutora no IOUSP, editora do Bate-Papo com Netuno e organizadora do evento; June Ferraz Dias, docente do IOUSP; e Carolina Goulart, discente do IOUSP e organizadora do evento. Foto: Kenzo Omaki. Bate-Papo com Netuno representado por nossas editoras Natasha T. Hoff, que participou da organização e moderação do evento, e Claudia A. Namiki, que participou da roda de conversa. Foto: Kenzo Omaki. #NetuniandoPorAí #MulheresNaConservação #ClaudiaANamiki #NatashaTHoff #IOUSP

  • Sorority in marine science

    By Raquel Saraiva English edit by Lidia Paes Leme and Katyanne Shoemaker *post originally published in Portuguese on September 19, 2019 SWMS members tell what it is like to work with a supportive network of female researchers Illustration by Caia Colla. As frequent readers of the blog may already realize, being a scientist is not easy. But what complicates the job even more is to work in a society that values science less and less and where “machismo” is normalized. To be able to advance in research in sometimes inhospitable working conditions, many women seek the support of family members, colleagues, teachers, and mentors for the emotional support they need in the most difficult moments. To understand the importance of this support, we interviewed Ana Paula de Martini de Souza and Bruna Fernanda Sobrinho, members of the Society for Women in Marine Science (SWMS) in Brazil. SWMS brings together scientists from all career levels to discuss women's experiences in marine science and to promote the visibility of women and their work in the academic community. Founded in the United States (USA) in 2014 by a group of women from the Woods Hole Oceanographic Institute (WHOI), SWMS has become an internationally-recognized group, with Brazil starting a chapter in September 2019*. The following is an interview with Ana and Bruna about how they began their research in paleomagnetism and toxic algae, respectively, and how their paths met in the quest for greater recognition of women in science. How did you become marine scientists? (ANA) Ever since I was a little girl visiting the beach, I have been intrigued by the sea. I wanted to know everything that was hidden within those mysterious waters. But I never imagined that I could turn this into a profession, until one day I read in a magazine about the profession of oceanographer and decided that this was what I was going to do. In 2011, I entered the Federal University of Paraná (UFPR), imagining that I would work with marine fauna, until I discovered the field of geological oceanography. Enchanted with the geological processes that shape the planet I started an internship at the Geological Oceanography Laboratory, working with coastal morphodynamics processes. I often joke that the big turning point that made me migrate from biological to geological oceanography was the contamination of my copepod culture and the consequent death of the entire population. So I decided to work with something non-living, like minerals, rocks, and fossils. Pure curiosity brought me to the field of paleomagnetism. Ever since I was a little girl I wanted to know the why of things: how planet Earth evolved over time, why oceans open and close, how and when ocean currents came about and how they evolved over time, and don't even get me started on climate variations! Using rocks as reference material to see into the past, I saw paleomagnetism and paleoenvironmental reconstructions as my opportunity to understand the evolution of our planet. (BRUNA) I don't remember exactly when I chose Oceanography, I think it was around the age of 13. Just imagine: a girl from the countryside of Paraná, more than 700 km (435 miles) from the coast, saying that she wanted to become an oceanographer. Many people didn't understand what I would do or why I chose to do it, and I think that even today some people still don't. At first, I didn't pass the entrance exam for the UFPR, but I passed in the Language course at UNIOESTE and decided to go to college. During my first months in the program, I worked as a Portuguese and English tutor at the school where I studied in high school. Although I loved the work, my eye was not on grammar or literature. I dropped out of that program and went to a preparatory school. I took the entrance exams for both Oceanography and Biology in 2010, and when I passed both, I had no doubts about which one to choose. It was not easy to leave my parents' house at the age of 18, but I guess it is not easy for anyone. I never had any doubts that I wanted to study Oceanography and this certainty was only confirmed during college. Although we oceanographers still have little recognition and few job opportunities, I am very happy with my choice. Completely by chance I started to work in my current research area. I knocked on my current advisor's door, dying of embarrassment, and asked him if he knew anyone who worked with biofuel production. I don't remember why I wanted to work with biofuels at the time. My advisor didn't, but he referred me to someone in another city and said he could help me. I asked to work in the lab to get used to the research routine. And I have been working in his lab for 7 years now! I fell in love with microalgae when a colleague mentioned that "they can produce toxins, but it is not clear why." I really enjoy working with toxic algae and love talking about harmful algal blooms. Just hang out with me for a while and you will get sick of hearing about it. In these 7 years I have done experiments testing growth and toxin production under different environmental conditions, and there are still many questions remaining that I want to answer. The more I know, the more curious I become! And this is the natural cycle in science: the more answers you have, the more questions you have. Have you ever suffered any kind of harassment in the academic environment for being a woman? (ANA) Fortunately I have not suffered harassment in academia for being a woman. But this is just my experience and unfortunately it does not match the reality of many fellow scientists. I have seen and received reports of classmates in situations of harassment for being women, I have seen friends left feeling desolate and wanting to give up their careers because of harassment. I have witnessed professors and administrators stifle accusations of harassment with the justification that pursuing the accusations would only hurt the victims, discouraging them from pursuing their cases. In view of these issues, and acknowledging the varying experiences of other female researchers, we decided to bring SWMS to Brazil. We want to create an open communication channel between women scientists, supporting and encouraging one another in the face of many obstacles. (BRUNA) I personally have never experienced harassment in academia, but I know colleagues who have. I believe that every time a woman is harassed or goes through any embarrassing or uncomfortable situation just for being a woman, somehow all of us are affected too. We know the reality of women inside Brazilian universities: we are still the minority among professors and in administrative positions. And this is just one of the reasons that motivated us to bring SWMS to Brazil. We want to promote greater recognition of our female scientists and unite them more and more! What makes a career as a researcher even more difficult? (ANA) The challenge of making space for ourselves in science. Sometimes it seems that we are like the plankton that cannot win against the current. We have to prove our worth every day. Our voices are not heard, they are muffled. We are discredited not because of our research, but because we are women. We face sexual harassment and bullying, and we are constantly discouraged from pursuing a scientific career. Even more discouraged when we become mothers and need to prove time and time again that motherhood does not make us less capable. (BRUNA) If you are a woman, in addition to the normal difficulties faced by male counterparts, your physical and emotional stability will be questioned and tested with a relatively high frequency. I think that the lack of visibility, the low representation in teaching and administrative positions, and the “machismo” that still exists inside the institutions are just some examples of our difficulties. Women are still the minority among CNPq's productivity fellows, but why? Also, if you are a woman, trivial issues like worrying about wearing too short, too tight or too low-cut clothes on board cruises, or even in everyday life, will be commonplace in your life. If you want to become a mother during your training process, you will have more difficulty ahead of you than an expectant father. And these are just two examples of things that our male colleagues don't have to worry about. Doing science in Brazil, in itself, is already a challenge. It takes love for what you do and a lot of strength and support not to be intimidated by this scenario, which is often hostile. In your career, what has been the greatest difficulty you have faced? (ANA) The biggest struggles in academia in Brazil are related to the country’s continuing detachment to science. The constant cuts in science and education make it very difficult for me and my colleagues to do our research. There is very little money for field trips, laboratories lack materials, there are structural problems in the university buildings, and many times we have to invest our own resources to continue conducting research. I believe that many of us have experienced the problems associated with a lack of funding and investment in research, but we keep going because we believe in the importance of science in society and because we love what we do. (BRUNA) I believe that I am currently facing my biggest challenge yet, and I am still learning how to deal with it. I'm doing my Master's in Botany, which is a different area from my background, and since getting through the selection process until the present moment has been a pure challenge. I asked for a two-month extension of my deadline to defend and I am in the final stages of writing. This is the most tiring part of the job. Although I have been working with microalgae for a while, my project was new to me: I am describing an anomalous bloom of a harmful species that hit the southern coast of Brazil. Although the topic is very interesting and motivates me, it is also very challenging. I have two advisors that help me and spare no effort in revising the work, to make it credible and publishable in a high impact journal. But the result of so many corrections is that I am already exhausted and still have a long way to go. There are days when I produce a lot and days when I can't write a single sentence. On these more difficult days, I try to remember that this is a phase that is ending and I try to make the most of this time to do other things that are not related to my thesis. Whenever necessary I remind myself that my physical and psychological health is much more important than any title – it is very easy to forget this during the process. How does integrating SWMS influence you? (ANA) I was raised and taught by strong and amazing women. Today I am surrounded by exceptional fellow female scientists, but there are still barriers that we need to overcome together to gain our due recognition and, above all, respect. The society itself is a special organization, where we have the opportunity to talk about and learn about the difficulties that other women scientists face around the world, and how they overcome these adversities. It is also a place of support among women who are willing to listen, to welcome, and to help. In Brazil, this SWMS chapter is just starting, but we have the support of the founders of the organization, who are very enthusiastic, and we know that together we can go far. (BRUNA) Although our society chapter has only recently started, being part of this movement has already introduced me to people I didn't know before and brought me closer to some friends. Besides the contact with scientists from different universities in Brazil, we are getting to know scientists from other chapters of the society that are spread across several universities in the USA and Nigeria. Despite the differences we have, we live similar realities, namely, the lack of recognition of women within academia. We are just starting out, but we have great ideas and this is very motivating, both professionally and personally. I feel inspired to know that there are so many of us working towards the same goal: to seek greater visibility for women within the marine sciences. What are your greatest inspirations in science? (ANA) I cite Sylvia Earle and Lisa Tauxe immediately. Sylvia, primarily for her conservation actions around the world, for being the woman in the spotlight when it comes to the health of our oceans, and for her passion and devotion to conservation. Lisa Tauxe for being the great academic reference in my area of research, for being an award-winning and accessible scientist. But most of all, every day I am inspired by female scientist friends who are overcoming obstacles, achieving more and more space in the scientific environment, and above all, supporting other women (like me) to help achieve their goals. (BRUNA) I have a group of fellow scientists, each one inspires me in her own way. Seeing my friends in their daily struggles, with a lot of good humor (sometimes [lol]), knowing that we always find the time to listen to each other, and that we will be there, even if it is to complain together and share a beer (even if at a distance). This really motivates me to "go with the flow" and keep going, because I know I won't be alone. I also had some professors during graduation who always motivated us to "speak up" and always left the door open so that I could go there to tell them any ideas or to have a coffee. When we had the idea of bringing the Society to Brazil, I ran to their room at the Center for Sea Studies (CEM-UFPR) to find out what they thought and if they wanted to join us. They are the kind of teacher I want to be. I could also name a number of other scientists that have done great work or who have had a long career with amazing stories of overcoming adversity, which serve as an inspiration to all. But, on a day-to-day basis, when I feel like throwing in the towel, the ones who inspire and motivate me the most are the ones who walk with me. If you could give advice to Ana and Bruna from ten years ago, what would you say? (ANA) Oh my goodness!!! I get emotional just thinking about it... I would tell her not to be so hard on herself and to learn to rely on her friends and to feel the love of the people around her. I would tell her that stormy seas are on the horizon, but that little by little she will learn to navigate them. I would tell her not to be overwhelmed by the opinions of others, because it has more to do with their problems than with herself. I wish I could help her defend herself in the face of bullying within the academic environment. I wish I could hug her during her anxiety attacks and depression, tell her that she is stronger than she thinks and that better days will come. (BRUNA) The Bruna of ten years ago was 16 years old and preparing to take the entrance exam for Oceanography. I would say to her: "It's OK that you want to be a scientist and take a course that nobody has ever heard of. It won't be easy, but it will be the best choice you could have made. You will meet great people and learn a lot from them. In some way, you will never again be the Bruna you were, and this will make you very happy. So, don't be discouraged and persevere! "And I'll take this opportunity and give a piece of advice for the Bruna of 10 years from now: "Don't forget that at 26 you wanted to make a difference in the reality you were living in and fought for the things you believe in. So don't be complacent in your life and in your own achievements, you still have a lot you can do to contribute." You never know when I will need to go back and read that motivational quote to myself [lol]! Do you want to follow SWMS Brasil initiatives? Follow the profile @swmsbrasil on Instagram and subscribe to the newsletter! For more information, send email to swmsbrasil@gmail.com . *Due to the pandemic, activities within the Brazilian chapter of SWMS they founded have been put on hold. About the interviewees: Ana Paula de Martini de Souza has been part of SWMS since the beginning! "Actually Bruna Fernanda came to me when the Brazilian chapter was just an idea and we started gathering women who we knew would support the movement." She graduated in Oceanography from UFPR, with a dual degree in San Diego from the University of California (UCSD). She completed her Master's in 2020 and began a Doctorate degree, both at inOceanography at the University of São Paulo (USP) . Bruna Fernanda Sobrinho is one of the founders of SWMS Brasil. "We will become an official SWMS chapter in May 2019, but we have already been organizing since September 2018." She has a degree in Oceanography from UFPR and is a Master's student in the Postgraduate Program in Botany - UFPR. #WomenInScience #Interview #Networks #SWMS #ChatRaquelMoreiraSaraiva #CaiaColla

