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  • A tripla crise planetária e o oceano

    Por Carla Elliff Imagem por Natasha Hoff "Tripla crise planetária." Tente falar isso três vezes rápido. Pois é, se você for como eu, tropeçou neste desafio. Não acho que isso seja à toa – um nome difícil para um conceito que também não é simples. Mas vale o esforço de entender, porque estamos falando de três crises globais (mudanças climáticas, poluição e perda de biodiversidade) que não apenas coexistem, mas se potencializam. Antes de discutir as sinergias entre os elementos da tripla crise, vamos destrinchar o que cada um representa individualmente: As mudanças climáticas, também chamadas de crise climática ou emergência climática em função da magnitude de suas implicações, são impulsionadas principalmente pelo acúmulo excessivo de gases de efeito estufa na atmosfera, como o dióxido de carbono e o metano. Como apontado nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), esses gases excessivos têm origem antropogênica, sendo liberados pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento, por práticas agropecuárias e do setor industrial. Vale lembrar que o efeito estufa é um fenômeno natural, essencial para a manutenção da vida na Terra. A exacerbação de sua efetividade é semelhante a um cobertor extra ao redor do planeta – que já estava quentinho o suficiente. Com mais gases na atmosfera, o calor que deveria escapar para o espaço fica retido, elevando as temperaturas globais. As consequências já são visíveis em todo o planeta, por exemplo, ondas de calor mais intensas e frequentes, secas prolongadas, eventos climáticos extremos e o derretimento acelerado das calotas polares. A poluição, por sua vez, se manifesta de formas diversas: química, sonora, luminosa, por nutrientes, por resíduos sólidos... Com essa diversidade de tipos, também são igualmente diversas as suas origens, implicações e respostas que precisamos para mitigar seus impactos. Por exemplo, o excesso de nitrogênio e fósforo de fertilizantes agrícolas impacta importantes ciclos biogeoquímicos; metais tóxicos oriundos de atividades industriais se bioacumulam e biomagnificam pela teia trófica; poluição sonora e luminosa alteram habitats e o comportamento de organismos; e temos também a poluição por plásticos, que têm ganhado destaque pela sua onipresença, sendo encontrados no oceano profundo, no ar que respiramos, no corpo humano e em tantos outros lugares. Já a perda de biodiversidade é, talvez, a mais silenciosa das três crises — e, por isso, frequentemente subestimada. Como indicado pela Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), estima-se que a taxa atual de extinção de espécies seja entre dezenas e centenas de vezes maior do que a taxa natural de fundo, aquela que existiria sem interferência humana. Desmatamento, supressão de habitats, caça, introdução de espécies exóticas e, claro, as próprias mudanças climáticas e a poluição se combinam para empurrar espécies e ecossistemas inteiros além do limite. Aqui é importante destacar que a perda de biodiversidade não é apenas uma consequência negativa, ela também leva a desdobramentos na tripla crise. Quando uma espécie desaparece, perdemos toda uma rede de relações ecológicas que muitas vezes nem chegamos a conhecer, essenciais para a manutenção de habitats e serviços ecossistêmicos. Esses três elementos estão em constante interação globalmente. O oceano, um grande conector planetário, é palco para sinergias bastante complexas nessa tripla crise. Considerando a relação entre poluição por plástico e as mudanças climáticas (uma relação conhecida como o nexo plástico-clima), temos alguns dados alarmantes, publicados em um relatório produzido no âmbito da Estratégia Nacional Oceano sem Plástico: a cadeia produtiva do plástico é responsável por 3% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo que 94% dessas emissões ocorrem no início da cadeia do plástico (na extração, polimerização e produção de plástico primário). Uma vez no oceano, o plástico segue contribuindo para as mudanças climáticas. Por exemplo, a presença de plásticos – sobretudo microplásticos – sobre a neve reduz o albedo (capacidade de refletir a luz solar) de ecossistemas polares, o que intensifica a absorção de calor e amplifica o feedback positivo do derretimento do gelo. Já em ambientes tropicais, temos o impacto na capacidade de sequestro de carbono por ecossistemas costeiros, como os manguezais, pois a presença de plásticos altera a composição dos sedimentos e os ciclos biogeoquímicos que controlam esses processos. Para ilustrar os outros dois nexos (clima-biodiversidade e poluição-biodiversidade), os recifes de coral de águas rasas são um bom exemplo. Esses ecossistemas são amplamente reconhecidos por sua sensibilidade a alterações na temperatura da água. Com ondas de calor mais frequentes e intensas, inclusive no oceano, a temperatura da superfície do mar tem quebrado recordes a cada ano, com as chamadas anomalias térmicas positivas ocorrendo por longos períodos e afetando áreas extensas. Nessas situações, quando a temperatura sobe além de um limiar crítico por tempo suficiente, causando estresse térmico, os corais expulsam as algas simbióticas (zooxantelas) que vivem em seu tecido e fornecem boa parte da energia que eles precisam para sobreviver por meio de fotossíntese. Sem as zooxantelas, os corais ficam branqueados. É uma condição de estresse fisiológico severo, que pode levar à morte e torna o coral menos resiliente a outros impactos concomitantes no oceano. Aqui entra uma sinergia surpreendente com o elemento de poluição por plástico: um coral branqueado precisa aumentar sua alimentação heterotrófica para sobreviver, pois sua fonte de energia principal, as zooxantelas, foram expulsas. O problema é que em um oceano cada vez mais contaminado por microplásticos, nem sempre as partículas capturadas pelo coral são alimento de verdade... Um estudo recente demonstrou esse risco aumentado de ingestão de microplásticos em duas espécies de coral de ocorrência no Oceano Pacífico, durante períodos de estresse térmico. Ainda precisamos de mais estudos para saber como este processo se dá nos nossos corais endêmicos ao Atlântico Sudeste. O que mais os dados científicos nos revelam sobre o estado atual do oceano diante de tudo isso? O 9º Relatório do Estado do Oceano, publicado pelo programa europeu Copernicus em 2025, oferece um retrato preocupante. Em 2023 e 2024, a temperatura média da superfície do mar superou um recorde histórico e alcançou a marca de 21 °C. O nível do mar, por sua vez, sobe a uma taxa de 4,1 mm por ano, a mais alta já registrada, e acumula 228 mm de elevação desde 1901 – colocando cidades costeiras (e países inteiros) em situações de vulnerabilidade a erosão e inundações. O planeta já passou por variações naturais nesses parâmetros, mas os dados mostram que tanto o aquecimento quanto a elevação do nível do mar estão se acelerando de forma inédita. Esses números ganham ainda mais peso quando olhamos para a biodiversidade. Segundo o mesmo relatório, 30% dos corais criticamente ameaçados já estão expostos a aquecimento ou acidificação oceânica acima das médias globais. E aqui o nexo com a poluição aparece novamente: 75% dos países que emitem mais de 10 mil toneladas de lixo plástico por ano estão localizados adjacentes a corais ameaçados ou criticamente ameaçados. Em outras palavras, um dos ecossistemas mais vulneráveis às mudanças do clima é, ao mesmo tempo, um dos mais expostos à poluição plástica. E agora, José? Diante desse problema planetário, fica claro que não existe uma solução única. Tem uma frase de Inger Andersen, Diretora Executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que acho que captura algo essencial: “Só o multilateralismo pode resolver a tripla crise planetária”. Ou seja, nenhum país sozinho, nenhum setor da sociedade isoladamente e, muito menos, uma só pessoa tem a capacidade de responder às diversas facetas desse problema complexo e interconectado. A boa notícia é que esse multilateralismo já está em movimento, ainda que de forma imperfeita e urgentemente necessária de ser ampliada. Alguns exemplos: Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030): proclamada em 2017 pela Assembleia Geral das Nações Unidas e coordenada pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, a Década do Oceano – como é apelidada – tem como visão alcançar “a ciência que precisamos para o oceano que queremos”. Passado metade dessa década, o último relatório de progresso mostra que a mobilização reúne milhares de programas, projetos, contribuições e atividades endossadas em 75 países parceiros – com o Brasil em posição de destaque na sua atuação; Conferências das Nações Unidas sobre o Oceano (UNOCs): estes fóruns internacionais de alto-nível foram criados em 2017 para impulsionar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 “Vida na Água”. A UNOC3, realizada em 2025 em Nice, reuniu mais de 15 mil pessoas e resultou no Plano de Ação para o Oceano de Nice, que inclui como prioridades financiar a economia azul, concluir o Tratado de Alto Mar (e que de fato foi ratificado no final de 2025!), combater a poluição plástica e integrar o oceano na ação climática; Meta 30x30: adotada na COP15 da Biodiversidade em 2022, este compromisso internacional visa proteger ao menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030. Mais de 190 países assinaram este compromisso, incluindo o Brasil, e agora todos precisam trabalhar em prol do fortalecimento e estabelecimento de suas áreas protegidas – aqui não vale apenas “parques de papel”! Tratado Global dos Plásticos: em março de 2022, com a Resolução 5/14 da UNEA, iniciou-se o processo para a criação de um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre poluição plástica, inclusive no ambiente marinho. Chamado informalmente de Tratado Global dos Plásticos (e variantes semelhantes), este é um marco histórico: o primeiro acordo ambiental multilateral dedicado à temática de poluição por plásticos. As negociações seguem em curso, com divergências significativas entre os cerca de 180 países envolvidos no processo, mas com grande apoio da comunidade internacional para chegar a um instrumento que considere todo o ciclo de vida do plástico. Eu não poderia deixar de destacar que, no centro de qualquer resposta eficaz, precisa estar a ciência. Ela fornece uma base comum para discussões baseadas em evidências e com redução de vieses ideológicos, ajudando a evitar que o multilateralismo fragmente-se em interesses domésticos conflitantes. A diplomacia científica no oceano não deve ser subestimada. Para os mais cínicos, vale lembrar um precedente histórico de sucesso deste tipo de esforço. Na década de 1980, cientistas confirmaram um buraco na camada de ozônio sobre a Antártica. Em 1987, 197 países assinaram o Protocolo de Montreal – uma adesão universal na época entre Estados-membros da ONU –, comprometendo-se a eliminar as substâncias responsáveis. Quase quatro décadas depois, cerca de 98% dessas substâncias foram eliminadas e a camada de ozônio está a caminho da recuperação, um resultado que o secretário-geral da ONU já chamou de exemplo do que o mundo pode alcançar quando trabalha junto “guiado pela ciência, unido pela ação”. Não foi simples ou rápido chegar a esse resultado, mas assim é a natureza do trabalho colaborativo. A tripla crise planetária é real, seus impactos já são sentidos, e já temos ferramentas para agir. Queria finalizar com uma última reflexão: se mesmo depois dessa dose de esperança, você ainda não se sentir acalentado diante desse cenário de três crises globais, fruto da ação humana, podemos sempre recorrer à poesia – também fruto da nossa capacidade unicamente humana. Recomendo “E agora, José?” de Carlos Drummond de Andrade, para te ajudar a transformar a pergunta de desamparo diante de tudo isso em uma pergunta que nos instiga a seguir em frente: “José, para onde?”. Minha resposta seria: “Para o mar!” Este texto foi produzido no âmbito do projeto “A tripla crise planetária sobre recifes de coral no Brasil: aquecimento global como um agente intensificador dos impactos da poluição por plásticos”, desenvolvido no Laboratório de Recifes de Coral e Mudanças Climáticas do IOUSP (LARC) e apoiado pela Fundação Universidade de São Paulo (edital FUSP Mudanças Climáticas). Referências Axworthy, J.B.; Padilla-Gamiño, J.L. 2019. Microplastics ingestion and heterotrophy in thermally stressed corals. Scientific reports, 9(1):18193, DOI: 10.1038/s41598-019-54698-7. Grilli, N.M.; Silva, C.L.D.L; Cebuhar, J.D; Holanda, J.R.; Di Pasquale, A.I.B.S.L; Lando, G.A.; Justino, A.K.; Santos, A.C.A.; Andrades, R.; Castro, I.B.; & Elliff, C.I. 2025. Poluição por plástico no oceano e emergência climática. 24p. Disponível em IPBES. 2019. Global assessment report on biodiversity and ecosystem services of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (pp. 1-1082). Brondízio, E. S.; Settele, J.; Díaz, S.; Ngo, H. T. (eds). IPBES secretariat, Bonn, Germany, DOI: 10.5281/zenodo.3831673 IPCC. 2023. Climate Change 2023: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Core Writing Team, H. Lee and J. Romero (eds.)]. IPCC, Geneva, Switzerland, pp. 35-115, DOI: 10.59327/IPCC/AR6-9789291691647. von Schuckmann, K.; Gues, F.; Moreira, L.; Liné, A.; de Pascual Collar, Á. 2025. Global ocean change in the era of the triple planetary crisis. State of the Planet, 6, 1-10, DOI: 10.5194/sp-6-osr9-2-2025 Sobre a autora: Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP. O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado! #DescomplicandoNetuno #TriplaCrisePlanetária #MudançasClimáticas #Poluição #Plástico #PerdaDeBiodiversidade #PolíticasPúblicas #CarlaElliff

