Resultados da Busca
542 resultados encontrados com uma busca vazia
- Efeito Bola de Neve: Desvendando os Feedbacks Climáticos
Por Milena de Lara e Poliana Santos Montagem: Natasha Hoff. Você tem notado como o clima tem se tornado cada vez mais imprevisível? Até os paulistanos, acostumados com as instabilidades climáticas da "terra da garoa", estão tendo dificuldades para acompanhar a sequência de ondas de calor recordes, invernos cada vez mais curtos, baixa umidade do ar e tempestades violentas. E, embora o termo "mudanças climáticas" já seja comum em conversas de família e até nas rodas de bar, ainda há muito a ser esclarecido sobre o funcionamento do clima da Terra. Dos mesmos criadores do efeito estufa , eu lhes apresento o efeito bola de neve . Vamos falar de feedbacks climáticos? O conceito de feedback climático Para os funcionários CLTs de escritório, o termo “feedback” já deve ser bem conhecido. É aquela resposta do supervisor ao que você fez que, de alguma forma, influencia o que você vai fazer depois — seja reforçando um comportamento, seja ajustando o rumo. No contexto climático, a lógica é parecida. Feedbacks climáticos são processos pelos quais uma mudança inicial no clima gera respostas que podem amplificar essa mudança — o que chamamos de feedbacks positivos — ou reduzi-la, no caso dos feedbacks negativos. Pode parecer um pouco contra intuitivo, já que, neste contexto, os feedbacks positivos raramente são bons para o planeta, enquanto os negativos, que ajudam a estabilizar o sistema, é que são "os bonzinhos". Vai ficar mais fácil de entender depois dos exemplos. Pense no final do semestre: um monte de provas, seminários e atividades para entregar, e você ficando maluco porque não consegue dar conta de tudo. Esse estresse começa a bagunçar a sua concentração e sua produtividade, fazendo você demorar ainda mais para terminar as tarefas. E aí, claro, o estresse só aumenta, gerando um ciclo vicioso ou um FEEDBACK POSITIVO. Por outro lado, todo esse estresse deixa seu corpo tão cansado que você decide fazer uma pausa para descansar. Ao fazer isso, seu nível de estresse diminui, sua concentração melhora, e você consegue aumentar sua produtividade. Como resultado, você começa a completar mais tarefas, o que reduz ainda mais o estresse, criando um ciclo que ajuda a estabilizar a situação ou, então, um FEEDBACK NEGATIVO. Recapitulando: feedbacks positivos geram respostas que intensificam o efeito inicial enquanto os feedbacks negativos geram respostas que diminuem ou estabilizam o efeito inicial. Portanto, "positivo" e "negativo" descrevem a direção do efeito (amplificar ou estabilizar), não se o efeito é bom ou ruim. Balanço radiativo da Terra e as Mudanças Climáticas Em linhas gerais, o clima na Terra é controlado pelo que chamamos de balanço radiativo ou balanço energético que, de maneira bastante simplificada, corresponde à soma de todas as entradas de energia no sistema climático menos todas as fugas energéticas. Entre as entradas, temos a radiação solar que a Terra recebe do Sol, e as saídas incluem a energia refletida de volta ao espaço e a energia emitida pela própria Terra. Esses fluxos de energia são regulados pelos diversos componentes do sistema climático, como a atmosfera, o solo, o oceano, a biosfera e a criosfera — regiões da superfície terrestre cobertas permanentemente por gelo e neve — que, embora, à primeira vista, possam parecer entidades independentes, fazem parte de um único sistema interconectado . Cada um desses componentes troca imensas quantidades de energia entre si e influenciam no comportamento uns dos outros. Dessa forma, o balanço radiativo funciona como uma balança mesmo: quando todas as entradas e saídas de energia estão equilibradas, a temperatura global tende a permanecer estável. No entanto, quando algo altera esse equilíbrio — como, por exemplo, o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera — a temperatura do planeta muda. Com as mudanças climáticas cada vez mais evidentes, as consequências já são bem conhecidas e até previstas pelos cientistas: aumento da temperatura, elevação do nível do mar, derretimento das geleiras, oceanos mais ácidos e caos, caos, caos. Já sabemos que toda ação gera uma reação, mas o que ainda escapa totalmente à compreensão da comunidade científica é como essas reações se engatam umas nas outras e acabam virando bolas de neve rolando sem freio — os nossos feedbacks. Feedback Albedo-Nuvens Lembra do ciclo da água que a gente aprende na escola? Ela chove, esquenta, evapora, vira nuvem e chove de novo... Com as temperaturas do planeta subindo, mais água é aquecida e evaporada e, portanto, mais nuvens são formadas. E mais nuvens no céu significam que mais radiação é refletida de volta, graças a um processo chamado albedo . Abrindo um parêntese rápido: albedo é, basicamente, a capacidade de uma superfície refletir radiação. É por isso que usar roupa preta no calor nunca parece uma boa ideia — superfícies escuras absorvem mais radiação (têm menor albedo), enquanto as claras refletem mais (têm maior albedo). Ok, agora vamos voltar para as nuvens... Aquelas nuvens bem brancas e fofinhas? Elas têm um albedo altíssimo, ou seja, refletem uma grande quantidade de radiação solar de volta para o espaço, ajudando a manter a superfície da Terra mais fresca. Então se o aquecimento global aumentar a quantidade de nuvens e essas nuvens ajudam a resfriar o planeta, é compreensível que você pense “Pronto, problema resolvido! A natureza é perfeita!” Mas calma lá — porque, como quase tudo no clima, a história é um pouco mais complicada. Tudo depende, na verdade, do tipo de nuvem que se forma. Esse feedback negativo só é gerado pelas nuvens baixas (que se formam nas camadas mais inferiores da atmosfera) que tendem a ser mais densas, branquinhas e brilhantes (com um alto albedo). Mas as nuvens mais altas e escuras, compostas por cristais de gelo, são mais esparsas e têm menor albedo, permitindo que a radiação solar passe. Elas também têm um papel importante ao refratar (desviar ou espalhar) a radiação infravermelha, o que acaba gerando um feedback positivo , ou seja, contribui para o aquecimento. E como sabemos se vão se formar nuvens altas ou baixas? À medida que o planeta esquenta, a diferença de temperatura entre a superfície e as camadas da atmosfera — o chamado gradiente vertical de temperatura — vai diminuindo, ou seja, fica mais homogêneo. Isso acontece porque estamos "aprisionando" mais calor na atmosfera (efeito estufa, lembra?). Com o aquecimento das camadas inferiores da atmosfera, as nuvens precisam se formar em altitudes mais elevadas para alcançar as temperaturas mais baixas necessárias à sua formação. O resultado disso é que, com menos nuvens baixas e mais nuvens altas, mais radiação solar acaba atingindo a superfície da Terra, o que aumenta ainda mais o calor. Além disso, essa mudança faz com que a atmosfera consiga segurar mais vapor d'água (um importante gás do efeito estufa), sem que ele se condense para formar as nuvens de chuva que estamos acostumados a ver. Feedback Albedo-Neve Já que falamos sobre o albedo, outro grande refletor de energia é a neve. Quando as temperaturas sobem, as calotas polares e o permafrost — ou solo permanentemente congelado — começam a derreter, o que diminui o albedo dessas regiões. Isso acontece porque, com menos neve cobrindo o solo ou o gelo do mar, mais da superfície escura fica exposta. E a água ou o solo escuro absorvem mais luz solar do que a neve branca, o que significa que eles retêm mais calor. Esse aquecimento faz com que mais gelo derreta, o que, por sua vez, reduz ainda mais a cobertura