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  • PEC das praias

    Sim, ela voltou, a PEC das Praias Por Lídia Paes Leme e Jana del Favero Em 2024, a chamada “PEC das Praias” ganhou grande repercussão e provocou uma discussão importante sobre o futuro do litoral brasileiro. A proposta voltou a aparecer no debate público e, agora, em um momento de eleições, achamos importante trazer este assunto novamente. Afinal, falar sobre a PEC das Praias é falar sobre quem pode ocupar, utilizar e administrar parte do nosso litoral. É falar sobre acesso às praias, patrimônio público, conservação ambiental e também sobre as comunidades que vivem e dependem desses ambientes. Por isso, antes de formar uma opinião, vale entender: o que exatamente essa PEC propõe? Antes de tudo, o que é uma PEC? PEC é a sigla para Proposta de Emenda à Constituição, ou seja, é uma proposta para mudar algum trecho da Constituição Federal. Por tratar da lei mais importante do país, sua aprovação exige regras e etapas específicas, mais rigorosas do que aquelas aplicadas às leis comuns. Por isso, acompanhar e compreender uma PEC é importante: estamos falando de mudanças que podem alterar a própria estrutura das regras que organizam o país. A PEC vai privatizar as praias? Não diretamente, mas a PEC 3/22, inicialmente identificada como PEC 39/2011, permite que a propriedade e gestão de terrenos de marinha possam ser transferidos da União para particulares, estados e municípios, o que pode trazer consequências para o acesso público a essas áreas. Relator do projeto, o senador Flávio Bolsonaro disse que pretende criar uma emenda para reforçar que as praias vão continuar "a ser de todos os brasileiros", e que não serão privatizadas. Segundo ele, a PEC trata apenas dos terrenos já ocupados - o espaço público, que é a praia, continuaria a ser de uso comum. (Fonte: G1) O acesso à praia continua sendo livre na teoria, mas a possibilidade de privatização de terrenos próximos à faixa de areia pode dificultar o acesso. Por exemplo, em um litoral com áreas ocupadas por resorts, hotéis e outros empreendimentos à beira-mar (ou “pé na areia”), há risco de restrição indireta de passagem de pedestres por condomínios e resorts. Imagina o cenário: ter que pedir autorização a um hotel para chegar na praia ou ter que caminhar quilômetros para chegar a um local com acesso público… Mas, afinal, o que são terrenos de marinha? Os terrenos de marinha representam uma faixa costeira considerada estratégica pelo governo e de propriedade da União. Sua delimitação é feita a partir de uma linha imaginária correspondente à média das marés registrada no ano de 1831, estendendo-se 33 metros em direção ao continente. É importante destacar que se tratam de terrenos de marinha pela proximidade com o mar, e não da Marinha - M maiúsculo -, ou seja, não são áreas de propriedade das Forças Armadas. Exemplos de localização dos terrenos de marinha, englobando faixa de areia, calçadão, avenidas e/ou casas e prédios (Fonte: Secretaria do Patrimônio da União). Uma das principais críticas à proposta é justamente a possibilidade de a União vender um patrimônio que hoje pertence a todos para apenas alguns entes ou pessoas. Ou seja, na prática, a PEC vai permitir que pessoas, empresas ou estados e municípios comprem terrenos de marinha e explorem como bem entenderem essas áreas. Resorts, hotéis, ou outros tipos de empreendimentos com praias cercadas e exclusivas podem se tornar tão comuns quanto inevitáveis. Para Ana Paula Prates, analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente, a proposta não prevê a "privatização direta" das praias, mas possibilita que uma empresa cerque o terreno e impeça a passagem de banhistas na faixa de areia, como já é visto hoje em alguns resorts. "São áreas de restinga, mangues, dunas, pedaços de praia mais para cima, entradas de rios. São locais que vivem sob a influência da maré e têm ligação direta com o aumento do nível do mar. Esses terrenos são a salvaguarda para a adaptação da mudança do clima". Além disso, a proteção dos mangues e restingas ajuda a enfrentar as mudanças climáticas, pois essas áreas funcionam como uma barreira natural, como enchentes. (Fonte: G1) Por outro lado, a proposta afirma que haverá aumento na geração de empregos, na arrecadação de impostos e no desenvolvimento econômico e social das regiões costeiras. Já os críticos argumentam que entregar essas áreas para a gestão privada pode aumentar a degradação ambiental e impactar toda a vida marinha e a biodiversidade das regiões. Eles também apontam que a medida poderia favorecer empresários e construtoras na aquisição destes territórios e dificultar o acesso da população, uma vez que os acessos poderiam ser restritos. Também existe uma preocupação com as comunidades tradicionais que dependem dos ecossistemas costeiros para sobreviver — populações caiçaras, quilombolas, ribeirinhas e povos indígenas, que possuem relações históricas com esses ambientes e cujas práticas tradicionais também contribuem para sua conservação. Suelly Araújo, do Observatório do Clima, identifica no projeto um "grande lobby" do setor turístico de resorts. Segundo ela, o trabalho de pessoas que vendem produtos na praia, em barracas e quiosques, será ameaçado com o estabelecimento de áreas privativas. (Fonte: G1) O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Movimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP) também se posicionaram contra a medida. O governo federal manifestou oposição à proposta e afirmou que pretende atuar junto ao Congresso para impedir a aprovação do texto. “O governo é contrário a qualquer programa de privatização das praias públicas, que cerceiam o povo brasileiro de poder frequentar essas praias”, afirmou o ministro Alexandre Padilha. (Fonte: G1) Em que pé estamos? Em dezembro de 2024, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado havia adiado a votação da PEC 3/2022 após um pedido de vista. O parecer favorável havia sido apresentado pelo relator, o então senador Flávio Bolsonaro. Desde então, a proposta não foi aprovada e continua em tramitação no Senado. Por isso, é importante acompanhar a situação da PEC diretamente pelas fontes oficiais, já que sua tramitação pode sofrer novas alterações. E por que estamos falando sobre isso? Porque, quando olhamos para uma praia, é fácil pensar apenas na areia, no mar e naquele espaço que parece pertencer a todo mundo. Mas, por trás de uma faixa de areia, existe uma série de regras, interesses, ecossistemas e pessoas que dependem daquele território. Existe o pescador que precisa chegar ao mar. Existe uma comunidade que vive há gerações naquele lugar. Existe o manguezal e a restinga que protegem a costa.Existe o turista que quer simplesmente colocar os pés na areia. E existe também um patrimônio que, hoje, pertence à União. Talvez por isso essa discussão seja muito maior do que decidir se uma praia será ou não “privatizada”. Ela nos faz pensar sobre que tipo de litoral queremos para o futuro e para quem esse litoral estará disponível. E é justamente por isso que informação importa. Em períodos eleitorais, costumamos falar muito sobre candidatos, mas também precisamos olhar para as decisões, projetos e propostas que podem mudar a forma como ocupamos e cuidamos do nosso território. Conhecer esses assuntos, buscar diferentes fontes, questionar e participar também fazem parte da cidadania. Porque o litoral brasileiro não é apenas um lugar bonito para visitar. É território, é patrimônio, é biodiversidade, é cultura, é sustento e é casa para muita gente. Saiba mais sobre a PEC das Praias no vídeo e nas referências abaixo: Referências: https://www.politize.com.br/pec-das-praias/ https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/ministro https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/151923 https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/12/04/ccj-concede-vista-para-pec-das-praias https://www.migalhas.com.br/quentes/408748/pec-das-praias-entenda-a-proposta-que-gerou-polemica https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/05/31/entenda-o-que-diz-a-pec-das-praias-sobre-temas-como-privatizar-a-beira-mar-e-legalizar-o-complexo-da-mare.ghtml https://www.aosfatos.org/noticias/entenda-pec-das-praias/ https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/05/31/entenda-o-que-diz-a-pec-das-praias-sobre-temas-como-privatizar-a-beira-mar-e-legalizar-o-complexo-da-mare.ghtml https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/04/relator-flavio-bolsonaro-diz-que-vai-deixar-claro-em-pec-que-praias-nao-serao-privatizadas.ghtml https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/05/pec-das-praias-dificultaria-acesso-da-populacao-as-areas-a-beira-mar-e-favoreceria-especulacao-imobiliaria-diz-governo.ghtml https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/03/governo-e-contra-pec-que-pode-privatizar-terrenos-a-beira-mar-diz-ministro.ghtml #DescomplicandoNetuno #Privatização #Praias #Litoral #GestãoCosteira #GerenciamentoCosteiro #Governança #JanaDelFavero #LidaPaesLeme