  • SP Ocean Week 2026

    A SP Ocean Week 2026, considerada o maior festival de cultura oceânica da América Latina, aconteceu entre os dias 20 e 24 de maio na cidade de São Paulo, no Memorial da América Latina. Completando sua 6ª edição este ano, o evento é uma iniciativa da MidiaMar Comunicação e da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, vinculada à Universidade de São Paulo (USP), através de seu Instituto Oceanográfico (IO-USP) e Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). E a equipe do Bate-Papo com Netuno esteve presente por lá em diversas atividades! No espaço Mar de Livros, organizado pela Livraria Canoa de Ilhabela, visitantes tiveram a oportunidade de comprar nosso livro Tiradas do Netuno - além de muitos outros títulos de ficção e não-ficção relacionados ao mar. Um sucesso já de edições anteriores do evento, Natasha Hoff participou da Barraca do Peixe, atividade do Laboratório de Ecologia da Reprodução e do Recrutamento de Organismos Marinhos (ECORREP) do IOUSP. O espaço dedicado aos laboratórios do IOUSP contou também com a presença da Natasha, representando o Laboratório de Geologia de Margens Continentais (LAMA) e do Laboratório de Ecologia das Fases Iniciais dos Peixes (LEFIP), coordenado pela Cláudia Namiki - as lupas para observar amostras de plâncton foram o destaque dessa exposição! Luiza Soares recebeu visitantes no estande do Coral Vivo, que incluiu amostras de esqueletos de corais, fotos e outros materiais, além de uma experiência de realidade virtual simulando um mergulho. E para acompanhar as centenas de estudantes, crianças e outros visitantes que passaram pela SP Ocean Week 2026, o evento contou com uma equipe de monitores do bacharelado de Oceanografia - entre eles, nossa Lia Nazário! #NetuniandoPorAí #SPOceanWeek #CulturaOceânica #DivulgaçãoCientífica

  • De onde vem o sal do Atlântico?

    Por Gabriele Dezounet Para entender de onde vem o sal presente na água do oceano e, especificamente, qual a história do sal que tempera o Atlântico, se torna necessária a explicação de alguns processos que ocorrem no oceano de maneira geral. Então, vamos por partes. Que a água do mar é salgada, tanta gente sabe que já é senso comum. E quem não sabe empiricamente, deve acreditar em quem diz que provou, seja com a clássica experimentada com a língua ou quando levou um caldo no mar. Antes de cursar oceanografia, eu acreditava que a água do mar era salgada por causa da areia da praia. Mas a areia não tem muito a ver com a resposta para essa pergunta… O sal é formado, principalmente, pelo intemperismo de rochas continentais. Ao longo do tempo geológico, este material rochoso é dissolvido pelas chuvas e transportado pelos rios, se descarrega na zona costeira, encontrando o oceano. Uma vez na água, os elementos dissolvidos sofrem reações químicas, tornando o sal um ingrediente naturalmente intrínseco a todo oceano. Outra fonte de salinidade são as fumarolas, fissuras que existem no fundo oceânico, que liberam gases proveniente do interior da Terra, estando relacionados a processos vulcânicos. Esses gases contêm composição química que contribuem para que essa variável aumente. De certa forma, todas as águas têm um certo teor de salinidade, algumas mais e outras menos, mas todas têm, principalmente as do mar. Se quiser entender mais sobre as características do sal na água do mar, ou seja, sobre a salinidade do oceano, confira nossos textos Salinidade (parte I) e Salinidade (parte II). Só por isso já estaria respondida a pergunta. Mas e o Atlântico, em especial? De onde vem o sal do Atlântico? Bem, vamos por partes. O oceano não é um corpo d’água estático. As águas circulam assim como o vento ronda o céu, a atmosfera. Essas circulações no mar são chamadas de correntes e percorrem o mundo todo, em todos os continentes. Carregam em seu interior informações das águas de onde se originaram, como a temperatura, e também, a sua salinidade - caracterizando as chamadas massas de água. Há uma corrente, em especial, que nos ajuda a responder nossa pergunta: a Corrente das Agulhas, que contorna o sul do continente africano, saindo do Oceano Índico e chega a dar as caras no leste do Oceano Atlântico. O fato é que o Índico é consideravelmente mais salgado que o Atlântico. Olhando um mapa mundi dá para perceber que é um oceano tão fechado que nem se manifesta no Hemisfério Norte, mas sim, é cercado pela porção continental dele. Por ser assim fechado, existe um desbalanço no Índico: sai mais água dele do que entra. Sai como? Evaporando. Mas ele não vai secar, não se preocupe! (Eu também quero conhecer as Maldivas, que fica por lá.) A Corrente das Agulhas é quem leva um pouco do sal do Índico até o Atlântico. Ela é tão energética - tão veloz e majestosa - pois é uma corrente de contorno oeste, ou seja, acompanha outro fenômeno que conta outra história e que, à medida que se aproxima da zona mais ao sul do mundo, também fica mais forte, chamado efeito Coriolis. Mas a nossa Corrente das Agulhas não chega até a Antártica, pois vem nos visitar (ainda que de longe, lá no Atlântico Sudeste). O máximo a alcançar é os 40ºS de latitude, extremo leste atlântico. E então, ela retorna ao Índico. Como é uma circulação, um ciclo, ao chegar aqui, dá “meia volta” e vai em direção ao seu oceano. Parece dar umas chicoteadas, como quem se esperneia por não querer ir embora. Isso é a retroflexão - quando a corrente curva-se sobre si mesma, e assim, em vez de continuar a trajetória, acaba retornando ao ponto de origem - ao fazer isso, desprendem-se giros, chamados de vórtices, que rodopiam nas águas e que demoram para se desfazer. É um presente, o seu sal e o seu calor de origem, uma assinatura do Índico manifestando-se no Atlântico. O nome desse fenômeno é Vazamento das Agulhas. Nessa simulação, é possível ver massas de água de temperatura semelhante sendo mobilizadas pela Corrente das Agulhas, se esticando entre o sul do Oceano Índico e o sudeste do Oceano Atlântico, permitindo essa importante troca dentro do sistema global do oceano: E, se prestarmos muita atenção, no período e lugar certo, é possível perceber esse presente pela ponta da língua. Referências Talley, L. D., Pickard, G. L., Emery, W. J., & Swift, J. H. (2011). Descriptive physical oceanography: An introduction (6th ed.). London: Academic Press. Pág 277 Sobre a autora: Gabriele vinculou afeto pelo mar porque costumava frequentar uma praia chamada Balneário Barra do Sul, cidadezinha em Santa Catarina. Hoje, está se graduando em Oceanografia pela UFPR, se envolvendo com a área biológica, da geografia marinha e também da física. Gosta de ver os oceanos na perspectiva da ciência e também como inspiração para arte. Além disso, é apaixonada por literatura, em especial pela Clarice Lispector (seus contos sobre mergulhos no mar são realmente maravilhosos, recomendo!) #DescomplicandoNetuno #Salinidade #Atlântico #Correntes #OceanografiaFísica #GabrieleDezounet