de neve, criando um feedback positivo . Feedback Circulação Oceânica e Ciclos Biogeoquímicos E lembra que dissemos que as componentes climáticas estavam interconectadas? Pois é. O derretimento das regiões polares não afeta só o albedo — ele também altera a salinidade e a estratificação dos oceanos. Estratificação, aliás, é apenas a forma como a água se organiza em camadas: a mais quente e leve em cima, a mais fria e densa embaixo. Como as correntes oceânicas dependem justamente dessas diferenças de temperatura e salinidade, qualquer mudança nesses fatores impacta diretamente os padrões de circulação em escala global. E isso é crítico porque a circulação termohalina (termo = temperatura; halina = salinidade) desempenha um papel fundamental na regulação do clima do planeta. Se essa circulação enfraquece, o transporte de calor — que normalmente distribui energia entre diferentes latitudes, longitudes e profundidades — fica comprometido. O resultado é acúmulo de calor nas camadas superficiais do oceano, o que acelera ainda mais o derretimento de gelo marinho. E isso, claro, gera um novo ciclo de retroalimentação que intensifica o aquecimento global, ou seja, um feedback positivo . Além disso, o oceano e a criosfera também estão conectados por ciclos biogeoquímicos — um termo comprido que basicamente descreve como os elementos químicos circulam entre os diferentes "reservatórios" do planeta. O permafrost, por exemplo, armazena grandes quantidades de carbono na forma de matéria orgânica que, ao longo de milhares de anos, ficou presa no gelo. E quando descongelado, devido ao aumento das temperaturas globais, esse carbono é liberado na forma de dióxido de carbono e metano, dois potentes gases de efeito estufa. E daí para frente, só pra trás. Esse processo de liberação de gases acelera o aquecimento global, criando um... FEEDBACK POSITIVO, isso aí! Além do carbono, o ferro — que se acumula no gelo marinho durante o inverno — também é liberado no oceano quando esse gelo derrete. E esse ferro funciona como um verdadeiro “supernutriente” para o fitoplâncton (organismos microscópicos que fazem fotossíntese e formam a base de toda a cadeia alimentar marinha). Com mais fitoplâncton realizando fotossíntese, maior é a captura de CO 2 da atmosfera pelos oceanos, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas através de um feedback negativo . O fitoplâncton também influencia o clima por meio da produção de dimetilsulfeto (DMS), um composto que, ao ser liberado para a atmosfera, contribui para a formação de núcleos de condensação de nuvens. Em outras palavras, o DMS ajuda na formação de nuvens, especialmente aquelas mais baixas e brilhantes, que possuem alto albedo e refletem parte da radiação solar de volta ao espaço. Esse processo pode atuar como um feedback negativo, contribuindo para o resfriamento do planeta. No entanto, assim como outros mecanismos climáticos, a intensidade e a relevância desse efeito ainda dependem de diversos fatores ambientais e interações complexas no sistema climático. Mas nem tudo são águas calmas… essa “explosão” de fitoplâncton impulsionada pelo ferro também traz efeitos colaterais. Além da alta demanda de oxigênio durante o crescimento desses organismos, quando esse grande volume de fitoplâncton morre, sua decomposição consome ainda mais oxigênio da água. Esse processo pode levar à desoxigenação dos oceanos, formando as chamadas zonas mortas — áreas onde a vida marinha não consegue se sustentar por falta de oxigênio. E o cenário piora quando somamos isso ao aumento da estratificação da coluna d’água, que dificulta a mistura vertical entre as camadas do oceano. Sem essa mistura, o oxigênio das camadas superficiais não chega às regiões mais profundas, deixando-as ainda mais pobres em O2 . O resultado? Mais um feedback positivo . Outro efeito importante das mudanças climáticas é a acidificação dos oceanos. À medida que o dióxido de carbono (CO 2 ) é absorvido pela água do mar, ele altera sua composição química e aumenta a acidez. Isso afeta diretamente os organismos marinhos calcificantes — como corais, moluscos e certos tipos de plâncton — que dependem de cálcio (e da química adequada da água) para construir suas conchas e esqueletos. Quando a água fica mais ácida, esses organismos têm muito mais dificuldade em formar suas estruturas calcárias. E se eles calcificam menos, menos CO2 é removido da atmosfera e armazenado no oceano por meio desses processos biológicos. E a essa altura você já deve estar respondendo sozinho, tudo isso cria um... Isso mesmo! Um feedback positivo . Esquema dos principais feedbacks climáticos fornecidos pela atmosfera, criosfera e condições físico-químicas dos oceanos. Autoria: Milena Lara e Poliana Santos. Você pode estar pensando: "Mas, espera aí, no começo foi dito que os cientistas ainda não entendem bem essas reações às reações e depois passou mais de 10 parágrafos explicando sobre elas?". A verdade é que mesmo que as pesquisas estejam avançando muito, a intensificação do desequilíbrio do balanço radiativo terrestre somado a esses mecanismos de retroalimentação aumentam a sensibilidade do sistema climático a perturbações. Isso significa que, quanto mais desequilibrado o sistema, mais respostas interconectadas e complexas são geradas, tornando as consequências cada vez mais difíceis de prever e, muitas vezes, irreversíveis — a nossa bola de neve desgovernada. Mas calma, não precisamos entrar em pânico. Embora o caminho à frente seja desafiador, ele também está repleto de oportunidades para a ciência e a inovação. Cada nova descoberta funciona como uma ferramenta a mais para nos ajudar a construir um futuro mais sustentável e justo em termos climáticos. E quem sabe, caro leitor, você também possa se tornar um cientista do clima? Se não for o caso, pelo menos agora você vai ter muito mais do que um simples "é complicado" para dizer quando o tema das mudanças climáticas surgir na próxima conversa. Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica , sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica , sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani. Sobre as autoras: Poliana Santos: Estudante de graduação em Oceanografia, atualmente no último semestre do curso. Atua no Laboratório de Bioindicadores Ambientais (LABI) do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), onde desenvolve atividades voltadas à pesquisa científica. Tem grande interesse em divulgação científica e vem participando de projetos nessa área no âmbito do laboratório. Acredita que tornar a ciência mais acessível é uma forma de aproximar a sociedade da ciência e conscientizar sobre o que é produzido na universidade pública. Milena de Lara: Minha relação com o oceano começou ainda na infância, em dias de praia que pareciam não ter fim e em que sair da água nunca era uma opção fácil. Entre mergulhos, olhos ardendo de sal e cabelos cheios de areia, surgiu uma curiosidade que cresceu tanto ao longo dos anos que se tornou escolha. Hoje sou estudante de Oceanografia da USP e desenvolvo minha iniciação científica na área de refúgios climáticos, investigando como diferentes regiões podem atuar como áreas de proteção para recifes de corais diante das mudanças do clima. Também sou autora de dois livros infantis sobre baleias e golfinhos. Acredito que a ciência deve ser acessível e que as histórias são uma forma potente de despertar curiosidade, aproximar as pessoas do conhecimento científico e transformar a maneira como enxergamos o mundo. #DescomplicandoNetuno #Clima #MudançasClimáticas #Convidados
- Cansei... (Ou por que desanimei de participar de eventos científicos?)