  • É difícil ter mulher na ciência. É difícil ser mulher na ciência

    Por Angélica Nagata Ilustração: Lídia Paes Leme e Natasha Hoff No final de agosto, publicamos um estudo na revista científica Scientific Reports que mostra como é difícil ter mulher na ciência e como é difícil ser mulher na ciência. A publicação “Conservation biology leaders face different obstacles depending on gender” é fruto do trabalho e da inquietação de um grupo de amigas pesquisadoras que perceberam o óbvio: apesar de cercadas de cientistas mulheres incríveis, poucas ocupavam posições de liderança. E, como a percepção de uma mulher sempre é questionada, decidimos fazer o que fazemos de melhor: ciência. Investigamos se essa percepção era verdadeira. Afinal, vai que estamos “exagerando”? Os dados não negaram: poucas chegam até lá. Identificamos 556 líderes de pesquisa na área da biologia da conservação e concluímos que menos de 30% eram mulheres. É difícil ter mulher na ciência. Liderando, então… Entramos em contato com todos esses líderes para investigar suas histórias de vida e tentar mapear e compreender os desafios enfrentados por eles em sua jornada rumo à liderança. Entre os aspectos da história de vida investigados estavam: se possuíam filhos, com quantos anos tiveram o primeiro filho e com quantos anos concluíram o doutorado. Já entre os desafios profissionais enfrentados pelos pesquisadores, investigamos aspectos sistêmicos, como financiamento, treinamento, jornada de trabalho e questões relacionadas a gênero. Além dessas informações, o estudo ainda avaliou a produção acadêmica desses pesquisadores. Obtivemos 118 respostas: 54 de mulheres e 64 de homens. E nossa descoberta mais importante foi que a trajetória de sucesso descrita pelas mulheres que chegaram à liderança foi nitidamente diferente daquela descrita pelos homens. Em um primeiro momento, quando olhamos para a história de vida desses pesquisadores de sucesso, podemos pensar que a questão de gênero é um grande mimimi. Afinal, encontramos um perfil aparentemente padrão de cientista: homens e mulheres concluíram o doutorado com idades semelhantes, tiveram o primeiro filho, em média, entre os 33 - 35 anos de idade, tinham poucos filhos (entre 1 e 2) e não apresentaram diferenças estatisticamente significativas em sua produção acadêmica. Dois dados, no entanto, chamam atenção: 1º) Quase metade das líderes mulheres (46,3%) relatou dificuldades em equilibrar a vida pessoal e familiar com o trabalho, em comparação com apenas 21,9% dos líderes homens. 2º) Além disso, quando questionados sobre questões de gênero especificamente, NENHUM pesquisador homem relatou ter enfrentado desafios relacionados ao seu gênero, enquanto 29,6% das pesquisadoras apontaram o gênero como um obstáculo em suas trajetórias. Essas duas informações revelam que o perfil padrão apresentado anteriormente pode esconder alguns fenômenos sociais importantes: 1º — Viés de sobrevivência: nesse estudo estamos descrevendo o perfil daquelas cientistas mulheres que permanecem ativas academicamente, as sobreviventes. E aquelas que abandonaram a carreira? Ou aquelas que não chegaram a posições de liderança? Qual o perfil delas? Será que essas têm mais filhos? Ou engravidaram mais cedo? Nós não sabemos. E justamente aí está uma das limitações do estudo: analisamos apenas aquelas e aqueles que chegaram a posições de liderança. 2º — Sobrecompensação: a produção acadêmica de homens e mulheres pode até não apresentar diferenças estatisticamente significativas, mas a que custo? O esforço empregado pelas mulheres para se manterem produtivas é igual ao empregado pelos pesquisadores homens? O estudo não consegue responder diretamente a essa pergunta. Mas a sobrecompensação aparece como uma possível explicação para o fato de mulheres e homens apresentarem resultados semelhantes em produtividade, apesar de relatarem experiências tão diferentes ao longo da carreira. 3º — Pressões e desafios mais amplos no campo da conservação: estudos na área da biologia da conservação exigem disponibilidade, seja para ir a campo, seja para participar de uma conferência. É difícil conciliar isso com a rotina escolar dos filhos, por exemplo. Por fim, o estudo identificou ainda que apenas 15% dos líderes que responderam à pesquisa eram originalmente do Sul Global e somente 16% trabalhavam nessa região. Esse dado nos faz refletir sobre um viés importante da desigualdade de gênero: ela não acontece de maneira isolada. A questão de gênero é uma camada adicional de desigualdades sociais e interseccionais presentes em todo o mundo e também está relacionada às desigualdades históricas entre o Norte e o Sul Global. Nosso estudo não foi desenhado para investigar diretamente essas outras dimensões da desigualdade, ainda assim, a baixa representação de pesquisadores originalmente provenientes ou atualmente atuantes no Sul Global chama atenção para uma desigualdade geográfica e histórica na produção científica em conservação. Diante desses achados, concluímos algo que muitas de nós já sentimos há muito tempo: é difícil ter mulher na ciência. É difícil ser mulher na ciência. Espero que as evidências aqui apresentadas não sirvam apenas para mostrar que existem diferenças entre homens e mulheres, mas também que ajude a transformar os espaços que ainda tornam tão difícil a trajetória das mulheres na ciência. Que possam contribuir para que mais mulheres tenham condições de permanecer, crescer e ocupar os espaços de liderança que tantas vezes parecem não ter sido feitos para nós. E que, daqui para frente, outras mulheres precisem lutar um pouco menos para chegar onde desejam. Essa é uma publicação muito simbólica para mim, pois representa o poder do coletivo feminino. Sua existência prova que, muitas vezes, mulheres precisam de seus pares para não desistir, para acreditar, para fazer acontecer. Às autoras, o meu muito obrigada! Muito obrigada por me apoiar. Muito obrigada por me validar. Muito obrigada por me incluir. Sobre a autora: Bióloga, Professora e Mãe. Nômade desde novinha, tenho o Ceará atualmente como morada. Aqui leciono o que amo e tento recrutar mais pessoas legais para o universo da ciência. A biologia é pra mim um ato de rebeldia, de luta e onde fiz e faço as melhores conexões da minha vida. Sempre digo que o que a Biologia me deu de melhor foram as pessoas. Pessoas que me inspiram e mostram que tem uma porção de gente bacana no mundo, e que somos sim capazes de criar um mundo melhor. #MulheresNaCiência #Gênero #Liderança #BiologiaDaConservação #LeakyPipeline #Convidados

  • Mulheres que navegaram contra a história

    Por Catarina Marcolin Você também sente que a vida às vezes parece guiada por incômodos? Estava preparando uma aula que já ministro há alguns anos, onde traço um breve histórico sobre os estudos do plâncton. Esse histórico se confunde com a história da oceanografia, então falo sobre as primeiras navegações para coleta de dados científicos e apresento algumas pessoas importantes, TODOS homens. E faz alguns anos que isso tem me incomodado. Onde estão as mulheres dessa história? Elas têm que existir, eu pensava. Às vezes o incômodo surge, mas não nos permitimos cuidar dele. Bem, uma semana atrás, o incômodo aumentou e eu decidi que precisava procurar por essas mulheres. Acabei encontrando algumas poucas, mas interessantíssimas histórias. A primeira tem a ver com umas das minhas flores preferidas, a Bougainville! Isso mesmo, acidentalmente, eu descobri quem identificou uma Bougainville pela primeira vez. E apesar de ter sido uma mulher, quem a descreveu, esta linda trepadeira tem esse nome em homenagem a um homem, Louis Antoine de Bougainville, comandante de uma expedição francesa entre 1766 e 1769. Jeanne Baret (1740 - 1807) é o nome da “descobridora” da Bougainville, que também parece ter sido a primeira mulher a circum-navegar o globo, durante a tal expedição francesa. Ela conquistou este feito disfarçada de homem, pois havia uma proibição de mulheres a bordo de navios da marinha francesa na época. Quando descoberta, foi “convidada” a desembarcar. Jeanne coletou mais de 6000 espécimes de plantas ao longo da vida, mas apenas em 2012, mais de 200 anos depois, ela teve uma espécie nomeada em sua homenagem, a Solanum baretia. Retrato de Janne Baret, por Cristoforo Dall’Acqua (Domínio público). Bougainville (Domínio público). Solanum baretiae (CC BY 4.0). Embora o nome de Maude Delap (1866 – 1953) não apareça nos livros-texto, podemos dizer que ela foi uma naturalista irlandesa, apesar de ter feito homeschooling porque apenas os homens de sua família podiam estudar fora de casa. Maude e sua irmã Constance costumavam remar pelo porto e pelas águas ao redor da Ilha de Valentia, rebocando uma rede para coletar plâncton. Ela levava os animais marinhos para um laboratório improvisado em sua casa, onde os observava, em seu microscópio dourado. Ela colaborou durante anos com pesquisadores da Estação Biológica Marinha de Plymouth e do University College London, e foi a primeira pessoa no mundo a criar em laboratório medusas e observar todo o seu ciclo reprodutivo. Em 1906, o Plymouth Marine Biological Station lhe ofereceu uma bolsa de estudos, mas seu pai não permitiu que aceitasse: "No daughter of mine will leave home, except as a married woman”. Agora vamos pular uns 200 anos na história e conhecer a história de uma pós-graduanda do Woods Hole Oceanographic Institution, nos EUA, chamada Roberta Eike. O ano era 1956, mulheres eram proibidas de embarcar. Roberta tinha uma bolsa e precisava embarcar para conseguir amostras para o seu projeto de pesquisa. Após inúmeros pedidos negados, ela embarcou clandestinamente, carregando uma sacola com frutas, biscoitos, poucas roupas e frascos de vidro para coletar amostras de plâncton. Roberta então se escondeu perto da caldeira do navio, mas foi rapidamente descoberta pelo capitão. Ela precisou sair do esconderijo, pois o mau tempo lhe provocou enjoo. Seu supervisor, George Clarke, colocou-a sobre os joelhos e deu-lhe palmadas. Roberta foi fisicamente punida, humilhada na frente da tripulação e demitida assim que chegou em terra. Uma série de protestos a favor de Roberta abriram o caminho para que mulheres conquistassem o direito de embarcar em navios de pesquisa, o que aconteceu apenas seis anos depois do ocorrido. Por outro lado, na Rússia, a geóloga marinha Maria Klenova, do Instituto de Oceanologia de Moscou, liderou grandes expedições no Ártico e no Atlântico já na década de 1930. E foi graças a uma russa que uma mulher embarcou, oficialmente como cientista, pela primeira vez, numa expedição oceanográfica na América do Norte. O caso aconteceu no Scripps Institution of Oceanography, em 1963, quando dois cientistas russos foram convidados a participar de uma grande expedição a bordo do navio de pesquisa Argo. Apenas no momento em que “os” cientistas chegaram, que se descobriu que uma “deles” era mulher. Embora estas histórias que acabo de contar dêem a impressão de que as mulheres praticamente não embarcavam antes da década de 1960, uma pesquisa realizada por Mariana Caldeira Gonçalves demonstra o contrário. Mariana estudou minuciosamente inúmeros documentos históricos e concluiu que desde às grandes navegações, as mulheres, de diferentes perfis sociais, como mulheres da nobreza, mulheres escravizadas e mulheres em situação de vulnerabilidade, buscavam novas oportunidades ou cumpriam ordens de deslocamento. O trabalho de Mariana, publicado no livro “Mulheres a Bordo: A face pouco conhecida da expansão portuguesa” nos ensina que os registros históricos sobre mulheres, quando existem, partem do olhar masculino, como por exemplo, quando aparecem relatos sobre a presença feminina causando “desordem, perturbação ou transgressão da ordem pública e moral”. Tem fotos incríveis nos links ao final deste post de Maude e suas irmãs, em campo, de Roberta Eike e Maria Klenova. Quando tentei buscar por histórias de mulheres de outras partes do mundo, como Ásia e África, por exemplo, foi ainda mais difícil. Mas alguém aí ainda tem dúvida de que elas existiram? Este post é um apelo para que a gente não deixe os incômodos de lado. Mesmo que insistam em apagar nossa história, nós existimos e não vamos deixar de existir. Leituras interessantes: https://www.rmg.co.uk/stories/maritime-history/jeanne-baret-first-woman-sail-around-world https://www.discoveriveragh.ie/initiatives/finding-maude-delap https://coastmonkey.ie/maude-jane-delap-marine-science-pioneer/ Bonati, E. & Crane, K. Oceanography and Women: Early Challenges. Oceanography 25(4):32-39. DOI: https://doi.org/10.5670/oceanog.2012.103 #MulheresNasCiências #BatePapoComNetuno #Navegadoras #CatarinaMarcolin