  • Lei do Mar: antes tarde do que nunca

    Por Yonara Garcia A Lei do Mar (PL 6.969/2013) é uma proposta legislativa que busca instituir a Política Nacional para Uso e a Conservação do Bioma Marinho Brasileiro (PNCMar) e estava em tramitação no Congresso Nacional há mais de dez anos. Seu objetivo principal é promover a proteção, uso sustentável e a recuperação dos ecossistemas marinhos e costeiros, integrando ações de monitoramento ambiental, pesquisa científica, gestão participativa e ampliação de áreas marinhas protegidas. A proposta também busca promover uma governança nacional mais eficaz sobre os recursos marinhos e enfrentar problemas como poluição marinha e sobrepesca (Para saber mais sobre este projeto, clique aqui). Nesta semana, a proposta foi finalmente aprovada na Câmara dos Deputados e agora segue para análise no Senado! Ao longo dessa tramitação, em 2023, assisti a uma sessão da Câmara dos Deputados, na qual me deparei com a fala de diversos atores (representantes da indústria pesqueira, da pesca artesanal, ambientalistas, entre outros) ali presentes. Cada um tinha seu ponto de vista, pontos que não concordavam no texto, e cada um teve seu espaço de fala. Quando chegou o momento da Profa. Dra. Leandra Gonçalves, professora do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-UNIFESP), ela falou da importância desse projeto ser aprovado e, então, encaminhado para o Senado, pois já havia uma década de tramitação. Para mim, foi incrível a fala dela e quando ela terminou, eu pensei: “Nossa, arrasou! Explicou super bem, deu um sacode em alguns que estavam presentes, acho que todos entenderam”. Eis que um deputado pede espaço de fala e diz (não exatamente com essas palavras): Professora Leandra, foi muito bonito seu discurso, com palavras bem colocadas, mas eu estou aqui para defender os humanos… e continuou sua fala. Aquele momento me causou certa estranheza pela falta de percepção de que os humanos não fazem parte da natureza, o que me lembrou de um filme que ilustra perfeitamente o que eu havia acabado de presenciar. O filme em questão é o “Princesa Mononoke” (1997), dirigido por Hayao Miyazaki e produzido pelo Studio Ghibli. Ambientado no final do período Muromachi (séculos XIV a XVI) do Japão, este filme segue a história de Ashitaka, um jovem príncipe, condenado por uma maldição enquanto salvava seu vilarejo do ataque de um Deus-javali demonizado. A fim de descobrir a origem de sua maldição e encontrar uma possível cura, Ashitaka parte em uma jornada e se depara com um conflito entre os deuses da floresta e os humanos que exploram os recursos naturais. Em meio a esse conflito, ele conhece San, a Princesa Mononoke, uma jovem criada por deuses-lobos, que carrega um ódio pelos homens e luta ao lado da floresta, e Lady Eboshi, líder da Vila de Ferro que busca progresso às custas da natureza, mas também se mostra uma líder generosa por desafiar o feudalismo japonês, oferecendo dignidade e trabalho a pessoas marginalizadas pela sociedade, como as prostitutas e os leprosos. Ashitaka tenta intermediar a paz, mas a tensão entre a preservação da natureza e o desenvolvimento só aumenta, resultando em uma batalha épica. Em certo momento da batalha, o Espírito da Floresta (Deus-cervo), uma divindade pacífica, é decapitado por Lady Eboshi, pois ela acreditava que dessa forma ela iria conseguir alcançar o progresso para seu povo. Em seguida, o Deus-cervo se transforma em uma entidade demoníaca que destrói tudo ao seu redor, tanto os animais da floresta, quanto a Vila de Ferro, o que causa grande perplexidade em todos os personagens. Mas esta entidade não distingue entre bons e maus, pois quando o equilíbrio é quebrado, todos sofrem. A destruição termina quando a cabeça do Espírito da Floresta é devolvida e ele desaparece, mostrando que o equilíbrio foi perdido. Esse momento do filme é marcado pelo recomeço para ambos os lados, onde a floresta começa a se regenerar, mas não a mesma, e os humanos que sobreviveram voltam a se reconstruir, na esperança da lição ter sido aprendida. Esse filme é uma clara metáfora do que vivemos. Progresso à custa da destruição. Olhar os seres humanos como algo à parte, acima de tudo, onde o planeta Terra é dividido em espécies de fauna, flora e a poderosa espécie humana. Mas vamos pensar o seguinte, imagine uma pirâmide de cartas de baralho, onde cada carta representa uma espécie no planeta, e uma dessas cartas representa a espécie humana. Se começarmos a derrubar algumas cartas, a tendência é que a pirâmide inteira caia. A pirâmide corresponde à biodiversidade do planeta Terra. Quando a base da pirâmide cai, todas as espécies caem, incluindo a espécie humana. Então, quando você vê ambientalistas falando centenas de vezes da importância da biodiversidade, do porquê devemos frear essa constante perda da biodiversidade, não é (só) porque somos seres altruístas, que amam a natureza e querem salvar apenas os animais e as plantinhas. O que buscamos é manter essa estrutura de vida que conhecemos hoje. Nós queremos nos salvar, salvar nossa espécie também. Nós entendemos que ao ocorrer progresso às custas da biodiversidade, estamos dando um tiro no próprio pé. Por isso, o desenvolvimento e implantação de projetos como a Lei do Mar são tão importantes, pois buscam regulamentar diversas atividades, promovem o uso sustentável dos ecossistemas e garantem a conservação da biodiversidade. Ou ainda lutar contra propostas como o PL 2.159/2021, da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, mais conhecida como PL da Devastação, que enfraquecem a proteção ambiental no país. Assim como no filme, se não respeitarmos os limites para coexistir, a Terra não vai acabar, mas pode ser que essa estrutura de vida que conhecemos hoje acabe. E o planeta se reconstituirá, de um outro jeito, com novas formas de vida. "You cannot change fate. However, you can rise to meet it, if you so choose.” (“Não se pode mudar o destino. Mas é possível enfrentá-lo, se você quiser.” – Princesa Mononoke) Sobre a autora: Editora do BPCN, formada em ciências biológicas pela UFJF com mestrado em ciências (Oceanografia Biológica) pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente está desenvolvendo seu doutorado no Instituto do Mar da UNIFESP. Sempre despertou interesse pelos ecossistemas aquáticos. Durante a graduação atuou em limnologia estudando, principalmente, os ciclos biogeoquímicos e as comunidades planctônicas. Já na pós-graduação atuou em pesquisas que tiveram como foco o plâncton marinho e o coral-sol. Hoje seu foco principal é o estudo da contaminação, principalmente por microsplásticos, em Áreas Marinhas Protegidas. Gosta de andar de bicicleta, ir à praia, subir montanha, viajar, fotografar, reunir os amigos, estar em contato com a natureza e sempre contar com uma boa leitura. Está aprendendo a cada dia o papel de ser mãe com sua filha Mia. #CiênciasDoMar #PrincesaMononoke #LeiDoMar #Biodiversidade #StudioGhibli #PLDaDevastação #PL6.969/2013 #PL2.159/2021 #YonaraGarcia