Por Juliana Leonel Ilustração de Caia Colla Lembro como se fosse hoje do primeiro evento científico que participei - lá em 2002, durante a graduação em Oceanologia. A escrita e a submissão do primeiro resumo, a espera pelo aceite (ainda não sabia que o aceite era virtualmente automático), a inscrição, preparar o pôster e tudo mais. Lembro-me com alegria de ver pessoas interessadas pelo pôster, ainda que o verdadeiro motivo fosse a foto de leão marinho que tinha escolhido como fundo e não o conteúdo em si. Foi nesse congresso que conheci pessoalmente a minha futura orientadora de doutorado e a partir daí começamos a construir o meu projeto de pesquisa. Depois disso, tive a oportunidade de participar de muitos outros eventos - nacionais e internacionais. Sempre fui muito ativa neles: pôster, apresentação oral, coordenação de sessões, palestras etc . Eu conversava com todo mundo, parava nos pôsteres dos mais diversos temas e, consequentemente, construía muitas oportunidades. Um capítulo extra na minha tese - e o meu primeiro artigo - foi fruto de uma dessas conversas. Também de conversas similares foram construídos outros artigos e oportunidades para meus orientandos; uma dissertação de mestrado; uma oportunidade de doutorado sanduíche; visitas científicas e muito aprendizado. Mas, de repente, esses eventos começaram a ficar cansativos. Seria a idade ( hello etarismo)? Será que perdi o ânimo ou o interesse em aprender coisas novas? Foi durante a pandemia da COVID-19 que eu comecei a entender melhor que esse cansaço não era exatamente físico, mas um cansaço de "sempre ver a mesma coisa e as mesmas pessoas" . Explicarei melhor. Durante a pandemia, muitos eventos ocorreram de forma online e com preços muito mais acessíveis (aquele congresso de 200 dólares passou a custar 10 dólares, sem custos de locomoção e hospedagem) e isso propiciou que pessoas que nunca tiveram - ou teriam - condições financeiras (ou outros impedimentos) pudessem participar. E, de repente, esses eventos ficaram tão mais diversos, com tanta gente nova (= que nunca participou antes) e trabalhos diferentes. E, especificamente para congressos internacionais, tanta gente do Sul Global pôde participar e falar de regiões/espécies que nunca ninguém ouviu falar antes. E isso foi tão maravilhoso! E sobre "coisas novas", não é que antes era exatamente a mesma coisa/dado apresentado em todo evento, mas era igual no sentido que era sempre o mesmo "tipo de estudo". Por exemplo (na minha área), todo ano o mesmo grupo trazia que "identificamos pela primeira vez as substâncias X, Y e Z no oceano e nossos estudos apontam que são persistentes e tóxicas". E nas entrelinhas isso só significava que "somos um grupo com condições de comprar um equipamento de 5 milhões de reais" e, por isso, esse trabalho foi possível. Também cansei de ir em eventos "globais" onde não havia nem 5 pessoas de fora da Europa/América do Norte; cansei de participar de discussões sobre diversidade com um monte de gente branca ou homens brancos heteronormativos; ou com pessoas que apontavam o dedo para quem usou avião (ao invés de trem) para viajar sem conseguir enxergar que algumas pessoas precisam literalmente cruzar um oceano; cansei de discutir sustentabilidade e políticas ambientais euro-centradas, sem o menor interesse de entender o contexto de cada região do mundo; cansei de ouvir "já entendemos sobre a ocorrência da substância X", sendo que em muitos lugares há um vazio de dados...Enfim, cansei. Não, minha intenção aqui não é desanimar você sobre a participação em eventos. Se você tiver a oportunidade, vá! Mas se você não tiver a oportunidade, não sinta culpa ou ache que vai ficar para trás. E, se um dia tiver a oportunidade de participar de comissões organizadoras de eventos, que tal começar a repensar o modelo atual? Sobre a autora: Formada em Oceanologia na FURG com doutorado em Oceanografia Química pela USP. Entre um trabalho, uma bolsa e um intercâmbio passou também pela Unimonte, UFPR e UFBA, Texas A&M University, Health Department of New York, Heriot-Watt University e da Stockholm University. Atualmente é professora adjunta na UFSC. Trabalha com poluição marinha, principalmente contaminantes sintéticos e resíduos sólidos. Mas também atua na geoquímica estudando o ciclo do carbono no ambiente marinho. Desde abril/20 tem se aventurado como mãe do Ian. Não abre mão de cozinhar e experimentar novos sabores, mas não sem antes estudar os processos/química que tornam um prato possível. Também gosta de viajar, ler, fazer trilha e tomar um banho de mar (ou cachoeira). #VidaDeCientista #Congressos #Academia #Eventos #JulianaLeonel
- Sobre peixes alienígenas, videogames e tubarões amigos
Por Flávia Ribeiro Santos Ou como jogos de videogame fizeram eu me apaixonar pelo oceano e querer estudar sobre ele. Montagem: Natasha Hoff . O ambiente marinho sempre instigou a imaginação humana, dando origem a várias lendas e às suas representações na literatura e, posteriormente, no cinema. Sentimentos de medo, fascinação e aventura foram extensamente retratados ao longo da história. Apesar disso, a experiência sempre foi passiva e, sendo assim, possui suas limitações. Até que chegamos à criação dos videogames e sua interatividade revolucionária. Aqui, a liberdade de criação atinge seu máximo potencial, e encontramos tanto jogos com representações e mecânicas realistas quanto completas saladas de ideias malucas. Mas algo em comum que todos esses jogos possuem é o sentimento de estar (literalmente) mergulhando no desconhecido. “Como estaria o oceano num futuro longínquo onde a humanidade já foi extinta?” é basicamente a premissa do jogo “ The Aquatic Adventure of the Last Human ”, lançado em 2016. Como o título indica, você é o último ser humano vivo num futuro distópico onde as mudanças climáticas obrigaram a humanidade a viver em cidades submersas e foi enviado ao espaço em busca de planetas habitáveis. Quando retorna, centenas de anos depois (como isso foi possível, fica a cargo da imaginação do jogador), encontra apenas as ruínas do que antes foi uma civilização, e tudo está tomado por organismos marinhos, e alguns deles bem hostis. Um dos vários ambientes pelos quais você pode navegar pelo jogo. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. O jogo retrata diversos biomas marinhos, alguns mais fiéis e outros mais hipotéticos de um futuro distante, mas o que chama a atenção é que todos os organismos são extremamente grandes. De peixes nadando pelo cenário até um polvo gigante, tudo tem proporções exageradas. Considero liberdade poética dos criadores para aumentar o sentimento de pequenez diante da natureza (e para criar chefes de área assustadores). Se a vida marinha em “ The Aquatic Adventure of the Last Human ” já parece bizarra, imagine retratar não o oceano que conhecemos aqui da Terra, mas o de um outro planeta, em outro sistema, com criaturas completamente diferentes. Estou falando de “ Subnautica ”, jogo do estilo sobrevivência lançado em 2018, e o principal motivo de eu estar cursando Oceanografia. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. A história começa de forma simples: você é um humano que estava viajando em um ônibus espacial, e ele cai num planeta distante que é quase todo tomado por água. Por ser um jogo de sobrevivência, o jogador precisa construir objetos e coletar recursos para ajudar na progressão e ficar atento ao nível de fome, hidratação e oxigênio. Mas o jogo brilha mesmo é na imersão. Sabe quando você está embaixo d'água e todos os sons parecem abafados e distantes? Ele reproduz isso com perfeição. Componentes reais como pressão e nível de penetração da luz solar também estão presentes e impactam diretamente os organismos e a progressão do jogador, e, em grandes profundidades, você encontra bioluminescência. Também existem biomas inspirados no oceano da Terra, desde florestas de kelps até fontes hidrotermais, passando por recifes de coral e sistemas de cavernas gigantescos, cada um com sua fauna característica. Conforme o jogador atinge profundidades cada vez maiores, fragmentos da história vão sendo revelados, tornando o principal desafio alcançar o ponto mais profundo do planeta. Tarefa nada fácil já que, além do próprio gradiente de pressão, existem muitas criaturas agressivas doidas prontas para se alimentar de você. Um dos vários “leviathans”, criaturas enormes que você pode encontrar em "Subnautica”. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. Se você for corajosa/o o suficiente para seguir explorando cada vez mais profundamente, alcançará a conclusão da narrativa que é, para mim, uma das maneiras mais lúdicas já feitas de se ensinar sobre equilíbrio de ecossistemas e como nossas ações impactam o meio ambiente. Sem spoilers para não estragar a surpresa. Já que falamos sobre equilíbrio de ecossistemas, não posso deixar de mencionar “ Abzu ”, outro jogo de 2016 onde você controla um robô mergulhador que explora diversos ambientes marinhos da Terra com gráficos estilizados. Abrir esse jogo é quase uma meditação, pois aqui o que importa não é sobreviver: não existem riscos que ameacem o personagem, o importante é a experiência emotiva e de contemplação que faz com que o jogador fique fascinado com toda a vida marinha existente. E por falar em meditação, você realmente pode fazer isso em pontos específicos, e o mais incrível: assumir o controle dos diversos animais presentes no ambiente e sair nadando por aí. Mas como nem tudo são flores, existe um momento de clímax conforme o jogador progride, em que, tragicamente, toda a vida presente começa a desaparecer deixando apenas o vazio, e cabe a nós descobrir como restaurar a fauna e o equilíbrio do oceano em um desfecho emocionante. E também não posso deixar de mencionar que temos uma representação positiva de um tubarão-branco na história, que de início parece ameaçador, mas se revela uma espécie de guia para o protagonista, e inclusive será peça central tanto do clímax quanto da conclusão da narrativa. Apesar de serem três jogos bem diferentes, todos me fizeram eu me sentir parte integrante do oceano, sensação que só a experiência interativa pode proporcionar. Seja num submarino ou nadando nas costas de um tubarão, a conexão torna-se muito mais profunda do que em outras mídias, tornando os videogames uma ferramenta poderosa para educação ambiental e desenvolvimento da sensibilidade. Foram apenas três exemplos que estão entre meus favoritos, mas existem muitos outros jogos sobre o mar por aí, e um deles com toda a certeza vai fazer você também se encantar com esse ambiente tão místico e misterioso. Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani. Sobre a autora: Flávia é estudante do sexto semestre em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Ictióloga que adora fotografar insetos, mãe de gato e cinéfila, faz parte do Laboratório de Diversidade, Evolução e Ecologia de Peixes de Mar Profundo (DEEP Lab) onde faz iniciação científica tirando foto de otólito de peixe. #CiênciasDoMar #Convidados #Videogame #Lúdico #Aventura
- Se eu pudesse te emprestar meus olhos, mulher...