  • Harassment situations among women onboard

    By Catarina Marcolin, Gabriela Lamego, Cláudia Namiki, Carla Elliff, Juliana Leonel, Jana del Favero, Raquel Saraiva English edit by Lidia Paes Leme and Carla Elliff *post originally published in Portuguese on May 28, 2020 Trigger alert. On December 10, 2019, Chat with Neptune launched a campaign on social media to map harassment situations in research vessels. We are immensely thankful to all women that filled out our form and the people that helped spread the word. It was very important to take this initial step so we could begin to understand the reality of women that work onboard or that participate in scientific projects onboard vessels during their careers. Although the results obtained cannot be generalized to the reality of all women working onboard in Brazil, they are important because they generate discussions and raise a flag to the institutions involved (universities, research institutes, private sector, the Brazilian Navy etc.) about the seriousness of the problem. What we will demonstrate here is, for now, the tip of the iceberg, but it highlights the relevance of the issue and the urgency for actions to be taken to protect and guarantee the safety of women onboard. The problem Why talk about harassment onboard? A 2012 study by researchers in the United States showed that, in the world of tropical system ecologists, women participate less in field activities than men and more often identify personal security as a primary factor for bringing an assistant to the field with them. Moreover, women also had a greater need to hire other people to take care of their kids when they went to the field, while men, generally, left their children with spouses. This is particularly relevant, because in several areas, scientists who engage in field activities tend to produce more scientific papers and receive more resources for research. Therefore, being in the field is crucial for the full development of their career and to have greater chances to conquer spaces of recognition and power. When we think of the women in marine sciences, fieldwork and various academic activities often take place in a confined way, onboard ships, catamarans and fishing boats, for example. In addition, a significant portion of marine biology, oceanography and geology professionals work onboard ships or oil platforms. In 2016, Chat with Neptune published an interview called “Atenção ao embarcar” (“Caution when going aboard”). In the post, we listened to a female researcher describing unacceptable situations that happened during a research cruise, involving a lot of disrespect and harassment to her and other female researchers, which ended up compromising the quality of the data collected and causing personal and psychological damage. In addition to this post, unpublished stories mobilized us to build a map of the harassments happening on vessels in Brazil. The data We made a form available for 50 days on Chat with Neptune’s social media. We obtained responses from 117 women, of whom 78 (67%) answered that they were harassed while onboard and 71% knew at least one woman that had suffered harassment on a vessel. In 99% of cases, the perpetrator was male. As shown in the graphs below, harassment was reported in all age groups, with the exception of those between 51-60 years old. Most respondents (77%) identified themselves as white, followed by “other” (14%). Black respondents represented less than 1%, which seems to reflect the lack of representativeness of black women both in academia and in the job market of marine sciences. According to data from the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE), 23.5% of white women and 10.5% of black or brown women over the age of 25 years in Brazil had completed higher education in 2016. In addition, although black people represent almost 56% of the Brazilian population, only in 2018 did the number of black and brown students enrolled in public universities surpass 50%. Although the number of respondents is still small, there were proportionally more situations of harassment among women who identified as black. In this group, the report of harassment was 77%, while among women who identified as white harassment affected 66%, for the “other” category it was 69%, and among those who did not want to inform race/ethnicity it was 50%. This difference also seems to reflect the higher levels of violence against black women in our society, which is not only sexist but also racist. Undergraduate students represented 44% of respondents and 62% of them suffered harassment. Graduate students, researchers and research team leaders accounted for 31% of respondents, 89% of whom had been harassed. Women who work as technicians and other occupations onboard corresponded to 25% of respondents and 89% also reported harassment. The aggressors occupied a higher hierarchical position in 44% of the reports, followed by aggressors with a horizontal position (27%) and very few with a lower one (<1%). In 12% of cases, respondents were unable to indicate the difference in hierarchical position of their aggressor. This demonstrates that harassment situations can occur regardless of hierarchical differences between those involved. Figure 1: Profile of respondents. The numbers represent the raw data on the number of women who responded to the form. We received reports of harassment that occurred in expeditions along 11 Brazilian states: Amapá, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Sergipe and São Paulo. Most of the situations reported occurred off the coast of Rio de Janeiro, followed by Bahia and Santa Catarina, where the combined harassment reports represented 75% of the total. These numbers may reflect the greater number of expeditions and studies in the waters adjacent to these states, where there is the highest concentration of oil exploration basins. In several reports, women described more than one situation of harassment, at different moments in their experiences onboard, from moral harassment, intellectual discrediting to physical and sexual harassment and even rape. The specialized literature describes that episodes of violence present themselves progressively, from the most subtle and least visible modalities to the most serious and most easily recognized. Thus, it is possible to state that hardly any type of violence occurs in isolation. Most harassments took place onboard ships, followed by boats. The private sector and the Brazilian Navy were the most aggressive environments for the respondents, with 45% and 37% of all reported harassments, respectively, followed by expeditions led by universities and research institutes (12%). When we consider the proportion of harassment by sector, we obtained 74% in the private sector, 73% in the Navy and 36% in the universities and research institutes. Figure 2: Profile of occurrences. The numbers represent the raw data on the number of women who responded to the form. Sexual harassment corresponded to 31% of the reports, followed by moral harassment (30%) and discrediting physical capacity (> 15%). It is important to note that 12% of women identified more than one type of harassment, while 2 women were unable to identify what type of harassment they had suffered. Harassment situations occurred mainly through words addressed to women (72%), by touch (14%) and through gestures (13%). The most serious situation was a report of rape, which happened to an undergraduate student, aged 21 to 25, on a navy ship, off the coast of Rio de Janeiro. The aggressor was a naval officer. The disclosure of this report was authorized by the respondent: “I was (quite) drunk and I was led by a military man to an unused room, he kissed me, I tried to leave, I said no, but he was stronger. There was an armchair in the room, I was pulled up to it and I can only remember flashes of what was the worst thing that ever happened to me. I think I gave up fighting because of fear and just 'accepted'... I remember asking him to please put a condom on if he had one, but I don't know if he did, and then I remember being completely aimless entering my cabin”. Rape, through violence or serious threat, is a crime that can carry a punishment of 6 to 10 years in prison in Brazil. Even if there is no explicit violence, the practice of any sexual act through fraud or other means that prevents or hinders the victim's free expression of will is also a crime, and can carry a punishment of 2 to 6 years in prison (LAW No. 12,015, OF AUGUST 7, 2009). Figure 3: Types of harassment reported and how they occurred. The numbers represent the raw data on the number of women who responded to the form. We want to highlight the variety of professions of men who were reported as aggressors, such as: undergraduate students, advisors, research team leader, public institution employee, senior researcher, commander, army corporal, officer, immediate, boat master, lieutenant colonel, corporal of the navy, captain, mechanic, diver, sailor, cook, chief of machinery, principal investigator, supervisor, offshore manager, technician and even a security technician, whose function is also to safeguard and watch over the physical integrity of people onboard. In 50% of cases, women reported that the harassment/embarrassment affected their work. Most of them (80%) discussed the matter with someone, but 82% did not make a formal report. Only one of the reported cases had some effect: a group of gathered reports from six women and the harasser lost his position as coordinator, but continued to go aboard with another title. In all other cases, nothing happened or the reporting woman was punished, isolated from the crew or prevented from boarding again. What have we learned and what can we do? From this initial mapping, we note that the victims don't always identify or understand that they were harassed, or that it takes time to understand the seriousness of the situation to which they were subjected. The female body is always a target, which takes on particular characteristics according to age, social class, color and position of power. In addition, several other forms of harassment, which do not necessarily have a sexual connotation, can also have a major impact in the workplace. The reports demonstrate that there is no single profile: harassers can occupy both a leadership position and a subordinate position to women. Therefore, the onboard environment, for teaching and research activities and for the exercise of professional activities, is not a safe place for women. As a consequence of this scenario, harassed women showed dissatisfaction at work, drops in performance and impacts on physical and mental health. Recent studies by Kathryn Clancy and collaborators and by Darius Chan and collaborators show that even more serious effects are observed when the harassers are in a superior position and when the victims are younger, exactly the case of most of our respondents. This type of situation can cause the abandonment of the career, generating a loss of human resources. Studies indicate that, the more diverse teams are, the more efficient they are in solving problems. Furthermore, training professionals to work onboard is an activity that requires financial and time investments. Therefore, by allowing professionals fully capable of exercising their function to go through situations like those reported here, we are also allowing the waste of the investment made so far and, most importantly, the waste of talent. But what can we do in the face of such a scary scenario? We at Chat with Neptune want to hear more people, especially professionals who go aboard on a routine basis. We want to access an even greater number of women considering a diversity of profiles (age, occupation), factoring in racism, considering women who never boarded for fear of suffering harassment situations, the experiences of the LGBTQi + community and also include men in this conversation. We want to know if the small number of formal reports happens because women do not believe that a complaint will take effect, if they fear exposure and stigma after, fear of being reprimanded, of losing their jobs, or of missing the opportunity to go aboard again or if they don't know how to report, or what communication channels to use. It is also important to recognize that the accusation involves reliving the trauma and that the lack of acceptance in the report channels constitutes institutional violence. In addition, to better understand what is happening, we need to promote actions to change this scenario. We are already mobilizing and promoting courses, workshops and conversation circles about harassment onboard, but this needs to be done widely in undergraduate and graduate courses, just as we need to take the discussion to companies in the offshore field and to the Brazilian Navy. We need to work on security measures, strategizing ways to protect one another. We need to promote educational campaigns and develop booklets, explaining what harassment is and what to do when this type of situation occurs. As a community, we must demand that public and private companies, universities and the Brazilian Navy promote a safe environment for women, presenting clear policies to avoid harassment, with routine educational actions and the implementation of welcoming listening channels. But we can only do this by knowing and talking about the problem. We can no longer remain silent. It is important to recognize that Brazil is a signatory to the Convention on the Elimination of All Forms of Discrimination against Women, which took place in New York, on December 18, 1979. According to Decree No. 4,377, of September 13, 2002, in which, among other guarantees, provides the adoption of all appropriate measures to eliminate discrimination against women in the sphere of employment in order to ensure conditions of equality between men and women. Additionally, sexual harassment, defined in the Brazilian penal code as “Constraining someone in order to obtain sexual advantage or favoring, with the agent prevailing in their condition of superiority or inherent exercise of a job, position or function" is a crime, with a prison sentence of one to two years (Law No. 10,224, of May 15, 2001). According to the booklet on moral and sexual harassment at work published by the Brazilian Ministry of Labor in 2009, sexual harassment in the workplace, "consists of embarrassing colleagues by constantly flirting and insinuating to them in order to obtain sexual advantages or favors. This attitude can be clear or subtle; it can be spoken or just as hints; it can be written or made explicit in gestures; it can come as coercion, or when someone promises promotion to the woman, as long as she gives in; or, still, in the form of blackmail”. Feminist author Joice Berth warns us that there is no empowerment at the individual level, if it is not articulated with a change that affects the entire social group to which it belongs. She understands empowerment as an instrument of social welfare, which allows the displacement of the position of subordination through awareness of the place occupied by subjects and collectives in society. It is not possible to have equality and justice as long as behaviors that attack people's integrity are tolerated, excused and, even worse, defended by society. That is why fighting sexual and moral harassment is everyone's duty, including all men who want a healthy work environment. We have no way of knowing how many women gave up working onboard because of stories they’ve heard from their colleagues or even abandoned their careers because of harassing situations they’ve experienced. All of these potentials are being lost, wasted. Not only potential professionals; before that, women are people who deserve to be treated with equality, respect, dignity, humanity. We need to prevent and combat onboard harassment. What are you going to do about it? References Berth, J. O que é empoderamento. Belo Horizonte. Ed. Letramento, 2018 Brasil, Ministério do Trabalho e Emprego. Assédio moral e sexual no trabalho. Brasília, 2010. 44p. Chan et al. 2008. Examining the job-related, psychological, and physical outcomes of workplace sexual harassment: a meta-analytic review. https://doi.org/10.1111/j.1471-6402.2008.00451.x Clancy et al. 2014. Survey of Academic Field Experiences (SAFE): Trainees Report Harassment and Assault. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0102172 IBGE. 2019. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.41. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-porcor-ou-raca.html?=&t=sobre IBGE. 2018. Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.38. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero/20163-estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-no-brasil.html?=&t=o-que-e McGuire et al. 2012. Dramatic Improvements and Persistent Challenges for Women Ecologists. https://doi.org/10.1525/bio.2012.62.2.12. Videos: https://www.facebook.com/watch/?v=1223406171198343 Suggested reading: Assédio Moral e Sexual: previna-se. Fonte: Conselho Nacional do Ministério Público, 2016. Assédio Sexual no Trabalho: Perguntas e Respostas. Fonte: Ministério Público do Trabalho, 2017. Violência Sexual é Crime. Você não está sozinha:Denuncie! Fonte: Ministério Público da Bahia. About the guest author: Gabriela Lamego is a professor at the Professor Milton Santos Institute of Humanities, Arts and Sciences of the Federal University of Bahia (IHAC/UFBA). She is a psychologist with a doctorate in public health and develops teaching and research activities on the themes of violence, gender, communication and health. #NoHarassment #HarassmentIsACrime #MeToo #NoMeansNo #WomenInScience #ChatCatarinaRMarcolin #WomenOnboard #WomenInTheField #Sorority #ChatCláudiaNamiki #ChatCarlaElliff #ChatJanaMDelFavero #ChatJulianaLeonel #ChatRaquelMoreiraSaraiva #Guests #CaiaColla

