Conheça o “verme” marinho que pode revolucionar o tratamento contra a Covid-19 e outras doenças

Atualizado: Jun 5

Por Raquel Saraiva, com colaboração de Maria Isabel Bastos


Ilustração: Joana Ho


Em meio à profusão de informações tristes sobre o novo coronavírus, algumas notícias nos enchem de esperança, como as que apontam possíveis curas para a pandemia. No último dia 04, uma chamou ainda mais a atenção das(os) cientistas do mar: na França, foram autorizados testes clínicos usando o sangue de um “verme” marinho em pacientes com Covid-19 o que tem a ver um invertebrado com um vírus? Quem é esse “verme” marinho que a gente mal conhece e já é fã?


Primeiro vamos dar nome e sobrenome à criatura! O “verme marinho”, como a imprensa vem chamando, é o poliqueta Arenicola marina, encontrado principalmente na Groenlândia e na costa da Europa Ocidental, na Noruega, Sibéria e Islândia. Bentônico, ele habita zonas de baixa profundidade, na região entremarés de praias arenosas e lamacentas, e dentro de estuários e portos abrigados. Os poliquetas são do mesmo filo que as minhocas (Filo Annelida) e, portanto, de verme não têm nada! Além disso, ostentam um corpo que parece molenguinho, mas na verdade é bem articulado, dividido em segmentos!


O Arenicola marina escava o sedimento em um buraco em forma de U, e pode ter uma coloração vermelho escura na sua extremidade mais fina (a cabeça), enquanto a outra mais larga tem cor mais clara, amarelada. Sua região anterior tem 6 segmentos com cerdas, seguidos por 12 segmentos com brânquias externas. São hermafroditas (ou seja, macho e fêmea habitam no mesmo corpo) mas trocam gametas durante a reprodução.

O Arenicola marina é um poliqueta bentônico e velho conhecido da área médica (Fonte: Wikimedia com licença CC BY-SA 3.0 )


Com o comprimento aproximado de uma caneta, entre 11 cm e 20 cm, mas um pouco mais leve (peso médio entre 3 g e 12 g) e tempo de vida de cerca de 6 anos, o Arenicola em questão é antigo conhecido dos estudos na área médica. Além de ser importante bioindicador e muito usado como isca por pescadores de bacalhau nas ilhas britânicas, o sangue do Arenicola tem uma capacidade enorme de carrear oxigênio. Por isso pesquisadores franceses o vêm estudando pelo menos desde o início dos anos 2000.


"A hemoglobina do Arenicola marina pode transportar 40 vezes mais oxigênio dos pulmões para os tecidos do que a hemoglobina humana", disse o biólogo Gregory Raymond à agência de notícias France Press (AFP). Além disso, como ela não está contida nas células sanguíneas, como a nossa, essa hemoglobina tem a vantagem de ser compatível com todos os tipos de sangue.


Diferente da hemoglobina de outros animais, a do Arenicola não induz uma resposta imune e nem reação alérgica. No último dia 04 de abril, a empresa biofarmacêutica francesa Hemarina anunciou que testes clínicos com a molécula Hemo2life foram validados pela Agência Nacional de Segurança de Medicamentos (ANSM), a ANVISA da França, e o Comitê de Proteção de Pessoas (CPP). Essa molécula é exclusivamente a hemoglobina natural do Arenicola isolada.


Inicialmente serão feitos testes em 10 pacientes graves, internados em dois hospitais de Paris. A ideia é utilizar a molécula antes que o paciente precise do respirador, que seria então liberado. Este "respirador molecular", é uma "esperança para aliviar as UTIs", comentou Franck Zal, diretor da Hemarina à AFP. Assim, o novo tratamento ajudaria a resolver um dos problemas mais críticos: o uso de ventiladores mecânicos, necessários para pacientes graves do novo coronavírus conseguirem respirar.


Tecnologia que vem do mar


A empresa Hemarina investiga o uso da hemoglobina do Arenicola desde 2007. O bichinho de menos de 20 cm já vem ajudando a preservar órgãos para transplante, para pacientes com isquemia e hemorragia e também para melhorar a oxigenação de células em cultura. Além disso, outros estudos vêm avaliando o uso da hemoglobina para melhorar a cicatrização de lesões na pele e no tratamento da periodontite.


Para criar tantos produtos, a Hemarina conta com um verdadeiro parque tecnológico. Eles cultivam o Arenicola marina em uma fazenda de 13 hectares que conta ainda com área de tratamento de água e berçário. Como ele se reproduz uma vez por ano, a empresa faz fertilização in vitro para garantir uma produção que atenda às pesquisas e produção da empresa.


Quando estão crescidos, esses Arenicola são purificados e toda a areia que os animais ingerem é removida. Depois, os animais são congelados e descongelados: assim é criado um choque hemorrágico e a hemoglobina é liberada, para então ser isolada e purificada.


Assim como é recomendada muita cautela e paciência para esperar novos resultados e conclusões científicas para o uso de medicamentos como a cloroquina e o atazanavir, no caso de uma molécula animal, as expectativas têm que ser ainda mais baixas.


"A cada poucos anos, um novo [composto] parece promissor, mas falha quando chega a testes clínicos", alertou a cientista da transfusão Lorna Williamson, do Serviço Nacional de Sangue da Grã-Bretanha à revista Science ainda em 2003, quando os primeiros estudos sobre a hemoglobina do Arenicola marina eram publicados. “Mesmo que a molécula se mostre segura e eficaz, pode ser difícil produzir em grandes quantidades”, acrescentou o bioquímico John Olson da Rice University, EUA.


Ainda assim, imaginem todo o potencial que a vida marinha possui! São algas, bactérias, esponjas e muitos outros organismos com potencial para biotecnologias. Além disso, quantas moléculas de importância médica permanecem ignoradas da biodiversidade que não conhecemos? E tantas outras que podem contribuir com outras áreas do conhecimento?


Ter acesso a esse tipo de informação só é possível se o animal é descrito, estudado e apresentado para a comunidade acadêmica. E não existe outro caminho para isso senão através da pesquisa científica, básica e aplicada. Defender a ciência é também defender a tecnologia, a economia e a saúde de um país. Quantos tratamentos deixam de ser descobertos com os golpes que a ciência brasileira vem levando? O que mais estamos perdendo?

Fontes:


Blood substitute from worms shows promise (Nature, 04/06/2003)


Blow lug (Arenicola marina) (The Marine Life Information Network)


Blow Lugworm (British Sea Fishing)


Coronavirus. Cette société bretonne veut lutter contre le Covid-19 grâce à du sang de ver marin (Ouest-France, 30/03/2020)


Hemarina Products (Hemarina)


França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com Covid-19 (AFP, 04/04/2020)


França autoriza teste clínico com sangue de verme marinho em pacientes com covid-19 (UOL Notícias, 04/04/2020)


Lugworms, Arenicola marina (Marine Bio)


Lugworm (Encyclopædia Britannica, Inc.)




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