Por Carla Elliff Ilustração por Alexya Queiroz . Se eu pudesse te emprestar meus olhos, te pediria para usá-los em frente a um espelho. Lá você veria uma mulher que admiro muito e por muitas razões. Admiro pela competência e inteligência. Tanto em questões técnicas, profundidade de estudo e capacidade de compreender processos complexos, quanto pela inteligência emocional que te confere sensibilidade e tato com o mundo. Você veria com meus olhos uma mulher que cativa, que engaja, que encanta. Alguém que traz algo único para qualquer espaço e, com isso, enriquece toda discussão. A mulher que eu vejo com meus olhos é humana. Maravilhosamente humana. Tem dias que está motivada e quer mudar o mundo, mas em outros está azeda e quer mandar todo mundo à merda. Consegue rir de si mesma e ser vulnerável. Vejo sua mão estendida para mim e para tantas outras pessoas, sempre que precisamos de ajuda. Diante de injustiça, você se soma a vozes que buscam transformação. Você tem compaixão, paciência e empatia. Mas pelos meus olhos vejo você se questionar e se duvidar. Vejo você querer desistir por achar que não é capaz. Você não se vê como eu te vejo. E eu não sei como fazer você se desver assim. Então vou continuar te vendo pelos meus olhos e vou te contando tudo que eu sei que você é, pode ser? Ah, mas se eu pudesse te emprestar meus olhos... Em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres , a equipe do Bate-Papo com Netuno preparou uma leitura deste texto para nossas redes sociais. Confira aqui: Sobre a autora Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP. O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado! #MulheresNaCiência #Sororidade #Amizade #Autoamor #Admiração #CarlaElliff
- Uma década de Bate-Papo com Netuno: ciência, memória e afeto
O ano de 2025 foi um ano de celebração para a nossa equipe: já são 10 anos de Bate-Papo com Netuno! Ao longo deste tempo, passamos de sete mulheres para 12, além de todos os colaboradores que passaram pelo Bate-Papo ao longo dos anos. Hoje, já são mais de 500 textos publicados em português e inglês, duas temporadas de podcast, tirinhas, um livro e um artigo científico publicados, e a participação em inúmeros eventos acadêmicos e científicos. Tudo isso, fruto de um trabalho VOLUNTÁRIO! Para celebrarmos esses 10 anos de existência, decidimos reunir nossa equipe, espalhada pelos diversos cantos do Brasil, e realizar um evento para falar sobre divulgação científica, oportunidades e mulheres nas Ciências do Mar. Considerando toda a nossa trajetória, o evento recebeu o título Uma Década de Bate-Papo com Netuno: Ciência, Memória e Afeto . No dia 07 de agosto de 2025, nossa equipe e convidados se reuniram no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP) para um dia de muitas trocas, risadas, lágrimas e carinho. O evento também contou com transmissão on-line e foi visto até nos confins da Ilha da Trindade! Iniciamos o dia com uma palestra da querida Germana Barata , do LabJor da UNICAMP, que tratou da Divulgação Científica como fonte de informação, democratização do conhecimento e engajamento social. Seguimos para uma mesa redonda com o tema “Dez anos de divulgação científica em Ciências do Mar” , com moderação da nossa editora Natasha Hoff e participação das também editoras Claudia Namiki , Jana del Favero e Yonara Garcia . Enxugamos as lágrimas e, segurando as emoções, partimos para uma mesa redonda sobre a profissionalização da divulgação científica , moderada pela nossa editora Jana del Favero , além da editora Luiza Soares , da ilustradora Alexya Queiroz e do convidado Gabriel Monteiro . Depois de uma manhã cheia de emoções e conhecimento, percorremos importantes discussões sobre barreiras enfrentadas pelas mulheres nas Ciências do Mar no Brasil com nossa convidada Adriana Lippi , que apresentou os resultados de sua dissertação de mestrado. Nossa editora Carla Elliff moderou uma discussão com nossa editora Natasha Hoff e as convidadas Izadora Mattiello e Adriana Lippi sobre as portas abertas através da divulgação científica . A palestra da querida sereia, cientista e jedi, Bárbara Pinheiro , encerrou o dia em grande estilo, tratando da história, cultura e empoderamento de mulheres negras nas Ciências do Mar. Finalizando esse emocionante dia, houve o lançamento do livro Tiradas do Netuno, que só pôde ser concretizado pelo apoio de vocês, nossos queridos leitores, em um financiamento coletivo! Ah, teve parabéns e bolo também! Para aquecer o coração e relembrar um pouco do que foi este momento, seguem alguns registros: Palestrantes e ouvintes reunidos. Editoras, colaboradoras e ex-colaboradoras do Blog de Divulgação Científica, Bate-Papo com Netuno, reunidas para comemorar o aniversário de 10 anos. Jana del Favero e Alexya Queiroz reunidas para o lançamento do livro "Tiradas do Netuno". Sessão de autógrafo do livro "Tiradas do Netuno". Agradecemos a todos que possibilitaram que este dia se concretizasse: aos apoiadores do financiamento coletivo e aos participantes e convidados do evento! Que venham muitos mais anos de Bate-Papo com Netuno! #NetuniandoPorAí #Encontro10Anos #DivulgaçãoCientífica #Presencial
- O museu como um espaço político
Por Carla Elliff Talvez o título desse texto tenha te causado um estranhamento, especialmente se você está pensando em museus de ciências e história natural. Um museu sobre a história da ditadura no Brasil, de guerras, que foca em questões geopolíticas? Vá lá! Talvez você esteja pensando “ como visitar um museu e olhar algo como um fóssil de dinossauro poderia ser um ato político? ” Pois bem, pode adicionar visita a museus junto à lista de tudo mais que é político: comer , se vestir , ler , educar ... tudo é um ato político . O que quero dizer com isso é que nossas escolhas, gestos e silêncios afetam, direta ou indiretamente, a vida em sociedade. Política não é só o que acontece no governo, é também como usamos recursos, quem incluímos ou excluímos, como consumimos, como falamos, que causas apoiamos ou ignoramos. Mesmo o que parece “neutro” ou “individual” tem implicações sociais, culturais e econômicas, logo, é político. Nos últimos anos, têm sido noticiadas ocasiões em que a sociedade se opõe à presença de estátuas , monumentos ou homenagens de figuras cuja bagagem histórica controversa está carregada de racismo, misoginia, ódio, regimes autoritários e outros crimes. No Brasil, temos diversos exemplos de escolas que foram renomeadas, com novos nomes escolhidos em consulta à comunidade escolar. Daí surge uma pergunta importante: O que acontece (ou deveria acontecer) com estátuas, monumentos e outras peças desse tipo quando estão dentro de um museu? Recentemente fui impactada por essa pergunta quando visitei o Hunterian Museum , na Universidade de Glasgow na Escócia. Pessoalmente, nunca trabalhei com museus ou coleções científicas , e meu ponto de vista sobre o assunto é de apreciadora desses espaços. Quase não me importa a temática de um museu: se calhou que eu consigo visitar, tô dentro! Leio praticamente todas as plaquinhas informativas, olho item por item das exibições, adoro assinar aqueles livros de visitantes e deixar um recadinho... Carrego comigo minha lente inevitável de cientista e me pego fazendo conexões com meu trabalho e minha vida. Chorei com as notícias do incêndio no Museu Nacional em 2018 . O Hunterian Museum foi uma dessas visitas que eu não planejei. Eu tinha um compromisso na Universidade de Glasgow e decidi sair bem cedo para não me atrasar e ter tempo de curtir a caminhada. Pelo Google Maps, vi que o museu (e galeria de arte de mesmo nome) ficava no caminho e era gratuito – combo perfeito! O museu existe desde 1807 na universidade que, por sua vez, existe desde 1451! O prédio em si já impressiona e, no momento da minha visita, o primeiro saguão estava com uma exibição de peças de