  • Honey, I’m pregnant!

    By Raquel Moreira Saraiva and Yonara Garcia Edited by Katyanne M. Shoemaker Today we are going to talk about the Super Dad of the animal kingdom, the seahorse! This peculiar organism is considered a Super Dad for a good reason: the males become pregnant! That's it! Seahorses stand out in the animal kingdom because the males are responsible for all parental care after fertilization: they carry the pups during gestation, experience the "birth pangs," and finally give birth! Recent research also shows that seahorse daddies have even more similarities to human mommies than we thought! But before we talk about those peculiarities, let's get to know a little bit about seahorses in general. Seahorses are bony fishes (teleosts) belonging to the genus Hippocampus and the syngnathidae family (Syngnathidae). This family has the unique developmental characteristic of viviparity, where embryonic development occurs within the body (the same as humans), which in this case, is the paternal body. There are more than 50 species of seahorses distributed throughout the world in tropical and temperate regions. Of these, three species occur on the Brazilian coast: Hippocampus reidi, Hippocampus erectus, and Hippocampus patagonicus, present in the marine and estuarine environment. Representatives of the three species of seahorses that occur in Brazil: Hippocampus reidi, Hippocampus erectus, and Hippocampus patagonicus, respectively. Images:  Projeto Hippocampus These fish move vertically through wave movements of their dorsal fins, which vibrate rapidly. This type of vertical locomotion slows them down to the point of being considered one of the slowest fish in the oceans. Seahorses are predators, with a diet based on plankton, crustaceans, and small animals that are sucked through their tubular snout. They are also skillful at camouflaging themselves: if they feel threatened, they can change color and develop skin projections that mimic algae or coral polyps. Additionally, they can become rigid and immobile, fixing themselves on algae and corals through their prehensile tail. But these disguises are not infallible: crabs, some carnivorous fish (e.g. tuna), penguins, sea birds, and even humans predate upon adult seahorses (to learn more about plankton, read our post O que você sabe sobre o plâncton?). Most seahorses are monogamous, so that both the male and the female of a formed pair repel other partners who try to interfere with the relationship. For mating, they perform a type of dance in which they synchronize their movements, turning around one another with interlaced tails. Male pregnancy has interesting implications for the classic sex roles in mating. In most species, males compete for access to females, so it is common to see the evolution of secondary sex characteristics * in males. According to researcher Adam Jones of the University of Texas, in the case of seahorses, females exhibit a competitive behavior that is typically characteristic of males. In addition, males appear "demanding" in relation to the choice of their partners, an attribute commonly observed in females. Now let's get down to business: how can males in this group get pregnant? The male seahorse has a specialized brood pouch where the female places her oocytes (reproductive cells). When it is ready to mate, the male signals the female by filling the pouch with water. The female, in turn, swims and presses against it, placing her ovipositor into a dilated hole in the male's pouch. After the oocytes are transferred, the hole closes, and the male fertilizes them. Thus begins the development of the babies (called fry) inside the body of the male. The gestation period of this group varies greatly, according to the species and the water temperature, and can occur between ten days to six weeks. In tropical regions, seahorses have a gestation period of around 12 days. They reproduce throughout the year, and from the first year of life, a couple is able to produce more than 1000 larvae per gestation. Seahorse giving birth. The challenges of pregnancy are the same for all animals, including ensuring the adequate supply of oxygen and nutrients to the embryos. Recent studies have shown that several animal taxa have overcome these challenges in a similar way. Seahorse embryos, like many other viviparous animals, acquire many nutrients from the vitellus of the mother’s egg, which is equivalent to the egg yolks of chickens. Researcher Dr. Camilla Whittington and colleagues at the School of Biological Sciences, University of Sydney, Australia, have shown in studies published in Molecular Biology and Evolution that additional nutrients, such as calcium and some lipids, are secreted by the fathers from the brood pouch and absorbed by the embryos. In addition, the dad’s pouch also maintains the complex challenges of gas exchange, excreta removal, and providing immunological protection to the young! Pregnancy is accompanied by many morphophysiological adaptations, such as the remodeling of the brood pouch, transport of nutrients and residues, gas exchange, osmoregulation, and immunological protection of embryos. Another curiosity discovered by researchers is that the genetics related to these adaptations are very similar to the genetic expression of the internal reproduction of mammals, reptiles, and other fish. It is surprising that, even in animals with very distant evolutionary histories, the genetic tools for reproduction have developed remarkably similar to each other, even between viviparous aplacental (seahorses) and placental (mammalian) animals (Caspermeyer, 2015; Whittington et al., 2015). Seahorse populations are declining worldwide. In addition to their limited locomotion capacity, the destruction of their habitat and incidental and targeted fisheries have threatened the lives of these fish. There is high demand for live specimens among ornamental fish enthusiests. Dehydrated, they are used as ingredients of homemade and industrialized drugs and as decoration, which leaves them even more vulnerable. The purchase of these fish, even alive, encourages their capture and trade, in addition to contributing to the ecological imbalance. Genetic, physiological, and ecological studies of these animals help not only to understand their biology and the evolutionary steps that led to the inversion in sexual behavior, but also contribute knowledge to the management of these species. The best option is to leave seahorses in their natural habitat, reduce exploitation, and take care of the environments in which they live, including coral reefs and mangroves. This way you can get to know these fish better while helping in their preservation. *secondary characters: characteristics that develop during the sexual maturity of animals, but which, unlike the sexual organs, are not part of the reproductive system. To learn more about the subject: Projeto Hippocampus - Iniciativa do Laboratório de Aquicultura Marinha - LABAQUAC para educação ambiental e estudos de conservação de cavalos-marinhos. www.projetohippocampus.org Caspermeyer, J. Unraveling the Genetic Basis of Seahorse Male Pregnancy Mol Biol Evol (2015) 32 (12): 3278 first published online November 17, 2015 doi:10.1093/molbev/msv238 Jones, AG & Avise, JC. Mating Systems and Sexual Selection in Male-Pregnant Pipefishes and Seahorses: Insights from Microsatellite-Based Studies of Maternity J Hered, 2001. Rosa IL, Oliveira TPR, Osório FM, Moraes LE, Castro ALC, Barros GML & Alves RRN. Fisheries and trade of seahorses in Brazil: historical perspective, current trends, and future directions. Biodivers Conserv, 2011. Silveira, R. B. Dinâmica populacional do cavalo-marinho hippocampus reidi no manguezal de Maracaípe, Ipojuca, Pernambuco, Brasil. (2005). Whittington CM, Griffith OW, Qi W, Thompson MB & Wilson AB. Seahorse brood pouch transcriptome reveals common genes associated with vertebrate pregnancy.Molecular Biology and Evolution, 2015. #marinescience #chatraquelmoreirasaraiva #hippocampus #chatjoanaho #seahorse #chatyonaragarcia #chatkatyannemshoemaker