  • Sereias também choram

    Por Yonara Garcia Recentemente, fazendo um trabalho de campo na Ilha das Palmas, no Guarujá, São Paulo, certas partículas coloridas que compunham o sedimento da praia me chamaram a atenção. Ao pegá-las, percebi que eram pedaços de vidros de diversas cores, formas e tamanhos, que, ao meu olhar, eram muito bonitos. Como nunca tinha observado isso em outras praias, chegando em casa, fui pesquisar sobre e descobri que são chamados de vidros marinhos, que são fragmentos de vidros que foram descartados no ambiente e depois foram transformados naturalmente pela ação do oceano ao longo de muitos anos. Ao serem descartados no ambientes, materiais de vidro, como garrafas, frascos, utensílios domésticos, entre outros, fragmentam-se e começam a sofrer intemperismo com a ação do mar (impacto de ondas, atrito com grãos de areia, salinidade, mobilização pelas correntes etc), levando ao desgaste mecânico e lixiviação superficial, processo no qual compostos da camada externa do material são lentamente dissolvidos e removidos pela água. Isso faz com que os fragmentos fiquem com a superfície fosca, aspecto aveludado, bordas arredondadas, sem arestas cortantes, formato irregular e textura lisa, devido à abrasão. Esse processo essencialmente físico e químico pode durar décadas, com o fragmento sendo transportado, depositado e remobilizado para diferentes localidades, eventualmente podendo ser encontrado na costa, polido e seguro ao toque. Muitas praias ao redor do mundo são conhecidas por terem grandes concentrações de vidros marinhos, tornando-se referências culturais, turísticas e até científicas. Na América do Norte, situa-se uma das mais famosas, a Glass Beach, localizada em Fort Bragg, na Califórnia. De 1906 a 1967, os moradores de Fort Bragg usavam esta área como depósito de lixo. Após o fechamento do local e implementação de programas de limpeza, a praia foi sendo recuperada e com o tempo, os fragmentos de vidro foram transformados em pequenas “pedras” arredondadas e coloridas que se misturavam à areia. Atualmente, esta praia é protegida integrando um parque estadual (MacKerricher State Park), e os visitantes são orientados a não coletar estes fragmentos, pois fazem parte de sua paisagem singular. Glass Beach Fort Bragg, Califórnia, EUA. Fonte: WikimediaCommons/ Ggerdel/ CC-BY-SA-4.0 Outra praia bem conhecida por esta característica é a Ussuri Bay Glass Beach, localizada próxima a faixa costeira da Rússia, mas culturalmente associada ao Japão, por estar no Mar do Japão. Durante a era soviética, o local servia como depósito de garrafas de vidro e cerâmicas descartadas por fábricas próximas. Com o tempo, o Mar do Japão transformou esses resíduos em milhões de fragmentos de vidro arredondados. Hoje em dia, esta praia é uma atração turística e é protegida por autoridades locais para prevenir a remoção desses vidros e conservar este depósito. Há muitas outras praias que são conhecidas por apresentarem esses fragmentos, como Chichibugahama Beach (Japão), Seaham Beach (Inglaterra), La Playa de los Cristales (Espanha) e Steklyashka Beach (Rússia). No Brasil, não há praias mundialmente famosas por vidros marinhos, mas já foi relatada a ocorrência desses vidros marinhos na Baixada Santista (SP), Baía de Guanabara (RJ), Ilhabela (SP) e Florianópolis (SC). Quase todas essas praias possuem um padrão comum, onde apresentam um histórico de descarte de materiais e resíduos de origem antropogênica, hidrodinâmica que favorece a transformação do vidro, sedimento relativamente grosso, entre outras. Apesar de ser um resíduo antropogênico, sua beleza fez com que virasse até lenda. Um conjunto de tradições folclóricas marítimas, principalmente de comunidades costeiras da Europa, criaram a lenda das lágrimas de sereia. Há diversas versões dessa história, então compartilho a seguir uma releitura baseada nessas tradições. WikimediaCommons/ Domínio público Dizem que, em uma noite de tempestade violenta, um navio foi lançado contra as rochas. O mar rugia sob o comando de Netuno, senhor dos oceanos e guardião das leis do mundo marinho. Entre os destroços, um único marinheiro ainda lutava contra as ondas. Nas profundezas, uma jovem sereia observava a cena. Ela conhecia as regras: as criaturas do mar não deveriam interferir no destino dos humanos, pois o mar seguia a vontade de Netuno. Mas ao ver o homem prestes a se afogar, ela desobedeceu. Nadando contra a corrente, a sereia emergiu das águas revoltas, segurou o marinheiro e o conduziu lentamente até a praia. Exausta, permaneceu ao lado dele até ter certeza de que respirava. Quando a tempestade cessou, o mar ficou silencioso…silencioso demais... Então, das profundezas, ergueu-se a voz de Netuno. O deus estava furioso. A sereia havia desafiado sua autoridade e alterado o destino que ele havia determinado para aquele homem. Como punição, Netuno declarou: “Por ter escolhido o coração acima das leis do mar, jamais retornarás às águas rasas. Serás banida para o mar profundo, onde a luz do sol não alcança.” Condenada ao exílio, a sereia mergulhou lentamente nas profundezas escuras do oceano. Enquanto descia, chorava. Suas lágrimas subiam em direção à superfície, levadas pelas correntes. Com o tempo, endureciam e eram polidas pelas ondas e pela areia, até se transformarem em pequenos fragmentos suaves e brilhantes. E assim, diz a lenda: Os vidros marinhos encontrados nas praias são as lágrimas da sereia, lembranças de um ato de compaixão que desafiou o próprio deus do mar. Além de lenda, os vidros marinhos têm atraído olhares criativos, sendo usados para criar mosaicos, esculturas e até joias. Eu mesma, quando vi, pensei: “vou fazer colares”. Eu tenho um projeto de ateliê, onde gosto de fazer peças de crochê, macramê e joias de resina. Eu me limitava a produzir estas joias a partir de flores prensadas, sementes e elementos botânicos, mas, ao ver esses vidros marinhos, logo quis ver aquilo num colar. Vejo uma coleção surgindo… já vem até com uma lenda para deixar mais poético. Bom, mas apesar de toda história e beleza, o vidro marinho não deixa de ser um resíduo antropogênico, submetido a processos naturais, transformado ao longo do tempo e reintegrado ao sistema costeiro. Talvez, cada fragmento seja um lembrete silencioso das marcas que estamos deixando no meio ambiente e da extraordinária capacidade da natureza de se transformar, mas não de esquecer. Sobre a autora: Editora do BPCN, formada em ciências biológicas pela UFJF com mestrado em ciências (Oceanografia Biológica) pelo Instituto Oceanográfico da USP. Atualmente está desenvolvendo seu doutorado no Instituto do Mar da UNIFESP. Sempre despertou interesse pelos ecossistemas aquáticos. Durante a graduação atuou em limnologia estudando, principalmente, os ciclos biogeoquímicos e as comunidades planctônicas. Já na pós-graduação atuou em pesquisas que tiveram como foco o plâncton marinho e o coral-sol. Hoje seu foco principal é o estudo da contaminação, principalmente por microsplásticos, em Áreas Marinhas Protegidas. Gosta de andar de bicicleta, ir à praia, subir montanha, viajar, fotografar, reunir os amigos, estar em contato com a natureza e sempre contar com uma boa leitura. Está aprendendo a cada dia o papel de ser mãe com sua filha Mia. #CiênciasDoMar #YonaraGarcia #VidrosMarinhos #LágrimasDeSereia