  • Convidada para falar, não para ser ouvida

    Por Anônima Ilustração: Natasha Hoff e Lídia Paes Lemes Será que é possível estar sob holofotes, e ao mesmo tempo apagada? Será que é possível estar com um microfone na mão, falando para uma plateia silente e atenta, mas não ser vista ou ouvida? Pode parecer que estou fazendo analogias, ou tentando construir uma metáfora sobre solidão… mas acredite, estou sendo literal. Recentemente, estive em um evento como palestrante convidada. Era um evento muito peculiar porque reuniu um público bem diferente do que estou acostumada. Mas este evento reuniu diferentes setores da sociedade, com representantes do poder público, terceiro setor, universidades e empresários. Eu estava verdadeiramente animada com a possibilidade de conhecer e dialogar com pessoas com visões de mundo diferentes da minha. Eu não sou ingênua a ponto de imaginar que seria fácil, mas não pensei que seria tão difícil. Embora o evento tenha sido organizado com o intuito de promover um debate democrático, não foi o que aconteceu. Uma das organizadoras do evento, uma mulher que ocupa um cargo de liderança em seu trabalho, era a todo tempo solicitada a atender os mais diversos pedidos de um homem, da mesma “comissão organizadora”, sendo puxada pelo braço, como se fosse uma menina. Já começou por aí a minha infelicidade em constatar que nós, mulheres, em pleno 2026, seguimos sendo demandadas a servir obedientemente, sem nenhum constrangimento, mesmo quando ocupamos cargos de poder. Outra incongruência do evento foi a total ausência de representantes de comunidades tradicionais, profundamente relacionadas ao tema do evento. As mesmas comunidades que serão impactadas, mais do que a qualquer um de nós ali presente, sobre o que fosse ali decidido. Esta situação foi denunciada por um dos ouvintes, que convidou ao palco um representante de uma comunidade da região. A reação dos palestrantes não poderia ser mais esdrúxula. Ao longo do dia, em diversos momentos, esses palestrantes se dirigiram ao representante da comunidade, sem jamais lembrar seu nome, o incitando a trazer soluções para problemas que ele não havia criado. A pessoa que nem tinha sido convidada a opinar, agora era responsável por fazer tudo “dar certo”. No momento da minha fala, eu já estava exausta, resistindo a uma programação apertada, sem intervalos para o café, aqueles em que conhecemos mais de perto as pessoas, quando se permitem trocas de ideias, ou desabafar com a amiga sobre as piadas machistas que somos obrigadas a ouvir. Enfim, chegou a minha vez, fiz a minha fala, ou seja, estava em cima do palco, sob holofotes numa sala escura, com um microfone na mão. Logo em seguida veio outra mesa redonda, outros palestrantes. Um colega de profissão tentou fazer menção a algo que eu disse, mas incapaz de lembrar o meu nome e se dirigiu a mim como aquela menina da … “citou meu tema de fala”. Assim como ele não lembrou meu nome, não lembro qual menção insignificante ele fez à minha fala. Para você entender o meu lugar de fala, sou uma mulher cis, de meia idade, parda de pele clara, cabelos ondulados. Estava vestida num estilo entre o casual e o formal e fui apresentada como a profissional que sou. O meu colega de profissão, não apenas esqueceu o meu nome, mas se referiu a mim como uma menina, mesmo eu tendo mais de 10 anos de experiência na minha área. É uma infelicidade perceber como ainda sou tratada como uma menina que não merece ter seu nome lembrado, quem dirá ter suas ideias ouvidas e levadas em consideração. Enquanto homens, em posição semelhante, são lembrados e reverenciados, e agem como se dispensassem apresentações. E o “debate democrático” virou apenas um espetáculo para fingir coletivismo, enquanto as decisões já foram tomadas entre os amigos do clube. Voltei pra casa com o estômago embrulhado e precisei de dias para digerir tanta falta de respeito por parte de pessoas que têm o poder de tomar decisões que influenciam a vida das pessoas. Ainda me sinto no dever de estar nesses lugares, insalubres para uma mulher como eu, na expectativa de conseguir ser ouvida, de conseguir influenciar minimamente nas esferas em que tenho acesso. Pois afinal de contas, eu ainda fui convidada, enquanto aquele representante, do qual faço questão de lembrar o nome, não havia sido sequer convidado e ainda assim, estava lá, resistindo. Enquanto houver amor, ou ódio, sejamos resistência. #MulheresNaCiência #Desrespeito #Resistência