  • Nudibrânquios, os musos do mar

    Por Licia Sales (com colaboração de Raquel Saraiva) O oceano é cheio de animais visualmente encantadores. Um deles, mesmo de tamanho diminuto, se destaca entre as outras beldades marinhas: os nudibrânquios. Estes são moluscos gastrópodes, popularmente chamados também de lesmas marinhas, embora nem toda lesma marinha seja um nudibrânquio. Devido à beleza de sua coloração, algumas pessoas os descrevem como lesmas marinhas psicodélicas, pois suas cores são fortes, variadas e marcantes. Há também quem os chame de "borboletas do mar*", justamente por causa da variedade de cores que eles apresentam. Embora a coloração exuberante seja sua marca registrada, existem espécies com padrões de cor mais discretos também. Uma pena que eles não sejam capazes de ver sua própria beleza. Suas estruturas fotorreceptoras os permitem perceber somente claro e escuro, não sendo capazes de perceber cores ou imagens. O nudibrânquio Polycera hedgpethi visto de cima, mostrando que eles são bonitos de qualquer ângulo (por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0). O nome científico do grupo ao qual os nudibrânquios pertencem é Nudibranchia, que significa "brânquias nuas". Esse nome faz referência ao fato desses animais terem seus órgãos respiratórios expostos, pois diferente de boa parte dos outros gastrópodes, os nudibrânquios não possuem concha quando adultos. Porém, a concha está presente quando são “bebês” (na fase larval). Mas os nudibrânquios saem de casa cedo para se aventurar. Após passarem por todas as transformações morfológicas que os tornam indivíduos jovens (parecidos com indivíduos adultos, mas ainda não são sexualmente maduros), eles então abandonam a concha, saindo da mesma já como uma lesminha. Acima, larva véliger de nudibrânquio, recém-eclodida (por Licia Sales com licença CC BY SA 4.0). Abaixo, Okenia evelinae desovando sobre um briozoário do qual se alimenta; o “cordão de bolinhas” à esquerda da foto é a desova (cada ponto branco se torna, posteriormente, uma larva como a da foto superior) (por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0). São animais predominantemente marinhos, com distribuição global, ocorrendo desde regiões polares até os trópicos. Habitam desde águas rasas (região entremarés) até o mar profundo. De maneira geral, a maior riqueza e diversidade estão concentradas em águas rasas nos trópicos, principalmente em ambientes recifais. Entretanto, a fauna de mar profundo é ainda pouco conhecida. A maioria das espécies é bem pequena, variando entre 3 mm a 5 cm de comprimento, embora existam exceções, como a “dançarina espanhola”, uma espécie que chega a alcançar 40 cm. Tamanho não é documento! Felimida clenchi sambando na cara da feiúra (à esquerda e foto superior-direita: por Vinicius Queiroz com licença CC BY SA 4.0; foto inferior à direita: por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0) Nudibrânquios são adeptos do amor livre. Eles são hermafroditas simultâneos, ou seja, possuem órgãos reprodutores masculinos e femininos simultaneamente funcionais durante a maior parte de sua vida. Então, basicamente eles podem copular com qualquer indivíduo da mesma espécie com o qual eles encontrem. Em geral eles são bem promíscuos em relação a isso e copulam com diversos parceiros diferentes. Corre aqui, Damares, que tem mais! Algumas espécies apresentam comportamentos e estratégias de cópula bem bizarros. Há uma espécie que possui o pênis “descartável”. Cerca de 20 minutos após o fim da cópula, o pênis do indivíduo se parte, sendo então perdido. Porém, após cerca de um dia, o indivíduo consegue acasalar novamente. Como? O pênis dele é na verdade 3x mais longo do que o que ele expõe durante uma cópula. Então é como se ele tivesse mais duas “cotas reservas” de pênis dentro do corpo. Depois que os três segmentos são descartados, é possível que o pênis cresça novamente, mas não se sabe quanto tempo isso leva. Existe ainda outra espécie de nudibrânquio que ingere partes específicas do corpo do parceiro durante a cópula. O nudibrânquio Phidiana lynceus desfilando beleza (acima, foto por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0 ) e em, digamos, um momento íntimo com seu par (abaixo, foto por Lícia Sales com licença CC BY SA 4.0). Os nudibrânquios desempenham papéis importantes nas cadeias alimentares marinhas, uma vez que geralmente se alimentam de organismos tóxicos que dificilmente são predados por outros animais. Como integrantes do seu cardápio encontram-se esponjas, cnidários, briozoários (um grupo de pequenos invertebrados coloniais), entre outros invertebrados. Porém, costumam ser predadores especializados, com certos grupos de nudibrânquios alimentando-se exclusivamente de esponjas e outros grupos que se alimentam exclusivamente de cnidários, por exemplo. Existem ainda nudibrânquios que se alimentam de outros nudibrânquios ou de desovas destes. Nudibrânquio (Thecacera pennigera, com bolinhas pretas e amarelas) associado ao briozoário do qual se alimenta (Fotos por Alvaro E. Migotto - CEBIMar/USP com licença CC BY SA 4.0). Uma novidade sobre a dieta dos nudibrânquios é que embora eles sempre tenham sido conhecidos por serem carnívoros, mais recentemente, alguns pesquisadores descobriram que existe pelo menos uma espécie microherbívora. Inicialmente acreditava-se que essa espécie predasse briozoários, mas, na verdade, ela se alimenta de algas microscópicas que crescem sobre os briozoários onde ela é geralmente encontrada. Muitas vezes é difícil fazer uma observação direta dos nudibrânquios se alimentando, devido ao seu tamanho comumente diminuto. Então, uma vez que nudibrânquios costumam viver associados ou próximos aos organismos dos quais se alimentam, é comum deduzir que o “substrato” onde o nudibrânquio está, seja também seu alimento. De fato, isso é verdade em muitos casos. Porém, como a descoberta da dieta microherbívora desse nudibrânquio demonstrou, nem sempre isso se aplica. É possível que, futuramente, mais descobertas sejam feitas em relação à dieta desses animais. O corpo mole e aparentemente desprotegido dos nudibrânquios pode passar a impressão de que eles são pobres criaturas indefesas. Não se engane! Eles possuem diversas estratégias de defesa. A coloração está associada a isso. Algumas espécies adquirem a cor das suas presas, ficando assim camufladas sobre as mesmas. Desse modo, passam despercebidas por predadores. Por outro lado, em espécies que apresentam padrões de cores bastante chamativos, essa coloração pode servir como aviso da toxicidade da espécie, o que é chamado de coloração aposemática. Isso também pode ser utilizado por uma espécie não nociva para mimetizar espécies tóxicas. Em ambos os casos, a coloração chamativa pode servir para desestimular o ataque de potenciais predadores. Luz na passarela que lá vem ela... Bornella calcarata e sua cor “cheguei”, dando inveja a qualquer Hot Wheels (por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0) Muitos nudibrânquios são de fato verdadeiras armas químicas! Eles são capazes de incorporar defesas dos invertebrados dos quais se alimentam, e então as utilizam para a sua própria proteção. Por exemplo, o Glaucus atlanticus, que já foi até vítima de fake news, incorpora células urticantes da caravela da qual se alimenta e as armazena no seu corpo para usá-las em sua própria defesa. Outras espécies podem incorporar toxinas de esponjas, briozoários, etc. Algumas espécies de nudibrânquios conseguem até mesmo potencializar a toxicidade das substâncias que incorporam. Outros nudibrânquios ainda apresentam glândulas que secretam substâncias ácidas. Justamente por apresentarem todas essas estratégias de defesa, poucos são os predadores conhecidos de nudibrânquios. Porém, podemos citar como exemplos alguns picnogônidos (artrópodes popularmente conhecidos como “aranhas-do-mar”, embora não sejam aranhas de fato), outros nudibrânquios, um ou outro caramujo e até seres humanos (mesmo não sendo comum). Doris sp. tentando passar despercebido, com sua coloração similar à do seu alimento, a esponja azul ao seu lado (por CLS Sampaio / UFAL com licença CC BY SA 4.0). Devido ainda ao seu arsenal de defesas químicas, os nudibrânquios são muitas vezes objeto de pesquisas em busca de substâncias com potencial farmacêutico, já tendo sido descobertas substâncias com atividades até mesmo anticancerígenas. Desse modo, além de serem donos de uma beleza encantadora, apresentarem estratégias reprodutivas peculiares, serem capazes de predar animais tóxicos e incorporarem suas defesas, os nudibrânquios são ainda fonte de produtos biologicamente ativos. Resumindo, não há como não se fascinar com esses animais! Sugestões de leitura: As cores vivas dos nudibrânquios Borboletas d’água: Belos e mortíferos nudibrânquios (2016) Not all nudibranchs are carnivores (2020) These Sea Slugs Dine While They Do It (2019) Sea Slug Amputates Its Disposable Penis, But Has Two Spares (2013) A summary of the prey of nudibranch molluscs from Cape Arago, Oregon (1998) Sobre Licia: Licia Sales é bióloga, formada pela Universidade Federal da Bahia, mestra e doutora em Zoologia pela Universidade de São Paulo. Soube da existência dos nudibrânquios durante a graduação, enquanto preparava textos educativos sobre gastrópodes. Foi amor “à primeira vista”. Resolveu procurá-los inicialmente nas praias da Bahia, e decidiu que dedicaria sua carreira ao estudo desses animais fantásticos e onde habitam. Desde então, tem pesquisado sobre diferentes aspectos dos nudibrânquios, como anatomia, morfologia funcional, alimentação, desenvolvimento e estratégias reprodutivas. Instagram: @licia_so E-mail: biolicia@gmail.com Lattes: http://lattes.cnpq.br/0425843082406064 *nota das autoras: A Limacina helicina, que pertence a uma ordem de moluscos chamada Pteropoda, também é chamada de borboleta-do-mar, por causa do pé modificado para natação, cujo movimento lembra a batida das asas de uma borboleta. No caso dos nudibrânquios, a analogia às borboletas faz referência à grande variedade de cores que eles apresentam. #nudibranquios #nudibranchia #lesmasmarinhas #lesmamarinha #glaucusatlanticus #glaucus #convidados #raquelmoreirasaraiva #descomplicando

  • Afundamento de navios na Baía de Todos os Santos: turismo submarino ou problema ambiental?