  • Efeito Bola de Neve: Desvendando os Feedbacks Climáticos

    Por Milena de Lara e Poliana Santos Montagem: Natasha Hoff. Você tem notado como o clima tem se tornado cada vez mais imprevisível? Até os paulistanos, acostumados com as instabilidades climáticas da "terra da garoa", estão tendo dificuldades para acompanhar a sequência de ondas de calor recordes, invernos cada vez mais curtos, baixa umidade do ar e tempestades violentas. E, embora o termo "mudanças climáticas" já seja comum em conversas de família e até nas rodas de bar, ainda há muito a ser esclarecido sobre o funcionamento do clima da Terra. Dos mesmos criadores do efeito estufa , eu lhes apresento o efeito bola de neve . Vamos falar de feedbacks climáticos? O conceito de feedback climático Para os funcionários CLTs de escritório, o termo “feedback” já deve ser bem conhecido. É aquela resposta do supervisor ao que você fez que, de alguma forma, influencia o que você vai fazer depois — seja reforçando um comportamento, seja ajustando o rumo. No contexto climático, a lógica é parecida. Feedbacks climáticos são processos pelos quais uma mudança inicial no clima gera respostas que podem amplificar essa mudança — o que chamamos de feedbacks positivos — ou reduzi-la, no caso dos feedbacks negativos. Pode parecer um pouco contra intuitivo, já que, neste contexto, os feedbacks positivos raramente são bons para o planeta, enquanto os negativos, que ajudam a estabilizar o sistema, é que são "os bonzinhos". Vai ficar mais fácil de entender depois dos exemplos. Pense no final do semestre: um monte de provas, seminários e atividades para entregar, e você ficando maluco porque não consegue dar conta de tudo. Esse estresse começa a bagunçar a sua concentração e sua produtividade, fazendo você demorar ainda mais para terminar as tarefas. E aí, claro, o estresse só aumenta, gerando um ciclo vicioso ou um FEEDBACK POSITIVO. Por outro lado, todo esse estresse deixa seu corpo tão cansado que você decide fazer uma pausa para descansar. Ao fazer isso, seu nível de estresse diminui, sua concentração melhora, e você consegue aumentar sua produtividade. Como resultado, você começa a completar mais tarefas, o que reduz ainda mais o estresse, criando um ciclo que ajuda a estabilizar a situação ou, então, um FEEDBACK NEGATIVO. Recapitulando: feedbacks positivos  geram respostas que intensificam  o efeito inicial enquanto os feedbacks negativos  geram respostas que diminuem ou estabilizam  o efeito inicial. Portanto, "positivo" e "negativo" descrevem a direção do efeito (amplificar ou estabilizar), não se o efeito é bom ou ruim. Balanço radiativo da Terra e as Mudanças Climáticas Em linhas gerais, o clima na Terra é controlado pelo que chamamos de balanço radiativo  ou balanço energético  que, de maneira bastante simplificada, corresponde à soma de todas as entradas de energia no sistema climático menos todas as fugas energéticas. Entre as entradas, temos a radiação solar que a Terra recebe do Sol, e as saídas incluem a energia refletida de volta ao espaço e a energia emitida pela própria Terra. Esses fluxos de energia são regulados pelos diversos componentes do sistema climático, como a atmosfera, o solo, o oceano, a biosfera e a criosfera — regiões da superfície terrestre cobertas permanentemente por gelo e neve — que, embora, à primeira vista, possam parecer entidades independentes, fazem parte de um único sistema interconectado . Cada um desses componentes troca imensas quantidades de energia entre si e influenciam no comportamento uns dos outros. Dessa forma, o balanço radiativo funciona como uma balança mesmo: quando todas as entradas e saídas de energia estão equilibradas, a temperatura global tende a permanecer estável. No entanto, quando algo altera esse equilíbrio — como, por exemplo, o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera — a temperatura do planeta muda. Com as mudanças climáticas cada vez mais evidentes, as consequências já são bem conhecidas e até previstas pelos cientistas: aumento da temperatura, elevação do nível do mar, derretimento das geleiras, oceanos mais ácidos e caos, caos, caos. Já sabemos que toda ação gera uma reação, mas o que ainda escapa totalmente à compreensão da comunidade científica é como essas reações se engatam umas nas outras e acabam virando bolas de neve rolando sem freio — os nossos feedbacks. Feedback Albedo-Nuvens Lembra do ciclo da água que a gente aprende na escola? Ela chove, esquenta, evapora, vira nuvem e chove de novo... Com as temperaturas do planeta subindo, mais água é aquecida e evaporada e, portanto, mais nuvens são formadas. E mais nuvens no céu significam que mais radiação é refletida de volta, graças a um processo chamado albedo . Abrindo um parêntese rápido: albedo é, basicamente, a capacidade de uma superfície refletir radiação. É por isso que usar roupa preta no calor nunca parece uma boa ideia — superfícies escuras absorvem mais radiação (têm menor albedo), enquanto as claras refletem mais (têm maior albedo). Ok, agora vamos voltar para as nuvens... Aquelas nuvens bem brancas e fofinhas? Elas têm um albedo altíssimo, ou seja, refletem uma grande quantidade de radiação solar de volta para o espaço, ajudando a manter a superfície da Terra mais fresca. Então se o aquecimento global aumentar a quantidade de nuvens e essas nuvens ajudam a resfriar o planeta, é compreensível que você pense “Pronto, problema resolvido! A natureza é perfeita!” Mas calma lá — porque, como quase tudo no clima, a história é um pouco mais complicada. Tudo depende, na verdade, do tipo de nuvem que se forma. Esse feedback negativo  só é gerado pelas nuvens baixas (que se formam nas camadas mais inferiores da atmosfera) que tendem a ser mais densas, branquinhas e brilhantes (com um alto albedo). Mas as nuvens mais altas e escuras, compostas por cristais de gelo, são mais esparsas e têm menor albedo, permitindo que a radiação solar passe. Elas também têm um papel importante ao refratar (desviar ou espalhar) a radiação infravermelha, o que acaba gerando um feedback positivo , ou seja, contribui para o aquecimento. E como sabemos se vão se formar nuvens altas ou baixas? À medida que o planeta esquenta, a diferença de temperatura entre a superfície e as camadas da atmosfera — o chamado gradiente vertical de temperatura — vai diminuindo, ou seja, fica mais homogêneo. Isso acontece porque estamos "aprisionando" mais calor na atmosfera (efeito estufa, lembra?). Com o aquecimento das camadas inferiores da atmosfera, as nuvens precisam se formar em altitudes mais elevadas para alcançar as temperaturas mais baixas necessárias à sua formação. O resultado disso é que, com menos nuvens baixas e mais nuvens altas, mais radiação solar acaba atingindo a superfície da Terra, o que aumenta ainda mais o calor. Além disso, essa mudança faz com que a atmosfera consiga segurar mais vapor d'água (um importante gás do efeito estufa), sem que ele se condense para formar as nuvens de chuva que estamos acostumados a ver. Feedback Albedo-Neve Já que falamos sobre o albedo, outro grande refletor de energia é a neve. Quando as temperaturas sobem, as calotas polares e o permafrost  — ou solo permanentemente congelado — começam a derreter, o que diminui o albedo dessas regiões. Isso acontece porque, com menos neve cobrindo o solo ou o gelo do mar, mais da superfície escura fica exposta. E a água ou o solo escuro absorvem mais luz solar do que a neve branca, o que significa que eles retêm mais calor. Esse aquecimento faz com que mais gelo derreta, o que, por sua vez, reduz ainda mais a cobertura de neve, criando um feedback positivo . Feedback Circulação Oceânica e Ciclos Biogeoquímicos E lembra que dissemos que as componentes climáticas estavam interconectadas? Pois é. O derretimento das regiões polares não afeta só o albedo — ele também altera a salinidade e a estratificação dos oceanos. Estratificação, aliás, é apenas a forma como a água se organiza em camadas: a mais quente e leve em cima, a mais fria e densa embaixo. Como as correntes oceânicas dependem justamente dessas diferenças de temperatura e salinidade, qualquer mudança nesses fatores impacta diretamente os padrões de circulação em escala global. E isso é crítico porque a circulação termohalina (termo = temperatura; halina = salinidade) desempenha um papel fundamental na regulação do clima do planeta. Se essa circulação enfraquece, o transporte de calor — que normalmente distribui energia entre diferentes latitudes, longitudes e profundidades — fica comprometido. O resultado é acúmulo de calor nas camadas superficiais do oceano, o que acelera ainda mais o derretimento de gelo marinho. E isso, claro, gera um novo ciclo de retroalimentação que intensifica o aquecimento global, ou seja, um feedback positivo . Além disso, o oceano e a criosfera também estão conectados por ciclos biogeoquímicos — um termo comprido que basicamente descreve como os elementos químicos circulam entre os diferentes "reservatórios" do planeta. O permafrost, por exemplo, armazena grandes quantidades de carbono na forma de matéria orgânica que, ao longo de milhares de anos, ficou presa no gelo. E quando descongelado, devido ao aumento das temperaturas globais, esse carbono é liberado na forma de dióxido de carbono e metano, dois potentes gases de efeito estufa. E daí para frente, só pra trás. Esse processo de liberação de gases acelera o aquecimento global, criando um... FEEDBACK POSITIVO, isso aí! Além do carbono, o ferro — que se acumula no gelo marinho durante o inverno — também é liberado no oceano quando esse gelo derrete. E esse ferro funciona como um verdadeiro “supernutriente” para o fitoplâncton (organismos microscópicos que fazem fotossíntese e formam a base de toda a cadeia alimentar marinha). Com mais fitoplâncton realizando fotossíntese, maior é a captura de CO 2  da atmosfera pelos oceanos, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas através de um feedback negativo . O fitoplâncton também influencia o clima por meio da produção de dimetilsulfeto (DMS), um composto que, ao ser liberado para a atmosfera, contribui para a formação de núcleos de condensação de nuvens. Em outras palavras, o DMS ajuda na formação de nuvens, especialmente aquelas mais baixas e brilhantes, que possuem alto albedo e refletem parte da radiação solar de volta ao espaço. Esse processo pode atuar como um feedback negativo, contribuindo para o resfriamento do planeta. No entanto, assim como outros mecanismos climáticos, a intensidade e a relevância desse efeito ainda dependem de diversos fatores ambientais e interações complexas no sistema climático. Mas nem tudo são águas calmas… essa “explosão” de fitoplâncton impulsionada pelo ferro também traz efeitos colaterais. Além da alta demanda de oxigênio durante o crescimento desses organismos, quando esse grande volume de fitoplâncton morre, sua decomposição consome ainda mais oxigênio da água. Esse processo pode levar à desoxigenação dos oceanos, formando as chamadas zonas mortas — áreas onde a vida marinha não consegue se sustentar por falta de oxigênio. E o cenário piora quando somamos isso ao aumento da estratificação da coluna d’água, que dificulta a mistura vertical entre as camadas do oceano. Sem essa mistura, o oxigênio das camadas superficiais não chega às regiões mais profundas, deixando-as ainda mais pobres em O2 . O resultado? Mais um feedback positivo . Outro efeito importante das mudanças climáticas é a acidificação dos oceanos. À medida que o dióxido de carbono (CO 2 ) é absorvido pela água do mar, ele altera sua composição química e aumenta a acidez. Isso afeta diretamente os organismos marinhos calcificantes — como corais, moluscos e certos tipos de plâncton — que dependem de cálcio (e da química adequada da água) para construir suas conchas e esqueletos. Quando a água fica mais ácida, esses organismos têm muito mais dificuldade em formar suas estruturas calcárias. E se eles calcificam menos, menos CO2 é removido da atmosfera e armazenado no oceano por meio desses processos biológicos. E a essa altura você já deve estar respondendo sozinho, tudo isso cria um... Isso mesmo! Um feedback positivo . Esquema dos principais feedbacks climáticos fornecidos pela atmosfera, criosfera e condições físico-químicas dos oceanos. Autoria: Milena Lara e Poliana Santos. Você pode estar pensando: "Mas, espera aí, no começo foi dito que os cientistas ainda não entendem bem essas reações às reações e depois passou mais de 10 parágrafos explicando sobre elas?". A verdade é que mesmo que as pesquisas estejam avançando muito, a intensificação do desequilíbrio do balanço radiativo terrestre somado a esses mecanismos de retroalimentação aumentam a sensibilidade do sistema climático a perturbações. Isso significa que, quanto mais desequilibrado o sistema, mais respostas interconectadas e complexas são geradas, tornando as consequências cada vez mais difíceis de prever e, muitas vezes, irreversíveis — a nossa bola de neve desgovernada. Mas calma, não precisamos entrar em pânico. Embora o caminho à frente seja desafiador, ele também está repleto de oportunidades para a ciência e a inovação. Cada nova descoberta funciona como uma ferramenta a mais para nos ajudar a construir um futuro mais sustentável e justo em termos climáticos. E quem sabe, caro leitor, você também possa se tornar um cientista do clima? Se não for o caso, pelo menos agora você vai ter muito mais do que um simples "é complicado" para dizer quando o tema das mudanças climáticas surgir na próxima conversa. Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica , sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica , sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani. Sobre as autoras: Poliana Santos:  Estudante de graduação em Oceanografia, atualmente no último semestre do curso. Atua no Laboratório de Bioindicadores Ambientais (LABI) do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), onde desenvolve atividades voltadas à pesquisa científica. Tem grande interesse em divulgação científica e vem participando de projetos nessa área no âmbito do laboratório. Acredita que tornar a ciência mais acessível é uma forma de aproximar a sociedade da ciência e conscientizar sobre o que é produzido na universidade pública. Milena de Lara:  Minha relação com o oceano começou ainda na infância, em dias de praia que pareciam não ter fim e em que sair da água nunca era uma opção fácil. Entre mergulhos, olhos ardendo de sal e cabelos cheios de areia, surgiu uma curiosidade que cresceu tanto ao longo dos anos que se tornou escolha. Hoje sou estudante de Oceanografia da USP e desenvolvo minha iniciação científica na área de refúgios climáticos, investigando como diferentes regiões podem atuar como áreas de proteção para recifes de corais diante das mudanças do clima. Também sou autora de dois livros infantis sobre baleias e golfinhos. Acredito que a ciência deve ser acessível e que as histórias são uma forma potente de despertar curiosidade, aproximar as pessoas do conhecimento científico e transformar a maneira como enxergamos o mundo. #DescomplicandoNetuno #Clima #MudançasClimáticas #Convidados