  • Correr e catar lixo: um novo esporte Plogging

    Por Lidia Paes Leme Ao caminhar na areia da praia, com certeza você já avistou algum tipo de lixo. Infelizmente, essa é a realidade na qual vivemos: de bitucas de cigarro a pedaços de plástico ou tampinhas de garrafa, esses elementos não são difíceis de encontrar. Muitas vezes, eles nos incomodam e até nos levam a recolhê-los. Se você é uma dessas pessoas que catam lixo na areia, você já pratica um esporte que nem conhecia: o plogging. Lixo coletado pela autora em apenas 10 min de Plogging em Juquehy, SP. Esse termo, cunhado na Suécia, é uma combinação da palavra sueca plogga (pegar) e jogging (correr, em inglês) - ou seja, correr e pegar lixo ao mesmo tempo. Pode parecer um pouco estranho, mas esse esporte vem conquistando o mundo. O criador do termo, o esportista sueco Erik Ahlström, criou o site Plogga (@plogga), que reúne informações sobre a prática e divulga eventos realizados em diferentes lugares do mundo. Seus lemas são “seja parte da solução, não da poluição” e “corra com propósito” . O movimento se espalhou! Hoje, há grupos de plogging do México (@PloggingMX) à Porto Seguro, Bahia (@ploggingportoseguroba), entre tantos outros grupos grandes nos Estados Unidos, Europa e Índia. Segundo o Plogga, a prática já chegou a mais de 100 países! Embora tenha começado como uma atividade associada à corrida (jogging), você não precisa necessariamente correr para praticar o plogging. Ele pode ser feito vinculado a qualquer atividade física que você goste: caminhando, pedalando, remando, nadando… Afinal, a ideia é movimentar o corpo enquanto recolhe o lixo encontrado pelo caminho. Como exercício, o plogging também permite variar os movimentos do corpo, incorporando flexões, agachamentos e alongamentos à atividade principal. E não precisa acontecer apenas na praia: parques, ruas, praças, avenidas... qualquer lugar pode virar cenário para a prática. O plogging pode, inclusive, virar brincadeira entre crianças, sendo uma maneira divertida para engajá-las com a responsabilidade ambiental. Podem ser criadas corridas competitivas ou jogos, como, por exemplo, quem encontra itens mais coloridos ou o material vindo de mais longe. Os adeptos dessa prática desenvolvem valores como solidariedade, esforço e perseverança, ao mesmo tempo em que enfatizam seu compromisso com o meio ambiente. O plogging em si não é só esporte; é também uma forma de conscientização. A solução para o problema do lixo não está apenas em retirá-lo das ruas, praias e parques, mas também em repensar a forma como o produzimos e consumimos. Ao percebermos a quantidade e os tipos de resíduos que encontramos pelo caminho, somos convidados a olhar para os nossos próprios hábitos e escolhas. E essa relação com o lixo pode provocar sentimentos diferentes. Um estudo recente com ativistas que recolhem voluntariamente resíduos mostrou que, embora sentimentos negativos, como o nojo, possam ser um estímulo inicial para a ação, o contato com o lixo também pode despertar sensações positivas, como alegria, prazer e inspiração. A prática de recolher resíduos pode ainda gerar uma sensação de que estamos fazendo algo concreto pelo lugar onde vivemos. Também pode ser legal participar da campanha que ocorre em consonância com o Dia Mundial da Limpeza (World Cleanup Day), considerada a maior ação cívica de proteção ao meio ambiente, convergindo esforços para um mesmo propósito. A organização estima que 180 países,1.200 cidades brasileiras e 50 milhões de voluntários já participaram das ações. Verifique no site, talvez exista alguma ação acontecendo pertinho de você! E aí, topa começar esse novo esporte? Fontes: https://www.plogga.se/en/ https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2023/02/o-que-e-plogging-como-se-juntar-a-essa-tendencia-na-proxima-vez-que-sair-de-ferias https://ciclovivo.com.br/vida-sustentavel/bem-estar/plogging/ https://www.agazeta.com.br/revista-ag/vida/plogging-correr-e-recolher-lixo-na-praia-ou-qualquer-lugar-e-a-nova-mania-0619 https://www.iberdrola.com/social-commitment/what-is-plogging LEPISTÖ, Ella; PYYHTINEN, Olli. Affective encounters with waste: The role of affects in trash activism. Ethnography, v. 27, n. 3, p. 755–780, 2026. DOI: 10.1177/14661381251316133 Acesso: https://journals.sagepub.com/doi/epub/10.1177/14661381251316133 #DescomplicandoNetuno #Plogging #DiaMundialDeLimpezaDePraias #LimpezaDePraias #LixoNoMar #LidiaPaesLeme

  • Cultura no oceano? Mas cultura não é coisa de gente?

    Por Natalya Miranda E se eu te dissesse que os animais marinhos também tem suas tradições, seus sotaques e até suas “técnicas” passadas de geração em geração? Mas atenção! Dessa vez não estamos falando de Cultura Oceânica, um conceito global de trazer, a todos, uma compreensão da influência do oceano na vida do ser humano, bem como a influência do ser humano no oceano. Em lugares como Shark Bay (Austrália) e também aqui no sul do Brasil, animais marinhos (golfinhos, baleias e até polvos) aprendem uns com os outros comportamentos que se perpetuam ao longo do tempo. Para a ciência, cultura é o conjunto de comportamentos transmitidos socialmente dentro de uma população, cuja distribuição não se explica apenas por fatores genéticos ou ambientais. Em outras palavras, é o aprendizado coletivo que se espalha e se mantém: uma herança não biológica. Vamos conhecer alguns comportamentos “culturais” do mundo marinho? Golfinhos que usam ferramentas Em Shark Bay, na Austrália, os golfinhos-indopacíficos (Tursiops aduncus) usam esponjas marinhas para proteger seu focinho sensível enquanto procuram peixes enterrados no fundo. Esse comportamento é chamado de sponging. Estudos genéticos mostraram que não há explicação ambiental ou genética que justifique esse comportamento: trata-se de aprendizado social vertical, ou seja, passado apenas de progenitor para filhote. Golfinhos e caiçaras: uma aliança de gerações Não precisamos atravessar o mundo para observar manifestações culturais no mar. No sul do Brasil, existem populações de botos-de-Lahille (Tursiops gephyreus) que há décadas cooperam com pescadores artesanais para capturar tainha (Mugil liza). Estudos de campo mostram que, em Tramandaí (RS) e Laguna (SC), a presença e o número de golfinhos (regionalmente chamados de botos) explicam diretamente a produtividade da pesca. Há toda uma comunicação golfinho-humano: assobios e sinais corporais, que indicam o momento certo para os pescadores humanos lançarem a rede. Essas interações são transmitidas entre famílias de pescadores e entre gerações de golfinhos. Uma forma rara e sofisticada de cooperação entre espécies, na qual tradições humanas e não humanas se entrelaçam. Tem até um post aqui no Bate-Papo com Netuno sobre essa interação para quem quiser saber mais! À esquerda, golfinho usando esponja como ferramenta de forrageio (Wikimedia Commons / Foto: Michael Krützen / Licença CC BY 3.0). À direita, golfinhos e pescadores artesanais coordenando o lançamento de redes durante a pesca (Wikimedia Commons / Foto: Projeto Botos da Barra / Licença CC BY 3.0). Baleias e seus hits de carnaval Que as jubartes (Megaptera novaeangliae) machos cantam você talvez já saiba. Mas e se eu contar que essas canções variam entre populações e mudam a cada temporada? Uma população, ao encontrar com outra em suas rotas de migração, pode incorporar elementos novos em suas canções, como se fizesse uma nova versão da sua música inspirada na população vizinha, o que chamamos de evolução cultural. Mas por vezes novas canções substituem completamente as antigas e se espalham entre as populações em pouco tempo. Sabe quando surge um hit novo a cada carnaval? Cientistas chamam essas mudanças abruptas de revoluções culturais. Populações de jubartes apresentam diferentes canções, como nós com nossos diferentes gêneros musicais (fonte: próprio autor). Então quer dizer que cultura é uma coisa de mamífero? Não exatamente. Mesmo espécies menos “carismáticas” mostram formas de aprendizagem social, como peixes e polvos que conseguem copiar soluções ou estratégias ao observar outros indivíduos. Esses comportamentos mostram que a capacidade de aprender com o outro não é exclusiva dos mamíferos. Por outro lado, para a ciência, isso ainda não é suficiente para chamar de cultura.Por mais complexo que seja, um aprendizado só pode ser categorizado como cultural se ele não for explicado nem por genética nem por diferenças ambientais. Além disso, deve ser transmitido por toda uma população e mantidos ao longo de várias gerações, uma tradição. Tá, e por que isso importa? E o que perdemos quando uma cultura marinha desaparece? Cultura pode ser uma estratégia de sobrevivência: Pode gerar mudanças comportamentais mais rápidas do que a seleção genética, adaptando-se mais rapidamente diante de uma nova pressão evolutiva. Cultura importa para a conservação: Populações com tradições únicas, como as orcas (Orcinus orca) e suas estratégias específicas de caça, podem responder de formas muito diferentes às mesmas ameaças. Reconhecer essas diferenças entre populações de uma mesma espécie é essencial para políticas de conservação certeiras e eficazes. A perda cultural é irreversível: Quando uma população desaparece, desaparece com ela um repertório único de comportamentos, sons e saberes que não pode ser reconstituída. Não basta preservar o DNA; é preciso preservar também as tradições que o tornam vivo. Preservar espécies também é preservar seus saberes. Referências ou sugestão de leitura: Brakes, Philippa; Whiten, Andrew. 2020. Culture and conservation: beyond genes to knowledge and identity. BioScience, 70(6):451–463. https://doi.org/10.1093/biosci/biaa036 Garland, Ellen C.; Goldizen, Anne W.; Rekdahl, Melinda L.; Constantine, Rochelle; Garrigue, Claire; Hauser, Nan D. et al. 2011. Dynamic horizontal cultural transmission of humpback whale song at the ocean basin scale. Current Biology, 21(8):687–691. https://doi.org/10.1016/j.cub.2011.03.019 Keith, Sally A.; Bull, Joseph W.; Milner-Gulland, E. J. 2020. Extinction of cultural diversity: the loss of behaviour, knowledge and identity among non-human animals. Trends in Ecology & Evolution, 35(7):537–546. https://doi.org/10.1016/j.tree.2020.02.002 Laland, Kevin N.; Hoppitt, William. 2003. Do animals have culture? Evolutionary Anthropology, 12(3):150–159. https://doi.org/10.1002/evan.10111 Simões-Lopes, Paulo C.; Fabian, Maria E. 1999. Cooperative feeding between bottlenose dolphins and fishermen in southern Brazil: evidence for mutualism. Marine Mammal Science, 15(4):1228–1237. https://doi.org/10.1111/j.1748-7692.1999.tb00881.x Smolker, Rachel A.; Richards, Angela F.; Connor, Richard C.; Mann, Janet; Berggren, Per. 1997. Sponge carrying by dolphins (Delphinidae, Tursiops sp.): a foraging specialization involving tool use? Ethology, 103(6):454–465. https://doi.org/10.1111/j.1439-0310.1997.tb00160.x Projeto Botos da Barra. 2025. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Disponível em: https://botosdabarra.ufsc.br. Acesso em: 30 out. 2025. UNESCO Office Venice and Regional Bureau for Science and Culture in Europe; Intergovernmental Oceanographic Commission. 2020. Cultura oceânica para todos: kit pedagógico. COI. Manuais e Guias, 80 Rev. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000373445 Sobre a autora: Nascida no litoral e graduada em Biologia pela USP, a biodiversidade sempre me fascinou. É fácil me encontrar fotografando por aí: pesquiso sobre ecologia de aves silvestres em ambientes urbanos. Ah! E sou educadora também. Meu contato: natalyacristine2@gmail.com #CuriosidadesOceânicas #Cultura #ComportamentoAnimal #Convidados