    Por Alice Reis (colaborou: Raquel Saraiva) Como descartar uma embarcação de 71 metros de comprimento e 19 metros de altura? Essas eram as dimensões do ferry boat Agenor Gordilho, que fazia a travessia Salvador - Ilha de Itaparica, na Bahia. No último dia 21, o ferry e o rebocador Vega foram afundados na Baía de Todos os Santos (BTS), a 1,5 km da costa de Salvador (BA). Ambos tinham 45 anos de uso e iam virar sucata, mas foram submergidos a 36 m de profundidade para serem transformados em possível morada para corais e para a criação de um parque de mergulho submarino em ambiente urbano. Segundo as reportagens veiculadas, normas internacionais e da marinha do Brasil foram seguidas para que não houvesse impacto e poluição referente a essa ação. Mas será mesmo que esse processo não oferece riscos? Segundo o governo estadual, foram feitos estudos prévios de localização e de impactos ambientais, com remoção de óleos e combustíveis, além de “peças que oferecessem riscos aos futuros mergulhadores”. Entretanto, nenhum estudo foi disponibilizado! Como não existe regramento administrativo no órgão ambiental da Bahia para licenciar esse tipo de atividade, o processo ocorreu dentro da Secretaria de Administração do Estado (SAEB) junto com a Secretaria de Turismo (Setur). Os estudos ambientais foram enviados para análise ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). Pesquisadores preocupados entraram em contato com o órgão solicitando os dados sobre o afundamento e não obtiveram resposta. Tampouco foi apresentado algum plano de monitoramento da colonização nas embarcações afundadas e entorno (fundo arenoso, muros, marinas e outros naufrágios). Nem plano de monitoramento das atividades econômicas, sociais e educacionais atreladas ao investimento. A falta de transparência sobre estudos emitiram um sinal de alerta para os pesquisadores da região, que antecipam uma série de impactos ambientais associados ao afundamento de navios e criação de recifes artificiais. O ferry boat com 45 anos de uso foi afundado propositalmente na Baía de Todos os Santos. Foto: Camila Souza/GOVBA - CC BY-ND 3.0 BR. A principal preocupação dos pesquisadores é com a bioinvasão. A Baía de Todos os Santos já lida com dois corais invasores, o coral sol e o coral azul, além de outras espécies exóticas. A preocupação é que o navio seja colonizado pelos corais invasores (que naturalmente colonizam mais rápido que os nativos) e o recife artificial sirva de fonte de coral invasor para outros recifes naturais, acelerando o impacto do bioinvasor sobre as espécies nativas. Outro problema é que os recifes artificiais podem atrair os organismos móveis (principalmente peixes) dos recifes naturais (isso é, para que os recifes artificiais fiquem ricos e abundantes, os recifes naturais locais podem perder biodiversidade e pode haver um desequilíbrio ecológico). Além disso, peixes grandes como os meros, que estão ameaçados de extinção, devem ser atraídos para os navios e se tornarão alvo fácil da pesca subaquática. No entanto, nada foi pontuado sobre regras de pesca e fiscalização nos navios afundados e a pesca ilegal de peixes ameaçados de extinção são um problema a ser considerado. O tema deveria ter sido debatido em audiências públicas amplamente divulgadas, inclusive no meio acadêmico, principalmente por se tratar de um tipo de empreendimento que não tem regramento e que os órgãos competentes não têm protocolos para avaliar. A dimensão do impacto também é preocupante. Segundo Fausto Franco, secretário de turismo da Bahia, “quando a ponte entre Salvador e Itaparica ficar pronta, todos os outros ferry boats que hoje fazem a travessia também serão afundados na baía, porque não terão mais serventia”. Esse posicionamento claramente expressa um interesse do Estado em se livrar do problema, que é destinar apropriadamente a sucata dos ferrys e de outras embarcações. No entanto, ignora-se todo o passivo ambiental relacionado ao afundamento dos navios. E quem realmente ganha com isso? Quem vai se beneficiar de um turismo de mergulho submarino que exige equipamento e equipe especializada? Só para termos noção, um simples batismo de mergulho entre 15 e 60 minutos custa entre 100 e 300 reais. Para mergulhar em ferry naufragado, o mergulhador precisará não apenas de um batismo ou curso básico de mergulho, mas de um curso avançado, por causa da profundidade em que se encontra. Logo, se trata de um turismo de elite. Por outro lado, hoje na BTS existem aproximadamente quase 18 naufrágios históricos estudados, aqueles que não foram afundados intencionalmente e que carregam consigo a história não só da Bahia, mas do Brasil. Logo ao lado do Farol da Barra, na área do Parque Marinho, há dois naufrágios, sendo um deles acessível até para o mergulhador de snorkel que chega a nado a partir da praia. Outros pontos na cidade de Salvador também têm naufrágios acessíveis que não recebem a gestão devida. Seria esperado então, que sendo rica em naufrágios históricos e havendo interesse em chamar atenção para o turismo submarino na BTS, o Município, a Secretaria de Turismo e o Governo do Estado, estimulassem a manutenção desses naufrágios e da biodiversidade local, minimizando os impactos já existentes. Por exemplo, fiscalizando lançamentos de âncoras nos naufrágios, criando projetos de educação ambiental para limitar a retirada de pedaços como “lembrança” e investindo no saneamento básico e educação para limitar a poluição marinha. A postura atual tanto com os naufrágios históricos, quanto com os possíveis impactos ambientais causados pelo afundamento de navios, para criação de recifes artificiais, mostra que não há interesse em preservar o patrimônio cultural nem a biodiversidade. No entanto, são estes dois últimos os verdadeiros responsáveis por estimular o turismo na nossa região e, portanto, deveria ser interesse de todos preservá-los. Como disse o professor da Universidade Federal da Bahia, Ronan de Brito “O que é preciso na Baía de Todos os Santos é um grande Projeto Metropolitano, corajoso, que considere todos esses aspectos da cultura e do ambiente e que reanime a economia regional sem a inconsequência de apostar no turismo de elite como única solução salvadora.” Referências Brito, R. R. C. de. 2001. A gestão da Baía de Todos os Santos. Bahia Análise & Dados 11:98–100. Giglio, V. J., J. Adelir-Alves, L. C. Gerhardinger, F. C. Grecco, F. A. Daros, and Á. A. Bertoncini. 2014. Habitat use and abundance of goliath grouper Epinephelus itajara in Brazil: A participative survey. Neotropical Ichthyology 12:803–810. Torres, Rodrigo. Projeto Observabaía – Linha de Pesquisa sobre Patrimônio Cultural Subaquático da Baía de Todos os Santos. Relatório Parcial (Junho 2015 a Abril 2016). Observabaía – Observatório de Riscos e Vulnerabilidades da Baía de Todos os Santos. Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2016. Simon, T., J. C. Joyeux, and H. T. Pinheiro. 2013. Fish assemblages on shipwrecks and natural rocky reefs strongly differ in trophic structure. Marine Environmental Research 90:55–65. Sobre a autora: Alice é doutoranda no programa de Ecologia: Teoria, Aplicação e Valores da Universidade Federal da Bahia e formou-se mestre em Ecologia e Biomonitoramento pela mesma instituição, quando estudou o papel de marismas tropicais como refúgio para caranguejos chama-maré. Desde a graduação, Alice é apaixonada por oceanografia, e logo se vinculou ao Laboratório de Ecologia Bentônica (LEB), onde vem exercendo atividades de pesquisa relacionadas à interação entre organismos bentônicos e ecologia de ambientes estuarinos. #BaiaDeTodosOsSantos #BTS #Afundamento #TurismoSubmarino #Mergulho #RecifeArtificial #Naufrágio #Convidados #CiênciasDoMar

  • Experimentos em animais: um mal necessário

    Por Raquel Saraiva Embora a ciência já tenha conseguido desenvolver métodos alternativos e cientificamente válidos para alguns testes, ainda não é possível substituir o uso de animais em todas as áreas. Testes de toxicidade sistêmica, sensibilização, toxicidade reprodutiva e carcinogenicidade. No mestrado, avaliei os efeitos induzidos pelo envenenamento por jararaca (Bothrops leucurus) sob a pele e nos músculos de ratos com hipo e hipertireoidismo. Não tinha como substituir os animais. E na época nem pensei em substituição. Desde minha iniciação científica, ao longo de quase quatro anos de laboratório, e durante o mestrado, fiz experimentos em ratos. Nesse tempo, em especial durante o mestrado, li muito sobre ética no uso de animais em laboratório e sempre tratei os animais visando minimizar seu sofrimento, dentro do possível em experimentação científica, e respeitando as determinações da legislação que trata do tema. Registros de experimentos em animais datam pelo menos do século IV a.C., na Grécia Antiga. Já as referências ao bem-estar animal mais antigas são do século XIX, com a organização da Sociedade para Prevenção da Crueldade contra Animais (SPCA) em 1822 na Inglaterra. Com a divulgação massiva de informações por meio da internet, a discussão sobre o uso de animais em experimentação ganhou força na última década, assim como a pressão exercida pela sociedade e por ONGs para mitigar essa prática. A expressão mais ampla da ética animal vem sendo a aplicação dos 3Rs (do inglês Replacement, Reduction and Refinement, e em português substituição, redução e refinamento), estabelecidos em 1959 pelo psicólogo William Russell e pelo microbiologista Rex Burch no livro The Principles of Humane Experimental Technique. A aplicação do conhecido conjunto dos 3Rs busca diminuir o