quando o Império Romano dominava a Grã-Bretanha. Prédio da Universidade de Glasgow que abriga o Hunterian Museum. (Fotos de Gerson Fernandino, CC BY SA 4.0) Seguindo para outro salão, havia um mural explicando que as coleções ali apresentadas no museu foram, em sua maioria, de uma doação póstuma do Dr. William Hunter (1718-1783), médico obstetra que acumulou não apenas itens da área das ciências da saúde, mas também arte, geologia, livros... E foi nesse mural que percebi que algo era diferente nesse lugar. O último parágrafo dizia o seguinte: Como instituição, o Hunterian não pode ser separado das estruturas econômicas e de poder que criaram e mantiveram a escravidão tanto no Império quanto na escravidão transatlântica em Glasgow, na Escócia e, mais amplamente, na Grã-Bretanha. Mural do Hunterian Museum explicando quem foi William Hunter e como o museu foi criado. (Fotos de Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Foi a primeira vez que vi esse tipo de reconhecimento explícito! E ler isso parecia automaticamente mudar a forma como eu estava encarando o museu e tudo que ele continha – era impossível “desver”. Ainda digerindo essa informação, me deparei com uma estátua de mármore com imagens alusivas à escravidão sendo projetadas sobre ela. A placa informativa dizia: James Watt – Estátuas e Escravidão (...) Ao redor do mundo no verão de 2020, estátuas que pareciam permanentes e seguras estão sendo reavaliadas. Esta estátua do engenheiro escocês James Watt (1736-1819) foi dada ao The Hunterian pelo filho de Watt em 1833. (...) Essa estátua ajudou a criar a imagem de Watt como dominante, acadêmico, justo: um herói. O que essa estátua não nos conta é que o treinamento caro de aprendiz dele em Londres foi pago com os lucros do comércio de açúcar e tabaco de seu pai na América do Norte e Caribe. (...) James Watt e seu irmão John estiveram diretamente envolvidos, em ao menos uma ocasião, na compra e venda de uma criança negra escravizada na Escócia. O contraste ali colocado me deixou incrédula que aquela estátua estivesse ali. Mas, antes que eu pudesse formar uma opinião mais sólida, segui lendo a placa e me deparei com as seguintes perguntas: O que você pensa dessa estátua? Ela pertence a esse lugar? Uma estátua em um museu é diferente de uma estátua em uma rua ou praça? Ela precisa de uma etiqueta melhor ou precisa ser exibida de outra forma? Estátuas ajudam a gente a entender o passado ou elas, às vezes, impedem essa compreensão? Estátua de James Watt no Hunterian Museum e placa informativa/provocativa. (Fotos de Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Não sei (até agora) como responder! Eu mal tinha andado trinta passos e este museu já tinha virado uma experiência inteiramente diferente do que eu imaginava. Entrando agora no salão seguinte, encontrei mais informações sobre essas “plaquinhas disruptivas” que tornaram meu simples desvio pelo museu em algo transformador. Este movimento faz parte do projeto Curating Discomfort (algo como “curadoria do desconforto”), uma intervenção que “propõe provocações e intervenções desconfortáveis para nos ajudar a compreender que os museus perpetuaram ideologias de supremacia branca” – como descrito no site do projeto. E o desconforto não se restringe a questionar as figuras ali representadas em estátuas e quadros. Um ponto chave é questionar também como aquelas peças chegaram no museu. Elas foram roubadas? Se foram compradas, foi uma transação justa? As peças ali exibidas têm valor espiritual para povos que hoje não têm mais acesso a elas? Faz sentido exibir peças como “curiosidades” para entretenimento? Por exemplo, após uma revisão ética em 2024, optou-se por manter fechado o sarcófago da múmia de Shep-En-Hor, exibido no museu há mais de 200 anos, para garantir maior privacidade e respeito ao corpo ali presente. Fiquei pensando também na injustiça de não haver uma única espécie de coral brasileiro na área denominada “diversidade de corais”... (mas isso pode ser só meu viés falando!) Exemplos de itens em exibição no Hunterian Museum sob a ótica da intervenção “Curadoria do Desconforto” (Fotos de Gerson Fernandino e Carla Elliff, CC BY SA 4.0) Correndo o risco de me atrasar para meu compromisso, rodei uma última vez pelo salão principal e entendi que eu não chegaria em respostas simples para as perguntas que vi no início da visita. Então, responderei à pergunta do meu leitor hipotético, “ como visitar um museu e olhar algo como um fóssil de dinossauro poderia ser um ato político? ”, com outras perguntas. Você já se perguntou como aquele fóssil foi parar naquele museu? Qual a narrativa escolhida para contar aquela história e por quê? Seria aquele espécime um exemplo de contrabando? Se sim, uma opção é o repatriamento do fóssil ao país original, como no caso de um acordo recente assinado entre Brasil e Alemanha , com a devolução de fósseis de regiões como a Bacia do Araripe ... e tantas outras perguntas possíveis para este e outros exemplos. Espero que esse texto tenha despertado desconforto e inquietações. Viva o museu como um espaço político! Sobre a autora: Oceanógrafa pela Unimonte com mestrado e doutorado em geologia pela UFBA. Pelas andanças da pós-graduação passou pela Universidad da Cantabria na Espanha, UFSC e FURG. Atualmente é pesquisadora pós-doc na USP. O que mais gosta é a interdisciplinaridade do oceano. Já trabalhou com biologia pesqueira, recifes de coral, serviços ecossistêmicos, modelagem hidrodinâmica, gestão costeira, mudanças climáticas, geodiversidade, lixo no mar, políticas públicas... e acredita que tudo está conectado! #VidaDeCientista #Museu #ReparaçãoHistórica #Decolonialismo #ColeçãoCientífica #CarlaElliff
- Semana Temática de Oceanografia na USP
Entre os dias 29 de setembro a 03 de outubro de 2025, aconteceu a Semana Temática de Oceanografia (STO) no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) no Campus Butantã em São Paulo - SP. A STO acontece todo ano no IO-USP e é organizada pelos alunos do curso de Oceanografia que estão prestes a se formar. O evento tem o intuito de difundir conhecimentos e promover debates em todas as áreas da oceanografia para um público geral através de palestras, mesas redondas e minicursos e, geralmente, conta com uma temática norteadora. O tema da 20ª edição da STO foi “ Narrativas do Mar: Tradição Viva, Ciência em Transformação” . Nesta edição, foi dado espaço às vozes que constroem a relação com o mar muito antes da ciência chegar. O intuito foi reconhecer os saberes de comunidades que vivem do oceano, suas histórias, costumes e modos de cuidar desse ambiente que também é casa, sustento e identidade. Nossa editora, Cláudia Namiki , foi convidada pelos alunos a coordenar o evento para garantir que a STO mantenha seu compromisso com a ciência, coletividade e construção de um oceano mais plural. Nas palavras de seus próprios alunos “é ela quem segura o leme quando precisa e é também quem nos incentiva a remar com autonomia”. Sem dúvida sua colaboração e calma presença foi essencial para deixar este evento mais especial! Outra editora do Bate-Papo com Netuno, Luiza Soares , também foi convidada a participar da STO e compartilhar os aprendizados adquiridos na caminhada como divulgadora científica na palestra “ Ciência em transformação - Divulgação Científica como Ferramenta de Mudança ”. Durante sua fala, Luiza destacou as principais ferramentas que podem (e devem) ser utilizadas quando nos comunicamos com um público amplo e diverso. Além de enfatizar, é claro, a dedicação do Bate-Papo com Netuno,que há 10 anos torna a ciência mais democrática! #NetuniandoPorAí #SemanaTematicadeOceanografia #SaberesTradicionais #DivulgaçãoCientífica #ClaudiaNamiki #LuizaSoares
- Nem cima, nem embaixo: estratégias adaptativas de flutuação do plâncton