  • Quando uma "gambiarra" fortalece a ciência

    Por Anne Elisabeth Matos Nunes Quando pensamos em pesquisa científica, é comum imaginar laboratórios equipados com tecnologias de ponta, equipamentos sofisticados e recursos praticamente ilimitados. No entanto, essa realidade está longe de representar o cotidiano de muitos pesquisadores brasileiros. Por aqui, fazer ciência também significa adaptar, improvisar e encontrar soluções criativas para continuar pesquisando. Professores e alunos que participaram do I Workshop Brasileiro de Harmonização de Métodos Analíticos para Contaminação por Microplásticos. Foi justamente uma dessas histórias que mais me marcou durante o I Workshop Brasileiro de Harmonização de Métodos Analíticos para Contaminação por Microplásticos, organizado pela equipe do Centro de Referência para a Quantificação e Caracterização do Lixo Marinho (CeLMar) do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP). Marilia, Marcela e eu! Organizadoras e responsáveis pelo seminário e workshop. O momento era de mentoria entre alunos e professores. Para estimular uma discussão bem dinâmica e interessante para todos, aplicamos a ferramenta da Matriz SWOT (uma análise sobre Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças) em cima das dúvidas, conflitos e dores que os estudantes trouxeram para a mesa. A primeira moça a iniciar o papo começou a relatar os obstáculos que enfrentava no cotidiano. Sem perceber, ela trouxe o estopim para a discussão mais rica da semana. Ela contou que, por estar em uma instituição cujo laboratório não era originalmente voltado para o estudo de lixo no mar ou microplásticos, faltavam os recursos básicos e a infraestrutura ideal para que ela pudesse conduzir seus experimentos com segurança. Mentoria entre professores e alunos. Para quem não é da área, explico o drama: os microplásticos são pequenos fragmentos de plástico menores que 5 milímetros, encontrados em praticamente todos os cantos, dos oceanos ao ar que respiramos. Como essas partículas microscópicas ficam suspensas na poeira ou se desprendem das nossas roupas, o risco de contaminação cruzada é altíssimo. Se uma única fibra cair na amostra durante o processamento, o resultado é comprometido e a pesquisa perde a validade. Para reduzir esse risco, o cenário ideal exige o uso de capelas de fluxo laminar comerciais, aqueles equipamentos robustos de laboratório que criam uma barreira de ar filtrado para proteger a amostra. Sem orçamento para adquirir uma estrutura dessas, a pesquisadora se viu em um beco sem saída. E foi aí que a necessidade despertou a engenharia criativa. Ela mesma desenhou e encomendou placas de vidro sob medida para construir um grande cubo fechado. Para conseguir manipular o material lá dentro, fez duas aberturas redondas nas laterais para a entrada das mãos. Mas como não adiantava ser apenas uma caixa isolada já que o trabalho com microplásticos exige uma circulação de ar eficiente, ela usou a criatividade e adaptou o motor de um aspirador de pó em um dos cantos da estrutura para gerar o fluxo necessário. A "Gambiarra" - Capela de fluxo laminar improvisada, desenvolvida pelo grupo de pesquisa Impactos Naturais e Antropogênicos na Zona Costeira Amazônica - IMPACTAm, Universidade Federal do Maranhão. O mais tocante foi a forma como ela compartilhou isso. Ao falar da sua caixa de vidro, sua voz carregava um leve tom de vergonha... ou talvez medo. O receio de ser criticada por não estar usando a tecnologia oficial de um catálogo importado é um sentimento que assombra muitos cientistas que fazem milagre com pouco orçamento. Mas o que se seguiu na sala foi o oposto do julgamento. Quando aplicamos a análise SWOT no trabalho dela, aquela "gambiarra" foi imediatamente ressignificada: deixou de ser uma limitação e virou uma oportunidade gigante. Uma das professoras presentes na mentoria abriu os olhos de todos nós ao mostrar o impacto real daquela ideia. Ela explicou que aquela cabine caseira tinha potencial para virar uma publicação científica de peso. Se a pesquisadora elaborasse um artigo detalhando o passo a passo da construção, as medidas e a validação da eficiência da caixa, ela compartilharia com o mundo uma solução de baixo custo para laboratórios de diferentes realidades. Foi simplesmente gratificante ver a transformação no rosto daquela pesquisadora. Ela entrou na discussão acuada e saiu renovada, entusiasmada e, acima de tudo, orgulhosa da própria trajetória. Essa virada de chave nos levou direto ao coração do evento: a harmonização metodológica. Harmonizar métodos não é sobre exigir que todo mundo compre os mesmos equipamentos caros, mas sim garantir que pesquisadores de diferentes instituições consigam produzir resultados comparáveis, confiáveis e transparentes, independentemente do orçamento disponível. Ao final daquela semana, ficou nítido que a inovação nem sempre nasce de grandes financiamentos ou laboratórios saídos de filmes de ficção científica. Muitas vezes, ela surge da criatividade pura, da colaboração e da generosidade. Quando uma boa ideia deixa de beneficiar apenas uma bancada acanhada e ganha o potencial de ajudar pesquisadores de todo o país, quem ganha, de verdade, é a ciência e toda a sociedade. Sobre a autora: Meu nome é Anne Elisabeth, tenho 24 anos, sou formada em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e atualmente trabalho no Instituto Oceanográfico da USP, no Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação Marinha. Minha atuação é voltada principalmente para o estudo e monitoramento de microplásticos no CeLMar e para a conservação dos oceanos. Apaixonada por animais e pelo mar desde cedo, amo mergulhar e qualquer atividade que envolva o ambiente marinho. Tenho como sonho que meu trabalho me leve para diferentes cantos do mundo, conhecendo novas culturas e aprendendo cada vez mais sobre o oceano. E, de alguma forma, retribuir tudo isso compartilhando o que aprendo com outras pessoas por meio da divulgação científica. Entre a ciência, o mar e minha paixão por viajar, quero continuar encontrando novas oportunidades para aprender, explorar e contribuir para a conservação dos nossos oceanos. #CiênciasDoMar #CiênciaBrasileira #Inovação #Criatividade #Microplásticos #Metodologia #SWOT #Convidados