número de animais usados em experimentos, minimizar dor e desconforto, e encontrar alternativas para a substituição dos testes in vivo. Nas áreas em que ainda não se tem alternativa, além dos 3Rs, os animais devem ser tratados “dentro da ética, de forma que sejam respeitados como seres vivos que estão contribuindo para o progresso da ciência”, como consta no Manual de Utilização de Animais de 2008, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ). Para garantir isso, antes de começar os trabalhos, submeti meu projeto ao comitê de ética do instituto onde estava locado meu programa de mestrado. Detalhei tipo, dose e vias de administração das drogas que utilizaria, características morfológicas dos animais, esquema de manipulação e modo de anestesia e eutanásia. Regulamentação Qualquer projeto que utilize espécimes vivos de vertebrados deve ser submetido pelo(a) pesquisador(a) responsável à apreciação por um comitê de ética da instituição a qual ele(a) está vinculado(a), como está determinado na Lei nº 11.794, de 2008. Conhecida como Lei Arouca, esse foi o primeiro marco legal que tratou de modo detalhado os experimentos com vertebrados no Brasil, como explicado por Rosa Vasconcelos, coordenadora de assuntos regulatórios da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa). Os projetos são avaliados de acordo com cumprimento dos preceitos éticos e da relevância científica que caracterize a necessidade do uso de animais. É considerado que a proposta fere a ética se, por exemplo, for uma repetição de experimento já consagrado na literatura e sem justificativa plausível. A aprovação pelo comitê é suficiente para garantir a legalidade do uso dos chamados animais convencionais nos projetos, ou seja, camundongos, ratos, coelhos e hamsters, como apresentado no manual da FIOCRUZ e em uma pesquisa de revisão sobre o assunto conduzida por Mariana Guimarães e seus colaboradores. Estas duas publicações também explicam que, no caso de uso de animais vertebrados “não convencionais”, como cães, gatos, aves, peixes (nós até já falamos do Zebrafish aqui), primatas não humanos e animais silvestres de qualquer espécie, é necessário também solicitar uma licença ao Ibama além da aprovação por um comitê de ética. A Instrução Normativa nº 7, de 30 de abril de 2015, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), determina a obtenção prévia de autorização ou licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para coleta de material biológico ou captura. Não há detalhamento sobre como se deve proceder para o caso de experimentos com invertebrados. No entanto, o que observei nos meus anos de pesquisadora é que o tipo de anestésico, ou mesmo seu uso, depende do bom senso do(a) pesquisador(a). Uma análise de mais de 70 mil artigos científicos mostrou que a maioria dos trabalhos não descreve como os invertebrados são obtidos e transportados. As condições de captura e transporte, e o impacto da mudança de ambiente “podem comprometer a qualidade dos resultados da pesquisa” - além de obviamente “ser um descuido com o animal”, diz o estudo de Fischer & Santos, publicado em 2017. Mas não há regulamentação nem orientações nesse sentido. As pesquisadoras Marta Fischer e Juliana Santos (2017) argumentam que a legislação não protege os invertebrados porque foi feita com base dados que mostram que esses animais respondem involuntariamente a danos feitos no seu corpo, como um reflexo. No entanto, as pesquisadoras denotam que em alguns países há exceções: a Suécia inclui todos os invertebrados nas normativas legais, e o Reino Unido e o Canadá passaram a incluir os cefalópodes após aderirem ao Manifesto de Cambridge, que justifica “a existência de receptores para dor em invertebrados como moluscos e artrópodes” como evidência suficiente para incluir esses grupos “na comunidade moral”. Mudança Lembro de todo o cuidado na manipulação dos animais: além de me proteger com sapato fechado, jaleco, cabelo preso e luva, nunca usava perfume, fazia o mínimo de ruído possível, não fazia movimentos bruscos, dentre outras estratégias usadas para minimizar o estresse dos animais. Além da própria ética e empatia imprescindíveis ao lidar com um bicho, a adoção desses cuidados também evita erros nos resultados do trabalho decorrentes do estresse gerado na cobaia, o que pode arruinar a pesquisa. Mesmo nos artigos científicos esse processo precisa ser muito detalhado. Ao longo do mestrado, manipular os animais começou a ficar cada vez mais difícil . Apesar de todo os cuidados tomados e do respeito aos animais, realizar os experimentos foi uma experiência penosa. Foi insuportável voltar ao laboratório para fazer testes adicionais, solicitados pelos revisores do meu trabalho antes da publicação do artigo. Eu chorava muito, ficava muito tempo me acalmando antes de entrar no biotério (local onde os animais são acondicionados antes do experimento). Além disso, fazer a eutanásia era outro sofrimento. Atividades que por tantos anos foram triviais para mim, viraram uma tortura. Acho que isso aconteceu porque... a gente muda! Minha iniciação na meditação, me fez olhar para o mundo de outra forma. Além disso, a própria carreira acadêmica não me trazia mais alegria e com certeza isso influenciou minha ansiedade ao lidar com animais. Só imaginar que nem todos os laboratórios tinham o mesmo cuidado que nós já me deixava nervosa. E até hoje sofro pensando nos animais, tenho pesadelos frequentes e às vezes sinto até falta de ar. Substituição Eu não faria, novamente, trabalhos assim. Nunca. Fiquei tão traumatizada que até escrever sobre o tema não foi fácil. Se acho que teria outro jeito de fazer os estudos que desenvolvi? Não. Acho que os dados conseguidos foram importantes para elucidar algumas questões e, quem sabe, melhorar alguns tratamentos farmacológicos e médicos no futuro. Mas não é uma atividade que quero desenvolver com as minhas mãos. Não virei ativista contra a experimentação em animais porque sei da sua importância e sei, também, que a prática ainda é insubstituível em muitos casos, em especial na fisiologia, farmacologia e patologia. Nos testes de novos medicamentos, os estudos in vivo permitem, por exemplo, observar o surgimento de efeitos colaterais. Ainda que a tecnologia venha avançando a passos largos, ela ainda está longe de assemelhar-se às complexas interações que ocorrem dentro e fora das células, dos tecidos, dos órgãos e dos sistemas dos organismos vivos, como explicado pela pesquisadora Mariana Guimarães e seus colaboradores em 2016. No caso de testes de toxicidade locaizadal, já existem muitas alternativas, embora nem todas sejam fáceis de implementar no Brasil - mas isso é tema para outro post. Testes que, por sua vez, não têm tanta importância do ponto de vista médico, como testes para o desenvolvimento de cosméticos, estão proibidos em alguns países da Europa desde 2009. No Brasil, leis estaduais proíbem esse tipo de teste em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Paraná, Amazonas e Pará. Além disso, a pressão social tem funcionado para estimular as empresas a adotarem outros tipos de experimentos e implementarem uma política de “não testagem em animais” Uma lista atualizada de empresas nacionais que não testam seus produtos em animais pode ser conferida na página da ONG Projeto Esperança Animal. Não acho que algum dia poderemos substituir o uso de cobaias em 100% dos experimentos. Mas torço e acredito em uma convivência mais respeitosa com os animais, com mais discussões sobre ética nesse ramo e também na redução do consumo de carne - porque não acredito que dá pra questionar o uso de animais em laboratório e fechar os olhos na hora de comer um bife, né? Fontes: BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Oswaldo Cruz -FIOCRUZ. Manual de utilização de animais/FIOCRUZ. 1 ed. Rio de Janeiro: CEUA - FIOCRUZ, 2008. Disponível em: http://www.castelo.fiocruz.br/vpplr/comissoes_camaras-tecnicas/Manual_procedimentos.pdf. Acesso em 19 de março de 2020. Fischer, M. L.; Zacarkin Santos, J. (2018). Bem-estar em invertebrados: um parâmetro ético de responsabilidade científica e social da pesquisa? Revista Latinoamericana de Bioética, 18(1), 18-35. Doi: https://doi.org/10.18359/rlbi.2865 Guimaraes, M. V.; Freire, J. E. C.; Menezes, L. M. B.. Utilização de animais em pesquisas: breve revisão da legislação no Brasil. Rev. Bioét., Brasília , v. 24, n. 2, p. 217-224, Aug. 2016 . Available from . access on 21 Mar. 2020. https://doi.org/10.1590/1983-80422016242121. Laquieze L, Lorencini M, Granjeir JM (2015) Alternative methods to animal testing and cosmetic safety: an update on regulations and ethical considerations in Brazil. Appl In Vitro Toxicol 1(4):243–253 Vasconcelos, R. M. de. Conhecendo a Lei Arouca, Lei n° 11.794, de 8 de outubro de 2008, que regula a pesquisa com animais. (2016) In: VASCONCELOS, R. M. de (Ed.). Marcos regulatórios aplicáveis às atividades de pesquisa e desenvolvimento. Brasília, DF: Embrapa, 2016. p. 111-150. Leitura recomendada: Cheluvappa R, Scowen P, Eri R. Ethics of animal research in human disease remediation, its institutional teaching; and alternatives to animal experimentation. Pharmacol Res Perspect. 2017; 5(4). Matéria “‘Uso de animais em experimentos não é opcional’ diz pesquisadora”, por Guilherme Rosa e Juliana Santos Matéria “Lei que proíbe testes em animais em MG é promulgada e entra em vigor”, por Juliana Cipriani Website do Centro Brasileiro para a Validação de Métodos Alternativos #raquelmoreirasaraiva #bioética #comitêdeética #usodeanimais #invivo #vidadecientista