  • Cansei... (Ou por que desanimei de participar de eventos científicos?)

    Por Juliana Leonel Ilustração de Caia Colla Lembro como se fosse hoje do primeiro evento científico que participei - lá em 2002, durante a graduação em Oceanologia. A escrita e a submissão do primeiro resumo, a espera pelo aceite (ainda não sabia que o aceite era virtualmente automático), a inscrição, preparar o pôster e tudo mais. Lembro-me com alegria de ver pessoas interessadas pelo pôster, ainda que o verdadeiro motivo fosse a foto de leão marinho que tinha escolhido como fundo e não o conteúdo em si. Foi nesse congresso que conheci pessoalmente a minha futura orientadora de doutorado e a partir daí começamos a construir o meu projeto de pesquisa. Depois disso, tive a oportunidade de participar de muitos outros eventos - nacionais e internacionais. Sempre fui muito ativa neles: pôster, apresentação oral, coordenação de sessões, palestras etc . Eu conversava com todo mundo, parava nos pôsteres dos mais diversos temas e, consequentemente, construía muitas oportunidades. Um capítulo extra na minha tese - e o meu primeiro artigo - foi fruto de uma dessas conversas. Também de conversas similares foram construídos outros artigos e oportunidades para meus orientandos; uma dissertação de mestrado; uma oportunidade de doutorado sanduíche; visitas científicas e muito aprendizado.  Mas, de repente, esses eventos começaram a ficar cansativos. Seria a idade ( hello  etarismo)? Será que perdi o ânimo ou o interesse em aprender coisas novas? Foi durante a pandemia da COVID-19 que eu comecei a entender melhor que esse cansaço não era exatamente físico, mas um cansaço de "sempre ver a mesma coisa e as mesmas pessoas" . Explicarei melhor. Durante a pandemia, muitos eventos ocorreram de forma online e com preços muito mais acessíveis (aquele congresso de 200 dólares passou a custar 10 dólares, sem custos de locomoção e hospedagem) e isso propiciou que pessoas que nunca tiveram - ou teriam - condições financeiras (ou outros impedimentos) pudessem participar. E, de repente, esses eventos ficaram tão mais diversos, com tanta gente nova (= que nunca participou antes) e trabalhos diferentes. E, especificamente para congressos internacionais, tanta gente do Sul Global pôde participar e falar de regiões/espécies que nunca ninguém ouviu falar antes. E isso foi tão maravilhoso!  E sobre "coisas novas", não é que antes era exatamente a mesma coisa/dado apresentado em todo evento, mas era igual no sentido que era sempre o mesmo "tipo de estudo". Por exemplo (na minha área), todo ano o mesmo grupo trazia que "identificamos pela primeira vez as substâncias X, Y e Z no oceano e nossos estudos apontam que são persistentes e tóxicas". E nas entrelinhas isso só significava que "somos um grupo com condições de comprar um equipamento de 5 milhões de reais" e, por isso, esse trabalho foi possível. Também cansei de ir em eventos "globais" onde não havia nem 5 pessoas de fora da Europa/América do Norte; cansei de participar de discussões sobre diversidade com um monte de gente branca ou homens brancos heteronormativos; ou com pessoas que apontavam o dedo para quem usou avião (ao invés de trem) para viajar sem conseguir enxergar que algumas pessoas precisam literalmente cruzar um oceano; cansei de discutir sustentabilidade e políticas ambientais euro-centradas, sem o menor interesse de entender o contexto de cada região do mundo; cansei de ouvir "já entendemos sobre a ocorrência da substância X", sendo que em muitos lugares há um vazio de dados...Enfim, cansei.  Não, minha intenção aqui não é desanimar você sobre a participação em eventos. Se você tiver a oportunidade, vá! Mas se você não tiver a oportunidade, não sinta culpa ou ache que vai ficar para trás. E, se um dia tiver a oportunidade de participar de comissões organizadoras de eventos, que tal começar a repensar o modelo atual?  Sobre a autora: Formada em Oceanologia na FURG com doutorado em Oceanografia Química pela USP. Entre um trabalho, uma bolsa e um intercâmbio passou também pela Unimonte, UFPR e UFBA, Texas A&M University, Health Department of New York, Heriot-Watt University e da Stockholm University. Atualmente é professora adjunta na UFSC. ​Trabalha com poluição marinha, principalmente contaminantes sintéticos e resíduos sólidos. Mas também atua na geoquímica estudando o ciclo do carbono no ambiente marinho. Desde abril/20 tem se aventurado como mãe do Ian. Não abre mão de cozinhar e experimentar novos sabores, mas não sem antes estudar os processos/química que tornam um prato possível. Também gosta de viajar, ler, fazer trilha e tomar um banho de mar (ou cachoeira). #VidaDeCientista #Congressos #Academia #Eventos #JulianaLeonel