  • Para quem tem medo de tubarão

    Por Antonio Mattos Levorin e Gabriel Yudi Campana Narumya Ilustração de Natasha Hoff. Quase sempre que se fala em tubarão a principal palavra associada é “ataque” ou “fatal”. Na realidade, isso não é bem assim. Primeiro porque o termo “ataque” não é o mais adequado, pois o que acontece é um encontro acidental, sem querer, um incidente. Afinal, o tubarão não nada por aí pensando em agredir um ser humano. Segundo, porque o número de incidentes com tubarões é muito baixo. Muito baixo mesmo! Por exemplo, em 2022, apenas 5 pessoas morreram no mundo por incidentes com tubarão. Em comparação, morrem por ano, em média, 150 pessoas por queda de coco na cabeça. Sim, é isso mesmo! Se é para se preocupar com alguma força da natureza assassina, que tenhamos medo dos cocos (imagine se, ao invés de uma maçã, Newton recebesse um coco na cabeça?!). Mas, então, já que a chance de uma pessoa ter um incidente com um tubarão é tão pequena, por que estamos constantemente com medo quando entramos no mar, e, por que parece que sempre estamos escutando sobre incidentes? Para entender porque sentimos tanto medo dos tubarões, é preciso olhar um pouco para o passado. A imagem do tubarão como devorador de pessoas foi sendo construída ao longo da história. No século XVIII, um naturalista renomado chamado Carolus Linnaeus, que viveu entre os anos 1707-1778, criou o que seria a base para a classificação e nomeação dos seres vivos como conhecemos hoje. Seu trabalho foi essencial para o andamento da ciência e para o surgimento de sistemas mais complexos de classificação dos seres vivos, mas também foi uma das causas para essa imagem dos tubarões que temos hoje. Ao descrever as espécies, Linnaeus atribuiu algumas características, que hoje em dia, sabemos que não são as mais adequadas para estudos de classificação. Uma dessas foi a de que tubarão branco “ataca”, “tem dentes de armadura” e que seria o provável responsável por “devorar Jonas”. Essa é uma possível interpretação de uma passagem bíblica sobre quando “um grande peixe” engoliu o personagem. Ou seja, as evidências de que os tubarões atacam e comem as pessoas não eram bem claras… Porém, isso foi suficiente para criar essa imagem ameaçadora, e ela foi sendo reforçada e difundida ao longo do tempo, principalmente pela mídia. Um dos problemas de como a mídia lidou com esses “encontros com tubarões” foi a forma com que classificou essas interações: na enorme maioria das vezes, criou-se uma visão mais sensacionalista (que chama mais atenção dos leitores) de categorizar os encontros como “ataques”, quando, na realidade, existe uma grande variedade de interações com os tubarões, e já vimos que os incidentes e fatalidades são uma parte muito pequena disso. Tudo isso foi potencializado no fim do século passado quando, em 1975, estreou o grande sucesso do cinema “Jaws” (que em inglês significa mandíbula, mas, no Brasil, o filme foi chamado apenas de Tubarão), consolidando essa imagem que as pessoas já tinham dos tubarões como “monstros com gosto por carne humana”. Apesar de todo esse medo e esses mitos sobre os tubarões, muitos estudos sobre o comportamento desses animais foram feitos, e há um consenso na comunidade científica: seres humanos não estão no “menu” dos tubarões. A maioria dos acidentes que envolvem mordidas não são fatais, e os animais costumam “cuspir” após a mordida. Então, o que pode estar causando esses acidentes? Na maioria das vezes, as vítimas de mordidas são surfistas e bodyboarders. Isso pode acontecer porque eles provavelmente são confundidos pelos tubarões com outros animais aos quais se assemelham, como tartarugas ou lobos-marinhos. Existem também, outros fatores que podem estar contribuindo para que acidentes com tubarões aconteçam com uma frequência maior do que a esperada, como foi o caso da cidade de Recife entre 1992 e 2006. Lá, a construção do Porto de Suape possivelmente levou ao deslocamento de tubarões-cabeça-chata para longe de áreas previamente utilizadas para reprodução e alimentação costeira. Esses tubarões, seguindo as correntes predominantemente para norte, podem ter migrado para o estuário do Rio Jaboatão, próximo a canais frequentados por humanos. No rio Jaboatão, ocorre o descarte de sangue e vísceras, e ele deságua justamente na região em que foram registrados os acidentes com tubarões (dê uma olhada no mapa abaixo). Um caso bastante semelhante foi observado em Mogadíscio, na Somália, onde um aumento drástico no número de acidentes com tubarões ocorreu depois da construção de uma estrutura portuária na região, associada à operação de um matadouro já existente. Esse cenário, por sua vez, pode ser agravado pela destruição de seus habitats naturais, como recifes de corais e manguezais, devido à poluição e às mudanças climáticas. A perda desses habitats pode levar esses peixes a procurar alimentos em regiões próximas às praias, aumentando, portanto, as chances de contato com humanos. Mapa ilustrativo mostrando a localização do Matadouro Municipal de Jaboatão, Rio Jaboatão e do Porto de Suape e o fluxo dos tubarões após a construção do porto em 1978. Produzido pelos autores, Antonio Mattos Levorin e Gabriel Yudi Campana Narumya. Licença CC BY 4.0 Os tubarões são predadores de topo nas cadeias alimentares marinhas e, por isso, desempenham um papel crucial na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas. Eles ajudam a controlar populações de peixes, impedindo que espécies específicas se tornem superpopulosas e ameacem o equilíbrio ecológico. Com o declínio das populações de tubarões devido à pesca predatória e à destruição de habitats, observa-se um efeito cascata, com desequilíbrios que afetam desde pequenos peixes até organismos de maior porte. Homem devorador de tubarão. Imagem produzida através de Inteligência Artificial (Microsoft Copilot AI) pelos autores Antonio Mattos Levorin e Gabriel Yudi Campana Narumya. Licença CC BY 4.0 Ter medo de tubarões, como vimos, pode ser um exagero (já que os encontros com mordidas ou fatalidades são muito raros em humanos), mas o que ocorreu e vem ocorrendo com os tubarões em resposta a esse medo não é justificável. Por ano, são mortos cerca de 80 milhões de tubarões (2019). Se alguém deveria ter medo, são os tubarões de nós, humanos, e não o contrário. Referências Neff, Christopher, and Robert Hueter. "Science, policy, and the public discourse of shark “attack”: a proposal for reclassifying human–shark interactions." Journal of environmental studies and sciences 3 (2013): 65-73. Hazin, Fábio HV, George H. Burgess, and Felipe C. Carvalho. "A shark attack outbreak off Recife, Pernambuco, Brazil: 1992–2006." Bulletin of Marine Science 82.2 (2008): 199-212. Sobre os autores: Sobre Gabriel: Estudante de licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela USP, com enfoque em educação básica e Ensino por Investigação. É estagiário na área de Biologia no Colégio Bandeirantes e professor voluntário no Cursinho Popular da FFLCH, além de atleta universitário e melhor amigo do Antônio. Sobre Antônio: Estudante de licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela USP, com enfoque em educação básica e pesquisa em Ciência da Conservação com a Profa. Dra. Renata Pardini. É estagiário pela CETESB e professor voluntário no Cursinho Popular da FFLCH, além de atleta universitário e melhor amigo do Gabriel. Gabriel e Antônio elaboraram este texto como projeto da disciplina “Divulgação Científica e cultura Oceânica”, ministrada pela editora do BPCN e Prof.ᵃ Dr. ᵃ Cláudia Namiki, do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. #CuriosidadesOceânicas #Tubarão #AcidenteComTubarões #Convidado

  • Por que a gente enjoa quando está embarcado?