Texto de Klinton Souza Ilustração de Malu Coutinho Você já deve ter notado como absolutamente TUDO no mundo varia. Até um vira-lata caramelo difere de outro vira-lata caramelo. E ao longo do tempo evolutivo, aquela característica que confere alguma vantagem na sobrevivência do indivíduo e, portanto, tem maior chance de se manter numa população, chamamos de adaptação. Assim como o bico de algumas aves tem formas que lhes permitem a captura de presas específicas, resultado de mudanças que foram selecionadas ao longo da evolução, pequenos organismos habitantes da coluna d'água também desenvolveram estratégias adaptativas para a vida no pelagial. Assim como em grandes animais, a morfologia do plâncton está ligada à sua forma de vida e seu habitat. E venhamos e convenhamos, é lindo ver esses organismos tão pequenos através das lentes de um estereomicroscópio e observar tantas formas, estruturas e movimentos; sem falar das cores (ou falta delas, já que tem até bichinhos transparentes). Esses pequenos organismos, em geral menores que um milímetro, tem formas corpóreas muito curiosas e de composições variadas que influenciam a sua sustentação na coluna d’água. Vista geral de uma amostra de plâncton vivo, em estereomicroscópio (Fonte: Inácio Domingos da Silva Neto, http://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/7332/ , com Licença: CC BY-NC-SA 3.0) Uma característica muito importante do plâncton é sua locomoção restrita, porém existem alguns organismos que movimentam-se verticalmente por muitos metros na coluna d’água e usam isso para fugir de predadores; isso é um exemplo de estratégia adaptativa. Outra estratégia adaptativa do plâncton é a morfologia e composição química que permitem a sua flutuação de forma livre na coluna de água. Com relação à morfologia, eles podem ter espículas, apêndices flutuadores, corpos achatados, antenas, e até exoesqueletos menos densos que colaboram na sustentação do corpo na coluna d’água. Já com relação à composição química, eles podem ser gelatinosos ou conter gotas de gordura e tecidos com maior quantidade de água que contribuem para diminuir a sua densidade. Alguns organismos gelatinosos adaptaram-se de tal forma a favorecer a excreção (ou substituição) de íons mais pesados por mais leves. Exemplos de organismos com adaptações para aumentar a flutuabilidade: a) o poliqueta Tomopteris elegans tem corpo achatado e com parapódios (projeções laterais musculosas) e, de quebra, ainda é bioluminescente (isso não ajuda na flutuação, mas é muito interessante!); b) as medusas da espécie Palau stingless são formadas por substâncias gelatinosas, além do corpo em formato medusoide (= “guarda-chuva”); c) a megalopa (estágio larval) do microcrustáceo Neograpsus altimanus tem distribuído em seu corpo gotas de gordura que contribuem para diminuir sua densidade; d) as microalgas da espécie Asterionellopsis glacialis e os microcrustáceos do gênero Sergestes sp. têm espinhos em seu corpo para aumentar a área superficial e, consequentemente, aumentar sua flutuabilidade; e) os copépodos do gênero Diatomus sp. têm um exoesqueleto menos denso e antenas que ajudam na distribuição do seu peso; f) a véliger (estágio larval) de gastrópodes tem apêndices flutuadores. A) Tomopteris elegans ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 2.0); B) Palau stingless ( Fonte . Licença: CC ATÉ 2.5); C) Neograpsus altimanus ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 3.0); ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 3.0); D) Asterionellopsis glacialis ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 2.0); E) Diatomus sp. ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 2.0); F) veliger (estágio larval) de Gastropoda ( Fonte . Licença: CC BY-NC-SA 3.0). É muito interessante notar as adaptações desses minúsculos organismos ao longo da evolução “apenas” para flutuar, além de toda a sua importância para o mundo marinho. Vale lembrar que este texto não é uma revisão exaustiva sobre o tema, mas tem a intenção de compartilhar algumas curiosidades e chamar a atenção para estes seres incríveis! E pra você não esquecer que o oceano está cheio de plâncton flutuando, basta cantarolar a música do Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu!”... Referências ou sugestão de leitura: TUNDISI, JG. & MATSUMURA-TUNDISI, T. Limnologia. Oficina de Textos. São Carlos – SP, p. 150, 2008 CALAZANS D, MUELBERT JH AND MUXAGATA E. 2011. Organismos planctônicos. Cap.9, p.165-166. In: Calazans (Organizador). Estudos Oceanográficos: do instrumental ao prático. Pelotas, Editora textos Plâncton - IOUSP. Disponível em: . Acesso em: 4 maio. 2023. Pagodinho, Zeca. Deixa a Vida Me Levar. [S.l.]: Universal Music, 2007. 1 CD. DEL BIANCO, Murilo. Plâncton. Todo Estudo . Disponível em: https:// www.todoestudo.com.br/biologia/plancton. Acesso em: 02 de May de 2023. Sobre o autor: Graduando em Oceanologia pela Universidade Federal do Sul da Bahia - UFSB. Atualmente, trabalha com Geoturismo dos municípios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, sistematizando e divulgando pontos de interesse geológico e fomentando a conservação dessas paisagem para alunos e professores de escolas públicas e privadas, turistas e visitantes, comunidade acadêmica e comunidade local que trabalha com turismo. Um projeto vinculado ao Centro de Formação em Ciências Ambientais (CFCAm) com atividades no Laboratório de Geologia e Paleontologia (LABGEOP-UFSB). No ano de 2020, tive a mirabolante ideia de entrar num curso que nunca tinha nem ouvido falar, hoje não me vejo mais fora. Cada acontecimento, cada experiência, vem sempre para somar, e no final, mesmo com as dificuldades, se tem o sentimento de gratidão. Instagram pessoal: @klintonsss Email: klinton.souza@gfe.ufsb.edu.br #Convidados #Plâncton #CiênciasdoMar #Adaptação #Flutuabilidade
- Quando me vi doutora e autista
Por Natasha Travenisk Hoff Ilustração de Cai a Colla . Desde criança, eu sempre fui considerada a chata da turma, a que seguia todas as regras (e ficava brava se alguém por perto não seguia), a que se dava muito bem com os professores e pessoas mais velhas, mas tinha pouquíssimos amigos da minha idade. Muitas vezes, eu demorava para entender alguma brincadeira que faziam comigo (mais tarde, deram um nome para isso: bullying ). Mas dificilmente eu contava isso para alguém, afinal, eu também não era boa em explicar o que eu estava sentindo. Eu gostava de construir brinquedos, fazer artes (aprendi crochê, tricô, pintura em tecido e tela, bordado com a minha avó, sempre com certa facilidade), mas não gostava de inventar histórias brincando de barbie com as minhas irmãs. Pagava para não precisar fazer uma ligação telefônica. “Ah, ela é muito tímida”. E sabe como as coisas são hoje? Exatamente iguais. É claro que, com o tempo, eu melhorei algumas habilidades, o que não quer dizer que não haja um desgaste físico e emocional gigantesco, mas… é o que tenho para hoje. Entendi que eu era o peixe fora d'água e segui minha vida com o menor dano possível. Decidi que faria faculdade de Oceanografia com apenas 12 anos. Estudei a grade horária e os laboratórios que existiam aqui durante o Ensino Médio. Ou seja, preparei-me e tracei toda a minha rota acadêmica: mestrado, doutorado, pós-doutorado - eu já sabia que seria pesquisadora e onde eu queria trabalhar. Doideira ou estava criando algum conforto na previsibilidade do meu futuro? O tempo foi passando e eu me tornei representante de turma na graduação, representante discente em inúmeras comissões estatutárias no instituto e participei da organização de vários eventos, conseguindo financiamento para alguns deles. Na pós-graduação, a mesma coisa. Sempre fui em busca do que fosse melhor para o grupo, sempre lutei pelo que achava justo. Indispus-me com algumas pessoas - machistas, preconceituosos e alguns desinformados. Entrei no programa