  • Sobre peixes alienígenas, videogames e tubarões amigos

    Por Flávia Ribeiro Santos Ou como jogos de videogame fizeram eu me apaixonar pelo oceano e querer estudar sobre ele. Montagem: Natasha Hoff . O ambiente marinho sempre instigou a imaginação humana, dando origem a várias lendas e às suas representações na literatura e, posteriormente, no cinema. Sentimentos de medo, fascinação e aventura foram extensamente retratados ao longo da história. Apesar disso, a experiência sempre foi passiva e, sendo assim, possui suas limitações. Até que chegamos à criação dos videogames e sua interatividade revolucionária. Aqui, a liberdade de criação atinge seu máximo potencial, e encontramos tanto jogos com representações e mecânicas realistas quanto completas saladas de ideias malucas. Mas algo em comum que todos esses jogos possuem é o sentimento de estar (literalmente) mergulhando no desconhecido. “Como estaria o oceano num futuro longínquo onde a humanidade já foi extinta?” é basicamente a premissa do jogo “ The Aquatic Adventure of the Last Human ”, lançado em 2016. Como o título indica, você é o último ser humano vivo num futuro distópico onde as mudanças climáticas obrigaram a humanidade a viver em cidades submersas e foi enviado ao espaço em busca de planetas habitáveis. Quando retorna, centenas de anos depois (como isso foi possível, fica a cargo da imaginação do jogador), encontra apenas as ruínas do que antes foi uma civilização, e tudo está tomado por organismos marinhos, e alguns deles bem hostis. Um dos vários ambientes pelos quais você pode navegar pelo jogo. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. O jogo retrata diversos biomas marinhos, alguns mais fiéis e outros mais hipotéticos de um futuro distante, mas o que chama a atenção é que todos os organismos são extremamente grandes. De peixes nadando pelo cenário até um polvo gigante, tudo tem proporções exageradas. Considero liberdade poética dos criadores para aumentar o sentimento de pequenez diante da natureza (e para criar chefes de área assustadores). Se a vida marinha em “ The Aquatic Adventure of the Last Human ” já parece bizarra, imagine retratar não o oceano que conhecemos aqui da Terra, mas o de um outro planeta, em outro sistema, com criaturas completamente diferentes. Estou falando de “ Subnautica ”, jogo do estilo sobrevivência lançado em 2018, e o principal motivo de eu estar cursando Oceanografia. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. A história começa de forma simples: você é um humano que estava viajando em um ônibus espacial, e ele cai num planeta distante que é quase todo tomado por água. Por ser um jogo de sobrevivência, o jogador precisa construir objetos e coletar recursos para ajudar na progressão e ficar atento ao nível de fome, hidratação e oxigênio. Mas o jogo brilha mesmo é na imersão. Sabe quando você está embaixo d'água e todos os sons parecem abafados e distantes? Ele reproduz isso com perfeição. Componentes reais como pressão e nível de penetração da luz solar também estão presentes e impactam diretamente os organismos e a progressão do jogador, e, em grandes profundidades, você encontra bioluminescência. Também existem biomas inspirados no oceano da Terra, desde florestas de kelps até fontes hidrotermais, passando por recifes de coral e sistemas de cavernas gigantescos, cada um com sua fauna característica. Conforme o jogador atinge profundidades cada vez maiores, fragmentos da história vão sendo revelados, tornando o principal desafio alcançar o ponto mais profundo do planeta. Tarefa nada fácil já que, além do próprio gradiente de pressão, existem muitas criaturas agressivas doidas prontas para se alimentar de você. Um dos vários “leviathans”, criaturas enormes que você pode encontrar em "Subnautica”. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. Se você for corajosa/o o suficiente para seguir explorando cada vez mais profundamente, alcançará a conclusão da narrativa que é, para mim, uma das maneiras mais lúdicas já feitas de se ensinar sobre equilíbrio de ecossistemas e como nossas ações impactam o meio ambiente. Sem spoilers para não estragar a surpresa. Já que falamos sobre equilíbrio de ecossistemas, não posso deixar de mencionar “ Abzu ”, outro jogo de 2016 onde você controla um robô mergulhador que explora diversos ambientes marinhos da Terra com gráficos estilizados. Abrir esse jogo é quase uma meditação, pois aqui o que importa não é sobreviver: não existem riscos que ameacem o personagem, o importante é a experiência emotiva e de contemplação que faz com que o jogador fique fascinado com toda a vida marinha existente. E por falar em meditação, você realmente pode fazer isso em pontos específicos, e o mais incrível: assumir o controle dos diversos animais presentes no ambiente e sair nadando por aí. Mas como nem tudo são flores, existe um momento de clímax conforme o jogador progride, em que, tragicamente, toda a vida presente começa a desaparecer deixando apenas o vazio, e cabe a nós descobrir como restaurar a fauna e o equilíbrio do oceano em um desfecho emocionante. E também não posso deixar de mencionar que temos uma representação positiva de um tubarão-branco na história, que de início parece ameaçador, mas se revela uma espécie de guia para o protagonista, e inclusive será peça central tanto do clímax quanto da conclusão da narrativa. Apesar de serem três jogos bem diferentes, todos me fizeram eu me sentir parte integrante do oceano, sensação que só a experiência interativa pode proporcionar. Seja num submarino ou nadando nas costas de um tubarão, a conexão torna-se muito mais profunda do que em outras mídias, tornando os videogames uma ferramenta poderosa para educação ambiental e desenvolvimento da sensibilidade. Foram apenas três exemplos que estão entre meus favoritos, mas existem muitos outros jogos sobre o mar por aí, e um deles com toda a certeza vai fazer você também se encantar com esse ambiente tão místico e misterioso. Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani. Sobre a autora: Flávia é estudante do sexto semestre em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Ictióloga que adora fotografar insetos, mãe de gato e cinéfila, faz parte do Laboratório de Diversidade, Evolução e Ecologia de Peixes de Mar Profundo (DEEP Lab) onde faz iniciação científica tirando foto de otólito de peixe. #CiênciasDoMar #Convidados #Videogame #Lúdico #Aventura

  • Se eu pudesse te emprestar meus olhos, mulher...

    Por Carla Elliff Ilustração por Alexya Queiroz . Se eu pudesse te emprestar meus olhos, te pediria para usá-los em frente a um espelho. Lá você veria uma mulher que admiro muito e por muitas razões.  Admiro pela competência e inteligência. Tanto em questões técnicas, profundidade de estudo e capacidade de compreender processos complexos, quanto pela inteligência emocional que te confere sensibilidade e tato com o mundo. Você veria com meus olhos uma mulher que cativa, que engaja, que encanta. Alguém que traz algo único para qualquer espaço e, com isso, enriquece toda discussão. A mulher que eu vejo com meus olhos é humana. Maravilhosamente humana. Tem dias que está motivada e quer mudar o mundo, mas em outros está azeda e quer mandar todo mundo à merda. Consegue rir de si mesma e ser vulnerável. Vejo sua mão estendida para mim e para tantas outras pessoas, sempre que precisamos de ajuda. Diante de injustiça, você se soma a vozes que buscam transformação. Você tem compaixão, paciência e empatia. Mas pelos meus olhos vejo você se questionar e se duvidar. Vejo você querer desistir por achar que não é capaz. Você não se vê como eu te vejo. E eu não sei como fazer você se desver assim. Então vou continuar te vendo pelos meus olhos e vou te contando tudo que eu sei que você é, pode ser? Ah, mas se eu pudesse te emprestar meus olhos... Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres , a equipe do Bate-Papo com Netuno preparou uma leitura deste texto para nossas redes sociais. Confira aqui: Sobre a autora Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP. ​ O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado! #MulheresNaCiência #Sororidade #Amizade #Autoamor #Admiração #CarlaElliff

  • Uma década de Bate-Papo com Netuno: ciência, memória e afeto

    O ano de 2025 foi um ano de celebração para a nossa equipe: já são 10 anos de Bate-Papo com Netuno! Ao longo deste tempo, passamos de sete mulheres para 12, além de todos os colaboradores que passaram pelo Bate-Papo ao longo dos anos. Hoje, já são mais de 500 textos publicados em português e inglês, duas temporadas de podcast, tirinhas, um livro e um artigo científico publicados, e a participação em inúmeros eventos acadêmicos e científicos. Tudo isso, fruto de um trabalho VOLUNTÁRIO! Para celebrarmos esses 10 anos de existência, decidimos reunir nossa equipe, espalhada pelos diversos cantos do Brasil, e realizar um evento para falar sobre divulgação científica, oportunidades e mulheres nas Ciências do Mar. Considerando toda a nossa trajetória, o evento recebeu o título Uma Década de Bate-Papo com Netuno: Ciência, Memória e Afeto . No dia 07 de agosto de 2025, nossa equipe e convidados se reuniram no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) para um dia de muitas trocas, risadas, lágrimas e carinho. O evento também contou com transmissão on-line  e foi visto até nos confins da Ilha da Trindade! Iniciamos o dia com uma palestra da querida Germana Barata , do LabJor da UNICAMP, que tratou da Divulgação Científica como fonte de informação, democratização do conhecimento e engajamento social. Seguimos para uma mesa redonda com o tema “Dez anos de divulgação científica em Ciências do Mar” , com moderação da nossa editora Natasha Hoff  e participação das também editoras Claudia Namiki , Jana del Favero  e Yonara Garcia . Enxugamos as lágrimas e, segurando as emoções, partimos para uma mesa redonda sobre a profissionalização da divulgação científica , moderada pela nossa editora Jana del Favero , além da editora Luiza Soares , da ilustradora Alexya Queiroz  e do convidado Gabriel Monteiro . Depois de uma manhã cheia de emoções e conhecimento, percorremos importantes discussões sobre barreiras enfrentadas pelas mulheres nas Ciências do Mar no Brasil com nossa convidada Adriana Lippi , que apresentou os resultados de sua dissertação de mestrado. Nossa editora Carla Elliff  moderou uma discussão com nossa editora Natasha Hoff  e as convidadas Izadora Mattiello  e Adriana Lippi  sobre as portas abertas através da divulgação científica . A palestra da querida sereia, cientista e jedi, Bárbara Pinheiro , encerrou o dia em grande estilo, tratando da história, cultura e empoderamento de mulheres negras nas Ciências do Mar. Finalizando esse emocionante dia, houve o lançamento do livro Tiradas do Netuno, que só pôde ser concretizado pelo apoio de vocês, nossos queridos leitores, em um financiamento coletivo! Ah, teve parabéns e bolo também! Para aquecer o coração e relembrar um pouco do que foi este momento, seguem alguns registros: Palestrantes e ouvintes reunidos. Editoras, colaboradoras e ex-colaboradoras do Blog de Divulgação Científica, Bate-Papo com Netuno, reunidas para comemorar o aniversário de 10 anos. Jana del Favero e Alexya Queiroz reunidas para o lançamento do livro "Tiradas do Netuno". Sessão de autógrafo do livro "Tiradas do Netuno". Agradecemos a todos que possibilitaram que este dia se concretizasse: aos apoiadores do financiamento coletivo e aos participantes e convidados do evento! Que venham muitos mais anos de Bate-Papo com Netuno! #NetuniandoPorAí #Encontro10Anos #DivulgaçãoCientífica #Presencial