  • Situações de assédio em mulheres embarcadas

    Por Catarina Marcolin, Gabriela Lamego, Cláudia Namiki, Carla Elliff, Juliana Leonel, Jana del Favero, Raquel Saraiva Ilustração: Caia Colla. Alerta de gatilho. No dia 10 de dezembro de 2019, nosso blog lançou uma campanha nas redes sociais para mapear situações de assédio em embarques. Agradecemos imensamente a todas as mulheres que responderam ao nosso formulário e as pessoas que nos ajudaram a divulgá-lo. Foi muito importante dar esse pontapé para começarmos a entender a realidade das mulheres que trabalham embarcadas ou que participaram de algum embarque científico ao longo de sua carreira. Embora os resultados obtidos não possam ser generalizados para a realidade de todas as mulheres embarcadas no Brasil, eles são importantes porque geram discussões e alertas às instituições envolvidas (universidades, institutos de pesquisa, empresas, Marinha do Brasil etc.) sobre a gravidade do problema. O que demonstraremos aqui é, por enquanto, a ponta do iceberg, mas evidencia a relevância desse problema e a urgência para que sejam tomadas medidas de proteção e garantia da segurança das mulheres embarcadas. A problemática Por que falar de assédio em embarques? Um estudo de 2012 realizado por pesquisadores norte-americanos, mostrou que, dentro do universo dos ecólogos de sistemas tropicais, as mulheres participam menos em atividades de campo do que os homens e identificam com mais frequência a segurança pessoal como fator primário para levar um assistente ao campo com elas. Para completar, as mulheres também tinham maior necessidade de contratar outras pessoas para cuidar dos filhos quando iam a campo, enquanto os homens, majoritariamente, deixavam os filhos com suas esposas. Isso é particularmente relevante, porque, em diversas áreas, cientistas que se engajam em atividades de campo tendem a produzir mais artigos e receber mais recursos para pesquisa. Portanto, estar em campo é crucial para o desenvolvimento pleno da carreira e que as mesmas tenham maiores de chances de conquistar espaços de reconhecimento e poder em suas carreiras. Quando pensamos nas cientistas dos mares, muitas vezes os trabalhos de campo e diversas atividades acadêmicas acontecem de modo confinado, a bordo de navios, catamarãs e barcos de pesca, por exemplo. Além disso, uma parte importante de profissionais da biologia marinha, oceanografia e geologia trabalham embarcados(as) em navios ou plataformas de petróleo. Em 2016, o Bate-papo com Netuno publicou uma entrevista chamada Atenção ao embarcar. Neste post, nós ouvimos uma pesquisadora contando sobre situações inadmissíveis que aconteceram durante um cruzeiro de pesquisa, envolvendo muito desrespeito e assédio às pesquisadoras, que acabaram por comprometer a qualidade dos dados coletados, além dos danos pessoais e psicológicos causados. Além desse post, inúmeras histórias não publicadas nos mobilizaram para construir um mapeamento do assédio em embarcações no Brasil. Os dados Nós veiculamos um formulário por 50 dias nas redes sociais do Bate-papo com Netuno e tivemos respostas de 117 mulheres, das quais 78 (67%) responderam que foram assediadas enquanto estavam embarcadas e 71% conheciam pelo menos uma mulher que já havia sofrido assédio. Em 99% dos casos, o agressor foi um homem. Como pode ser visto nos gráficos abaixo, houve relato de assédio em todas as faixas etárias, com exceção daquela entre 51-60 anos. A maioria das respondentes (77%) se auto identificou como branca, seguida por “outra” (14%). As respondentes negras somaram menos de 1%, o que parece refletir a falta de representatividade de mulheres negras tanto na academia como no mercado de trabalho relacionado às ciências do mar. Segundo dados do IBGE, 23,5% das mulheres brancas e 10,4 % das mulheres pretas ou pardas com mais de 25 anos de idade possuíam ensino superior completo em 2016. Além disso, apesar da população negra representar quase 56% da população brasileira, somente em 2018 o número de estudantes negros e pardos matriculados em universidades públicas passou de 50%. Embora o número de respondentes ainda seja pequeno, proporcionalmente houve mais situações de assédio entre as mulheres que se autodeclaram negras. Neste grupo o relato de assédio foi de 77%, enquanto nas mulheres autodeclaradas brancas o assédio foi de 66%, para a categoria “outras” 69% e entre as que não quiseram informar foi de 50%. Essa diferença também parece refletir a maior violência contra as mulheres negras na nossa sociedade, que além de muito machista é racista. As alunas de graduação representaram 44% das respondentes e 62% delas sofreram assédio. Pós-graduandas, pesquisadoras e líderes de equipe de pesquisa corresponderam a 31% das respondentes, das quais 89% sofreram assédio. As mulheres que trabalham como técnicas e outras ocupações corresponderam a 25% das respondentes e 89% delas relataram situações de assédio. Os agressores ocupavam posição hierárquica superior em 44% dos relatos seguido por agressores com posição horizontal (27%) e inferior (<1%). Em 12% dos casos, as respondentes não souberam informar. Isso demonstra que situações de assédio podem ocorrer independente de diferenças hierárquicas entre os envolvidos. Figura 1. Perfil das respondentes. Os números representam os dados brutos de quantidade de mulheres que responderam ao formulário. Recebemos relatos de assédio que ocorreram em embarques realizados em 11 estados brasileiros: Amapá, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo. A maior parte das situações reportadas aconteceu em embarques na costa do Rio de Janeiro, seguido por Bahia e Santa Catarina, onde os relatos de assédio somados representaram 75% do total. Esses números podem refletir o maior número de embarques e estudos nas águas adjacentes a esses estados, onde está a maior concentração de campos de exploração de petróleo. Em vários relatos, as mulheres descreveram mais de uma situação de assédio, em diferentes momentos de suas experiências embarcadas, desde assédio moral, descredibilização intelectual e física até assédio sexual e estupro. A literatura especializada descreve que os episódios de violência se apresentam de forma progressiva, das modalidades mais sutis e menos visíveis para as as mais graves e mais facilmente reconhecidas. Desta forma, é possível afirmar que dificilmente um tipo de violência acontece de forma isolada. A maior parte dos assédios aconteceu a bordo de navios, seguido por barcos. O setor privado e a Marinha do Brasil foram os ambientes mais agressivos para as respondentes, com 45% e 37% de todos os assédios relatados, respectivamente, seguido por Universidades e Institutos de Pesquisa (12%). Quando consideramos a proporção de assédios por setor, obtivemos 74% no setor privado, 73% de assédios na Marinha e 36% nas Universidades e Institutos de Pesquisa. Figura 2. Perfil das ocorrências. Os números representam os dados brutos de quantidade de mulheres que responderam ao formulário. O assédio sexual correspondeu a 31% dos relatos, seguido por assédio moral (30%) e descredibilização da capacidade física (> 15%). Uma informação importante é que 12% das mulheres identificaram mais de um tipo de assédio, enquanto 2 mulheres não souberam identificar que tipo de assédio haviam sofrido. As situações de assédio ocorreram principalmente por meio de palavras dirigidas às mulheres (72%), por toque (14%) e por meio de gestos (13%). A situação mais grave foi um relato de estupro, que aconteceu com uma aluna de graduação, na faixa etária de 21 a 25 anos, num navio da marinha, na costa do Rio de Janeiro. O agressor era um oficial da marinha. A divulgação deste relato foi autorizada pela respondente: “Estava (bastante) alcoolizada e fui conduzida por um militar até uma sala que não era usada, ele me beijou, eu tentei sair, falei que não, mas ele era mais forte. Existia uma poltrona na sala, fui puxada até ela e só lembro de flashes do que foi a pior coisa que já aconteceu. Acho que desisti de lutar por medo e apenas ‘aceitei’... lembro de pedir por favor pra ele colocar camisinha se tivesse, mas não sei se ele o fez, e depois lembro de estar completamente sem rumo entrando no meu camarote.” O estupro, mediante violência ou grave ameaça, é um crime que pode levar a uma pena de 6 a 10 anos de prisão. Mesmo que não haja violência explícita, a prática de qualquer ato sexual mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima também é crime, e pode acarretar em uma pena de 2 a 6 anos de prisão. (LEI Nº 12.015, DE 7 DE AGOSTO DE 2009). Figura 3. Tipos de assédio relatados e como ele ocorreu. Os números representam os dados brutos da quantidade de mulheres que responderam ao formulário. Queremos destacar a variedade de profissões dos homens que foram relatados como agressores, a exemplo de: estudantes de graduação, orientadores, líder de equipe científica, servidores de instituição pública, pesquisador veterano, comandante, cabos, oficiais, imediato, mestre, tenente coronel, cabo da Marinha, capitão, praça, mecânico, mergulhador do navio, marinheiro, cozinheiro, chefe de máquina, chefe científico, suboficial, supervisor, gerente offshore, técnico e até mesmo um técnico de segurança, que tem como função preservar pela integridade física das pessoas embarcadas. Em 50% dos casos, as mulheres relatam que o assédio/constrangimento afetou o trabalho delas. A maioria delas (80%) discutiu o assunto com alguém, mas 82% não denunciou formalmente. Em apenas um dos casos relatados, a denúncia surtiu algum efeito: um grupo de mulheres reuniu relatos de seis mulheres e após a denúncia o assediador perdeu o cargo de coordenador, mas continuou a embarcar com outra função. Nos demais casos, nada aconteceu ou a mulher denunciante foi penalizada, sendo isolada da tripulação ou impedida de embarcar novamente. O que aprendemos e o que podemos fazer? A partir desse mapeamento inicial, notamos que nem sempre a vítima identifica ou entende que foi assediada, ou que demora a compreender a gravidade da situação à qual foi submetida. O corpo da mulher é sempre um alvo, que assume características particulares de acordo com a idade, classe social, cor e posição de poder. Além disso, várias outras formas de assédio, que não necessariamente têm conotação sexual, também podem ter grande impacto no ambiente de trabalho. Os relatos demonstram que não existe um único perfil: os assediadores podem ocupar tanto uma posição de liderança quanto uma posição subordinada às mulheres. Portanto, o ambiente embarcado, tanto para atividades de ensino e pesquisa como para o exercício de atividades profissionais, não é um lugar seguro para as mulheres. Como consequências deste cenário, as mulheres assediadas apresentaram insatisfação no trabalho, queda de performance, impactos na saúde física e mental. Estudos recentes por Kathryn Clancy e colaboradores e por Darius Chan e colaboradores mostram que efeitos ainda mais graves são observados quando o assediador(a) está em posição superior e quando a vítima é mais jovem, exatamente o caso da maioria das nossas respondentes. Esse tipo de situação pode ocasionar o abandono da carreira, gerando uma perda de recursos humanos. Estudos indicam que equipes mais diversas são mais eficientes na resolução de problemas. Além disso, a formação de profissionais para atuação em embarques é uma atividade que demanda investimentos financeiros e de tempo. Portanto, ao permitir que profissionais plenamente capazes de exercer sua função passem por situações como aquelas aqui relatadas, estamos permitindo também o desperdício do investimento feito até ali e, o mais importante, a perda de talentos. Mas o que podemos fazer diante de um cenário tão tenebroso? Nós do Bate-papo com Netuno queremos ouvir mais pessoas, especialmente profissionais que embarcam rotineiramente. Queremos acessar o número ainda maior de mulheres considerando as diversidades nos perfis (idade, ocupação), o fator racismo, as mulheres que nunca embarcaram por receio de sofrerem situações de assédio, as vivências da comunidade LGBTQi+ e também incluir os homens nessa escuta. Queremos saber se o número pequeno de denúncias ocorre porque as mulheres não acreditam que a denúncia terá efeito, se elas temem a exposição e o estigma após a denúncia, medo de represália, de perder o emprego, ou de perder a oportunidade de embarcar novamente ou se elas não sabem como denunciar, nem quais canais de comunicação utilizar. É importante também reconhecer que a denúncia envolve reviver o trauma e que a falta de acolhimento nos canais de denúncia se constitui em uma violência institucional. Além de entender melhor o que está acontecendo, precisamos promover ações para mudar esse cenário. Já estamos nos mobilizando e promovendo cursos, oficinas e rodas de conversa sobre assédio em embarques, mas isso precisa ser realizado de modo amplo nos cursos de graduação e pós-graduação, assim como precisamos levar a discussão para as empresas do ramo offshore e para a Marinha do Brasil. Precisamos trabalhar medidas de segurança, bolando estratégias para protegermos umas às outras. Precisamos promover campanhas educativas e elaborar cartilhas, explicando o que é assédio e o que fazer quando se deparar com este tipo de situação. Enquanto comunidade, devemos exigir que as empresas públicas e privadas, Universidade e Marinha do Brasil promovam um ambiente seguro para as mulheres, apresentando políticas claras para evitar o assédio, com ações educativas rotineiras e implantação de canais de escuta/ouvidoria acolhedores. Mas só podemos fazer isso conhecendo e conversando sobre o problema. Não podemos mais ficar caladas. Importante reconhecer que o Brasil é signatário da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que foi realizada em Nova York, no dia 31 de março de 1981, de acordo com DECRETO Nº 4.377, DE 13 DE SETEMBRO DE 2002, no qual, entre outras garantias, prevê a adoção de todas as medidas apropriadas para eliminar a discriminação contra a mulher na esfera do emprego a fim de assegurar, em condições de igualdade entre homens e mulheres. Além disso, o assédio sexual, definido no código penal brasileiro como “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função" é crime, com pena de detenção de 1 a 2 anos (LEI Nº 10.224, DE 15 DE MAIO DE 2001). De acordo com a cartilha sobre assédio moral e sexual no trabalho publicada pelo Ministério do Trabalho em 2009, o assédio sexual no ambiente de trabalho,"consiste em constranger colegas por meio de cantadas e insinuações constantes com o objetivo de obter vantagens ou favorecimento sexual. Essa atitude pode ser clara ou sutil; pode ser falada ou apenas insinuada; pode ser escrita ou explicitada em gestos; pode vir em forma de coação, quando alguém promete promoção para a mulher, desde que ela ceda; ou, ainda, em forma de chantagem.” A autora feminista Joice Berth alerta que não existe empoderamento no âmbito individual, se o mesmo não estiver articulado com uma mudança que afete todo o grupo social ao qual pertence. Ela entende o empoderamento como um instrumento de luta social, que possibilita o deslocamento da posição de subalternidade mediante a conscientização do lugar ocupado por sujeitos e coletivos na sociedade. Não é possível haver igualdade e justiça enquanto comportamentos que agridam a integridade das pessoas forem tolerados, desculpados e, pior ainda, defendidos pela sociedade. Por isso lutar contra o assédio sexual e moral é um dever de todos, inclusive de todos os homens que desejam um ambiente de trabalho saudável. Não temos como saber quantas mulheres desistiram de participar de um embarque por conta de histórias que ouviram de suas colegas ou abandonaram a carreira por causa de situações de assédio vividas. Todos esses potenciais estão sendo perdidos, desperdiçados. E muito mais do que potenciais profissionais, antes disso, mulheres são pessoas que merecem ser tratadas com igualdade, respeito, dignidade, humanidade. Precisamos prevenir e combater o assédio em embarques. O que você vai fazer a respeito disso? Referências Berth, J. O que é empoderamento. Belo Horizonte. Ed. Letramento, 2018 Brasil, Ministério do Trabalho e Emprego. Assédio moral e sexual no trabalho. Brasília, 2010. 44p. Chan et al. 2008. Examining the job-related, psychological, and physical outcomes of workplace sexual harassment: a meta-analytic review. https://doi.org/10.1111/j.1471-6402.2008.00451.x Clancy et al. 2014. Survey of Academic Field Experiences (SAFE): Trainees Report Harassment and Assault. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0102172 IBGE. 2019. Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.41. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-porcor-ou-raca.html?=&t=sobre IBGE. 2018. Estatísticas de Gênero - Indicadores sociais das mulheres no Brasil. Estudos e Pesquisas-Informação Demográfica e Socioeconômica, n.38. https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero/20163-estatisticas-de-genero-indicadores-sociais-das-mulheres-no-brasil.html?=&t=o-que-e McGuire et al. 2012. Dramatic Improvements and Persistent Challenges for Women Ecologists. https://doi.org/10.1525/bio.2012.62.2.12. Vídeos: https://www.facebook.com/watch/?v=1223406171198343 Sugestões de leitura: Assédio Moral e Sexual: previna-se. Fonte: Conselho Nacional do Ministério Público, 2016. Assédio Sexual no Trabalho: Perguntas e Respostas. Fonte: Ministério Público do Trabalho, 2017. Violência Sexual é Crime. Você não está sozinha:Denuncie! Fonte: Ministério Público da Bahia. Sobre a autora convidada: Gabriela Lamego é docente do IHAC/UFBA, psicóloga com doutorado em saúde pública e desenvolve atividades de ensino e pesquisa sobre as temáticas de violência, gênero, comunicação e saúde. #assédionão #assédioécrime #nãomecalo #nãoénão #mulheresnaciência #catarinarmarcolin #mulheresembarcadas #mulheresemtrabalhodecampo #vamosjuntas #cláudianamiki #carlaelliff #janamdelfavero #julianaleonel #raquelmoreirasaraiva