de pós-doutorado e aí? Pós-doutorandos seguem invisibilizados, sem direitos e representação, mas cheios de cobranças: fui atrás e já conseguimos algumas coisas. Ninguém falou que seria fácil, mas ninguém também avisou que seria tão desgastante. Nesse período todo, minha irmã mais nova se formou psicóloga, e desde os seus primeiros atendimentos, ainda como acompanhante terapêutica, trabalha, principalmente, com pessoas neurodivergentes (isto é, pessoas que têm um funcionamento cerebral diferente de um padrão, considerado “normal” - os chamados neurotípicos ). Muitos dos adultos que passam em atendimento com ela também são neurodivergentes (e pasmem, gente: pessoas autistas, com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) ou trissomia 21 também se tornam adultos! Sim, isso foi uma crítica a um sistema que oferece atendimento apenas para crianças e, no máximo, adolescentes). E, nos últimos anos, ela percebeu que muitos dos meus comportamentos eram compatíveis com os de uma pessoa autista. Aceitei por um tempo essa ideia, mas sem buscar ajuda ou uma confirmação do diagnóstico mesmo. Enquanto isso, convivi (convivo) com um transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e depressão. E vocês sabiam que esses diagnósticos são muito comuns em pessoas autistas em que houve diagnóstico tardio? Por quê? Porque passamos o tempo todo tentando “ser normal”, encaixarmo-nos nas “caixinhas sociais” ou frustrados com o insucesso nessas empreitadas. Além disso, em muitos desses casos, a pessoa possui um nível de suporte mais baixo e conseguiu mascarar as características do autismo ao longo de sua vida. E isso é muito desgastante… por isso, muitos desenvolvem quadros de ansiedade e depressão. Pois bem, com o mental em frangalhos no início de 2024, comecei a ter dificuldades de concentração e não conseguia (e ainda estou enfrentando certa dificuldade) ficar horas na lupa, atividade que faz parte do meu projeto pós-doutorado. Neste ano, optei também por não publicar nenhum artigo científico, que também demanda muito foco e concentração (e agora, estou correndo atrás de cobrir essa lacuna acadêmica… kkcrying). Por conta disso, decidi fazer o teste neuropsicológico, que auxiliou meu psiquiatra a fechar o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA). Quando o diagnóstico oficialmente veio, ainda foi um choque (para mim, né, porque minha irmã já tinha certeza) e demorei mais uns meses digerindo essa informação. As pessoas não são, e nunca foram, iguais. Não entendo porque ainda cismamos em colocar em caixas tudo e todos! Não seria melhor acolher as diferenças, respeitá-las e buscar conhecimento e recursos para lidarmos com elas? Ah, mas isso dá trabalho, né? É, dá trabalho se tornar uma pessoa melhor. Pense que, assim, o mundo pode melhorar não apenas para pessoas neurodivergentes ou com deficiência, mas para todos! Hoje, tudo se encaixou… mas eu ainda estou aprendendo a entender as minhas necessidades mentais e físicas, a gerir minhas demandas e agradeço à minha família pelo apoio, principalmente às minhas irmãs, com quem tanto aprendo sobre as mil possibilidades de ser, e à minha mãe, que me acudiu tantas vezes e, quando tinha as crises de ansiedade, despencando de Mogi para São Paulo diversas vezes porque perdia a hora para acordar, tinha prova e já levantava passando mal de ansiedade. Eu amo o que eu faço, seja como oceanógrafa e pesquisadora, seja como divulgadora científica. Eu terminei meu mestrado, segui direto para o doutorado e logo engatei no pós-doutorado. Eu sigo cumprindo com as metas que criei para a minha vida. E, agora, posso dizer que sou doutora e autista com muito orgulho. Que este relato possa ajudar outras tantas pessoas que estão nesse caminho de autoconhecimento, tentando se encontrar nesse mundo, e para que os familiares de pessoas neurodivergentes acreditem no potencial delas! Sobre a autora: Oceanógrafa, mestre e doutora em Oceanografia, na área de concentração Oceanografia Biológica, pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), com período sanduíche em Portugal, no CIIMAR (Universidade do Porto). Atualmente, é pesquisadora de Pós-Doutorado no IOUSP e editora voluntária do Bate-Papo com Netuno. A Oceanografia entrou em sua vida muito cedo, quando tinha apenas 12 anos. Desde então, sua curiosidade a leva para novos e diferentes caminhos a cada nova empreitada. Acredita que o diferencial da Oceanografia é justamente a multidisciplinaridade. Assim, tem experiência com análises climatológicas, química inorgânica de sedimentos, unidades de conservação, integridade biótica da ictiofauna, estoques pesqueiros, análises morfométricas, otólitos e, desde 2021, entrou no mundo da paleoecologia! #NatashaHoff #VidaDeCientista #Neurodivergência #PessoasComDeficiência #Autismo
- Ostras e riscos invisíveis
Por Adrielle Beatrice do Ó Martins Você já comeu aquela ostrinha na praia com sal e limão? Ou aquela gratinada cheia de queijo? Se você mora no litoral ou visitou uma das praias da costa brasileira, possivelmente teve a oportunidade de provar essa iguaria. Mas você também já se perguntou de onde ela veio ou como era o ambiente onde ela estava antes de chegar até seu prato? As ostras estão presentes em diferentes ambientes costeiros aqui no Brasil. Há espécies que vivem melhor em águas salgadas, como a Ostrea equestris , e aquelas que prosperam em ambientes de transição, como manguezais e estuários, onde há uma variação da salinidade. Este é caso da Crassostrea rhizophorae , que ocorre principalmente nas regiões mais tropicais do país (Nordeste, Norte e parte do Sudeste) e da espécie Crassostrea gasar , que também é típica de locais de transição, porém ocorre com maior frequência nos estados do Sul e Sudeste do Brasil. Outra espécie comum na costa do Brasil, mas que não é nativa daqui, é a Crassostrea gigas (recentemente renomeada para Magallana gigas ); ela é uma espécie originária do Oceano Pacífico, mas que foi intencionalmente introduzida no Brasil, principalmente para o cultivo, e se adaptou muito bem e hoje é a espécie mais produzida em cultivos na costa brasileira. Santa Catarina é o maior produtor de ostras no Brasil, responsável por até 94% da produção nacional, possuindo extensas fazendas de ostras desta espécie. As ostras são organismos bivalves (moluscos formados por duas conchas) e, por serem filtradores, têm grande valor do ponto de vista do monitoramento ambiental. No processo de se alimentar de partículas suspensas na água, a água também passa pelas suas brânquias, onde ocorre a troca gasosa (respiração). Além disso, as ostras vivem fixas a substratos (rochas, raízes, etc) e, por isso, tudo o que ingerem representa o material a que foram expostas naquele ambiente, diferente de peixes e golfinhos, por exemplo, que podem se alimentar em diferentes regiões. Por fim, o seu metabolismo é consideravelmente mais lento do que outros animais com nível trófico mais alto (como caranguejos e peixes). Dessa forma, as ostras são classificadas como bioindicadores de contaminação e amplamente usadas em trabalhos sobre ocorrência e distribuição de contaminantes no ambiente costeiro. Durante o mestrado, eu realizei um estudo com ostras de mangue na região metropolitana de Salvador - Bahia para avaliar a presença de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) em Crassostrea rhizophorae da Baía de Todos os Santos (Bahia, Brasil). Os resultados mostraram um aumento da contaminação por hidrocarbonetos de petróleo principalmente em regiões de portos. Outros estudos mostram a influência dos efluentes domésticos e/ou industriais regulares (ou não) nas ostras, apontando riscos de contaminação microbiológica. Hoje, meu foco de pesquisa está na identificação e quantificação de contaminantes de característica emergente - que são contaminantes que já estão presentes