    Por Tatiane Leite e Kenzo Omaki Ilustração: Caia Colla Você já embarcou? Caso já tenha embarcado, existe a possibilidade de ter ficado enjoado. Claro que isso é algo que varia de pessoa para pessoa: para alguns, um pouco de balanço já é suficiente para ficar “mareado”; para outros, o barco pode balançar o que for, que o enjoo não vem. Por que a embarcação balança? Como sabemos, o oceano não é estático. Por isso, os barcos ainda balançam mesmo estando parados. Esses movimentos (Figura 1a) são devidos, principalmente, à ação dos ventos, que ao soprar sobre a superfície do mar geram ondas de superfície, cujo tamanho varia de acordo com a velocidade do vento, a distância que ele sopra, sua duração e a profundidade. Em oceanografia, essa relação é feita a partir da escala de Beaufort, que associa a velocidade do vento e a condição do mar (Figura 1b). Além disso, a escala também pode ser um “spoiler” do nível de enjoo que o embarcado pode vir a sentir. Figura 1: a) Movimentos da embarcação ilustrados por Tatiane Leite e Kenzo Omaki. b) Escala de Beaufort (domínio público) esquematizada por Tatiane Leite e Kenzo Omaki. Ambos com licença CC BY SA. A jornada do enjoo O labirinto, ou aparelho vestibular (Figura 2), é um órgão que atua na audição e no equilíbrio do corpo nos vertebrados, por meio de regiões especializadas na detecção de vibração e sua conversão em sons, possibilitando que o cérebro interprete a orientação do som, sua origem e direção. O processo do enjoo se inicia quando o labirinto é estimulado pelo nível de agitação da água do mar, que movimenta a endolinfa, líquido presente em seu interior, estimulando células emissoras de pulsos elétricos com diferentes magnitudes para o cérebro. Figura 2: Anatomia do Sistema Auditivo Periférico. Fonte: Traduzido de Introdução à Audiologia Básica/Sistema Auditivo Periférico/Anatomia - Wikiversidade com licença CC BY 3.0. Assim, o que ouvimos é uma interpretação das vibrações recebidas. Um exemplo didático são os fones por condução óssea (Figura 3), que não geram sons e sim vibrações, captadas pela orelha e convertidas em som pelo cérebro. Figura 3: Fones por condução óssea. Flickr/RobandSheila/CC BY-NC-SA 2.0. Além disso, o enjoo pode ser uma resposta a sinais contraditórios entre diferentes sistemas do corpo e o ouvido interno. Por exemplo, ao estar em uma embarcação balançando, o ouvido interno envia sinais ao cérebro indicando movimento, mas outras partes do corpo, como a musculatura das pernas e os olhos, indicam que o corpo está parado, gerando confusão no cérebro. Para as duas causas, a resposta é a mesma: o corpo interrompe a digestão no estômago, impedindo que o alimento chegue ao intestino, estimulando o vômito. Essa resposta é uma reação do cérebro a uma possível intoxicação alimentar que pode ter afetado o equilíbrio do corpo. Desde os primórdios até hoje em dia A teoria mais aceita sobre o labirinto nos vertebrados define sua origem a partir de modificações no sistema de linha lateral, presente desde os vertebrados mais basais, até os anfíbios em sua fase larval. No ambiente marinho, muito mais denso que o ar atmosférico, as ondas sonoras emitem muito mais vibrações ao se deslocarem na água, movimentando o líquido no ouvido interno dos organismos. Já em organismos terrestres, as ondas sonoras vibram menos quando se deslocam, movimentando menos o líquido do ouvido interno, que precisa de mais energia para se mover. Por isso, com a gradual mudança para o meio terrestre, os vertebrados desenvolveram mecanismos para aumentar a captação de sons ambientes como orelhas externas para amplificar as vibrações no canal auditivo. Manual de prevenção ao enjoo A lição que tiramos de tudo isso é que o enjoo é passível de acometer quem está embarcado, mas calma, existem formas de amenizá-lo e, para isso, fizemos um compilado de dicas de pessoas que costumam embarcar: dizem que é bom ficar em locais mais próximos ao nível do mar, olhar para o horizonte, não ficar de “estômago vazio”, buscar o/a enfermeira/o ou médico/a da embarcação, evitar ingerir alimentos considerados “indigestos” (Ex.: melancia) e se for vomitar ou estiver se sentindo mal, não use um bordo muito baixo da embarcação devido ao risco de queda. Outra alternativa é o uso de medicamentos para enjoo, mediante prescrição médica prévia, é claro. E se nada der certo, deixe a necessidade do corpo de vomitar falar mais alto que a vergonha. Relato pessoal dos autores Figura 4: Embarque pelo Projeto Efeito Spillover das áreas de exclusão de pesca ao redor das Unidades de Conservação (Spillover). Foto: Kenzo Omaki com licença CC BY NC-ND Em 2022, embarcamos pelo Projeto Efeito Spillover das áreas de exclusão de pesca ao redor das Unidades de Conservação (Spillover) no B/Pq Alpha Delphini, e em um dos pontos de coleta (estação), o mar não estava tão amigável com os nossos labirintos e aí veio aquela mistura de sensações: pressão baixa, azia, suor frio, tontura, entre outras. A gente até tenta lutar contra isso, fingir força, mas acredite, a cara empalidecida entrega que não estamos bem… risos… E, então, no meio do merecido almoço pós-trabalho árduo, é hora de levantar, ir até a área externa do barco e ver a melancia do café da manhã no casco do navio, desencurvar e ter alguém checando se você está bem e sentir que sim, agora você está bem melhor. Referências: Escala de Beaufort. Marinha do Brasil. Disponível em:. Acesso em 06 de Nov. de 2024. KARDONG, Kenneth V. Vertebrados: anatomia comparada, função e evolução. Roca, 2014 Sobre os autores: Graduanda do 5° ano do Bacharelado em Oceanografia no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e integrante do Laboratório de Ecologia da Reprodução e do Recrutamento de Organismos Marinhos, coordenado pela Profa. Dra. June Ferraz Dias. Tem interesse na grande área biológica da oceanografia e como ela se relaciona com as demais grandes áreas, com destaque para a oceanografia química e a oceanografia socioambiental. Graduando do 4° ano do Bacharelado em Oceanografia no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e integrante do Laboratório de Ecologia da Reprodução e do Recrutamento de Organismos Marinhos, coordenado pela Profa. Dra. June Ferraz Dias. Tem grande interesse em Ictiologia, com destaque ao estudo da taxonomia, morfologia e miologia dos grupos de peixes viventes, especialmente Bagres. **Kenzo e Tatiane elaboraram este texto como projeto da disciplina “Divulgação Científica e cultura Oceânica”, ministrada pela Prof.ᵃ Dr. ᵃ Cláudia Namiki, do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. #CuriosidadesOceânicas #Convidados #ClaudiaNamiki #CaiaColla #Embarcar #Enjoo

  • Os polvos podem brincar? O que nos ensina o documentário Professor Polvo

    Por Nayara Almeida Amed Você já assistiu o documentário “Professor Polvo”? Ele foi lançado em 2020 e foi ganhador do Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2021. Dirigido por Pippa Ehrlich e James Reed, o longa mostra a história real de Craig Foster, um cineasta que mergulha todos os dias, durante quase um ano, para visitar um polvo fêmea em uma floresta de algas na África do Sul. Com o tempo, o polvo começa a confiar nele, e o que vemos é uma relação muito curiosa – e surpreendente! Um dos comportamentos mais diferentes observados nesse período foi a brincadeira. Mas será que um polvo pode mesmo brincar? Os polvos são moluscos do grupo dos cefalópodes, conhecidos por sua inteligência e habilidades incríveis. Eles têm um sistema nervoso muito desenvolvido: um polvo adulto tem cerca de 500 milhões de neurônios, sendo que a maior parte está espalhada pelos tentáculos! Para comparar, caramujos, que também são moluscos, possuem só cerca de 20 mil neurônios. Além da quantidade, a organização dos neurônios nos polvos também impressiona. Eles têm uma parte do cérebro chamada lobo vertical, importante para a memória e o aprendizado, o que ajuda a explicar seus comportamentos complexos, tal qual a brincadeira. O cineasta Craig Foster conhecendo o polvo e se fascinando pela primeira vez, o que o levou a visitar o animal por vários dias seguidos e acompanhar seu ciclo de vida (Foto de divulgação Netflix). O que é brincar para um polvo? Brincar pode parecer algo só de humanos ou de animais domésticos, mas cientistas vêm observando que outros animais também fazem isso. No caso dos polvos, a brincadeira mais comum é com objetos. Um estudo de 2003 listou cinco critérios para identificar se um comportamento é mesmo uma brincadeira: deve ser voluntário e espontâneo; não deve estar ligado a necessidades básicas (como fome); deve ser diferente do comportamento “normal” do animal; acontecer várias vezes e quando o animal não está estressado. Ou seja, o polvo só brinca se estiver calmo, sem perigo e com recursos sobrando. No documentário, tem uma cena marcante em que o polvo estica os tentáculos em direção a um cardume de peixes, sem tentar pegá-los. Craig Foster questiona: “Será que ele está brincando?” Pode ser que sim! Brincar, nesse caso, pode ser uma forma do polvo de se estimular mentalmente, usar a criatividade e até aprender coisas novas. A teoria do “recurso excedente” (Kuba et al., 2006) explica que os animais só brincam quando têm energia e tempo “sobrando”. Ou seja, a brincadeira não serve para algo imediato, como se alimentar, mas pode ajudar o animal a desenvolver habilidades importantes para a sobrevivência. Estudar o comportamento dos polvos – como a brincadeira – nos ajuda a entender melhor como funciona a inteligência nos animais. Mesmo sendo invertebrados, eles mostram sinais de curiosidade, criatividade e aprendizado, e isso amplia nossa visão sobre o que é consciência e cognição no mundo animal. No caso do Octopus vulgaris, a espécie mostrada no documentário, vemos comportamentos como a cena do cardume de peixe, na qual o polvo não parece estar predando os peixes, mas somente interagindo com eles, o que poderia caracterizar uma brincadeira. Além disso, outras cenas demonstram a complexidade de comportamentos do animal, como se camuflar imitando texturas e cores e estratégias para enganar predadores (como se fingir de alga ou usar conchas para se esconder). Essas ações mostram que os polvos têm uma mente ativa, que aprende com o ambiente e que pode até se divertir. E se brincar é sinal de bem-estar e inteligência, então talvez esses animais tenham muito mais a nos ensinar do que imaginamos. O polvo envolve-se em conchas para se proteger e despistar predadores (Foto de divulgação Netflix). A observação dos polvos brincando nos leva a uma pergunta importante: será que só os humanos têm criatividade e curiosidade? A resposta é: não. Os polvos mostram que para eles a brincadeira também pode ser uma forma de aprender, explorar e sobreviver. E isso nos ajuda a entender que, mesmo entre os animais mais diferentes de nós, existem formas riquíssimas de inteligência e que eles têm muito a nos ensinar, como bons professores. Referências: HOCHNER, Binyamin; Strutt, David. Octopuses. Current Biology Vol 18 No 19, 2008. HUGHES, M.. Sequential Analysis of Exploration and Play. International Journal of Behavioral Development, 1(1), 83-97, 1978. KUBA, Michael. et al. Looking at play in Octopus vulgaris. Berliner Paläontologische Abhandlungen. 3. 163-169. 2003 KUBA, Michael. et al. When do octopuses play? Effects of repeated testing, object type, age, and food deprivation on object play in Octopus vulgaris. Journal of Comparative Psychology, 2006. KUBA, Michael J.; GUTNICK, Tamar; BURGHARDT, Gordon M. Learning from play in octopus. Cephalopod Cognition. Cambridge: Cambridge University Press, 2013. p. 145–157. O’BRIEN, C. E., et al. Octopus. Reference Module in Life Sciences, 1–7, 2018. ZYLINSK, Sarah. 2015. Fun and play in invertebrates. Current Biology, 25(1): R10-2. 2015. Sobre a autora: Sou uma estudante de Biologia apaixonada pelo mar e pela educação em todas as suas formas. Faço bacharelado e licenciatura em Biologia na Universidade de São Paulo, e já trabalhei com identificação taxonômica de larvas de peixes. Atualmente faço estágio em um colégio com o ensino médio e sou bolsista do Programa Unificado de Bolsas da USP, no Projeto do Bate-papo com Netuno. A ideia desse texto surgiu como resultado de uma pesquisa na São Paulo Ocean Week em 2024, a partir da curiosidade de estudantes que se interessam pelo oceano e buscam mais informações sobre temas como esse! #CuriosidadesOceânicas #Convidados #ProfessorPolvo #Cefalópodes #Inteligência #Brincadeira #CiênciasDoMar #Zoologia #Polvos #Moluscos