  • Brasileira decide continuar sua pesquisa na Europa em meio à pandemia Covid-19

    Por Raquel Saraiva Ilustração: Caia Colla A pesquisadora Fiamma Abreu sonhou por anos com uma experiência fora do país. Após uma tentativa frustrada na graduação, conseguiu ir para Portugal no final do doutorado, para terminar sua tese sob orientação de um pesquisador muito reconhecido em sua área. Isso ocorreu em fevereiro deste ano, quando os casos do novo coronavírus surgiam na Europa. “Lembro de chegar numa quinta-feira, e na quarta-feira seguinte já não pude ir à universidade. Realmente não é fácil lidar com o final de um doutorado, um doutorado sanduíche e uma pandemia”. Ainda assim, Fiamma segue no país europeu. Ela trabalha com oceanografia química, especificamente com o risco dos contaminantes orgânicos anti-incrustantes para o ecossistema. “A minha proposta de trabalho é aplicar uma metodologia utilizada na Europa para qualidade dos corpos d'água do Brasil”. Por sorte, o trabalho de campo acabou ainda no Brasil, na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e agora Fiamma precisa tratar os dados já coletados. Rotina O contato com o orientador português foi feito pessoalmente nos únicos três dias que ela foi à Universidade de Aveiro, para onde fez a mobilidade. Hoje é mantido por e-mail e telefone, mesmo ambos estando na mesma cidade. Com os colegas de laboratório, a pesquisadora também troca mensagens. “Todos eles foram bem atenciosos comigo, por ter que lidar com a distância e o rompimento das atividades”. A rotina de Fiamma se divide entre fazer tarefas domésticas, escrever a tese e assistir o noticiário. Dividindo uma casa no centro de Aveiro com outras duas portuguesas que trabalham e estudam na universidade, a diversão fica por conta dos filmes que assiste com as meninas da casa, nos jogos e nas conversas na varanda. Ainda assim, com a falta do contato direto mais amplo ela sente que está perdendo uma parte importante do intercâmbio “Um dos meus objetivos era ver de perto como a ciência é feita em outro país”. Além disso, o valor de uma experiência de pesquisa no exterior não está só no laboratório, como já discutimos em um post. Em todos os países da União Européia há restrições. Os museus, parques, centros culturais, restaurantes e lojas estão fechados em Portugal. Fiamma só sai de casa a cada 15 dias, para ir ao mercado. “A experiência cultural de viver em outro país também poderia me enriquecer muito. Não sei quando terei outra oportunidade assim”, lamenta. Ela iria ainda para um congresso internacional em outro país para apresentar os resultados da sua tese, para conhecer os principais cientistas da área na qual trabalha e ampliar a rede de contatos. “O congresso ainda vai ser realizado virtualmente, mas sei que perderei muito dessas vivências”. Volta A responsabilidade de estar no final no doutorado e a chance única de internacionalizar sua tese fizeram Fiamma nem cogitar a volta para o Brasil, além do desconhecimento sobre o novo coronavírus. “Eu não imaginava a proporção que iria tomar”. Além disso, ela defende a tese em agosto, logo após a previsão de seu retorno. “Quero continuar na ciência e a internacionalização atualmente é fundamental para conseguir um pós-doutorado no Brasil. Então acho que não tive muitas escolhas”. Em meio a esse turbilhão, ao menos ela não teve problemas com o recebimento dos cinco meses de bolsa, referente ao período que pretende ficar em Portugal. As três primeiras mensalidades foram depositadas quando ela ainda estava no Brasil, e as últimas parcelas já foram pagas. Entretanto, o órgão financiador da sua pesquisa não enviou nenhuma orientação em relação à pandemia para estudantes brasileiros que estão no exterior. “A minha bolsa é CNPq, e não foi me enviado nada, nem por e-mail, nem pela Plataforma Carlos Chagas”. Na seção de imprensa no seu site, o órgão divulgou um comunicado respondendo a “dúvidas gerais” dos bolsistas. Na página, é recomendado que o estudante entre em contato com a central de atendimento para que seja avaliada a prorrogação da bolsa por até 60 dias para os casos em que a vigência encerrou, mas o estudante não consegue retornar ao Brasil, ou para aqueles que estão no exterior e, por causa da suspensão das atividades acadêmicas, não conseguirão concluir o doutorado no tempo previsto. Apesar de ter medo de problemas na hora de voltar, Fiamma não pretende pedir a prorrogação. “Eu tento não me preocupar muito com isso no momento porque preciso escrever minha tese. Mas, no fundo, sempre ficam as dúvidas”. Apesar de toda frustração, Fiamma reflete que as dificuldades são parte da vida de quem faz pesquisa. “De um modo geral, ser cientista não é fácil. A gente vem lutando para superar barreiras como falta de visibilidade e de recursos. E por isso cada conquista tem um significado bem maior. No final, nossas conquistas vão ser ainda mais gratificantes. Para o futuro, ela não pensa em outra coisa. “O importante para mim é continuar fazendo ciência”. #vidadecientista #covid19 #coronavirus #pandemia #doutoradonoexterior #raquelmsaraiva

  • Conheça o “verme” marinho que pode revolucionar o tratamento contra a Covid-19 e outras doenças

    Por Raquel Saraiva, com colaboração de Maria Isabel Bastos Ilustração: Joana Ho Em meio à profusão de informações tristes sobre o novo coronavírus, algumas notícias nos enchem de esperança, como as que apontam possíveis curas para a pandemia. No último dia 04, uma chamou ainda mais a atenção das(os) cientistas do mar: na França, foram autorizados testes clínicos usando o sangue de um “verme” marinho em pacientes com Covid-19 o que tem a ver um invertebrado com um vírus? Quem é esse “verme” marinho que a gente mal conhece e já é fã? Primeiro vamos dar nome e sobrenome à criatura! O “verme marinho”, como a imprensa vem chamando, é o poliqueta Arenicola marina, encontrado principalmente na Groenlândia e na costa da Europa Ocidental, na Noruega, Sibéria e Islândia. Bentônico, ele habita zonas de baixa profundidade, na região entremarés de praias arenosas e lamacentas, e dentro de estuários e portos abrigados. Os poliquetas são do mesmo filo que as minhocas (Filo Annelida) e, portanto, de verme não têm nada! Além disso, ostentam um corpo que parece molenguinho, mas na verdade é bem articulado, dividido em segmentos! O Arenicola marina escava o sedimento em um buraco em forma de U, e pode ter uma coloração vermelho escura na sua extremidade mais fina (a cabeça), enquanto a outra mais larga tem cor mais clara, amarelada. Sua região anterior tem 6 segmentos com cerdas, seguidos por 12 segmentos com brânquias externas. São hermafroditas (ou seja, macho e fêmea habitam no mesmo corpo) mas trocam gametas durante a reprodução. O Arenicola marina é um poliqueta bentônico e velho conhecido da área médica (Fonte: Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0 ) Com o comprimento aproximado de uma caneta, entre 11 cm e 20 cm, mas um pouco mais leve (peso médio entre 3 g e 12 g) e tempo de vida de cerca de 6 anos, o Arenicola em questão é antigo conhecido dos estudos na área médica. Além de ser importante bioindicador e muito usado como isca por pescadores de bacalhau nas ilhas britânicas, o sangue do Arenicola tem uma capacidade enorme de carrear oxigênio. Por isso pesquisadores franceses o vêm estudando pelo menos desde o início dos anos 2000. "A hemoglobina do Arenicola marina pode transportar 40 vezes mais oxigênio dos pulmões para os tecidos do que a hemoglobina humana", disse o biólogo Gregory Raymond à agência de notícias France Press (AFP). Além disso, como ela não está contida nas células sanguíneas, como a nossa, essa hemoglobina tem a vantagem de ser compatível com todos os tipos de sangue. Diferente da hemoglobina de outros animais, a do Arenicola não induz uma resposta imune e nem reação alérgica. No último dia 04 de abril, a empresa biofarmacêutica francesa Hemarina anunciou que testes clínicos com a molécula Hemo2life foram validados pela Agência Nacional de Segurança de Medicamentos (ANSM), a ANVISA da França, e o Comitê de Proteção de Pessoas (CPP). Essa molécula é exclusivamente a hemoglobina natural do Arenicola isolada. Inicialmente serão feitos testes em 10 pacientes graves, internados em dois hospitais de Paris. A ideia é utilizar a molécula antes que o paciente precise do respirador, que seria então liberado. Este "respirador molecular", é uma "esperança para aliviar as UTIs", comentou Franck Zal, diretor da Hemarina à AFP. Assim, o novo tratamento ajudaria a resolver um dos problemas mais críticos: o uso de ventiladores mecânicos, necessários para pacientes graves do novo coronavírus conseguirem respirar. Tecnologia que vem do mar A empresa Hemarina investiga o uso da hemoglobina do Arenicola desde 2007. O bichinho de menos de 20 cm já vem ajudando a preservar órgãos para transplante, para pacientes com isquemia e hemorragia e também para melhorar a oxigenação de células em cultura. Além disso, outros estudos vêm avaliando o uso da hemoglobina para melhorar a cicatrização de lesões na pele e no tratamento da periodontite. Para criar tantos produtos, a Hemarina conta com um verdadeiro parque tecnológico. Eles cultivam o Arenicola marina em uma fazenda de 13 hectares que conta ainda com área de tratamento de água e berçário. Como ele se reproduz uma vez por ano, a empresa faz fertilização in vitro para garantir uma produção que atenda às pesquisas e produção da empresa. Quando estão crescidos, esses Arenicola são purificados e toda a areia que os animais ingerem é removida. Depois, os animais são congelados e descongelados: assim é criado um choque hemorrágico e a hemoglobina é liberada, para então ser isolada e purificada. Assim como é recomendada muita cautela e paciência para esperar novos resultados e conclusões científicas para o uso de medicamentos como a cloroquina e o atazanavir, no caso de uma molécula animal, as expectativas têm que ser ainda mais baixas. "A cada poucos anos, um novo [composto] parece promissor, mas falha quando chega a testes clínicos", alertou a cientista da transfusão Lorna Williamson, do Serviço Nacional de Sangue da Grã-Bretanha à revista Science ainda em 2003, quando os primeiros estudos sobre a hemoglobina do Arenicola marina eram publicados. “Mesmo que a molécula se mostre segura e eficaz, pode ser difícil produzir em grandes quantidades”, acrescentou o bioquímico John Olson da Rice University, EUA. Ainda assim, imaginem todo o potencial que a vida marinha possui! São algas, bactérias, esponjas e muitos outros organismos com potencial para biotecnologias. Além disso, quantas moléculas de importância médica permanecem ignoradas da biodiversidade que não conhecemos? E tantas outras que podem contribuir com outras áreas do conhecimento? Ter acesso a esse tipo de informação só é possível se o animal é descrito, estudado e apresentado para a comunidade acadêmica. E não existe outro caminho para isso senão através da pesquisa científica, básica e aplicada. Defender a ciência é também defender a tecnologia, a economia e a saúde de um país. Quantos tratamentos deixam de ser descobertos com os golpes que a ciência brasileira vem levando? O que mais estamos perdendo? Fontes: Blood substitute from worms shows promise (Nature, 04/06/2003) Blow lug (Arenicola marina) (The Marine Life Information Network) Blow Lugworm (British Sea Fishing) Coronavirus. Cette société bretonne veut lutter contre le Covid-19 grâce à du sang de ver marin (Ouest-France, 30/03/2020) Hemarina Products (Hemarina) França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com Covid-19 (AFP, 04/04/2020) França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com covid-19 (UOL Notícias, 04/04/2020) Lugworms, Arenicola marina (Marine Bio) Lugworm (Encyclopædia Britannica, Inc.) #corona #coronavírus #covid19 #poliqueta #bentos #bentônico #arenicola #hemoglobina #biotecnologia #raquelmoreirasaraiva #ciênciasdomar

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