  • O museu como um espaço político

    Por Carla Elliff Talvez o título desse texto tenha te causado um estranhamento, especialmente se você está pensando em museus de ciências e história natural. Um museu sobre a história da ditadura no Brasil, de guerras, que foca em questões geopolíticas? Vá lá! Talvez você esteja pensando “ como visitar um museu e olhar algo como um fóssil de dinossauro poderia ser um ato político? ”  Pois bem, pode adicionar visita a museus junto à lista de tudo mais que é político: comer , se vestir , ler , educar ... tudo é um ato político . O que quero dizer com isso é que nossas escolhas, gestos e silêncios afetam, direta ou indiretamente, a vida em sociedade. Política não é só o que acontece no governo, é também como usamos recursos, quem incluímos ou excluímos, como consumimos, como falamos, que causas apoiamos ou ignoramos. Mesmo o que parece “neutro” ou “individual” tem implicações sociais, culturais e econômicas, logo, é político. Nos últimos anos, têm sido noticiadas ocasiões em que a sociedade se opõe à presença de estátuas , monumentos  ou homenagens  de figuras cuja bagagem histórica controversa está carregada de racismo, misoginia, ódio, regimes autoritários e outros crimes. No Brasil, temos diversos exemplos de escolas que foram renomeadas, com novos nomes escolhidos em consulta à comunidade escolar. Daí surge uma pergunta importante: O que acontece (ou deveria acontecer) com estátuas, monumentos e outras peças desse tipo quando estão dentro de um museu?   Recentemente fui impactada por essa pergunta quando visitei o Hunterian Museum , na Universidade de Glasgow na Escócia. Pessoalmente, nunca trabalhei com museus ou coleções científicas , e meu ponto de vista sobre o assunto é de apreciadora desses espaços. Quase não me importa a temática de um museu: se calhou que eu consigo visitar, tô dentro! Leio praticamente todas as plaquinhas informativas, olho item por item das exibições, adoro assinar aqueles livros de visitantes e deixar um recadinho... Carrego comigo minha lente inevitável de cientista e me pego fazendo conexões com meu trabalho e minha vida. Chorei com as notícias do incêndio no Museu Nacional em 2018 . O Hunterian Museum foi uma dessas visitas que eu não planejei. Eu tinha um compromisso na Universidade de Glasgow e decidi sair bem cedo para não me atrasar e ter tempo de curtir a caminhada. Pelo Google Maps, vi que o museu (e galeria de arte de mesmo nome) ficava no caminho e era gratuito – combo perfeito!  O museu existe desde 1807 na universidade que, por sua vez, existe desde 1451! O prédio em si já impressiona e, no momento da minha visita, o primeiro saguão estava com uma exibição de peças de quando o Império Romano dominava a Grã-Bretanha. Prédio da Universidade de Glasgow que abriga o Hunterian Museum. (Fotos de Gerson Fernandino, CC BY SA 4.0) Seguindo para outro salão, havia um mural explicando que as coleções ali apresentadas no museu foram, em sua maioria, de uma doação póstuma do Dr. William Hunter (1718-1783), médico obstetra que acumulou não apenas itens da área das ciências da saúde, mas também arte, geologia, livros... E foi nesse mural que percebi que algo era diferente nesse lugar. O último parágrafo dizia o seguinte: Como instituição, o Hunterian não pode ser separado das estruturas econômicas e de poder que criaram e mantiveram a escravidão tanto no Império quanto na escravidão transatlântica em Glasgow, na Escócia e, mais amplamente, na Grã-Bretanha. Mural do Hunterian Museum explicando quem foi William Hunter e como o museu foi criado. (Fotos de Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Foi a primeira vez que vi esse tipo de reconhecimento explícito! E ler isso parecia automaticamente mudar a forma como eu estava encarando o museu e tudo que ele continha – era impossível “desver”. Ainda digerindo essa informação, me deparei com uma estátua de mármore com imagens alusivas à escravidão sendo projetadas sobre ela. A placa informativa dizia: James Watt – Estátuas e Escravidão (...) Ao redor do mundo no verão de 2020, estátuas que pareciam permanentes e seguras estão sendo reavaliadas. Esta estátua do engenheiro escocês James Watt (1736-1819) foi dada ao The Hunterian pelo filho de Watt em 1833. (...) Essa estátua ajudou a criar a imagem de Watt como dominante, acadêmico, justo: um herói. O que essa estátua não nos conta é que o treinamento caro de aprendiz dele em Londres foi pago com os lucros do comércio de açúcar e tabaco de seu pai na América do Norte e Caribe. (...) James Watt e seu irmão John estiveram diretamente envolvidos, em ao menos uma ocasião, na compra e venda de uma criança negra escravizada na Escócia. O contraste ali colocado me deixou incrédula que aquela estátua estivesse ali. Mas, antes que eu pudesse formar uma opinião mais sólida, segui lendo a placa e me deparei com as seguintes perguntas: O que você pensa dessa estátua? Ela pertence a esse lugar? Uma estátua em um museu é diferente de uma estátua em uma rua ou praça? Ela precisa de uma etiqueta melhor ou precisa ser exibida de outra forma? Estátuas ajudam a gente a entender o passado ou elas, às vezes, impedem essa compreensão? Estátua de James Watt no Hunterian Museum e placa informativa/provocativa. (Fotos de Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Não sei (até agora) como responder! Eu mal tinha andado trinta passos e este museu já tinha virado uma experiência inteiramente diferente do que eu imaginava. Entrando agora no salão seguinte, encontrei mais informações sobre essas “plaquinhas disruptivas” que tornaram meu simples desvio pelo museu em algo transformador. Este movimento faz parte do projeto Curating Discomfort   (algo como “curadoria do desconforto”), uma intervenção que “propõe provocações e intervenções desconfortáveis ​​para nos ajudar a compreender que os museus perpetuaram ideologias de supremacia branca” – como descrito no site do projeto. E o desconforto não se restringe a questionar as figuras ali representadas em estátuas e quadros. Um ponto chave é questionar também como aquelas peças chegaram no museu. Elas foram roubadas? Se foram compradas, foi uma transação justa? As peças ali exibidas têm valor espiritual para povos que hoje não têm mais acesso a elas? Faz sentido exibir peças como “curiosidades” para entretenimento? Por exemplo, após uma revisão ética em 2024, optou-se por manter fechado o sarcófago da múmia de Shep-En-Hor, exibido no museu há mais de 200 anos, para garantir maior privacidade e respeito ao corpo ali presente. Fiquei pensando também na injustiça de não haver uma única espécie de coral brasileiro na área denominada “diversidade de corais”... (mas isso pode ser só meu viés falando!) Exemplos de itens em exibição no Hunterian Museum sob a ótica da intervenção “Curadoria do Desconforto” (Fotos de Gerson Fernandino e Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Correndo o risco de me atrasar para meu compromisso, rodei uma última vez pelo salão principal e entendi que eu não chegaria em respostas simples para as perguntas que vi no início da visita. Então, responderei à pergunta do meu leitor hipotético, “ como visitar um museu e olhar algo como um fóssil de dinossauro poderia ser um ato político? ”, com outras perguntas. Você já se perguntou como aquele fóssil foi parar naquele museu? Qual a narrativa escolhida para contar aquela história e por quê? Seria aquele espécime um exemplo de contrabando? Se sim, uma opção é o repatriamento do fóssil ao país original, como no caso de um acordo recente assinado entre Brasil e Alemanha , com a devolução de fósseis de regiões como a Bacia do Araripe ... e tantas outras perguntas possíveis para este e outros exemplos. Espero que esse texto tenha despertado desconforto e inquietações. Viva o museu como um espaço político! Sobre a autora: Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP. ​ O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado! #VidaDeCientista #Museu #ReparaçãoHistórica #Decolonialismo #ColeçãoCientífica #CarlaElliff

  • Semana Temática de Oceanografia na USP

    Entre os dias 29 de setembro a 03 de outubro de 2025, aconteceu a Semana Temática de Oceanografia  (STO) no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) no Campus Butantã em São Paulo - SP.  A STO acontece todo ano no IO-USP e é organizada pelos alunos do curso de Oceanografia que estão prestes a se formar. O evento tem o intuito de difundir conhecimentos e promover debates em todas as áreas da oceanografia para um público geral através de palestras, mesas redondas e minicursos e, geralmente, conta com uma temática norteadora. O tema da 20ª edição da STO foi “ Narrativas do Mar: Tradição Viva, Ciência em Transformação” .   Nesta edição, foi dado espaço às vozes que constroem a relação com o mar muito antes da ciência chegar. O intuito foi reconhecer os saberes de comunidades que vivem do oceano, suas histórias, costumes e modos de cuidar desse ambiente que também é casa, sustento e identidade. Nossa editora, Cláudia Namiki ,  foi convidada pelos alunos a coordenar o evento para garantir que a STO mantenha seu compromisso com a ciência, coletividade e construção de um oceano mais plural. Nas palavras de seus próprios alunos “é ela quem segura o leme quando precisa e é também quem nos incentiva a remar com autonomia”. Sem dúvida sua colaboração e calma presença foi essencial para deixar este evento mais especial!  Outra editora do Bate-Papo com Netuno, Luiza Soares , também foi convidada a participar da STO e compartilhar os aprendizados adquiridos na caminhada como divulgadora científica na palestra “ Ciência em transformação - Divulgação Científica como Ferramenta de Mudança ”. Durante sua fala, Luiza destacou as principais ferramentas que podem (e devem) ser utilizadas quando nos comunicamos com um público amplo e diverso. Além de enfatizar, é claro, a dedicação do Bate-Papo com Netuno,que há 10 anos torna a ciência mais democrática!  #NetuniandoPorAí #SemanaTematicadeOceanografia #SaberesTradicionais #DivulgaçãoCientífica  #ClaudiaNamiki #LuizaSoares

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