  • Sobre peixes alienígenas, videogames e tubarões amigos

    Por Flávia Ribeiro Santos Ou como jogos de videogame fizeram eu me apaixonar pelo oceano e querer estudar sobre ele. Montagem: Natasha Hoff. O ambiente marinho sempre instigou a imaginação humana, dando origem a várias lendas e às suas representações na literatura e, posteriormente, no cinema. Sentimentos de medo, fascinação e aventura foram extensamente retratados ao longo da história. Apesar disso, a experiência sempre foi passiva e, sendo assim, possui suas limitações. Até que chegamos à criação dos videogames e sua interatividade revolucionária. Aqui, a liberdade de criação atinge seu máximo potencial, e encontramos tanto jogos com representações e mecânicas realistas quanto completas saladas de ideias malucas. Mas algo em comum que todos esses jogos possuem é o sentimento de estar (literalmente) mergulhando no desconhecido. “Como estaria o oceano num futuro longínquo onde a humanidade já foi extinta?” é basicamente a premissa do jogo “The Aquatic Adventure of the Last Human”, lançado em 2016. Como o título indica, você é o último ser humano vivo num futuro distópico onde as mudanças climáticas obrigaram a humanidade a viver em cidades submersas e foi enviado ao espaço em busca de planetas habitáveis. Quando retorna, centenas de anos depois (como isso foi possível, fica a cargo da imaginação do jogador), encontra apenas as ruínas do que antes foi uma civilização, e tudo está tomado por organismos marinhos, e alguns deles bem hostis. Um dos vários ambientes pelos quais você pode navegar pelo jogo. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. O jogo retrata diversos biomas marinhos, alguns mais fiéis e outros mais hipotéticos de um futuro distante, mas o que chama a atenção é que todos os organismos são extremamente grandes. De peixes nadando pelo cenário até um polvo gigante, tudo tem proporções exageradas. Considero liberdade poética dos criadores para aumentar o sentimento de pequenez diante da natureza (e para criar chefes de área assustadores). Se a vida marinha em “The Aquatic Adventure of the Last Human” já parece bizarra, imagine retratar não o oceano que conhecemos aqui da Terra, mas o de um outro planeta, em outro sistema, com criaturas completamente diferentes. Estou falando de “Subnautica”, jogo do estilo sobrevivência lançado em 2018, e o principal motivo de eu estar cursando Oceanografia. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. A história começa de forma simples: você é um humano que estava viajando em um ônibus espacial, e ele cai num planeta distante que é quase todo tomado por água. Por ser um jogo de sobrevivência, o jogador precisa construir objetos e coletar recursos para ajudar na progressão e ficar atento ao nível de fome, hidratação e oxigênio. Mas o jogo brilha mesmo é na imersão. Sabe quando você está embaixo d'água e todos os sons parecem abafados e distantes? Ele reproduz isso com perfeição. Componentes reais como pressão e nível de penetração da luz solar também estão presentes e impactam diretamente os organismos e a progressão do jogador, e, em grandes profundidades, você encontra bioluminescência. Também existem biomas inspirados no oceano da Terra, desde florestas de kelps até fontes hidrotermais, passando por recifes de coral e sistemas de cavernas gigantescos, cada um com sua fauna característica. Conforme o jogador atinge profundidades cada vez maiores, fragmentos da história vão sendo revelados, tornando o principal desafio alcançar o ponto mais profundo do planeta. Tarefa nada fácil já que, além do próprio gradiente de pressão, existem muitas criaturas agressivas doidas prontas para se alimentar de você. Um dos vários “leviathans”, criaturas enormes que você pode encontrar em "Subnautica”. Fonte: página do jogo na plataforma de vendas “Steam”. Se você for corajosa/o o suficiente para seguir explorando cada vez mais profundamente, alcançará a conclusão da narrativa que é, para mim, uma das maneiras mais lúdicas já feitas de se ensinar sobre equilíbrio de ecossistemas e como nossas ações impactam o meio ambiente. Sem spoilers para não estragar a surpresa. Já que falamos sobre equilíbrio de ecossistemas, não posso deixar de mencionar “Abzu”, outro jogo de 2016 onde você controla um robô mergulhador que explora diversos ambientes marinhos da Terra com gráficos estilizados. Abrir esse jogo é quase uma meditação, pois aqui o que importa não é sobreviver: não existem riscos que ameacem o personagem, o importante é a experiência emotiva e de contemplação que faz com que o jogador fique fascinado com toda a vida marinha existente. E por falar em meditação, você realmente pode fazer isso em pontos específicos, e o mais incrível: assumir o controle dos diversos animais presentes no ambiente e sair nadando por aí. Mas como nem tudo são flores, existe um momento de clímax conforme o jogador progride, em que, tragicamente, toda a vida presente começa a desaparecer deixando apenas o vazio, e cabe a nós descobrir como restaurar a fauna e o equilíbrio do oceano em um desfecho emocionante. E também não posso deixar de mencionar que temos uma representação positiva de um tubarão-branco na história, que de início parece ameaçador, mas se revela uma espécie de guia para o protagonista, e inclusive será peça central tanto do clímax quanto da conclusão da narrativa. Apesar de serem três jogos bem diferentes, todos me fizeram eu me sentir parte integrante do oceano, sensação que só a experiência interativa pode proporcionar. Seja num submarino ou nadando nas costas de um tubarão, a conexão torna-se muito mais profunda do que em outras mídias, tornando os videogames uma ferramenta poderosa para educação ambiental e desenvolvimento da sensibilidade. Foram apenas três exemplos que estão entre meus favoritos, mas existem muitos outros jogos sobre o mar por aí, e um deles com toda a certeza vai fazer você também se encantar com esse ambiente tão místico e misterioso. Obs.: Este texto foi elaborado no contexto de duas disciplinas do curso de Bacharelado em Oceanografia do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo: IOB0179 - Divulgação Científica e Cultura Oceânica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Claudia Akemi Pereira Namiki; e IOF0294 - Oceanografia: da metodologia à Divulgação Científica, sob responsabilidade da Profa. Dra. Tailisi Hoppe Trevizani. Sobre a autora: Flávia é estudante do sexto semestre em Oceanografia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Ictióloga que adora fotografar insetos, mãe de gato e cinéfila, faz parte do Laboratório de Diversidade, Evolução e Ecologia de Peixes de Mar Profundo (DEEP Lab) onde faz iniciação científica tirando foto de otólito de peixe. #VidaDeCientista #Convidados #Videogame #Lúdico #Aventura

  • Se sentindo feita de trouxa

    Por Anônima Esse texto é meu, mas também é seu quando: Você cumpre todos os prazos e regulamentos, mas na hora de pedir algo que você precisa, a instituição ignora seus e-mails, passa a responsabilidade para o fulano, para o ciclano, de volta para o fulano..., te responde que “demora bastante”, sem especificar nenhuma previsão de data. Você topa começar a trabalhar em um projeto imediatamente, sem assinar contrato nenhum, porque entende que alguns assuntos são sensíveis ao tempo, mas na hora de ser remunerada percebe que toda aquela “sensibilidade ao tempo” não se aplica a você. Você se dedica a fazer o melhor trabalho possível, mesmo em situações de poucos recursos e/ou com estrutura que dá pouco suporte, mas na hora de colher os louros seu nome não é destacado porque você ainda não é sênior o suficiente ou simplesmente “esquecem” de creditar sua autoria. Você veste a camisa, vai além das suas obrigações para fortalecer o grupo, mas quando chega uma oportunidade de avançar na sua carreira, ela é oferecida para outra pessoa que chegou ontem. Quem mais aí gritou “bingo!”? Tá todo mundo cansado, afobado, sobrecarregado? Sim. Isso significa que pode desrespeitar e abusar da boa vontade do próximo? De forma alguma. A minha paciência, minha tolerância, minha compreensão com os problemas, as dificuldades e as limitações do mundo inteiro, precisam ser absolutamente esgotadas toda vez? Preciso esperar me sentir feita de trouxa nesse nível para me posicionar? Boa vontade não pode ser confundida com disponibilidade infinita. Aprender a garantir o seu demanda um exercício de criar e manter limites, identificar seus valores e prioridades, dizer “não” e fazer sua voz ser ouvida. Você não está necessariamente sozinha nessa batalha, mas ninguém vai correr atrás disso por você. Hora de virar esse jogo. #VidaDeCientista #Trabalho #Abuso #Desrespeito #Anônimo

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