no ambiente há bastante tempo, mas apenas com o avanço tecnológico das últimas décadas, foi possível identificá-los em amostras ambientais - nesses organismos. Atualmente, meus estudos estão focados na avaliação da presença de fragrâncias e filtros solares em ostras na região da Grande Florianópolis. Mas isso é papo para uma próxima conversa, prometo trazer os resultados! Enquanto isso, reflita aqui comigo… Sabendo da capacidade das ostras de reter contaminantes, será que precisamos parar de consumí-las? Não, não é para você parar de consumir ostras, mas sim saber identificar o que está consumindo e escolher a melhor opção para a sua saúde. Saiba que as ostras provenientes de ostreiculturas fiscalizadas passam por um rígido controle de qualidade sanitário pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), através do Programa Nacional de Moluscos Bivalves Seguros – o MoluBiS . O MoluBiS coleta e analisa tanto a ostra quanto a água do cultivo, verificando a presença de contaminantes microbiológicos, microalgas nocivas , ficotoxinas, contaminantes inorgânicos e até os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. Bacana, né? Nosso desejo é que essas análises sejam ampliadas também para outras classes de contaminantes, como os pesticidas e bifenilas policloradas. É bom saber que o MAPA implantou e coordenou procedimentos desde os grandes produtores até as pequenas associações de marisqueiros para que esse molusco chegue até você sem risco para sua saúde, não é mesmo? Mas, infelizmente, esse programa ainda não abrange toda a costa brasileira devido à falta de infraestrutura laboratorial, logística e cooperação entre órgãos, estando presente apenas em áreas onde a ostreicultura está consolidada, como as regiões Sul e Sudeste do Brasil, além dos estados da Bahia, Pará e Maranhão. Outras formas de regularização seriam a adesão dos produtores ao programa por meio de cooperativas, órgãos estaduais ou pelas universidades e as regularizações coletivas. Portanto, fique atento: apenas ostras oriundas de áreas monitoradas e classificadas - dentro do MoluBiS ou de um sistema equivalente aprovado pelo MAPA - podem ser comercializados legalmente. Para quê se arriscar comendo em locais onde você não sabe a procedência? Então, fique ligado e se atente a alguns pontos importantes na hora de adquirir as suas ostras: 1) Certifique-se da procedência (a melhor forma é perguntando se as ostras vem de área cadastrada no MoluBis e pedindo a identificação do produtor e número de inspeção); 2) Compre em locais confiáveis (prefira sempre as peixarias, mercados e restaurantes regularizados); 3) Evite o consumo durante eventos de florações de algas nocivas ou após chuvas intensas ; e 4) Dê preferência às ostras cozidas (isso evitará possíveis problemas microbiológicos). Seguindo esses conselhos, você vai poder aproveitar a gastronomia multifacetada do Brasil sem medo! Para mais informações: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/saude-animal/programas-de-saude-animal/vigilancia-de-contaminantes-em-moluscos-bivalves https://wikisda.agricultura.gov.br/pt-br/Sa%C3%BAde-Animal/manual_do_programa_nacional_moluscos_bivalves_seguros_molubis https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X19309373 https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969724018217 https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X21009115 Sobre a autora: Formada em Engenharia Ambiental e Sanitária pela UNIFACS com mestrado em Geoquímica e doutorado em Energia e Meio Ambiente pela UFBA. Fiz doutorado sanduíche na Universidade de Cádiz para compreender melhor os contaminantes emergentes e uma expedição para Antártica mudou meu modo de ver o mundo. Atualmente estou finalizando um pós-doutoramento em Oceanografia na UFSC, avaliando as ostras aqui da região Sul do Brasil. Sempre tive fascínio pelos organismos bivalves e desenvolvimento de métodos analíticos, então estou sempre associando esses dois mundos no meu dia a dia (junto com um bolinho e brigadeiro de café). #CiênciasDoMar #OceanografiaQuímica #Ostras #Contaminação
- Semana Acadêmica da Biologia Marinha UFRGS 2025
Entre os dias 20 e 24 de outubro de 2025, ocorreu a Semana Acadêmica da Biologia Marinha 2025 , no Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), localizado no município de Imbé, litoral norte do Rio Grande do Sul. Como descrito pela comissão organizadora do Diretório Acadêmico do curso de Biologia Marinha e Costeira e Gestão Ambiental Marinha e Costeira da UFRGS (DABMar): Este evento acadêmico e científico, organizado pelos próprios estudantes do curso, busca fomentar o acesso à cultura e aos diferentes campos de pesquisa das ciências biológicas. Nosso objetivo é promover o pensamento crítico e expandir as perspectivas dos futuros biólogos, abordando temas que complementam a grade curricular e valorizam profissionais de destaque. Nossa editora, Carla Elliff , foi convidada para compor uma mesa redonda sobre mulheres na divulgação científica , representando o Bate-Papo com Netuno. A conversa contou também com as docentes do curso de Biologia Marinha, Profª Drª Rossana Soletti e Profª Drª Elisabeth Cabral . Rossana Soletti é graduada em Farmácia Bioquímica e mestre em Neurociências pela UFSC e doutora em Ciências Morfológicas pela UFRJ. Ela atua em pesquisa e em projetos de extensão, popularização da ciência e produção de recursos educacionais. Rossana está à frente do Maternidade Com Ciência , onde produz e compartilha conteúdo sobre ciência e maternidade. Elisabeth Cabral é bióloga pela UFRPE, mestra e doutora em Oceanografia pela UFPE. Tem experiência de pesquisa nas áreas da ecologia de ecossistemas aquáticos, planctologia e ictiologia; com destaque para o estudo da ecologia do ictioplâncton marinho e estuarino. Elisabeth coordena o projeto de extensão Que Plâncton é Esse? , que busca promover educação ambiental e divulgação científica. A conversa rendeu muitos momentos emocionantes e divertidos! Agradecemos demais ao DABMar pelo convite e à Rossana e à Elisabeth pela parceria - seguimos juntas nessa! #NetuniandoPorAí #SemanaAcadêmica #BiologiaMarinha #DivulgaçãoCientífica #CarlaElliff
- Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) da UFSB, Campus Porto Seguro, 2025
O tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia em 2025 foi Planeta Água: a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território e aconteceu nos dias 20 e 21 de outubro no Campus Sosígenes Costa , em Porto Seguro. O evento contou com uma grande diversidade de atividades, com oficinas, minicursos, exposições, rodas de conversa, palestras e atividades culturais. Este evento foi marcado pela presença de mulheres na comissão organizadora e de mulheres em locais de destaque. A noite de abertura também teve roda de samba com as marisqueiras de Belmonte e palestra com Thais Melo, bióloga marinha, formada pela UFRJ, pioneira no turismo de observação de baleias jubarte em Cumuruxatiba e Arraial D’Ajuda. Outra iniciativa que merece destaque foi a realização de uma cuidoteca experimental, com organização de servidoras da UFSB (Carolina Bessa, Catarina Marcolin, Maria Inês Sperandio e Tatiana Dadalto). A cuidoteca recebeu 14 crianças entre 2 e 10 anos de idade, que foram cuidadas por monitores do evento, sob supervisão das organizadoras. Nossa editora Catarina Marcolin fez parte da organização do evento e da cuidoteca e participou da roda de conversa sobre Diversidade e Equidade de Gênero para um Oceano Seguro , juntamente com as editoras Juliana Leonel (UFSC) e Claudia Namiki (USP), além de Lana Resende de Almeida (UNIFESP) e Tatiana Dadalto (UFSB). Roda de conversa sobre Diversidade e Equidade de Gênero para um Oceano Seguro durante a SNCT, 2025 (Fonte: Ana Castro). #NetuniandoPorAi #CatarinaRMarcolin #snct2025 @snct_ufsb.csc












